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ENEM-2016 resolvido e comentado: Literatura

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ENEM-2016 resolvido e comentado: Literatura

  1. 1. primeira aplicação do ENEM-2016 Questões de Literatura Manoel Neves
  2. 2. Em casa, Hideo ainda podia seguir fiel ao imperador japonês e às tradições que trouxera no navio que aportara em Santos. […] Por isso, Hideo exigia que, aos domingos, todos esCvessem juntos durante o almoço. Ele se sentava à cabeceira da mesa; à direita, ficara Kanashiro, que era o primeiro filho, e Hitoshi, o segundo, e à esquerda, Haruo, depois Hiroshi, que era o mais novo. […] A esposa, que também era mãe, e as filhas, que também era irmãs, aguardavam de pé ao redor da mesa […]. Haruo reclamava, não se cansava de reclamar: que se sentassem também as mulheres à mesa, que era um absurdo aquele costume. Quando se casasse, se sentariam à mesa a esposa e o marido, um em frente ao outro, porque não era o homem melhor que a mulher para ser o primeiro […]. Elas seguiam de pé, a mãe um pouco cansada dos protestos do filho, pois o momento do almoço era sagrado, não era hora de levantar bandeiras inúteis […]. NAKASATO, O. Nihonjin. São Paulo: Bendirá, 2011. Fragmento.
  3. 3. QUESTÃO 01 primeira aplicação do ENEM-2016 Referindo-se a práCcas culturais de origem nipônica, o narrador registra as reações que elas provocam na família e mostra um contexto em que a) a obediência ao imperador leva ao pres]gio pessoal. b) as novas gerações abandonam seus anCgos hábitos. c) a refeição é o que determina a agregação familiar. d) os conflitos de gênero tendem a ser neutralizados. e) o lugar à mesa metaforiza uma estrutura de poder.
  4. 4. SOLUÇÃO COMENTADA primeira aplicação do ENEM-2016 No fragmento em análise, percebe-se um conflito de gerações no que diz respeito ao lugar da mulher entre os imigrantes japoneses no Brasil. Verifica-se, nesse senCdo, que a personagem Haruo insurge-se contra os costumes tradicionais nipônicos, que reservam à mulher um espaço subordinado em relação ao homem. Sendo assim, deve-se assinalar a alternaCva “e”. conteúdos abordados na questão quarta geração do modernismo brasileiro; o imigrante na literatura brasileira
  5. 5. PINHÃO sai ao mesmo tempo que BENONA entra. BENONA: Eurico, Eudoro Vicente está lá fora e quer falar com você. EURICÃO: Benona, minha irmã, eu sei que ele está lá fora, mas não quero falar com ele. BENONA: Mas Eurico, nós lhe devemos certas atenções. EURICÃO: Você, que foi noiva dele. Eu, não! BENONA: Isso são coisas passadas. EURICÃO: Passadas para você, mas o prejuízo foi meu. Esperava que Eudoro, com todo aquele dinheiro, se tornasse meu cunhado. Era uma boca a menos e um patrimônio a mais. E o peste me traiu. Agora, parece que ouviu dizer que eu tenho um tesouro. E vem louco atrás dele, sedento, atacado de verdadeira hidrofobia. Vive farejando ouro, como um cachorro da molesta, como um urubu, atrás do sangue dos outros. Mas ele está enganado. Santo Antônio há de proteger minha pobreza e minha devoção. SUASSUNA, A. O santo e a porca. Rio de Janeiro: José Olympio, 2013. Fragmento.
  6. 6. QUESTÃO 02 primeira aplicação do ENEM-2016 Nesse texto teatral, o emprego das expressões “o peste” e “cachorro da molesta” contribui para a) marcar a classe social das personagens. b) caracterizar usos linguísCcos de uma região. c) enfaCzar a relação familiar entre as personagens. d) sinalizar a influência do gênero nas escolhas vocabulares. e) demonstrar o tom autoritário da fala de uma das personagens.
  7. 7. SOLUÇÃO COMENTADA primeira aplicação do ENEM-2016 A obra de Ariano Suassuna, produzida depois da II Guerra Mundial, insere-se na corrente do regionalismo universalista da terceira geração do modernismo brasileiro. Nesse senCdo, ambienta, no interior do Nordeste brasileiro, questões debaCdas em todo o mundo e por todas as gerações. Na cena em análise, percebe-se o comportamento arrivista da personagem Euricão. Nessa perspecCva, o uso de expressões como “o peste” e “cachorro da molest’a” visa a reforçar a caracterização regional da peça e da personagem. Marque-se, pois, a alternaCva “b”. conteúdos abordados na questão terceira geração do modernismo brasileiro; variação linguís<ca
  8. 8. Onde estou? Este síCo desconheço: Quem fez tão diferente aquele prado? Tudo outra natureza tem tomado; E em contemplá-lo ]mido esmoreço. Uma fonte aqui houve; eu não me esqueço De estar a ela um dia reclinado: Ali em vale um monte está mudado: Quanto pode dos anos o progresso! Árvores aqui vi tão florescentes, Que faziam perpétua a primavera: Nem troncos vejo agora decadentes. Eu me engano: a região esta não era; Mas que venho a estranhar, se estão presentes Meus males, com que tudo degenera! COSTA, C. M. Poemas. Disponível em: www.dominiopublico.gov.br. Acesso em: 7 jul. 2012.
  9. 9. QUESTÃO 03 primeira aplicação do ENEM-2016 No soneto de Cláudio Manuel da Costa, a contemplação da paisagem permite ao eu lírico uma reflexão em que transparece uma a) angúsCa provocada pela sensação de solidão. b) resignação diante das mudanças do meio ambiente. c) dúvida existencial em face ao espaço desconhecido. d) intenção de recriar o passado por meio da paisagem. e) empaCa entre os sofrimentos do eu e a agonia da terra.
  10. 10. SOLUÇÃO COMENTADA primeira aplicação do ENEM-2016 No soneto em análise, percebe-se que o locutor apresenta subjeCvamente a paisagem. Tal perspecCva contraria as convenções do arcadismo, esClo em que se costuma inserir a poesia de Cláudio Manuel da Costa, na medida em que os textos produzidos nesse período primavam pela objeCvidade e pela ausência de envolvimento emocional na condução temáCca. Cumpre informar, entretanto, que, na obra do poeta mineiro, convivem aspectos barrocos, árcades e pré- românCcos. Nesse senCdo, no poema em análise, o lugar usico a que se refere o sujeito poéCco apresenta-se totalmente contaminado pelas emoções do sujeito poéCco. Evidentemente, nada é mais óbvio que fato de o estado emocional do sujeito que fala alterar sua percepção de mundo. Por isso, deve-se assinalar a alternaCva “e”. conteúdos abordados na questão arcadismo
  11. 11. Poesia, não será esse o senCdo em que ainda te escrevo: flor! (Te escrevo: flor! Não uma flor, nem aquela flor-virtude — em disfarçados urinóis). Flor é a palavra flor; verso inscrito no verso, como as manhãs no tempo. Flor é o salto da ave para o voo: o salto fora do sono quando teu tecido se rompe; é uma explosão posta a funcionar, como uma máquina, uma jura de flores. MELO NETO, J. C. Antiode. In.: Psicologia da composição. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997.
  12. 12. QUESTÃO 04 primeira aplicação do ENEM-2016 A poesia é marcada pela recriação do objeto por meio da linguagem, sem necessariamente explicá-lo. Nesse fragmento de João Cabral de Melo Neto, poeta da geração de 1945, o sujeito lírico propõe a recriação poéCca de a) uma palavra, a parCr de imagens com as quais ela pode ser comparada, a fim de assumir novos significados. b) um urinol, em referência às artes visuais ligadas às vanguardas do início do século XX. c) uma ave, que compõe, com seus movimentos, uma imagem historicamente ligada à palavra poéCca. d) uma máquina, levando em consideração a relevância do discurso técnico- cien]fico pós-Revolução Industrial. e) um tecido, visto que sua composição depende de elementos intrínsecos ao eu lírico.
  13. 13. SOLUÇÃO COMENTADA primeira aplicação do ENEM-2016 No fragmento em análise da “AnCode”, de João Cabral de Melo Neto, o sujeito poéCco propõe a ressemanCzação [atribuição de novos senCdos à] da palavra flor. Tal constatação pode ser comprovada pelo aparente paradoxo presente nas duas primeiras estrofes: em um primeiro momento, o locutor fala não será esse/ o sen2do em que/ ainda te escrevo:// flor; depois, entretanto, afirma: Te escrevo:/ flor! Em seguida, explica os novos senCdos que atribui a tal vocábulo: não uma/ […] flor-virtude […] Flor é a palavra/flor […]// Flor é o salto/ da ave para o voo. Posto isso, deve-se assinalar a alternaCva “a”. conteúdos abordados na questão terceira geração do modernismo
  14. 14. O dono correu atrás de sua branquinha, agarrou-a, lhe examinou os olhos. Estavam direiCnho, graças a Deus, e muito pretos. Soltou-a no terreiro e lhe aCrou mais milho. A galinha conCnuou a bicar o chão desorientada. ACrou ainda mais, com paciência, até que ela se fartasse. Mas não conseguiu com o gasto de milho, de que as outras se aproveitaram, aCnar com a origem daquela desorientação. Que é que seria aquilo, meu Deus do céu? Se fosse efeito de uma pedrada na cabeça e se soubesse quem havia mandado a pedra, algum moleque da vizinhança aí… Nem por sombra imaginou que era a cegueira irremediável que principiava. Também a galinha, coitada, não compreendia nada, absolutamente nada daquilo. Por que não vinham mais os dias luminosos em que procurava a sombra das pitangueiras? SenCa ainda o calor do sol, mas tudo quase sempre tão escuro. Quase que já não sabia onde é que estava a luz, onde é que estava a sombra. GUIMARAENS, J. A. Galinha cega. In.: Contos e novelas. Rio de Janeiro: Imago, 1978. Fragmento.
  15. 15. QUESTÃO 05 primeira aplicação do ENEM-2016 Ao apresentar uma cena em que um menino aCra milho às galinhas e observa com atenção uma delas, o narrador explora um recurso que conduz a uma expressividade fundamentada na a) captura de elementos da vida rural, de feições peculiares. b) caracterização de um quintal de síCo, espaço de descobertas. c) confusão intencional da marcação do tempo, centrado na infância. d) apropriação de diferentes pontos de vista, incorporados afeCvamente. e) fragmentação do conflito gerador, distendido como apoio à emoCvidade.
  16. 16. SOLUÇÃO COMENTADA primeira aplicação do ENEM-2016 No primeiro parágrafo do conto “Galinha cega”, percebe-se a fusão entre a perspecCva do narrador, que apresenta a cena [O dono correu atrás de sua branquinha; Soltou-a no terreiro e lhe a2rou mais milho; A2rou mais, com paciência, até que ela se fartasse], e a da personagem, que se põe a analisar sob uma óCca bastante específica o que está acontecendo com uma galinha desorientada [Estavam direi2nho, graças a Deus; Que é que seria aquilo, meu Deus do céu?]. No segundo parágrafo, de forma idênCca, a cena arCcula-se por intermédio da revelação tanto da perspecCva do narrador quanto da personagem [galinha cega]. Deve-se, pois, marcar a alternaCva “d”. conteúdos abordados na questão segunda geração do modernismo
  17. 17. Escrever só para me livrar de escrever. Escrever sem ver, com riscos senCndo falta dos acompanhamentos com as mesmas lesmas e figuras sem força de expressão. Mas tudo desafina: o pensamento pesa tanto quanto o corpo enquanto conto os conecCvos conto as palavras rentes com tesoura de jardim cega e bruta com facão de mato. Mas a marca deste corte tem que ficar nas palavras que sobraram. Qualquer coisa do que desapareceu conCnuou nas margens, nos talos no atalho aberto a talhe de foice no caminho de rato. FREITAS FILHO, A. Sem acessórios nem som. In.: Máquina de escrever: poesia reunida e revista. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2003.
  18. 18. QUESTÃO 06 primeira aplicação do ENEM-2016 Nesse texto, a reflexão sobre o processo criaCvo aponta para uma concepção de aCvidade poéCca que põe em evidência o(a) a) angusCante necessidade de produção, presente em “Escrever só para me livrar/ de escrever”. b) imprevisível percurso da composição, presente em “no atalho aberto a talhe de foice/ no caminho de rato”. c) agressivo trabalho de supressão, presente em “corto as palavras rentes/ com tesoura de jardim/ cega a bruta”. d) inevitável frustração diante do poema, presente em “Mas tudo desafina:/ o pensamento pesa/ tanto quanto o corpo”. e) conflituosa relação coma inspiração, presente em “senCndo falta dos acompanhamentos/ e figuras sem força de expressão”.
  19. 19. SOLUÇÃO COMENTADA primeira aplicação do ENEM-2016 No poema em análise, o locutor evidencia a necessidade de se fazer uma poesia econômica. Isso pode ser percebido tanto no ]tulo quanto na ideia de supressão presente no fragmento transcrito na alternaCva “c”. conteúdos abordados na questão quarta geração do modernismo [poesia marginal]
  20. 20. Marcava seis horas da manhã. Angela Pralini pagou o táxi e pegou sua pequena valise. Dona Maria Rita de Alvarenga Chagas Souza Melo desceu do Opala da filha e encaminharam-se para os trilhos. A velha bem-vesCda e com joias. Das rugas que a disfarçavam saía a forma pura de um nariz perdido na idade, e de uma boca que outrora devia ter sido cheia e sensível. Mas que importa? Chega-se a um certo ponto — e o que foi não importa. Começa uma nova raça. Uma velha não pode comunicar-se. Recebeu o beijo gelado de sua filha que foi embora antes do trem parCr. Ajudara-a antes a subir no vagão. Sem que neste houvesse um centro, ela se colocara do lado. Quando a locomoCva se pôs em movimento, surpreendeu-se um pouco: não esperava que o trem seguisse nessa direção e sentara-se de costas para o caminho. Angela Pralini percebeu-lhe o movimento e perguntou: — A senhora deseja trocar de lugar comigo? Dona Maria Rita se espantou com a delicadeza, disse que não, obrigada, para ela dava no mesmo. Mas parecia ter-se perturbado. Passou a mão sobre o camafeu filigrana de ouro, espetado no peito, passou a mão pelo broche. Seca. Ofendida? Perguntou afinal a Angela Pralini: — É por causa de mim que a senhorita deseja trocar de lugar? LISPECTOR, C. A parCda de trem. In.: Onde es<vestes de noite. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980. Fragmento.
  21. 21. QUESTÃO 07 primeira aplicação do ENEM-2016 A descoberta de experiências emocionais com base no coCdiano é recorrente na obra de Clarice Lispector. No fragmento, o narrador enfaCza o(a) a) comportamento vaidoso de mulheres de condição social privilegiada. b) anulação das diferenças sociais no espaço público de uma estação. c) incompaCbilidade psicológica entre mulheres de gerações diferentes. d) constrangimento da aproximação formal de pessoas desconhecidas. e) senCmento de solidão alimentado pelo processo de envelhecimento.
  22. 22. SOLUÇÃO COMENTADA primeira aplicação do ENEM-2016 No fragmento em análise, percebe-se que o narrador apresenta uma personagem idosa cujo isolamento é reforçado pela velhice, o que se pode constatar por fragmentos como Chega-se a um certo ponto — e o que foi não importa. Começa uma nova raça. Um a velha não pode comunicar-se. Posto isso, deve-se assinalar a alternaCva “e”. conteúdos abordados na questão terceira geração do modernismo
  23. 23. quando a geração de meu pai baCa na minha a minha achava que era normal que a geração de cima só pode educar a de baixo batendo quando a minha geração baCa na de vocês ainda não sabia que estava errado mas a geração de vocês já sabia e cresceu odiando a geração de cima aí chegou esta hora em que todas as gerações já sabem de tudo e é péssimo ter pertencido à geração do meio tendo errado quando apanhou da de cima e errado quando bateu na de baixo e sabendo que apesar de amaldiçoados éramos todos inocentes ESSES CHOPES GELADOS WANDERLEY, J. In.: MORICONI, I. (Org.). Os cem melhores poemas brasileiros do século. Rio de Janeiro: ObjeCva, 2001. Fragmento.
  24. 24. QUESTÃO 08 primeira aplicação do ENEM-2016 Ao expressar uma percepção de aCtudes e valores situados na passagem do tempo, o eu lírico manifesta uma angúsCa sinteCzada na a) compreensão da efemeridade das convicções antes vistas como sólidas. b) consciência das imperfeições aceitas na construção do senso comum. c) revolta das novas gerações contra modelos tradicionais de educação. d) incerteza da expectaCva de mudança por parte das futuras gerações. e) crueldade atribuída à forma de punição praCcada pelos mais velhos.
  25. 25. SOLUÇÃO COMENTADA primeira aplicação do ENEM-2016 O que se discute no poema em análise é o conflito de gerações. O locutor analisa três momentos disCntos a parCr da observação do modo como se educavam as crianças: a anterior à sua achava normal bater nos filhos; a sua geração achava normal que a educação se fizesse por meio da agressão usica — por isso, tanto aceitou apanhar da anterior quanto educou seus filhos batendo —; por fim, apresenta-se a geração posterior àquela em que se insere o sujeito poéCco, aquela que sabia ser errado educar alguém por intermédio de casCgos usicos e que, por isso, ressenCa-se contra a geração anterior. ProblemaCza-se, portanto, o modo como as convicções de cada geração são perpassadas pela ideologia de cada época, ou seja, pelas ideias que circulam no senso comum. Por isso, deve-se assinalar a alternaCva “b”. conteúdos abordados na questão quarta geração do modernismo [poesia marginal]
  26. 26. PÉROLAS ABSOLUTAS Há, no seio de uma ostra, um movimento — ainda que impercep]vel. Qualquer coisa imiscuiu-se pela fissura, uma par]cula qualquer, diminuta e invisível. Venceu as paredes lacradas, que se fecham como a boca que tem paredes lacradas, que se fecham como a boca tem medida de deixar escapar um segredo. Venceu. E agora penetra o núcleo da ostra, contaminando-lhe a própria substância. A ostra reage, imediatamente. E começa a secretar o nácar. É um mecanismo de defesa, uma tentaCva de purificação contra a par]cula invasora. Com uma paciência do fundo do mar, a ostra profanada conCnua seu trabalho incansável, decretando por anos a fio o nácar que os poucos se vai solidificando. É dessa solidificação que nascem as pérolas. As pérolas são, assim, o resultado de uma contaminação. A arte por vezes também. A arte é quase sempre a transformação da dor. […] Escrever é preciso. É preciso conCnuar decretando o nácar, formando a pérola que talvez seja imperfeita, que talvez jamais seja encontrada e viva para sempre encerrada no fundo do mar. Talvez estas, as pérolas esquecidas, jamais achadas, as pérolas intocadas e por isso absolutas em si mesmas, guardem em si uma parcela faiscante da eternidade. SEIXAS, H. Uma ilha chamada livro. Rio de Janeiro: Record, 2009. Fragmento.
  27. 27. QUESTÃO 09 primeira aplicação do ENEM-2016 Considerando os aspectos estéCcos e semânCcos presentes no texto, a imagem da pérola configura uma percepção que a) reforça o valor do sofrimento e do esquecimento para o processo criaCvo. b) ilustra o conflito entre a procura do novo e a rejeição ao elemento exóCco. c) concebe a criação literária como trabalho progressivo e de autoconhecimento. d) expressa a ideia de aCvidade poéCca como experiência anônima a involuntária. e) destaca o efeito introspecCvo pelo contato com o inusitado e com o desconhecido.
  28. 28. SOLUÇÃO COMENTADA primeira aplicação do ENEM-2016 Por intermédio da metáfora da pérola, o locutor apresenta sua visão acerca da literatura. Nesse senCdo, no primeiro parágrafo, fica clara a ideia de que o trabalho se faz de forma progressiva; no segundo, por sua vez, percebe-se que escrever é uma forma de conhecer. Por isso, deve-se assinalar a alternaCva “c”. conteúdos abordados na questão quarta geração do modernismo; figuras de linguagem
  29. 29. DE DOMINGO — Outrossim… — O quê? — O que o quê? — O que você disse. — Outrossim? — É. — O que é que tem? — Nada. Só achei engraçado. — Não vejo a graça. — Você vai concordar que não é uma palavra de todos os dias. — Ah, não é. Aliás, eu só uso domingo.
  30. 30. — Se bem que parece mais uma palavra de segunda-feira. — Não. Palavra de segunda-feira é “óbice”. — “Ônus”. — “Ônus” também. “Desiderato”. “Resquício”. — “Resquício” é de domingo. — Não, não. Segunda. No máximo terça. — Mas “outrossim”, francamente… — Qual o problema? — ReCra o “outrossim”. — Não reCro. É uma óCma palavra. Aliás, é uma palavra diucil de usar. Não é qualquer um que usa “outrossim”. VERÍSSIMO, L. V. Comédias da vida privada. Porto Alegre, L&PM, 1996. Fragmento.
  31. 31. QUESTÃO 10 primeira aplicação do ENEM-2016 No texto, á uma discussão sobre o uso de algumas palavras da língua portuguesa. Esse uso promove o(a) a) marcação temporal, evidenciada pela presença de palavras indicaCvas dos dias da semana. b) tom humorísCco, ocasionado pela ocorrência de palavras empregadas em contextos formais. c) caracterização da idenCdade linguísCca dos interlocutores, percebida pela recorrência de palavras regionais. d) distanciamento entre os interlocutores, provocado pelo emprego de palavras com significados pouco conhecidos. e) inadequação vocabular, demonstrada pela seleção de palavras desconhecidas por parte de um dos interlocutores do diálogo.
  32. 32. SOLUÇÃO COMENTADA primeira aplicação do ENEM-2016 No texto em análise, há um debate de cunho metalinguísCco acerca da perCnência do uso de um vocabulário mais rebuscado. A discussão promovida pelos enunciadores, que se põem a debater o emprego de algumas palavras, acaba tendo um efeito humorísCco. Sendo assim, deve-se assinalar a alternaCva “b”. conteúdos abordados na questão quarta geração do modernismo; efeitos irônicos
  33. 33. Espetáculo Romeu e Julieta. GUTO MUNIZ. Disponível em: www.focoincena.com.br. Acesso em: 30 mai. 2016.
  34. 34. QUESTÃO 11 primeira aplicação do ENEM-2016 A principal razão pela qual se infere que o espetáculo retratado na fotografia é uma manifestação do teatro de rua é o fato de a) dispensar o ediucio teatral para a sua realização. b) uClizar figurinos com adereços cômicos. c) empregar elementos circenses na atuação. d) excluir o uso de cenário na ambientação. e) negar o uso de iluminação arCficial.
  35. 35. SOLUÇÃO COMENTADA primeira aplicação do ENEM-2016 O que caracteriza a representação teatral da referida peça como teatro de rua é o fato de ela não ter sido levada ao público em um ediucio. Marque-se, portanto, a letra “a”. conteúdos abordados na questão gêneros literários [o gênero dramáCco]
  36. 36. DONA COTINHA — É claro! Só gosta de solidão quem nasceu pra ser solitário. Só o solitário gosta de solidão. Quem vive só e não gosta da solidão não é um solitário, é só um desacompanhado. (A reflexão escorrega lá pro fundo da alma.) Solidão é vocação, besta de quem pensa que é sina. Por isso, tem de ser valorizada. E não é qualquer um que pode ser solitário, não. Ah, mas não é mesmo! É preciso ter competência pra isso. (De súbito, pedagógica, volta-se para o homem.) É como poesia, sabe, moço? Tem de ser recitada em voz alta, que é pra gente senCr o gosto (Faz uma pausa.) Você gosta de poesia? (O homem torna a se debater. A velha interrompe o discurso e volta a lhe dar as costas, como sempre, impassível. O homem, mais uma vez, cansado, desiste.) Bem, como eu ia dizendo, pra viver bem com a solidão temos de ser proprietários dela e não inquilinos, me entende? Quem é inquilino da solidão não passa de um abandonado. É isso aí. ZORZETTI, H. Lições de mo<m. Goiânia: Kelps, 2010. Adaptado.
  37. 37. QUESTÃO 12 primeira aplicação do ENEM-2016 Nesse trecho, o que caracteriza Lições de mo<m como texto teatral? a) o tom melancólico da cena. b) as perguntas retóricas da personagem. c) a interferência do narrador no desfecho da cena. d) o uso de rubricas para construir a ação dramáCca. e) as analogias sobre a solidão feitas pela personagem.
  38. 38. SOLUÇÃO COMENTADA primeira aplicação do ENEM-2016 Dois são os principais elementos que permitem classificar o texto de Hugo Zorze‡ como teatral, a saber: a ausência de narrador e a presença de rubricas [as indicações que aparecem entre parênteses e funcionam como indicações de como a personagem deve se comportar]. Assinale-se, portanto, a alternaCva “d”. conteúdos abordados na questão gêneros literários [o gênero dramáCco]
  39. 39. PRIMEIRA LIÇÃO Os gêneros de poesia são lírico, sa]rico, didáCco, épico, ligeiro. O gênero lírico compreende o lirismo. Lirismo é a tradução de um senCmento subjeCvo, sincero e pessoal. O lirismo é assim denominado porque em outros tempos os versos senCmentais eram declamados ao som da lira. O lirismo pode ser: a) Elegíaco, quando trata de assuntos tristes, quase sempre a morte. b) Bucólico, quando versa sobre assuntos campestres. c) EróCco, quando versa sobre o amor. O lirismo elegíaco compreende a elegia, a nênia, a endecha, o epitáfio e o epicédio. Elegia é uma poesia que trata de assuntos tristes. Nênia é uma poesia em homenagem a uma pessoa morta. Era declamada junto à fogueira onde o cadáver era incinerado. Endecha é uma poesia que revela as dores do coração. Epitáfio é um pequeno verso gravado em pedras tumulares. Epicédio é uma poesia onde o poeta relata a vida de uma pessoa morta. CÉSAR, A. C. Poé<ca. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.
  40. 40. QUESTÃO 13 primeira aplicação do ENEM-2016 No poema de Ana CrisCna César, a relação entre as definições apresentadas e o processo de construção do texto indica que o(a) a) caráter descriCvo dos versos assinala uma concepção irônica de lirismo. b) tom explicaCvo e conCdo consCtui uma forma peculiar de expressão poéCca. c) seleção e recorte do tema revelam uma visão pessimista da criação ar]sCca. d) enumeração de disCntas manifestações líricas produz um efeito de impessoalidade. e) referência a gêneros poéCcos clássicos expressa a adesão do eu lírico às tradições literárias.
  41. 41. SOLUÇÃO COMENTADA primeira aplicação do ENEM-2016 O poema de Ana CrisCna César, essencialmente metalinguísCco, arCcula-se a parCr de uma enumeração de espécies do gênero lírico. Devido ao fato de o sujeito poéCco construir seu texto como uma lição, é possível afirmar que se trata de um texto de natureza explicaCva. Marque-se, portanto, a letra “b”. conteúdos abordados na questão quarta geração do modernismo [poesia marginal]
  42. 42. VOCÊ PODE NÃO ACREDITAR Você pode não acreditar: mas houve um tempo em que os leiteiros deixavam as garrafinhas de leite do lado de fora das casas, seja ao pé da porta, seja na janela. A gente ia de uniforme azul e branco para o grupo de manhãzinha, passava pelas casas e não ocorria que alguém pudesse roubar aquilo. Você pode não acreditar: mas houve um tempo em que os padeiros deixavam o pão na soleira da porta ou na janela que dava para a rua. A gente passava e via aquilo como uma coisa normal. Você pode não acreditar: mas houve um tempo em que você saía à noite e voltava andando pelas ruas da cidade, caminhando displicentemente, senCndo cheiro de jasmim e de alecrim, sem olhar para trás, sem temer as sombras.
  43. 43. Você pode não acreditar: mas houve um tempo em que o namorado primeiro ficava andando com a moça numa rua perto da casa dela, depois passava a namorar no portão, depois Cnha ingresso na sala da família. Era sinal de que já estava praCcamente noivo e seguro. Houve um tempo em que havia tempo. Houve um tempo. Você pode não acreditar: houve um tempo em que as pessoas se visitavam airosamente. Chegavam no meio da tarde ou à noite, contavam casos, tomavam café, falavam da saúde, tricotavam sobre a vida alheia e voltavam de bonde às suas casas. SANT’ANNA, A. R. Estado de Minas. 5 mai. 2013. Fragmento.
  44. 44. QUESTÃO 14 primeira aplicação do ENEM-2016 Nessa crônica, a repeCção do trecho “Você pode não acreditar: mas houve um tempo em que…” configura-se como uma estratégia argumentaCva que visa a a) surpreender o leitor com a descrição do que as pessoas faziam durante o seu tempo livre anCgamente. b) sensibilizar o leitor sobre o modo como as pessoas se relacionavam entre si num tempo mais aprazível. c) adverCr o leitor mais jovem sobre o mau uso que se faz do tempo nos dias atuais. d) incenCvar o leitor a organizar melhor o seu tempo sem deixar de ser nostálgico. e) convencer o leitor sobre a veracidade de fatos relaCvos à vida no passado.
  45. 45. SOLUÇÃO COMENTADA primeira aplicação do ENEM-2016 A anáfora destacada no comando da questão visa a reforçar para o leitor a diferença entre o tempo do enunciado e o da enunciação, entre o tempo referido pelo locutor e o presente no qual a crônica foi construída. Funciona, pois, como uma reiteração, um reforço, cujo objeCvo é atestar que outrora as relações eram agradáveis, idílicas. Deve-se, portanto, assinalar a alternaCva “b”. conteúdos abordados na questão quarta geração do modernismo; figuras de linguagem
  46. 46. Ler não é decifrar, como num jogo de adivinhações, o senCdo de um texto. É, a parCr do texto, ser capaz de atribuir-lhe significado, conseguir relacioná-lo a todos os outros textos significaCvos para cada um, reconhecer nele o Cpo de leitura que o seu autor pretendia e, dono da própria vontade, entregar-se a essa leitura, ou rebelar-se contra ela, propondo uma outra não prevista. LAJOLO, M. Do mundo da leitura para a leitura do mundo. São Paulo: ÁCca, 1993.
  47. 47. QUESTÃO 15 primeira aplicação do ENEM-2016 Nesse texto, a autora apresenta reflexões sobre o processo de produção de senCdos, valendo-se da metalinguagem. Essa função da linguagem torna-se evidente pelo fato de o texto a) ressaltar a importância da intertextualidade. b) propor leituras diferentes das previsíveis. c) apresentar o ponto de vista da autora. d) discorrer sobre o ato de leitura. e) focar a parCcipação do leitor.
  48. 48. SOLUÇÃO COMENTADA primeira aplicação do ENEM-2016 A presença da metalinguagem manifesta-se pelo fato de o texto falar sobre um de seus componentes — o processo de decifração/leitura. Posto isso, deve-se assinalar a alternaCva “d”. conteúdos abordados na questão funções da linguagem
  49. 49. VISÃO GERAL DAS QUESTÕES DE LITERATURA primeira aplicação do ENEM-2016 Esta primeira edição do ENEM-2016 foi marcada por inúmeros ilícitos contra os quais (até agora) o Ministério da Educação não tomou nenhuma providência: candidatos estavam com o gabarito da prova antes mesmo de começarem as aplicações [fonte: G1/2016]; em dois estados, antes de as provas do domingo começarem, alguns candidatos já conheciam o tema da redação [Fonte: UOL/ 2016]; um ano antes desta aplicação, o MEC desmenCu o vazamento do tema de redação que apareceu nesta aplicação [Fonte: G1/2016]. Como se esses ilícitos não bastassem, houve problema também na elaboração do exame. Infelizmente, as questões sobre os textos de Jorge Wanderley [08: “a” ou “b”], Helena Seixas [09: “c” ou “e”], Ana CrisCna César [13: “b” ou “d”] e Afonso Romano Sant’Anna [14: “b” ou “e”] apresentam distratores ambíguos e admitem duas respostas. Nesta aplicação, desapareceram os textos de caráter críCco — que se prestam a denunciar os problemas sociais — e os que anunciam as utopias que sempre moveram os homens. O naturalismo, a ironia machadiana, os movimentos contestatórios (pau-brasil, antropofagia, tropicalismo) desapareceram da prova de literatura. Não que eu conteste os autores presentes no exame, mas a desideologização, como já diria Walter Benjamim, está, de certa forma, a serviço de uma ideologia. Tristes tempos nos trópicos.
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