Economia – a economia intertemporal

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Economia – a economia intertemporal

  1. 1. 1 “A arte de ensinar Economia de uma maneira simples, sem mistérios”. De Maria Eulália, uma ex-aluna. AULA 3: A ECONOMIA INTERTEMPORAL PARTE 1: O CONSUMO Observação importante: O tópico 6 do programa de Economia do concurso de AFRFB – que versa sobre Economia Intertemporal - é muito longo e muito analítico. Por isso, resolvemos dividi-lo em quatro partes: Na Parte I, objeto desta Aula 3, trataremos do Consumo; na Parte II, estudaremos o Investimento; na Parte III, trataremos da restrição orçamentária do governo e a equivalência ricardiana; e, na Parte IV, vamos enfocar o modelo de crescimento de Solow que tem sido objeto de questões em praticamente todas as provas de Economia do AFRF. Apenas um alerta: trata-se de assuntos um tanto “chatos” para um aluno, principalmente quando ele não tem uma base sólida de conhecimentos de Economia. Mas, como faz parte do programa, não temos como evitá-los...1. Introdução As decisões de consumo dos indivíduos afetam a atividade econômicacomo um todo, tanto no longo como no curto prazo. Para a economia, éimportante saber como as pessoas decidem quanto de seus rendimentoseles vão consumir hoje, e quanto pretendem poupar para consumir nofuturo. A curto prazo, decisão de consumir e de poupar é crucial para adeterminação do nível da demanda agregada, já que, de uma formageral, o consumo corresponde a dois terços do produto do país. Já a longo prazo, a decisão de consumir e de poupar é importantepara a teoria do crescimento econômico. Por exemplo, no modelo decrescimento de Solow – que estudaremos numa outra aula mais à frente– a taxa de poupança da economia é um determinante básico de capitale, daí, do nível de bem-estar da população. Neste modelo, a taxa depoupança mede quanto de sua renda a geração atual está disposta aguardar para o seu próprio futuro e para as gerações futuras. Foi visto na Economia I que o consumo, nos modelos keynesianos, éuma função da renda disponível - ou, C = a +bYd), onde b é a
  2. 2. 2propensão marginal a consumir, sendo a magnitude de b o principaldeterminante dos multiplicadores dos gastos autônomos. No entanto, com o passar dos anos pós-keynes, surgiram novaspesquisas e novas proposições teóricas sobre o consumo e seusdeterminantes, contestando, na maioria das vezes, a propostakeynesiana sobre o assunto. Nesta Aula, vamos apresentar as principaiscorrentes explicativas da função consumo, apresentando a versão detrês proeminentes economistas, começando, antes, por revisar a teoriakeynesiana a respeito.2. A função consumo keynesiana – uma crítica Como se sabe, Keynes escreveu sua famosa Teoria Geral do Juro, doEmprego e da Moeda na primeira metade dos anos 30 do séculopassado. Por falta de base estatística e de instrumentos técnicos, comomicrocomputadores, por exemplo, - inexistentes àquela época, - Keynesteve de fazer uma série de conjecturas sobre o comportamento dafunção consumo, fruto mais da observação e análise do quotidiano doque de levantamentos “científicos” dos dados. Provavelmente, em função disso, ou seja, da falta de pesquisaempírica, três conjecturas afirmadas por Keynes foram, mais tarde,objeto de críticas e até mesmo contestações, a saber: i) Keynes supôs que a propensão marginal a consumir - um dosseus conceitos mais inovadores para a teoria econômica - situava-seentre zero e um, afirmando que “...os homens estão dispostos, emregra e em média, a aumentar seu consumo à medida que a rendaaumenta, mas não tanto quanto o aumento da renda”. Ou seja, se oindivíduo ganhar 100 reais extras, ele deverá gastar uma boa partedisso e poupar uma outra parte. ii) Keynes achava (e afirmava) que a propensão média a consumir– que é dada pela razão entre o consumo total e a renda disponível - caià medida que a renda aumenta. Em outras palavras, para ele os ricostêm uma tendência a poupar maior que os mais pobres. E, iii) Para Keynes, o principal determinante, se não o único, doconsumo era a renda, e que a taxa de juros não tinha praticamentenenhum papel relevante neste processo. Essa afirmativa contrastavafrontalmente com a opinião dos economistas clássicos1.1 Embora o período da Escola Clássica tenha se encerrado por volta de 1880, Keynes chamou de“clássicos” todos os economistas que vieram antes dele.
  3. 3. 3 Vale ressaltar que várias pesquisas e estudos levados a efeito nosprimeiros anos após ser publicada a Teoria Geral pareciam confirmar avalidade dessas proposições keynesianas (pelo menos no curto prazo) –o que lhes trouxe bastante sucesso nos meios acadêmicos nos seusprimeiros anos. Ocorre que, tomando por base a função consumo keynesiana, algunseconomistas, àquela época, começaram a fazer previsões sinistras sobreo futuro da economia capitalista, argumentando mais ou menos oseguinte: se é fato que o consumo vai caindo à medida que a rendacresce – ou seja, a parcela da renda destinada à poupança seria entãocada vez maior – como seria possível conseguir mais e mais projetos deinvestimentos para absorver toda esta poupança, de forma que aeconomia permaneça em equilíbrio? O resultado seria que, com umconsumo caindo proporcionalmente, e sendo impraticável ou mesmoimpossível substituir integralmente a poupança por gastos com novosinvestimentos, a demanda agregada seria insuficiente para manter aeconomia próxima do pleno emprego, decorrendo daí um estado derecessão permanente e cada vez mais agudo. No entanto, felizmente para a economia, não foi isso o que seobservou no período pós 2ª Grande Guerra. Embora nesse período aprodução e a renda registrassem níveis muitíssimos maiores do que nosanos anteriores, não se observou nenhum aumento desproporcional dataxa de poupança. Esta tese foi reforçada pelos estudos sobre renda e consumodesenvolvidos por Simon Kuznets, cobrindo o período de 1869 a 1940,estudos estes que mostraram uma relação bastante estável, ao longodos anos, entre consumo e renda. Tais achados negavam a hipótese deKeynes de que a propensão média a consumir cairia à medida que arenda aumentasse. Ficaram no ar algumas questões sem respostas, do tipo: porque aspesquisas de curto prazo pareciam embasar a hipótese keynesiana, masfalhavam quando se tratava de longo prazo? As conclusões indicaramque havia, de fato, duas funções consumo: uma para o curto prazo –que confirmava as hipóteses keynesianas sobre o consumo - e outrapara o longo prazo que, contrastando com as conjeturas de Keynes,indicavam uma propensão média a consumir relativamente constante. A partir dessas constatações, os economistas passaram a procurarexplicações para essa aparente contradição. Somente na década de1950, apareceram explicações convincentes sobre essas divergências,sendo as principais a de Franco Modigliano e a de Milton Friedman.Antes porém de apresentarmos as explicações desses dois economistaspara aquele fenômeno, vamos examinar, primeiro, a contribuição de
  4. 4. 4Irving Fisher para a teoria do consumo das famílias – que serviu de basepara os estudos de Modigliano e de Friedman.3. A restrição orçamentária intertemporal das famílias – o que é isso? A função consumo keynesiana relaciona o consumo presente com arenda atual, mas esta relação é um tanto incompleta. Na verdade, aodecidirem sobre quanto consumir e quanto poupar, as pessoas levamem conta não só o presente mas também o futuro. Quanto maisconsumirem hoje, menos poderão consumir amanhã. A maioria das pessoas preferiria aumentar a quantidade e/ou aqualidade dos bens e serviços que consome: comprar melhores roupas,viajar mais, ir a bons restaurantes. Mas, sofrem uma restrição: seuconsumo é limitado pelo seu nível de renda – o que, na teoriamicroeconômica é chamado de restrição orçamentária intertemporaldas famílias. Esta restrição orçamentária intertemporal mede osrecursos disponíveis para consumo hoje e no futuro. O economista Irving Fisher desenvolveu um modelo sobre comoconsumidores racionais tomam suas decisões envolvendo períodosdiferentes, isto é, envolvendo opções intertemporais. Vejamos comofunciona este modelo: Para simplificar, vamos imaginar um consumidor que tem doisperíodos de vida: o período 1 – que corresponde à sua juventude - e operíodo 2 - que representa sua velhice. No período 1, o consumidorganha a renda Y1 e consome C1, e, no período 2 ele ganha a renda Y2 econsome C2 . Assim, no período 1, a poupança (S) é igual à renda menos oconsumo. Ou seja, S = Y 1 – C1 (1) Já no período 2, o consumo é igual à poupança acumulada, inclusiveos juros recebidos sobre aquela poupança, mais obviamente a rendadeste período. Ou seja, C2 = (1+r)S + Y2. (2) onde, r é a taxa de juros real. Assim, por exemplo, se r=10%, para cada R$ 1 de poupança noperíodo 1 o consumidor pode contar com um extra de R$ 1,10 de
  5. 5. 5consumo no período 2. Vale observar que, como por hipótese só existem2 períodos, o consumidor não poupa no período 2. Observe mais que, se o consumo no período 1 for maior que a suarenda neste período, o consumidor estará, então, tomando emprestado,e sua poupança neste período é negativa. A restrição orçamentária do consumidor pode ser obtida pelacombinação das equações (1) e (2), inclusive substituindo S da equação(2) pelo seu valor dado na equação (1), resultando: C2 = (1+r)(Y1-C1) + Y2 (3) Para tornar mais fácil a interpretação da equação (3), podemosrearranjar os seus termos, colocando do lado esquerdo os termos quetêm consumo, obtendo: (1+r)C1 + C2 = (1+r)Y1 + Y2 (4) Dividindo os dois lados de (4) por 1+r, temos: C1 + C2/(1+r) = Y1+ Y2/(1+r) (5) A equação (5) relaciona o consumo dos dois períodos com a rendados dois períodos. Ou seja, esta é a sua restrição orçamentáriaintertemporal. Observe que, se a taxa de juros é zero, a restrição orçamentáriamostra que o consumo total nos dois períodos é igual à renda total nosdois períodos. Sendo a taxa de juros maior que zero, o consumo futuroe a renda futura devem ser descontados pelo fator 1+r. Isso ocorreporque se o consumidor ganha juros sobre a renda corrente poupada, arenda futura vale menos que a renda corrente. Uma análise gráfica talvez contribua melhor para o entendimento doque é a restrição orçamentária intertemporal. A Figura 1 mostra omáximo de renda e de consumo que o consumidor pode ter no período 1e no período 2. No eixo horizontal, aparece, além do consumo totalpossível no período 1 (C1), o máximo de renda disponível que oconsumidor poderia obter quando somamos a renda dos dois períodos,descontada a do período 2 pelo fator 1+r. No eixo vertical, além doconsumo total possível no período 2 (C2), aparece o máximo de rendaque o consumidor poderia ter para gastar (dada pela renda do período 2mais a eventual poupança do período 1 acrescida dos juros). O limitemáximo da renda total e do consumo total nos dois períodoscorrespondem, respectivamente, aos pontos A e B. A reta que liga
  6. 6. 6estes dois pontos constitui, então, a restrição orçamentária doconsumidor. Além daqueles dois pontos, há que se considerar ainda oponto A. Consumo no 2° período, C2 (1+r)Y1 + Y2 B Restrição orçamentária do consumidor Y2 A Empréstimo C Y1 Y1 + Y2/(1+r) Consumo no 1° período, C1 Figura 1 Observe que, no ponto A, o consumidor estaria consumindoexatamente sua renda em cada período (C1 = Y1 e C2 = Y2), nãohavendo, portanto, nem poupança nem empréstimos entre os doisperíodos. No ponto B, o consumidor nada consome no primeiro período(C1 = 0), poupando toda a renda. Assim, o consumo no segundo períodoC2 é (1+r)Y1 + Y2. Já no ponto C, o consumidor não pretende consumirnada no segundo período (C2 = 0), e toma emprestado tanto quantopossível contra a renda do segundo período. Resumindo o que está na Figura 1: Esta Figura mostra ascombinações de consumo no primeiro e no segundo períodos que oconsumidor pode escolher. Se ele escolhe os pontos A e B, o consumidorconsome menos que a sua renda no primeiro período e poupa o restopara o segundo período. Se escolhe os pontos A e C, ele consome maisdo que a sua renda no primeiro período e toma emprestado paracompensar a diferença. Vale observar que essas são apenas três das muitas combinações deprimeiro e segundo períodos que o consumidor pode se permitir. Na
  7. 7. 7verdade, todos os pontos na linha, de B a C, estão disponíveis para oconsumidor.4. As preferências do Consumidor e as curvas de indiferença As preferências do consumidor em relação ao consumo nos doisperíodos são geralmente representadas por curvas de indiferença. Uma curva de indiferença mostra as combinações de consumo noprimeiro período e no segundo período que tornam o consumidorigualmente satisfeito. A Figura 2 mostra duas das muitas curvas deindiferença com que o consumidor pode se defrontar. Vamos entender bem o que representa uma curvas de indiferença:pontos situados sobre uma mesma curva de indiferença oferecem aoconsumidor o mesmo nível de satisfação e, portanto, para ele éindiferente situar-se nos pontos A, B e C, da CI1. Já as curvas deindiferença mais altas – como a CI2 - oferecem maiores combinações deconsumo e, por isso, são preferidas pelo consumidor em comparaçãocom as curvas mais baixas – como CI1. Assim, ele prefere o ponto Dem relação a qualquer daqueles três pontos, uma vez que D situa-senuma curva de indiferença mais alta. Consumo no 2° período, C2 A B D CI2 C CI1 Consumo no 1º período, C1 Figura 2 Uma observação importante: a inclinação em qualquer ponto dacurva de indiferença mostra o quanto de consumo no segundo períodoo consumidor exige para compensar a redução de 1 unidade doconsumo no primeiro período. Esta inclinação fornece a taxa marginal
  8. 8. 8de substituição (TMS) – taxa esta que indica o quanto o consumidorestá disposto a substituir o consumo no primeiro período pelo consumono segundo período.A otimização e o equilíbrio do consumidor Mas, em que curva de indiferença e em que ponto desta curva iráo consumidor se situar? Para responder esta questão, temos de colocarnum mesmo gráfico a reta da restrição orçamentária e as curvas deindiferença. O consumidor gostaria de escolher a curva de indiferençamais alta. Mas, este desejo esbarra nos recursos ou renda de que dispõee que definem sua reta orçamentária. A Figura 3 ilustra bem as escolhas com que se defronta oconsumidor. De acordo com sua restrição orçamentária, o consumidorpoderia escolher entre os pontos A, B e C. Sua escolha, logicamente,recairá sobre o ponto C – situado sobre a CI3 – que é tangente à retaorçamentária e que, portanto, é a mais alta curva de indiferença que elepode atingir. Claro que ele preferiria o ponto D, mas este ponto ou nívelde consumo não é atingível com renda de que ele dispõe. Consumo no 2° período, C2 D C CI4 CI3 B CI2 A CI1 Consumo no 1° período, C1 Figura 4 Em resumo, o consumidor alcança seu nível mais alto desatisfação ao escolher o ponto da restrição orçamentária que está na
  9. 9. 9curva de indiferença mais alta. No ponto ótimo, a curva de indiferença étangente à restrição orçamentária. Note-se que no nível ótimo, isto é, no ponto C, a inclinação da curvade indiferença é igual à inclinação da reta orçamentária – que dá a taxamarginal de substituição TMS. Esta inclinação da reta orçamentária édada por 1 mais a taxa de juros real. Ou seja, no ponto C, TMS = 1+r (6) Duas observações importantes para nossos objetivos aqui dizemrespeito aos efeitos de eventuais variações da renda e de variações nataxa de juros real sobre o consumo. No caso de variações da renda, deve ficar claro que, caso ocorra umaumento na renda do consumidor, no primeiro período ou no segundoperíodo, a reta da restrição orçamentária se desloca para fora e paracima. Se o consumo nos dois períodos é de bens normais, este aumentoda renda leva o consumidor a atingir uma curva de indiferença maisalta, indicando que o consumo desses bens se elevou nos dois períodos. Uma das conclusões que se pode tirar da análise anterior é que,independentemente do período em que tenha ocorrido o aumento darenda, o consumidor estende seu consumo pelos dois períodos. Estecomportamento costuma ser chamado de nivelamento do consumo. Ouseja, como o consumidor pode emprestar parte de sua renda ou tomaremprestado entre um período e outro, o período da renda se tornairrelevante para a definição do quanto ele consome. Observe que esta conclusão é muito diferente da conclusãokeynesiana. Keynes afirmava que o consumo corrente de um indivíduodepende em sua maior parte de sua renda presente. Já o modelo deFisher diz que, em vez disso, o consumo baseia-se nos recursos queconsumidor espera ter ao longo de sua vida. Quanto às variações na taxa de juros real e seus efeitos sobre oconsumo, sabemos que o consumidor pode optar por poupar no período1 e consumir mais no período 2, ou tomar emprestado no período 1,aumentando seu consumo neste período e reduzindo seu consumo noperíodo 2 – quando vai pagar o empréstimo. Vamos supor que o consumidor opte por poupar no primeiro período,reduzindo, então, seu consumo neste período e aumentando sua rendae conseqüentemente o seu consumo no segundo período. Graficamente,isso implica um giro da reta da restrição orçamentária, interceptando oeixo horizontal num valor menor que anteriormente, e o eixo verticalnum valor maior. Tal rotação possibilita que o consumidor atinja uma
  10. 10. 10curva de indiferença mais alta, implicando uma nova combinação deconsumo dos dois períodos, com ligeira redução no consumo do período1 e um maior consumo no período 2. Como a nova combinação deconsumo situa-se numa curva de indiferença mais alta, o consumidorobrigatoriamente está mais satisfeito agora do que antes. Apenas um detalhe: os economistas decompõem o impacto de umaumento na taxa de juros real sobre o consumo em dois efeitos: o efeitorenda e o efeito substituição. Os manuais de microeconomia estudamesses dois efeitos em detalhes. Mas nós aqui vamos apenas defini-los: i) Efeito-renda: corresponde à mudança do consumo que resulta do movimento para uma curva de indiferença mais alta. Como sua renda, ao final dos dois períodos, será maior que antes – devido aos ganhos com os juros reais – o consumidor estará consumindo mais, no frigir dos ovos, do antes. Ademais, este consumidor vai querer consumir mais nos dois períodos do que consumia antes. ii) Efeito-substituição: corresponde à mudança na estrutura do consumo que resulta da mudança no preço relativo do consumo nos dois períodos. Ou seja, o consumidor troca parte do consumo no período 1 por mais consumo no período 2. Observe que a composição final do consumo do consumidordepende dos dois efeitos: ambos os efeitos atuam no sentido deaumentar o consumo do segundo período e, com certeza, o consumodeste período será aumentado. Já com relação ao consumo do período1, o efeito final é incerto, pois o efeito-renda (positivo) pode mais quecompensar o efeito-substituição (negativo). Feitas essas considerações, vamos analisar duas outrasimportantes teorias sobre o consumo – desenvolvidas a partir destemodelo de Irving Fisher - e que, de certa forma, contrastam com afunção consumo keynesiana.5. A hipótese do ciclo da vida Através de uma série de pesquisas e trabalhos publicados nosanos 50, o economista Franco Modigliani, tomando por base o modelode comportamento do consumidor desenvolvido por Fisher, chegou àconclusão que, diferentemente do que Keynes propôs, o consumodepende da renda auferida pelo indivíduo ao longo da sua vida. De fato, Modiglini observou que a renda varia sistematicamente aolongo da vida das pessoas. Nesta situação, as pessoas poupam na época
  11. 11. 11de renda alta (época das “vacas gordas”) e transferem esta poupançapara a época de baixa renda (época da “vacas magras”). Esta conclusãolevou-o a elaborar a sua teoria do consumo a que ele denominou dehipótese do ciclo da vida. O raciocínio de Modigliani é o seguinte: As pessoas, em suamaioria, pretendem se aposentar por volta dos 65 anos. Naaposentadoria, esperam que sua renda caia bastante, provocando,então, uma queda acentuada no nível de consumo. Assim, pensando emcomo evitar esta queda no seu padrão de vida (ou de consumo), aspessoas optam por poupar enquanto podem, isto é, enquanto estãoganhando uma renda razoável. Agora imagine a situação de um indivíduo que tem uma riquezaW, que espera viver T anos, e espera receber uma renda Y até a data dese aposentar daqui a R anos. Caso este indivíduo pretenda, quando seaposentar, manter seu nível de consumo mais ou menos como estáhoje, que nível de consumo ele deverá escolher hoje? Ou seja, qual aimplicação disso para a função consumo? Bem, os recursos do consumidor ao longo de sua vida sãocompostos pela riqueza inicial (W) e pelos recursos que ele deve auferirao longo de seus anos de trabalho (R x Y). O consumidor pode dividir osseus recursos de toda a sua vida entre os T anos que lhe restam devida. Supondo que ele queira manter seu consumo mais ou menos nomesmo nível ao longo dos anos, ele deve dividir os seus recursos totais(W + RY) pelos T anos que lhe restam de vida, consumindo em cadaano: C = (W+RY)/T (7) A partir daí, pode-se escrever esta função consumo do indivíduocomo C = (1/T)W + (R/T)Y (8) Um exemplo numérico pode ajudar no entendimento desta funçãoconsumo: suponha que o consumidor espera viver mais 40 anos etrabalhar durante 25 anos desses anos. Então, T = 40 e R=25. Assim, afunção consumo da equação (8) será dada por: C = 0,025W + 0,5Y (9) Ou seja, pela equação (9), o consumo depende não só da rendapresente mas, também, da riqueza. O que a equação (9) está dizendo éque se o consumidor receber R$1,00 extra de renda por ano, seuconsumo deve aumentar em R$0,50, e R$1,00 extra de riquezaaumenta o seu consumo em R$0,025.
  12. 12. 12 Generalizando a função consumo da equação (9) para toda aeconomia, veremos que o consumo agregado depende da renda e dariqueza, e a função consumo da economia passa a ser representada por: C = αW + βY (10) Onde, o parâmetro α é a propensão marginal a consumir decorrenteda riqueza (W) e o parâmetro β é a propensão marginal a consumirdecorrente da renda.Implicações dessa nova função consumo Pela equação (10), pode-se constatar que, se a renda (Y) cair a zero,haveria ainda um consumo igual a αW – que pode variar conforme avariação em W -, não sendo portanto um valor fixo como é a parcelaautônoma do consumo na função consumo keynesiana. De outra parte, pela função consumo do ciclo da vida, a propensãomédia a consumir é dada por: C/Y = α(W/Y) + β (11) Como a riqueza não varia na mesma proporção da renda de pessoapara pessoa e de ano para ano (em períodos curtos), podemos concluirque a uma renda elevada corresponde uma baixa propensão média aconsumir. Já em períodos mais longos, no entanto, a riqueza e a rendacrescem juntas, resultando em um razão W/Y praticamente constante e,daí, em uma propensão média a consumir constante. Em outraspalavras, como a riqueza aumenta com o passar dos anos, a propensãomédia a consumir não cai, constrastando, assim, com a propensãomédia a consumir keynesiana – que é decrescente ao longo do tempo.Interessante observar que as pesquisas de pós-guerra (particularmenteas de Simon Kuznets) estão mais de acordo com a teoria do ciclo davida. Uma outra previsão importante do modelo do ciclo da vida é a de quea poupança varia ao longo da vida das pessoas. Em outras palavras,pode-se imaginar um indivíduo jovem que está começando a trabalharagora e, como tal, não dispõe de nenhuma riqueza. Sua riqueza vaisendo, então, acumulada durante seus anos de vida economicamenteativa para, depois, usufruir dela durante seus anos de aposentadoria.Ou seja, segundo a hipótese do ciclo da vida, como as pessoas queremum consumo estável ao longo da sua vida, os jovens que estãotrabalhando poupam, enquanto os velhos aposentados despoupam.
  13. 13. 136. A hipótese da renda permanente Ainda analisando a economia intertemporal, uma teoria sobre afunção consumo bastante difundida nos anos 60/70, tambémconstrastando com a função consumo keynesiana, foi a chamadahipótese da renda permanente, de Milton Friedman, que, de certaforma, complementa a teoria do ciclo da vida. Note-se que tanto ateoria do ciclo da vida como a da renda permanente pretendemdemonstrar que o consumo não depende apenas da renda atual comodiz Keynes. Vejamos, então, com mais detalhes, os argumentossubjacentes à teoria da renda permanente: Para Friedman, a renda Y é constituída de dois componentes: a rendapermanente (YP) – que corresponde à parte da renda que os indivíduosesperam que vai permanecer ao longo dos anos - e a renda transitória(YT) – que é a parte da renda que os indivíduos não esperam que vaipersistir. Ou seja: Y = YP + YT (12) Em outras palavras, pode-se dizer que a renda permanentecorresponde à renda média que as pessoas recebem, enquanto a rendatransitória é o desvio aleatório e eventual dessa média. Para ficar maisclaro como se distinguem essas duas rendas, considere os seguintesexemplos: i) Pedro, um advogado, ganhou este ano mais do que Antônio, que abandonou os estudos no curso médio. Como Pedro tem curso superior, sua renda permanente foi maior e deverá permanecer maior do a de Antônio. ii) João, um plantador de café do sul de Minas, ganhou menos do que o habitual este ano porque uma geada destruiu seu cafezal. Já o Beto, um plantador de café do Espírito Santo ganhou mais do que o normal, porque a geada do sul de Minas provocou um aumento no preço do café e ele acabou sendo beneficiado por isso. Este ganho de renda maior de Beto nada mais é que uma renda transitória, eventual. É possível que este fato (a geada) se repita no próximo ano e o Beto volte a ter uma renda maior que João. Mas, pode ser que isso não ocorra novamente. Tal ocorrência, como se vê, é aleatória. Da mesma forma, João teve uma perda transitória de renda neste ano e, como tal, este prejuízo não deve representar sua renda permanente.
  14. 14. 14 Daí, pode-se concluir que diferentes formas de renda têm diferentespossibilidades de persistirem. No caso de Pedro, sua boa instrução lhegarante uma renda maior em caráter permanente, enquanto no caso deBeto, o bom tempo lhe proporcionou uma renda maior em carátertransitório. Para Friedman, o consumo depende principalmente da rendapermanente, porque os consumidores usam poupanças prévias eempréstimos para estabilizar o consumo em reação a mudançastransitórias na renda. Para entender melhor, suponha que um indivíduorecebeu um aumento permanente de renda de R$2.000,00 por mês.Neste caso, seu consumo aumentaria neste valor. Mas, se este indivíduotivesse ganho R$ 5.000,00 na loteria, ele não consumiria tudo em umano. Ao contrário, ele deve estender o consumo extra pelo resto davida. Ou seja, o consumidor gasta sua renda permanente, mas poupa amaior parte da renda transitória para gastá-la ao longo dos anos. Com este raciocínio, Friedman propôs que a função consumo fosseassim representada: C = αYP (13) onde α é uma constante que mede a fração da renda permanenteque é consumida. Ou seja, de acordo com a hipótese da renda permanente, o consumoé uma proporção da renda permanente.Implicações da hipótese da renda permanente Quais são as implicações por trás da proposta da renda permanente?Uma primeira implicação diz respeito à propensão média a consumir.Para visualizar melhor isso, vamos dividir os dois lados da funçãoconsumo expressa na equação (13) por Y, obtendo: PMeC = C/Y = αYP/Y (13) Pelo que se deduz da equação (13), na hipótese da rendapermanente, a propensão média a consumir (PMeC) depende da razãoentre a renda permanente e a renda corrente. Quando a renda corrente(Y) aumenta temporariamente acima da renda permanente, a propensãomédia a consumir cai temporariamente; quando a renda corrente caitemporariamente, a PMeC aumenta temporariamente. Para Friedman, essas oscilações de ano para ano da renda sãodominadas pela renda transitória. Mas, considerando longos períodos –digamos, décadas para décadas – a variação na renda vem docomponente permanente. Em conclusão, em prazos mais longos, deve-se observar um propensão média a consumir relativamente constante –
  15. 15. 15(tal como as pesquisas pós-guerra, principalmente as de Kuznets -mostraram).7. Um resumo do que foi analisado aqui, nesta nossa Aula 3 Tudo o que foi discutido e analisado nesta Aula 3 (de Economia 2) pode serassim resumido: i) Keynes afirmou que a propensão marginal a consumir (PMgC) situa- se entre 0 e 1, e que a propensão média a consumir (PmeC) cai à medida que a renda sobe, e que a renda corrente (Y) é o principal determinante do consumo. Alguns estudos sobre o consumo, de curto prazo, pareceram comprovar a afirmação keynesiana. No entanto, nos estudos de longo prazo, não foi encontrada qualquer tendência de a PMeC cair quando a renda aumenta. ii) Irving Fisher elaborou um modelo de consumo do consumidor onde este se defronta com uma restrição orçamentária intertemporal, e escolhe o consumo para o presente e para o futuro, a fim de alcançar o mais alto nível de satisfação durante a vida. Enquanto o consumidor puder poupar e tomar emprestado, o consumo depende dos seus recursos ao longo de sua vida. iii) A hipótese do ciclo da vida, de Modiliani, enfatiza que a renda varia de maneira um tanto previsível ao longo da vida de uma indivíduo, e que os consumidores usam a poupança e o empréstimo para manter o consumo estável ao longo da vida. Segundo esta hipótese, o consumo depende da renda e da riqueza. iv) Já a hipótese da renda permanente, de Friedman, enfatiza que as pessoas experimentam oscilações permanentes e oscilações transitória em sua renda. Como os consumidores podem poupar e tomar emprestado, e porque querem manter seu consumo estável, o consumo não reage muito à renda transitória. O consumo depende então principalmente da renda permanente. _________________________ Bibliografia consultada: Este texto foi elaborado tomando por base, fundamentalmente, ocapítulo 16 de Mankiw, N. G., Macroeconomia, LTC Editora, R.Janeiro,5ª Edição, 2004. Complementarmente, foram também consultados o Manual deMacroeconomia, da equipe de Professores da FEA-USP, Editora Atlas,S.Paulo, 1998, 1ª Edição, e Macroeconomia, de Olivier Blanchard,S.Paulo, Prentice Hall, 3ª Edição, 2004.
  16. 16. 16

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