LITERATURA SANTACRUZENSE

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História literária de Santa Cruz - RN

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LITERATURA SANTACRUZENSE

  1. 1. LITERATURASANTACRUZENSE A atualização da forma e do discursoliterários de Santa Cruz-RN a partir dosurgimento do Núcleo de Ensino Superiordo Trairi. Nailson Costa
  2. 2. Quero dedicar este trabalho aos poetas e cronistas deontem e de hoje, responsáveis pela construção daliteratura de Santa Cruz. 2
  3. 3. Agradeço a todos que, de uma forma ou de outra, me prestaram inestimável ajuda nopreparo deste trabalho. A todos os poetas e cronistas que me permitiram fazer uso de suas obras. À Marinalva Vilar, minha professora e paciente orientadora. À URCA, que me fez tornar concreto um projeto há muito sonhado. Ao professor Reinaldo, do CEDAP, pelo estímulo constante na realização deste. À poetisa Tereza Lúcia, pelo empréstimo valoroso da obra Canastra Véia, únicoexemplar na cidade, de Cosme Ferreira Marques, escrito em 1946. À poetisa Rita Luna, pelo empréstimo da única obra existente na cidade, Rimário dePoetas Brasileiros, compilado pelo poeta Abdias Gomes, em 1938. A Marcos Cavalcanti, por ter me indicado as poetisas proprietárias dessas obras. Ao Professor Arimatéia Rodrigues, pela contribuição técnica. Aos entrevistados, pela atenção a mim dedicada. À minha família, pela força e admiração que me foram dispensadas E, principalmente, agradeço a Deus, pela inspiração. O Autor 3
  4. 4. BIOGRAFIA DO AUTOR José Nailson de Medeiros Costa nasceu em Santa Cruz – RN no dia 11 de setembro de1963. Filho de Luís Precioso da Costa e de Teresa de Medeiros Costa. É servidor público doRN. Formado em Letras e Ciências Contábeis pela UFRN. É Pós-Graduado em IdentidadeRegional – A Questão Nordeste (Departamento de História). Ajudou a fundar o Partido dosTrabalhadores em Santa Cruz e a APRN (Associação de Professores do RN, hoje o Sinte,local). Participou como 1º secretário da APRN e da LDS (Liga Desportiva Santacruzense).Foi Diretor de Esportes do mais atuante D.A. (Diretório Acadêmico do NEST). É membro daASPE (Associação Santacruzense de Poetas e Escritores). Ajudou a fundar e a construir oIESC – Instituto Educacional de Santa Cruz, de onde foi professor de Língua Portuguesa por10 anos. Publicou na década de 80 crônicas para o Diário de Natal/Poti, assim como nasdécadas seguintes para os jornais Memorial Santacruzense, Parnamirim em Notícias e Voz deNatal. Publicou um livro de memórias, Futebol: Documento de uma Paixão; participou compoemas das seguintes antologias: Templos Tempos Diversos; Monsenhor Raimundo, presentede Deus; Antologia Literária II da SPVA/RN; Participou com uma crônica da antologiaRibeiro, um professor. Gosta dos amigos, ama a esposa, os pais, os filhos e o Espírito Santo.Amém. 4
  5. 5. SUMÁRIOPrefácio................................................................................................................................07Introdução............................................................................................................................09I Parte: Um Presente do Passado......................................................................................... 18Capítulo I – Da fundação à década de 20, literatura ao som de rabeca............................... 19 1.1. – Fabião das Queimadas – o poeta dos vaqueiros............................................. 20Capítulo II – Década de 30: domínio oligárquico versus reformismo igual à literatura de exaltação................................................................................................... 27 2.1. – Os jornais locais e seus discursos................................................................... 30 2.2. – Abdias e a primeira antologia de Santa Cruz................................................. 31 2.3. – Luís Patriota, o poeta das jangadas.................................................................34Capítulo III – Década de 40: a estética da gratidão.............................................................37Capítulo IV – A geração de 50............................................................................................ 42Capítulo V – Os novos românticos de 60............................................................................ 49Capítulo VI – A literatura da década do medo.................................................................... 54 6.1. – Um poeta ultra-romântico............................................................................59II Parte: Um Presente Para o Futuro....................................................................................62Capítulo VII – Década de 80: atualizando a estética literária local.................................... 63 7.1. – Ribeiro: um cronista de transição.............................................................. 68 7.2. – Instantâneos Poéticos de Zedaluz e Otacílio............................................. 72 7.3. – Os grilos do NEST na poesia de Hugo Tavares........................................ 78Capítulo VIII – Anos 90: perspectivas................................................................................ 80 8.1. – Tristes coincidências................................................................................ 81 8.2. – A poesia das adutoras............................................................................... 83 5
  6. 6. 8.3. – Transpoesia do “Velho Chico”................................................................. 86 8.4. – Brasil 500 versos...................................................................................... 87 8.5. – Além das Viagens aos Templos e Túmulos em Versos, em Tempos Diversos no Trairi.....................................................................................88 8.6. – A poética nas poesias da vida.................................................................. 89Considerações finais............................................................................................................ 96Bibliografia..........................................................................................................................99Entrevistas Utilizadas.......................................................................................................... 102 6
  7. 7. PREFÁCIO Quando se fala de e sobre poesia rejuvenesce a alma criando um lastro deconveniência em respaldo à transformação do belo no lindo. E quando isto está vinculado aoresgate histórico-literário, enobrece a sabedoria lítero-social principalmente se concentrada edimensionada na relação e na busca das conexões literárias nacional, estadual e local. A obraem foco está repleta dessa extensão. É um jogo de saber maior, privilégio dos aquinhoados da cultura do sentimento e dacausa grande, engendradas na identificação meritória do conhecimento literário. Para dar solidez e fortaleza à cultura, eis que se apresenta à sociedade, oriunda deSanta Cruz, rincão potiguar, a obra salutar de José Nailson de Medeiros Costa configurando opoder do sentimento que cria espaços de despojamento para o vislumbre das obras dosgrandes pensadores da literatura brasileira associada à local, numa inspiração lingüística ereverência justa àqueles que, somente, pelo gosto de fazer a arte do desvendamento do sercriador de poemas em estilos os mais diversos. Nailson soube mergulhar nas águas cristalinas do pensamento para descobrir eenaltecer os valores poéticos em momentos e circunstâncias históricas bem específicas.Soube, igualmente, nesta obra, analisar reminiscências, à luz de poder respeitoso à crença deessência da produção de cada momento em que se deu. A fidelidade e a valorização literárias emitem um eco de qualidade a tudo que foimotivo para arrancar de dentro de cada um a sabedoria poética em circunstâncias sociais epolíticas bem realistas. Um retrato do ontem, do hoje e do amanhã da riqueza circunscrita naimaginação literária através dos dois últimos séculos, em Santa Cruz. É uma obra casta de arrogância e carregada de princípios altaneiros, de lealdade aoreal e, sobretudo, ao resgate de cada época. Nailson não se contentou em registrar produções 7
  8. 8. poéticas nem pareceres literários mediante informações obtidas, mas se deteve em cadadescoberta e cunhou sua observância analítica na mais nobre e suntuosa visão lingüístico-literária, pois, foi se deleitando no verso de Fabião das Queimadas, Cosme e Márcio Marquesque ele descobriu as pérolas poéticas que instigavam a literatura santacruzense e queperduram até nossos dias com tantos outros que resistem às intempéries de anticultura. Uma obra deste quilate coloca na poltrona da história as marcas de personagens davida real do ontem e do hoje. Também, personifica a criação literária e eterniza a obradaqueles que souberam e sabem externar o seu sentimento no seu estilo poético-literáriopróprio. Por isso, convém admitir a grandeza cultural que está implícita e explicitamenteregistrada, resgatada, analisada e para apreciação de todos. A cultura, assim, é processadacomo vertente do testemunho literário que se confunde com a vida da própria municipalidadesantacruzense, como diria o poeta Thiago de Mello em sua "Vida Verdadeira". "Aprendi o caminho me ensinou a caminhar cantando como convém a mim e aos que vão comigo. Pois, já não vou mais sozinho".Eis, portanto, o contributo à cultura dessa plaga trairiense, manifestada pela vontade e aaudácia de José Nailson de Medeiros Costa de continuar a obra dos que se foram, masdeixaram sua história provida de tantos amores pela terra de Santa Rita de Cássia. Reinaldo Ricardo dos Santos 8
  9. 9. INTRODUÇÃO Ó Santa Cruz Minha terra querida Tu és minha luz Tu és minha vida Ó terra amada Como eu te adoro Minha terra idolatrada Longe de ti choro1 Um dois Um dois e homens Transformam-se Máquinas2 O trabalhador rural... O trabalhador rural trabalha a vida inteira... O trabalhador rural trabalha a terra. O trabalhador rural planta feijão, milho, algodão, batata, corta cana, cuida do gado... O trabalhador rural é a terra. Mas o fazendeiro não quer mais o trabalhador rural na terra3 Os fragmentos dos poemas, acima citados, são exemplos de formas e de temáticaspreferidas pelos artistas da palavra escrita em nossa cidade, em épocas diferentes. A poesia concreta, em Otacílio Barreto, é visualmente social. O poeta une em sua arteo avanço da tecnologia, a busca de novas formas de expressão que sejam condizentes comuma sociedade em que tudo passou a acontecer de maneira rápida e objetiva, à realidadesocial, à exploração do homem e sua transformação em máquina. O lirismo presente em Luiz de Almeida, o apelo ao sentimentalismo e a nostalgia sãocaracterísticas típicas do Romantismo e se contrapõem, tanto na forma quanto no conteúdo, àpoesia social e concreta de Otacílio, ou apenas social, de Hugo, em que a linguagem1 . Poesia de Luiz de Almeida, citada na entrevista de Terezinha e Neuza, em outubro de 2000.2 . Otacílio Barreto, “Máquinas”, in:_______. Instantâneos Poéticos, Santa Cruz-RN: datilografada, 1985, p. 12.3 . Hugo Tavares, apostila avulsa, março de 2002. 9
  10. 10. discursiva, o estilo simples e direto pretendem fazer da poesia uma arte mais comunicativa, aoalcance das camadas populares. A atualização da forma e do discurso literários de Santa Cruz, a partir do surgimentodo Núcleo de Ensino Superior do Trairi, foi o centro de interesse desta pesquisa, relacionadaao campo da História Regional. Enfatizamos, especificamente, as produções literáriasdesenvolvidas no município de Santa Cruz-RN. Estabelecemos argumentos segundo os quaisas técnicas dos recursos poéticos e as temáticas literárias desta cidade são vistas sobperspectivas antagônicas delimitadas em espaços temporais bem definidos. O trabalho está dividido em duas Partes: Um Presente do Passado, em que é feito umlevantamento dos principais poetas, escritores e obras de Santa Cruz do início de suafundação, em 1825, ao final da década de 70 do século seguinte, tendo por objetivodemonstrar que os poetas que viveram e fizeram a literatura dessa época não tiveram apreocupação de seguir as tendências inovadoras que se apresentaram na literatura brasileira,desde 1881, com o Realismo/Naturalismo, tais como a objetividade, o universalismo, omaterialismo, a contenção emocional, o antropocentrismo etc, ou, mais radicalmente, com aSemana de Arte Moderna, em 1922; e Um Presente Para o Futuro, em que trabalhamos coma produção realizada no período que vai da década de oitenta aos primeiros anos do séculoXXI. Esta fase da produção literária de Santa Cruz, apresenta uma tendência contrária a quefoi observada na fase anterior, neste sentido pontuamos a preocupação dos artistas da palavraem atualizar seu fazer poético, procurando manterem-se em sintonia com o que era praticadonos centros mais avançados. As novas formas literárias e as temáticas de engajamento social, que apresentavam umforte sentimento de denúncia das injustiças sofridas pelos mais humildes, começam aaproximar a literatura local com a que era praticada no eixo Rio-São Paulo. Dessa forma,podemos observar que os poetas santacruzenses passaram a refletir em suas obras o 10
  11. 11. cientificismo do Realismo, a modernidade da arte do Modernismo, a expressão visual econcreta do Concretismo, a poesia-práxis, etc. A atualização do fazer literário de Santa Cruz deveu-se, em nosso entendimento, aoNúcleo de Ensino Superior do Trairi – NEST -, na medida em que ele propiciou o surgimentode calorosas agitações culturais, verificadas nas Semanas Universitárias e nos JornaizinhosUniversitários; promoveu o desenvolvimento de Trabalhos Acadêmicos, principalmente nosCursos de Letras e de Pedagogia (muitas discussões teórico-literárias verificadas nas Rodas deBate-Papos e nas Mesas de Bares foram fontes de inspiração poética), enfim, criou umAmbiente Cultural nunca antes visto na terra de Santa Rita de Cássia. Os seis capítulos que integralizam a Primeira Parte deste trabalho, bem como os doisda Segunda Parte são iniciados com uma sucinta contextualização histórica, nos planosnacional, estadual e municipal, de cada década, objetivando propiciar ao leitor umacomparação das inovações das formas e das temáticas da literatura desenvolvida no eixo Rio-São Paulo e, de certa forma, na capital do nosso Estado, com a literatura de Santa Cruz. Sem a pretensão de fazer análises literárias profundas, encontram-se também algumasbiografias e obras dos poetas e cronistas mais significativos da nossa literatura, em suasrespectivas épocas, para permitir ao leitor o acesso a elementos embasadores dos argumentosque arrolamos no trabalho. Críticos nacionalmente renomados como Antônio Cândido, Alfredo Bosi, AfrânioCoutinho, Umberto Peregrino somam-se a Tarcísio Gurgel, Diva Cunha, Luiz EduardoBrandão Suassuna, Professores da UFRN, para fundamentar teoricamente os argumentos aquipropostos. O leitor observará que a Primeira Parte, Um Presente do Passado, reflete bem a poesiatrovadoresca, o lirismo clássico, neoclássico e romântico, as temáticas românticas, tais como avida simples no campo, a ascensão social em função de dotes artísticos, as vaquejadas, as 11
  12. 12. disputas (pelejas) de cantadores (muito presentes na poesia popular de Fabião dasQueimadas); a religiosidade, o saudosismo, a exaltação às festas juninas, bem como às festasda padroeira Santa Rita de Cássia (nos versos clássicos de Luís Patriota ou de AbdiasAlmeida); a valorização de famílias tradicionais e seus coronéis e o fazer poético (verificáveisem Cosme Marques). Observa-se ainda, no crepúsculo da década de 70, nos versos de Joaquim de Lima,Padre Émerson, Fabiano de Cristo, Franklin de Souza, Maria Celestina, Tereza Lúcia e outros,constantes apelos lírico-ufânicos que serão predominantes na formação da poesia dessa épocae, portanto, de significação positiva, quando analisada à luz da busca de uma identidade para asua terra, bem como para o registro de um passado literário romântico, bucólico e emharmonia com a natureza e a população local. A Segunda Parte, Um Presente para o Futuro, é destinada à constatação dosurgimento de uma literatura moderna - em sintonia com a já praticada nos centrosavançados-, de crítica social e de engajamento ideológico. São obras que abrangem o universomunicipal, estadual e nacional a partir da década de 80, mais precisamente a partir de 1982. Para alguns poetas e cronistas dessa nova fase, a literatura não deve existir apenas parao prazer poético, a arte pela arte, a catarse, nem apenas ser um mecanismo de evasão ou deconhecimento do homem e do mundo; a literatura deve ser, também, um instrumento de luta aserviço de uma causa social, um elemento imprescindível para a transformação do meio socialem que vivem. As perspectivas da volta à democracia e, principalmente, o surgimento do Núcleo deEnsino Superior do Trairi – NEST –, extensão do Campus Avançado da Universidade Federaldo Rio Grande Norte, foram fatores determinantes às novas posturas técnico-temáticasmodernas dos poetas e cronistas de Santa Cruz que viveram/vivem esse novo período. 12
  13. 13. O NEST – Núcleo de Ensino Superior do Trairi - é, à luz desta pesquisa, agente ativono processo de inserção da literatura local no universo da literatura moderna, na medida emque propiciou a atualização dos produtores de nossa literatura nas formas e temasdesenvolvidos desde 1922, nos centros mais avançados do país, especialmente na RegiãoSudeste. Em Santa Cruz, até o final de 70, tínhamos uma literatura mais identificada com asformas e as temáticas medievais, clássicas, neoclássicas e românticas, através das poesias emforma de cordéis, que refletiam o lirismo trovadoresco. Eram freqüentes nesse período aspoesias de perfeição estética e de inspiração clássica. Não raro encontramos poesias bucólicasneoclássicas, em que o eu-lírico do poeta expressa o saudosismo, a religiosidade e a exaltaçãoà sua terra. Estão muito presentes, nas poesias de Márcio Marques, a fuga da realidade, opessimismo à Álvares de Azevedo, bem ao gosto das posturas românticas do Ultra-Romantismo. As poesias de culto à forma, da arte pela arte, e de inclinação parnasiana sãouma constante nos versos de Luís Patriota. Com os debates sociais, políticos, econômicos e literários desencadeados pelosestudantes do NEST, a partir dos primeiros anos da década de 80, surgiram novasperspectivas, novos horizontes foram vislumbrados e a literatura local sentiu a necessidade dese atualizar, de sintonizar-se com a literatura moderna, há muito já praticada em âmbitonacional pelos famosos artistas da palavra. Seria incorreto dizer que o NEST formou os poetas e fez a literatura moderna de SantaCruz, porém não seria precipitado nem injusto atribuir a essa Instituição honrarias pordespertar os nossos artistas da hibernação literária. O ambiente estudantil ali criado despertouo interesse dos jovens artistas da palavra. Os estudantes de literatura tiveram contato com asnovas tendências, as formas modernas, a poesia concreta, a poesia-práxis, a poesia marginal, apoesia social com as suas temáticas de protesto e de denúncia das injustiças contra os 13
  14. 14. trabalhadores; enfim, é o NEST que aponta o caminho da atualização da forma e do discursoliterários a serem, daí em diante, seguidos pelos artistas da palavra escrita de Santa Cruz. A partir daí, a literatura local passou a refletir esses aspectos dando-lhes prioridade.Entretanto, ela não abandona as temáticas do surgimento da cidade, da religiosidade, dosaudosismo, da evolução de sua gente e do folclore. Poetas como Hugo Tavares optam por esse caminho, o da literatura como instrumentopolítico, estabelecendo em suas obras todo um conjunto de questionamentos sociais. Seuspoemas prendem-se mais ao conteúdo do que à forma, o que não quer dizer que o poeta nãodomine as “boas” técnicas literárias vigentes. As temáticas da saudade, da pátria, da família, do lar, da infância, da religiosidade e dehomenagem a entes queridos que se foram, enfim, a temática da evasão no tempo e no espaço,características românticas predominantes na literatura da Primeira Parte da produção literáriade Santa Cruz, quase que desaparecem nas obras dos artistas sociais da Segunda Parte. No entanto, este novo período da literatura de Santa Cruz não é espaço exclusivo paraas poesias de caráter social. Os temas que caracterizaram as obras da Primeira Parte ainda sefazem presentes, com menos intensidade, em poetas e cronistas como Francisco Ribeiro,Bonitinho, Renan II, Aldenôra Ribeiro, Geraldo Moura, Edgar Santos, Maria Celestina,Betânia Borges, Fátima Cavalcante, dentre outros. O poema de forma clássica, como o soneto, tão cultivado pelos parnasianos, ainda temlugar nas obras de Hélio Crisanto e José Letácio que, diferentemente dos parnasianos, tratamo conteúdo com a profundidade subjetiva de suas visões filosóficas. O que diferencia algunsdestes poetas românticos da Segunda Parte daqueles que constituem a Primeira, é o fato deque estes, os novos, também produziram obras sociais, de apelo à luta e as denúncias dasendêmicas mazelas sociais. 14
  15. 15. Os temas de engajamento social são freqüentemente encontrados nos poemas deTeixeirinha Alves e Rita Luna. O pessimismo irônico, a presença constante da morte - o que,diga-se de passagem, não tem nada a ver com o mal-do-século de Byron4 – são, na verdade,um convite à vida, ao domínio das técnicas literárias, sendo que a riqueza e a diversidade deseu conteúdo fazem dos versos de Marcos Cavalcanti um poeta carregado de todos os ismosde que fizeram uso os estilos de épocas da história da literatura. Ou seja, podemos encontrarnos versos de Cavalcanti características do Arcadismo, do Romantismo, do Realismo, doSimbolismo, do Modernismo etc. Essas mesmas referências, sem dúvida nenhuma, podem seratribuídas ao também poeta e cronista José da Luz. Matias Filho, poeta de arroubos líricos e satíricos ao estilo Gregório de Matos,escreveu também à maneira de Décio Pignatari, de Haroldo e Augusto de Campos, ao cultivara poesia concreta, que abandona o discurso tradicional e privilegia os recursos gráficos daspalavras, o “desenho” do poema, facilmente encontrado em outros poetas santacruzenses. Os dois caminhos percorridos pela nossa literatura, o do romantismo, o da arte pelaarte - em que seus artistas e obras se mantêm, do ponto de vista crítico, à margem dosacontecimentos políticos e sociais mais relevantes - e o da reflexão crítica sobre a realidade ea busca de novas formas de expressão, não se assemelham aos surgimentos dos novos estilosde época da literatura universal, na perspectiva de embates, conflitos, manifestos em defesa desuas formas, de seus temas, de suas estéticas, de suas filosofias e, é claro, de suas vaidades. Havia e há um grande respeito por parte dos poetas da Segunda Parte em relação aosda Primeira. Na verdade, trata-se de uma espécie de admiração tácita, uma vez que fazerliteratura num país subdesenvolvido já é difícil, imagine no interior, onde as mudanças ouatualizações em nome do moderno deparam-se com as tradicionais barreiras.4 Lord Byron ( 1788-1824), poeta do Romantismo inglês, influenciou os poetas da 2ª geração românticabrasileira com seus versos pessimistas. O profundo desencanto pela vida, o cinismo e a exaltação à mortereceberam o nome de ultra-romantismo, ou mal-do- século, e influenciaram muito os poetas românticos da 2ªgeração do Romantismo brasileiro. 15
  16. 16. Nunca é demais repetir que este trabalho não tem a pretensão de julgar os poetas e asobras por eles produzidas, e que não se constitui, também, enquanto uma exegese crítica,sendo seu principal objetivo o de demonstrar a percepção da existência de duas fases literáriasna produção santacruzense. Como já colocamos anteriormente, a Primeira fase seria aquelaem que a tônica predominante recaía no cultivo de procedimentos poéticos cristalizados pelatradição, que remontam ao Trovadorismo, ao Classicismo, Arcadismo e Romantismo, e aSegunda concerne ao momento em que os artistas da palavra escrita introduziram em suasobras, sem manifestos agressivos nem conflitos estético-ideológicos, as temáticas sociais esuas (des)compromissadas técnicas. E mais: se a Semana de Arte Moderna é o movimento responsável pela inserção doModernismo na literatura brasileira, mal comparando e respeitando às devidas proporções, é oNEST, uma instituição sistematizada de ensino superior, o responsável, não pela mudança datônica da produção literária anterior, mas por desenvolver uma mentalidade na nossacomunidade estudantil universitária/literária, capaz de introduzir as mudanças temáticas eformais que outrora os românticos de transição, os realistas e, sobretudo, os artistas doModernismo brasileiro dignaram-se em fazê-las. Procuramos entender as obras dentro de suas épocas não instituindo uma valoração dopassado a partir dos interesses do presente. A análise que instauramos procurou dar conta dospoetas e obras dentro dos interesses que as épocas lhes suscitaram. 16
  17. 17. Os diferentes discursos da nossa literatura, aqui expostos, deixam de ser antagônicosna medida em que neles não se observam agitadas polêmicas à Questão Coimbrã5, ou àSemana de Arte Moderna6, por exemplo. Muitos outros poetas, artistas da Segunda Parte, poderiam ser mencionados nestetrabalho, dada a riqueza quantitativa e qualitativa de suas produções. Todavia, aqui não seencontram por se verificar que o recorte temporal escolhido para o estudo – A atualização daforma e do discurso literários a partir do surgimento do Núcleo de Ensino Superior do Trairi– não dispõe de espaço mais longo do que o já utilizado. Fica, entretanto, a certeza de que as muitas entrevistas realizadas - inclusive muitasdelas com pessoas octogenárias, testemunhas oculares de fatos aqui relatados –, a amplabibliografia consultada somadas à vivência do pesquisador nos meios literários serão degrande relevância aos estudiosos do presente e do futuro da arte da palavra para as suasdissecações teóricas futuras. As análises e as comprovações destas diferentes visões destinam-se, portanto, a unir ea difundir o máximo possível a literatura local, para que ela venha a ocupar lugar proeminentena cultura regional. Fazemos nossas as palavras do crítico literário Antônio Cândido no clássicoFormação da Literatura Brasileira: Comparada às grandes obras, a nossa literatura é pobre e fraca. Mas é ela, não outra, que exprime. Se não for amada, não revelará a sua mensagem; e se não a amarmos ninguém o fará por nós. Se não lermos as obras que a compõe, ninguém as tomará do esquecimento, descaso ou incompreensão7.5 . Polêmica que se deu em Portugal, em 1865, entre os jovens poetas e prosadores e seus antigos mestres. Osjovens estudantes da escola de Coimbra já se interessavam pelas novas correntes filosóficas, científicas eartísticas. Os antigos, entretanto, rejeitavam-nas. Clenir Bellezi de Oliveira, Arte Literária, São Paulo: Ed.Moderna, 2002, P. 259.6 . Marco inicial da literatura modernista brasileira. A Semana De Arte Moderna se deu em São Paulo nos dias 13,15 e 17 de fevereiro de 1922. Esse movimento artístico revolucionário defendia a liberdade de criação em todasas artes. José de Nicola, Literatura Brasileira – das origens aos nossos dias, São Paulo: Ed. Scipione, 2001. p.272.7 . Antônio Cândido, Formação da Literatura Brasileira: Momentos Decisivos, 6ª Ed., Belo Horizonte: EditoraItatiaia Ltda., 1981. p. 346. 17
  18. 18. I PARTEUM PRESENTE DO PASSADO “Todos cantam a sua terra Também vou cantar a minha.” (Casemiro de Abreu) CAPÍTULO I 18
  19. 19. DA FUNDAÇÃO À DÉCADA DE 20, LITERATURA AO SOM DA RABECA Santa Cruz, “... deve datar a sua fundação no ano de 1825 e a prova está neste motivoquando se fez a demolição da Igreja Matriz, de existência secular, para a construção deoutra igreja maior, no mesmo local, foi encontrada, na cobertura da igreja, uma telha, naqual estava escrita a data de 18258”. Dessa data até as primeiras décadas do século seguinte, poucos documentos (oficialou não) fazem referência a poetas e escritores locais que tenham se destacado ou publicadoalguma obra literária. As informações registradas, acerca desse período, encontramos na obrade Luís da Câmara Cascudo, em Tradições Populares da Pecuária Nordestina, de 1956; JoséFernandes Bezerra, em Retalhos de meu sertão, 1978; ou nas poesias do poeta Cosme FerreiraMarques9, como “Cara Preta”, poesia publicada no livro Canastra Véia, de 1946, a qual fazreferência a um pobre homem das primeiras décadas do novo século, mendigo, vindo de umpequeno povoado, hoje a cidade de São Bento do Trairi, a 15 quilômetros de Santa Cruz e quevivera abandonado nas ruas da cidade a cantar hinos religiosos nas procissões de Santa Ritade Cássia, padroeira de Santa Cruz, ou a recitar poesias de autoria desconhecida. O poetaMarques assim o descreve em seu poema: Surgiu como fantasma na cidade; Vindo talvez de um pequeno povoado, Cantar, era única felicidade E cantava, sublime triste e maguado: -“Quando o sol nace é rei, a mei dia ele é morgado, di tarde é isfalecido di noite é serputado”- Durante muito tempo, sua voz se ouvia, Ao belo alvorecer de um novo dia8 . Monsenhor Severino Bezerra, Memória Histórica de Santa Cruz, Natal: Editora Natal Gráfica, 1984, p.6.Entretanto encontramos a seguinte informação em Marcus César Cavalcanti Morais, Terras Potiguares, Natal:Editora Clima, junho de 1998, p. 227: “No ano de 1830, José Rodrigues da Silva, proprietário da FazendaCachoeira, aliou-se a dois irmãos, José da Rocha e Lourenço da Rocha, novos proprietários de terras nalocalidade e deu início à fundação da povoação de Santa Rita da Cachoeira, situada na Malhada do Trairi.”9 . Cosme Ferreira Marques é um dos principais poetas de Santa Cruz nas décadas de 30 e 40 do século XX. 19
  20. 20. Ou a bela tardinha o ocaso quase posto: Uma manhã, calou-se para sempre o canto, Ele morrera, partira sem um pranto Ao raiar de uma formosa manhã de agosto10.1. 1. FABIÃO DAS QUEIMADAS – O POETA DOS VAQUEIROS Sem dúvida nenhuma, o grande nome da literatura de Santa Cruz, do final do séculoXIX ao início do século XX, é Fabião Hermenegildo da Rocha (1848 – 1928), o famosoFabião das Queimadas, natural da fazenda Queimadas, então município de Santa Cruz, hojepertencente ao município de Lagoa de Velhos. O cantador negro Fabião das Queimadas foi poeta popular das vaquejadas no Agreste do Rio Grande do Norte. Escravo do fazendeiro José Ferreira da Rocha, juntou vintém a vintém, seu pecúlio e alforriou-se, assim como sua mãe e uma sobrinha, Joaquina Ferreira da Silva, com quem casou. Pagou 800$000 (oitocentos mil réis) por si, 100$000 (cem mil réis) por sua mãe e 400$000 (quatrocentos mil réis) pela futura esposa. Cantava acompanhando-se com a rabeca fanhosa e fiel, pondo-a à altura do peito como os menestréis clássicos11. Diziam as más línguas que Fabião era filho apanhado do fazendeiro José Ferreira daRocha com uma escrava sua. E não é de admirar, pois naquele tempo eram muito comuns osamores ilícitos entre os senhores de escravos, ou seus filhos, e as escravas. E o velho ZéFerreira, segundo contavam seus contemporâneos, não fugiu à regra da época. Do afeto dofazendeiro pela jovem escrava, na senzala, ou quem sabe por trás das moitas, foi que a escravaengravidou. Nove meses depois vinha ao mundo o, também, escravo Fabião. Contam que opróprio poeta não negava que realmente era filho bastardo do senhor das Queimadas. Segundo seu filho, Filipe Ferreira da Silva, o pai havia iniciado sua vida de cantadorainda muito jovem. Fabião das Queimadas nasceu poeta. Não teve nenhum curso, não estudouem parte alguma. À sua rabeca dedicou esta redondilha:10 . Cosme Ferreira marques, Canastra Veia, Natal-RN: Tipografia Galhardo, 1946, p. 36.11 . Luís da Câmara Cascudo, Tradições Populares da Pecuária Nordestina, Rio de Janeiro: Ministério daAgricultura, Serviço de Informação Agrícola, 1956, p.42. 20
  21. 21. Minha rabequinha é meus pés e minhas mão, é meu roçado de milho, minha planta de feijão, minha criação de gado, minha safra de algodão12. O Senador Eloy de Souza, que era negro, assistindo a uma apresentação de Fabião dasQueimadas, na residência oficial do então governador Ferreira Chaves, recebeu do famosopoeta esta saudação: Seu Doutô Eloy de Souza Minha mãe sempre dizia, Se o senhor não fosse rico, Era da nossa famia13. O Senador gostava tanto de Fabião que, sempre que podia, patrocinava-o nos grandesfestivais de repentes e de vaquejadas pelo Nordeste afora. O senador muitas vezes insistia queo poeta negro se hospedasse em sua residência, quando este se encontrava em Natal paraparticipar de cantorias. Entretanto, Fabião preferia a residência e a companhia de seu grandeamigo, Luís da Câmara Cascudo. Encontramos muitas outras menções a Fabião das Queimadas: Era piqueno, mi alembru Du cantadô Fabião Su rebeca, seu baião Gêmedô Puéta provisadô; Nego véi inteligente Pirigoso nu repente Da puizia; Onde cantava, curria Um povão pra iscutá U puéta sem iguá12 . José Fernandes Bezerra, Retalhos do meu sertão, Rio de Janeiro: Gráfica e Papelaria Leão do Mar Ltda.,1978. p. 5.13 . Trecho da entrevista realizada com o senhor Manuel Macedo, em abril de 2001. 21
  22. 22. Na rêbêra; I cantava a noite intera Histára de apartação, Das vaquejada de então Qui havia; A sua rebeca gimia No seu Redondo sinhá, A gaiganta ritinia Num canto sintimentá14 Seu José Bezerra, contemporâneo dos poetas Cosme Marques, Luís Patriota e JoséAbdias15, lembra, com os olhos cheios de lágrimas, “de uns versinhos de Fabião que diziamassim: Minha mãe era pretinha, Pretinha que nem quixaba, Mas o seu nome era doce Tão doce que nem mangaba. Quando forrei minha mãe, A lua nasceu mais cedo, Pra clareá o caminho De quem deixava o degredo. O nome da mãe é doce Que nem a pinha madura Mas passa o doce da fruta E o doce do nome atura16.” Os poemas de Fabião das Queimadas eram musicados pela sua inseparável rabeca.Esses poemas, escritos ou cantados, remontam às cantigas trovadorescas, certamenteinfluenciadas pelas cantigas líricas do Trovadorismo português17, com uma pequena mudançado foco temático: a vassalagem amorosa do trovador junto à mulher amada dá lugar a outraespécie de vassalagem, o amor cortês às vaquejadas, às pelejas de trovadores, às apartações, à14 . Cosme Ferreira Marques, op. cit., p. 34.15 . Cosme Marques, Luiz Patriota e José Abdias foram, de acordo com as nossas pesquisas e análises osprincipais nomes da literatura de Santa Cruz, nas décadas de 30 e 40 do século XX. Não encontramos nas muitasbuscas às suas obras nenhuma poesia de engajamento social.16 . Dados de memória do senhor José Bezerra, historiador e contemporâneo de Patriota, Abdias e Marques, seusamigos. Entrevista realizada em janeiro de 2001.17 . Trovadorismo é um movimento de caráter exclusivamente poético que se deu de 1189 ou 1198 a 1434. Ascomposições líricas desse período são chamadas de cantigas porque eram efetivamente cantadas e recebiamacompanhamento de instrumentos musicais da época. Clenir Bellezi de Oliveira, op. cit., p.. 34. 22
  23. 23. obediência ao coronel da região, que, aliás, é visto como um ser inatingível, uma figuraidealizada, a quem é dedicado uma respeitabilidade e atenção sublimes, igualmenteidealizado, como fora a mulher nas cantigas de amor do Trovadorismo português, na IdadeMédia etc. Com relação à forma, os poemas são compostos em redondilhas 18, característicasmarcantes nos poemas-cantigas da Idade Média; se nas cantigas líricas portuguesas eracomum a utilização do paralelismo e do refrão ou estribilho no final de cada verso, o redondosinhá era utilizado, pelos poetas populares do cordel, da rabeca e da viola nordestinos, comoforma de introdução de cada novo verso. O poema “Vaquejada na fazenda Belo Monte19” contém trinta e nove sextilhas(estrofes de seis versos cada) de sete sílabas poéticas - redondilha maior - muito bem rimadase ritmadas. Nessa poesia, ele fala da beleza que foi a vaquejada, realizada na fazenda BeloMonte, município de São Paulo do Potengi, propriedade do coronel Manoel Adelino dosSantos, no mês de outubro de 1921. Descreve as proezas dos principais puxadores do Sertão,do Seridó, do Trairi, do Potengi, faz referência aos pratos típicos do Nordeste, enaltece aqualidade dos cavalos e bois, faz elogios a bondade dos coronéis da região; enfim, Fabiãodesfila sua arte, agrada o povão e, inconscientemente, o seu discurso harmoniza-se com odiscurso e os interesses das elites dominantes da região. Leia a primeira e a última das trinta enove sextilhas desse poema: Eu peço a vosmicês todos Os senhores que aqui tão, Olhe lá, escute bem O que diz o Fabião. Vou contá o sucedido De uma apartação. (...) Teve homes ilustrado, Doutores e capitão, Onde tava seu vigaro18 . Também conhecida por medidas velhas, a redondilha menor é a composição poética que apresenta cincosílabas poéticas em cada verso, e a redondilha maior é a que apresenta sete sílabas poéticas em cada verso.19 . José Fernandes Bezerra, op. cit., pp. 22 – 23. 23
  24. 24. Junto com o sacristão. Porém nenhum deles fez O que fez o Fábião20. O poema “Romance do Boi Mão de Pau” é a epopéia do Ciclo da PecuáriaNordestina. O poema contém quarenta e oito sextilhas, todas em redondilha maior. Nele,Fabião personifica o Boi Mão de Pau, que é o valentão, o rei das vaquejadas, derrubador dosvaqueiros derrubadores. Fala, ainda dos tempos de apartação e de muitos outros aspectos dapecuária. Leia a primeira e a última sextilhas desse poema: Vou puxá pelo juízo Pra se sabê quem eu sou Mode se sabe dum caso Ta quá ele se passou, Que é o boi liso-vermeio, O Mão de Pau corredô. (...) Já morreu, já se acabou, Está fechada a questão. Foi-se embora dessa terra O dito boi valentão. Pra corrê só Mão de Pau, Pra verso só Fabião21. De acordo com José Fernandes Bezerra: As suas cantorias sempre repetiam o seu ‘Redondo, Sinhá’, que era uma espécie de coro. Em determinados versos, também servia de prefixo. Dizem que era quase analfabeto. Gostava de ditar para alguém escrever versos ou quadrinhas de sua autoria.Extraviou-se em noventa por cento a sua produção É lamentável, mas infelizmente o folclore do Rio Grande do Norte muito perdeu da literatura de cordel do famoso poeta dos vaqueiros.22 Para alguns estudiosos, só se pode falar em literatura quando há um texto escrito. Paraoutros, existe ainda a chamada literatura oral, aquela que persiste pela transmissão oral, nãoescrita. Os cantadores de viola se incluiriam nesta categoria. A literatura de cordel é umamanifestação que emprega os dois registros: o oral e o escrito. A figura dos violeiros que20 . José Fernandes Bezerra, op. cit., p. 22.21 . Ibidem, Idem, p. 23.22 . José Fernandes Bezerra, op. cit., p. 24. 24
  25. 25. cantam os versos, por exemplo, é indissociável dos livretos que trazem o texto recitado poreles23. Era comum a literatura de cordel ser classificada como sendo de pouco ou nenhumvalor. Hoje em dia, o cordel passou a ser estudado como fonte não apenas literária, mas,sobretudo, histórica. Do final do século XIX às duas décadas do século seguinte, Fabião era unanimidadena nossa região. Henrique Castriciano, Ferreira Itajubá, Nísia Floresta, Auta de Souza,Segundo Wanderley ainda escreviam, no plano estadual, à Castro Alves, Tobias Barreto e,muito incipientemente, à Bilac e Machado de Assis. Euclides da Cunha e Lima Barreto, aoque parece, não tinham desembarcado o seu Pré-Modernismo em terras potiguares. Mário,Oswald e suas revoluções de 1922 não se faziam presentes nas produções dos nossos famososprovincianos. Os versos de Fabião não se enquadravam nas tradicionais funções literárias, quaissejam a da arte pela arte, a da literatura como mecanismo de evasão, a da literatura comoforma de conhecimento do mundo e do homem, a da literatura como catarse; seus versos nãoacompanhavam os modelos, as técnicas e as temáticas então vigentes em sua época; a sua artenão se figuraria em uma literatura cujo fazer poético fosse utilizado como instrumento dedenúncias das injustiças sociais. Como vimos, Fabião não usou suas obras para tal finalidade. Fabião era homem simples, negro, escravo alforriado, totalmente desprovido deideologia política. Não se podia cobrar questionamentos sociais em suas obras. Na verdade, suas canções líricas eram a expressão de seus mais sinceros sentimentos. Fabião, com suas cantigas líricas, registrou a cultura local, divertiu as camadaspopulares e brindou os palácios do poder. O Trovadorismo português, com uma novaroupagem, marca presença em terras nordestinas.23 . Para maiores informações acerca da literatura de cordel veja: Marinalva Vilar de Lima, Narradores do PadreCícero: do auditório à bancada, Fortaleza-Ce: edições UFC, 2000. Há nesta obra muitas referências aospesquisadores que se dedicaram ao estudo da Literatura de cordel brasileira e portuguesa. 25
  26. 26. 26
  27. 27. CAPÍTULO II DÉCADA DE 30: DOMÍNIO OLIGÁRQUICO VERSUS REFORMISMO IGUAL A LITERATURA DE EXALTAÇÃO No plano nacional, a Revolução de 30, o Estado Novo, o Levante Integralista, aIntetona Comunista, a questão trabalhista, a revolução constitucionalista de 1932 em SãoPaulo, a Constituição de 34, a ditadura do Estado Novo, são aspectos relevantes no contextohistórico da nação a que a literatura local não destinou um único verso. E, em terras potiguares, aspectos históricos importantes como o cangaço, as secas, aIntetona Comunista, a violência da campanha eleitoral, que colocou Rafael Fernandes noPalácio Potengi, poderiam ter se transformado em temas interessantes, não só para o registroda história, como para o prazer estético do leitor. Nem mesmo os acontecimentos mais relevantes da cidade nessa época, tais como osurgimento dos partidos políticos e a eleição do primeiro prefeito de Santa Cruz, Cel.Ezequiel Mergelino de Souza; a destituição desse prefeito eleito após dez meses de mandato;a nomeação do interventor Cleto Antunes de Lima, indicado pelo Movimento RevolucionárioMilitar; a inauguração do mercado público municipal; a instalação da primeira linhatelefônica – Santa Cruz – São Tomé; a inauguração do Grupo Escolar Quintino Bocaiúva; oslançamentos dos jornais O Trairy, O Ideal e O Infantil, que fizeram Santa Cruz viverintensamente suas agitações políticas e sociais, foram merecedores da atenção dos poetaslocais. De acordo com as nossas pesquisas no campo da literatura local, é provável que ospoetas santacruzenses não tenham nem tomado conhecimento da realização da Semana deArte Moderna. Não encontramos registro literário algum que fizesse menção a esse evento,responsável pela introdução do Modernismo brasileiro. 27
  28. 28. Aliás, o Modernismo da Primeira Fase pretendia colocar a cultura brasileira a par dascorrentes de vanguarda do pensamento europeu, ao mesmo tempo em que pregava a tomadade consciência da realidade brasileira. As muitas polêmicas, os muitos manifestos, os versospostos em liberdade, todos os temas, da réstia de cebola, à paixão exarcebada, foram tidoscomo poéticos; enfim, a Primeira Fase do Modernismo brasileiro, a Fase Heróica, de 1922 a1930, projetou no cenário nacional poetas e escritores corajosos e sedentos por mudanças,tanto na estrutura formal de suas obras quanto nas suas temáticas. Essas idéias, com certeza,não tinham chegado ainda em Santa Cruz. No plano estadual, o poeta Jorge Fernandes 24 chama a atenção para as inovaçõesmodernistas. A década de 30 marca o início de um novo gênero literário no Brasil, o conto. A literatura de Santa Cruz continua vivendo sua “belle époque”, não repercutindo asinovações propostas pelos artistas da Semana de Arte Moderna. Poetas como Cosme FerreiraMarques, Luís Patriota e José Abdias continuavam presos àquela arte burguesa de exaltaçãoàs famílias tradicionais, à religiosidade, ao nacionalismo citadino, características marcantes daliteratura romântica do século XIX, sem, portanto, assumirem qualquer compromisso com asquestões sociais. A literatura local, surpreendentemente, não quis repercutir as temáticas político-sociaisque, diga-se de passagem, são riquíssimas, principalmente a da Intetona Comunista, que teveseu desfecho na Região do Trairi, na Serra do Doutor, a menos de 30 quilômetros de SantaCruz. Os artistas desta arte optaram pelo caminho do não rompimento com o passado epresente de glórias, em suas obras; optaram pela ausência de registros de fatos relevantes doponto de vista histórico; preferiram não fazer de suas obras veículos de denúncia daquelarealidade. Os poetas continuaram utilizando-se das técnicas tradicionais para transmitir a suaarte.24 . Poeta potiguar que se preocupou em divulgar as inovações que o Modernismo apregoara. Para obter maioresinformações sobre a literatura potiguar, podemos consultar Tarcísio Gurgel Informação da Literatura Potiguar,Natal –RN: Ed. Argos, 2001. 28
  29. 29. O novo sempre assusta aqueles que estão no poder, e é claro que os artistas nacionaisviviam o patrulhamento político, em função do novo que se propunha e de suas posturasideológicas. As agitações literárias com suas intensas polêmicas temáticas e formais eramuma rotina na década de 30. O professor Antônio Cândido, eminente crítico literário,testemunha num artigo publicado no livro Recortes: Em 30 nós vivemos o problema do realismo, ou neo-realismo, socialista ou não, bem como a incorporação daquilo que as vanguardas do decênio anterior tinham proposto como inovação. Vivemos um grande surto do romance, ligado aos pontos de vista opostos na moda pela sociologia e a antropologia, como um triunfo do social contraposto às tendências espiritualistas e religiosas. Houve dilaceramentos e disputas, com a formação de um antipólo metafísico e as mais rasgadas polêmicas que marcaram todos nós. Quando comecei a fazer crítica literária, pouco depois de 1940 (auge do Estado Novo, da censura e do arrocho), senti que uma das tarefas era oferecer blindagem ideológica para os romancistas mais significativos do decênio de 30, coisa que hoje há de parecer incompreensível, pois eles se tornaram incorporados aos hábitos de leitura como coisa óbvia.25 A literatura local continuava, entretanto, totalmente desvinculada da literaturanacional. Os nossos poetas optaram em não polemizar com quem quer que fosse, tendênciasliterárias, poetas emergentes, tampouco com políticos, fazendeiros, coronéis etc.;continuaram priorizando o gênero lírico e suas formas tradicionais; não refletiram sequer omomento histórico do final do século XIX, o evolucionismo, o positivismo, o materialismo, odeterminismo; enfim, não repercutiram o não-eu, o cientificismo do Realismo nem asinovações propostas pela Semana de Arte Moderna. Não foram encontrados nos jornais caseiros dessa época quaisquer indícios dasinovações ocorridas na literatura do eixo Rio-São Paulo. Os redatores desses veículos decomunicação, muitas vezes, eram os próprios poetas.2. 1. OS JORNAIS LOCAIS E SEUS DISCURSOS25 . Antônio Cândido, Formação da Literatura Brasileira: Momentos Decisivos, 6ª Ed. Belo Horizonte: EditoraItatiaia Ltda., 1981, p. 348. 29
  30. 30. O jornal Infantil, de circulação efêmera, apenas seis números quinzenais, publica, nodia 15 de fevereiro de 1931, uma poesia, de autoria desconhecida, que valoriza uma conquistados jovens rapazes que formavam a equipe de futebol Trairi Clube: a posse de um terrenobaldio, outrora um cemitério, para a prática do futebol. A prática desse esporte naqueleterreno – hoje lá estão o Bradesco, a Telemar, a Caixa Econômica e o Banco do Nordeste - foimotivo de muito bate-boca com a igreja - que não admitia, em hipótese nenhuma, um“desrespeito” daqueles – e com as autoridades municipais, que sempre comungavam com aigreja. Os rapazes, valendo-se da tese segundo a qual a prática do esporte é salutar à vida,ganharam a causa e o pequeno jornal fez-lhes a homenagem: Parabéns oh mocidade nós enviamos daqui aos rapazes valorosos do altivo Trairi que sem desfalecimento num constante trabalhar fizeram do Cemitério Santa Cruz ressuscitar26. Neste fragmento do poema, observamos que o mesmo não leva a assinatura de seuautor. Acreditamos que fosse uma forma de não se expor, para não se indispor com o clero eas elites dominantes daquela época. O jornal O Ideal, jornal dos namorados, ajudou a registrar a História de Santa Cruz nadécada de 30. Seu primeiro número circulou em 1931, manuscrito, conforme declarado emsua edição de 31 de dezembro de 1938, feito em comemoração ao oitavo ano de sua fundação.O poeta Cosme Ferreira Marques (Jeca Tábua) era o diretor, o senhor José Bezerra, o gerente.Zé Galvão, Pedro de Tico, e alguns outros ajudaram a fazer esse veículo que tratava decinema, poesia, aniversários, fofocas, falecimentos, etc.26 . Monsenhor Severino Bezerra, op. cit., P. 33. 30
  31. 31. Outro jornal que ajudou a divulgar, não só a poesia de Santa Cruz, mas, sobretudo, opassado de glórias da cidade, foi O Trahiri. Esse jornal circulou durante todo o ano de 1932 eera tido como um Órgão da Sociedade Educacional Santacruzense. O seu diretor era o poetaLuís Patriota; Horácio F. da Rocha, seu gerente. Composto e impresso em tipografia própriamantinha redação e oficinas à Rua Dr. Pedro Velho. Cobrava por assinatura anual 10$000,semestral 6$000, número avulso $200 e atrasado $400. Assuntos como Santa Cruz e aconstrução do açude Inharé, Ferreira Itajubá27, a seca de 32 (numa perspectiva natural, nuncapolítico-social), futebol, júri, concursos de beleza; Euclides Rodrigues de Carvalho, poesia,cinema, além de fazer uma verdadeira apologia a administração do então prefeito MiguelRocha e ao seu sobrinho, o secretário Miguel Rocha Sobrinho. Não encontramos, nesses jornais, visões críticas da sociedade. É como se em SantaCruz tudo fossem flores.2.2. ABDIAS E A PRIMEIRA ANTOLOGIA DE SANTA CRUZ Rimário de Poetas Brasileiros, antologia de poetas nacionais, regionais e locais,publicada em 1938, pela Tipografia “O Trairi”, compilado pelo poeta Abdias Gomes deAlmeida Bezerra, é, de acordo com a nossa pesquisa, o primeiro livro a divulgar as obrasliterárias dos poetas de Santa Cruz. Abdias nasceu no dia oito de novembro de 1884 na cidade de Araruna-PB e faleceuem Santa Cruz no ano de 1942. Estabeleceu-se em Santa Cruz ainda bastante jovem. Era umpequeno comerciante apaixonado pela literatura. Grande parte de suas pequenas economiaseram destinadas à aquisição de manuais de literatura. Conseguiu, junto ao seu amigo Luís27 . Nascido em Natal em 1876, Ferreira Itajubá era de família extremamente pobre, e assim viveu. Ingênuo e puroviveu contemplando as belezas naturais de sua terra, ao estilo árcade. Morreu na miséria em 1912. Podemosencontrar mais elementos em Constância Lima Duarte & Diva Cunha Pereira de Macedo, Literatura do RioGrande do Norte: antologia, Natal-RN: Governo do Estado do Rio Grande do Norte, Fundação José Augusto,2001. p.121. 31
  32. 32. Patriota – diretor da Tipografia, um bom desconto para publicar o livro Rimário de PoetasBrasileiros. Essa antologia é composta por 113 poemas das mais variadas formas. 47 poetasparticipam dessa antologia: José de Lorena, Pereira da Silva, Palmira Wanderley, Perillo deOliveira, Olegário Mariano, Luís Patriota, Auta de Souza, Segundo Wanderley, Casemiro deAbreu, Castro Alves, Otoniel de Menezes, Múcio Teixeira, Herotides de Campos, LuísPeixoto, Joaquim Lima, F. das Chagas Batista, Carlos Cermiciary, Valquíria Leite Dutra,Joaquim Guilherme, Catulo Cearense, Mendes Martins, Augusto dos Anjos, Da Costa e Silva,Carolina Vanderley, Gotardo Neto, Abdias A. Bezerra, Pe. Pedro Paulino, Maria Carolina,Olavo Bilac, Cerquinho Nunes, Damasceno Vieira, Ponciano Barbosa, Pinto Coelho, PériclesMaciel, Luís Pistarine, Pe. Antônio Tomaz, Júlio Salusse, Aníbal Teófilo, Jorge de Lima,Venceslau de Queiroz, Ferreira Itajubá, Carlos Dias Fernandes, Zeferino Brasil, GuimarãesJúnior, H. Castriciano, Genar Vanderley e Afonso Celso. Esse livro, como bem disse Abdiasno prefácio: ...teve por objetivo coligir rimas esparsas muitas delas prestes a desaparecer, por entre a poeira dos tempos. No número destes compreende-se essa falange de moços de então, contemporâneos nas eras de 1900, filhos e admiradores da primorosa terra de Pereira da Silva e Perillo de Oliveira. Quando estes tangiam as suas lyras aedas e conosco cantavam as musas de nossa esplêndida mocidade28. São recorrentes nas obras de Abdias as temáticas do medo, do amor, da saudade,especialmente a da terra natal. A lembrança da infância querida observada no poema Dia dosMeus Anos assemelha-se às inquietações líricas de Casimiro de Abreu29: Oito de Novembro. Ano de oitenta e quatro, Nasci. Quanta ledice no solar paterno.28 . Abdias Gomes de Almeida Bezerra, Rimário de Poetas Brasileiros, Santa Cruz – RN: Tipografia “O Trairi”,1938. pp. 45-46.29 . Poeta do Romantismo brasileiro da 2ª geração. Cantou o saudosismo em todas as situações: o saudosismonacionalista e a saudade nostálgica da infância pura, acrescida da fixação sentimental na mãe e na irmã. José deNicola, op. cit., p. 144. 32
  33. 33. Do planalto de Araruna, meu berço terno. Iluminado pelos fulgores do primeiro astro. Nasci, certamente naquele dia, naquela hora, A natureza era queda, maviosa e lenta. Por isso que, minh’alma melhor se alenta. No silêncio onde a saudade mora... Da mamãe! Quem saudades não tem! Ora essa!... Do primeiro beijo que inda ouço. Transportado nas asas da oressa!... Carícias de outros seres a lembrança me acode, Belos refletores, de minhas ilusões de moço Dessas ilusões, que o tempo suplantar não pode30! Nessa antologia, além de Abdias, destacam-se poetas como Joaquim Lima, que fazlembrar em seu poema Adeus, Santa Cruz, o saudosismo, o locus amoenos, característicasárcades segundo as quais a natureza é vista como um lugar ameno, aprazível, onde o homempoderia encontrar equilíbrio e paz: Adeus, Santa Cruz, que eu de ti vou me ausentar. Cheio de recordações ternas lembranças, Quando um dia a teu céu eu regressar, Quero ver-te cheia de luz e de esperanças. Auras balsâmicas de manhãs fagueiras, Tardes amenas de candidez e doçura, Estrelas mil que no firmamento adejas, Lua brilhante que no azul fulgura. Flores campestres de esplendor infindo, Árvores sombrias de um Sertão antigo, De tudo enfim que nesta terra é lindo, Saudades sôfregas levo-as eu comigo. Adeus, solo ubérrimo de esperança, Torrão querido de minha alegria, Adeus parentes, amigos da infância, Adeus, Santa Cruz,até um dia31...2.3 LUÍS PATRIOTA, O “POETA DAS JANGADAS”.30 . Abdias Gomes de Almeida Bezerra, op. cit., p. 47.31 . Ibidem, Idem. p. 48. 33
  34. 34. Destacou-se também na antologia Rimário de Poetas Brasileiros o poeta Luís Patriota,natural de Touros, nascido em 25 de novembro de 1899 e falecido em 21 de dezembro de1978. Ele foi colaborador do jornal A República, de Natal, fundou o jornal O Trairi, em 1932,em Santa Cruz. Luís Patriota pertenceu à Academia Norte-riograndense de Trovas e àAcademia Potiguar de Letras. É conhecido como “poeta das jangadas”, por ter escrito muitospoemas inspirados nesse tema. Foi jornalista, juiz de paz, escrivão, advogado, promotor,professor e secretário da Junta Comercial do Estado. Em Santa Cruz, onde morou por muitosanos, trabalhou como Guarda-Livros (contador)32 dos Ferreira de Souza. Foi diretor datipografia “O Trairi”, trabalhou também como professor, continuou fazendo o que maisgostava: escrever . Era poeta e escritor culto, exigente, adepto da poesia clássica, com ritmo,rimas e métrica impecáveis ou de poesias sem tais exigências formais, como O Meu S. João,em que o sentimentalismo, a religiosidade e a subjetividade de seu eu-lírico denunciam todo oRomantismo romântico de seus versos: Oh! Como eu te amo, meu bom São João! Noite de encantos e de prazer! Pela mais doce recordação Com que me envolves o coração, Da melhor quadra do meu viver. Revejo agora com os olhos d’alma Entre coqueiros a farfalhar, A pobre vila, que é a minha palma, Meu céu de affecto, onde se acalma Toda a amargura do meu sonhar... E que revoadas de tradições, De coisas lindas e primitivas, Ao doce embalo das ilusões, No céu das minhas evocações, Deslumbradoras, radiantes,vivas!...33 Luís Patriota, em Carta Aberta, fez a seguinte declaração sobre o livro Rimário dePoetas Brasileiros, do compilador Abdias Almeida:32 . Guarda-Livros é atualmente o profissional que trabalha em escritório de contabilidade. Toda a contabilidadeda tradicional e oligárquica família Ferreira de Souza fora entregue aos cuidados de Luiz Patriota.33 . Abdias Gomes de Almeida Bezerra, op. cit., p. 49. 34
  35. 35. Falar do Rimário de Poetas Brasileiros é mister, antes de qualquer outra coisa, volver os olhos d’alma aos longes esmaecidos de um passado, que tanto nos pode ter sido feliz como desditoso. Pouco importa... Todos nós, venturosos ou não, temos sempre um passado a recordar! E eu, que vivo do passado, sinto que a minha felicidade consiste unicamente em revivê-lo, nos meus momentos de meditação e de tristeza!..34 O passado, portanto, não o seu presente, nem o seu futuro, é, segundo Patriota, ainspiração da sua obra. Patriota publicou as seguintes obras: Livro d’alma35 e Poemas dasjangadas36. A literatura de Santa Cruz, da década de 30, manteve-se isolada do resto do país, nãofoi contaminada pelo espírito demolidor dos valores tradicionais que traziam os artistas daprimeira fase do Modernismo brasileiro, a fase heróica; não se manifestou à Pau-Brasil e nemà Verde-Amarelismo e tampouco “Antropofagiou” como fizeram seus irmãos famosos daregião sudeste do Brasil. As narrativas em prosa, que conheceram um notável desenvolvimento desde o final doséculo XVIII, inexplicavelmente ainda não se faziam presentes na literatura de Santa Cruz.Escritores como José de Alencar, Joaquim Manuel de Macedo, Machado de Assis, Euclidesda Cunha, Lima Barreto, etc., compunham a biblioteca de Luís Patriota, Cosme Marques etantos outros intelectuais da literatura local. Entretanto, estes não se deixaram influenciar poraqueles, e Santa Cruz não teve o privilégio de ler em prosa a sua cultura, os seus costumes, asua gente, a sua história. A literatura desse período, portanto, optou por dar ênfase a seus heróis, seus coronéis,exaltar seu passado histórico, deu ênfase à religiosidade e às datas natalícias de seu povo;supervalorizou as emoções pessoais; optou por não cantar as questões sociais, tais como ocangaço, o messianismo, a seca, os acordos espúrios na política; não repercutiu o domíniooligárquico nem o reformismo dessa época. Enfim, a literatura santacruzense da década de 30manteve-se fiel ao conceito, até então, praticado pelos seus poetas, principalmente Luís34 . Jornal O Trairi. Seção Literatura. Santa Cruz-RN. 1938.35 . Luís Patriota, Livro d’alma, Recife: Imprensa Industrial, 1922. (Poesias).36 . Luís Patriota, Poemas das jangadas, Santa Cruz – RN: Tipografia O Trairi, 1933. 35
  36. 36. Patriota, segundo o qual ela deve ser a expressão e a realização do belo literário, da meditaçãoe da tristeza, da recordação de um passado feliz, sem comprometimentos extras. CAPÍTULO III DÉCADA DE 40: A ESTÉTICA DA GRATIDÃO 36
  37. 37. É na década de 40, mais precisamente em 1942, que o Brasil entra na segunda grandeguerra. O Rio Grande do Norte vivia intensamente o desenrolar do conflito. Parnamirim eNatal recebiam um grande contingente militar norte-americano37. O Estado Novo de Getúlio Vargas precisava legitimar-se perante a opinião pública.Com essa finalidade, foi criado em 1939 o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) oqual se encarregou de fiscalizar todas as atividades culturais e jornalísticas. O programaradiofônico A Voz do Brasil não se cansava de endeusar o presidente Vargas38. Santa Cruz dava boas-vindas ao IBGE, ao Instituto Cônego Monte, aos primeirosprotestantes e à sede dos escoteiros39. Na literatura nacional, destacavam-se as gerações de 30 e de 45, a poesia Pós-Modernista e a prosa regionalista. Os poetas das Gerações de 30 e de 45, Carlos Drummondde Andrade, Vinícius de Morais, Jorge de Lima, Murilo Mendes, Cecília Meireles e JoãoCabral de Melo Neto, assim como os prosadores Graciliano Ramos, José Lins do Rego,Rachel de Queiroz, Érico Veríssimo e Jorge Amado não eram famosos na terra de Santa Ritade Cássia. Não encontramos, dessa década em Santa Cruz, nenhum indício das inovaçõestemáticas e lingüísticas introduzidas pelos artistas nacionais que viveram o período, como porexemplo a tentativa de disciplinar a linguagem literária, tão desregrada pelo liberalismoexagerado dos modernistas de 22. O fato é que, pela terceira vez no século XX, as letras brasileiras apresentaram novociclo de renovação, tanto na poesia quanto na prosa. O elemento norteador dessa fase foi,37 . Para mais informações ver: Luiz Eduardo Brandão Suassuna, Anotações sobre a história do Rio Grande doNorte, Natal – RN: Editora Clima. 1998.38 . Mais informações sobre esse assunto o leitor pode encontrar em Florival Cáceres, História do Brasil, SãoPaulo – SP: Editora Moderna, 1995, pp. 290 – 91 -92.39 . Mais elementos ver: Hermano Amorim, Santa Cruz nos caminhos do desenvolvimento, Natal – RN: EditoraSanta Maria. 1998. 37
  38. 38. sobretudo, as novas pesquisas formais, expressas no estilo personalístico de autoresestreantes, cada um deles com seus aspectos próprios40. No plano estadual, a literatura se ressentia, pelo menos no campo editorial no períodoentre o final dos anos 20 à segunda metade de 40, de uma atividade literária mais consistente.A Temporada Literária, ocorrida na década de 30, foi uma tentativa de movimentar aliteratura local41. Não encontramos nas obras literárias de Santa Cruz, nem tampouco nos jornaiscaseiros da década de 40, os famosos embates entre os Modernistas e os Neomodernistas,protagonizados por críticos literários como Sérgio Millet, Tristão de Ataíde, Périplo Eugênioda Silva, entre outros42. Relevantes ou irrelevantes, dos muitos acontecimentos sociais, políticos, econômicos eliterários, o fato é que os poetas de Santa Cruz, da década de 40, tais como Cosme Marques,Abdias Gomes e Luiz Patriota, continuaram cantando temas de exaltação de famíliastradicionais, o fazer poético e a saudade de seus passados, se utilizando das mesmas técnicasde outrora. Um tema que poderia ter sido bem aproveitado pelos nossos artistas da palavra é umdos problemas que mais diretamente aflige o homem simples da nossa região, a seca. Rarasforam as vezes em que os poetas locais abordaram esse tema. Marques, ao enfocá-lo,descreve-o como um problema natural, isto é, não vincula a seca aos interesses dos coronéisda região que a tomaram como argumento poderoso para aquisição de vultosas verbasfederais, cargos, benefícios em suas propriedades, prestígio e perpetuação no jogo do poder. A não abordagem desse tema pelos poetas locais, passa-nos a impressão de que elesentendiam que a seca não era um problema político. As autoridades, as elites que estavam no40 . O leitor pode acrescentar mais informações sobre essas renovações literárias propostas pelos modernistasdesse período em Faraco & Moura Língua e Literatura, São Paulo – SP: Editora Ática. 1998. pp. 499 -500.41 . Caso o leitor tenha interesse em aprofundar os conhecimentos sobre esse assunto, deve consultar TarcísioGurgel, op. cit., p. 75.42 . Maiores elementos em Clenir Bellezi de Oliveira, op. cit., pp. 480 – 81. 38
  39. 39. poder, não tinham culpa da miséria do povo, dos flagelos causados pela seca. O problema erade ordem geográfica e meteorológica. Pelo contrário, as autoridades, as elites que estavam nopoder, eram generosas com os flagelados, na medida em que chegavam com “soluções”emergenciais. Na década de 40, destacou-se o livro Canastra véia, citado anteriormente, do poeta,professor, agente municipal de estatística, Cosme Ferreira Marques, publicado em 1946, pelaTipografia Galhardo, de Natal. Cosme Ferreira Marques (1908 – 1959) nascera em Bananeiras-PB, mas viera paraSanta Cruz com cinco anos de idade. Adotou Santa Cruz como sua terra querida, e Santa Cruzo adotou como seu poeta maior, em sua época. Seu Cocó, como era carinhosamenteconhecido, usava o pseudônimo de Jeca Tábua, quando escrevia versos matutos ou de pés-quebrados. Ele nos dá, como bem disse Luís da Câmara Cascudo, no prefácio do livroCanastra Véia, ...uma lição de perseverança e de fidelidade letrada. Tudo que o podia desanimar e vencer não o desanimou nem o venceu. Passou epidemia, tempestade, crise, desalento, como um avião atravessa nuvem ou, lembrando um verso de Ferreira Itajubá : - um gume cortando polpas de maçãs maduras. Quando muita gente desanimou e virou homem prático, acabando rico e dispéptico, Jeca Tabua continuou poeta, poeta ,poeta43. O livro Canastra Véia está dividido em duas partes, a primeira é constituída de “pés -quebrados” numa linguagem matuta, toda regional. A segunda, como escreveu o próprio autorna apresentação, “... posso chamá-la de ‘Vibração d’Alma’. São cantos desferidos ao toquede um sentimento, quer de afeição, de dedicação e de gratidão, a amigos, filhos e protetores”[Grifos nosso]44. Como o próprio autor afirmou, suas composições poéticas são as mais purasexpressões sentimentais de gratidão e de amizade. Entretanto, pode-se perceber que o poeta,43 . Cosme Ferreira Marques, op. cit., p. 6.44 . Cosme Ferreira Marques, op. cit., p.12. 39
  40. 40. sem qualquer intenção de analisá-los criticamente, menciona alguns aspectos da sociedade desua época, como por exemplo o coronelismo, fenômeno que se caracterizou pelo clientelismo,pela troca de favores e pela obediência total e irrestrita ao coronel, presente no poema“arritirantes”, o qual refere-se à seca, à miséria, à humilhação e à morte, muito presentes emnossa região. Este poema, em hipótese alguma, deve ser lido com os olhos da crítica social, esim, com os da admiração e da gratidão pelo socorro certo do coronel. O problema dosofrimento do homem comum, para o poeta, não é de ordem político-social, mas natural: Arritirantes... Ao Coronel Ezequiel Mergelino de Souza Coroné num sadimire Du istadoqui mi vê, Venho di riba du quimquê, Du sertúo: Mi arrepare meu patrão, A mizéra mi consome, Dois fio morreu de fome Nus caminho; Aqui patrão, to sozinho, Morto di fome, cançado... A famia, ali nu quebrado Mi ispéra, Cum fome, mardita era Qui trás a seca terrive É duro Patrão, é horrive, Pra mim; Eu nunca mi vi assim, Nu istado qui mi vê, Vendu meus fio morrê Nus braço, Foi pra mim cumo um pedaço, Tirado do coração, Mi secorra coroné, Uma ismola meu patrão.4545 . Cosme Ferreira Marques, op. cit., p. 22. 40
  41. 41. Marques também dá uma demonstração de que é poeta culto, ao escrever, em 1946, osoneto, Poesia, homenagem póstuma ao também poeta, seu amigo, do início do século, oculto Clovis J. de Andrade, de quem, infelizmente, nada foi encontrado: Rimas, abecedário cheio de harmonia, Pensamentos de um cérebro portentoso, Sentir em verso, a própria poesia De um ser inteligente e ardoroso. Ser Poeta, é caminhar numa via De um sonho tão lindo e majestoso, É lançar ao mundo, um canto de magia O hino dum rimário glorioso. Ser Poeta, é sentir a dor, a alegria É rimar numa suprema agonia, Uma vida, um mundo, um Universo; Ser Poeta, é amar, gozar, sofrer, Ser Poeta, é em sonhos reviver Vida e alma na estrofe de um verso.46 Foi a década de 40 uma extensão da de 30, com a sua poesia de exaltação e dedesvinculação total com os principais poetas e escritores do país. CAPÍTULO IV A GERAÇÃO DE 5046 . Ibidem, Idem, p. 32. 41
  42. 42. Os acontecimentos históricos até pareciam se oferecer à literatura como fonte deinspiração. Foi assim, também, com a década de 50, pois muitos fatos relevantes aconteceramnesse período: o governo Vargas, o populismo e o nacionalismo econômico, a criação daPetrobrás, a crise institucional, a perda da Copa, o suicídio e a sucessão de Vargas, ainauguração da TV, o desenvolvimentismo de Juscelino Kubitschek, são alguns exemplos quepodemos citar47. No Estado do Rio Grande do Norte, essas “fontes de inspiração” também se ofereciamaos nossos poetas locais. Com o fim da Segunda Guerra, a redemocratização trouxe, nocampo político, um sopro de novidade: um mossoroense, Dix-Sept Rosado emergiu ao poderestadual, com seu companheiro de chapa Sílvio Pedroza. Um acidente aéreo levou ointelectual Pedroza ao poder, e uma de suas atitudes, contraditórias por demais, foi a de fecharo jornal oficial A República, grande incentivador da cultura no Estado48. Ao nosso ver, não se pode, em hipótese alguma, exigir que a literatura narre osacontecimentos históricos. Nesse sentido, ela tem uma maior liberdade, podendo construiridéias, imagens, quadros que se afastem por completo do universo de experiências de umaépoca. Portanto, ao tomarmos a literatura enquanto objeto de estudo, não podemos exigir queela estabeleça uma relação de total atrelamento com os fatos históricos, ainda que a mesmapossa vir a estabelecer um diálogo com os acontecimentos de sua época, ou mesmo, os tomecomo fonte de inspiração. A nossa preocupação, desde o início deste estudo, era a de verificar se os poetas locaisemitiam algum sinal de evolução em seu discurso e em suas técnicas, e se essa evoluçãoliterária se dava no mesmo ritmo da verificada no contexto histórico. Assim foi que, a questãodo uso dos acontecimentos históricos enquanto motivo condutor das obras, foi observada47 . Mais informações sobre esse assunto ver: Nelson Pillet, História do Brasil, 18ª ed., São Paulo – SP: EditoraÁtica, 1996. pp. 264 -65 -66.48 . Mais informações ver: Luiz Eduardo Brandão Suassuna, Anotações sobre a história do Rio Grande do Norte,2ª ed., Natal – RN: Editora Clima, 1998. pp. 33 – 34. 42
  43. 43. enquanto preocupação secundária. Logicamente que isso não implica dizer que nãodestinamos atenção para este aspecto, visto que no universo da produção literária nacionalisso já vinha acontecendo há bastante tempo. Sempre à procura de indícios que nos permitissem afirmar que a nossa literatura jáhavia se sintonizado com a praticada nos grandes centros, fomos descobrindo que o material,até então publicado, só tratava do desenvolvimento econômico e social da nossa cidade, taiscomo a criação da Escola Normal Regional, do Hospital Maternidade Ana Bezerra, doGinásio Comercial, do Trairi Clube, a construção da ponte Centro-Paraíso, a fundação doSESP. Algumas evoluções políticas, como a emancipação política de Lajes Pintadas, de SãoBento do Trairi e de Tangará, pertencentes ao município de Santa Cruz49. A literatura, no eixo Rio-São Paulo, acompanhava o ritmo das mudanças verificadasnessa década no Brasil. A poesia dessa época foi muito rica em experimentalismos. Os irmãosAugusto e Haroldo de Campos e Décio Pignatari propuseram a poesia concreta. Em 1954,Ferreira Gular lança o livro A luta Corporal, com experiências poéticas que levam em conta oespaço em branco do papel e as possibilidades de diagramação da palavra em poesia, unindosignificado e significante. Em 1956, houve a Exposição Nacional de Arte Concreta e sedestacaram Augusto e Haroldo de Campos, Décio Pignatari, Ferreira Gular e outros. É adécada em que o grande poeta Carlos Drummond de Andrade se dedica totalmente à arteliterária50. A literatura potiguar procurava sintonizar-se com a praticada nos grandes centros. Decerta forma, essa sintonia já se percebia, na medida em que surgiam estudiosos e críticosliterários, como o jornalista, poeta e crítico literário Antônio Pinto de Medeiros. Ele, emmuitos casos, utilizava-se de sua coluna provocativa “Santo Ofício”, no jornal O Poti, para49 Entrevistamos o senhor José Bezerra, historiador e contemporâneo dessa década, e dele ouvimos que os jornaisA centelha e O Pif-Paf “noticiavam com muito entusiasmo os avanços políticos, sociais e econômicos da nossacidade.”50 . Sobre os experimentalismos na poesia desse período, o leitor encontrará mais elementos em Clenir Bellezi deOliveira, op. cit., p. 558. 43

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