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Alice Vieira, 30 anos de livros

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  1. 1. 8 • P2 • Quarta-feira 16 Dezembro 2009 Alice Vieira Só gosto da minha vida a partir dos 20 e tal anos Começou no jornalismo e entrou pela literatura. Primeiro para crianças e jovens, depois para os outros. Poesia incluída. Diz-se “amigodependente”, recebe e faz chamadas às três da manhã. Já foi menos católica, pensa por frases e fala sozinha na rua. Não entra em cemitérios e tem poucas memórias de infância. Hoje vai a uma festa temática: 30 Anos de Livros de muitos telefonemas e cartas, toda a vida”, diziam-lhe. “Afinal”, sou, aquilo que faço, aquilo que a recordações e não a deixa lembrar- Rita Pimenta quando a escritora foi trabalhar, conta, “quando tive o ‘cancro da escrevo, foi muito obra dele. Sinto, se de quando era criança. “Recordo- a Há 30 anos que escreve livros. como jornalista, para o Diário de praxe’ e fui operada, ele é que foi o no entanto, algum remorso por me de muito pouca coisa da minha Mas foi há mais tempo que Alice Lisboa. Pouco depois, iria para o meu enfermeiro. A quimioterapia ele se ter afastado da escrita por infância. Lembro-me assim de Vieira enviou o primeiro texto Diário Popular. “As pessoas, quando custou-me muito. Há 20 anos, os minha causa. Para eu poder fazer momentos do género: eu estou aqui para um jornal. Não o publicaram. têm um relacionamento, não devem produtos eram mais agressivos e eu a vida que fiz, ele não publicou sentada ao pé de alguém. Mas não Tinha 14 anos e recebeu uma carta trabalhar no mesmo sítio. Seja vomitava bastante. Ele obrigava-me tanto como devia. Escrever escrevia me lembro de mim. Acho que é uma do Diário de Lisboa a pedir que marido e mulher, pai e filho. Por a ir imediatamente para o jornal (tenho muitos inéditos), mas não defesa.” não desistisse. Assinatura: Mário isso, atravessei a rua e fui para o trabalhar. Acho que nem estive um publicava.” No entanto, quando se pergunta Castrim. Tentou uma e outra vez e Diário Popular.” Seguiu-se o Record mês de baixa. E ainda bem que me E repete várias vezes: “Tive sorte, se era maltratada, responde: viu muitos textos serem impressos. e o Diário de Notícias. obrigou. Se não fosse isso, eu podia tive sorte”. E ele? “Acho que sim. Ele “Não. Eu era super bem tratada. Casou com ele, o remetente. Castrim foi a pessoa mais ter ido abaixo. Assim, tinha mais que também teve.” Mas maltratar não é só andar ao Uma paixão de 40 anos. “Mas importante da sua vida. Toda a fazer do que estar infeliz.” estalo às crianças. Eu vivi sempre paixão mesmo”, diz Alice quando gente a desaconselhou a viver com E recorda como sempre a “Não me lembro de mim” com pessoas que me diziam (e era fala do jornalista e escritor. Tinham ele, pela diferença de idades e estimulou a escrever, nunca Alice Vieira, de 66 anos, passou verdade) que não eram nem o meu 23 anos de diferença de idades e pelos problemas de saúde que lhe deixando de ser muito crítico. “Não a infância com tias velhas e não pai nem a minha mãe. E portanto só se conheceram “ao vivo” depois adivinhavam. “Vais ser a enfermeira tenho dúvida de que aquilo que gostou. A memória decidiu poupá-la eu não era filha deles e não tinham
  2. 2. P2 • Quarta-feira 16 Dezembro 2009 • 9 na altura a actual licenciatura em Estou a trabalhar no horário de E Línguas e Literaturas Modernas, outras pessoas. Vou porque gosto, o variante de Inglês e Alemão, a porque vejo satisfação nos olhos p escolha de ser jornalista não foi dos miúdos e isso é bom. Mas não d lá muito bem vista pela família. tenho obrigação de fazer com que t “Quando acabei o curso, já era os meninos gostem de ler. Noventa o maior e vacinada. Jurei e cumpri por cento das escolas nem sequer p que fazia a faculdade. Tinham de compram os meus livros. E pagam c aceitar a minha escolha, mas nunca as minhas visitas a contragosto. a foi profissão de que gostassem Quando eu quiser dar o meu Q muito. Nós ainda hoje rimos porque, trabalho, dou, mas sou eu que t quando se falava das sobrinhas, escolho.” e as tias diziam: a fulana é médica, No entanto, tem muita dificuldade a outra é advogada e a Alice, essa, em dizer “não” quando a convidam, e lá anda na vida que ela escolheu... mesmo se o pagamento não está m Parecia que eu era uma perdida”, previsto. “Agora, felizmente, a Leya p diz, no meio de uma gargalhada. trata disso. Gere a minha agenda e t Mas o jornalismo era, desde eu já não tenho de andar a negociar e cedo, uma paixão, não o escolheu com as escolas. O ano de 2010 já está c para contrariar as tias. “Ver as completo. A Leya foi o melhor que c coisas publicadas, com o nome me aconteceu.” Mas não só por isto. m cá em baixo. Eu assinava Alice Vassalo Pereira. E, depois, o R Romance em Porto Santo cheiro do chumbo conquistou-me A escritora divide-se entre quatro definitivamente.” Até hoje. Continua editoras (Caminho, Texto, Casa e a escrever crónicas para o Jornal de das Letras, Oficina do Livro e Dom d Notícias e para as revistas Activa, Quixote) e o facto de pertencerem Q Audácia e Tempo Livre. “E ainda todas ao mesmo grupo facilita-lhe t adoro fazer entrevistas.” a vida. “No outro dia, o patrão Os livros vieram mais tarde, em da Leya dizia-me: quer trabalhar d resultado do prémio da Gulbenkian, em mais alguma editora? Diga, e em 1979, de Literatura Infantil Ano que a gente compra. Eu dou-me q Internacional da Criança pela obra bem com eles porque sou muito b Rosa, Minha Irmã Rosa. Na altura, profissional e cumpridora. Eu p ganhou 75 contos (375 euros) e levou preciso de prazos. Se não me põem p os filhos a Atenas: Catarina, hoje prazos, não faço nada. E trabalho p com 40 anos, e André, com 39. muito mais e até melhor se tiver m “Às vezes, penso: eu comecei a muitas coisas para fazer ao mesmo m escrever tarde, podia ter começado tempo. Isso vem do jornalismo. t mais cedo. Mas depois penso Há uma sobrecarga de trabalho e H que não. Se eu tivesse começado a gente despacha tudo ( jornalismo antes… mas eu não sou nada a favor diário, claro). d de quem começa muito cedo. As Há autores que me dizem: ‘Como pessoas têm de viver um bocadinho, é que tu podes saber que daqui têm de crescer. Quando digo que a uns dias tens um livro pronto? podia ter começado uns anos antes, E se não consegues?’ Tenho de se calhar não podia. Ou tinha conseguir. Essa relação de trabalho c começado pior, não sei.” para mim é boa. Por exemplo, agora p Em 30 anos, já publicou mais sei, mas sei rigorosamente que até s de 70 livros, vendeu perto de 2 dia 16 [hoje], mesmo dia 16, tenho d milhões de exemplares e ganhou de entregar um romance.” Chama- d dez dos mais significativos se Meia Hora para Mudar a Minha s prémios literários da literatura Vida, “como a cantiga da Adriana V infantil e juvenil. Foi nomeada Calcanhotto”. C este ano para o Astrid Lindgren Será mais um romance juvenil Memorial Award, um dos mais com uma rapariga de 16 anos como c importantes prémios nesta protagonista. Uma actriz de teatro p área, com o valor de 500 mil amador. Passa-se em Lisboa, sempre a euros. Lisboa. “Sou muito lisboeta e não L Não escreve por dinheiro, gosto de escrever sobre coisas que g mas gosta de ser paga pelo seu não conheço. Não dá para chegar a n trabalho. Irrita-se que lhe digam um sítio, estar lá dois dias e escrever u que a escrita é um hobby. “Vou uma história. Ou é um romance u a escolas quase todos os dias e histórico ou então não consigo. h durante as horas em que estou Só tenho um romance juvenil que S lá não estou a desenvolver é metade em Lisboa, metade na o meu trabalho zona das Gafanhas, Aveiro, que é z de escrita. donde eu sou: Viagem à Roda do Meu dnada de fazer aquilo que a Nome.” Nestavam a fazer. Foi sempre vam Hoje, depois da festa (e deum relacionamento um bocado entregar o livro), ficará mais liberta efrio, uma coisa entre velhos. Eu só , para pensar num romance de base pencontrei miúdos da minha idade ontrei histórica que lhe anda a passear na hquando entrei para o liceu. Até aí, ndo cabeça há uns tempos. “Passa-se na cnunca tinha tido gente da minha ca ilha de Porto Santo, no séc. XVI. Fui iidade ao pé de mim. Roubarem-me de à Madeira e aproveitei para recolheressa parte, foi complicado. Isso pode a umas informações que faltavam. Em udar cabo de uma pessoa”. Não deu. 1533, houve uma heresia, a heresia 1 Depois de conseguir ter amigos, epois dos profetas, que pôs a ilha a ferro dtornou-se, como diz, numa nou-se, e fogo. Só no Porto Santo, nemverdadeira “amigodependente”. E dadeira eram bons.” chegou à Madeira. Quando estava calguns até a fizeram ser de novo mais uns Esta é das suas a escrever sobre os Açores, sobrecatólica. Porque são padres, poetas ólica. poucas memórias uma heroína de Angra do Heroísmo, uou missionários. “É impossível não claras de infância. descobri esta história. Por isso, dse ficar tocado por estas pessoas.” “Isso [o passado] serviu-me para a palavra ‘profeta’ é um bocadoPode telefonar a um amigo “às três e ser a pessoa que sou hoje, para ser pejorativa na ilha. E não digo mais pda manhã”. Mas também os atende a profundamente optimista, acreditar nada.” Não é preciso. ntodos e a qualquer hora. Eles sabem os que as coisas se resolvem desde Alice Vieira tem quatro netos ILUSTRAÇÃO: BERNARDO CARVALHOque os acompanha até ao fim. Só não que queiramos. Não podemos estar (Adriana, de 14 anos; Diogo, 10; (entra no cemitério. “Eu tinha uma ra à espera que as soluções caiam do Pedro, nove; Isabel, cinco), muitos Ptia muito mórbida. Todas as quartas- céu, do céu só cai a chuva. Mas só amigos, muitos leitores e um afeiras, íamos para o Alto de São João as, gosto da minha vida a partir dos namorado. Às 17h, têm encontro nlimpar as campas. E logo ela, que par vinte e tal anos.” marcado no Jardim de Inverno mera má para as pessoas e lhes fazia a Depois do curso tirado, do Teatro de São Luiz, em Lisboa. dvida negra. Depois de mortos é que a negra Germânicas, como se designava Germânicas Porque está de parabéns. P

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