i
Universidade Federal do Rio de Janeiro
Museu Nacional
Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social
Um Rio Atlântico
...
ii
Um Rio Atlântico
Culturas urbanas e estilos de vida na invenção de Copacabana
Julia Galli O’Donnell
Tese de Doutorado a...
iii
Um Rio Atlântico:
Culturas urbanas e estilos de vida na invenção de Copacabana
Julia Galli O’Donnell
Tese submetida ao...
iv
O’Donnell, Julia Galli.
Um Rio Atlântico: culturas urbanas e estilos de vida na invenção de
Copacabana/Julia Galli O’Do...
v
Resumo
Copacabana é hoje uma das praias mais famosas de todo o mundo. Apresentada, em
diversos contextos, como símbolo d...
vi
Abstract
Copacabana is nowadays one of the most famous beaches in the world. Presented
repeatedly as a symbol of Rio de...
vii
Agradecimentos
Há precisos quatro anos, encerrado o ciclo da escrita de minha dissertação de
mestrado, escrevi os agra...
viii
Tatiana Siciliano e Liane Braga foram, além de colegas, amigas queridas e verdadeiras
cúmplices. Com elas construí um...
ix
“um rio é sempre sem antiguidade”
“Digo: o real não está na saída nem na
chegada: ele se dispõe para a gente é no
meio ...
x
Índice de imagens
Fig. 1 – J. Gutierrez, “Panorama do centro da cidade em 1893/1894” 21
Fig. 2 - Mapa do Rio de Janeiro ...
xi
Fig. 26 – “Atitude Solene”, 1907 77
Fig. 27 – “A caminho da roça 77
Fig. 28 – “Ancien Restaurant Ipanema” 84
Fig. 29 - ...
xii
Fig. 52 – Copacabana, 1924 144
Fig. 53 – Orla de Copacabana à noite, 1924 144
Fig. 54 - Augusto Malta, “Copacabana”, 1...
xiii
Fig. 79 – “Eis um grupo de altos edifícios para apartamentos...”, 1929 248
Fig. 80 – “O Rio futuro”, 1928 255
Fig. 81...
xiv
Sumário
Introdução 1
Capítulo 1 – A caminho do mar 19
Rumo a Copacabana 21
Luz no fim do túnel 30
Sobre os trilhos do ...
xv
Capítulo 5 - Um estilo Copacabana 192
Que venham os maillots 194
“Tudo é feito por sport” 200
O triunfo das morenas 207...
1
Introdução
Alguns anos atrás, numa tarde de sábado, ouvi, numa das pequenas ruas do Bairro
Peixoto (em Copacabana), uma ...
2
Acompanhando Victor Turner (2005), que enfatiza a importância do contexto de
situação como fator determinante para a com...
3
***
Nos idos de 1824, em seu livro Diário de uma viagem ao Brasil, a escritora inglesa
Maria Graham deixou o seguinte re...
4
com seus cambucás, tatus e abacaxis. Não é difícil inferirmos que a apresentação atual do
bairro não se limita a uma (im...
5
transformações sócio-espaciais por que passou a região como também o processo de
consolidação de significados que, ainda...
6
ao final da década de sessenta– a heterogeneidade – para investigar e discutir aquilo que
identifica como uma visão de m...
7
de forma marginal nos trabalhos anteriormente mencionados: a ideia de processo histórico.
Ao mesmo tempo busca, na trilh...
8
centímetros na calçada fazem parte da paisagem diária da região, num panorama sob muitos
critérios distante dos signos b...
9
discursos nativos das fontes trabalhadas, será então referida de forma expandida e, em muitos
momentos, metonímica7
A po...
10
valorização de práticas como o banho de mar e o esporte, do gosto pelo cosmopolitismo e
pelos bungalows, da rejeição en...
11
praiano-civilizatório”8
É preciso dizer, ainda, que a atenção ao processo de construção daquelas
representações se base...
12
Assim, mais do que tratar de Copacabana como uma realidade (e uma representação)
sui generis, a ideia é abordar a cidad...
13
social world is its network of communication, and the shared symbols, which give the world
some substance and which all...
14
teórico-disciplinares, no estabelecimento de um diálogo entre Antropologia e História. Num
embate que, conforme defendi...
15
de cultura e de identidade como categorias fundamentalmente múltiplas, não-estáticas e
sujeitas ao fluxo da história14
...
16
grande imprensa (Correio da Manhã, Jornal do Brasil, O Paiz, Gazeta de Notícias, Jornal do
Commercio e A Noite) e em re...
17
Partindo das discussões desenvolvidas no primeiro capítulo, o segundo se propõe a
compreender como, ao longo da década ...
18
isso, em uma poderosaa imagem literária, capaz de identificar e singularizar os habitantes do
bairro frente aos habitan...
19
Capítulo 1 – A caminho do mar
Em 6 de julho de 1892, os principais jornais do Rio de Janeiro noticiaram, sem grande
ala...
20
Janeiro – cargo para o qual seria eleito em dezembro daquele ano – já atuava, na prática,
como administrador da cidade,...
21
Rumo a Copacabana
Três aspectos saltam aos olhos na leitura das notícias acima reproduzidas. Em
primeiro lugar, a assoc...
22
Com uma população que saltara, entre 1872 e 1890, de 266 mil para 522 mil
habitantes, o crescimento urbano da cidade ao...
23
1889, quando cada vez mais médicos e engenheiros passariam a acumular funções na
administração pública. (Idem:20).
Aque...
24
estrangeiro, polarizando a movimentação financeira do país. 15º porto do mundo em volume
de comércio, atrás apenas de B...
25
Mapa do Rio de Janeiro em 1875
Era assim de uma cidade vista pelos contemporâneos como apertada, insalubre e
insuficien...
26
trens e bondes no século XIX, as pessoas não haviam chegado ao ponto de serem obrigadas a
se olharem mutuamente, por lo...
27
existente como, em atendendo a essa demanda, passaram a ter influência direta, não apenas
sobre o padrão de ocupação de...
28
públicos registrados já no censo de 1870 (Benchimol, 1990:94), a freguesia contava, naquele
ano de 1892, com mais de 8%...
29
bairros como São Cristóvão e Engenho Velho, cujo prestígio, muito associado à ocupação
imperial, entrara em franco decl...
30
Luz no fim do túnel
Vejamos, então, qual o cenário que circundava a festejada solenidade que, entre folhas
de bananeira...
31
Estação de bondes de Copacabana em 1892 / Fonte: Museu Histórico Nacional
As duas fotos acima apontam num mesmo sentido...
32
presença de dois expedicionários que, acompanhados de escravos, parecem a sós em meio à
desértica praia, na qual nota-s...
33
naquela praia. A notícia espalhou-se rapidamente, levando centenas de curiosos ao local,
dentre os quais se destacavam ...
34
pelos morros da Capoeira e da Caieira (atuais Cabritos e Cantagalo) para, então, chegar até a
praia. A ilustração abaix...
35
atração local, especialmente no dia 13 de setembro, quando se comemoravam as festas da
padroeira. Para tais ocasiões, a...
36
Vemos, tanto no relato quanto no postal, o destaque à integração da construção ao
cenário natural que, nos dois casos, ...
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inequivocamente, como um “areal” marcado pelo bucolismo, pelo vazio e, muitas vezes, por
um estágio “pré” civilizatório...
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Julia odonnell invenção copacabana

  1. 1. i Universidade Federal do Rio de Janeiro Museu Nacional Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social Um Rio Atlântico Culturas urbanas e estilos de vida na invenção de Copacabana Julia Galli O’Donnell Rio de Janeiro 2011
  2. 2. ii Um Rio Atlântico Culturas urbanas e estilos de vida na invenção de Copacabana Julia Galli O’Donnell Tese de Doutorado apresentada ao Programa de Pós- Graduação em Antropologia Social do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro, orientada pelo Prof. Dr. Gilberto Cardoso Alves Velho. Rio de Janeiro Janeiro de 2011
  3. 3. iii Um Rio Atlântico: Culturas urbanas e estilos de vida na invenção de Copacabana Julia Galli O’Donnell Tese submetida ao corpo docente do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro como parte dos requisitos necessários à obtenção do grau de doutora em Antropologia Social. Aprovada por: _________________________________ Prof. Dr. Gilberto Cardoso Alves Velho – PPGAS/MN/UFRJ (Presidente da Banca Examinadora) _________________________________ Profª. Dra. Adriana de Resende Barreto Vianna - PPGAS/MN/UFRJ __________________________________ Prof. Dr. Luiz Fernando Dias Duarte - PPGAS/MN/UFRJ __________________________________ Profª. Dra. Maria Alice Rezende de Carvalho - PUC-RJ __________________________________ Profª. Dra. Maria Laura Viveiros de Castro Cavalcanti - IFCS/UFRJ __________________________________ Prof. Dr. Federico Neiburg – PPGAS/MN/UFRJ (Suplente) ___________________________________ Profª. Dra. Myriam Moraes Lins de Barros – ESS/UFRJ (Suplente)
  4. 4. iv O’Donnell, Julia Galli. Um Rio Atlântico: culturas urbanas e estilos de vida na invenção de Copacabana/Julia Galli O’Donnell. Rio de Janeiro: UFRJ/Museu Nacional, 2011. xv, 298f. il; 31cm. Orientador: Gilberto Cardoso Alves Velho. Tese (doutorado) – UFRJ/ Museu Nacional/ Programa de Pós Graduação em Antropologia Social, 2011. Referências Bibliográficas: f. 290-301. 1. Antropologia urbana. 2. Rio de Janeiro. 3. Copacabana. 4. Estilos de vida. 5. Cultura urbana. I. Velho, Gilberto Cardoso Alves. II. Universidade Federal do Rio de Janeiro, Museu Nacional, Programa de Pós Graduação em Antropologia Social. III. Título.
  5. 5. v Resumo Copacabana é hoje uma das praias mais famosas de todo o mundo. Apresentada, em diversos contextos, como símbolo da cidade do Rio de Janeiro ou até mesmo da nacionalidade, ela concentra em torno de si imagens positivamente referenciadas a um estilo de vida praiano e, na mesma medida, representações negativas acerca da grande heterogeneidade social que marca a composição do bairro que a circunda. Esta tese busca, a partir de tais constatações, compreender o processo de construção material e simbólica de Copacabana, atentando para os mecanismos através dos quais determinados segmentos sociais fizeram dela – e dos bairros da assim chamada “zona sul oceânica” – territórios ligados a signos de prestígio e distinção social. Para tal, a pesquisa se concentrou nas três primeiras décadas do século XX, período no qual Copacabana passou de um distante areal a um bairro hegemonicamente associado a um estilo de vida moderno e sofisticado. Feita do entrelaçamento epistemológico entre Antropologia e História, esta tese visa, desta forma, apresentar uma etnografia do processo de construção identitária dos assim auto-denominados “aristocratas” dos bairros atlânticos – de modo a entender tanto os mecanismos de gestão do ethos praiano em torno do qual elaboravam sua diferenciação frente ao restante da cidade quanto a dissolução e ressiginificação dessas marcas diferencias frente à complexificação social que tomou corpo no bairro principalmente a partir da década de 1930. Palavras-chave: Copacabana; Rio de Janeiro; Praia; Estilos de vida; Cultura urbana
  6. 6. vi Abstract Copacabana is nowadays one of the most famous beaches in the world. Presented repeatedly as a symbol of Rio de Janeiro or even of the Brazilian nationality, it has been positively associated to a beach lifestyle and, to the same extent, negatively linked to the effects of the great social heterogeneity of the neighborhood. From these findings, this thesis aims to understand the process of the material and symbolic construction of Copacabana. It pays attention to the mechanisms by which certain segments of society made of the “Atlantic” boroughs a territory linked to signs of prestige and social distinction. In that sense, the research focuses on the three first decade of the 20th Century, when Copacabana became associated to a modern and sophisticated lifestyle. Thus, this thesis, trough an epistemological entanglement between History and Anthropology, present an ethnography of the aristocratic identity forged by some inhabitants of the neighborhood – in order to understand both the logic of the ethos that supports the distinction between this self-defined “aristocracy” and the other inhabitants of the City as the dissolution of this identity resulting of the growing of the region from the 1930´s on. Keywords: Copacabana; Rio de Janeiro; Beach; Lyfe Style; Urban Culture.
  7. 7. vii Agradecimentos Há precisos quatro anos, encerrado o ciclo da escrita de minha dissertação de mestrado, escrevi os agradecimentos àquele trabalho, feliz por ter podido contar com a companhia e com a generosidade de pessoas que fizeram da Antropologia e do Rio de Janeiro mundos familiares a uma então recém-chegada como eu. Hoje, ao fim de um novo ciclo, é com a mesma alegria que renovo muito daqueles “obrigadas”, agora acrescidos de outros tantos. Meu orientador, Gilberto Velho, me acompanhou ao longo dos seis anos da pós- graduação e só há uma forma de descrever o sentimento com que chego ao final dessa jornada: privilégio. A ele agradeço pela generosidade intelectual, pela inabalável disponibilidade e pela amizade de sempre. Sou ainda grata pela forma afetuosa e responsável com que conduziu a orientação desta tese e também por me ajudar a ver os tantos caminhos que levam a Copacabana. Ao CNPQ sou grata pelos quatro anos de bolsa de doutorado, sem a qual este trabalho não passaria de um projeto remoto. Aos professores Adriana Vianna, Maria Laura Viveiros de Castro Cavalcanti, Maria Alice Rezende e Luiz Fernando Dias Duarte, agradeço por terem aceitado participar da banca de avaliação deste trabalho. Às professoras Adriana Vianna e Maria Laura Viveiros de Castro Cavalcanti ainda grata pela valiosa interlocução nos dois exames de qualificação, nos quais pude contar com o cuidado de sua leitura e seus preciosos comentários. No Museu Nacional encontrei um ambiente de excelência para o desenvolvimento de minha formação acadêmica. Aos seus professores e professoras sou imensamente grata pela forma generosa com que me apresentaram suas muitas antropologias. Aos funcionários da secretaria e da biblioteca agradeço pelo atendimento atencioso e pela eficiência de sempre. Ainda no Museu Nacional pude compartilhar leituras, comentários, angústias e risadas com colegas que fizeram com que o processo de elaboração desta tese acontecesse em maio a uma verdadeira ação coletiva. Dentre eles, sou especialmente grata a Patricia Bouzon, Silvia Monnerat, Ísis Ribeiro e Caio Gonçalves.
  8. 8. viii Tatiana Siciliano e Liane Braga foram, além de colegas, amigas queridas e verdadeiras cúmplices. Com elas construí uma parceria e um carinho que, assim espero, vai muito além do tempo e das páginas deste trabalho. Com Letícia Carvalho e Fernanda Figurelli, minhas queridas Let e Ferni, aprendi que uma longa amizade não depende do tempo. Verdadeiras irmãs “cariocas”, elas são parte fundamental não apenas desta tese como também (e principalmente) dos muitos enredos que a ela se somaram ao longo dos últimos anos. Celso Castro esteve sempre por perto, me ajudando de diversas maneiras. A ele sou grata pelo carinho, pela confiança, e pela amizade de uma década. Com Arbel Griner e Ângela Moreira, amigas e companheiras de ofício, dividi muitas das alegrias e reticências do fazer da tese. Pude também contar ainda, em diferentes situações, com a interlocução, o apoio e a solidariedade de Karina Kuschnir. Daniela Montans, Marcia Franceschini, Marina Vianna e Esther Blumenfeld me tornaram tudo mais leve e divertido, me fazendo lembrar, tantas vezes, do que realmente importa. Ynaê Lopes do Santos, minha primeira marida, dividiu comigo momentos de alegria e de angústia, me mostrando que Antropologia e História não dão só uma tese, mas também uma bela amizade. Gabriela Toledo, com suas visitas e telefonemas, foi também fundamental na nem sempre fácil tarefa de lembrar do mundo lá fora. Pedro Mendes acompanhou os primeiros rumos desta tese, me ajudando com seu apoio e otimismo. Ao meu pai, Guillermo, agradeço, mais uma vez, por não me deixar esquecer os encantos deste ofício. Leitor voraz e narrador apaixonado, a ele devo meu encontro com as primeiras histórias (e capítulos). Minha mãe, Cecília, soube entender minhas tantas ausências e pressas com paciência e generosidade. Sem seu suporte, sua torcida e sua força, nada disso teria sido possível. Mas a ela agradeço, acima de tudo, pelas incansáveis e comoventes lições daquele que agora percebo ser o maior dos aprendizados: ser mãe. Leonardo, meu companheiro, chegou pela literatura e mudou todo o enredo dessa história. Suas leituras, seus comentários, seu entusiasmo e sua (infinita) paciência estão em cada página desta tese. A ele agradeço por todo o dito, por todo o feito e, principalmente, pela certeza, diariamente renovada, de que ainda há tanto por fazermos juntos.
  9. 9. ix “um rio é sempre sem antiguidade” “Digo: o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia” (Guimarães Rosa, “Grande sertão: veredas”)
  10. 10. x Índice de imagens Fig. 1 – J. Gutierrez, “Panorama do centro da cidade em 1893/1894” 21 Fig. 2 - Mapa do Rio de Janeiro em 1875 24 Fig. 3 - J. Gutierrez, “Largo do Machado e adjacências em 1892/1893” 27 Fig. 4 - Marc Ferrez, Enseada de Botafogo 28 Fig. 5 - Juan Gutierrez, Abertura do Túnel de Copacabana, 1892 29 Fig. 6 - Estação de bondes de Copacabana, 1892 1892 30 Fig. 7 – L. J. F. Villeneuve, “Praya Rodriguez: prés de Rio de Janeiro”, 1835 31 Fig. 8 – “Os caminhos que levam até Copacabana” 33 Fig. 9 - Cartão-postal da Praia de Copacabana, 1903 34 Fig. 10 – J. Gutierrez, Praia de Copacabana, 1890 36 Fig. 11 – Casa de repouso e hotel do Dr. Figueiredo Magalhães, 1882 39 Fig. 12 - “Cidade Balneária Cidade da Gávea”, 1891 48 Fig 13 - “Ruas projetadas em Copacabana em 1894” 51 Fig. 14 - Leme visto da Babilônia, 1894 53 Fig. 15 – Augusto Malta, Vista de Ipanema, 1902 53 Fig. 16 – “Rio de Janeiro – Copacabana”, 1903 54 Fig. 17 – Marc Ferrez, “Rio – Copacabana”, 1907 55 Fig. 18 – “Praia de Copacabana” 56 Fig. 19 – “Avenida Beira-mar, Enseada de Botafogo” 60 Fig. 20 – Avenida Atlântica, 1908. 62 Fig. 21 - Obras de abertura do Túnel do Leme, em 1904 64 Fig. 22 – “Grupo dos Falidos”, 1906 67 Fig. 23 – “Pic-Nic de despedida”, 1910 68 Fig. 24 – “Barco em Copacabana”, 1906 72 Fig. 25 – Pescadores em Copacabana, 1906-1910 72
  11. 11. xi Fig. 26 – “Atitude Solene”, 1907 77 Fig. 27 – “A caminho da roça 77 Fig. 28 – “Ancien Restaurant Ipanema” 84 Fig. 29 - Praça Malvino, 1909 89 Fig. 30 - Praça Malvino Reis, 1910 90 Fig. 31 – “Terrenos em Ipanema e Copacabana”, 1908 91 Fig. 32 – Copacabana, 1906 91 Fig. 33 – “Copacabana. O Novo Rio”, 1908 (fac-simile) 94 Fig. 34 –Av. Atlântica, 1922 95 Fig. 35 – Av. Atlântica - Leme, 1922 96 Fig. 36 – “Beira Mar”, 1923 (fac-simile) 105 Fig. 37 – Augusto Malta, “Casa de banhos na rua Santa Luzia” 119 Fig. 38 – “Na praia de Copacabana”, 1910 121 Fig. 39 – Banhistas na Praia de Ipanema, 1904 121 Fig. 40 - Sociedade de Socorros Balneários 123 Fig. 41 – Augusto Malta, Posto de Salvamento na Avenida Atlântica, 1918 128 Fig. 42 – “Parc Royal”, 1920 129 Fig. 43 - O Malho, 22 de março de 1919 129 Fig. 44 – “Casa Colombo”, 1920 129 Fig. 45 – Banhistas em Copacabana, 1920 129 Fig. 46 – “Uma tarde em Copacabana, 1924 129 Fig. 47 – “Copacabana Palace Hotel”, 1923 131 Fig. 48 - Vista a partir do Copacabana Palace Hotel, 1923 132 Fig. 49 – Copacabana, 1919 142 Fig. 50 – Augusto Malta, Av. Vieira Souto, 1919 142 Fig. 51 – Augusto Malta, Leblon, 1919 142
  12. 12. xii Fig. 52 – Copacabana, 1924 144 Fig. 53 – Orla de Copacabana à noite, 1924 144 Fig. 54 - Augusto Malta, “Copacabana”, 1910 158 Fig. 55 – “Matriz do Bomfim, em Copacabana”, 1922 160 Fig. 56 - “O enlace matrimonial da srta. Catharina Faustino Ramos...”, 1923 166 Fig. 57 – “Saindo da missa na Matriz de Copacabana”, 1923 170 Fig. 58 - “Saindo da missa das 11 horas na Matriz de Copacabana”, 1924 170 Fig. 59 - “Saindo da missa na Igreja Nossa Senhora da Paz em Ipanema”, 1923 171 Fig. 60 – “As tardes em Copacabana”, 1925 172 Fig. 61 – Banhistas em Copacabana, 1928 174 Fig. 62 - Banhista em Copacabana, 1928 174 Fig. 63 – “Os pescadores, banhando-se de volta da pesca em alto mar”, 1927 180 Fig. 64 – A Festa de S. Pedro na Colonia”, 1925 181 Fig. 65 – “Quatro aspectos de Vila Rica...”, 1925 186 Fig. 66 – “A evolução da roupa de banho”, 1923 200 Fig. 67 – “Camisaria Esporte”, 1927 201 Fig. 68 – “Assim, não!”, 1927 201 Fig. 69 – “Mocidade Forte!”, 1927 205 Fig. 70 – “Dez minutos de ginástica diária, ao sol...”, 1929 206 Fig. 71 – “Banhos de mar”, 1927 209 Fig. 72 – Rua Leopoldo Miguez, 1928 214 Fig. 73 – O Malho, 14 de junho de 1919 219 Fig. 74 – Cinema Atlântico, 1923 221 Fig. 75 –“O baile do Atlântico Club...”, 1923 238 Fig. 76 – “Concurso Intenracional de Beleza”, 1920 238 Fig. 77 – “Para maior explendor de Copacabana”, 1923 242 Fig. 78 – “Alô amigos”, 1943 245
  13. 13. xiii Fig. 79 – “Eis um grupo de altos edifícios para apartamentos...”, 1929 248 Fig. 80 – “O Rio futuro”, 1928 255 Fig. 81 – “No Quinquagésimo nono andar...”, 1929 255 Fig. 82 – Copacabana, 1939 260 Fig. 83 – Copacabana, 1933 260 Fig. 84 – “O pandemônio dos arranha-céus de Copacabana...”, 1938 262 Fig. 85 – “Manhã de domingo”, 1930 264 Fig. 86 –“A beleza exuberante das praias da CIL”, 1930 264 Fig. 87 – Chegada de banhistas a Copacabana, 1937 268 Fig. 88 –“Casebres de zinco e tábuas formando pequenas favelas...”, 1938 273 Fig. 89 – “Gavelandia”, 1932 275 Fig. 90 – “E assim vai nascendo o urbanístico esplendor da Gavelandia”, 1932 275
  14. 14. xiv Sumário Introdução 1 Capítulo 1 – A caminho do mar 19 Rumo a Copacabana 21 Luz no fim do túnel 30 Sobre os trilhos do futuro 45 Capítulo 2 – Os ocupantes do vazio e os habitantes do progresso 65 “Uma verdadeira romaria para aqueles lados” 66 Os ocupantes do vazio... 72 ... e os habitantes do progresso 81 Capítulo 3 – Uma civilização à Beira- Mar 97 O Beira Mar 101 A descoberta do prazer praiano 115 “Onde o luxo, o conforto e a arte se reúnem” 131 Capítulo 4 – Os aristocratas do Atlântico Ocidental 147 “Porque nem todos são como nós” 149 Redes de solidariedade 156 Igreja, praia e clube 167 “À estética da terra deve corresponder o brilho dos seus hábitos” 177
  15. 15. xv Capítulo 5 - Um estilo Copacabana 192 Que venham os maillots 194 “Tudo é feito por sport” 200 O triunfo das morenas 207 A vida em bungalows 211 Os cilenses se divertem 215 Da praia à literatura 222 Capítulo 6 – Os castelos de areia 229 Uma Copacabana para o mundo 231 Os castelos modernos 244 Nós vamos invadir sua praia! 262 A marcha para o oeste 271 Considerações Finais 278 Fontes 287 Referências Bibliográficas 290
  16. 16. 1 Introdução Alguns anos atrás, numa tarde de sábado, ouvi, numa das pequenas ruas do Bairro Peixoto (em Copacabana), uma discussão entre duas vizinhas que disputavam uma mesma vaga para estacionar seus carros. Depois de muitas e exaltadas farpas trocadas, audíveis por qualquer um que passasse a metros de distância dali, a discussão encerrou-se subitamente após a frase a seguir, proferida em altos brados por uma das partes envolvidas: “– Não tem cacife para morar na Zona Sul? Volta para o subúrbio então, que lá é o seu lugar!” Esta tese é, em muitos sentidos, uma reflexão sobre a construção daquele “cacife”, ou, melhor dito, sobre o processo de gestação das representações que atribuem à Zona Sul do Rio de Janeiro – e especialmente aos bairros praianos – e a seus moradores um status bastante peculiar na cartografia simbólica da cidade. O que é, afinal de contas, esse “cacife”? Quais os critérios que habilitam alguém a atribuí-lo (ou não) a si ou a outrem? E, sobretudo, o que faz dele o argumento final numa discussão entre dois moradores de uma mesma rua, numa disputa pública pela ocupação de um território igualmente público? Tais questões me vêm instigando desde o referido sábado, quando, moradora de Copacabana recém-chegada de São Paulo, percebi que entre a minha relativa incompreensão da situação e a clara eficácia simbólica daquela frase havia um hiato. Parafraseando Lévi- Strauss, podemos dizer, com relação àquela cena, que o fato de o “cacife” evocado por uma das partes não corresponder a uma realidade objetiva não tem importância: a interlocutora acreditou nele, e ele é parte de uma sociedade que acredita1 1 A frase original, do texto “Eficácia Simbólica” (2003), é a seguinte: “que a mitologia do xamã não corresponda a uma realidade objetiva, não tem importância: a doente acredita nela, e ela é membro de uma sociedade que acredita”. (p.228). . Eu, que naquele instante me descobri mais estrangeira do que pudera supor até então, me dei conta de que, caso quisesse compreender o léxico de símbolos e significados do meu novo bairro (e da minha nova cidade), teria, dali em diante, de produzir um estranhamento da paisagem que me parecia já confortavelmente familiar (Velho, 1987).
  17. 17. 2 Acompanhando Victor Turner (2005), que enfatiza a importância do contexto de situação como fator determinante para a compreensão do uso dos símbolos, é possível atentar à ação social na qual a “zona sul” foi ali evocada. Tratava-se, claramente, de uma categoria acusatória na qual a falta do “cacife” fazia referência explícita a uma suposta ausência de status e, sobretudo, de padrões de civilidade. Ainda na trilha de Turner, para quem a matéria do simbolismo seriam não as estruturas imutáveis, mas sim os interesses, os propósitos e as motivações dos indivíduos na manipulação cotidiana dos significados à sua disposição, podemos afirmar que ganhou a vaga de estacionamento quem soube, com destreza simbólica, perseguir seu propósito: mostrar que o adversário estava fora de lugar. Não importava, portanto, que ambos gritassem igualmente numa situação que, ao meu olhar estrangeiro, terminava num indiscutível empate técnico no quesito incivilidade... Não podemos esquecer, contudo, que os símbolos são portadores de significados múltiplos e que, por isso, são interpretados de diferentes maneiras por diferentes pessoas. É impossível, assim, saber se a evocação de um “cacife zona sul” teve exatamente o mesmo sentido para quem o emitiu e para quem o recebeu. Podemos apenas, fiados no princípio de que “os símbolos não representam equivalências fixas, mas analogias contextualmente compreensíveis” (Herzfeld,1981), perseguir os caminhos da construção desse idioma comum que opõe binariamente categorias como “subúrbio” e “zona sul” com aparente compartilhamento público dos significados envolvidos. Nesse sentido, é válida a lembrança de Robert Darnton de que os símbolos “funcionam não só por causa de seu poder metafórico, mas também devido à sua posição dentro de um quadro cultural” (1990:294). Cabe, assim, perseguir as pistas da constituição do quadro cultural com o qual me deparei naquele sábado, buscando compreender a cadeia de associações que ressoava em todos os participantes da cena diante da frase que encerrou a discussão. Se porteiros, passantes, moradores, senhoras em suas janelas e jovens em seus skates não demonstraram qualquer espanto ou incompreensão diante da frase que me causou imediato desconforto, é hora, ainda seguindo a sugestão de Darnton, de “avançar dos detalhes para o quadro cultural que lhes conferia sentido” (Idem:303).
  18. 18. 3 *** Nos idos de 1824, em seu livro Diário de uma viagem ao Brasil, a escritora inglesa Maria Graham deixou o seguinte registro: “(...) juntei-me a um alegre grupo num passeio a cavalo a uma pequena fortaleza que defende uma das baías atrás da Praia Vermelha e de onde se pode ver algumas das mais belas vistas daqui. As matas das vizinhanças são belíssimas e produzem grande quantidade de excelente fruta chamada cambucá, e nos morros o gambá e o tatu encontram-se freqüentemente”.2 Dez anos mais tarde, em 1834, Jean Baptiste Debret relatou, no seu Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil, o seguinte cenário: “Vê-se no meio da areia a pequena igreja, isolada num pequeno platô, mais a direita um segundo plano, formado por um grupo de montanhas, entrando pelo mar e esconde a sinuosidade do banco de areia, cuja extremidade reaparece com sua parte cultivada, tão reputada pelos seus deliciosos abacaxis”.3 Para além do fato das descrições serem fruto de viajantes europeus ao então Império do Brasil, com clara atenção aos atributos naturais e pitorescos da paisagem, os trechos guardam ainda uma importante semelhança: ambos se referem ao que hoje corresponde ao bairro de Copacabana. Não é preciso conhecer a região para compartilhar do estranhamento que tais descrições certamente despertam. Conhecida em todo o mundo, Copacabana seguramente faz jus ao texto que a apresenta, hoje, numa popular enciclopédia virtual: “Copacabana é um dos bairros mais famosos da cidade do Rio de Janeiro. Localizado na zona sul da cidade, Copacabana tem em torno de 150.000 habitantes de todas as classes sociais e com uma praia em formato de meia-lua e é apelidado de Princesinha do Mar. Bairro de boêmia, glamour e riqueza, Copacabana deu origem a muitas músicas, livros, pinturas e fotografias, virando referência turística do Brasil. Copacabana é um dos bairros mais belos, cosmopolitas, democráticos e pujantes da cidade, atraindo grande contingente dos turistas para seus mais de 80 hotéis, que ficam especialmente cheios durante a época do Reveillón e do Carnaval. No fim de ano, a tradicional queima de fogos que pode ser contemplada por todos na areia é um festival que atrai uma multidão de pessoas, turistas ou não. A orla ainda é lugar de variados eventos, como shows nacionais e internacionais, durante o resto do ano”.4 Percebemos, numa rápida vista d’olhos, que o texto acima não descreve somente o desenvolvimento espacial e demográfico da bucólica região que encantara os estrangeiros 2 Maria Graham, Diário de uma viagem ao Brasil, São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1956, pg. 301 3 Jean Baptiste Debret, Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil, tomo 2, vol.3, São Paulo, Livraria Martins, 1940, pg. 286. 4 http://pt.wikipedia.org/wiki/Copacabana, acessado em 10/7/2010.
  19. 19. 4 com seus cambucás, tatus e abacaxis. Não é difícil inferirmos que a apresentação atual do bairro não se limita a uma (impressionante) narrativa numérico-espacial, que oferece, já de início, um contingente populacional que faz com que a região tenha uma das maiores densidades demográficas de todo o mundo (Velho, 1982). Vemos, por exemplo, uma clara referência à presença de diferentes “classes sociais” no bairro, dado que, em seguida, é reforçado com o uso do adjetivo “democrático”. Boemia, glamour, riqueza, multidão, cosmopolitismo e turismo são algumas das palavras empregadas nessa descrição que corresponde, em grande medida, ao senso comum produzido acerca do bairro e recorrentemente acionado por quem nele vive, trafega ou até mesmo por aqueles cujo contato com a famosa praia se limita às transmissões anuais daquele que se pretende “o maior réveillon do mundo”. Copacabana pode também ser retratada a partir de seu perfil propriamente urbanístico: são 100 quarteirões divididos em setenta e oito ruas, cinco avenidas, seis travessas e três ladeiras, numa área de 7,84 Km2. A via de maior extensão é a Avenida Atlântica, com 4.150 metros e uma média de fluxo diário de cerca de 30 mil veículos. Podemos complexificar ainda mais o quadro com dados que mostram, por exemplo, que no ano 2.000 a população do bairro era de 141 mil habitantes (número que sobe para 161 mil se considerarmos também o bairro do Leme). Eram 297 em 1906. Entre 1920 (com 17 mil habitantes e 1,5% da população total da cidade) e 1970 (com 250 mil habitantes e 6% da população total da cidade), o crescimento demográfico do bairro foi de espantosos 1.500%, enquanto a cidade, no mesmo período, crescia 240% (Velho, 1987:22). Nas últimas três décadas, portanto, a população de Copacabana diminuiu em cerca de 40%, num movimento que veio acompanhado pelo grande crescimento da população acima de 60 anos. Em 1969, 98,8% das moradias do bairro eram apartamentos (Ibidem:24) – número intimamente ligado ao boom físico e demográfico ali observado desde o final da Segunda Grande Guerra -, enquanto que em 1933 apenas 6 das 214 construções tinham cinco ou mais pavimentos5 Das primeiras à última narrativa, passando pelos breves dados acima, vemos surgir não apenas um bairro, mas também uma região na cidade (a “zona sul”) bem como, nitidamente, um estilo de vida. A partir do gritante hiato descritivo e simbólico entre os textos acima, a proposta aqui é a de percorrer pistas que nos ajudem a compreender não apenas as . Copacabana é, sem dúvida, hiperbólica. 5 Dados do Censo Predial de 1933.
  20. 20. 5 transformações sócio-espaciais por que passou a região como também o processo de consolidação de significados que, ainda hoje, associam Copacabana e a zona sul do Rio de Janeiro a determinados ethos e visões de mundo (Geertz, 1989)6 Em páginas de guias turísticos, de crônicas, de romances, de noticiários, de classificados e também de trabalhos acadêmicos, diversos aspectos do bairro foram (e vêm sendo) apresentados, debatidos e questionados, num repertório tão variado quanto polissêmico que compõe, ao fim e ao cabo, uma rica fortuna crítica a seu respeito. Copacabana, nas suas virtudes e nos seus vícios, nas suas obviedades e nas suas contradições é ora apresentada como metonímia do Rio de Janeiro, ora tratada como lugar sui generis dentro da cidade. Aparece também, não raro, como símbolo de uma melancólica decadência enquanto, por vezes, persiste como objeto de desejo em determinados projetos de ascensão social. Nos seus múltiplos significados e nas suas não menos múltiplas territorialidades, Copacabana tem, no imaginário urbano carioca, pertencimentos variados não apenas em relação à cidade como um todo mas também – e principalmente, eu diria – com relação à chamada “zona sul”. . Mapear a produção crítica que faz de Copacabana objeto de pesquisa e reflexão implica remeter a trabalhos reunidos em dois eixos principais: o da narrativa histórica que, seja na forma de livros de memórias ou na forma de estudos feitos dentro dos marcos da historiografia, discorrem sobre o impressionante crescimento físico e populacional do bairro ao longo do século XX; e o da área dos assim chamados estudos urbanos, que fazem de Copacabana o locus privilegiado de pesquisas voltadas a temáticas caras a dinâmicas próprias das sociedades complexas. Ainda que este trabalho busque estabelecer diálogos com os mais diversos tipos de materiais produzidos acerca do bairro, é fundamental destacar, desde já, sua dívida com relação ao segundo eixo acima descrito e, em especial, ao trabalho pioneiro desenvolvido por Gilberto Velho e publicado em 1973, com base em pesquisa feita nos últimos anos da década de 1960 – A utopia urbana. Atento à temática mais ampla do cotidiano e dos estilos de vida em uma grande metrópole, o autor parte de uma das mais gritantes características do bairro já 6 De acordo com Clifford Geertz (1989:143-4), “Na discussão antropológica recente, os aspectos morais (e estéticos) de uma dada cultura, os elementos valorativos, foram resumidos sob o temos ethos, enquanto os aspectos cognitivos, existenciais, foram designados pela expressão ‘visão de mundo’. O ethos de um povo é o tom, o caráter e a qualidade de sua vida, seu estilo moral e estético e sua disposição; é a atitude subjacente em relação a ele mesmo e ao seu mundo que a vida reflete. A visão de mundo que esse povo tem é o quadro que elabora das coisas como elas são na simples realidade, seu conceito de natureza, de si mesmo, da sociedade.”
  21. 21. 6 ao final da década de sessenta– a heterogeneidade – para investigar e discutir aquilo que identifica como uma visão de mundo característica de um grupo social específico – a classe média white-collar. Desta forma, a partir de um trabalho de campo feito de intensa observação participante num edifício de conjugados, Velho mapeou os significados atribuídos à Copacabana por determinado segmento social em cujo projeto o bairro se enquadrava como porta de entrada a todo um universo de status e prestígio relacionados, de forma mais ampla, à vida na zona sul da cidade. Pioneiro no campo dos estudos urbanos no Brasil, A utopia urbana acabou por descortinar, nas práticas e representações analisadas pelo autor, uma Copacabana profundamente associada a estratégias de ascensão social. Com três variáveis-base (estratificação social, ideologia e residência), Velho procura, conforme anuncia, compreender a resposta à pergunta feita a seus entrevistados: “Por que veio morar em Copacabana?” (Velho, 1982:15). Com isso, o trabalho acaba por identificar uma dinâmica que, para além das características do bairro em si, refere-se a questões que abrangem toda a cidade do Rio de Janeiro e que, conforme revela o autor, podem ser iluminadas com a compreensão dos mecanismos que sustentavam, então, a “ideologia copacabanense” (Ibidem:8). Não são poucos os trabalhos que se sucederam à iniciativa desbravada por Gilberto Velho. As últimas décadas vêm mostrando o vigor com que se construiu (e ainda se constrói) a tradição dos estudos urbanos no Brasil, num leque interdisciplinar que, da antropologia à sociologia, passando pela história, pela geografia e pelo urbanismo, oferece uma variada gama de estudos da e na cidade. Copacabana é objeto e cenário de muitos desses trabalhos, seja como locus da organização social de determinado tipo de prostituição em boates (Gaspar, 1985); como cenário para o desenvolvimento da bossa nova na década de 1950 (Meneses, 2008); como palco do trabalho de certo perfil de camelôs (Quezada, 2008); como caso privilegiado ao estudo da diferenciação socioespacial (Rangel, 2003), dentre tantos outros. Além da atenção à temática da dinâmica urbana, tais trabalhos compartilham de um denominador comum: uma Copacabana já consolidada enquanto bairro da também já consolidada zona sul do Rio de Janeiro. Esta tese procura, ainda que profundamente referenciada e comprometida com as temáticas e questões próprias à tradição de estudos urbanos – e, de forma mais ampla, com o estudo das sociedades complexas –, estabelecer um diálogo com uma noção presente apenas
  22. 22. 7 de forma marginal nos trabalhos anteriormente mencionados: a ideia de processo histórico. Ao mesmo tempo busca, na trilha inversa, um diálogo com variados estudos que se propõe a reconstituir a história de Copacabana (Berger, 1960; Cardoso, 1986; Cardoso et alii, 1986) a partir de uma noção fundamentalmente alheia à lógica da narrativa estritamente histórica: a ideia de cultura. Em outras palavras, a premissa básica é, fazendo coro com Geertz, a de compreender a cultura como “um padrão de significados transmitido historicamente, incorporado em símbolos, um sistema de concepções herdadas expressas em formas simbólicas por meio das quais os homens se comunicam, perpetuam e desenvolvem seu conhecimento e suas atividades em relação à vida” (1979: 103). A ideia consiste, portanto, em buscar no entrelaçamento entre essas duas categorias – história e cultura – as dinâmicas e mecanismos presentes nas negociações envolvidas no processo de construção, ao longo das primeiras décadas do século XX, da “ideologia copacabanense” de que nos fala Gilberto Velho. Ainda acompanhando Geertz, busco, assim, compreender de que forma os significados associados a símbolos da vida copacabanense (como a praia, o prestígio, o cosmopolitismo etc.) foram construídos e reelaborados no referido período, constituindo uma gama bastante peculiar de culturas urbanas e estilos de vida ligados a um não menos peculiar conjunto urbanístico. Dito de outra forma, o exercício que permeia toda a pesquisa e o esforço analítico desta tese é, basicamente, o de desnaturalizar a unidade-símbolo “Copacabana”, analisando as pistas encontradas em testemunhos variados que versam, cada qual à sua maneira, sobre a construção de uma imagem ainda hoje associada ao bairro e, de forma mais ampla, à parcela da cidade que se debruça sobre o Oceano Atlântico. *** Pode ser difícil para o visitante que transita pelas ruas de Copacabana compreender a carga exclusivamente valorativa encontrada no “cacife” orgulhosamente evocado pela moradora do Bairro Peixoto. Ao lado da beleza natural da praia e dos morros que o circundam, o bairro convive com toda sorte de problemas urbanos. Favelização, mendicância, ruído, problemas de circulação, verticalização excessiva e multidões na disputa por alguns
  23. 23. 8 centímetros na calçada fazem parte da paisagem diária da região, num panorama sob muitos critérios distante dos signos básicos de prestígio, status e civilidade. Como, então, entender não apenas a formulação, mas também a permanência dessa Copacabana evocada como símbolo de distinção? A resposta a essa pergunta nos remete ao imperativo de pensar, historicamente, as dinâmicas que se agitam na gestação e no desenvolvimento de tal processo de construção de identidade, num exercício que faz das primeiras décadas do século XX o campo privilegiado dessa etnografia. Dito de outra forma, tal processo só pode ser compreendido se levarmos em conta uma historicidade específica, deixando clara a necessidade de estabelecer, desde já, um estranhamento temporalmente determinado. Tal estranhamento deve começar, por exemplo, com um esforço de desnaturalização da própria localização geográfica de Copacabana no mapa da cidade. Se hoje podemos defini- la como um bairro situado na zona sul do Rio de Janeiro, fronteiriço com os bairros de Botafogo, Leme, Lagoa e Ipanema, tal descrição certamente não seria suficiente para que Maria Graham ali chegasse sem maiores sobressaltos em sua longínqua visita ao bucólico arrabalde. Num Rio de Janeiro ainda completamente alheio à vida praiana, a Copacabana de meados do século XIX não passava de um distante areal, cujo pertencimento à malha urbana da cidade era, no mínimo, discutível. O ano de 1892 trouxe a abertura do Túnel da Real Grandeza (atual Túnel Velho), ligando o areal ao já bastante urbanizado bairro de Botafogo. Nascia ali, no ranger dos trilhos dos bonds, um Rio atlântico – num primeiro momento associado ao descanso e à salubridade e, algumas décadas mais tarde, símbolo de civilização e de modernidade. Era, nas palavras da grande imprensa, o “Novo Rio”, metonimizado numa Copacabana que, aos poucos, via surgir sob suas asas Leme, Ipanema e, mais tarde, Leblon. Fruto, em grande parte, da especulação imobiliária que se operou sobre a região diante das possibilidades carregadas pelos bonds, o Novo Rio representava para a cidade uma nova territorialidade e, com ela, novas formas de vivenciar, experimentar e representar os próprios princípios da urbanidade. Fica claro então, que tratar de Copacabana no período aqui escolhido implica pensá-la não a partir da unidade territorial e/ou simbólica hoje associada ao bairro. Copacabana, aqui, tal como encontrado nos
  24. 24. 9 discursos nativos das fontes trabalhadas, será então referida de forma expandida e, em muitos momentos, metonímica7 A popularização das atividades balneárias (com grande inspiração no que acontecia já há alguns anos na Europa e nos Estados Unidos) e a crescente atenção aos sintomas de falência do modelo de ocupação urbana implementado nos primeiros anos do século XX contribuíram para que o Novo Rio passasse, no decorrer dos anos 1910, a figurar com cada vez mais frequência e positividade na grande imprensa, num movimento que chegaria aos primeiros anos da década seguinte já amplamente consolidado. A década de 1920, conforme revelam as fontes consultadas, é não apenas o período em que o bairro passou a ser conhecido nacional e internacionalmente (vale mencionar a inauguração do Copacabana Palace Hotel, em 1923), mas também, claramente, o período em que fica nítido o empenho de determinado segmento de moradores na construção de uma identidade que respondesse, com fluência, aos adjetivos “praiano” e “aristocrático”. . No decorrer da década de 1930, com o surgimento massivo dos edifícios de apartamentos, o perfil do bairro passaria a se alterar rapidamente até que, na década de 1940, período de um intenso surto imobiliário na cidade (Velho, 1982:12), Copacabana tivesse sua paisagem física e social drasticamente alteradas. Essa pesquisa buscou, assim, observar aquele movimento de criação, ascensão e declínio relativo ao discurso identitário que interessa aqui compreender. Uma vez determinados o tempo e o espaço no qual se desenvolveu a etnografia que dá corpo a esta tese, aqui estão, portanto, os nativos cujas práticas e discursos me permitiram adentrar ao cotidiano e às representações do processo que busco compreender. Refiro-me àqueles sujeitos que, como moradores, freqüentadores ou observadores dos bairros atlânticos, contribuíram ativamente para a construção e transmissão de uma representação identitária que, nos seus termos, correspondia a uma “aristocracia moderna”. Profundamente identificados com um projeto específico de modernidade, tais sujeitos se reuniam em torno da 7 Nesse sentido, podemos desde já determinar a unidade analítica do bairro nos termos de Cordeiro e Costa, que entendem tais territórios como “(...) subregiões urbanas de tamanhos e configurações variáveis, designadas habitualmente por bairro, constituem unidades sócio-espaciais problemáticas em si próprias. Permeáveis e, contudo, identificáveis, não só nos ritmos de uma prática social quotidiana etnografável, como também nas imagens resultantes de uma bricolage coproduzida endógena e exogenamente; e, sobretudo, como participantes ativos na permanente construção cultural das variadas mitografias, imagens e narrativas que cada cidade escolhe para se vestir”. (1999:60)
  25. 25. 10 valorização de práticas como o banho de mar e o esporte, do gosto pelo cosmopolitismo e pelos bungalows, da rejeição enfática dos signos da desordem urbana presentes no bairro (como favelas, feiras-livres e ambulantes etc.) e, acima de todas essas coisas, do entusiasmo desenfreado pela sociabilidade praiana. Nesse sentido, vale destacar a centralidade da categoria “aristocracia” como eixo da auto-representação daquele segmento social. No contexto histórico brasileiro, marcado pela especificidade de um regime monárquico particularmente longevo (durante praticamente todo o século XIX o Brasil foi a única monarquia de uma América Latina dividida já em repúblicas), tal escolha não é, de forma alguma, fortuita. Apesar do orgulho depositado na associação do regime republicano ao contexto da modernidade, ao longo das primeiras décadas do século XX ainda era muito viva, especialmente entre os moradores da antiga corte, uma memória social e afetiva do período monárquico, o que se reflete claramente na associação da ideia de status ao termo aristocracia. Determinados moradores do Novo Rio, buscando firmarem-se como portadores de uma autêntica distinção social em meio ao quadro cada vez mais turvo das hierarquias sociais da cidade republicana resgataram, assim, no léxico historicamente legitimado da tradição imperial, o signo máximo de prestígio, apresentando-se como uma elite natural, inconteste. O adjetivo “moderno”, por eles acrescido, denota uma não menos importante intenção de afastar-se da obsolescência evocada pela lembrança do Brasil pré-republicano, distanciando-se, por exemplo, da aristocracia residente em Botafogo, cujo prestígio estava intimamente ligado à antiga ordem política e também urbana. Agregados em torno de um processo de construção e compartilhamento de valores e visões de mundo, tais sujeitos fizeram do periódico Beira-Mar um importante veículo de comunicação e, não em menor medida, de articulação identitária. Lançada em 1922, aquela publicação se apresentava como órgão de defesa dos interesses da “CIL” (sigla por ela cunhada para designar uma unidade formada por Copacabana, Ipanema e Leme), surgindo como produto da equação que, pela associação entre uma nova territorialidade e uma nova forma de experimentação urbana, amparava aquele discurso moderno-aristocrático. Nesse sentido, podemos afirmar que os referidos sujeitos se articulavam em torno de um “projeto
  26. 26. 11 praiano-civilizatório”8 É preciso dizer, ainda, que a atenção ao processo de construção daquelas representações se baseia na importância da problematização das categorias que sustentam o teor homogeneizante do discurso veiculado por aqueles sujeitos. É imprescindível, nesse sentido, lidar com as disputas envolvidas em tal cenário, tomando como ponto de partida a heterogeneidade e a variedade de experiências e costumes inerentes à sociedade complexa moderno-contemporânea (Velho, 2003; Simmel, 1971; Wirth:1964). Nesse caso específico, tal heterogeneidade se expressava em lutas pelo uso do espaço, seja sob a forma de moradia, de trânsito ou de ocupação cotidiana – o que pôde ser mapeado a partir de muitos silêncios na documentação pesquisada, bem como nas categorias acusatórias empregadas por aqueles sujeitos com relação a certos comportamentos e tipos sociais. , que era ao mesmo tempo base e resultado de uma representação identitária cuja materialização dependia da consolidação de determinados costumes e padrões de sociabilidade. É importante destacar, ainda, que ao tomar Copacabana e os bairros atlânticos como mote da pesquisa e da problemática desenvolvidas, tive sempre, como pano de fundo, um interesse maior: o de refletir sobre a cidade do Rio de Janeiro num momento de intenso crescimento urbano e populacional e, mais que isso, de evidente agravamento dos problemas caracteristicamente urbanos. Vale destacar a relevância do estudo de tal período a partir de dois aspectos: em primeiro lugar, a abundância de pesquisas relacionadas a diferentes aspectos das transformações do Rio de Janeiro da belle époque9 , acompanhada de um relativo desinteresse pela dinâmica urbana dos anos seguintes (abordados, de maneira geral, nos quadrantes de uma historiografia voltada à efervescência política e cultural do período); e em segundo lugar, a constatação de que o panorama dos acontecimentos político-culturais que marcaram o crepúsculo da Primeira República teve forte impacto sobre as elaborações físicas e simbólicas da dinâmica urbana da então capital10 8 De acordo com Velho (2003:27), o projeto “formula-se e é elaborado dentro de um campo de possibilidades, circunscrito histórica e culturalmente, tanto em termos da própria noção de indivíduo como dos temas, prioridades e paradigmas culturais existentes”. . 9 Ver, por exemplo, Benchimol (1990), Damazio (1996) e Needel (1993), Sussekind (1987), entre outros. 10 É claro que tais considerações só podem ser devidamente dimensionadas, no caso desta pesquisa, se levarmos em conta que Copacabana constituía uma importante área simbólica de uma cidade que respondia ao título de capital desde 1763, quando passou a sediar o Vice-Reino do Brasil. A vocação da cidade para a centralidade do poder se configuraria, em 1808, com a chegada da Família Real, sendo reforçada em em 1815 quando da elevação da colônia do Brasil à condição de Reino - que passava a fazer parte do Reino Unido de Portugal,
  27. 27. 12 Assim, mais do que tratar de Copacabana como uma realidade (e uma representação) sui generis, a ideia é abordar a cidade do Rio de Janeiro num momento crucial de sua construção física e identitária a partir de Copacabana. Trata-se, portanto, de lidar inescapavelmente com a noção de territorialidade e, na mesma medida, com a própria definição de espaço. Vale, nesse sentido, lançar mão da reflexão de Simmel, segundo quem “El espacio es una forma que en sí misma no produce efecto alguno. Sin duda en sus modificaciones se expresan las energías reales; pero no de otro modo que el lenguaje expresa los procesos de pensamiento, los cuales se desarollan en las palabras pero no por las palabras. (...) No son las formas de la proximidad o distancia espaciales las que producen los fenómenos de la vecinidad o extranjería, por evidente que eso parezca. Estos echos son producidos exclusivamente por factores espirituales (...). Lo que tiene importancia social no es el espacio, sino el eslaboniamento y conexión de las partes del espacio, producidos por factores espirituales.” (1939:644) Desta forma, o princípio da territorialidade a partir do qual se desenvolve esta tese se baseia no pressuposto de que o espaço – ou a espacialidade – importa enquanto variável sociocultural (e, portanto, antropológica), desde que tratado como realidade que se materializa apenas a partir das ações recíprocas que nele se processam. Ou, ainda conforme Simmel, o que realmente importa nos propósitos deste trabalho não é o espaço em si, mas sim “el acto de llenar um espacio” (Idem:645). Com isso, podemos refletir ainda sobre a identidade territorial forjada (e em muitos sentidos materializada) através do processo aqui estudado, considerando os limites do Rio Atlântico não como um fato espacial com efeitos sociológicos, senão como um fato sociológico com uma forma espacial (Idem:652). Assim, mais do que pensar nos sujeitos que patrocinaram uma identidade praiano- aristocrática para os bairros atlânticos a partir de seu enraizamento a determinado espaço cartograficamente definido, importa pensar nos mecanismos de compartilhamento simbólico que os ligava em torno de um mesmo projeto através de canais efetivos de comunicação. Vale, para tanto, a sugestão de Strauss, segundo quem “the important thing, then, about a Brasil e Algarves . Em 1822, com a declaração de independência, o Rio de Janeiro, tal destaque foi confirmado pela sua escolha como a capital do Império do Brasil. O fim do período monárquico não abalaria a centralidade do Rio de Janeiro, feito capital da República em 1889, com a implantação do novo regime (condição que manteve até 1960, ano em que a capital do país foi transferida para Brasília). Numa definição que se aplica a qualquer caso nacional, a cidade-capital, como criação política a serviço da unidade, tem clara função civilizatória, no sentido de reunir, no anseio ordenador dos Estados em busca de identidade, os aparatos materiais e simbólicos do poder. Ao discutir a atribuição de tal conceito ao caso carioca, Margarida de Souza Neves (1991) destacou o período de implantação do regime republicano, quando a cidade passou a ocupar, juntamente com a função de capital da federação, papel central nos anseios do novo projeto nacional.
  28. 28. 13 social world is its network of communication, and the shared symbols, which give the world some substance and which allow people to ‘belong’ to it” (1960:180). A partir de tais reflexões, o Rio de Janeiro será então aqui pensado como um conjunto de áreas simbólicas complexamente relacionadas, e Copacabana como a “órbita” preferencial dos sujeitos a partir de cujos testemunhos se construiu este trabalho. *** Do areal ao “Novo Rio”; do “Novo Rio” aos Bairros Atlânticos; dos Bairros Atlânticos à cidade balneária. É na sucessão e na sobreposição de representações que se situa a construção da identidade aqui perseguida, e cuja dinâmica só pode ser pensada dentro do âmbito da dialética entre as transformações materiais do território e os movimentos inerentes à dinâmica urbana carioca de então. Para lidar com tal dialética, parto do princípio de que “todo episodio denso de la historia cultural urbana enseña que la ciudad y sus representaciones se producen mutuamente. No hay ciudad sin representaciones de ella, y las representaciones no solo decodificam el texto urbano en conocimiento social, sino que inciden en el propio sentido de la transformación material de la ciudad” (Gorelik, 2004:13). A questão é, assim, pensar a cidade a partir das diferentes dimensões da sua materialidade e de sua cultura multiformes ao longo do tempo, tomando como ponto de partida o desafio de lidar com um objeto que se define pela noção de processo. Desta forma, para tentar compreender as muitas dimensões do crescimento de Copacabana em relação à concomitante construção de uma identidade praiano-civilizatória, importa perseguir não apenas os diálogos estabelecidos entre produtores de espaço e habitantes num dado momento, mas também compreender os mecanismos do movimento histórico-cultural que delineou e redelineou o equilíbrio entre tais agências durante o período aqui recortado. Mais do que apenas atentar para a historicidade de certas categorias (como o “cacife” ou a “ideologia copacabanense”), busca-se aqui também suas diversas formas de apropriação ao longo do tempo. Tais pressupostos implicam, claramente, a construção de um objeto de pesquisa cuja natureza se define pelo entrelaçamento das dimensões sincrônica e diacrônica, ou, em termos
  29. 29. 14 teórico-disciplinares, no estabelecimento de um diálogo entre Antropologia e História. Num embate que, conforme defendia Evans-Pritchard já nos idos de 1950, se define mais por uma diferença técnica do que propriamente metodológica11 , as potencialidades e problemas provenientes do intercâmbio entre essas duas tradições epistemológicas tem gerado, desde Franz Boas – defensor da idéia de que "we have to know not only what it is, but also how it came into being" (1936:137) – muitas discussões12 A partir dos benefícios recíprocos do “valor de conceitos antropológicos de cultura para o uso da história e vice-versa” (Sahlins, 2006:9), o processo que busco aqui analisar só pode ser pensado se considerarmos, como propõe Sahlins, que refletir sobre a cultura demanda o reconhecimento de que as pessoas que se valem da estrutura de signos que a compõem vivem “no mundo”. Tal reconhecimento nos leva à percepção de que, uma vez lançada ao universo da práxis (que é, ao fim e ao cabo, a própria condição de sua existência), a cultura está inevitável e permanentemente sujeita às vicissitudes das conjunturas e projetos que animam o mundo da intersubjetividade. Tais considerações podem ainda ser amplamente beneficiadas pela proposta de Fredrik Barth (2000:123), que ao refletir sobre o pluralismo cultural por ele observado em Bali desenvolveu a ideia de correntes de tradições culturais como forma de lidar com a heterogeneidade constitutiva do universo pesquisado . 13 A intenção é, assim, compreender etnograficamente como se articulou, ao longo de um determinado período, o processo de elaboração de um ethos e de um estilo de vida referenciados aos bairros atlânticos – num pressuposto que implica a compreensão das noções e de pensar a experiência como objeto dinâmico. 11 Nas palavras do autor, as diferenças "are not of aim or method, for fundamentally both are trying to do the same thing, to translate one set of ideas into terms one another, their own, so that they may become intelligible, and they employ similar means to that end. The fact that an anthropologist studies people at first-hand and the historian in documents is a technical, not a methodological difference. (...) So whilst it may be difficult to make a clear theoretical distinction between history and social anthropology it would be true to say that in practice we tend to approach our data from a rather different manner. (...) if we overtly have a preoccupation with the present and take the past to some extent for granted, the historian in his preoccupation with the past very much takes the present for granted (...)" (1961:19). 12 Ver, por exemplo: de Franz Boas, “As limitações do método comparativo da Antropologia” ([1896] 2004); de Lévi-Strauss, “Introdução: história e etnologia” ([1949]2008) e “Raça e história”([1952] 1976); de Geertz, Observando o Islã (2004) e Nova luz sobre a Antropologia; de Sahlins, Ilhas de História (2003); de Keith Thomas, “History and Anthopology” (1963); de Natalie Davis, “Anthropology and History in the I980s” (1981); de Robert Darnton, “História e Antropologia” (1990); de Lilia Schwarcz, "Entre amigas: relações de boa vizinhança" (1994). 13 Para Barth, o conceito de Cultura aplicado ao estudo das sociedades complexas deve levar em conta quatro pressupostos básicos: 1) O significado é uma relação; 2) A cultura é distributiva; 3) Os atores estão sempre posicionados; 4) Eventos são o resultado do jogo entre a causalidade material e a interação social (2000: 128-9).
  30. 30. 15 de cultura e de identidade como categorias fundamentalmente múltiplas, não-estáticas e sujeitas ao fluxo da história14 . Penso, portanto, que o exercício etnográfico de compreensão (e, na mesma medida, de reconstituição) do processo de elaboração de uma imagem identitária referida ao território e aos estilos de vida associados à Copacabana implica um esforço de atenção às mudanças culturais historicamente engendradas e, reciprocamente, das mudanças históricas culturalmente viabilizadas. *** Cabe, finalmente, dizer que a pesquisa sobre a qual se baseia esta tese teve início com um projeto inicial que, apesar de compartilhar dos mesmos temas de interesse, tinha enfoque diverso. Decidida a estudar estilos de vida e as culturas urbanas no Rio de Janeiro dos anos 1920, a pesquisa tinha como objeto o testemunho de Benjamin Costallat a respeito das transformações nos costumes e moralidades urbanas ao longo daquele período. Instigada pela crescente referência desse autor e de seus pares aos emergentes hábitos praianos, passei a prestar progressiva atenção ao fenômeno de crescimento dos bairros atlânticos e, em especial, de Copacabana. Mas uma descoberta quase fortuita foi determinante na mudança de rumo da pesquisa: a consulta despretensiosa a um periódico por mim completamente desconhecido até então, o Beira-Mar, onde acabei por encontrar um verdadeiro manancial de notícias, discursos e representações produzidas pelo grupo social que tratava de consolidar-se às margens do Atlântico15 14 Vale, para tal, a lembrança de E.P. Thompson, que ao analisar o processo de formação de uma identidade (a de classe) afirma que a compreensão dessa formação identitária demanda “um estudo sobre um processo ativo, que se deve tanto à ação humana como aos condicionamentos. A classe operária não surgiu tal como o sol numa hora determinada. Ela estava presente ao seu próprio fazer-se (...). Se detemos a história num determinado ponto, não há classes, mas simplesmente uma multidão de indivíduos com um amontoado de experiências. Mas se examinarmos esses homens durante um período adequado de mudanças sociais, observaremos padrões em suas relações, suas idéias e instituições” (1987:9-12). . A partir das pistas deixadas pelos redatores do Beira-Mar, passei a buscar em na 15 Vale ressaltar a alegria da descoberta de que a coleção completa do Beira-Mar (publicado entre 1922 e 1946), da qual a Biblioteca Nacional possui apenas parte, estava à disposição para consulta na Biblioteca Pública de Copacabana, para onde foi doada por Gastão Lamounier Júnior, antigo proprietário do periódico. Lá, numa casa que é, em si mesma, um documento do período no qual se situa o objeto desta pesquisa, pude consultar e fotografar o material sem os inconvenientes das requisições burocráticas e sem o desconfortável intermédio das máquinas de microfilmes. Cabe lamentar apenas o péssimo estado de armazenamento do material, cuja existência era desconhecida pelas próprias bibliotecárias. Foi preciso que eu telefonasse para uma antiga
  31. 31. 16 grande imprensa (Correio da Manhã, Jornal do Brasil, O Paiz, Gazeta de Notícias, Jornal do Commercio e A Noite) e em revistas ilustradas (O Cruzeiro, O Malho, Revista da Semana e Para Todos) notícias e comentários sobre eventos relacionados aos bairros praianos ou, ainda, textos e imagens diversos que versassem sobre estilos de vida ligados àquela parcela da cidade. Do mesmo modo, foi também de inestimável valia a descoberta da primeira publicação diretamente ligada aos interesses do bairro, O Copacabana (que circulou entre 1907 e 1912), e que uso aqui como fonte privilegiada no segundo capítulo. Por fim, esses valiosos testemunhos publicados pela imprensa foram ainda cotejados com outras fontes de natureza diversa, que permitem enxergar por outro viés os processos analisados por seus redatores. É o caso não apenas de planos urbanísticos, leis e projetos governamentais, mas também de livros de memória, petições ou abaixo-assinados redigidos pelos próprios moradores do bairro ao longo do período em questão16 . Ao me oferecer um olhar sobre Copacabana que se fazia a partir de pontos de vista diversos, essa variedade de fontes me permitiu compreender, com riqueza de detalhes, o atribulado processo que acabou por definir certas imagens para o bairro. *** A tese está organizada em seis capítulos. O primeiro deles é dedicado à compreensão do processo que levou à transformação do antigo areal num efetivo pólo de atração de investimentos públicos e privados. Centrada entre a segunda metade do século XIX e os primeiros anos do século XX, a reflexão ali desenvolvida busca articular a incorporação de Copacabana à malha urbana do Rio de Janeiro às dinâmicas sócio-espaciais por que passava a cidade em seu conjunto. Trata-se assim de explicar, ali, o próprio processo de transformação de um espaço vazio em um novo território da cidade, ao qual começam a se atribuir certas representações e sentidos. funcionária aposentada para que as atuais atendentes, diante da minha insistência já incômoda, tomassem conhecimento “daqueles livros velhos na salinha dos fundos”. 16 O material mencionado foi consultado nas seguintes instituições: Biblioteca Nacional, Arquivo Nacional, Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Real Gabinete Português de Leitura, Casa de Rui Barbosa e Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro.
  32. 32. 17 Partindo das discussões desenvolvidas no primeiro capítulo, o segundo se propõe a compreender como, ao longo da década de 1900, diferentes sujeitos incorporaram os bairros atlânticos à sua experiência cotidiana, fazendo daquele espaço um território de disputas materiais e simbólicas. Nesse sentido, ele trata dos múltiplos usos e significados atribuídos ao novo bairro pelos distintos segmentos sociais que dele se apropriavam, num momento em que sua associação a um ethos aristocrático era ainda apenas uma dentre as tantas possibilidades em jogo. Sugerindo ao leitor um passeio pela Copacabana de 1922, o terceiro capítulo parte de um momento em que os bairros atlânticos já figuram como sinônimo inconteste de prestígio e elegância para, numa análise retroativa, compreender os processos que levaram à vitória daquela representação sobre as demais. Para tal, a reflexão nele contida se divide em três partes: a primeira dedicada ao surgimento do Beira-Mar; a segunda voltada ao processo de popularização dos banhos de mar entre as altas rodas da sociedade carioca; e a terceira focada na conjuntura que, nos planos nacional e municipal, viabilizou a construção do Copacabana Palace Hotel. De maneira geral, podemos dizer que esse capítulo discorre sobre a consolidação de Copacabana como protótipo de um novo modelo do binômio nacionalidade/modernidade, na medida em que oferecia ao habitante da capital uma nova forma de relação entre natureza e cultura. Uma vez compreendidos os mecanismos simbólicos que davam corpo à representação praiano-aristocrática com que Copacabana passava a ser associada, o quarto capítulo consiste numa análise dos sujeitos que articulavam e ancoravam aquelas imagens, fazendo delas a base de construção de uma visão de mundo específica. Apresentados como uma rede articulada por sólidos parâmetros de pertença, eles ganham forma a partir de suas estratégias de elaboração identitária, buscando firmar-se no mapa social da cidade por meio de critérios muito claros de distinção. Aquelas estratégias se traduziram num estilo de vida próprio que conjugava o princípio praiano-civilizatório a signos mais amplos da modernidade e da elegância tal como praticados na década de 1920. Discutido no quinto capítulo, esse estilo de vida ganha forma através da progressiva associação de Copacabana a um modelo de civilização que tinha no culto ao corpo, numa forma peculiar de moradia e no consumo de uma cultura cosmopolita alguns de seus principais suportes. Extrapolando seus sujeitos originais, ele se converte, com
  33. 33. 18 isso, em uma poderosaa imagem literária, capaz de identificar e singularizar os habitantes do bairro frente aos habitantes do resto da cidade. Finalmente, o sexto capítulo parte de uma reflexão sobre os efeitos da vitória daquele projeto praiano civilizatório em seu intuito de fazer de Copacabana um território naturalmente associado à modernidade, à salubridade e à elegância. Focado na década de 1930, ele se apoia em fenômenos como o grande aumento de banhistas nas praias e a rápida proliferação de arranha-céus pelo bairro para desenvolver uma análise acerca dos paradoxos contidos naquele projeto, cujo êxito se apoiava nos mesmos fundamentos sobre os quais se consolidava sua evidente decadência. Para compreender sua lógica e suas contradições, cabe assim retomar o fio dessa história.
  34. 34. 19 Capítulo 1 – A caminho do mar Em 6 de julho de 1892, os principais jornais do Rio de Janeiro noticiaram, sem grande alarde, que a Companhia Ferro-Carril do Jardim Botânico inauguraria, às 14 horas daquele mesmo dia, uma linha de bondes para Copacabana. Para tal fim, a diretoria da empresa anunciava a disponibilidade de dez carros especiais, destinados a levar seus convidados “àquele alegre e saudável arrabalde” para que pudessem ver, com seus próprios olhos, seu “magnífico melhoramento”1 “Realizou-se ontem em Copacabana a inauguração da estação de bondes da Companhia Botânico, em Copacabana. À 1 hora da tarde partiram da rua Gonçalves Dias diversos bondes especiais conduzindo o primeiro uma banda de música de marinheiros nacionais, o segundo o Sr. Marechal Vice-Presidente da República e seu Estado-Maior, e outros diretores da Companhia e convidados. Ali chegando foi a comitiva recebida com vivas e foguetes. . Nas edições do dia seguinte, os leitores que, por ventura, não estivessem entre os ilustres convidados, puderam acompanhar o acontecimento através de narrativas como esta: O Sr. Marechal Vice-Presidente da República depois de percorrer a estação, foi convidado para o lunch que suntuosamente ali se achava servido.O Sr. Barão Ribeiro de Almeida, presidente da Companhia, fez o primeiro brinde ao Sr. Marechal Floriano e à imprensa, seguindo-se outros do Sr. Barata Ribeiro, presidente da Intendência, Contra-Almirante Custódio José de Mello, ministro da Marinha, e outros cavalheiros, e terminado o brinde de honra feito pelo Prudente de Moraes presidente do Senado, que saudara a República na figura do Sr. Marechal Floriano, que iniciara o governo da lei e da honestidade”.2 Apesar de noticiado como algo sem maior importância, o fato, tal como narrado pelo Jornal do Brasil, desperta a atenção do leitor comum ao elencar uma longa e distinta lista de autoridades reunidas em torno da inauguração de um túnel. Estavam presentes, como podemos ver, algumas das maiores autoridades da ainda jovem República brasileira: o Marechal Floriano Peixoto – que, eleito Vice-Presidente em fevereiro de 1891 pelo Congresso Constituinte, assumira a presidência em novembro do mesmo ano após a renúncia de Deodoro da Fonseca; o Almirante Custódio de Melo, figura central da crise política que levou à queda do primeiro presidente3 1 Diário de Notícias, 6 jul 1892. Notícias similares podem ser encontradas nas edições de O Paiz, do Jornal do Brasil e da Gazeta de Notícias do mesmo dia. ; e Barata Ribeiro, que, embora não fosse ainda prefeito do Rio de 2 Jornal do Brasil, 7 jul 1892. 3 Em 1891, diante da intensa crise política e econômica do país, oficiais da Marinha articularam uma sublevação da Armada com o intuito de depor o então presidente Deodoro da Fonseca. Diante da ameaça de fechamento do Congresso Nacional, o Almirante Custódio José de Melo, contando com o apoio do vice-presidente Floriano Peixoto, liderou a movimentação dos navios da esquadra e a mobilização do congresso que culminaram na renúncia de Deodoro da Fonseca. Com a renúncia deste, em 23 de novembro de 1891, Floriano assumiu a
  35. 35. 20 Janeiro – cargo para o qual seria eleito em dezembro daquele ano – já atuava, na prática, como administrador da cidade, na condição de presidente do Conselho de Intendentes Municipais. Os trens carregavam, assim uma verdadeira constelação de autoridades do governo federal, municipal e do exército, alem, é claro, dos diretores da Companhia, representando a força do capital particular. Aos que chegassem ao final da reportagem o jornal informava, ainda, que a linha para Copacabana começaria a funcionar naquele mesmo dia. Mas ao contrário do que sugere o redator do Jornal do Brasil, nem só de autoridades fizera-se o evento. De acordo com o jornal O Tempo, “(...) em todo o percurso era extraordinária a afluência de curiososos para ver passar a comitiva inauguradora, e à entrada do túnel de Copacabana, aberto em rocha viva, iluminado à luz elétrica e adornado de festões de folhas de mangueira e bananeiras foi imensamente saudado o chefe do Estado, já pelos operários da Companhia Ferro-Carril Jardim Botânico, já pelos operários da Companhia Forja Nacional”.4 Assim, após o fim da viagem de pouco mais de uma hora5 entre o centro da cidade e a nova estação, os bondes chegaram ao “futuroso bairro de Copacabana” mobilizando os ânimos das predições mais otimistas – segundo as quais a iniciativa de tal melhoramento haveria de, em breve, “tornar a Copacabana um dos pontos mais habitados d’esta Capital”6 . Ficava claro, já naquele longínquo 6 de julho, que a Companhia Jardim Botânico inaugurava então bem mais que uma simples linha de ferro-carris. Além dos 200 metros de perfuração, dos 1,4 quilômetros de aterro até a praia e da estação propriamente dita (“um suntuoso ‘chalet’”7 na esquina das ruas do Barroso, atual Siqueira Campos, com a rua Copacabana), surgia ali um novo bairro e, com ele, uma nova forma de experimentar a vida urbana carioca. Presidência da República, que exerceria até 1894. Em 1893, Custódio de Melo estaria à frente de uma nova Revolta da Armada, desta vez contra Floriano Peixoto, que recusava-se a convocar novas eleições no prazo de dois anos após sua posse, conforme determinava a Constituição. 4 O Tempo, 7 jul 1892 5 De acordo com a mencionada edição do O Tempo, a viagem durou exatos 1:15 horas. 6 Gazeta de Notícias, 7 jul 1892. 7 O Tempo, 7 jul 1892.
  36. 36. 21 Rumo a Copacabana Três aspectos saltam aos olhos na leitura das notícias acima reproduzidas. Em primeiro lugar, a associação imediata e unânime do arrabalde a uma ideia bastante vaga de “futuro”, que condensa elementos como salubridade e explosão demográfica; em segundo lugar, o claro interesse do poder público, nas suas mais distintas esferas, em torno do melhoramento representado pela nova estação; e, por fim, o completo silêncio das reportagens com relação à participação de moradores de Copacabana em tão esplendoroso evento. É difícil entendermos esses três pontos sem uma incursão, ainda que rápida, ao cenário encontrado pelos passageiros daquele ilustre bonde especial em sua longa viagem entre centro e o arrabalde. Ao embarcarem na rua Gonçalves Dias, no centro da cidade, os integrantes da excursão tinham diante de si um cenário bastante conturbado: composta de ruas estreitas ocupadas por toda sorte de construções (edifícios públicos, escritórios, cortiços, casas de cômodos, cafés etc.), a região central do Rio de Janeiro refletia, em grande medida, os problemas enfrentados pela capital da recém-república às vésperas do século XX. Panorama do centro da cidade em 1893/1894 Foto: Juan Gutierrez Fonte: Museu Histórico Nacional (disponível em http://www.museuhistoriconacional.com.br/images/galeria03/rioantigo/mh-g3a023.htm)
  37. 37. 22 Com uma população que saltara, entre 1872 e 1890, de 266 mil para 522 mil habitantes, o crescimento urbano da cidade ao longo das últimas décadas acompanhara, de forma desordenada, as transformações político-sociais que trouxeram, entre tantas outras mudanças, o fim do sistema escravista (1888) e o fim da monarquia (1889). Tais novidades se traduziram no rápido incremento das relações capitalistas de trabalho, cujos efeitos se fizeram sentir não apenas na oferta de mão-de-obra como também nos padrões de habitação das classes trabalhadoras. Pólo de concentração das atividades portuárias e comerciais, a região central reunia, ao lado de funcionários públicos, de comerciantes de toda sorte e de empregados do ramo de serviços, trabalhadores que buscavam, no burburinho das ruas, atividades que lhes prouvessem condições mínimas de sobrevivência. Como carregadores e descarregadores de navios, vendedores ambulantes ou prestadores de pequenos serviços, milhares de pessoas compunham um cenário cotidiano no mínimo efervescente. Tal panorama desdobrava-se, no plano político, numa prolongada luta contra a construção de cortiços no centro da Capital, num embate que se acirrara com a chegada de Floriano Peixoto à presidência, em 1891. Em 26 de janeiro de 1892, a Inspetoria Geral de Higiene recebia, endereçada pelo ministério do Interior, um aviso determinando providências a respeito daqueles “verdadeiros antros disseminados pela cidade e que constituem outros tantos focos de infecção” (Chalhoub, 1996:46). O novo regulamento permitia que o Inspetor de higiene pudesse fechar todo e qualquer cortiço da cidade num prazo de 24hs, medida que causou diversos episódios de confronto entre autoridades e moradores que se recusavam a deixar suas moradias diante da falta de garantias8 8 O episódio mais marcante da luta contra os cortiços aconteceria dois anos depois, em 1893, quando o célebre Cabeça de Porco foi demolido sob a liderança do prefeito Barata Ribeiro. Estima-se que, em seus tempos áureos, o conjunto tenha sido ocupado por cerca de 4 mil pessoas (Chalhoub, 1996:15). . Essa longa e não raro sangrenta batalha da administração municipal contra os cortiços da capital tinha, de acordo com Chalhoub, uma dupla motivação: em primeiro lugar, o processo de transformação, aos olhos das elites locais, das “classes pobres” em “classes perigosas”; e em segundo lugar, o princípio de que a cidade deveria ser gerida de acordo com critérios técnicos e científicos, a partir de uma racionalidade extrínseca às desigualdades sociais e obediente ao princípio soberano da eficiência – num suporte ideológico que se faria ainda mais presente após a proclamação da República, em
  38. 38. 23 1889, quando cada vez mais médicos e engenheiros passariam a acumular funções na administração pública. (Idem:20). Aquela associação resultou no claro surgimento de uma “ideologia da higiene”, que via nas classes pobres um feroz elemento de contágio moral (pela proliferação de vícios e da ociosidade) e também físico (pelo diagnóstico de que as moradias coletivas seriam focos de irradiação de epidemias)9 Não podemos esquecer, tampouco, que os passageiros presentes à rua Gonçalves Dias naquele 6 de julho haviam assistido, ao longo das décadas anteriores, a um processo de progressiva ascensão do “prestígio da rua” (Freyre, 2000 [1936]:743), num contexto marcado por aquilo que Gilberto Freyre reconhece, no seu Sobrados & Mucambos, como um dos principais sintomas da “urbanização do patriarcalismo”. Nesse contexto, a cartografia e os serviços da capital adaptavam-se, pouco a pouco, a um cenário de crescente atenção das autoridades com relação à ocupação e aos usos do espaço público, numa ambiciosa agenda republicana que, a despeito dos problemas mencionados, inspirava otimismo. Isso porque o Rio de Janeiro da virada do século vivia uma situação excepcional e o crescimento urbano não era mera força dos novos tempos. Intermediária entre os recursos da economia cafeeira e como centro político do país, a nova Capital via encherem seus cofres com recursos advindos do comércio, finanças e também das incipientes aplicações industriais. Somava-se à prodigalidade política e econômica o fato de a cidade ser o núcleo da rede ferroviária que ligava Sudeste, Norte e Nordeste, despontando assim como maior pólo comercial do Brasil de então. Além disso, o maior centro populacional do país concentrava a sede do Banco do Brasil, bem como a maior Bolsa de Valores e grandes casas bancárias de capital nacional e . A crise da habitação vinha assim acompanhada, nas suas causas e nos seus sintomas, de uma não menos grave crise de teor sanitário: a insalubridade das moradias coletivas, carentes de condições mínimas de iluminação e circulação de ar só vinham acentuar a longa – e até então ingrata – luta das autoridades contra as periódicas epidemias que se alastravam pela capital do país desde meados do século XIX. Objetivo ou imaginado, o agravamento das condições sanitárias que marcou a década de 1890 levava assim à progressiva certeza sobre a necessidade de uma profunda e urgente remodelação urbana da cidade. 9 De acordo com Chalhoub (1996:29), tal associação remonta à década de 1850, quando uma epidemia de cólera e outra de febre amarela “elevaram bastante as taxas de mortalidade e colocaram na ordem do dia a questão da salubridade pública, em geral, e das condições higiênicas das habitações coletivas, em particular.
  39. 39. 24 estrangeiro, polarizando a movimentação financeira do país. 15º porto do mundo em volume de comércio, atrás apenas de Buenos Aires e Nova York no continente (Sevcenko,2003:40), o Rio de Janeiro de 1900 sorria para o progresso que levava estampado na bandeira. Não é de surpreender que, aos contemporâneos, tenha ficado claro o anacronismo da estrutura urbana diante da latência dos novos tempos. A modernidade, que outrora batia à porta, agora arrombava a cidade sem pedir licença (O’Donnell, 2007:42). É impossível, no entanto, compreender o crescimento urbano ímpar observado no Rio de Janeiro das últimas décadas do século XIX se atentarmos apenas à conjuntura macro política e/ou econômica dentro da qual se desenrolou. É preciso que olhemos igualmente para as transformações que, na tessitura cotidiana, permitiam o afluxo crescente de pessoas a diferentes regiões da cidade, ampliando sua malha urbana efetivamente habitada e dinamizando não apenas a economia de um perímetro urbano cada vez mais amplo, mas também as práticas diárias de ocupação do espaço. O desenvolvimento dos meios de transporte e, em especial, dos bondes, foi um fator crucial nesse processo. Ao alavancar, a partir da década de 1870, o crescimento da cidade rumo às zonas norte e sul, as novas linhas de bonde reconfiguravam definitivamente o mapa de um Rio de Janeiro outrora limitado pelos morros do Castelo, de São Bento, de Santo Antonio e da Conceição – como mostra um mapa da cidade feito em 1875.
  40. 40. 25 Mapa do Rio de Janeiro em 1875 Era assim de uma cidade vista pelos contemporâneos como apertada, insalubre e insuficiente para acomodar a ampla expansão da capital federal que partiam os passageiros dos dez bondes especiais rumo a Copacabana. O próprio meio de transporte pelo qual deixavam esse espaço nos remete, entretanto, a um novo universo de significados compartilhados pelos ilustres convidados que tomavam os carros da Companhia Jardim Botânico. Símbolo da mobilidade e, sem tardar, também da velocidade10 10 Em 8 de outubro de 1892 a os bondes reuniam em si grande parte dos signos da urbanização e, na mesma medida, de determinado ideal de modernidade. Além de encurtar (e de viabilizar) distâncias, permitindo novas formas de usos do espaço citadino, o desenvolvimento dos transportes públicos oferecia aos passageiros toda uma nova gama de experiências intimamente ligadas ao ambiente urbano, como fica claro na constatação de Simmel (1903 apud Waizbort, 2000:321): “Antes da invenção dos ônibus, Botanical Garden Rail Road Company circulou, pela linha do Flamengo, o primeiro bonde elétrico da América Latina.
  41. 41. 26 trens e bondes no século XIX, as pessoas não haviam chegado ao ponto de serem obrigadas a se olharem mutuamente, por longos minutos ou mesmo horas, sem se dirigirem a palavra.” Tal experiência, no entanto, para além do frisson causado pelos novos aparatos urbanos e sua clara ligação aos ansiados índices internacionais de civilidade, deixava nuas as contradições de uma sociedade apoiada, durante séculos, numa estrutura de estratificação social à qual a igualdade liberal da carta republicana era, em grande medida, estranha. Isso aparece com clareza na lembrança de que o bonde enfrentou a resistência de certos setores da elite, como grupos de senhoras que “o combatiam, achando imperdoável deslize de polidez misturar gente do povo com pessoas de hábitos educados e tão contrários aos das classes pobres, o que, segundo elas, sucederia infalivelmente nos veículos projetados.” (Noronha Santos, 1934:245). Ainda assim, a partir de 1868, quando a Botanical Garden Company11 inaugurou sua primeira linha, ligando a Rua Gonçalves Dias ao Largo do Machado, estava dada a largada para um irrefreável processo de expansão da malha urbana através dos trilhos12 A atuação direta dos meios de transporte coletivo sobre o crescimento da cidade veio inevitavelmente acompanhado de um processo de redefinição dos padrões de acumulação do capital imobiliário. Como nos alerta Abreu (Ibidem), majoritariamente controladas pelo capital estrangeiro, as companhias de bondes “não só vieram a atender uma demanda já . É importante lembrar também a relevância da inauguração, em 1858, do primeiro trecho da Estrada de Ferro Dom Pedro II (atual Central do Brasil), que viabilizou a rápida ocupação das freguesias suburbanas por ela atravessadas (Abreu, 2008:43). Esses dois eixos, atuando sincronicamente a partir do final da década de 1860, permitiram, assim, o acelerado crescimento urbano rumo aos bairros das zonas sul e norte (pelos bondes) e rumo aos subúrbios (pela linha de trens). Naquele mesmo período, o centro do poder da capital transferia-se para a zona sul imediata. O Palácio das Laranjeiras, por exemplo, foi adquirido em 1865 para abrigar a residência da Princesa Isabel e do Conde D’Eu e, décadas mais tarde, com a proclamação da República, passaria a residência oficial do Governo Federal. 11 A Companhia mudo seu nome para Companhia Ferro-Carril do Jardim Botânico em 1882, quando recebeu permissão para transferir sua sede para o Rio de Janeiro (Benchimol, 1990: 101) 12 A primeira linha de bondes a tração animal foi, na verdade, inaugurada alguns anos antes, em 1859, ligando a Praça da Constituição (atual Tiradentes) ao alto da Tijuca. Mas seu concessionário, Thomas Cockrane, declarou falência em 1866.
  42. 42. 27 existente como, em atendendo a essa demanda, passaram a ter influência direta, não apenas sobre o padrão de ocupação de grande parte da cidade, como também sobre o padrão de acumulação do capital que aí circulava”. Amparado pelo discurso higienista contra a insalubridade da região central, numerosos grupos empresariais se mostraram sedentos por oportunidades de investimento em novas regiões da cidade. Assim, mais que reinventar a cartografia física e simbólica da cidade, os trilhos acabaram por atuar na cristalização de uma dicotomia entre centro e periferia, cujo esboço já vinha se delineando havia décadas. Em pleno processo de crescimento urbano, os espaços da cidade se convertiam também em mercadoria. O caso específico da zona sul, para onde se dirigiam os dez bondes especiais, é bastante sintomático. Intimamente ligada à atuação da Companhia Jardim Botânico, a urbanização daquela região da cidade contou, em 1871, com o prolongamento do tráfego até o Largo das Três Vendas (atual praça Santos Dumont), no então quase desabitado Jardim Botânico (facilitando o acesso ao então já aristocrático bairro de Botafogo) e, um ano mais tarde, com a inauguração do ramal da Gávea (transformada em Freguesia em 1873). Com os olhos fortemente voltados ao lucro imobiliário, a Companhia Jardim Botânico associou-se, desde o início da abertura dos trilhos rumo ao sul da cidade, a grandes incorporadores, proprietários de terras e companhias de serviços públicos (especialmente aquelas responsáveis pela implantação e fornecimento de gás, água potável e sistema de esgoto). Cumpre ressaltar, ainda, o papel fundamental do Estado, cujo interesse na ampliação de zonas (salubremente) habitadas se refletia no incentivo a tais investimentos, como podemos ver pela participação maciça de autoridades públicas no lunch praiano daquele 6 de julho. Uma vez acomodada, a comitiva deu início à viagem. Seguiram, primeiramente, rumo ao Largo do Machado, adentrando à primeira das paróquias ao longo do vetor sul de expansão da cidade: a de N. S. da Glória, criada em 1834. Naquela vizinhança, já bastante integrada ao perímetro urbano, os passageiros puderam observar, além do intenso comércio, um grande número de residências de alto luxo, ali implantadas ainda durante o Segundo Reinado – quando grandes capitalistas do ramo da cafeicultura passaram a construir verdadeiros palacetes na então capital do Império13 13 O exemplo mais claro é, sem dúvida, a residência dos Barões de Nova Friburgo, atual Palácio do Catete, construída em 1860. . Com 1894 edífícios particulares e 18 edifícios
  43. 43. 28 públicos registrados já no censo de 1870 (Benchimol, 1990:94), a freguesia contava, naquele ano de 1892, com mais de 8% de toda a população da cidade, que ali habitava entre as mansões, os hotéis e as pensões de alta categoria. As feições do bairro, que ressaltam a arborização e os espaços mais amplos, mostravam se tratar já de um cenário diverso daquele da região central da cidade: Largo do Machado e adjacências em 1892/1893 Foto: Juan Gutieerz Fonte: Museu Histórico Nacional (disponível em http://www.museuhistoriconacional.com.br/images/galeria03/rioantigo/mh-g3a058.htm) Essa diferença em relação ao amontoado de casas e construções que caracterizava o centro da cidade se tornaria cada vez mais clara ao longo do trajeto. Após percorrer os bairros do Catete e da Glória, os bondes atravessaram a enseada do Flamengo, em cujo final tinha início a Freguesia da Lagoa, criada em 1809, e que vinha assumindo, ao longo de todo o século XIX, aspecto essencialmente residencial. Chegando ao bairro de Botafogo, os passageiros puderam desfrutar, entre os morros da Viúva e da Urca, de uma bela enseada coberta por jardins e chácaras de mansões suntuosas. Além disso, um crescente comércio local fazia-se notar, aproveitando-se do fato de que Botafogo era, “de todos os lugares do Rio de Janeiro, o mais procurado pela aristocracia estrangeira ou pela alta burocracia brasileira para moradia” (Noronha Santos, 1965:86). Habitado por representantes do corpo diplomático e capitalistas, o bairro ganhara espaço no imaginário da elite local que, aos poucos, deixava
  44. 44. 29 bairros como São Cristóvão e Engenho Velho, cujo prestígio, muito associado à ocupação imperial, entrara em franco declínio a partir da década de 1870. Enseada de Botafogo na década de 1890 Foto: Marc Ferrez É claro, porém, que o adensamento populacional de Botafogo atraiu a oferta de toda sorte de serviços (como ambulantes e, sobretudo, atividades ligadas à construção civil) e, com isso, o bairro passou a abrigar também habitantes da classe trabalhadora. De acordo com Cardoso (1986), o desenvolvimento comercial do bairro acompanhou o caminho dos bondes. Nas ruas São Clemente, Voluntários da Pátria, da Passagem e General Polidoro surgiram sobrados com armazéns no térreo, fazendo de Botafogo o principal centro comercial para moradores que, pouco a pouco, iam ocupando as imediações ainda pouco habitadas de Copacabana e do Jardim Botânico. Assim, após passarem pela suntuosa enseada e se deliciarem com os palacetes da aristocrática Rua São Clemente, a comitiva da Companhia Jardim Botânico entrou na Rua Real Grandeza, em cujo final depararam-se com o cemitério São João Batista (inaugurado em 1853), onde puderam observar as moradias modestas ocupadas majoritariamente por imigrantes portugueses (Abreu, 2008:45). A esta altura, após cerca de uma hora de viagem, o túnel já podia ser avistado. Uma vez conduzidos pelos caminhos da cidade e da história que levaram a Copacabana, podemos, agora, acompanhar a comitiva dos dez bondes especiais em sua chegada ao arrabalde praiano.
  45. 45. 30 Luz no fim do túnel Vejamos, então, qual o cenário que circundava a festejada solenidade que, entre folhas de bananeira, chalet e champagne dava as boas-vindas do pitoresco arrabalde à malha urbana carioca. Foto de Juan Gutierrez, 1892 / Fonte: Museu Histórico Nacional A imagem mostra o bonde 22, ainda sem rodas, passando “pelo braço operário, a muque”, logo após concluída a perfuração do túnel (Riotur, 1992:47).
  46. 46. 31 Estação de bondes de Copacabana em 1892 / Fonte: Museu Histórico Nacional As duas fotos acima apontam num mesmo sentido. A primeira nos revela a ousadia de uma grande proeza da engenharia que, vencendo a força da natureza (representada pela solidez da rocha perfurada) carregava a civilização nas rodas dos bondes. A segunda, não menos explícita, mostra um areal absolutamente deserto, sobre o qual se sustenta, orgulhosa, uma construção de feições modernas, como um verdadeiro baluarte do progresso em meio ao vazio recém conquistado. As imagens traduzem, em grande medida, as representações construídas (e veiculadas) a respeito da até então distante Copacabana no período que antecede à chegada dos trilhos. São escassas, para não dizer raras, as menções ao arrabalde até aquela data e, em sua esmagadora maioria, acenam na direção de dois eixos principais: o areal desértico, por um lado, e o bucolismo da natureza intocada, por outro. A imagem do alemão Johann Moritz Rugendas (que esteve no Brasil entre 1822 e 1825), reproduzida abaixo em litogravura de Louis-Jules-Frédéric Villeneuve, se alinha evidentemente ao segundo eixo. Apesar do título, trata-se de uma representação da praia de Copacabana14 14 Cf. Biblioteca Nacional, icon94994-028.tif . . Ao apresentá-la como lugar da exuberante natureza tropical, o pintor retratou a
  47. 47. 32 presença de dois expedicionários que, acompanhados de escravos, parecem a sós em meio à desértica praia, na qual nota-se, ao centro da pintura, uma única e modesta construção. “Praya Rodriguez: prés de Rio de Janeiro”. Litogravura de Louis-Jules-Frédéric Villeneuve a partir da pintura de Johann Moritz Rugendas, 1835. Fonte: Biblioteca Nacional, icon94994-028.tif Não são muito distintas as representações encontradas em relatos produzidos algumas décadas mais tarde. O viajante inglês Daniel Parish Kidder, por exemplo, após visitar o país em 1845, recomendou que quem quisesse “se deliciar em ouvir o murmúrio surdo das ondas que vêm do Atlântico não poderá escolher ponto mais conveniente” (Riotur, 1992:232). Já o botânico Sir Weddell, em depoimento escrito no mesmo ano, mostrou, apesar do encanto com a grande variedade de cactos e palmeiras ali encontrados, algum incômodo com a presença de “algumas dúzias de pulgas”, que vieram a perturba-lhe o repouso (Idem: 233). Copacabana permaneceria no relativo anonimato ainda por uma década quando, em 1858, passou a correr pela cidade o boato de que duas baleias encalhadas haviam sido vistas
  48. 48. 33 naquela praia. A notícia espalhou-se rapidamente, levando centenas de curiosos ao local, dentre os quais se destacavam ninguém menos que o Imperador D. Pedro II e D. Teresa Cristina. O boato resultou numa verdadeira excursão coletiva ao arrabalde na qual, acomodados em barracas improvisadas, curiosos fizeram vigília ao longo de três dias e três noites. As baleias jamais apareceram, mas houve quem tirasse proveito do evento, como um comerciante do centro da cidade que, aproveitando o passeio para fotografar a praia longínqua, exibiu as imagens (oito, no total) ao público através de um Cosmorama montado à rua dos Ciganos, n. 4215 . Copacabana passava, então, a fazer parte do imaginário e do repertório dos habitantes da capital, animando proprietários de terras que, sem tardar, aproveitaram-se da publicidade para anunciar “braças de lindos terrenos, com frente para a praia e fundos para chacarinhas”16 . Havia ainda quem passasse a alugar “pequenas casas para recreio, banhos e ares de mar, como os não há nas proximidades da corte”17 Não é difícil imaginar, contudo, a dificuldade encontrada por tais proprietários no sucesso de tais transações. Afinal, chegar a Copacabana demandava, além de muito tempo disponível, uma razoável dose de disposição física. Isso porque, até a abertura do túnel, em 1892, três tortuosos caminhos ligavam o arrabalde ao restante da cidade. O primeiro deles começava na rua Real Grandeza, em Botafogo, passava sobre o morro da Saudade e descia pela ladeira do Barroso (atual Ladeira dos Tabajaras), terminando na rua de mesmo nome (atual Siqueira Campos) . 18 15 Correio Mercantil, 24 ago. 1858. . Apesar de mal conservado, esse era o acesso mais utilizado pela população, o que veio a ser acentuado em 1878 com o início do tráfego de uma linha regular de diligências por aquela via. O segundo caminho, certamente mais pitoresco, tinha início na rua de Copacabana (atual rua da Passagem) e chegava até a ladeira do Leme desembocando naquela praia. O terceiro, por fim, destinava-se a aventureiros. Após pegar uma canoa na praia de Piaçava, às margens da Lagoa de Sacopenapan (atual Rodrigo de Freitas), o viajante chegava à praia funda (nas proximidades do atual corte do Cantagalo), de onde subia a pé 16 Correio Mercantil, 18 out 1858. 17 Correio Mercantil, 23 out 1858. 18 Esse caminho foi aberto em 1855, por iniciativa de José Martins Barroso, antigo morador de Botafogo e proprietário de terras em Copacabana. Aberta como uma estrada de meia rodagem, para o trânsito de carros e de cavaleiros, a construção da via contou com o apoio da Câmara dos Vereadores, que deu início às obras com quatro operários e oito escravos. O projeto de José Martins Barroso, apoiado em abixo assindo por demais moradores das ruas Real Grandeza e São Clemente, previa ainda a complementação do caminho com uma rua na planície copacabanense (Riotur, 1992:36).
  49. 49. 34 pelos morros da Capoeira e da Caieira (atuais Cabritos e Cantagalo) para, então, chegar até a praia. A ilustração abaixo permite visualizar as três alternativas: Fonte: Circuito Copacabana (CD-ROM) Não é de espantar que, diante de tamanhas dificuldades de acesso, o Imperador tenha esperado quase duas décadas e uma grande ocasião para retornar ao areal. Em 1873, um ano após a aquisição dos direitos de exploração da telegrafia elétrica entre o Brasil e a Europa por parte do Barão de Mauá, D. Pedro II voltou a percorrer a praia deserta para inaugurar o cabo submarino instalado pela Telegraph Construction and Manteinance Company nas imediações da Praia da Pescaria (atual Posto 6). Esse fato, que ampliava substancialmente a rede telegráfica brasileira, até então restrita à linha entre a Corte e Petrópolis, levou novos moradores a Copacabana: os ingleses responsáveis pela instalação do aparato, que passaram a habitar uma construção que, durante muitos anos, ficou conhecida em toda a cidade como “a casa dos ingleses”. Mas nem só de grandes ocasiões vivia o arrabalde. Uma modesta porém perene atividade religiosa mobilizava o mesmo trecho final da praia onde, desde os século XVIII, havia notícia da capela de N. S. de Copacabana, que reunia romeiros de diversas partes da cidade. A Igrejinha, como ficou conhecida a edificação, representava então o principal pólo
  50. 50. 35 atração local, especialmente no dia 13 de setembro, quando se comemoravam as festas da padroeira. Para tais ocasiões, a Igrejinha contava com uma casa para romeiros a qual, ao lado das choupanas de pescadores e do Forte do Vigia, foi, durante muitos anos, uma das poucas edificações existentes no distante areal. Os testemunhos deixados por diferentes tipos de registros atestam que as representações acerca da Igrejinha, a principal referência de Copacabana nos primeiros anos de seu crescimento urbano, são um termômetro preciso do processo construção e sobreposição de referências acerca do arrabalde, conforme será discutido adiante. Por ora basta atentar para testemunhos como o de Debret, que assim descreveu o local em no início do século XIX: “Vê-se no meio da areia a pequena igreja de Copacabana isolada num pequeno platô, mais a direita um segundo plano, formado por um grupo de montanhas, entrando pelo mar e esconde a sinuosidade do banco de areia, cuja extremidade reaparece com sua parte cultivada [...]”.19 Ou, ainda, analisar registros como o que aparece no postal abaixo, feito já após a substituição da antiga capela (em 1858, logo após o episódio das baleias), em que encontramos diversas convergências com o relato de Debret: Cartão-postal. Data da correspondência: 1903 /Autor desconhecido. Coleção Elísio Belchior.(APUD Pereira 2007) 19 J.B. Debret, Viagem pitoresca e historica ao Brasil. Sao Paulo, Liv. Martins, 1940.
  51. 51. 36 Vemos, tanto no relato quanto no postal, o destaque à integração da construção ao cenário natural que, nos dois casos, ocupa a maior parte da representação. A ideia da natureza intocada é reforçada em ambos os casos pela ausência de pessoas, numa constante que, como vimos nas notícias veiculadas por ocasião da inauguração das linhas de bonde em 1892, tardou a descolar-se do imaginário urbano carioca a respeito daquele arrabalde. É interessante notar que tais representações foram produzidas e difundidas ao longo do século XIX, quando o país, em diversas ocasiões, teve grande parte da atenção do pensamento social dedicado à questão do território, vinculando, de diferentes maneiras, o tema da nacionalidade a uma dicotomia - muitas vezes espacialmente delineada - entre civilização e barbárie. Tal oposição pôs, não raro, a ideia de “sertão” no centro do pensamento político brasileiro, numa elaboração que, dos tempos coloniais (Mader:1998) às primeiras décadas do século XX assumiu diferentes conotações em torno de uma apreensão comum acerca do futuro nacional. Como nos lembra Oliveira (1998), a própria construção da nacionalidade, do Estado e, mais que isso, da “brasilidade” passou, por séculos, pela questão da conquista e ocupação do espaço, num processo que teve início já nas primeiras narrativas a respeito do Novo Mundo. É nesse sentido que a autora afirma que “A consciência do espaço, da territorialidade (...) forneceu as bases da integração necessária à formulação de um projeto de nação” (Idem: 197). Nesse cenário, a macro-representação do “sertão” construiu-se sobre um pano de fundo comum que reunia desde traços geográficos – a região agreste, distante do litoral – até culturais – local em que predominam tradições e costumes antigos, não modernos. Antes mesmo da obra clássica de Euclides da Cunha, lançada em 1902, o sertão representava, para os sonhos da integração nacional, os perigos do desconhecido. Assim, seja na tradição romântica, que viu no sertanejo um símbolo da nacionalidade por sua destreza e simplicidade, ou na realista, que pensava o sertão como um entrave ao progresso da urbanização, aquele espaço foi reiteradamente pensado em termos de uma não-civilização. É curioso assim notar que, mesmo mostrada insistentemente como um lugar radicalmente alheio à lógica e ao cenário da cidade, Copacabana não teve, em nenhum momento, seu território associado à ideia de sertão, ou até mesmo a alguma representação de cunho pejorativo. Enquanto o pensamento político se debruçava sobre a questão do território pensando em termos de “barbárie” e “não-civilização”, Copacabana figurava,
  52. 52. 37 inequivocamente, como um “areal” marcado pelo bucolismo, pelo vazio e, muitas vezes, por um estágio “pré” civilizatório – nunca “anti”. Creio que, mais que a evidente proximidade com o litoral, o que libertou os bairros atlânticos cariocas da mácula do sertão foi, conforme podemos ver nas representações acima, o total desinteresse dos visitantes pela população local. Há, como vimos, vagas referências à existência de “choupanas de pescadores”, sem nenhuma atenção à sua forma de habitação, de socialização ou de circulação. O “areal” era, definitivamente, o “território do vazio”20 . A fotografia abaixo, tirada da base do morro do Leme na década de 1890, confirma o mesmo discurso: Foto de Juan Gutierrez, 1890 / Fonte: Museu Histórico Nacional Em meio ao panorama da praia deserta, só com muita atenção – e uma dose de esforço – podemos visualizar as pequenas e modestas construções à direita da imagem, em uma zona escurecida da foto e completamente absortas pelo cenário natural. Não devemos, contudo, nos deixar impressionar pelo vasto e desértico areal, rodeado de palmeiras, cactos e eventuais 20 A expressão é emprestada do título do livro de Alain Corbin (O território do vazio), em que o autor busca recuperar a história do desejo da beira-mar na Europa entre 1750 e 1840.

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