Successfully reported this slideshow.
We use your LinkedIn profile and activity data to personalize ads and to show you more relevant ads. You can change your ad preferences anytime.

A máquina do mundo análise

Literature

  • Login to see the comments

A máquina do mundo análise

  1. 1. A Máquina do Mundo A intertextualidade e o discurso filosófico no poema de Marcos Siscar e Carlos Drummond de Andrade1. IntroduçãoOs diversos poemas dedicados ao título “A Máquina do Mundo” constituem o discurso objeto dapresente análise. A intertextualidade dá-se entre os poemas “Eneida”, de Virgílio, “A DivinaComédia”, de Dante Alighieri, “Os Lusíadas”, de Camões, “A Máquina do Mundo”, de Drummond, “AMáquina do Mundo Repensada”, de Haroldo de Campos e “A Máquina do Mundo”, de Siscar.Analisaremos a formação discursiva presente no poema “A Máquina do Mundo”, de Drummond, e aintertextualidade interna, aquela na qual um discurso se define por sua relação com discursos domesmo campo (Brandão, 1995), bem como a relação de dependência que o poema de Siscar estabelececom o de Drummond.2. EthosA partir do discurso presente em “A Máquina do Mundo”, chegamos ao ethos discursivo. SegundoMaingueneau (2008):“ - o ethos é uma noção discursiva, ele se constrói através do discurso, não é uma “imagem” do locutorexterior a sua fala;- o ethos é fundamentalmente um processo interativo de influência sobre o outro;- é uma noção fundamentalmente híbrida (sócio-discursiva), um comportamento socialmente avaliado,que não pode ser apreendido fora de uma situação de comunicação precisa, integrada ela mesma numadeterminada conjuntura sócio-histórica.”O ethos caracterizado no poema é científico, segundo Mangueneau, apud Brunelli (2008, p. 133) são“as características do sujeito-enunciador reveladas pelo próprio modo como esse sujeito enuncia e nãoas que, porventura, ele mesmo atribua a si”.O discurso de “A Máquina do Mundo” começa a ser formado primeiramente no poema de Camões, nocanto X, estrofe 80, quando a deusa Tétis guia Vasco da Gama rumo ao conhecimento, ao Saber:“Vês aqui a grande Máquina do Mundo,etérea e elemental, que fabricadaassim foi do Saber, alto e profundo,que é sem princípio e meta limitada.Quem cerca em derredor este rotundoglobo e sua superfície tão limada,é Deus: mas o que é Deus ninguém o entende,que a tanto o engenho humano não se estende”
  2. 2. O saber é escrito com inicial maiúscula por estar no lugar de Deus. Os termos “etérea e elemental”dizem respeito aos elementos constitutivos do Universo, “terra, ar, água e fogo”, o “elemental”; e aoutra parte, a não-elemental, seria formada de “éter”, a “etérea”. O ethos é o conhecimento divino,onisciente, e “A Máquina do Mundo” é, portanto, um elemento fantástico para a aquisição doconhecimento.3. Drummond & SiscarO elemento fantástico é mantido no poema de Drummond, no qual o sujeito poético está emmovimento, caminhando entre pedras, mas, diferente de Vasco da Gama, não possui um guia e seguesozinho. “A Máquina do Mundo”, aparecendo, se realiza como oferta de conhecimento, e, no entanto, érejeitada pelo sujeito poético.“A Máquina do Mundo”, para o sujeito poético do poema de Siscar, é uma abstração, não possuiexistência concreta. A referência ao poema de Drummond está presente apenas no título, e, sem aintertextualidade, o poema perderia a força literária. Para a leitura do poema de Siscar, é precisoconhecer o poema de Drummond, essa dependência amplia a extensão do poema siscariano: de noveversos, passa para nove versos mais as trinta e duas estrofes do poema do Drummond.Há uma irônia no poema de Siscar, esta dá-se ao atribuir a força e poder extra-humano, presentes nopoema de Drummond, ao rio, passivo e indiferente. A voz poética, em Siscar, zomba da crença alémmundo, não está em movimento e apenas contempla o rio, este, ocupando o lugar da máquina, nadaoferece, muito embora o sujeito poética anseie.A subjetividade é bem marcada no poema de Drummond, em várias passagens: “E como eupalmilhasse vagamente”/ “se misturasse ao som de meus sapatos”/ “e de meu próprio serdesenganado”/ “assim me disse”/ ““O que procuraste em ti ou fora de/ teu ser restrito e nunca semostrou,/ (...) olha, repara, ausculta”/ “que nem concebes mais, pois tão esquivo”/ “em que teconsumiste... vê, contempla,/ abre teu peito para agasalhá-lo.””/ “e me chamou para seu reino augusto,/afinal submetido à vista humana.”/ “Mas, como eu relutasse em responder”/ “que vou pelos caminhosdemonstrando”/ “passasse a comandar minha vontade”/ “baixei os olhos, incurioso, lasso”/ “que seabria gratuita a meu engenho.”/ “enquanto eu, avaliando o que perdera,/ seguia vagaroso, de mãospensas.”No poema de Siscar a subjetividade aparece raramente, no início e no final do poema, e, ainda assim,na forma plural, que é uma marca de impessoalidade usada nos textos científicos: “do rio só se sabeque nos cerca”/ “do rio só se sabe do alto que nos fixa”.4. O discurso filosóficoEm ambos os poemas, a filosofia aparece associada ao conhecimento científico, particularmente aoconhecimento formal adquirido no meio acadêmico: em Siscar (2003) a marca do científico está naslinhas cinco e seis, no “astrolábio primitivo”, instrumento antigo usado para medir a altura dos astros, etambém no “horizonte esquadrinhado em graus”, como, por exemplo, na marca dos fusos horários.Esse trabalho de medição indica a intervenção do homem na natureza, e, por metonímia, as descobertascientíficas a respeito do mundo nas diferentes áreas do conhecimento. Representa o conhecimento pormeio do trabalho de pesquisa.Em Drummond, a referência ao científico está na última linha da estrofe 12, até o final da estrofe 16, naforma de discurso direto, proferido pela “Máquina do Mundo”:
  3. 3. “O que procuraste em ti ou fora deteu ser restrito e nunca se mostrou,mesmo afetando dar-se ou se rendendo,e a cada instante mais se retraindo,olha, repara, ausculta: essa riquezasobrante a toda pérola, essa ciênciasublime e formidável, mas hermética,essa total explicação da vida,esse nexo primeiro e singular,que nem concebes mais, pois tão esquivose revelou ante a pesquisa ardenteem que te consumiste... vê, contempla,abre teu peito para agasalhá-lo.”O conhecimento é adquirido mediante pesquisa e, “O que procuraste em ti ou fora de/ teu ser restrito enunca se mostrou”, é o objeto da pesquisa, agora ofertado pela “Máquina do Mundo”. A referência aomeio acadêmico aparece na forma de crítica: “(...) essa ciência/ sublime e formidável, mas hermética”,referindo-se ao meio restrito no qual o conhecimento científico circula, ou seja, o que é produzido pelaacademia tende a permanecer na academia - o conhecimento não é compartilhado, não é de todos. Maisadiante: “pois tão esquivo/ se revelou ante a pesquisa ardente/ em que te consumiste...”, refere-seexplicitamente à busca do conhecimento e a “Máquina do Mundo” aparece à voz poética como umatalho a esse conhecimento, como uma resposta ao pesquisador já cansado da busca.5. A sabedoria do não saberA sabedoria do “não saber” acompanha o pensamento filosófico desde a Grécia antiga. Em “Apologiade Sócrates”, a história do julgamento e condenação de Sócrates por, segundo Platão, ter-se “(...)ocupado de assuntos que não eram de sua alçada, investigando o que existe embaixo da terra e no céu,procurando transformar a mentira em verdade e ensinando-a as pessoas” (Platão, 2004, p. 66).Transcrevemos a passagem em que Platão descreve as palavras de Sócrates: “A verdade, porém, é outra, ó atenienses: quem sabe é apenas o deus, e ele quer dizer, por intermédio de seu oráculo, que muito pouco ou nada vale a sabedoria do homem, e, ao afirmar que Sócrates é sábio, não se refere propriamente a mim, Sócrates, mas só usa meu nome como exemplo, como se tivesse dito: „Ó homens, é muito sábio entre vós aquele que, igualmente a Sócrates, tenha admitido que sua sabedoria não possui valor algum‟. E por esta razão que ainda hoje procuro e investigo, de acordo com a palavra do deus, se existe alguém entre os atenienses ou estrangeiros que possa ser considerado sábio e, como acho que nínguém o seja, venho em ajuda ao deus provando que não há sábio algum.” (Platão, 2004, p. 73)Com o poema “A Máquina do Mundo”, ao recusar o conhecimento, o poeta Drummond questiona ovalor da ciência e da produção intelectual como um todo. Tempos depos da publicação deste poema, omesmo questionamento torna-se explicito, em entrevista do poeta Drummond publicada no livro“Tempo, vida, poesia”:
  4. 4. “(...) os poemas, os quadros, as esculturas, os nobres edifícios não evitaram nem atenuaram a barbárie extrema de certas épocas, e a brutaidade habitual nos choques de interesses em qualquer época, e até às vezes extraíram sua seiva de crueldade desses fenômenos. E isso me dá a sensação incorfortável da inutilidade vaidosa do ato de escrever.” (Drummond, 1987, p. 126)O ato de pensar, de entender a vida, não substitui o ato de viver, de estar na vida. O conhecimento nãosatisfaz o inconsciente e buscar o conhecimento talvez seja mais gratificante que encontrá-lo - coisaque encerraria a busca. O filósofo Nietzsche faz uma reflexão a respeito de sua filosofia, confessando àirmã, por carta: “A contradição de minha existência está em que tudo o que eu, como filósofo radical, necessito de modo radical – estar livre de profissão, de mulher e filhos, de amigos, da sociedade, da pátria, da fé, estar livre quase de amor e ódio – é também o que sinto como outras privações, pois felizmente sou um ser vivo, e não um aparelho de abstrações.” Nietzsche (2001, p. 13).Ao filósofo Nietzsche não basta conhecer as razões das ações humanas, é também preciso, como serhumano, praticar tais ações, inclusive com os erros: “(...) a vida não é excogitação da moral: ela querilusão, vive da ilusão...” Nietzsche (2002, p. 8).O que nos é desconhecido, inconsciente, tem tanto valor quanto o conhecido, consciente, e a vozpoética no poema de Drummond entende isso e propõe que certos sentimentos profundos acerca de simesmo, ficam melhores onde estão - no inconsciente.6. ConclusãoO discurso presente em ambos os poemas celebra a vida presente, sem qualquer ilusão de plenitude,perfeição, ou idealização. Em Siscar, entendemos não ser possível ao ser humano, algo extra-humanoalcançado sem esforço, sem trabalho. A voz poética diante do rio é irônica quanto a uma possívelaquisição fácil, sem trabalho; em Drummond, a voz poética nega o conhecimento por saber que oinconsciente, o não conhecido, é tão ou mais importante que qualquer possível conhecimento.A literatura e, por extensão as artes, nos toca e ganha sentido justamente porque somos incompletos efalhos. Não precisaríamos da literatura caso compreendêssemos todos os fenômenos da vida, casoestivéssemos acima da literatura. É nossa visão limitada que faz interessante o texto, em especial otexto capaz de levar nossa visão, nosso entendimento de mundo, mais além.
  5. 5. Referência Bibliográfica:ANDRADE, Carlos Drummond de. A máquina do mundo. In: Antologia poética, p. 281. Rio deJaneiro: Record, 2002.______________________________. Tempo, vida, poesia. Rio de Janeiro: Record, 1987.BRANDÃO, Helena Hathsue Nagamine. Introdução à análise do discurso. Campinas: Unicamp, 1995.BRUNELLI, Anna Flora. Confiança e otimismo: intersecções entre o ethos do discurso de auto-ajudae o do discurso da Amway. In: Ethos discursivo. Motta, Ana Raquel e Salgado, Luciana (orgs.). SãoPaulo: Contexto, 2008, pp. 133-148.MAINGUENEAU, Dominique. A noção de ethos discursivo. In: Ethos discursivo. Motta, Ana Raquele Salgado, Luciana (orgs.). São Paulo: Contexto, 2008, pp. 9-29.NIETZSCHE, Friedrich W. Ecce homo: como alguém se torna o que é. Tradução de Paulo César deSouza. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.______________________. Humano, demasiado humano. Tradução de Paulo César de Souza. SãoPaulo: Companhia das Letras, 2002.PLATÃO. Apologia de Sócrates. In: Os Pensadores, p. 73. São Paulo: Nova Cultural, 2004.SISCAR, Marcos. A máquina do mundo. In: Metade da arte, p. 163. São Paulo: Cosac & Naify, 2003.http://nicolas-pelicioni.blogspot.com/

×