O CRÂNIO DE CRISTAL    Escritor Valente                       1
DEDICATÓRIA         “Dedico este livro aos meus pais,              irmãos, esposa, filhos, amigos e em              partic...
1                                           A Musa       Após o término de um dia estafante de trabalho no escritório, res...
Totalmente alheia ao mundo exterior, a jovem vizinha involuntariamente cooperavacomigo, à medida que sempre deixava escanc...
2                                         O encontro      Que época danada aquela! As coisas não corriam bem para nosso pa...
Mais que depressa, igual a um gavião que mergulha das alturas sobre sua presa,aproximei-me da moça e sem inibições puxei c...
3                                         Sexta-feira       A semana seguinte fora agitada, mas o país não caíra em nenhum...
4                              Um bar da Henrique Shaumann       O enorme relógio digital fixado em cima de um prédio na P...
Naquele ambiente esfumaçado e ruidoso, de trago em trago, a nossa conversa fútilprosseguia animadamente. Ao redor, os outr...
− Pois é - continuou ela - de forma que não tive muita sorte com os homens.Conheci um monte deles, todos mal intencionados...
O bate papo atravessou a noite e nem percebemos o tempo passar. O bar, que aprincípio estava cheio e enfumaçado, agora enc...
5                              O nefasto presidente do Brasil      A noite estava muito fria e um vento insistente varria ...
A cada minuto meu pavor aumentava mais, fazendo meu corpo suar bastante; eacabou encharcando minhas vestes, apesar do frio...
6                                           Ilhabela      Aquele dia tão esperado chegara. Com a bagagem em cima da moto, ...
- Naquela época - prossegui - existiam na ilha inúmeras fazendas de cana-de-açúcar onde eram fabricadas saborosas cachaças...
Hospedados no gracioso Hotel Petit Village, onde se avista o verde-mar apinhadode barcos e as montanhas azuladas do contin...
− Aquele crânio humano traz um clima tétrico ao ambiente do seu apartamento.Ele contrasta com tudo que por lá se vê. Acaso...
Bárbara continuou o relato, entusiasmada.       − A aura do crânio causava certo êxtase hipnótico. Creio que ele possuía u...
7                                     O Crânio de Cristal       Durante certo tempo, pensei no relato que Bárbara fizera s...
Comentei o assunto com Bárbara e ela animou-se ao saber que existepossibilidade de encontrar um Crânio de Cristal no nosso...
8                                       Viagem Astral       Certa noite no meu quarto, concentrei toda minha força mental ...
Dei umas voltas em torno de Júpiter e observei curioso, as imensas manchasarredondadas de sua superfície. O planeta é todo...
Voando no astral, do Nepal para a Índia, sobrevoei as altas montanhas deDaransala. Naquela cidade localizei a residência d...
Quando o pânico já se apoderava de mim tocou o telefone. Apesar de ter algodãonos ouvidos, o barulho foi suficiente para m...
9                                    São Tomé das Letras       O motorista do táxi, baixinho, barrigudo, cujo vasto bigode...
Ela possui uma vasta e invejável cultura esotérica. Curiosamente ela nunca separa-sede seu diário, onde anota todos os aco...
10                                        Véu de Noiva      No seguinte tomamos rapidamente o café da manhã e fomos passea...
No dia seguinte visitamos a região de ônibus e nada escapava de nossacuriosidade. Conhecemos matas naturais, grutas e cach...
Este relato era a pista importante que eu tanto procurava. Concluí, ainda confuso,que as moças pertenciam realmente a uma ...
11                                     Viajante do futuro      Meu quarto estava totalmente escuro, não dava para enxergar...
Naquele local inóspito não havia ninguém, apenas um vento forte lambiafuriosamente a porta de pedra, provocando um ruído s...
12                                 1994 – um ano marcante       Quase ao final do expediente, trancado no toalete do prédi...
13                                         El Kalibi       Naquela noite, a Casa de Chá El Kalibi, situada no bairro do Pa...
Luíza vestia-se da mesma forma, porém seu traje era branco, permitindo quesobressaísse sua cor tentadora. A mulata era um ...
14                                       Aqui e agora      O relacionamento que mantive com as amigas de Bárbara influenci...
A cerimônia ritual realizava-se uma vez por ano, na primeira lua cheia de uma"sexta-feira treze". Neste ano ocorreria no p...
O local das chamas é precisamente o aterro sanitário na Vila Albertina. Umenorme campo gramado, que possui toneladas de li...
15                                   Em busca da sabedoria       A sabedoria é semelhante à água pura de uma fonte natural...
Entre 18 e 29 de julho daquele ano de 1994, o cometa Shoemaker-Levy colidiucom o planeta Júpiter. Foi a primeira vez que o...
O Crânio de Cristal
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O Crânio de Cristal

  1. 1. O CRÂNIO DE CRISTAL Escritor Valente 1
  2. 2. DEDICATÓRIA “Dedico este livro aos meus pais, irmãos, esposa, filhos, amigos e em particular aos leitores, razão principal desta obra.” Paulo Valente valente@estadao.com.br Ago/1996 2
  3. 3. 1 A Musa Após o término de um dia estafante de trabalho no escritório, resolvi ir para casa.Larguei o que estava fazendo pela metade, afrouxei a gravata e fui embora pilotandoatentamente minha motocicleta no meio do trânsito maluco. Graças a Deus conseguichegar inteiro ao agradável e doce lar. Então, agradeci por mais este dia, por terresistido a mais uma batalha em meio a milhares de motoristas neuróticos que estãosoltos na cidade de São Paulo, incluída entre as mais violentas do mundo. Imensa e agitada, São Paulo revelava no trânsito conturbado as repressões eaflições que nós, seus habitantes, somos submetidos. Contudo a cidade apresentavauma face benevolente, oferecendo inúmeras oportunidades a seus moradores, e foijustamente por isso que mudei do interior para cá. Quando cheguei aqui pela primeira vez, acostumado com a vidinha pacatainteriorana, fui surpreendido pelo ritmo intenso desta terra de mil contrastes. Onde pode-se ouvir o barulho do trânsito rugindo noite adentro feito uma fera acuada. Ao chegar ao meu apartamento, mal abri a porta, fui logo tirando os sapatos e asroupas. Totalmente nu, debrucei-me à janela para contemplar aquela cidade que nãodorme nunca. Do alto de um esguio edifício branco de quinze andares, que parecia uma torreespetando o céu, vislumbrei a imensidão de São Paulo no exato momento em que o solsumia no horizonte e a escuridão envolvia assustadoramente as ruas dos bairrosdistantes, apesar das milhões de lâmpadas acesas espalhadas no vasto manto negro. Era surpreendentemente fantástica a vista panorâmica que descortinava-se àminha frente, na qual o moderno contrastava com os pobres barracos da favela, nãodistante daqui. Daquele ponto de observação privilegiado avistei outras "torres" brilhantesplantadas no horizonte, propiciando efeitos futuristas. Lá embaixo, nas ruas, os carrostrafegavam morosamente, indiferentes à poluição que causavam. Contemplando calmamente a paisagem, relaxei os músculos e, sobretudo, amente. Em minutos revigorei as energias supostamente perdidas. Seguramente, naquele horário, a maior parte das pessoas já encontrava-se nasegurança de seus lares. As noites, são sempre perigosas e traiçoeiras, verdadeirascúmplices das violências extremadas, dos desastres e dos assaltantes. Por isso, apopulação acabou vivendo "enjaulada" em quatro paredes, para grande felicidade daindústria da segurança, que se desenvolveu a plena carga: armas pessoais, sistemas desegurança, guarda-costas e seguros de todos os tipos. "Todo cuidado é pouco", proclamam as propagandas desta "indústria" rentável.Lamentavelmente, os fatos que ocorrem diariamente não desmentem a afirmação. Eumesmo, temendo a violência desenfreada dos marginais, cogitei comprar uma arma defogo e andar com ela; mas acabei concluindo que não seria uma boa solução. Sendoassim, praticamente indefeso neste mundo cão, só me restava a fé na proteção divina. Tempos atrás, numa destas contemplações, descobri que na "torre" vizinhamorava uma encantadora jovem de cabelos negros compridos e brilhantes. A primeiravez que a vi, ela também contemplava a cidade da janela de seu apartamento. Suapresença marcante logo me encantou e para poder observa-la, comprei um potentebinóculo. Foi desta maneira que me transformei num "espião" assíduo e perseverante. 3
  4. 4. Totalmente alheia ao mundo exterior, a jovem vizinha involuntariamente cooperavacomigo, à medida que sempre deixava escancaradas as janelas do apartamento. De talforma que em pouco tempo acabei por descobrir alguns de seus hábitos domésticos, e aintimidade de sua residência. E, logo descobri que tínhamos algo em comum: a nudezdoméstica. Entrando porta adentro, a moça libertava seus empinados seios daescravidão do sutiã e Invariavelmente ficava apenas de calcinha sensual preta, quecombinava com sua pele bronzeada pelo sol da praia. Era uma mulher alta e bonita, de boca pequena e nariz apontando para o céu.Além disso, possuía um corpo invejável. Bumbum arrebitado, cintura fina e pernasenvolventes. Uma verdadeira obra-prima da natureza; esculpida por artistas de primeiragrandeza. Ela morava sozinha, entretanto, nunca cheguei a vê-la nos braços de um homem;embora recebesse freqüentemente a visita de muitas pessoas, sendo a maior partedelas constituída por mulheres. Muitas vezes a vi dançar sozinha a beira da janela. Dançava suavemente exibindoseu corpo de uma maneira estranha, que lembrava os movimentos do tai-chi-chuan e dobalé russo. Pena que eu não conseguia ver tudo lá dentro. Observando-a dançarindagava a mim mesmo qual seria seu nome, sua profissão e outros tantos detalhes desua vida particular. E a cada dia minha curiosidade aumentava mais. Eu lembrava osastrônomos antigos que olhavam as estrelas do firmamento e formulavam questões... Como o hábito faz o monge, espiar minha anônima musa acabou transformando-se em vício. Por causa dele, abandonei temporariamente os livros e a televisão. Nocanto da sala formou uma pilha de jornais e revista que nunca li, constituindo provaevidente da minha alienação. O vício dominara-me de tal forma que ficava irritado quando não conseguia vê-lanaqueles horários determinados. Desta maneira inusitada tornei-me prisioneirotemporário de uma mulher que sequer conhecia. Um espião obcecado, cujo prazermisturava-se em igual dose com o incômodo e a frustração. 4
  5. 5. 2 O encontro Que época danada aquela! As coisas não corriam bem para nosso país. Nas ruas,as pessoas não falavam noutra coisa, senão da crise. Uma hidra de inúmerostentáculos: crise moral, crise política, crise econômica e por aí vai... Diziam que o paísestava prestes a cair no abismo. Na Bolsa de Valores pairava um clima de ansiedade e expectativa. Corria boatoque o governo lançaria outro plano econômico para tentar debelar a inflação. O rumorfez despencar o índice geral das ações da Bolsa. Era indício que o capital, temeroso,refugiava-se no dólar; para a grande alegria de "doleiros" poderosos, que assimengordavam ainda mais seus patrimônios milionários. Como sempre, os mais ricos continuavam ganhando muito e os mais pobreslevando na cabeça. Entretanto, com a crise financeira, não era só o povo que levava apior. Do outro lado do jogo, alguns investidores menos avisados amargavam prejuízosconsideráveis. Os relatórios numéricos sobre a minha mesa indicavam o quanto aeconomia do Brasil ia mal. Para aumentar as incertezas, eles não mencionavamnenhuma perspectiva de que a situação fosse revertida a curto prazo. O tremor na Bolsa, naquele dia, provocou uma avalanche de serviços extras paramim, justamente quando uma forte indisposição estomacal roubara meu ânimo para otrabalho. Ainda ao final da tarde, eu arrotava o alimento do almoço mal digerido. Quemcome fora de casa, nos restaurantes da vida, está sujeito a estes transtornos. Resolvi sair mais cedo do trabalho e ir para casa. Deixei o escritório e fui emboravoando baixo com a minha moto. Assim que cheguei ao apartamento, tomei um analgésico e deitei no sofá da salapara descansar. Nem ao menos espiei pela janela para tentar ver minha adorável musa. Logo um sono avassalador transportou-me, sem escalas, para o mundo dossonhos. Acordei horas depois, mais disposto, quando lembrei que no dia seguintehaveria faxina no apartamento e precisaria comprar alguns produtos de limpeza quehaviam acabado. Tremendamente irritado, vesti um conjunto de moletom e fui até osupermercado situado no quarteirão ao lado, na movimentada Rua Teodoro Sampaio,no bairro de Pinheiros. Percorrendo os corredores das prateleiras abarrotadas de mercadorias constateique os preços haviam disparados. A remarcação evidente sinalizava que metiam a mãono nosso bolso descaradamente. E eu, que já não estava bem, fiquei mais azedo ainda.Porém, a vida que é feita de altos e baixos, havia reservado uma agradável surpresapara mim. Como em conto de fadas, apareceu na minha frente a musa dos meussonhos. Diante daquela visão inesperada o meu coração acelerou imediatamente,aflorando minhas emoções contidas. A proximidade da moça fez meu corpo vibrar por inteiro, abrindo e ativando todosos seus canais de percepção. Então, não foi difícil para meu olfato descobrir a presençadaquela mulher no ar. Estimulado pelo aromado do perfume dela, notei minhas orelhasarderem em brasa. Jamais havia me sentido assim antes. 5
  6. 6. Mais que depressa, igual a um gavião que mergulha das alturas sobre sua presa,aproximei-me da moça e sem inibições puxei conversa: − Eu conheço você! - exclamei convicto, fitando seus olhos de mel. − É mesmo... de onde? - indagou-me sorrindo, não disfarçando surpresa. − Você mora em um prédio ao lado do meu. Sempre a vejo na janela. É muitobonita e eu não a esqueceria nunca. Mesmo que se passem cem anos... − Obrigada - sorriu novamente, mostrando seus dentes perfeitos e as covinhassensuais da face. Percebi prontamente nos olhos da moça que ela gostara de mim. Um tipoincomum de brasileiro: alto, magro, rosto comprido e traços de judeu. Pensandobem, não sou feio, devo estar na "média". Lembrei-me instantaneamente do que escrevera para o jornal, o ex-secretárioamericano Henry Kissinger. Segundo ele, não se deve desperdiçar uma oportunidade,pois é incerto se ela vai se repetir novamente. Sem perder tempo, parti para o tudo ounada. A minha oportunidade estava ali. − Meu nome é Daniel e o seu? − Bárbara - respondeu um tanto tímida. Ela era mais simpática do que eu imaginara, sempre com um sorriso prontonos lábios e muito brilho nos olhos; sinal de quem está de bem com a vida. Como Bárbara adorava conversar acabamos fazendo as compras juntos. Conversamos à vontade e rimos muito. Apenas assuntos amenos e engraçados,do tipo que as pessoas conversam quando se conhecem. Apesar dos assuntos frívolos, intuí o quanto ela era uma pessoa culta e deraciocínio rápido. Além da solidão e da "nudez doméstica" descobri que tínhamos outras coisas emcomum: O prazer de conversar, a boa leitura, a música e a dança. Se antes já admirava Bárbara secretamente, imagine após conhecer aqueladoçura em forma de pessoa, sempre transbordando simpatia. Amavelmente levei seus pacotes até a entrada do edifício onde ela morava. Láconversamos mais um pouquinho e aproveitamos para o tradicional intercâmbio denúmeros de telefones. Ao despedir-me de Bárbara dei-lhe um abusado e afetuoso beijo no cantinho deseus lábios sensuais. Assim, involuntariamente, roubei um pouquinho do seu batomvermelho. Pela intensidade do brilho de seus olhos, naquele instante intuí o quanto elagostara da ousadia... Fui embora feliz, envolto no agradável aroma do seu perfume. 6
  7. 7. 3 Sexta-feira A semana seguinte fora agitada, mas o país não caíra em nenhum abismo,apesar dos boatos plantados por fabricantes de crises. Por conseguinte, o negócio erarelaxar para recuperar o fôlego. Afrouxei a gravata, estiquei os pés adormecidos eapoiei-os em cima da lixeira por uns instantes. Olhando através da janela do escritório, notei que o sol acabara de abandonar ohorizonte, deixando no céu um rastro avermelhado na direção do poente. A cidade jáacendera suas luzes e os milhares de veículos abandonavam o centro em direção aosbairros silenciosos. Na grande e complicada fuga para casa havia excesso de veículos nas ruas e issocausava os intermináveis transtornos de sempre: barulho, engarrafamentos, cansaço,discussões e brigas. Minha cabeça encontrava-se atordoada devido às más notícias econômicas, queresolvi ir embora. Afinal, ninguém é de ferro. Ainda mais que era sexta-feira, diaconsagrado para beber cerveja nos bares com os amigos. Sem vacilar, deixei para terminar na segunda-feira aquele relatório maçante sobrea movimentação de capitais estrangeiros na Bolsa de Valores de São Paulo. Despedi-me do pessoal, pequei a moto no estacionamento e sai dali o mais rápidopossível. Quando percebi já estava na Avenida Consolação. Rumava rápido e feliz da vida,sentindo um vento frio no rosto, que secava meus lábios. Durante a semana eu havia conversado por telefone com Bárbara e havíamoscombinado de sairmos juntos naquela noite. Seria nosso primeiro encontro e issocausava em mim uma brutal ansiedade. Para amenizá-la eu acelerava fundo a moto,que em resposta rugia como uma leoa ferida. Rumei velozmente para o bairro de Pinheiros em meio a um mar de veículos.Dirigia apressadamente naquele trânsito caótico, com atenção redobrada, para evitarqualquer acidente. Um simples deslize poderia ser fatal para mim. Pretendia chegar logo, tomar um banho quente, me arrumar; passar o melhorperfume e ir ao encontro marcado com minha amada Bárbara. 7
  8. 8. 4 Um bar da Henrique Shaumann O enorme relógio digital fixado em cima de um prédio na Praça Ramos indicavameia-noite em São Paulo. Apesar do frio, os bares e boates estavam apinhados degente de diversas "tribos" da moda: dark, punk, yuppies e os terríveis carecas dosubúrbio. Estes "índios urbanos" de roupas estranhas e penteados malucos, haviamtransformado os locais mais badalados dos bairros de Moema, Jardins e Pinheiros emseus territórios de caça. Nas ruas imundas dos bairros da periferia perambulavam gangues deadolescentes à procura de diversão barata ou mesmo de confusão. Já nas esquinasescuras da Avenida República do Líbano, travestis formosos e quase nus disputavamfregueses anônimos, ocultos pelas sombras da noite. No outro lado da cidade, na famosa rua Augusta, o trânsito continuavacongestionado por carros e motos lotados de pessoas ávidas por aventuras semcompromissos. Longe dali, o centro da cidade encontrava-se repleto de prostitutas finas ourampeiras, de mendigos, de vagabundos e de marginais de todos os tipos. É um riscoenorme passar por lá naquele horário. Em contrapartida, nos bairros mais afastados, asruas estavam completamente desertas. Nenhuma viva alma, nem mesmo os cachorrosde rua são encontrados. Apenas enormes ratazanas furtivas atreviam-se a sair dosesgotos imundos para revirarem os lixos em busca de alimentos. Observei tudo atentamente através da viseira do capacete. Estava muito frio e elehavia gelado minha face. Agarrada em mim, na parte de trás do banco da moto, Bárbaratambém olhava curiosa aqueles locais da cidade que desconhecia. Depois deste longo passeio "turístico", resolvemos tomar uns tragos em um barqualquer da Avenida Henrique Schaumann. Escolhemos um bastante acolhedor,freqüentado por intelectuais da Universidade de São Paulo. Pelo que se notava nasfaces e nas vestimentas sóbrias das pessoas que o freqüentavam, a média de idade dopessoal gira girava em torno dos trinta anos. Contrariando o ambiente, entramos no bar trajando calças jeans e jaquetas decouro preto. Ignorando os olhares curiosos, sentamos em uma mesa localizada nocentro do salão e solicitamos ao garçom que nos trouxesse vinho quente e queijo. Umadeliciosa combinação que degustamos vagarosamente entre uma conversa e outra. Sentado frente à Bárbara eu olhava fixamente seus olhos meigos, admirando suasimpatia contagiante. Na qual sempre ria das coisas, pondo à amostra seus dentes corde marfim perfeitos. 8
  9. 9. Naquele ambiente esfumaçado e ruidoso, de trago em trago, a nossa conversa fútilprosseguia animadamente. Ao redor, os outros provavelmente faziam o mesmo. A certa altura, saboreando com o olhar aquele doce em forma de pessoa, falei: − Bárbara, conversamos muito das coisas da vida, mas não de nós mesmos.Que tal falarmos um pouquinho da gente? − Bem, o que quer saber? - indagou. − Quero saber algo mais sobre esta linda moça a minha frente, da qual nãoconsigo desviar meus olhos. − Compreendo, tentarei fazer um resumo da minha vida; embora seja difícil falarda gente mesmo, não é? Fiz um sinal afirmativo com a cabeça e ela continuou. − Na realidade, não sei quem sou. Mesmo fazendo meditação ainda nãoconsegui me descobrir por inteira. − Ah, então temos isso em comum pois também medito – falei sorrindo. − Bem... sou filha de pai árabe e mãe portuguesa. Do lado de meu pai "herdei" ogosto pela música e de minha mãe o gosto da dança. E foi ela que me ensinou a difícildança do ventre. Minha mãe também influenciou-me no aprendizado de ocultismo; o quetornou-se fundamental para mim atualmente. O esoterismo é meu prazer e minhaprofissão.Sou jornalista e escrevo artigos ligados ao misticismo para revistas e jornais. Alémdisso, participo da elaboração de um programa de rádio que vai ao ar aos domingospela manhã. E mais, presto consultoria de grafologia e numerologia para algumasempresas. Também atendo clientes em minha residência. A maior parte é constituídapor mulheres; pois os homens em geral não se interessam por esses assuntos. Mas osclientes homens estão aparecendo. Acho que os tempos estão mudando. Sem interrompê-la eu prestava atenção em suas palavras, ao mesmo tempo queolhava para ela como quem olha para uma deusa viva. Bárbara era realmente linda esuas palavras meigas e doces poderiam derreter até os corações mais duros. Ela continuou falando. − Nenhuma mulher gosta de dizer a idade, mas não me importo e vou dizer aminha. Tenho vinte e nove anos bem vividos. Estou contente e em paz comigo mesma.Sempre encaro os fatos de maneira positiva, pois possuo muita fé em Deus. Sou do tipoque gosta de viver a vida, mas sem excessos. Não me considero perfeccionista, emboragoste das coisas corretas. Como todo ser humano tenho lá meus defeitos. − Por exemplo? - indaguei. − Quero um mundo mais justo, o que me parece impossível. Outro defeito éconfiar demais nas pessoas e elas normalmente estão interessadas um duas coisasapenas, satisfação sexual e dinheiro. Acontece que considero essas coisas causas dosgrandes males da humanidade. − Concordo em parte contigo - argumentei - acho que sexo e dinheiro causam omal se as pessoas permanecerem cegas para a realidade e o sentido da vida. 9
  10. 10. − Pois é - continuou ela - de forma que não tive muita sorte com os homens.Conheci um monte deles, todos mal intencionados. Queriam apenas usufruiregoísticamente de mim e depois exibir-me por aí como um troféu vivo. − Realmente faltou sorte - concordei. − Pois é, e se não bastasse, um dia me apaixonei intensamente por um homem,bem mais velho que eu. Chegamos a marcar nosso casamento. Nesta ocasião, eucursava a faculdade de Jornalismo. Certa vez saí mais cedo do trabalho e resolvi passarem seu escritório sem avisá-lo. Chegando lá, fui logo entrando, pois a porta estavaaberta. Qual não foi a minha surpresa, encontrei-o nu em companhia da minha melhoramiga, que eu mesma havia apresentado um dia a ele. − E o que você fez? − Nada! Virei as costas e fui embora sem dizer uma palavra. Foi horrível.Chegando a meu apartamento chorei muito. Depois dormi como uma pedra. No diaseguinte não queria mais pensar no assunto. Consegui esquecê-lo sem guardar raiva ouressentimento. Inconformado com o azar ele me procurou diversas vezes para sedesculpar, mas não dei ouvidos a ele. − Bem, já falei muito a meu respeito, e você? − Também não aprecio falar de mim. Talvez por falta de assunto... - comenteirindo e ela riu também, então continuei. − Acho que já lhe contei que trabalho na Bolsa de Valores como analistafinanceiro. Vivo sozinho aqui em São Paulo e meus pais moram no interior do Estado.Namorei bastante na vida, porém nenhum namoro deu certo pelo fato de gostar de sairsem ter hora para voltar. E minhas namoradas não entendiam isso. Queriam meaprisionavam a esquemas tirânicos de tempo e posse. Esses namoros contaminadospor ciúmes doentios causavam desentendimentos, o que desgastava osrelacionamentos.Acredito que uma pessoa não é propriedade da outra. Contudo, não sou libertino quantopossa parecer. Acho que a moral e o respeito são necessários à sociedade, mas semhipocrisias, claro.Considero-me realizado, tenho um bom emprego e uma boa saúde. Creio estar de"bem" com a vida. Foi o tempo de querer dar murros em ponta de faca... Mas houveuma época que fiquei numa pior. Foi quando perdi meu único irmão, vítima de umdesastre de automóvel. Desanimado da vida, quase larguei tudo. Precisei fazer análisepara me reencontrar. Graças a Deus consegui sair do buraco, depois de seis mesesdaquelas cansativas sessões de psicoterapia em grupo. − A morte repentina do seu irmão que foi tão horrível para você, deve ter sidopior para seus pais - comentou penalizada. − Foi mesmo, meu pai até hoje está traumatizado. A minha mãe que é maisespiritualizada superou o incidente. Não gosto de relembrar desse dia tão triste. Queroter apenas boas recordações do meu irmão. Ele era muito legal, de uma inteligênciainvejável e muito bondoso. Mas, ele já partiu desta vida. Provavelmente deve estarmelhor que nós, quem sabe? − É mesmo - confirmou Bárbara, servindo-se de mais um gole do delicioso vinho. 10
  11. 11. O bate papo atravessou a noite e nem percebemos o tempo passar. O bar, que aprincípio estava cheio e enfumaçado, agora encontrava-se vazio e melancólico. Da noiteagitada restava apenas a movimentação dos garçons que olhavam para a gente, de ummodo atravessado, torcendo para irmos embora. Depois deste encontro houveram outros. Muitas conversas e risadas, mas nadasério. Certa noite, quando namorávamos dentro do automóvel de Bárbara, segureicarinhosamente suas mãos. Ela tremeu inteira, da cabeça aos pés e seu coraçãocomeçou pulsar mais rápido. Meus toques carinhosos despertaram bruscamente oprazer de Bárbara, até então oculto em sua profunda e complexa alma feminina.Sem dizer nada fui beijando seu pescoço provocante e subi até encontrar sua bocasensual. Bárbara se entregou de corpo e alma aos beijos que inundavam-lhes as coxas.Se não fosse perigoso faríamos amor ali mesmo. Assim resolvemos ir a um motel naRodovia Raposo Tavares, a famosa rodovia do amor. Na segurança do Motel executamos toda sorte de "brincadeiras" eróticas. Aquelasque os amantes conhecem muito bem. Passamos uma noite inteira em gozo, deitando erolando numa imensa e confortável cama vermelha; de onde víamos nossos corposentrelaçados refletidos no teto espelhado. Após o êxtase, entramos em uma magnífica banheira de mármore branco quetransbordava água quente e espuma perfumada, e fizemos um merecido repouso. Como a nossa sede de sexo ainda não estava saciada, reiniciamos dentro dabanheira mesmo, o intricado jogo dos amantes. Ali também, entre abraços e beijos,tivemos os mais profundos prazeres. Tanto do corpo quanto da alma... 11
  12. 12. 5 O nefasto presidente do Brasil A noite estava muito fria e um vento insistente varria a cidade espantando asúltimas pessoas da rua. No céu, uma imensa lua cheia refletia sobre a cidade seumagnífico brilho prateado. Da janela do apartamento notei que muitas luzes dos edifícios próximos aindaestavam acessas. A cidade jamais dorme por inteira. Milhares de pessoas aindaencontravam-se acordadas naquele exato momento. Trabalhavam ou se divertiam emrecintos aconchegantes ou em locais sórdidos. Enquanto isso, eu refletia sobre a vida,aproveitando a insônia irritante que não me deixava dormir.Pensava no clima de insegurança que varria o país de norte a sul e que influenciavanegativamente o pregão da Bolsa de Valores. O povo aguardava ansiosamente acassação do mandato do presidente do Brasil, um tremendo vexame prestes a serregistrado na história do país. Simultaneamente, os políticos corruptos causavamgrandes rombos no orçamento Federal. Eles agiam como ratos esfomeados dentro deum armazém de queijos. As incertezas da política refletiam na bolsa de maneira negativa, provocandotensão e ansiedade nos investidores. Em resposta, os “barões do dinheiro “ transferiamsuas aplicações para outros setores que julgavam seguros na economia. Os maistemerosos, acreditando no agravamento da situação, remetiam rios de dinheiro para oexterior. O quadro negro do desemprego e da inflação aumentava vertiginosamente. Umperíodo recessivo que causava muitas desilusões ao já sofrido povo brasileiro. Talvezfossem esses os motivos centrais que perturbavam meu sono. Para passar o tempo resolvi dar umas voltas pela cidade. Saí só enfrentando oinverno rigoroso nas ruas. Para resistir ao frio me equipei todo; casaco de couro, calçagrossa, capacete, botas de cano alto e luvas. Convenientemente agasalhado, rodei nas ruas desertas da cidade por horas a fio.Pilotava prazerosamente a máquina sem destino algum em mente. Rodei tanto equando dei por mim descobri que estava perdido no distante bairro Jardim Japonês. A esta altura o marcador de combustível estava no vermelho. Precisava abastecerlogo. A qualquer momento faltaria combustível.Parar naquele bairro escuro e deserto seria uma loucura que me preocupava muito.Poderia ser assaltado por criminosos sem escrúpulos, capazes de praticarem maldadesabsurdas. Isso quando não matam friamente as vítimas só pelo prazer mórbido de vê-lasmorrendo em suas mãos. Desolado, não encontrava ninguém para perguntar onde ficava o posto degasolina mais próximo. E pensar que naquele momento poderia estar dormindo nasegurança do meu apartamento; caso não tivesse inventado aquele famigeradopasseio... 12
  13. 13. A cada minuto meu pavor aumentava mais, fazendo meu corpo suar bastante; eacabou encharcando minhas vestes, apesar do frio que fazia. Permaneci nesta agonia não sei por quanto tempo, até que o milagre o tãosonhado aconteceu. Avistei um imenso luminoso da Petrobrás. Aliviado, agradeci aDeus. Após abastecer motocicleta naquele posto, imediatamente reencontrei atranqüilidade de espírito. Como se houvesse caído uma ducha de água quente em cimade mim. Com o tanque abarrotado de gasolina, poderia rodar novamente centenas dequilômetros noite adentro. Entretanto, não tinha mais vontade de prosseguir a jornada.Tudo o que eu mais queria naquele instante era voltar rapidamente para a segurança daminha cama quente. Dirigindo velozmente pelas ruas desertas daquele bairro fantasma que tanto meassustava; logo deixei para trás o posto da Petrobrás. Naquele mesmo instante uma procissão de pensamentos vagabundossobressaltaram minha mente excitada. Pensei em Bárbara, que, naquele momentodormia profundamente e também na crise política. Depois refleti muito sobre mimmesmo.De todos os pensamentos itinerantes, o que mais me encabulou foi o assustador crâniohumano que enfeitava a sala de Bárbara. Seria ela uma bruxa? Há tempo que desejava fazer esta pergunta para ela, mas não tinha a ousadianecessária, muito embora nossa amizade possibilitasse tal indagação. Temia que apergunta pudesse magoá-la e creditava que não deveria bisbilhotar sua vida; nem violarsua privacidade. Exceto, é claro, através do binóculo espião. A "voltinha" pela cidade causou-me um peso tremendo no corpo, que terminoutodo dolorido. Os braços, as pernas e as costas doíam bastante. Além da agonia docorpo, surgiu também um sono perturbador. Então passei a sonhar com a minha camaquente... Quando cheguei na segurança do lar, mesmo cansado pelos percalços passados,dormi feliz e realizado. Antes porém, me ocorreu a idéia de convidar Bárbara para umfuturo passeio na Ilha de São Sebastião. Um verdadeiro paraíso natural, situado noLitoral Norte do Estado de São Paulo. Trata-se de uma ilha que possui matas intocadase praias maravilhosas que servem de refúgio para os amantes da natureza. SãoSebastião é ideal para retiro espiritual, sobretudo no inverno, quando não é invadida porhordas de turistas inconvenientes. 13
  14. 14. 6 Ilhabela Aquele dia tão esperado chegara. Com a bagagem em cima da moto, partimosfelizes em direção a um paraíso natural – a Ilha de São Sebastião. Trafegando na magnífica estrada Rio-Santos, em velocidade moderada paraapreciar a paisagem, decidimos que nosso primeiro destino fosse a antiga cidade deSão Sebastião. Fundada na época do descobrimento do Brasil, esta cidade preservaseu patrimônio histórico através da conservação dos casarões coloniais, das ruasestreitas de pedra e dos enormes canhões de ferro apontados para o mar. Lembrandouma era que não voltará mais.Andando pelas ruas de São Sebastião tem-se a impressão de que os escravos negros,os portugueses e os marinheiros de épocas passadas andavam aflitos entre nós; porcausa dos navios corsários que assediavam o porto. Horas mais tarde, ainda na estrada, nossas costas doíam muito e o barulhoconstante do motor do "trator" causava irritação insuportável. Resolvemos parar numrestaurante em frente ao mar, para o merecido repouso. Bárbara estava entusiasmada pelas paisagens que vislumbrara pelo caminho. − Puxa... que lugar lindo, - comentou. − É verdade. Mas a ilha é ainda muito mais. Um verdadeiro santuário natural,você verá - afirmei. - É o lugar ideal para energizar o espírito. As vibrações da ilha sãoaltamente positivas. Não vejo a hora de chegarmos lá. Entre um gole e outro de cerveja eu fitava o rostinho encantador de Bárbara;admirando seus cabelos lisos e brilhantes que esvoaçavam ao vento. Seu olhar meigo e carregado de ternura refletia sua própria alma, tal qual a águalímpida de uma fonte reflete a luz da lua. A voz calma e pausada da Bárbara acariciava meus ouvidos naqueleinstante feliz. - Dan, falta muito para chegarmos? − Não! Talvez uma hora - respondi. - Também quero chegar logo. Você sabe oquanto sou fascinado pela ilha, não? Barbará acenou afirmativamente com a cabeça e eu continuei. − Tanto é, que li muito a respeito dela e dos seus mistérios. − Então diga-me algo? − No tempo do Império a ilha foi refúgio de piratas. Eles se escondiam do outrolado das montanhas. Em uma baía que fica de frente para o mar aberto, onde estásituada a Praia dos Castelhanos. Praia em que deságua um rio cristalino queantigamente abastecia de água potável as caravelas dos piratas e dos traficantes deescravos. E, quando a Inglaterra proibiu o tráfico de escravos para o Brasil; oscontrabandistas desembarcavam ali, às escondidas, os negros contrabandeados daÁfrica. 14
  15. 15. - Naquela época - prossegui - existiam na ilha inúmeras fazendas de cana-de-açúcar onde eram fabricadas saborosas cachaças. Muitos índios habitavam o lugar esegundo uma lenda antiga; relatada em um livro que li na biblioteca de São Sebastião,um deles apaixonou-se pela filha de um ilustre fazendeiro do continente. Todos os dias ojovem índio atravessava o canal para encontrar sua amada. Até que um dia o pai damoça descobriu o namoro. Descontente com o fato, o fazendeiro proibiu os dois de seencontrarem. Mas os amantes continuaram se encontrando, às escondidas. Então osevero fazendeiro tomado pela fúria espancou a filha e enviou-a em exílio na capitalpaulista. Quando o jovem índio soube do fato, abateu-se em profunda desolação.Desiludido e sem esperança de ver novamente sua amada, procurou retornar à ilha.Abatido que estava pela dor da paixão o índio remava sem ânimo. Para piorar as coisasa sua canoa naufragou em meio a um temporal e, selou seu destino para sempre. Curiosamente na ilha existe uma estranha árvore; que muitos moradores do lugaracreditam que nela habita o espírito daquele índio que morreu por amor. Notando o visível interesse de Bárbara pelo assunto, continuei. − Em torno da ilha, muitos navios afundaram por causa das tempestades e dasrochas traiçoeiras. São verdadeiros cemitérios, onde os cardumes de peixesmulticoloridos e a exuberante vegetação aquática deram ao lugar o título de "paraísodos mergulhadores". − No começo do século – continuei - um grande navio de passageiros, chamadoPríncipe das Astúrias, naufragou quando passava próximo da ilha. Aquele desastrehorrível ocorreu à noite, justamente quando os passageiros dançavam no luxuoso salãodo restaurante. No dia seguinte, quando o sol apareceu no horizonte, as praias estavamrepletas de cadáveres de homens, mulheres e crianças, todos vestidos com trajes degala. As mulheres ainda portavam suas jóias preciosas, que proporcionaram grandealegria aos humildes caiçaras que as recolheram...Este naufrágio vitimou quase quinhentas pessoas. − A história da ilha é impressionante... Você realmente conhece a ilha toda? – perguntou curiosa. − Toda, não; ela é muito grande, mas conheço uma boa parte. Passei uma fériasinteiras lá e deu para conhecê-la bem. Naquela época, aluguei um quarto, com banheiroconjugado, na pousada da tia Neiva. Este nome homenageava a mulher de umpescador iletrado, mas muito esperto; que conseguiu juntar dinheiro suficiente paraconstruir a pousada. Esta senhora que também não sabia ler seu próprio nome; eraigualmente esperta e simpática. Foi ela quem me deu dicas preciosas sobre os encantosda ilha.Naquela época fiquei sabendo de uma antiga lenda, que afirma que piratas do passadoteriam enterrado um tesouro enorme na ilha. E que até hoje não foi encontrado. − Já pensou se a gente encontrasse o tal tesouro? - indagou Bárbara, sorrindo. − Não seria nada mal - respondi -, mas isso é muito difícil. Talvez seja apenasuma lenda. Quem sabe? Em todo caso, o local provável, onde estaria oculto o tesouro,é montanhoso e de difícil acesso. Um pesquisador que reside na ilha tenta há anosencontrá-lo, sem sucesso. 15
  16. 16. Hospedados no gracioso Hotel Petit Village, onde se avista o verde-mar apinhadode barcos e as montanhas azuladas do continente; Bárbara e eu passamos alguns diasmemoráveis na ilha de São Sebastião. Divertimo-nos a valer visitando praiasmaravilhosas e montanhas de densa vegetação, onde conhecemos muitos rios de águaslímpidas e suas cachoeiras colossais. Contudo, não pudemos nadar em suas águas,pois o forte frio desestimulava qualquer aventura. Em razão disso as praiasencontravam-se desertas e monótonas. Aproveitando a ausência de pessoas, empreendemos longas e tranqüilascaminhadas pelas praias. Nas quais nossos pés descalços nem pegadas deixavam, poisas marcas eram logo apagadas por um vento gelado que soprava insistentemente aareia. Por vezes sentávamos no chão á maneira hindu para contemplarmos o horizonte.Ali, ouvindo apenas o murmúrio do vento e das ondas que morriam na praia, fazíamoslongos períodos de meditações. E, juntos, alcançamos a grande paz íntima, que é abase de toda serenidade. Caminhando pelas estreitas estradas de terra que cruzam as montanhasverdejantes, percorremos um mundo fantástico. Atravessamos matas apinhadas depássaros alegres, que não se incomodavam com nossa presença. Conhecemos rios deáguas puras e cachoeiras fascinantes. Com certeza, as impressões por nós recebidasdaquele paraíso natural foram gravadas para sempre em nossas mentes. Os dias que permanecemos na ilha propiciaram uma aproximação substancial coma natureza, tanto em corpo quanto em espírito. As pessoas das cidades pensam que estão separadas da natureza, no entanto,nascemos dela e a ela pertencemos. A natureza é tudo, inclusive o ar que respiramos. Anatureza é o princípio, meio e fim. Dela viemos, dela pertencemos e a ela voltaremos. Observando os pássaros alegres nas copas das árvores, a gente percebe o cicloda vida e o quanto a natureza é complexa. Por falar nos pássaros, é inacreditável a precisão com que alguns delesapanhavam os peixes, depois de um mergulho certeiro nas águas do mar. Quando issoocorria, aquelas aves sempre saíam do mar levando no bico um peixe que se debatiadesesperado. Em uma das andanças pelas praias desertas, não resisti mais à curiosidade eperguntei: − Bárbara, faz tempo que pretendo perguntar uma coisa a você, mas tivereceios... − Pois pergunte - exclamou curiosa, olhando para mim. − Bem... conheci seu apartamento e gostei muito da decoração. É moderna,agradável e os móveis são confortáveis. Digo que tem bom gosto. No entanto aquelacaveira humana, encima da estante me intriga. Bárbara ouvia atenta. A expressão de seriedade de sua face espelhava umaenigmática beleza. Prossegui a fala, espiando dentro de seus olhos úmidos ebrilhantes, procurando interpretá-los. 16
  17. 17. − Aquele crânio humano traz um clima tétrico ao ambiente do seu apartamento.Ele contrasta com tudo que por lá se vê. Acaso você é adepta de bruxarias? - pergunteidecidido. − Ah, não...! Pode ficar tranqüilo. Sou ocultista, espiritualista e humanista. Demaneira alguma eu seria capaz de fazer qualquer bruxaria. E, se o fizesse, iria contrameus princípios. Aliás, esse conceito ocidental de bruxaria é relativo. Você sabe... − Sei - respondi, continuando. - Por ordem da Santa Inquisição, diversoscientistas acabaram queimados em fogueiras, acusados de praticar bruxarias. No casofalo de bruxarias ligadas ao mal e ao demônio, cujo culto principal inclui sacrifícios depessoas e animais. Bárbara sorriu encabulada, mostrando seus dentes perfeitos de fazer inveja aqualquer um. Não desviando seus olhos dos meus, ela balançou negativamente acabeça e falou. − Não sou adepta de bruxarias, nem de seitas ligadas a ela, eu juro - faloubeijando seus dedos em cruz, sorrindo. – Essa estória o crânio começou quando eutinha doze anos. Naquela época, tive um sonho inesquecível. Eu caminhava entre ruínasde antigas edificações, situadas em local montanhoso, de vegetação densa eexuberante. Brincava ali, escalando alguns blocos de pedras perfeitamente talhadas,que estavam empilhadas atrás de um edifício semi-destruído que apresentava cincojanelas. Em um dado momento notei que um reflexo intenso de luz projetava-se de umadas fendas do monte. O reflexo era semelhante àquele provocado por raios solaresquando incidem na superfície de um espelho. Curiosa, enfiei o braço naquela fenda edepois de muito custo consegui retirar um objeto lá de dentro. Sabe o que era? -perguntou-me. − Não faço idéia! − Era uma réplica perfeita, em tamanho natural, de um crânio humano esculpidoem um bloco de cristal de quartzo. Corri com o crânio nos braços até uma fonte paralavá-lo. Ele estava imundo. Depois de limpá-lo notei a perfeição dos detalhes. Amandíbula, por exemplo, era móvel; percebia-se inclusive as linhas de suturas da caixacraniana. Os dentes foram esculpidos com o maior realismo, obra de artista mesmo.Logo ao tocá-lo senti que aquele misterioso crânio possuía poderes ocultos. O crânio decristal conseguia comunicar-se comigo sem fazer um único ruído. Por absurdo quepareça, chegamos conversar por telepatia. Nossa conversa ocorreu em um nível mental.Eu entendia o crânio, e ele também me entendia perfeitamente. Fiquei deslumbrada comele. Talvez, em outros tempos, eu o tivesse possuído, pois ele conhecia minha vida eminhas emoções. Engraçado, o crânio apresentava uma aura própria e cintilante; quevariava entre o dourado, o prateado e diversos tons de verde. Ao tocá-lo com as mãospela primeira vez, tive sensação de que já o tocara antes, em tempos remotos. 17
  18. 18. Bárbara continuou o relato, entusiasmada. − A aura do crânio causava certo êxtase hipnótico. Creio que ele possuía umcerto tipo de “vida” e que encerrava grandes enigmas. Quem o elaborou? Quando? Paraquê? Quais os mistérios que ele continha? Bárbara fazia seu relato através de palavras meigas, embora estivessevisivelmente emocionada. − Fiz essas perguntas a ele, mas não obtive respostas. Talvez alguns serespossuidores de imensa sabedoria o tivessem fabricado. Quem sabe?Depois deste sonho fantástico, ocorreram outros, sempre com o mesmo crânio, nosquais aconteceram algumas previsões sobre o futuro. Para meu espanto, estasprevisões foram confirmadas. − Por exemplo? - perguntei. − A eleição e a cassação do presidente Collor. Permaneci calado por alguns instantes, matutando; Bárbara me parecia sincera,embora seu relato fosse um tanto fantasioso. − Até hoje não encontrei o tal Crânio de Cristal, mas tenho vontade de encontrá- lo. − E como o conseguiu aquele da sala? – indaguei. − Para compensar a ausência do crânio de meu sonho, resolvi possuir um que játivesse servido de morada a um espírito. Então,. adquiri um crânio verdadeiro de umcoveiro do cemitério de Vila Formosa, lá em São Paulo. Com dinheiro, você compra atécadáver, sabia? − É mesmo? - fiquei surpreso com a revelação deste fato. − Pois é verdade! O coveiro que me vendeu o crânio confidenciou-me que vendecadáveres. Principalmente de criancinhas recém-nascidas, para serem usados emrituais de bruxaria. No meu caso, comprei o crânio humano pelo motivo que lhe contei,não para praticar atos macabros de magia negra. Jamais... Bárbara e eu passamos longos dias e longas noites naquele paraíso em forma deilha. Desfrutando o que havia de melhor no lugar e no nosso amor. Quando abandonamos o paraíso, depois de atravessarmos o canal, em cima deuma morosa balsa, demos uma última olhada para trás. Um imenso sol avermelhado,típico desta época do ano, acabava de nascer detrás das altas montanhas. No céu, asaves continuavam os certeiros mergulhos nas águas geladas do mar, em busca do seupeixe. Afinal o mundo não para. Respiramos o ar que apresentava o perfume da orla marítima, e fomos embora.Em pouco tempo ganhamos a estrada, rumo à poluída e fascinante São Paulo. Com amoto caminho devorando a estrada sem vacilar e fazendo seu incômodo barulho. Eu dirigia a moto confiante e decidido, enquanto Bárbara estava feliz e satisfeita. 18
  19. 19. 7 O Crânio de Cristal Durante certo tempo, pensei no relato que Bárbara fizera sobre o Crânio de Cristal.O caso já teria encerrado se eu também não tivesse passado a sonhar com ele. Aprincípio imaginei que estes sonhos ocorriam por influência do relato que Bárbara fizera.Supunha que, ao dormir, minha imaginação alcançava altos vôos e dava forma a essessonhos misteriosos. Esta era minha explicação simplista para o fato. Sucedeu-se,porém, que aqueles sonhos tornaram-se freqüentes, com nitidez impressionante. Nosquais eu também conversava mentalmente com o crânio, tal qual Bárbara havia dito. As mensagens espirituais transmitidas através dele eram maravilhosas realmente.Conversamos mentalmente sobre os sentimentos mais sublimes. Sobretudo dasemoções mais profundas do espírito. Invariavelmente, a comunicação com o crânioocorria no universo cósmico do inconsciente; no qual os sonhos são a expressãomáxima. Percebi que havia entre nós dois uma ligação muito antiga; que compreendia erasremotas e sombrias do mundo. Todavia, eu não conseguia identificar a origem, por maisque me esforçasse. Nestes sonhos, tão logo o crânio aparecia, sucediam-se dentro dele;imagens de pessoas e lugares estranhos, que a História tradicional pouco conhece.Surgiam animais pré-históricos e cidades que foram sepultadas no tempo implacável,que a tudo transforma. O crânio funcionava semelhante à bola de cristal das ciganas, que pode-se prevero futuro ou observar o passado. As vezes, em torno do crânio surgia uma aura pulsante semelhante à luz de néonda cor verde. Bárbara, mais do que nunca, tinha razão. Dada a insistência desses sonhos, interessei-me pelo assunto, de modo quepassei a pesquisar tudo que o fosse relacionado a ele. Descobri que os arqueólogosencontraram crânios de cristal em diversas partes do mundo. Dois deles, ambos emtamanho natural, estão nos museus de Londres e Paris. O mais famoso crânio de cristal está em posse de uma mulher, que é filha docientista que o encontrou nas antigas ruínas maias, na Guatemala. Conforme consta nolivro "Mistérios dos Crânios de Cristal Revelados", de Sandra Bowen, F. R. "Nick"Nocerino e Joshua Shapiro. Essa mulher, de nome Ana Mitchel Hedge, é uma grande pesquisadora do assuntoe, mantém o crânio em exposição aberta ao público, permitindo que cientistasinteressados façam pesquisas com ele. O Crânio de Ana M. Hedge é uma cópia perfeita, em tamanho natural, esculpidapor hábeis e misteriosos artesãos sabe-se lá de onde. Comenta-se que o tal crâniopossui poderes de curar certas doenças através das vibrações harmônicas e positivasemanadas da sua aura. Inúmeros relatos confirmam casos de pessoas doentes quealcançaram a cura simplesmente quando o visitaram. Pesquisando descobri que podem haver outros crânios iguais a ele no Tibet e noPeru; mas que não foram encontrados ainda. 19
  20. 20. Comentei o assunto com Bárbara e ela animou-se ao saber que existepossibilidade de encontrar um Crânio de Cristal no nosso vizinho Peru. Assim sendo,cogitamos, dar um pulo lá e tentar achá-lo. O Peru é imenso. Achar o crânio naquele país seria muito mais difícil queencontrar uma agulha num palheiro. Mas, como a esperança é a última que morre,talvez num dia, de posse de alguma pista concreta, nós possamos ao encontrá-lo noPeru. Neste ínterim, li mais coisas sobre a história dos crânios, mas nada que indicasse,um leve vestígio sequer, do seu paradeiro no país dos incas. Tentei esquecer o assunto, mas, dada a insistência dos aparecimentos do crânioem meus sonhos, isso tornou-se impossível. Desta forma, assumi o interesse em ajudarBárbara a encontrá-lo. Mas de que maneira? As publicações que tratam do tema sãoraras. Apesar das dificuldades, não desanimei. Então decidi procurar pistas concretas,via viagens astrais. Minha esperança era que adentrando no "Registro Cósmico,"pudesse descobrir tão sonhada pista. Pois ali estão registrados todos os acontecimentosdo Universo. Relatei minha intenção a Bárbara e obtive prontamente seu total apoio. Daí emdiante iniciei uma série de viagens no astral com este firme propósito. Trancado na escuridão do meu quarto de dormir, para que não houvesseinterferências de barulhos ocasionais na concentração mental, iniciei a busca demaneira estranha aos olhos da pessoa comum. Isolado do mundo exterior atravéssentidos da audição e visão, sentava na cama em posição de yoga meditativa e empoucos minutos, libertava minha mente de pensamentos vagabundos e inúteis. Destamaneira bizarra, comecei minha jornada no Astral, onde tempo e espaço não existiam eapenas o espírito podia penetrar. A viagem astral assemelha-se a um sonho nítido e consciente. É como sesonhasse acordado. Neste "sonho" pode-se estar em qualquer parte e em qualquertempo perceber as coisas sem precisar estar presente fisicamente. Pois apenas oespírito viajava. Estas viagens não são nenhuma novidade. Os hindus e tibetanos já empreendiamessas viagens há milhares de anos. Qualquer esotérico sabe deste fato. Assim, por diversas madrugadas vaguei pelo Astral, mas não vi nada que serelacionasse ao Crânio de Cristal. Fiz dezenas dessas viagens, sem alcançar sucessoalgum. A tarefa era muito difícil, mas mesmo assim continuei obstinadamente a missão,Não sou do tipo que desiste facilmente. Apesar do fracasso aparente, passei por grandes emoções e elas me animaram àcontinuar em busca das pistas do crânio perdido. 20
  21. 21. 8 Viagem Astral Certa noite no meu quarto, concentrei toda minha força mental em um únicoobjetivo; viajar no Astral, em busca do Crânio de Cristal. Em pouco tempo a respiraçãoabdominal tornou-se imperceptível e o coração diminuiu a pulsação. A escuridão, queantes era total, foi subitamente iluminada por um clarão dourado. A seguir, senti o exatomomento em que meu espírito abandonou o corpo, imóvel feito estátua. Liberto do pesado fardo que representa o corpo físico, o espírito navegou rápidorumo ao infinito, como muitas vezes o fizera antes. Lembro perfeitamente que inúmeras imagens sucediam-se aleatoriamente comose fossem cenas de diversos filmes ou mesmo de sonhos diferentes. De certa maneira, eu vivenciava as sensações como se estivesse acordado. Erauma espécie de "sonho consciente", que aguçava minhas percepções sensoriais. Neste"sonho", meu espírito visitava lugares incríveis, que não se pode nem imaginar. Certafeita, adentrei o espaço astral na velocidade do pensamento e aproximei-me dos bilhõesde pontos luminosos espalhados por toda parte, que são as estrelas. Sendo um viajante privilegiado do Astral, pude percorrer paisagens virgens:estrelas, planetas, satélites, asteróides, meteoros, nuvens de gases, cometas e galáxias.Enfim, percorri na velocidade do pensamento uma infinidade de corpos celestes,componentes do gigantesco mosaico cósmico, que flutuam eternamente na escuridãoincomensurável do universo. Em alguns pontos do cosmo a concentração das estrelas era enorme. Tratava-sedas galáxias e havia milhões delas espalhadas, flutuando no espaço sem fim. Continuei aproximando-me das estrelas distantes, sempre em direção ao sol.Chegando próximo dele, notei que seu brilho dourado intenso escondia o céu de ondeeu vinha. Em sua grandeza o universo passou a ser uma coisa só. Um intermináveloceano de luz dourada, igual à da chama de uma vela. Não existia mais nada alémdisso. Logo após, afastei-me do Sol e logo sobrevoei Marte. A primeira coisa que mechamou a atenção, foi seu solo estéril e pedregoso. Em tempos remotos aquele solomiserável fora muito fértil, e possuíra uma vegetação formosa e variada. Da altitude em que me encontrava, vi perfeitamente um rosto gigantesco esculpidonuma montanha. Provavelmente seus escultores tivessem extintos à milhares de anos.Foi emocionante verificar "in loco" esta escultura que antes só havia visto em umafotografia tirada pela NASA, que revistas e jornais do mundo inteiro publicaram. Até hojeaquela foto gera controvérsias. Que civilização esculpira tal rosto? É ou não verdadeira? Localizei também, no solo de Marte, o maior vulcão conhecido do sistema solar, oNIX OLÍMPICA, cuja base gigantesca mede aproximadamente quinhentos quilômetrosde diâmetro. Na velocidade do pensamento larguei Marte para trás. Num passe de mágica,aproximei-me de Júpiter, que logo cresceu à minha frente, até transformar-se em umaenorme esfera. Este gigante do nosso sistema solar era muito deslumbrante. Naverdade, tudo no espaço sideral era incrivelmente belo e fascinante. 21
  22. 22. Dei umas voltas em torno de Júpiter e observei curioso, as imensas manchasarredondadas de sua superfície. O planeta é todo salpicado dessas manchas escuras emisteriosas. Na órbita de Júpiter gravitam diminutas luas, enfileiradas, uma após outra, que,refletindo a luz dourada do sol, proporcionavam um espetáculo sem igual. Abandonei repentinamente o gigantesco planeta e, num piscar de olhos, fuicircundar Saturno, o mais bonito planeta que conheci. Este planeta é envolto pordiversos anéis formados por milhões de pedaços de rochas que gravitam em sua órbita,formando uma espécie de auréola sideral. Mal comecei a admirar as paisagens de Saturno, e o cenário mudou bruscamente.Novamente num passe de mágica, já de volta a querida Terra, avistei as quedas deágua que formam as cataratas do Iguaçu. Toneladas de água precipitavam-se dasalturas dos rochedos, provocando um barulho ensurdecedor, ouvido a léguas dedistância. A região do leito deste rio é muito rochosa, por isso as águas têm dificuldadeem seguir seu caminho natural. Nas margens do rio havia uma vegetação verde, exuberante. Acima dela,sobrevoavam bandos de pássaros de bico longo e pescoço em forma de "s", cujaplumagem branca era sem igual. Enquanto o bando cruzava o céu em algazarra, pudesentir a umidade da névoa fina que brotavam das cachoeiras. Nunca imaginei que um dia andaria pelas ruas de Katmandu, capital do Nepal;mas, graças ao astral, isso me foi possível. Passeando por suas estreitas ruas, notei o cheiro característico do lugar, em meioao ar frio e rarefeito. Um misto de ar de montanha e cidade. Entretanto, não haviavestígio algum de poluição; ma vez que lá existem poucos veículos e fábricas. A movimentação de pessoas era intensa nas ruas de Katmandu. A maioria vestia-se à maneira ocidental, principalmente os homens; cabelos curtos, calças jeans ecamisetas.Na calçada um camelô ajeitava sua mercadoria em cima de um tablado de madeira. Emfrente dele um homem segurava uma enorme vara recurvada sobre seus ombros; emcujas extremidades estavam pendurados pesados fardos de feno. Andei tranquilamente na calçada, em meio à multidão que não me via. Aquela ruatoda revestida por pedras, estava enfeitada por milhares de bandeirinhas brancas quelembravam nossas festas juninas. Posteriormente várias cenas sucederam-se. Em uma delas encontrei dezenas demonges budistas carecas, trajando grossos mantos por causa do frio. Alguns eramjovens; outros, mais idosos. E todos permaneciam calados e com os pensamentosdistantes. Os monges olhavam para lugares diferentes. Um deles pareceu fitar meus olhos,com seu olhar sereno e enigmático de oriental. 22
  23. 23. Voando no astral, do Nepal para a Índia, sobrevoei as altas montanhas deDaransala. Naquela cidade localizei a residência do Dalai-Lama. E, não resistindo atentação da curiosidade, penetrei furtivamente no interior da casa. Ele conversava comum jornalista brasileiro no salão de recepção, sentado em uma confortável poltronaverde, ao mesmo tempo em que segurava calmamente as próprias mãos. Através daslentes de seu óculos de aro de metal, o mestre fitava o curiosamente o interlocutorocidental. Ele até parecia notar minha presença espiritual, olhando de vez em quando naminha direção. Ao lado do venerável senhor, um jovem monge ouvia silencioso a entrevista. Seutraje era idêntico ao do mestre e dos outros monges; dourado, com manto cor de vinho. Do lado de fora da casa haviam quatro crianças sentadas no chão. Elasseguravam potes de arroz sobres suas pernas cruzadas. Entre muito risos e falatórios,as crianças devoravam avidamente os alimentos. Tratava-se de crianças abandonadas, que vivem em creches mantidas pormonges budistas, fugitivos da pátria-mãe: o Tibet. País que até hoje é ocupado pelaChina comunista; que lhe impõe uma ditadura ferrenha, apesar de protestos mundiais. Aquelas crianças, o futuro vivo do povo tibetano, estampavam em seussemblantes a mais pura felicidade infantil. O que demonstrava o bom tratamentorecebido daqueles monges. Dando prosseguimento àquela viagem fantástica, continuei vagando por distantese estranhos lugares. Encontrei pelo caminho as mais exóticas pessoas e vivi as maishilariantes situações. Uma das últimas cenas que recordei, antes de o meu espíritovoltar ao corpo, referia-se às ruinas da cidade de Machu Picchu, no Peru. Que outrora,fora um centro avançado do império Inca.As bucólicas ruínas de Machu Picchu encontram-se no topo de uma verdejantemontanha, quase sempre encoberta por densas neblinas. Das montanhas próximas de Machu Picchu sobressai um pico rochoso em formade cunha; semelhante ao pico do corcovado, no Rio de Janeiro. Ele é nitidamentesuperior ao das ruínas da cidade e magneticamente sempre atrai a nossa visão. As montanhas de Machu Picchu possuem vibrações especiais e harmônicas. Éimpossível ir até lá e ficar indiferente a elas. Alguns segundos após meu "passeio" por Machu Picchu, meu espírito caiu emqueda livre num interminável túnel sem luz. Tratava-se do irritante regresso do espíritoao doce lar transitório, ali imóvel: o meu corpo físico. A sensação que tenho em tais "pousos" é algo semelhante ao "tranco" sofrido porum paraquedista no momento em que abre o paraquedas. O espírito que perambulavalivre no Astral, volta bruscamente a ser prisioneiro do corpo. O choque doaprisionamento do espírito ao corpo físico é a parte chata de uma viagem astral, mas éimpossível de ser evitada. Quando abri os olhos, não consegui mover-me. Meu corpo continuava rijo naposição de yoga. Percebi horrorizado que não conseguia respirar. Nunca tinha passadopor uma situação dessas antes. Meu coração batia acelerado e o suor brotavaabundantemente por todos os poros do meu corpo. Cheguei a pedir ajuda a Deus parapoder respirar novamente e sair daquele estado de paralisia compulsória. Eu sabia que as viagens Astrais devem ser supervisionadas por um instrutorexperiente, mas nunca havia me preocupado com esse detalhe. Por isso encontrava-senaquela delicada situação – imóvel e todo roxo pela falta de respiração; implorando àDeus o meu restabelecimento. 23
  24. 24. Quando o pânico já se apoderava de mim tocou o telefone. Apesar de ter algodãonos ouvidos, o barulho foi suficiente para me assustar. Em razão do susto, conseguirespirar novamente. E foi um alívio enorme, quando o oxigênio invadiu meu peito epenetrou na circulação sangüínea. Daí em diante pude movimentar os membros docorpo. Naquele momento, renasci. Após o susto, saltei da cama e peguei o telefone. Entretanto a pessoa do outrolado da linha havia desligando o aparelho. Provavelmente o telefone tocara diversasvezes antes que pudesse ouvi-lo. No dia seguinte relatei a viagem a Bárbara e o sufoco que passei quando meuespírito retornou à "base". Bárbara ficou muito preocupada com o fato, que pediu parauma amiga dela, muito experiente em projeções fora do corpo, para que monitorasseminhas futuras viagens astrais. Depois daquele sufoco passado, resolvi aceitar a ajuda que Bárbara arranjara. Dapróxima vez que o meu espírito vagasse no Astral, sua amiga estaria de plantão ao ladodo meu corpo inerte; medindo a pulsação, verificando a respiração, ajudando emqualquer eventualidade. 24
  25. 25. 9 São Tomé das Letras O motorista do táxi, baixinho, barrigudo, cujo vasto bigode negro havia engolido aboca, pisava fundo no acelerador. Apesar de sair atrasado, cheguei pontualmente aolocal combinado para o encontro com Bárbara: a Biblioteca Municipal, na Rua Vergueiro,onde já se encontrava estacionado um imenso ônibus colorido, de última geração, quenos levaria em excursão à cidade de São Tomé das Letras, em Minas Gerais. Ao lado da portinhola aberta do ônibus, o guia passava as últimas instruções aomotorista. Um senhor calvo, de meia idade, que palitava os dentes, segurando na outramão um pano de limpar vidros. Enquanto isso, os demais participantes da excursão,conversavam animadamente na calçada apinhada de bolsas e malas de viagens. Olhei para os lados à procura de Bárbara, mas ela, não havia chegado. A saída doônibus estava prevista para as nove e meia da noite. Olhei meu relógio e ele acusavaquinze para as nove. Ainda sobrava um tenho para a partida da excursão. Bárbara viria com algumas amigas que eu ainda não conhecia. Entre elas estariaaquela que auxiliaria nas viagens ao Astral. Não demorou e logo avistei Bárbara vindo com um bando de moças que riam egesticulavam muito. Pareciam falar todas ao mesmo tempo. As mulheres surgiramimpecavelmente vestidas e maquiadas, chamando a atenção dos homens e causandoinveja às outras mulheres. − Oi, Dan! Faz tempo que chegou? - indagou Bárbara, sorrindo, antes de dar-meum beijo afetuoso e um demorado abraço. − Não, cheguei há quinze minutos - respondi. − Ah... quero apresentar-lhe minhas amigas: Márcia Sawan, Rose Bour, LuciMonteiro e Kátia Rocha. − Muito prazer - cumprimentei uma a uma com afetuosos beijos no rosto. − Este é o meu grande amigo, de quem lhes havia falado antes - apontou-me,satisfeita, para as amigas. Após a rápida apresentação entramos no ônibus e fomos sentar nos lugaresreservados. Por coincidência, acabei sentando perto das amigas de Bárbara. Tivemos um curto bate-papo, quando o motorista barrigudo tomou seu lugar,fechou a portinhola e movimentou aquele mastodonte espelhado. Da janela, demos uma rápida espiada para fora e reiniciamos a conversa. − Dan, o que achou de minhas amigas? - perguntou-me. − São todas bonitas, não as conheço o suficiente para outros comentários,entretanto simpatizei-me com elas a primeira vista. − Somos amigas há tempos. A Márcia, por exemplo, é um doce de pessoa. Ela éminha parceira da dança do ventre naquela casa de chá que lhe falei. Aliás, foi ela quemme introduziu lá. A Rose é proprietária de uma loja de confecções na Rua Oscar Freire,pratica tai-chi-chuam e é adepta do Zen Budismo. A Rose é uma pessoa inesquecível,um amor de pessoa mesmo, você verá. Já a Luci Monteiro dedica-se ao estudo decristais e pêndulos. 25
  26. 26. Ela possui uma vasta e invejável cultura esotérica. Curiosamente ela nunca separa-sede seu diário, onde anota todos os acontecimentos importantes. E, veja só, Luci faz issodesde a adolescência. Sentada junto a Luci está Kátia Rocha, uma proeminentepsicóloga que conhece diversas terapias e técnicas de relaxamento e hipnose.Ultimamente está estudando cromoterapia. Luci trabalha arduamente em uma clínica na Vila Mariana, da qual é sócia. Ela tambémé uma excelente pessoa. − Onde as conheceu? - indaguei. − A Márcia e a Rose, eu já conhecia de longa data. Sempre estudamos juntas.As outras, conheci-as na Ordem ... digo, na Academia. − Você freqüenta alguma Ordem? − Não! - respondeu-me embaraçada - fizemos amizade em uma academia deginástica que freqüentamos juntas à muitos anos. Falando francamente, Bárbara, involuntariamente, deixara escapar uma pista.Suas amigas, e inclusive ela, adoravam assuntos místicos. Concluí que elas faziamparte de alguma ordem esotérica e queriam guardar sigilo sobre o assunto. Mas por querazão? Sempre havia confiado em Bárbara, mas no fundo, algo me dizia que ela meocultava a verdade. Apesar de suas amigas aparentarem boa índole, prometi a mim mesmo quedescobriria a verdade, a qualquer custo. Depois do "dinossauro" rodar horas, noite adentro, nas estradas escuras etortuosas de Minas Gerais; o guia informou que aproximávamos de São Tomé dasLetras, nosso destino final. Instantaneamente todos voltaram-se curiosos para asjanelas. Do lado de fora, a escuridão e o silêncio causavam certo temor. No céu, não seenxergava as estrelas, pois uma forte neblina invadira a região, fazendo com que omotorista seguisse lentamente, por aquela estreita estrada de terra, perdida naquele fimdo mundo. A estrada toda cheia de buracos, mais parecia um queijo suíço, fazia o"dinossauro" sambar para todos os lados. O motorista, com o volante encravado na suabarriga enorme, estava mais atento do que nunca. A escuridão, a neblina, o silêncio e um cheiro estranho no ar conferiam àquelasbandas um certo clima de horror; que lembrava vampiros, almas penadas, lobisomem emonstros. É sabido que o clima de São Tomé das Letras influencia o humor das pessoas,provocando um misto de ansiedade, curiosidade, aventura e medo. Ao meu ver, aagência de turismo realiza as viagens à noite naquelas bandas da serra, justamentepara excitar a mente dos curiosos turistas. De repente, no topo de um dos morros, surgiu a cidade das toda nossasexpectativas. 26
  27. 27. 10 Véu de Noiva No seguinte tomamos rapidamente o café da manhã e fomos passear por SãoTomé das Letras. No passeio conhecemos a lendária Gruta das Inscrições, que,segundo a lenda local, foi lá que um escravo fugitivo recebeu a revelação de um espírito.Até hoje não se sabe o teor da revelação, mas em todo caso, o escravo deveria contá-laao fazendeiro que o procurava. Dito e feito. O escravo fugitivo retornou a fazenda emesmo arriscando a vida, narrou o acontecido ao senhor. A mensagem seria muitoimportante pois, em recompensa, o escravo obteve a liberdade. Da Gruta das Inscrições originou-se o nome da cidade. Um lugarejo maravilhoso emístico, onde freqüentemente são avistados os misteriosos OVNI, que tanto aguçam aimaginação dos habitantes do lugar. Visitamos o mirante, que é o lugar mais elevado da cidade. De onde se tem umavisão de trezentos e sessenta graus do horizonte verde azulado, que acompanhamagnificamente a curvatura da Terra. Quando anoiteceu tivemos sorte; pois a neblina e as nuvens do dia anteriorsumiram. Surgindo um céu límpido e estrelado, livre das nuvens, da poluição e do clarãodas luzes das cidades grandes. Com um céu assim, quase tocando nossos narizes,pudemos observar a grandiosidade do universo. Dali avistava-se plenamente, a majestosa Via-Láctea, o imponente Cruzeiro do Sule as principais constelações do Zodíaco. Uma encantadora lua prateada também estavapresente naquele céu descomunal. Vasculhamos o céu durante a noite toda à procura de OVNI. Meu binóculo rodavade mão em mão, feito um cachimbo da paz indígena, porém não obtivemos sucessoalgum. Ao invés dos discos voadores, o máximo que pudemos avistar foi um pequenometeorito que deixou um instantâneo rastro verde no céu. Passamos a noite inteira no mirante, olhando o firmamento e meditando;procurando captar as energias positivas do lugar. O vento frio que soprava por aquelas bandas, violava nossos agasalhos e nosfazia tremer. Apesar do frio, passamos uma noite gostosa, conversando à beira de umafogueira improvisada e bebíamos um delicioso vinho português. Apesar da bebedeira,não fizemos algazarra, de certa forma respeitamos o silêncio do lugar e a meditaçãodas pessoas que estavam sentadas nas bordas do abismo, à maneira da yogacontemplativa. Atravessamos a noite ali acordados e nem notamos o tempo passar. Até que o solapareceu timidamente no horizonte e todos se levantaram para observar. O sol nasceu gigante e avermelhado e logo subiu ao céu. Havia chegado a horade dormirmos. 27
  28. 28. No dia seguinte visitamos a região de ônibus e nada escapava de nossacuriosidade. Conhecemos matas naturais, grutas e cachoeiras. A mãe natureza estavatão pertinho de nós. Sentíamos a sua pulsação através do vento que lambia nossasfaces ou nas folhas secas que caíam das árvores. Para aproximar-me ainda mais da mãe natureza, fiz questão de dar umas voltascom os pés descalços. As vibrações positivas emanadas daquele solo abençoadosensibilizaram a planta dos meus pés e subiram até o sétimo vórtice, situado no topo daminha cabeça. Então, um arrepio tomou conta do meu corpo inteiro e um novo alentosurgiu em minha alma. Mais tarde fomos visitar a cachoeira "Véu de Noiva". Enquanto o pessoaladmirava aquela magnífica queda dágua. Eu preferi ficar dentro do ônibus para dar ummerecido descanso. Quase pegando no sono, vi o famoso diário da Luci em cima do banco do ônibus.Não resistindo à curiosidade, folheei rapidamente suas páginas com a avidez e aeficiência de um espião profissional. Lendo rapidamente os escritos da Luci, pude desvendar um pouco de sua vidaíntima. De tudo que li, duas coisas me impressionaram. O primeiro foi o relato escritonas primeiras páginas: " Jamais havia sentido "aquilo" com outro homem. Embora já houvesse feitoamor com dúzias deles. Entretanto, na primeira vez que ficamos juntos, Jorge mefez tremer da cabeça aos pés. Meu peito arfava muito, enquanto meu pobrecoração quase saltava pela boca. Quando atingi o clímax, flutuei nas nuvens.Acabava de provar o mais doce dos frutos. Depois desse encontro vieram muitosoutros e cada um melhor que o anterior ". Li também outras páginas do diário, que consagravam o desempenho sexual deJorge e o amor que Luci tanto sentia por ele. Quase no final descobri que o "doce" Jorgesumiu do mapa deixando-a desamparada e com profundas marcas no coração. Daí emdiante, desfilou nas páginas do diário uma incrível procissão de homens. Contudonenhum deles chegava aos pés do amado Jorge e Luci sempre os abandonava. Essaera a sua maneira de vingar o abandono. Na sua mente ferida, não admitia apaixonar-se novamente, pois provavelmentehaveria uma outra desilusão avassaladora. A outra coisa que me chamou a atenção foi o seguinte texto: "Eu e a notável Míriam fomos até ao Campo das Labaredas fazer opagamento combinado. Então aproveitamos para verificar as condições do localonde se realizará a grande cerimônia da "sexta-feira treze" da lua cheia. Desta vezeles cobraram mais caro, mas Miriam habilmente negociou um bom desconto." 28
  29. 29. Este relato era a pista importante que eu tanto procurava. Concluí, ainda confuso,que as moças pertenciam realmente a uma ordem misteriosa que praticava cultosestranhos. Jurei que iria desvendar aquele mistério. Não gostaria que Bárbara estivesse envolvida com magia negra, mas tudo épossível... E o que é pior: quem procura, acha... 29
  30. 30. 11 Viajante do futuro Meu quarto estava totalmente escuro, não dava para enxergar absolutamentenada. Ao meu lado, a meiga Luci prestava assistência a mais uma das minhas viagensao astral. Na qual partiria em busca de uma pista sobre o paradeiro do Crânio de Cristal. Esvaziei rapidamente minha mente dos pensamentos vagabundos, de modo que,em poucos segundos, meu espírito libertou-se do cativeiro do corpo físico e entrou emuma outra dimensão; onde o tempo e o espaço não são importantes, pois eles sequerexistem. logo a minha consciência cósmica foi transportada para um abrasador desertoegípcio; que ofuscava meus olhos. Pela primeira vez vi meu próprio corpo em uma viagem astral. Ele estava vestidoigual ao corpo físico abandonado imóvel no quarto. Encontrava-me admirando a paisagem da redondeza, quando surgiram, não sei deonde, uns homens vestidos à moda antiga. Eram egípcios dos tempos dos Faraós. Doisdeles encontravam-se em cima de um carro de combate, puxado por dois cavalosbrancos imponentes. Os outros estavam a pé. Um daqueles dois, provável oficial do corpo de carros, destacava-se pelaelegância. O nobre vestia trajes de cores vivas e em sua cabeça havia uma espécie decapacete azul, arredondado e todinho escamado. Um peitoral de ouro em forma deáguia, fixado por uma grossa corrente em torno do pescoço, adornava seu físicoavantajado. O nobre comandante também ostentava pesados braceletes com figuras deleões em alto-relevo. O que indicava sua posição de destaque na corte do Faraó. O oficial egípcio olhou-me fixamente e interrogou. − Quem és tu? − Sou um viajante do futuro! - respondi prontamente. Nossa conversa não ocorria por palavras, mas através do pensamento. − Essas roupas são de estrangeiro que desconheço. Deveis ser um espião dealguma potência inimiga. − Não sou! - respondi decidido. - E posso provar... Mostrei, então, ao comandante, meu relógio dourado, de pulseira metálica elástica,da mesma cor. Fitando o relógio com curiosidade, o comandante, subitamente,arrebatou-o de minha mão. Contei-lhe então que aquilo era uma máquina utilizada paramedir o tempo. Sem pestanejar, o nobre colocou-o em seu pulso, ao mesmo tempo, queolhava admirado o movimento cadenciado do ponteiro dos segundos. Qual um filme, a cena mudou repentinamente. Sem saber como, fui parar em frentea uma colossal porta de pedra de uma tumba egípcia. Não conseguia mais ver nemperceber o meu corpo. Tornara-me novamente um espírito, cujo corpo encontrava-seimóvel, muito longe dali, em outra dimensão. 30
  31. 31. Naquele local inóspito não havia ninguém, apenas um vento forte lambiafuriosamente a porta de pedra, provocando um ruído seco e arrepiante. Nuvens deareia, ao sabor dos ventos, varriam o deserto e subiam ao céu, assustando-me. Deixei de lado o receio e entrei na tumba. Logo após ouvi vozes que ressonavamentre as escuras e sombrias paredes; decorada com enigmáticos hieróglifos e figurascoloridas de homens, animais e deuses do Egito. Em seguida, apareceu um sacerdote egípcio gordo, de cabeça raspada, vestindosaia branca de linho e sandália de couro. Em seu peito reluzia um bonito peitoraldourado e azul. O tal sacerdote encarou-me com um olhar hipnótico e foi logo dizendo: − Quando os ventos cessarem e os chacais saciarem a fome, você não selembrará de nada! Mal acabei de ouvir as palavras do sacerdote, minha consciência regressoubruscamente ao meu corpo imóvel próximo da atenta Luci. Pensando nos acontecimentos, cheguei à conclusão de que havia penetrado noregistro cósmico e presenciado acontecimentos secretos da remota antigüidade.Portanto, profanara a história como um intruso indesejável. Essa possibilidade aguçavaminha imaginação. Continuei pensando nas palavras do monge: − "Você não se lembrará de nada!" Talvez por esta razão que, após meu encontro com o oficial egípcio, não melembrava de nada mais. 31
  32. 32. 12 1994 – um ano marcante Quase ao final do expediente, trancado no toalete do prédio da Bolsa, procureirelaxar a mente observando os pingos de água que caíam lentamente da torneira. Elescausavam um efeito hipnótico tranqüilizador. Era o início do ano de 1994 e havia uma intensa e nervosa movimentação nogrande templo financeiro que é na Bolsa de Valores de São Paulo. Maior centroacionário do país. Para se ter idéia a Bolsa detém oitenta por cento das transaçõesbrasileiras com ações. Ocupando a segunda posição no ranking da América Latina. O fator que ocasionou esta movimentação nervosa foi a alta na taxa de juros queatraiu o capital estrangeiro ao Brasil refletindo imediatamente no índice Bovespa. Asações das companhias estatais, que em 1991 valiam US$ 3 bilhões, passaram a sercotadas em US$ 40 bilhões. O mercado agitado movimentava, naquele período, mais de US$ 250 milhões pordia. Era tanto serviço que eu precisava trabalhar dobrado para analisar aquele mar derelatórios e gráficos financeiros. Por isso, estava um tanto estafado pela carga deserviço que me era imposta. Após o expediente, naquele dia, fui embora satisfeito pilotando a possantemotocicleta; capaz de subir a mais íngreme ladeira. Subindo a Avenida Rebouças velozmente, localizei pelo retrovisor uma moto quese aproximava e logo me ultrapassou como um bólido. O piloto era um jovem de porteatlético, cabelos cortados ao estilo militar; que trajava calça jeans, camiseta branca ebotas de cano alto. O rapaz sumiu na avenida, indiferente ao barulho infernal que suamáquina produzia. Mais adiante, na mesma avenida, encontrei este mesmo motoqueiro, todoensangüentado; embaixo de um caminhão de bebidas, cercado por uma multidão decuriosos. Instintivamente reduzi a velocidade, mas não parei. Pálido, continuei o percurso,tentando restabelecer-me do choque. Muitos pensamentos ligados à morte e ao destino vieram-me à cabeça. Procureidesviar-me de todos eles. Então, relembrei a espionagem feita no diário de Luci e penseino mistério que representava o tal Campo das Labaredas. Para minha sorte, eu teria aoportunidade de desvendá-lo ainda este ano; mais precisamente em maio; quando o diatreze cairia em uma sexta-feira de lua cheia... Para isso, bastaria seguir alguma dasmoças até este campo. 32
  33. 33. 13 El Kalibi Naquela noite, a Casa de Chá El Kalibi, situada no bairro do Paraíso, estavacompletamente tomada por um público jovem e alegre. Kátia, Luci e eu conversávamosanimadamente, sentados sobre grandes almofadas; ao redor de uma pequena mesa demadeira de aproximadamente quarenta centímetros de altura. Saboreávamos umdelicioso e estimulante chá avermelhado, denominado Karkadeh; quandorepentinamente chegou uma moça morena, de rosto arredondado e de curvasgenerosas, que Luci me apresentou. − Esta é nossa amiga Estela Zaid! − Muito prazer - estendi o braço e apertei sua mão macia, sorrindo. Elaprontamente retribuiu com um largo sorriso de dentes perfeitos. A moça acomodou-se à mesa, mas falou pouco; embora estivesse atenta à nossaconversa. Seu semblante sereno expunha no canto da boca um sorriso contido. Emseus olhos expressivos havia um brilho intenso de quem conquistara a paz interior. Nos bastidores da casa, Bárbara e a bela mulata Luíza aguardavam o momento dese apresentarem ao público; que, por sua vez, entre goles de chá, esperavaansiosamente o grandioso espetáculo da dança do ventre. Essa dança, de origem antiga e considerada sagrada, foi inicialmente praticadapelas formosas bailarinas da Mesopotâmia. Dançando elas imitam coisas da natureza, ovento nas areias do deserto, a leveza das plumas ou o arrastar das cobras. A dança do ventre e a suas belas dançarinas, sempre causam impactosconsideráveis nas mentes das pessoas. Não é à toa que as mulheres daquela dançasão graciosas, bonitas e sedutoras. Durante o show não dá para desviar o olhar delas. Bárbara contaram-me que Luíza fora criada por ciganos. Povo que gosta das artesadivinhatórias: búzios, cartas, bola de cristal, tarô e outras. Luiza também adorava Iemanjá, a rainha do mar. Razão pela qual em todas aspassagens de ano ela ia à praia, fazer suas oferendas e rezar. E, juntamente com osmilhares de fiéis, ela soltaria fogos e acenderia velas. Ritual que proporciona umespetáculo muito bonito, que atrai turistas do mundo todo. Quando começou o espetáculo no El Kalibi, Bárbara e Luíza surgiram dançandocom volúpia jamais vista; ao som de uma insinuante música árabe. Os presentessilenciaram, ao mesmo tempo que arregalaram seus olhos. Minha doce Bárbara apresentava uma sensualidade incrível. Ela vestia saia deseda preta com uma provocante abertura lateral até a cintura. Na parte de cima, haviauma peça de roupa semelhante a um sutiã, com enfeites dourados que sustentavafirmemente os seios. O ventre e as costas dela se encontravam descobertos. 33
  34. 34. Luíza vestia-se da mesma forma, porém seu traje era branco, permitindo quesobressaísse sua cor tentadora. A mulata era um mulherão; quer pela altura, quer porseus formosos contornos. Uma verdadeira escultura viva. Bárbara dançava segurando um véu numa das mãos e não desviava seu olhar domeu. Mesmo assim, furtivamente eu também admirava sua monumental amiga. Afinal,aquela dança estimulava os desejos e estes não têm limites... Seria impossível permanecer indiferente ao vê-las dançando e seduzindo oshomens. Confesso que fiquei com certo ciúme de Bárbara. Enquanto as duas encantavam o público, eu permanecia quieto na mesa. Com ouhumor variando entre satisfeito e perturbado, eu lutava para controlar o ciúmes a todocusto. Desde o início da amizade com Bárbara, eu havia vasculhado sua alma, como umastrônomo curioso que observa o espaço sideral. E conseguira desvendar alguns deseus segredos, talvez os mais evidentes. Portanto, não acreditava que aquela moça quedançava entusiasmando homens e mulheres, fosse uma bruxa desalmada. 34
  35. 35. 14 Aqui e agora O relacionamento que mantive com as amigas de Bárbara influenciara meu modode vida. Agora eu meditava mais freqüentemente do que antes e lia intensamente osassuntos místicos. Embora ainda não estivesse no nível cultural esotérico das mulheresdo Círculo, eu conseguia conversar com qualquer uma delas, de igual para igual. Seguindo a moda da nova era, transformei a decoração do meu apartamento, compirâmides, bolas de cristal, pêndulos, pedras energéticas, budas e outros artigos. Paracompletar o ambiente esotérico, importei dos Estados Unidos, uma réplica perfeita deum Crânio de Cristal, para enfeitar minha estante de livros. Ainda neste período de transformações, comecei à cuidar mais do corpo e doespírito. E também passei à preocupar-me com o destino do nosso Planeta, dahumanidade e dos animais. Coisas que antes pouco me passava pela cabeça. Procurei levar uma vida mais regrada, sem excessos de qualquer ordem. Comiaequilibradamente, evitando exageros de sal, gordura, álcool e açúcar. Para completar eusempre dormia nas horas certas. Ao me alimentar eu tomava por base uma regra tibetana: "encher o estômagocom cinqüenta por cento de alimentos, vinte e cinco por cento de líquidos e orestante manter vazio. Nunca comer ou beber alimentos quentes ou frios demais".Esta é a fórmula, segundo eles, para se viver mais e melhor. A alimentação equilibrada que eu fazia constituía-se de verduras, frutas e carnesbrancas. Para manter a forma física eu praticava exercícios de tai-chi-chuan e davaumas boas pedaladas na bicicleta ergométrica. Do ponto de vista filosófico, passei a viver o "aqui e agora". Que segundo aconcepção budista, significa viver com a mente no presente. E isso é importante para onosso equilíbrio mental; pois o passado jamais pode ser alterado e o futuro ésabidamente incerto. Dito isso, pode-se verificar a magnitude da contribuição da amizade das moçaspara o desenvolvimento e o enriquecimento do meu mundo interior. A supervisão das minhas viagens astrais pela Luci; proporcionou-me novaschances para espionar seu diário revelador, que ela sempre trazia consigo. Para minhasorte, nessas investigações descobri o endereço do Campo das Labaredas. Situava-seno final da Rua Comendador Armando Pereira, em plena Serra da Cantareira, na cidadede São Paulo. 35
  36. 36. A cerimônia ritual realizava-se uma vez por ano, na primeira lua cheia de uma"sexta-feira treze". Neste ano ocorreria no próximo dia treze de maio. Data que eupretendia estar lá para assistir o enigmático culto ao fogo. Secretamente, é claro. Certo sábado ensolarado convidei Bárbara para passearmos de moto pela cidade.Na verdade a minha intenção era espionar previamente o campo das labaredas. Coisaque eu não comentara com ninguém, nem mesmo com Bárbara. Logo que chegamos ao Bairro de Santana, decidimos entrar em um hotel situadona Rua Conselheiro Saraiva, quase na esquina com a rua Voluntários da Pátria. Lá, trancados em um pequeno e aconchegante quarto de teto espelhado, fizemosamor por um longo tempo. Não me lembro de quantas vezes possuí o corpo esguio deBárbara até a exaustão. Lembro-me que foi de muitas maneiras, até saciarmos nossasede de amor. Aquele que os amantes praticam com entusiasmo; sem medo ou receio,sem culpa ou violência. Amamos na mais perfeita harmonia que pode haver entre umhomem e uma mulher e usufruímos; como recompensa, dos prazeres irrestritos. Em seguida fui tomar uma merecida ducha quente para relaxar. Enquanto isso,Bárbara ficara estatelada na cama; mergulhada em um profundo êxtase, do tipo que sóas mulheres conhecem após o clímax sexual. O rosto de Bárbara estampava o retrato da felicidade. Confesso que senti umaenorme satisfação ao observá-la assim. Enquanto a água quente rolava pelo meu corpo, eu olhava o movimento da rua poruma pequena janela ao lado do chuveiro. No exato instante que um vento insistenteagitava os galhos de uma árvore frondosa; enquanto os carros apressados desciam aladeira da Voluntários. O vai-e-vem das pessoas na calçada me fez lembrar que estavaem uma cidade grande e enigmática. Naquele instante, nuvens carregadas trazidas pelos ventos, espantavam osúltimos raios de sol, antecipando a noite paulista. Quando saímos do hotel a noite já havia tomado a cidade. Mesmo assimcontinuamos o passeio em direção à Serra da Cantareira. Prossegui "voando baixo" pela Avenida Nova Cantareira, até que notamos o ar frioe puro das montanhas que se aproximavam. Na altura da bifurcação entre a Nova Cantareira e a Avenida Senador AntônioErmírio de Moraes avistei o Campo das Labaredas. Ele estava à minha direita, talvez auns dois quilômetros dali. AS labaredas gigantes do campo se destacavam nas trevas da noite, dançando aosabor dos ventos. De tempos em tempos, elas se avolumavam e explodiam em todas asdireções; lançando perigosas línguas de fogo que lambiam a escuridão. Aquela visãome emocionou bastante. 36
  37. 37. O local das chamas é precisamente o aterro sanitário na Vila Albertina. Umenorme campo gramado, que possui toneladas de lixo enterrado embaixo da suasuperfície. O lixo orgânico em decomposição produz um gás tóxico, que sai para a superfícieatravés de dutos metálicos, em cujas extremidades são acesas as chamas que evitarãoexplosões ou poluição atmosférica. Durante anos a fio estas chamas são mantidasacesas pelos gases emanados do lixo enterrado. A meu ver, esse processo é umdescomunal desperdício de energia. O gás consumido inutilmente pelas chamas poderiaser utilizado para fins econômicos. Próximo ao local, estacionei a moto para admirarmos o belo espetáculo que das"chamas douradas" proporcionavam. − Que lindo! - exclamou Bárbara excitada. − É mesmo - respondi seco, não desviando o olhar das chamas enormes. Estava satisfeito e orgulhoso por ter descoberto o local secreto onde as moçasrealizavam os rituais da lua cheia. Meu próximo objetivo seria observá-las dançando alie certificar-me se elas praticavam ou não os abomináveis rituais da magia negra. Paraisso ficaria escondido naquelas imediações, no dia treze de maio, sexta-feira de luacheia... 37
  38. 38. 15 Em busca da sabedoria A sabedoria é semelhante à água pura de uma fonte natural. Os sedentos que abebem rapidamente, não tomam consciência desta pureza. Assim falou um mestre zen-budista a um discípulo seu. Em busca da sabedoria, li muitos livros sobre Meditação, Tao, Zen-Budismo,Budismo, Hinduísmo. Naquele momento estava terminando de ler livro "Bhagavad Gita";escrito há mais de 5 mil anos, considerado um dos pilares da sabedoria humana. Curiosamente, o Bhagavad é estudado por cientistas dos países ocidentaisadiantados. Acreditam eles que se interpretarem corretamente os livros sagrados dosVedas, conseguirão novas bases teóricas para impulsionar as ciências. Mas não foi apenas a leitura que me confortou. Na meditação e no auto-conhecimento encontrei a paz interior, tão necessária ao equilíbrio psíquico. Graças aomeu próprio esforço, acalmei meu espírito perturbado e tornei-me mais compreensivocom as outras pessoas. E isso me fez um bem enorme. Interessei-me também por assuntos que ocorreram no passado, principalmentesobre a extinção dos Dinossauros. Pesquisando em livros e revistas, descobri que um meteoro enorme caiu naperiferia de São Paulo. Isso ocorreu há mais de 30 mil anos. A explosão causada pelopor ele produziu uma cratera de 3,6 quilômetros de diâmetro por 450 metros deprofundidade. Se aquele meteoro tivesse caído atualmente, arrasaria toda a cidade deSão Paulo. Minha curiosidade sobre o assunto era tamanha, que certo sábado de manhãresolvi conhecer a tal cratera. Peguei o "trator" e fui até lá. Chegando em Colônia, situada às margens da represa Billings, aluguei umultraleve para sobrevoei o local onde aconteceu a catástrofe. Visto do alto, a cratera é interessante e faz suscitar na mente as mais fantásticasespeculações acerca daquela tragédia fatal. Entretanto, este patrimônio histórico naturalestá ameaçado, devido às inúmeras construções que proliferam borda da imensacratera. Portanto, é necessário que as autoridades tomem providências urgentes, parasalvar o lugar da degradação ambiental. Sobrevoando o local durante meia hora, imaginei o tremendo impacto que aquelaenorme bola de rocha incandescente provocou ali. Estima-se que o poder daquelaterrível explosão equivaleu ao de centenas de bombas de hidrogênio. E, provavelmente,dizimou muitos animais pré-históricos da região. Apaixonado por astronomia, de vez em quando espio o céu com minha poderosaluneta. Anos atrás, com essa mesma luneta, consegui avistar o cometa Halley, no céuda cidade de Itapecerica da Serra. O cometa apareceu tímido no céu e lembrava oplaneta Vênus. Infelizmente ele não possuía aquela exuberante calda avistada nasoutras vezes. O cometa Halley só aparece a cada setenta anos. Da próxima vez que ele retornareu certamente estarei descansando em paz no cemitério. 38
  39. 39. Entre 18 e 29 de julho daquele ano de 1994, o cometa Shoemaker-Levy colidiucom o planeta Júpiter. Foi a primeira vez que o homem acompanhou uma colisão destaproporção. Se ele tivesse colidido a Terra, teria dado fim à vida no planeta; tamanha apotência da explosão. A velocidade do Shoemaker-Levy era incrivelmente fantástica. Muito maior do queos poderosos foguetes podem alcançar. Só através do poder mental podia-se chegar atéele. Eu continuava fazendo as viagens astrais, sempre supervisionado de perto pelaprestimosa Luci. Certa vez voltei ao Nepal, e sobrevoei Katmandu sua capital. Naoportunidade, uma espessa neblina encobria parcialmente suas ruas e construções.Nem a enorme lua cheia pude ver. Fazia um frio tão intenso que as ruas estavamdesertas. Mas, assim que amanheceu, o povo saiu para as ruas contente e se dirigiam aum suntuoso pagode construído com cinco telhados sucessivos, que se afunilavam.Observei que na parte de baixo do templo, havia uma escadaria ladeada por budas,elefantes e dragões e terminava no portão principal que dava para as ruas. Muitos visitantes chegavam à cidade naquele momento, para comemorar onascimento de Gautama Sidarta, o Buda. Era o tradicional festival do Vesak, que ocorreno mês de maio. Na periferia da cidade, jovem que carregava um cesto de fibra vegetal nas costas;atravessava uma ponte pênsil, feita com tábuas e cordas, sobre um profundo precipício.Aquele jovem, provavelmente um agricultor ou comerciante, também seguia em direçãoà cidade. Do outro lado da ponte, um cão ladrava para ele e quebrava o silênciomonótono do vale. Na dimensão do astral eu podia ouvir o pulsar compassado e calmo do meucoração dentro corpo estático. Havia uma ligação perfeita entre o espírito que vagavalivre e o corpo material. Romper essa frágil ligação acarretaria no que as pessoaschamam de morte. Ou seja, a libertação definitiva do espírito do corpo. Contudo, euestava plenamente consciente de que transitava em terras estranhas. Sabia quandomeu espírito deveria regressar à sua morada e ele agia conforme minha vontade. Continuando a viagem, na velocidade do pensamento, cheguei a um lugarestranho e sem habitações, que possuía um céu azul com algumas nuvens brancasesparsas. No solo abaixo de mim, milhões de flores coloridas embelezavam a paisagemna base das montanhas. Novamente, em um piscar de olhos, o cenário mudou. Surgiu a noite com o céuabarrotado de estrelas cintilantes. Onde uma lua prateada e enorme iluminava umdeserto imenso. No qual, um vento insistente e ruidoso removia a areia e formavaimensas dunas itinerantes. Adiante, nas montanhas, os lobos choravam para a lua.Perto dali, Indiferente a tudo mais, uma caravana de peregrinos seguia pacientementeem direção à cidade sagrada de Meca. Que lugar lindo! Vivendo no outro lado do mundo, nem imaginava que um diaconheceria um lugar assim... 39

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