CURTA ROTEIROS DE CURTAS

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COLEÇÃO DE ROTEIROS DE CURTAS METRAGENS BASEADOS EM ESCRITORES VÁRIOS, SEGUIDO DE ADAPTAÇÕES.

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CURTA ROTEIROS DE CURTAS

  1. 1. Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAS CURTA os ROTEIROS de CURTAS de Coelho De Moraes Baseado em vários autores 2
  2. 2. Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAS A IGREJA DO DIABO Baseado em uma obra de Machado de Assis Diabo, Deus, capetas e anjosCENA I(O Diabo, capetas à toa em torno, está sentado, pensando,quando, sorri, e tem uma idéia. Mas logo desiste. Pésbalançando ao léu.. Repete o mesmo ato. Enfim se levantae estala os dedos).D: Vou fundar uma igreja! (anda, pensa e pega livros,buscando inspiração).A: Praquê? Seus lucros são contínuos e grandes.D: Sabe o que é? Eu me sinto humilhado com o papelavulso que exerço desde séculos, sem organização, semregras, sem cânones, sem ritual, sem nada! Vivo, porassim dizer, dos remanescentes divinos, dos descuidos eobséquios humanos. Nada fixo, nada regular. (sonhador)Por que não teria eu a minha própria igreja? Uma igrejado Diabo é o meio mais eficaz de combater as outrasreligiões, e destruí-las de uma vez. 3
  3. 3. Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASA: Vá, pois, uma igreja.D: Escritura contra Escritura, breviário contra breviário.Terei a minha missa, com vinho e pão à farta, as minhasprédicas, bulas, novenas e todo o demais aparelhoeclesiástico. (os outros capetas se aproximam) O meucredo será o núcleo universal dos espíritos, a minhaigreja uma tenda de Abraão. E, depois, enquanto asoutras religiões se combatem e se dividem, a minhaigreja será única; não acharei diante de mim, nemMaomé, nem Lutero, nem Buda. Há muitos modos deafirmar: só há um de negar tudo. (D sacode a cabeça eestende os braços, com um gesto magnífico e varonil. Derepente se lembra).D: Licença. Tenho que ir até Deus para comunicar-lhe aidéia, e... (para não pegar mal entre os outros e ele grita)desafiá-lo! (os demais aplaudem. D levanta os olhos).Vamos, é tempo. (Sai em vôo, com estrondo).CENA II(Deus recolhia um ancião, quando o D chega ao céu. Osserafins param para ver o que é que há. Diabo deixou-se àentrada com os olhos no Senhor).Deus: Que me queres tu?D: (sorrindo) Não venho pelo vosso servo Fausto, maspor todos os Faustos do século e dos séculos.Deus: Explica melhorD: Senhor, a explicação é fácil; mas recolhei primeiroesse bom velho; dai-lhe o melhor lugar, mandai que asmais afinadas cítaras e alaúdes o recebam com os maisdivinos coros...Deus: (corta repentina, mas, docemente, e o D cala com aboca aberta e no memos ponto em que Deus o cortou)Sabes o que ele fez? 4
  4. 4. Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASD: (pausa) Não, mas provavelmente é dos últimos quevirão ter convosco. Não tarda muito que o céu fiquesemelhante a uma casa vazia, por causa do preço, que éalto. (enquanto ele fala Deus concorda) Vou edificar umahospedaria barata; em duas palavras, vou fundar umaigreja. Estou cansado da minha desorganização, do meureinado casual e adventício. É tempo de obter a vitóriafinal e completa. E então vim dizer-vos isto, comlealdade, para que me não acuseis dedissimulação...(pausa. D está cheio de si) Boa idéia, nãovos parece?Deus: Neste momento vieste dizê-la... já legitima-la éuma outra cousa.D: Tendes razão, mas o amor-próprio gosta de ouvir oaplauso dos mestres. Verdade é que neste caso seria oaplauso de um mestre vencido, e uma tal exigência...Senhor, desço à terra; vou lançar a minha pedrafundamental. (enquanto sai) .Deus: Vai.D: (retornando) Quereis que venha anunciar-vos oremate da obra?Deus: Não é preciso; basta que me digas desde já por quemotivo, cansado há tanto da tua desorganização, sóagora pensaste em fundar uma igreja?D: (sorriu de escárnio e triunfo). Só agora concluí umaobservação, começada desde alguns séculos, e é que asvirtudes, filhas do céu, são em grande numerocomparáveis a rainhas, cujo manto de veludo rematasseem franjas de algodão. Ora, eu proponho me a puxá-laspor essa franja, e trazê-las todas para a minha igreja;atrás delas virão as de seda pura...Deus: Velho retórico! 5
  5. 5. Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASD: Olhai bem. Muitos corpos que ajoelham aos vossospés, nos templos do mundo, trazem as anquinhas da salae da rua, os rostos tingem-se do mesmo pó, os lençoscheiram aos mesmos cheiros, as pupilas centelham decuriosidade e devoção entre o livro santo e o bigode dopecado. Vede o ardor, a indiferença, ao menos, com queesse cavalheiro põe em letras públicas os benefícios queliberalmente espalha, ou sejam roupas ou botas, oumoedas, ou quaisquer dessas matérias necessárias àvida... Mas não quero parecer que me detenho em cousasmiúdas; não falo, por exemplo, da placidez com que estejuiz de irmandade, nas procissões, carrega piedosamenteao peito o vosso amor e uma comenda... Vou a negóciosmais altos.(Os serafins agitaram as asas pesadas de fastio e bocejam.Deus interrompe o Diabo).Deus: Tu és vulgar, que é o pior que pode acontecer a umespírito da tua espécie. Tudo o que dizes ou digas estádito e redito pelos moralistas do mundo. É assunto gasto;e se não tens força, nem originalidade para renovar umassunto gasto, melhor é que te cales e te retires. Olha;todas as minhas legiões mostram no rosto os sinais vivosdo tédio que lhes dás. Esse mesmo ancião pareceenjoado; e sabes tu o que ele fez?D: Já vos disse que não.Deus: Depois de uma vida honesta, teve uma mortesublime. Colhido em um naufrágio, ia salvar-se numatábua; mas viu um casal de noivos, na flor da vida, que sedebatia já com a morte...D: (displicente) Ah! Então foi ele?Deus: O que disseste?D: Nada não... segui com a bela história... 6
  6. 6. Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASDeus: Este ancião deu-lhes a tábua de salvação emergulhou na eternidade. Nenhum público: a água e océu por cima. Onde achas aí a franja de algodão?D: Senhor, eu sou, como sabeis, o espírito que nega.Deus: Negas esta morte?D: Nego tudo. A misantropia, a solidão forçada, podetomar aspecto de caridade; deixar a vida aos outros, paraum misantropo, é realmente aborrece-los...Deus: Retórico e sutil! Vai, vai, funda a tua igreja; chamatodas as virtudes, recolhe todas as franjas, convoca todosos homens... Mas, vai! vai! De uma vez! (D vai falar e como dedo na boca e incisivo Deus o cala! Deus faz sinal aosserafins que começam a cantar. O Diabo sente que sobra,dobra as asas, e, como um raio, caiu na terra. Estrondo.Ele levanta tirando pó da capa e olhando para cima com oqueixo em riste e falando para si Tu vai vê).CENA III(Diabo com roupa de Beneditino proclamando nas ruas)D: Prometo aos seus meus discípulos e fiéis as delícias daterra, todas as glorias, os deleites mais íntimos. Sim! Eusou o Diabo, confesso. Eu o confesso que é para retificara noção que a humanidade tem de mim e venho paradesmentir as historias que as velhas beatas contam...velhas beatas. Sim!, sou o Diabo. Não o Diabo das noitessulfúreas, dos contos soníferos, terror das crianças, maso Diabo verdadeiro e único, o próprio gênio da natureza.Chamam-me assim, como que do Mal, para arredar-medo coração das pessoas. Vede-me gentil e airoso. Sou ovosso verdadeiro pai. Vamos lá: tomai daquele nome,inventado para meu desdouro, fazei dele um troféu e umlábaro, e eu vos darei tudo, tudo, tudo, tudo, tudo, tudo...(alguns se aproximam com interesse) 7
  7. 7. Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASD: Acreditem. As virtudes aceitas deviam sersubstituídas por outras, que eram as naturais e legitimas.A soberba, a luxúria, a preguiça estão reabilitadas, eassim também a avareza...H: Por que avareza, senhor?D: A avareza não é mais do que a mãe da economia, coma diferença que a mãe era robusta, e a filha umaesgalgada.H: E a ira?D: A ira tinha a melhor defesa na existência de Homero;sem o furor de Aquiles, não haveria a Ilíada (mudando devoz): "Musa, canta a cólera de Aquiles, filho de Peleu"...H: E a gula? Fale sobre a gula!D: O mesmo digo da gula, que produziu as melhorespáginas de Rabelais, e muitos bons versos do Hissope;virtude tão superior, que ninguém se lembra dasbatalhas de Lúculo, mas das suas ceias; foi a gula querealmente o fez imortal, Mas, ainda pondo de lado essasrazões de ordem literária ou histórica, para só mostrar ovalor intrínseco daquela virtude, quem negaria que eramuito melhor sentir na boca e no ventre os bonsmanjares, em grande cópia, do que os maus bocados, oua saliva do jejum? (alteando a voz) Prometo substituir avinha do Senhor, expressão metafórica, pela vinha doDiabo, locução direta e verdadeira, pois não faltarianunca aos meus filhinhos com o fruto das mais belascepas do mundo.H: Qual dessaS virtudes é a principal.D: (um achado) Quanto à inveja, é ela virtude principal,origem de prosperidades infinitas; virtude preciosa, quechegava a suprir todas as outras, e ao próprio talento.(O povo aplaude e quer tocar nele como a um artistafamoso). 8
  8. 8. Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASCENA IV(D está em um púlpito universitário. Fala para uma sala.)D: Nada mais curioso, por exemplo, do que a novadefinição para fraude. A fraude é o braço esquerdo dohomem; o braço direito é a força. Muitos homens sãocanhotos, eis tudo. Mas, acalmem-se... eu no exijo quetodos sejam canhotos; não sou um exclusivista. Que unssejam canhotos, outros destros; aceito a todos, menos osque não são nada. (aplausos) Mas, atentos! Ademonstração, mais rigorosa e profunda, é a davenalidade. A venalidade é o exercício de um direitosuperior a todos os direitos:- Se tu podes vender a tuacasa, o teu boi, o teu sapato, o teu chapéu, cousas que sãotuas por uma razão jurídica e legal, mas que, em todocaso, estão fora de ti, como é que não podes vender a tuaopinião, o teu voto, a tua palavra, a tua fé, cousas que sãomais do que tuas, porque são a tua própria consciência,isto é, tu mesmo? Negá-lo é cair no absurdo e nocontraditório. Pois não há mulheres que vendem oscabelos!? O corpo? Não pode um homem vender umaparte do seu sangue para transfundi-lo a outro homemanêmico? e o sangue e os cabelos, partes físicas, terão umprivilégio que se nega ao caráter, a porção moral dohomem? (aplausos. Ele faz sinal para que alguémpergunte)H: Sobre as injúrias, senhor!D: Combato o perdão das injúrias e outras máximas debrandura e cordialidade. Agora, não proíbo,formalmente, a calúnia gratuita, mas sugiro que seexerça mediante retribuição, ou pecúnia, ou de outraespécie; nos casos, porém, em que a calúnia fosse umaexpansão imperiosa da força imaginativa, e nada mais, 9
  9. 9. Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASproíbo, nesse caso, receber qualquer salário, poisequivalia a fazer pagar a transpiração. (sinal para queperguntem).H: Sobre as coisas do respeito, o que que é que me diz?D: Declaro que toda a forma de respeito está condenadapois isso me dá uma idéia de certo decoro social epessoal. A única exceção é converter o respeito emsimples adulação.H: Sobre a solidariedade.D: (Olha feio, cheio de pompa, querendo saber quem fez talpergunta) Corto por todo a solidariedade humana. Amordo próximo é um obstáculo grave à nossa novainstituição. Essa regra é uma simples invenção deparasitas e negociantes insolváveis; ao próximo só sedeve dar indiferença; e, em alguns casos, ódio oudesprezo. (enquanto as pessoas apupam entre aplausos evaias)A noção de próximo é muito vaga e errada... cito a frasede um padre de Nápoles, aquele fino e letrado Galiani,que escrevia a uma de suas marquesas "Que se dane opróximo! Não há próximo!" A única hipótese em que elepermitia amar ao próximo era quando se tratava deamar as damas alheias, as deliciosas damas alheias,porque essa espécie de amor tinha a particularidade denão ser outra cousa mais do que o amor do indivíduo a simesmo, ou seja, quer mais próximo que você mesmo?...entendem? Não? Então atenção! Cem pessoas tomamações de um banco, para as operações comuns; mas cadaacionista não cuida realmente senão dos seusdividendos: é o que acontece aos adúlteros.CENA V 10
  10. 10. Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAS(Cena em que o povo se inscreve na nova Igreja. O Diabodesce o martelo, significando fundação. Aplausos).D: Sou o maioral. Triunfal!CENA VI(vinheta “algum tempo depois”)A: Olha, Diabo muitos dos seus fiéis, às escondidas, estãopraticando as antigas virtudes. Os bons hábitos...D: Como é que é?A: (manhoso) Não todas, nem integralmente, masalgumas, por partes, e, como digo, às ocultas. Certosglutões começam a comer menos... já fazem isso três ouquatro vezes por ano, sabe como é?, justamente em diasde preceito católico... em dia de festas de santos, porexemplo...D: Não é possível?A: Mas, é. Muitos avaros... sabe... aqueles velhos pães-duros... davam esmolas, à noite, ou nas ruas malpovoadas.D: Inacreditável!A: Vários dilapidadores do erário, em geral, quemtrabalha em prefeitura, devolvia o dinheiro roubado empequenas quantias; os fraudulentos falavam, uma ououtra vez, com o coração nas mãos, mas com o mesmorosto dissimulado, para fazer crer que estavamembaçando os outros.D: Estou... assombrado.A1: Alguns casos são até incompreensíveis, como é ocaso de um farmacêutico na China que envenenaralongamente uma geração inteira, e, com o produto dasdrogas socorria, agora, os filhos das vitimas.A2: No Cairo há um perfeito ladrão de camelos, quetapava a cara para ir às mesquitas. Quando o 11
  11. 11. Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASinterpelamos ele negou, dizendo que ia ali roubar ocamelo de um drogman; roubou-o, com efeito, foi dá-lode presente a um muezin, que rezou por ele a Alá.A: E, pior, um dos seus melhores apóstolos era umcalabrês, varão de cinquenta anos, insigne falsificador dedocumentos, que possuía uma bela casa na campanharomana, telas, estatuas, biblioteca, etc... Era a fraude empessoa; chegava a meter-se na cama para não confessarque estava são. Pois esse homem, não só não furtava aojogo, como ainda dava gratificações aos criados. Tendoangariado a amizade de um cônego, ia todas as semanasconfessar-se com ele, numa capela solitária; e, conquantonão lhe desvendasse nenhuma das suas ações secretas,benzia-se duas vezes, ao ajoelhar-se, e ao levantar-se.D: Mal posso crer tamanha aleivosia! Assim não dá! Cadêo meu contabilista!CENA VI(Voou de novo ao céu, tremulo de raiva. Relata tudo –cena muda - a Deus, que houve tranquilo)Deus: Que queres tu, meu pobre Diabo. As capas dealgodão têm agora franjas de seda, como as de veludotiveram franjas de algodão. Que queres tu! Esta é aeterna contradição humana. 12
  12. 12. Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAS A PRINCESINHA DAS ROSAS baseado na obra de Fialho de Almeida, autor português (1867-1911)Personagens: Moça, mulheres, homens, crianças, um HomemCena 1[Noite com lua. Um rio ou lago tranqüilo. Uma barcade pesca. U’a moça ali deitada, usando uma roupaclara, longa, de linho, talvez, diáfana. A moça é muitobranca. Marulhar. Mãos preguiçosas tomam umpouco de água. Pescadores ao longe.Subitamente a moça se ergue e ouve. A cena éentremeada de fotos que correspondam ao relato].OFF: Lá nos confins do mundo, onde se acaba opavimento dos mares e começam as arcarias do céu, ouvidizer que está caído há muitos anos um pedaço de 13
  13. 13. Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASabóbada celeste, e por ali entram as almas dascriancinhas mortas, ao colo de seus anjos da guarda.Cena 2[A moça andando pela praia. Em segundo plano vultos seescondem na escuridão, furtivos. Piers, redes, barcos,água, a lua. A moça se direciona a uma clareira. Há mesacom frutas – uvas, geléias, caldas, coisas que lambuzem -espalhadas. Ela anda em torno da mesa, sonhadora,deita-se sobre as frutas, deita com a barriga para cima,abre as pernas e trás o vestido para cobrir entre ascoxas.Tomada como se alguém espreitasse entre as árvoresenquanto a garota se revira sobre a mesa.]Cena 3[Manhã. A moça está sobre a mesa. Acorda subitamente,pondo a mão no rosto. Vê-se que ela tem asas bemfornida de penas. Ela olha e nota que alguém se afasta.A moça olha para três pontos, sempre tendo a noção deque algo estranho aconteceu num misto de curiosidade eassombro. Todas as tomadas são de distancia. Em todasas circunstancias, as tomadas do rosto da moça são emmovimento, girando ao redor dela, enquanto ela olhapara a lateral: Ponto a) Algumas mulheres nas pedras sepenteiam. Percebem que são vistas e pulam na água.Ponto b) Bando de crianças correndo. Todas têm chifres.Ponto c) algumas mãos saem da terra, como a escapar daprisão. A moça começa a chorar.]Cena 4[Mãos de pescadores puxando redes. Ouvindo o choro 14
  14. 14. Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASaterrador eles param, soltam as redes e se dá a entenderque fugiram. ]Cena 5[Moça saindo da mesa. Ouve. A cena é entrecortada deimagens de fotos que correspondam ao que se relata aseguir. Enquanto ela se desloca lentamente.]OFF: Vem comigo ao meu palácio de estalactites cor desafira, onde há babilônias submersas. Guiarei vocêatravés dos pórticos. Não responda à interpelação mudadas esfinges. Abandona as asas e vem para o meu amor.Já rompe a manhã e as estrelas se apagam.[Na entrada da floresta, saindo da clareira, ela hesita.Obrigatória música de flauta solitária. Ela corre. Fogepela floresta atarantada, mas, pelo outro lado. Entre asárvores. Tensão e flautas. Várias flautas. As asas vão sedestruindo na correria.Corre tanto que sai na praia antiga e cai nas águas.]OFF: Vem, minha filha![A mão a agarra por trás e começa a puxar para dentrodas águas. A moça está aterrorizada e não quer, sedebate, mas vai levada.Cenas entremeadas de imagens.Imagens de castelos, orlas, lagos, órgãos de igreja.A sonoplastia acompanha os cortes das imagens.]OFF: Filha de sereia, o seu lugar é nos paláciossubmersos. Você foi deixada num cesto que aportou noprincipado das rosas... deixada por seu pai, covardepescador. Mas você é filha das águas. Filha de sereiase nunca será o anjo do Senhor.[U’a mão se aproxima e ela toma essa mão, se livrandodas águas. Agarra-se ao corpo que é visto somente por 15
  15. 15. Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAStrás. Ela está abraçada à ele. Soluçando. Ele a afasta.Toma das mãos dela. Dedo contra dedo. Ele sedirige para sua barca negra.]Ele: Você é muito fria.M: Acabei de sair das águas.E: Não! Não é o frio das águas. É o frio da sua alma.[Ela olha para trás temendo o retorno da outrapersonagem. Vê uma barca negra. Aquele era oBarqueiro - com capuz e cobertura. Não se vê o rosto.Mantém-se o marulho. Ela se aproxima e pergunta:]M: Você não partiu!?B: Estive com você essa noite. Desfrutei de você. Procuroa princesa das Rosas.M: Eu sou a primeira mulher dessa Ilha. Cheguei aquiainda criança.B: Vejo seu brilho nas águas. [Pausa para olhares]. Venhobuscá-la.M: Você vai se arrepender. Sou muita fria. As pessoasfogem ao meu toque. Você já percebeu isso.M: De onde eu venho todos são muito frios.[Ele dá a mão para ela. Ela sobe no barco e partem. Juntoao som de flautas o bater de um sino e a lua. Imagens deuma Igreja sob as águas.] 16
  16. 16. Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAS EM LUGAR DO RATOS baseado na obra de Viriato CorreaPersonagens: Gigi (G), seu Dedé (D), João Cotó (JC), uma mulher, Pedrão feitor (P)CENA 1[Gigi lavando seus pratos. Ouve barulho na entrada dacasa. O feitor trouxe um saco de qualquer coisa: farinha,arroz. João Cotó (JC) está comendo].JC: Atende lá, mulher. Que moleza.[Ela vai, meio zangada. Lá fora]G: Trouxe mais farinha, Pedrão?P: Pois é. E tenho novidades. Seu Dedé vem morardefinitivamente na fazenda [G sente uma emoção e olhapara seu marido, de costas, comendo. Câmara seaproxima do rosto de G. Ela começa a lembrar].CENA 2 17
  17. 17. Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAS[G entra pela janela do quarto dele. Beijos, abraços,amores, ela saindo pela mesma janela]P: Depois da morte do coronel, bem que estava faltandoo olho do dono, por aqui, não acha, dona Gigi?[Mais memória sexual de G].G: Ele veio para ficar?P: Parece que sim.[G volta a olhar para o marido que se espreguiça. Mixaimagens com sexo no quarto do rapaz].CENA 3D: Parto amanhã.G: [chorando] Vou com você.D: Você está louca! Impossível! Sou simples estudante.G: Eu fico sua servente, sua criada...D: Ainda vivo com a mesada que meu pai me manda...Você fica. Me espera.G: Eu não agüento. Eu morro antes.D: Eu concluo o curso e volto para seus braços.G: Volta mesmo?D: Certamente. Quando não fosse por minha família seriapor você.CENA 4[G na varanda com P]G: Faz cinco anos que ele se foi...P: É... parece que viajou muito...G: E nem escreveu...P: Como você sabe? Era o que o coronel dizia... nem umalinha daquele ingrato...G: Nem uma linha [G está meio estranha, olhar perdido].P: ... a única vez que disse alguma coisa era que nãovoltava mais para o sertão... [inclui cena de cama]. 18
  18. 18. Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASG: Obrigado Pedrão... pela farinha [P sai tocando na abado chapéu. G entra e olha o marido que come feitoporco].CENA 5[Na cama, lado a lado a JC. G de costas para ele. Câmarafrontal à ela, lateral à cama.JC tenta aproximação]G: Já tomou seu banho?JC: Já... já tomei.G: E a boca lavou?[corte. JC resfolegando por cima de G. Ela olhando o tetocomo se em sacrifício]CENA 6[G prepara o almoço. Decide fazer um prato e pega nobaú veneno para rato. Faz o prato com o veneno. Fazoutro prato. Deixa o prato pronto o fogão para o maridoe sai].CENA 7[G chega na casa grande. D aparece na varanda. Seolham. Ela sorri. Ele não. Ela se aproxima. Encontra P naescada]P: Olha quem está aqui, seu Dedé.D: [virando-se, displicente] Quem é?P: O senhor já não se lembra? Gigi.D: Ah! Sim. Como está mudada [estende-lhe friamente amão. Imediatamente se vira a moça que está a seu lado,sorridente].Olha meu bem. A Gigi pode servir você. Émuito limpa e dará uma ótima criadinha. [se afastam. Gestá atônita e se apóia em P para não cair. De repente sai 19
  19. 19. Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAScorrendo para a estrada. Corte para sua entrada em casa.JC põe o prato e se prepara para a primeira colherada].G: Não coma isso [ele ouve]... é para os ratos... O seu estáguardado na geladeira...[pega e entrega a ele... G toma o dele e senta-se paracomer e começa, rapidamentea comer o prato o envenenado]JC: Você não disse que era dos ratos?G: [lágrimas escorrendo] Era brincadeira... erabrincadeira minha... 20
  20. 20. Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAS EM MEMÓRIA DE MIM Baseado em Miguel Sanches Neto M – Maria; J – José; S - SenhoraMaria raspou as camadas de tinta das paredes antigas epintou tudo de azul.M - Mudar a cor da sala é u’a maneira de tomar possedesse lugar... [mergulha o pincel e retoca mais uma vez]...mas serve também para enganar a solidão.[Senhora entra. Deposita algo encima da mesa]S – Gosta daqui?M – Não tenho certeza. Acredito que sim.S – Você deve se sentir em casa.M- Mesmo assim, não é minha casa. É do meu marido eeu não tenho amigos ou parentes na cidade, na verdade,a estrangeira sou eu.S- mas é uma bela casa. 21
  21. 21. Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASM- Aqui estou como uma intrusa... a casa foi construídapelos bisavós do meu marido. Posso até sentir apresença de cada um dos ex-moradores do casarão...S- Então você não pode estar feliz. [oferece café ebolachas]M- Não queria ter vindo depois do casamento, mas,também..., fiquei sem coragem de contrariar meumarido, tão ligado à velha casa da infância.S- E filhos?M- Para que fosse mais minha, imagino muitos filhoscorrendo pelos cômodos, só que esse não era o desejo deJosé...S- José?M- O marido...S- Ele não deseja filhos.M- Ele quer apenas uma criança [ela faz sinal para oventre e a S põe a mão em sua barriga] - para continuar onome da família. Isso me anima.S- Sim. Terá companhia e talvez deixe de se sentir umaestranha. Por isso pintou a sala? M- [sorri] É... parareceber festivamente o filho, anúncio de novos dias.[imagens de uma casa formal, grave]S- pelo visto a casa mantém vivo o formalismo da famíliade seu marido.M- Exatamente. Eu estou acostumada à vida alegre dointerior...S- Acabou que estranhou este mundo sem prazer, dehomens religiosos.M - Pintar a sala, na verdade, foi um pequeno ato derevolta. Agora, era um espaço meu, assim penso.[corte][‘M’ coloca um vaso de flores na mesa e sai. No sótão ouquarto, mexe em velharias empoeiradas. Vai desistir. 22
  22. 22. Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASDescobre um quadro virado para a parede - retrato aóleo de um jovem loiro de olhos azuis. Por um instante,teve a impressão de estar diante de algo vivo, tão intensoo brilho dos olhos. Pendura na sala. Olha o retrato e oretrato parece olhá-la. Alternância de dias enoites e elanada mais faz se não olhar o quadro. ‘M’ está absorta enão a ‘J’ entrar. Assusta.]J Lembrou de uma história que me contaram quandoainda era pequeno.[cenas de infância. A avó ‘A’ cujo rosto não aprece nacena. Sua vida foi rezar – cenas evidentes o crucifixo -fazer penitência e cuidar de filhos e netos. Esclerose]A- F de um homem de verdade nesta casa. [Quadroaparece na parede de seu quarto, no mesmo prego ondeantes ficava o crucifixo] José... olha! Esse é quem me dáalegria, a única paixão de minha vida, e agora possodormir todas as noites pensando nele. [‘J’ se zanga e fogepara o seu quarto enfiando a cabeça no travesseiro.Tempo para noite. O menino ouve. Gemidos no quarto daavó. Corte para ‘M’]M- Com certeza, ele não vai gostar de ver o quadro nasala, mas preciso impor, ao menos uma vez, o meudesejo. [ Foi para o antigo quarto da avó. Passeia por lá eobserva . Sonhos. Sexo com o quadro.][José chega. Malas na sala, ele a beija sem maiorinteresse, retira o retrato da parede. No lugar, uma fotoenvelhecida do avô., O marido lendo na biblioteca. ‘M’perdia-se pelo imenso quintal, observando nuvens ou océu azul. Solidões e distancias]Ficou imaginando se a avó de José tivesse engravidadodo amante. Teria sido rompida toda essa melancolia?Entre momentos de desespero e outros de simplesresignação, suportou o resto da gravidez. E a criança 23
  23. 23. Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASnasceu loira e de olhos azuis, apesar de os familiarestanto dela quanto dele serem morenos.Assim que voltaram do hospital, mãe e filho passaram adormir no quarto da avó, por imposição do marido, queagora já não pode sair de casa sem se sentirenvergonhado e nem suportar o olhar lascivo do menino.que, indiferente a tudo, cresce alegre e inteligente. 24
  24. 24. Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAS MARA baseado no texto de Herberto Salles(Mata. O pajé. O Pajé e os Rios. O pajé e a noite. OPajé e seus utensílios de uso e vestimenta. Umacriança ao lado do Pajé. A criança.Mara já moça. Mara na floresta. Mara paradaolhando para as água se olhando para o chão,observando formigas, coçando o pé.Imagens do Pajé a ensinar pajelanças para Mara.Mara, muitas vezes, demonstra que não quer...nada quer.Demonstração, por imagens intercaladas, dopoder do velho). 25
  25. 25. Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASMara na leitura do futuro, curando à distancia,transformando-se em animal, tornando-seinvisível. Pajé (abençoando-a com o tambor sagrado, falando em dialeto de velho): Todos os poder que índia Mara, mia fia possui... o mais minguinho deles até de pajelança, só serve se for pro bem, mia fia; jamais nunca pro mal.(Passam duas luas. Uma outra índia é picada porcobra. Pajé tenta salvá-la, mas ela morre.)P: Precisei diocê. Dionde de tava?M: Tava na cabicera do rio, buscano umasprantinha: os lírio amareli.(Chuva intensa).Índia outra: Pajé! Tá chuveno dimais. Parece coisafeita.P: Essa chuva num é da natureza.Índia outra: Parece di incumenda. A chuva tácaino num lugarzin só.P: Adonde, fia?Índia outra: Na minha roça de manioca. Tamelano tudo.P: Ou é castigo diargum deus ou é maléfiço degente.Índia outra: U povu ta triste, pajé. Ta infelicitano agente da tribo.P: Isso pode sê obra de uma força do mar. (pajéolha para Mara que está absorta ao longe,cruzando uns gravetos). 26
  26. 26. Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASP: Mara! (ela para o que está fazendo a escutar).Mara! (olha de lado com certa dureza). To techamano, muiézinha. (Ela se levanta).P: To sabeno se suas mardade. Pois fica sabenoque posso mardizê vossuncê, tamén!M: Esses poder são meu. Já nasci co-eis.P: Mara!M: Posso fazê co-eis o que eu quisé. E na tribo temé munta mardade recramando punição. Paga demar com o mar e inté co’a morte, quano percisofoi. ( Mara faz um movimento e some. O Pajéentristece. Pega do tambor ritual e chama osdeuses. Entoa um canto monótono, lamentoso. Ficaem silêncio. Câmera afasta. Mostra a cabana.Cabana ao longe. Mais longe. Fade out lento.)(Fade in para o o Pajé pegando veneno e pondo nopeixe salgado pendurado num varal que Marahavia de comer. Ela entra repentinamente natenda. Pegou o peixe e jogou para fora. Pôs-se amorder u’a mandioca, cuspindo os pedaços nochão).P: Isso nué coisa que se come anssim.M: Não to comeno. To só mostrano que tenhovontade de come. (joga fora a mandioca).P: Mas, se ta com fome, pru quê não comeu opeixe?M: Pruquê minha fome num é de peixe venenado.E uma coisa lhe peço, meu pai. Num use no meude-comê de boca os seus poder de veneno. Vaisecá a mão de quem me venená desse forma.(outro movimento e se transformas em um animal 27
  27. 27. Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASque foge. Num momento o Pajé toma arco e flechae aponta mas logo desiste. Fade out. Trazem umíndio entrevado numa padiola).P: Que qui sucede?Índia outra: Esse índio é caçadô, pajé. Tava caçanoquano ficou entrevado. Ele ia atirá num bichin daforesta quano ficou anssim. Nem se mexe co’asponta dos dedo.(Pajelança. Mara entra de repente).M: Entrevado ta. Entrevado fica até morrê defome. Pruquê tua boca não abrirá nem pra falá enem pra comê, por vontade minha. ( e saiu).(Sons e barulhos da mata. A câmara acompanhasos pés de Mara. Na porta da cabana ela para. Abrerepentinamente. O Pajé está pegando uma água dabilha apara beber. Ela olha. Laça a bilha, fala umaspalavras mágicas e a bilha se torna animal)M: Uma coisa lhe peço, meu pai. Não use nos meudi-bebê os seus poder de veneno. Pruquê fareisecá a mão que tenta me venená deanssim.(Dia seguinte. O Pajé sai pelo mato e vai para oaçude. Na beira ele a vê deitada dormindo.Rapidamente ele a toma e a afoga. Fade paraenterro da índia na beira do lago. O túmulo nabeira do açude. O túmulo sozinho. Fade para umtúmulo coberto de flores. Casal de índios seaproxima e pega das flores. Eles desfalecem emorrem ) 28
  28. 28. Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAS O Caso do Pneu Furado Baseado na obra de Juan Angel Cardi A – Amiel, Kl – Kaiser Lupowitz, LC – Liorno Colino, VP – Vladimir Perea, o Tio, T-Trigo, R- Ronzo, AL Anatólia Lloveras) (enquanto os detetives entram na sala deinterrogatório) Narrador: - Tínhamos certeza de que ohomem estivera – entre as doze horas e cinquentaminutos e as treze e dez – numa casa de Miramaronde se escondia um perigoso infiltrado, o qualmantínhamos sob constante vigilância desde o exatomomento do seu desembarque, efetuado três mesesantes. 29
  29. 29. Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAS Bernardo Henares: - (o detido, comobstinação) Não. Não. Nada disso! Eu tenhotestemunhas que confirmam o que eu disse. Vladimir Perea (detetive): parece vídeo tapeque repete sempre as mesmas palavras e até osmesmos gestos e trejeitos. Amiel (capitão) – Insistam pela ultima vez.Sente-se bem, senhor Henares? BH – Fisicamente, sim. VP - E existe outra maneira de alguém sentir-se bem? A – Sim... Moralmente. Moralmente me sintomal. Tenho muito o que fazer e há mais de cincohoras que estou aqui... Colino (detetive) : O seu mais o que fazer, jáverifiquei hoje à tarde, é recolher frascos demaionese vazios para com eles fabricar lamparinasde querosene e vendê-las a cinco pesos cada. Naampla garagem de sua casa, no bairro de El Vedado...o senhor tem uma indústria artesanal e clandestina,onde explora várias pessoas, pagando-lhes um pesodiário por dez ou doze horas contínuas de trabalho. Amiel - Certamente isso é ilegal, senhorHenares. Pode estar certo, senhor Henares, quesentimos muito, mas também estamos trabalhando.Quer fazer o favor de nos repetir o queo senhor fez hoje, entre as doze e cinquenta e treze edez? BH – Outra vez? KL – Sim, senhor. Por experiência, sabemosque muita gente tem a memória curta. (BH encara 30
  30. 30. Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASKL com ar sardônico) O fato, senhor Henares, é queuma companheira afirma que o senhor esteve hoje,entre as referidas horas, numa casa da Rua Terceira,em Miramar. E que o senhor deixou seu carroestacionado na Rua Trinta e Quatro, a duas quadrasda casa que o senhor visitou. Não foi isso? (BHimpassível) BH – Isso é impossível, tenente. Não se podeestar em dois lugares ao mesmo tempo. KL - É a sua palavra contra a de umatestemunha presencial. BH – Essa senhora pode ter-se equivocado.Em Havana existem muitos Chevrolets verdes. KL -– É verdade, mas apenas um com a chapanoventa e oito noventa e sete. BH - Se o outro carro, o que se encontravaem Miramar, estava fazendo qualquer coisa ilegal,naturalmente usava uma chapa fria. (Amiel tamborilava a mesa com um lápis.Perea estava encostado na janela; e Colino, com osbraços sobre o espaldar da cadeira, encarava ohomem com intensa atenção. KL - Afinal, onde foi mesmo que o senhor,disse que se encontrava àquelas horas? BH - Estava na Rua Mercaderes, a mil léguasde Miramar. Furou o pneu do meu carro e... VP - E de onde vinha o senhor? BH - De vários lugares. Não me lembro. KL - Que pneu o senhor disse que furou? BH - O traseiro da esquerda. 31
  31. 31. Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAS CL - E o senhor estacionou do ladoesquerdo? BH (rindo) – Não! Já repeti três vezes aotenente que parei á direita. KL - E o que o senhor fez ao estacionar? –perguntei. BH – Outra vez, oficial? KL - Sim, senhor Henares. Tenho péssimamemória. BH - Abri o porta-malas, tirei asferramentas e o pneu sobressalente, coloquei omacaco, levantei o carro, tirei o pneu furado,substitui pelo outro, apertei as roscas, baixei omacaco, recoloquei-o no porta - malas com o restodas ferramentas e o pneu furado. KL – Quando o senhor diz pneu quer dizer aroda completa? BH – Claro que sim. KJ - – A que horas mesmo o pneu furou? BH – Às cinco para a uma. Terminei detrocar o pneu a uma e vinte, por aí. VP – Por que demorou quase meia horanuma operação tão simples? BH – Os senhores não se cansam? Jáexpliquei isso também: aquela é uma rua muitoestreita, o que me obrigava a trabalhar do lado de lá,bem no meio da rua. Àquela hora, como acontecesempre, o trânsito era intenso, de forma que a cadamomento eu tinha que me levantarpara deixar passar os carros. 32
  32. 32. Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAS KL – Como soube a hora exata em que opneu furou? BH – Porque olhei o relógio, tenente. Tinhaum encontro com um amigo a uma da tarde. Quandoestava tirando as roscas, passou uma senhora amigaminha e por um instante ficamos conversando.Cheguei ao encontro um pouquinho depois de uma emeia. Quer que diga mais uma vez onde se deu oencontro? KL – Se isso não o incomoda... BH – Então vamos lá! Foi no Restaurante LaRoca. Meu amigo já fizera o seu turno e almoçamosmuito bem. KL – A que horas terminaram de almoçar? BH – Às duas e meia. A – Que fez o senhor ao deixar o La Roca,senhor Henares? – BH – Voltei para o meu trabalho. A – E onde o senhor trabalha? BH – Num café de San Miguel del Padron. A – E qual a hora de sua entrada? BH – Quatro horas. A - E a que horas chegou? BH – As dez para as quatro. Mas já dissetambém ao tenente que tomei umas cervejas aopassar por Concha y Luyano. A (parou de tamborilar, olhou Henaresdemoradamente) – Levem-no. Ele precisa descansar, BH (contrariado) – Até quando pretendemme manter aqui, sem provas? Afinal, 33
  33. 33. Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASque fiz eu? Por que não chamam as testemunhas aque me referi? A (sempre paciente) – Acalme-se, senhorHenares! Vamos checar suas declarações com as dastestemunhas. BH – É que tenho um negocio importante afazer esta noite. A (enrolando o dedo na espiral do fiotelefônico) – Sabemos disso, senhor Henares.Sabemos perfeitamente qual o negócio que o senhortem planejado para esta noite. (BH mudou porcompleto a fisionomia, medroso e balbuciante.Colino teve necessidade de segurá-lo por um braçopara ajuda-lo a andar). A – Não é uma sorte para nós que essa espéciede gente seja feita de material tão frágil? KL - Alguns resistem mais. A – Mas o fato é que num determinadomomento todos acabam caindo de joelhos. VP - E que conclusão o senhor tirou dissotudo, capitão? A (andando pela sala) – O assunto estácomplicado, Vladimir. Se não podemos provar queesse indivíduo não se encontrava em Mercaderes,teremos de libertá-lo, pois não podemos retê-lo semprovas. E se o soltarmos, logo ele providenciará paraque os demais sejam alertados, especialmente ohomem de Miramar. Resultado: será suspensa areunião que tinham combinado, o que significa, emresumo, que irá abaixo a operação que preparamospara daqui a pouco. E, meses de trabalho perdido! 34
  34. 34. Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAS CL (retornando) : – Não seria melhor nãosoltá-lo? A – Aí é que esta a falha, Liorno. Para levar a caboo nosso plano precisamos prender um do bando,para que possamos tomar conhecimento da senhacombinada e conseguir, com ela, ter acesso ao lugarda reunião. Escolhemos para isso o tal Companys;mas ontem o infeliz bateu com o carro e agora estárecolhido ao hospital de Jaguey, em estado grave.Como eles devem saber, sua senha já não nos serve.Aí apareceu esse tal Henares. Agora sim,poderíamos provar que esteve ali, o processaríamospor cumplicidade com um agente infiltrado da CIA.Em seguida, consumada a operação, poderíamosacusá-lo frontalmente, porque ele, como você sabe éo chefe e teria que estar presente à dita reunião... CL – Mas isto não é uma falha, capitão! É um...uma... KL – Procure encontrar a palavra exata,Liorno, para que possa falar com o advogado. CL – Que advogado? KL – Conheço muito bem a mulher de Henarese sei que é muito esperta. Se o marido não chegarem casa antes das onze da noite, e já passam dasnove, ela certamente ira mobilizar um par desujeitos para que o localizem. Já fez isto outrasvezes. A – Ela sabe que o marido está envolvidocom um bando de contra-revolucionários? KL – Não. Certamente ele não lhe contounada, porque sabe que ela é muito indiscreta, 35
  35. 35. Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASsegundo me assegurou tia Alberta. De qualquermaneira, ela sabe que Henares compra frascosroubados e que também anda metido com outrosnegócios escusos. (Pausa. KL mexe no tabuleiro de damas.Amiel, rabisca numa folha de papel, inclina-se paratrás em sua cadeira). A (para CL) - Vá chamar a senhora.(Corte. Mulher entrando. Anatolia Lloveras. Trintaanos, loura oxigenada, de estatura mediana, rostoagradável e corpo esbelto, cintura estreita. Senhorade si e sorridente). A – Sente-se por favor, senhora Lloveras. AL – Obrigada, capitão. A – Senhora, desejamos verificar sua declaração.A que horas a senhora disse que se encontrou com osenhor Henares na Rua de Mercaderes? AL – A uma em ponto da tarde. A – Como sabe que era exatamente essahora? AL – Porque ia almoçar no El Templete e deiuma olhada no relógio quando me encontrei comBernardo. A – Conversaram durante muito tempo? AL – Não. Apenas alguns minutos. A – Pode-se saber do que falaram? AL - Claro, tenente! Como 1he disse antes,falamos de coisas sem importância, nos limitamosquase a nos cumprimentarmos. Perguntei como iasua senhora. Ele me disse para onde estava indo.Enfim... 36
  36. 36. Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAS A – Desde quando a senhora conhece osenhor Henares? – perguntou Amiel. AL - Há vários anos. A – A senhora sabe que o senhor Henares foisentenciado? AL - Sim. A – E a senhora costumava visitá-lo nagranja onde ele cumpria pena? AL - Já lhe disse que não, capitão. Eu não tinhadireito a isso. Sua mulher é que o visitava. KL – Que espécie de relações a senhoramantém com esse homem? (AL endureceu afisionomia) A senhora tem liberdade de responderou não. AL - Prefiro não responder. VP – Que fazia Henares quando a senhorapassou por ele? AL – Afrouxava umas roscas com algo parecidocom uma cruz. KL - De que pneu ele tirava as roscas? AL – De um da parte traseira do carro. KL – A senhora almoçou sozinha no ElTemplete? AL – Sim. KL – O que a senhora almoçou? AL - – Sopa de aletria, galinha frita esobremesa. Ah! Também tomei um sorvete. KL – De que era o sorvete? AL – De chocolate. (KL olha A . Ele balança a cabeça) 37
  37. 37. Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAS A – Colino, acompanhe a senhora. E tragaTrigo. Faça com que sirvam café e refresco a senhoraLloveras. AL – O senhor é muito amável, capitão. (Corte direto para o rosto de Trigo) T– Os senhores dirão... A (enérgico) – Tenha a bondade de ficar em pé.(T obedece e resmunga) Qual o seu nome? T (zombando) – Venâncio Trigo Querejeta,natural de Havana, quarenta e seis anos de idade,casado, alfabetizado e residente na Rua Arnau semnúmero, subúrbio de La Lira. Passei pela RuaMercaderes a uma e quinze e vi meu amigoBernardo trocando um pneu, e então lhe disse:"Agora não deves encher de ar, deves por rumCoronilla", e então ele me mandou para a casa docaralho e eu... A (como Jó) - Leva ele daqui, Colino. T – Não me toque, que sei caminharsozinho! E o senhor, capi, quando vai me soltar? A – Logo que você esteja disposto a secomportar decentemente (outro dá de ombros e saicom certa bossa). Traga o outro, Colino. (O outroera um gordo, satisfeito, balofo, petulante,prepotente. KL faz sinal para A) KL – Sente-se, senhor Ronzo. (sentar-se brusco,olhou para A e este gira na sua cadeira e se voltapara a parede). O senhor nos disse que esteve em LaRoca almoçando com seu bom amigo BernardoHenares, entre uma e meia e duas e meia da tarde. Éverdade? 38
  38. 38. Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAS R (altaneiro) – Sim, senhor. VP – E por acaso ele lhe disse que lhe haviaacontecido algo? R – Sim. Me disse que um pneu do seu carrohavia furado, lá na Rua Mercaderes. KL – Disse também que vira alguémenquanto trocava o pneu? R – Sim. Que encontrara sua amiga Anatólia.E que pouco depois passara por ali um tal... um talde Frigo... Drigo... algo assim. KL – O senhor conhece a senhora Lloveras? R - Sim... Sim, senhor. KL - Como e quando? R – Foi Henares quem me apresentou a ela, játem algum tempo. KL - Por acaso não teria sido num bordel daRua Animas? R (surpreso) - Sim. Mas isso é coisa dopassado. A senhora se regenerou. KL - O senhor acredita nisso? R - Tenente, a Revolução... KL - Por favor, responda-me: o senhor crêrealmente que essa senhora tenha se regenerado?...(ele baixa a cabeça) Não quer responder? Pois eu lhedigo: Não!. Outra pergunta: pode dizer-me querelações existem entre ela e Henares? R – Não me imiscuo na vida privada daspessoas. Puxa! Mas talvez possa dizer que ela esta sesuperando. KL - Eu sei. Está estudando grego por contaprópria. E sabe por que? Para entender-se melhor 39
  39. 39. Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAScom os marinheiros mercantes dessa nacionalidade.Ela e Henares se especializaram em explorá-los. R – Eu não sabia disso. KL – Claro que sabe, já que vem emprestandosua casa para tais encontros clandestinos. R - Os senhores me vigiam? KL – Será que o senhor já não esteveenvolvido em atividades contra-revolucionárias? R (constrangido) – Para que lembrar issoagora? Já cumpri um ano de prisão. Já... KL – O senhor conheceu Henares na granja deMelena, certo? R(bufando) – Sim. VP – A que se dedica o senhor agora? R – A nada. Era proprietário de váriosedifícios, que me foram tirados. KL – Não! não lhe foram tirados. A Revoluçãoos nacionalizou, através de uma lei popular. OEstado não lhe paga um subsídio? R - Sim. Recebo seiscentos pesos mensais. KL – E por acaso o senhor não gasta mais doque recebe? R – Não, senhor. Vivo apenas do que recebo. KL – Seiscentos pesos mensais são vintepesos diários. Quanto o senhor gastou hoje noalmoço? R – Uns quarenta pesos, incluindo os aperitivos.Mas não faço isso todos os dias, tenente! KL – Pois sabemos que o faz com bastantefrequencia. R – Os senhores estão me vigiando? 40
  40. 40. Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAS Kl – Não, senhor. Não podemos perdertempo vigiando-o. Acontece, senhor Ronzo, que osenhor tem fama de petulante, pretensioso einsolente. No quarteirão onde o senhor mora, e quepor acaso fica bem próximo da minha casa, o senhorjá teve vários problemas com vizinhos, não é? R – É que o presidente do Comitê não fazoutra coisa senão implicar comigo. KL – O presidente do Comitê do seuquarteirão, senhor Ronzo, não implica com o senhor.(R começa a se abanar, nervoso) Ao contrário, é osenhor que se atrita com ele, porque quandoemborca alguns copos a mais começa a insultar aRevolução, e ele é um revolucionário. LC – Senhor Ronzo esta se sentindo mal? R – Não, não. É o calor. LC – Então, poderia nos dizer qual o motivodo seu encontro com Henares? R – Somente para almoçar. LC – Não se encontraram para tratar de algumassunto? (R fica mais tonto e se apóia na mesa. LClevanta os olhos para KL) KL – Responda: sim ou não? R (inquieto)– Foi Henares quem lhe disseisso? KL – Por que supõe que foi Henares que nosdisse? R – Não suponho nada, tenente. Eu...(emudece olhando para KL) KL – O que o senhor ia dizendo? R – Eu... enfim... 41
  41. 41. Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAS KL ( amigável) - Bem, senhor Ronzo, osenhor quer nos dizer o verdadeiro motivo doencontro, só para ver se coincide com o que nosdisse Henares? R (se agita) – Quero um advogado! A (sem se voltar) – O senhor não estáindiciado. Sequer está detido. Compareceu aqui como testemunha de seu amigo e com osimples objetivo de prestar algumas declarações.Compreende? R – Sim, sim, capitão. A – No entanto, se o senhor exige umadvogado para responder a simples pergunta, podefazê-lo. O telefone está às suas ordens. R – Não, não. Se não estou preso, não épreciso. Eu me precipitei. KL – Capitão, devemos compreender asituação do senhor Ronzo: o senhor Henares é seuamigo. O senhor Ronzo veio aqui apenas para ajudá-lo e agora se encontra diante do dilema de dar umaresposta capaz de prejudicar seu amigo ecompanheiro de prisão. Não é assim, senhor Ronzo? R – Sim. KL – Isso significa. Que o verdadeiro motivodo encontro era tratar de um assunto clandestino,ou secreto, ou particular... R - Era um assunto particular! KL – Está vendo? Isso não coincide com oque nos disse o senhor Henares. R – Que é que ele disse? 42
  42. 42. Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAS KL – Não iremos cometer a bobagem derevelar, senhor Ronzo. A (de frente) - Senhor Ronzo, não é verdadeque o senhor morava em Manzanillo, em 58? R – Sim. A - Não se lembra de um jovem que bateu naporta de sua casa, em busca de refúgio?(R não responde. Olha assustado). Não se lembra deque o dito jovem lhe disse que Masferrer e seusassassinos o estavam perseguindo? (R tenso) Pelomenos o senhor deve se lembrar que 1he bateu coma porta na cara, depois de chamá-lo de bandidorebelde. E logo depois o senhor não ouviu disparos?(R suava) Sabe que idade tinha aquele menino, aomorrer? Quatorze anos. Sabe para onde o jovempretendia ir? Queria ir para as montanhas lutar pelaliberdade e contra a exploração. O senhor sabe queaquele menino era o meu irmão mais moço e o maisquerido? (R está murcho) Levem-no, por favor. (VP eLC o carregam arrastado) Ai vai outro feito demerda.(Pausa. VP entra) VP – Que tipos mais cronometrados, vocêsnão acham? KL – Sim. Sabem seus papéis de cor. VP – A única coisa que não convenceu foi atal historia referente ao assunto que trataramdurante o almoço. A – Sim. Mas o fato é que não fizemosqualquer progresso. 43
  43. 43. Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAS VP – É provável que Ronzo tenha ajudadoHenares a preparar o álibi, esse álibi cheio dementiras cronometradas. LC – Mas por que prepararam esse álibi? A – Sabemos... e todas essas mentiras oconfirmam, que não pode ser outro senão Henares ovisitante da Rua Terceira. Sem dúvida, ele deve tervisto algo de suspeito antes de entrarou ao sair. Por isso preparou o álibi. Quem estava deguarda aquela hora? VP – Polanco. Ele também viu o Chevroletverde passar na direção de Havana. KL – Polanco é discreto e conhece o seuoficio. VP – Também lá estava uma viatura nossa,chapa fria; mas o motorista não viu nada, porquenaquele momento exato recebeu uma chamadaurgente da Chefatura. LC – É possível que tenha visto a presidentedo Comitê anotando o numero da chapa... KL – É difícil. Esses companheiros já nãocometem tais erros. Inclino-me a crer que o homemse assustou sozinho. Deve ter acontecido apenasalguém ter passado e olhado para o Chevrolet porsimples curiosidade. Isso acontece com frequencia.Não esqueça que essa gentesofre de mania de perseguição. Sabem que o povoestá contra eles e, por isso, qualquer um que osencara os faz tremer. VP – E não podia também ser uma tática? KL – O que você quer dizer? 44
  44. 44. Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAS VP – Que preparam álibis de antemão parapoderem realizar uma operação. KL – Vamos tomar nota disso, Perea, apesarde que, se fosse assim, o nosso infiltrado no bando,já o teria sabido. Enfim, estamos num beco semsaída. (o telefone toca. Amiel tirou o fone do gancho) A – Sim? (surpresa, preocupação) Hum!(desliga) KL - Que aconteceu? A – Lá embaixo há um advogado esperando.Vem acompanhado da mulher de Henares. Ela estáfazendo escândalo. LC – Diga-1hes que Henares não esta aqui,capitão. A (enérgico)– Não podemos fazer isso, Colino!(esmurrou a mesa) Perea, trate de libertar... (Nesse momento entra o "tio". Rosto sombrioe tédio). KL – Que está acontecendo, Tio? Pisaram-lheno pé no ônibus? Tio – Não! Lá embaixo, na rua, há um carroestacionado, e esse moleque malcriado estavatirando, com a ajuda de um prego, o ar do pneusobressalente que estava guardado – e muito bemguardado! – no porta-malas aberto. Agarrei omoleque, e sabem o que e me disse? "Que lheimporta isso, velho bobo?" KL - Espere, espere. É um Chevrolet ano58... verde? Tio – Sim. E o numero da chapa é noventa eoito noventa e sete. 45
  45. 45. Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAS KL – Tio, você tem certeza de que esse pneusobressalente estava cheio? Tio – Está me chamando de mentiroso? KL – Perdoe, Tio. É o meu estilo... A – Manolo, ai embaixo tem um carroestacionado. É um Chevrolet verde... Sim... O dopreso. Traga-o para o nosso estacionamento e queninguém toque nele. Aproveita e traz o preso... (saem para o estacionamento) Tio – Amiel, já perguntaram ao dono do carrose ele já consertou o buraco do pneu? A – Não. Por que? Tio – Porque agora ele dirá que sim. VP – E se 1he perguntarmos em que oficinaele fez isso? Tio – Dirá que foi ele mesmo que o fez. Tevemuito tempo para isso entre as duas e trinta e astrês e cinquenta. (o detido já está lá ao lado do carro. Tio olhao porta-malas. Passa a mão pela roda e pelo pneu,olha os dedos, sujíssimos, limpa com um lençobranco. Pensa, coça o queixo. Tio – Por que não viramos a roda? (VP ofaz. Tio a examina) Tinha que ser assim. Vejam o quediz esta etiqueta. VP (arranca a etiqueta) - "Casa de PneusSanta Catalina. Senhor: Bernardo Henares. Por umconserto no pneu: um peso. 2/4/62". KL – Como? Quer dizer que este pneu estavaha cinco anos sem sofrer um só remendo? 46
  46. 46. Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAS Tio – Também isso encaixa. Vladimir, quercolocar a roda no chão? (Tio fala no ouvido deAmiel, este faz um gesto de dúvida, coçou a barba e,consente.) – Tragam as ferramentas para desmontaro pneu. A (para BH) - Reconhece esta roda comosendo sua? BH – Sim... Sim, senhor. A – Então sabe que o pneu não está furado. (KL abre a válvula e o ar se esvai. BH baixa acabeça olhando o pneu. Em seguida o pneu foidesmontado por LC. KL enfia a mão no interior.Surgiram jóias). A (olhando o relógio) – Tenente, tem vinteminutos para mover um processo contraBernardo Henares! Leve em consideração osantecedentes. E proceda legalmente para que asjóias fiquem como propriedade do Estado. Colino,conduza o prisioneiro. Perea, diga a esse advogadoque se dirija aos tribunais populares. (enquanto semovem) Todos aqui de volta na hora habitual! Aoperação Tornado vai começar. BH olha para Amiel enquanto é levado. 47
  47. 47. Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAS O DRAMA DE DONA ALICE baseado na obra de Viriato CorrêaPersonagens: desembargador Alves (A), Álvaro (2) e mais dois jovens, Nazareth (N), Silva (S), AliceCENA 1(Senhor A, elegante entra na biblioteca ou sala quetenha livros em abundância. Ruído de festas noexterior. ‘A’ deve usar uma bengala elegante)A: Os senhores aqui! As garotas lá fora esperandovocês e a rapaziada escondida. Isso é uma traiçãoum tanto suspeita!1: Conversamos literatura.A: Nessa idade não conheço literatura maisinteressante do que as mulheres.(faz menção parairem ao terraço. Luzes da cidade). Conversavamsobre versos, então. 48
  48. 48. Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAS2: Sobre teatro.A: Ah! Você é...?2: Álvaro... eu escrevo.A: E o que é que você escreve caro Álvaro.2: Estou escrevendo sobre um caso vulgar de rua,com certos toques de originalidade e vigor:é o casode uma marido traído que, depois de crivar defacadas a esposa infiel, arrasta-a para a rua paraexpor as suas misérias. Não lhe parece excelente? Éminha terceira peça. O público parece que estágostando.A: (meditando, sem tirar os olhos de Álvaro) Querque lhe seja franco? Não acho...2: Mas tem uma pegada excelente... Tem uma grandesacada.A: Permita-me a franqueza. Crimes dessa ordemexistem em mais e mil peças. Em teatro aoriginalidade é tudo. Não sei da originalidade quepretende dar nesse caso, mas, pelos traços gerais...No teatro, mesmo as coisas velhas têm que ter umtraço de originalidade chocante e imprevista. Osegredo do palco é justamente isso – o inesperado.Nesses crimes violentos tudo e tudo é banal. Até oruído, que é a maior banalidade da vida. Queinteresse pode ter para o público um marido quemata explosivamente a esposa? O público vê issotodos os dias... No entanto um imenso interessedespertará a corte que for cercada de circunstanciasimpalpáveis, intangíveis, obscuras, misteriosas... (elaentra para sentar-se na biblioteca, seguido dos trêsjovens). Conhecem, por acaso, a história de Dona 49
  49. 49. Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASAlice?3: Sim. Aconteceu a três anos. Era dia de baile, amulher meio louca abre o guarda roupa onde estavao amante, já em decomposição.A: Conhecem bem mal essa história... como todagente. O que há de interessante não é o fim dahistória... mas o seu desenrolar. Isso sim dará umaboa peça de teatro. (A se põe a lembrar) O caso deDona Alice me comoveu. Não há imaginação maisrica dos que os fatos da realidade. A maissurpreendente fantasia humana não supera certasfantasias da realidade.1: O senhor bem essa história?A: Nos seus mais profundos detalhes.CENA 2(Enquanto passam os créditos. Alice e o namorado.Namoro no portão. Noivado, dedos e aliança. Cenasdo casamento de Alice. Alice deve ser uma mulhermuito bela e alta, com boas formas. Retorna-se comAlice em pé e a câmara se aproximando chegando ameio corpo e olhar altivo).CENA 3A: Amigos, o casamento é uma frutificação e osfrutos só têm bom sabor quando maduros. Não sedeve casar jovem. Eis um conselho. Volta e meiavocê encontrará alguém que lhe parecerá a tal daalma gêmea. Pura balela.(entra o marido de Alice, o Nazareth e a cena 50
  50. 50. Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAStranscorre como se fosse na época da históriacontada, é claro, sem a presença dos jovens).N: Alves... Alice está muito mudada...A: Também percebi... infelizmente...N: isso foi depois que o tal do Silva começou afrequentar a casa.A: Isso pode ser... será que você não andouesquecendo sua esposa?N: Como assim...A: Você sabe... hoje todo mundo fala em você... ummédico bem sucedido... o seu nome é que está emvoga... (intercala-se tomada do tal Silva e DonaAlice).N: Devo ter deixado Alice de lado... um pouco...Masesse tal Silva parece um gladiador romano... asmulheres caem por ele como moscas...A: Um tanto rico, também... e outro tanto ocioso.N: faz esporte... muito esporte...mas, saiba que temuma lesão (aponta a região do coração)... parece quecardíaca.CENA 4(Alice na varanda, contra a noite ou luz da lua. Algodiáfano. Intolerável calor. Alice esta com uma roupasensual de seda.. Somem N e A)Alice: Ele vai fazer uma conferência médicajustamente no dia do meu aniversário. Resolveucomemorar na véspera... (ela entra, e da sacadasurge o S, parando no reposteiro da porta, vendo amulher). 51
  51. 51. Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASCENA 5(Festa na beira do Rio. Ou um chá íntimo. Algumacoisa com cadeiras e mesinhas, em diversão semalgazarras. Tomadas gerais. A observa que Alice e Strocam olhares. As pessoas saem. O local se esvazia.O rio, a fluência, o barulhinho das águas. A e Ndescem uma rampa qualquer. A nota, sorrateiro queAlice passa, sobre uma mesa, uma chave para S.)CENA 6(Noite. O S entra com sua chave. Alice o espera nacama. Ele sobe as escadas ou passa pelo corredor.Alice se prepara com algumas auto-carícias. Entra oS, que tranca a porta do quarto e se deita ao ladodela, mas quase que imediatamente, sem cortes,batem à porta do quarto. O casal se assusta).N: Alice.(Ela e S estão atarantados e seminus. N continua abater na porta. Decidem por colocar S no guarda-roupa dela. Em seguida, N entra tranquilamente)N: Perdi o trem... por dois minutos... e olha quem elenunca sai na hora.A: Por que só veio agora? (enquanto fala se encostano guarda-roupa)N: Ficou preocupada, hein? Fui a uma central de e-mails pedindo que transfiram a conferência.(enquanto fala vai colocando um pijama ou roupão)Aproveito e corrijo uns pontos fracos (e sentou-se àuma escrivaninha no quarto, com computador. Elaestá meio chocada, recostada na cama, trocando 52
  52. 52. Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASolhares entre o guarda-roupa e o N. Então a portacomeça a se entreabrir. Troca de tomadas entre N –que trabalha – Alice e e porta. N nota. Olha para amulher. Dá um sorriso. Tranca com violência aporta, às chave e a joga sobre a escrivaninha). Sequiser, querida, pode dormir, pois vou trabalhar anoite toda. A luz do vídeo incomoda você?CENA 7(Tomada da ponta da bengala de A, batendo no chão.Subindo para seu rosto enquanto ele encara osjovens)A: Tivesse eu virtudes e talentos de dramaturgo efaria cair o pano para começar o segundo ato. Nãoacham? (pausa para pensar)Nazareth escreveu anoite inteira. Mas aí, pela manhã, talvez por causa doesforço da noite ele estava doente. Tomou umascápsulas de remédio, resolveu tomar um banho, maso fato é que só saiu do quarto quase meio-dia.(tomada da saída para o banho, coma ajuda de Alice.Ela se aproxima do guarda-roupa, com a chave, e aoabri-lo, S está morto e nu. Toca a sineta. É donaRicardina, uma perua, uma visita. O morto érecolocado no armário).R: Parabéns pelo seu aniversário. (entrega flores.Alice está apreensiva).Alice: Obrigada.R: Não pude vir à sua festa de ontem, minha querida.Alice: É que Nazareth iria viajar.R: Você bem sabe como gosto de uma festa.N: Você está escondendo algo querida? 53
  53. 53. Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASAlice: (assustada) Como? Não! Dona Ricardina...R: Hoje é o dia exato do aniversário de Alice, não éNazareth...N: Com certeza, Ricardina, mas entre...R: Temos que fazer uma nova festa.Alice: Não ... não é preciso... eu não quero...N: O que é isso, meu bem... Ricardina tem razão... odia certo é hoje...Alice: Mas, você está doente, Nazareth.N: Já estou bom. O banho me restabeleceu.Alice|: Mas, eu não quero festa..,. não quero!N: Teremos festa... e é pra já... (toma do telefone edisca) onde já se viu... alô... é da casa do Silva? Eleestá? (fecha no rosto de Alice).CENA 8(Cena de festa com muitos cravos vermelhos. Umafesta pop. Muita música gente por todo lado. “A”passa pelas salas, como se fosse um ser alheio ácoisa. “A” encontra Alice em um dos salões. Estáatraente. Maquiagem que mostra em estadoprecário. Um ar de sonâmbula. Copo na mão.)A: Trago a notícia de que o Silva não vem... não sesabe o que aconteceu... a família está desesperada...ele nunca dorme fora de casa.N: (tomando A pelo braço) Certamente estará por aíem alguma rapaziada. Vamos à festa. (passam porAlice. Ela acompanha os dois e a cena se enevoa emclima azulado de nébulas e tédios. Ela sai emdesesperos. Toma dos braços das pessoas, indagaalgo que as pessoas desconhecem, até chegar a A, 54
  54. 54. Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAStomando-o pelo braço, retirando-o do círculo deamigos, levando-o à uma janela).Alice: Não está sentindo um cheiro no ar?A: Não.Alice: Não é possível... eu sinto um cheiro mau...forte...A: O único cheiro que sinto é desses cravos... nadamais. ( e saiu pelo meio da multidão em direção aoquarto. Procura, fecha janelas, fecha portas, fechagavetas, encosta um material pesado na frente doguarda-roupa, sai para o corredor, encontra A).Alice: Você não está sentindo um cheiro horrível?A: (observando-a como quem vai dar a deixa) Sim...estou sentindo.(Alice recebe um baque. Grita desesperadamente.Sobem pessoas. Ela os encaminha para o quarto eabre o guarda-roupa. Tomba o cadáver apodrecidodo S. Chega o marido.).CENA 9A: Aqui termina a peça. ( o som da festa aumenta)2: Por que não escreve, desembargador?A: Já disse que não tenho talento algum para isso.2: Só por isso?A: è que ainda não estou completamente senhordesse drama. Não sei, por exemplo, que papel meuamigo Nazareth, realmente desempenhou nessahistória. Será que ele desconfiaria da mulher?(tomada dele entrando no quarto por ter perdido otrem). Será que ele a viu dar as chaves ao amante eno quarto, claramente o trancou no armário? (cena 55
  55. 55. Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASfechando o guarda-roupa), passando a escrever anoite inteira, de propósito? Não terá isso, tudo isso,uma vingança horrenda, por causa daquelaquantidade imensa de cravos espalhados por aí?(tomada de cenas da festa).1: Que lhe parece?A: Estou tentado a acreditar que o foi ( olharpensativo de A . tomada da cena em que A vê Aliceentregando a chave. A bate no ombro de N quedesaba a cabeça desalentado sobre o ombro e senta-se sem ânimo na cadeira. Retorno para o olharpensativo de A que se transforma em um sorriso demofa e um dar de ombros em seguida). Mesmoporque, para a intensidade do drama , é necessárioque assim tenha acontecido. (faz sinal para osrapazes, e se retiram da sala. Fecha na bibliotecacom um leve som vindo da festa). 56
  56. 56. Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAS O ENCONTRO -baseado na obra de Marta Lynch – personagens: Homem, Mulher, Gordo e pessoas nas ruas.O carro na noite. Pode ser um táxi. O hotel. A mulhersai do carro olhando a fachada. Ela está um tantoséria. Entram. O recepcionista tem que ser gordo.Ele tem um lápis apoiado na orelha. Sua muito. Temum leve sorriso canalha. Olho no olho.Ela pensa: “ Talvez sejam sempre os mesmos emtodos os hotéis”Uma geral dos móveis e ambientes. Um ar de falsaaristocracia. As mãos dela tocam objetos. Olhacuriosa para tudo. Um relançar de olhares entre ostrês como se não confiassem um no outro.O casal entra no quarto. As paredes. Cada parede 57
  57. 57. Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAStem um tipo de abordagem. Ora campos, orasensualidade, ora flores, ora geométricos.Testas suadas do casal que tira a roupa lentamente.Estão sérios. Ela observa seus sapatos e calças.Ela pensa: São seus sapatos e calças que eu queria àluz do dia.Ao longe o barulho de trens e barcos.Dentro do carro.Ela: Ficamos aqui. O resto do caminho faremos a pé.(O casal caminha sem dar as mãos)Ele: Aceitar. Deixar a coisa do jeito que é. Do jeitoque está.Ela: Você está preso a uma outra vida. Nem melhor,nem pior. Apenas uma outra. Distinta. Falsamentedistinta em que a carne é uma coisa e o espírito éoutra.Ele: Nesse hotel não podemos. Tem muita luz. Nãopode ser.Ela: Aceitar. Deixar ficar, não é?(fichas para entrar no hotel do gordo)Gordo: Vão demorar muito?(o casal se olha e dá de ombros, dúvida)Gordo: São trezentos guaranis.(paga-se. Ele a olha. Ela morde o lábio. O gordo aolha. Ela suspira fechando os olhos e molha oslábios.)Entram no quarto. Cobrem os espelhos e fechamcortinas enquanto tiram as roupas. Apagam as luzes.Deixam o abajur. Sexo em penumbras e silhuetas. Sósuspiros. Ela correndo por um túnel. A luz lá no fim.Ela correndo para lá. Ou uma rua que desemboca 58
  58. 58. Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASnuma praça iluminada. Traveling ao redor do casalsentado um sobre o outro. Se olham. Ilumina-se paragrande contraste. Se mordem. Se lambem. Atingemêxtase.Eles se perguntam a sua vez repetidas vezes: Quemé você?(cada um cai para trás respirando fortemente.Olham para o teto.O gordo anota valores em seu livro de pontos,molhando a ponta do lápis com a boca.Saem, do hotel. Param na beira da calçada sob a luzdo poste. Passam pessoas que os olham. Umadeterminada mulher passa. Olha para ela. Fixa oolhar. Se olham. E depois a mulher se vai, olhandopara trás.Entram no quarto.Nas paredes frases obscenas. Frases políticas. Frasesde amor. Desenhos pornográficos nas paredes.Sereia.)Ela pensa: “Nessa tarde é a minha história que euvou escrever aqui”.Há uma seqüência de olhares brandos e ternos entreo casal.Ela: Sinto cheiro de sêmen espalhado por todocanto.Ela para na soleira da porta. Ele a abraça e desce amão por sua coxa.Ela: Muita gente já gozou aqui. Mas o mundo nosparece alheio hoje.Ela se deita e abre as pernas. O homem se deita ecomeça a trepar porém a cada vez vai envelhecendo 59
  59. 59. Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASlentamente. Ela nem goza nem se manifesta. Ohomem vai ficando muito velho. Se olham. Ela o olhacom curiosidade; ele a olha, velhíssimo, com ummeio sorriso de desculpa.Ela reforça os movimentos querendo gozar semconseguir. Ela sempre para qualquer ação para verse está ou não gozando.O gordo anota mais um valor em dinheiro, molhandoa ponta do lápis.Ela: nada do que eu disser...O gordo pega o telefone.Ela: ... terá valor algum para nós.O telefone toca barulhento no quarto. Toca uma.Duas. Ela atende. Ouve-se: Seu horário já acabou.(silêncio) Ela olha para o parceiro. Ele estáhumildemente velho, resgatando sua roupa.Envergonhado. Ela desliga e começa a pegar suasroupas.Ele: Não sai sem mim. (pausa) Me espere.Ela olha ao redor do quarto. Olha para a sereia.Ele (enquanto põe a roupa) Acho que é o cansaço.(pausa) Eu até me sinto perplexo com isso tudo.(pausa)Descem ao pórtico. Ele sai. Ela está atrás. Olha ogordo. Que dá um sorriso de boas noites. Ela olhapara porta. Sobre ela está escrito: “Deixa estar.”Ela pega táxi parado em frente ao hotel. Passa pelovelho parado na esquina. Ela o olha. Ele a olha. O táxipassa, dobrando a esquina. 60
  60. 60. Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAS O ENIGMA DAS TRÊS CARTAS -baseado na obra de Roberto Arlt- elenco: (Sr. Perolet); menino(a) vendedor(a); Isadora Perolet); policial ; Inspetor ; DetetiveCENA UM[Perolet anda pela rua. Sente-se seguido e se virabruscamente. Mão no bolso verifica o revólver, comcuidado. Com temor ele se direciona ao local onde ovulto se escondeu. Alternadas imagens entre Peroletse aproximando e a coluna. Quando cruza a colunanão há mais vulto, apenas um menino(a) que vendequalquer coisa. O(a) menino(a) entrega-lhe umamensagem. Perolet a lê em off: 61
  61. 61. Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASP: “Cruel Perolet, amanhã ou depois vou te matar”.[Assustado, um suor frio pelo rosto. Olha o meninoque o olha. Leva a mão como se fosse pegar orevolver. Pega uma moeda do colete e dá para o(a)menino(a). Perolet olha para os lados procurando oautor e sai, rapidamente].CENA DOISPerolet chega em casa. A mulher o recebe,arrumando o aventalIP: Chegou cedo hoje. [enquanto retira o capote]Aconteceu alguma coisa?[Perolet vai ao armário e bebe qualquer negócio.Depois, abre uma gaveta e pega uma carta. A mulherlê:]IP: Perolet, sabemos que você se dedica àespionagem. Vá embora para seu país ou matamosvocê. [ela fica assustada e fica sem fala. P pega acarta da mão dela amassa e joga no lixo. Detalhar olixo. Encosta-se no armário, olha para ela e cruza osbraços. Não sabe o que fazer].CENA TRÊS[P está no escritório. Mexe em algumas caixascuidadosamente. Tocam a campainha, ele estremece,quase deixa cair uma caixa. A mulher vem de lá dedentro e abre a porta, recebe uma carta. Seaproxima de P:]IP: Olha! [Ela entrega a carta. Ele a abre com certocuidado]P: Perolet. Sabemos que jogou nossa primeira carta 62
  62. 62. Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASno cesto de arame. Você está brincando com fogo.[se levanta] É a terceira carta. Não sei mais o quefazer. Não temos empregados. Como é quedescobriram que eu joguei a carta no meu cesto doescritório? [a mulher está assustada] Estão mevigiando. [olha pela janela] E querem me matar.CENA QUATRO[Na Polícia. Plano geral: Conversa com um policialque faz anotações. O policial sorri, divertido,enquanto anota.]P: ...E digo para o senhor que eu desconfio até dapolícia, eu confesso... até da polícia.Pol: Tranquilize-se, senhor Perolet... fique calmo...P: ...mas eu não sou um espião... nunca fui...Pol: [amistoso] Tranqüilize-se... fica melhor para osenhor que se vá para casa. Descanse... tudo estáanotado... descanse um pouco...P: Mas o senhor tem que entender...Pol: Não faça caso dessas peças de mau gosto... issodeve ser coisa de algum de seus concorrentes. Osenhor é uma pessoa conhecida... bemconceituado...é natural que haja invejosos... [Peroletsai. O policial o olha sair e continua a escrever,divertido na sua escrita].CENA CINCO[Perolet e Isadora tomam um chá. Ela o serve]P: Resolvi que vou me tranqüilizar. Assim querem ospoliciais. Então, vou me tranqüilizar...IP: Mas o que é que eles disseram? 63
  63. 63. Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASP: Disseram que tudo aquilo não era nada... com eles,não é nada mesmo... dizem que pode ser coisa dealgum comerciante velhaco... um concorrente... parame assustar...IP: [balançando a cabeça, ansiosa] Por que não vocênão volta para o Brasil? Eu ficaria aqui com meuspais e cuidaria dos negócios... se você quiser, éclaro...P: Ora, ora... tenho lá medo desses valentões? [toca acampainha. Eles se olham. A porta. Nervosos.Isadora vai atender. Rosto apreensivo de P. Ela voltacom um pacote. Ela vai para a cozinha. Grita. P correpara lá. Vê o pacote aberto. Um objeto metálico].IP: É uma bomba! É uma bomba. [P sente um apertono coração e cai no tapete].CENA SEISPerolet está de cama ou deitado em um sofá. IPentra apertando as mãos.IP: Tudo bem com você?P: Agora estou melhor.IP: Os policiais levaram a tal bomba para análise...P: Alguma novidade, alguma pista?IP: Não se levante... Trouxeram o laudo enquantovocê se recuperava.P: Então...IP: A bomba consta de um envoltório enegrecido, delata, contendo...[cara de muxoxo]... contendo umaporção de mousse de chocolate...P: Mousse de chocolate?IP: ... o laudo continua...a bomba é totalmente 64
  64. 64. Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAScomestível e, portanto, inócua. Na verdade é umabomba de chocolate [P põe a mão no rosto]. Querido[preocupada com a vergonha do marido]... noentanto, no seu interior tinha um bilhete...[ela passao bilhete, enquanto P lê, ela fala]: Perolet, te preparapara receber uma recheada de ferro, pregos edinamite. [Fade].CENA SETE[Inspetor chega na casa de Perolet. Vê o número dacasa. Bate. Entra. Perolet recebe um inspetor. Apertode mãos. O inspetor nota IP e de vez em quandolança um olhar no corpo da mulher. A cada olhar elase cobre com mais pudor].P: Inspetor?K: Kirino... Inspetor Kirino.P: Essa é minha esposa... Isadora Perolet.K: [batendo o calcanhar] Minha senhora.P: Nessa grande cidade tem alguém que deseja mematar. [O inspetor anota] Já recebei três cartas.Parece que ele não está mais se contentando com ascartas.K: Inimigos! O Sr. tem inimigos?P: Não! Não acredito que tenha. Mas eu sei que essaspessoas querem me fazer mal e estão informados detodos os meus movimentos. [os três se olham. IP e Pcomo que pedindo ajuda. K se levanta]K: Prometo trabalhar nesse caso. [sai. Da rua] Dareiprioridade máxima.[última olhada do inspetor nodecote de IP, que se retrai, recatada]. 65
  65. 65. Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASCENA OITO[Perolet saindo do escritório topa com outro pacote,maior ainda. Olha para todos os lados. Tomadas dorosto. Leva o pacote para dentro. Fica na dúvida seabre ou não. Hesita em cortar os barbantes e no fim,nervoso joga o pacote pela janela. Do alto ele vê queuma cobra sai de lá de dentro. Perolet parte para arua. Pega as cartas que tem no bolso e joga uma auma para a rua. De repente para em uma carta. E,abre atentamente. Imagem do panfleto: - A agênciaJuve oferece seus serviços aos senhor Perolet.Preços módicos. Discrição absoluta.CENA NOVE[Perolet batendo na porta com força. A porta seabre. Entra numa sala escura. O detetive estásentado com os braços sobre a mesa cheia de papéis.P o cumprimenta. Senta-se.DET: Sou o diretor da Agência e faço minhapropaganda através de circulares enviadas acomerciantes que figuram no guia telefônico.[Perolet olha em torno, inseguro] Não se surpreendacom nossas modestas instalações. O luxo exigedespesas que sempre são pagas pelo cliente. O que osenhor prefere? Uma eficiente investigação ou umaempresa que debitaria os móveis modernos na suaconta?P: O senhor tem razão. Isso é lógico e honradamentecomercial.DET: Eis o ponto. [pausadamente] Eis - o – ponto.Mas o Sr. Veio aqui para contar sua história. 66
  66. 66. Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAS[inclusão de passagem de tempo enquanto P conta,DET anota tudo, inclui aí a trilha sonora, até que oDET o interrompe]DET: Essa bomba... não era uma caixinha com areia?P: Não... estava cheia de mousse de chocolate. Mas,como o senhor sabe que era uma bomba falsa?DET: Se fosse verdadeira o senhor não estaria aqui.[Perolet faz um movimento em direção ao braçoesquerdo, pensativo. O DET, que anota tudo, se elevanum rompante, mirando Perolet e apontando-lhe odedo. Olhar sinistro e tolo].DET: O senhor é doente do coração.P: [gaguejando] Sim, sou doente. Como adivinhou?DET: [sorrindo] Não adivinhei, meu caro senhor...não sou dado a essas práticas de superstição...Dedução... Pura dedução... A minha espéciedetetivesca se fundamenta em deduções. A questãoé simples. Não houve nesses atentados intençãodireta de feri-lo ou matá-lo. Primeiro, as cartasanônimas, depois uma bomba de chocolate, depoisainda um serpente que, decerto, era uma cobrad’água ou de borracha. Enfim, seu caso pode serdefinido como de “agressão indireta”. Contra quemse acomete uma “agressão indireta”? Contra quemestá doente de algum órgão vital e pode morrerdurante intensa comoção. [P se abate].P: Simples e profundo!DET: Quem seria beneficiado com a sua morte?Quem herdaria seus bens?P: Minha esposa.DET: Ela tem vinte anos a menos que o senhor. O 67
  67. 67. Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAShomem que o seguiu, que escreveu a ameaça no talpapel era, certamente, o amante dela. Mas, é claro,isso tudo ainda é especulação de minha parte. Estouapenas jogando com os dados. Senhor Perolet, ainvestigação completa lhe custará dois mil francos.Mil à vista e mil na entrega do culpado à polícia. [Pestá assustado]. Eu o levarei em pessoa, como provade minha capacidade e eficiência.[P está mal e aperta o peito]P: [num sopro de voz, enquanto tira o talão dobolso] Não esperava isso de Isadora! [Preenche umcheque] Tem certeza? [enquanto dá o cheque, atremer, o outro dá de ombros como quem diz:“Pode até ser, sei lá!”. Então, abre-se a porta e oInspetor aparece com 3 policiais.I: Finalmente pegamos você, Archibaldo Gomes.Agora você não escapa.[DET não se assusta, dá de ombros outra vez edevolve o cheque ao assustado P]DET: Acho que não terei tempo de utilizar isto, meucaro senhor.I: [enquanto se efetua a prisão] Senhor P, tenho asatisfação de comunicar que descobrimos seumisterioso inimigo. O golpe que estava tramando...uma secreta armadilha. Este homem, ArchibaldoGomes, português de nascimento e vigaristainternacional, esteve empregado, durante certotempo, numa companhia de seguros, tendo aoportunidade de informar-se de todos os contratosrecusados por motivo de doença cardíaca doproponente. Pesquisou o senhor. Inventou então, o 68
  68. 68. Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASardil de perseguição e da tal ”agressão indireta”,oferecendo seu serviços de detetive particular àsmesmas pessoas depois de atemorizá-las comameaças. Tudo o que ele pode ter dito ao senhor épura invenção para chocá-lo... e matá-lo. As vítimassempre acharam que esse homem era umextraordinário detetive devido às suas lógicasconclusões... sempre resolvendo os casos a que sepropunha resolver... tudo bandalheira.P: [suspirando aliviado] Como descobriram?I: Nada demais. Interceptamos algumas de suascartas pelo Correio. A sua senhora nos deu maisdetalhes sobre mensagens e bilhetes e foi ela quemdeu a pista definitiva: ela nos falou do oferecimentode serviços que a Agência Juve deu para o senhor.Tivemos, então, a certeza de estar na presença doautor da “agressão indireta”, procurado pela políciainternacional. Uma discreta vigilância fez o resto.P: [entregando o cheque ao Inspetor] Senhorinspetor, se não morri até agora, com essasemoções, acredito que...DET: Senhor Perolet, fique tranqüilo. Não quero seudinheiro. Este é o meu trabalho, do qual muito meorgulho. Os homens de coração de cristal sãoaqueles que têm vida mais longa. [carregam osujeito].[P volta mais contente para a residência. Entra]P: [depondo suas coisas na mesa] Isadora, pegaramo criminoso. O nosso amigo inspetor fez um trabalhoexcelente. Ele chegou na última hora e zás... pegou opilantra [ao abrir a porta vê que Isadora está 69
  69. 69. Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAStrepando, de quatro, gemendo, com o policial do DP.Eles o olham. Ele olha o casal. Ela dá um sorriso. Pcomeça a morrer, deslizando para o chão. Enquantoela uiva cada vez mais. É necessário um toqueperverso de obscenidade, por isso o fade out finaldeve terminar sobre as palavras e gemidos dela. Depreferência, os seios dela balançando sobre a carado P]. 70
  70. 70. Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAS O ESPELHO -baseado na obra de Manuel Mujica Lainez- Simon del Rey (judeu, português que finge ser espanhol, rosário na munheca, sotaque errado, persignações constantes, sem motivo, agiota, tem ciúmes da mulher) VisitanteDona Gracia (Mulher bonita, fidalguia discutível, seu dinheiro em dote aumentou as riquezas do marido, mais jovem, sensual) Emissário (meio galã) Juan de Silva (amigo do Simon) Soldados (representantes do governador) Juiz (terrível e autoritário) 71
  71. 71. Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASSimon está em seu escritório. Ele observa a mulherem seus afazeres. Conversa com um visitante oucliente que de vez em quando olha a mulher,também, e recebe um olhar desconfiado de Simon.S: Não gosto de falar sobre minha linhagem real –daí vem meu nome – d’el Rey, mas... para não cairem pecado de... vaidades.( continua a escrever em cadernos ensebados. Luvasde meio dedo ).S: Dos judeus... só me interessa o pano.Visitante: O que?S: O pano... os tecidos que eles trazem para vender.(olha desconfiado para os lados como se esquece dealgo e se persigna intensamente, três vezes ). Boasroupas, alfaias e mantos. Roupas espetaculares deEuropa.( à noite no quarto. Escapulários e santos. Graciadorme. O quarto parece um altar, com velas... ele,com o terço na mão, tenta escutar o que Gracia fala...ela diz nomes... ele a acorda ).S: Quem é Diego? Quem é esse Gonçalo?(ele beija oterço).G: Do que é que você está falando, marido?(ajustando o travesseiro) Estou tentando dormir.S: Quem são essas pessoas? Diego e Gonçalo...G: Por que quer saber isso agora? (ela vira paraoutro lado ).S: Quem são esses homens?G: Eu tenho um primo que se chama Diego. Vivia emnossa casa. Não sei o que aconteceu com ele. Um dia 72
  72. 72. Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASsumiu na guerra. Nunca mais o vi.S: E o outro?G: Que outro?S: Gonçalo e não sei mais quê?G: Gonçalo era meu tio... pai de Diego. Certamente eusonhava com eles, não lhe parece? (volta a dormir.Ele se levanta. Vai ao escritório contar moedas epensar).Pela manhã chega um Emissário.E: Trago boas notícias, Sr. Simon d’el Rey.S: Abre a boca e desembucha. O que ocorre peloChile?E: Seus negócios estão caminhando muito bem dooutro lado da Cordilheira dos Andes. E trago umpresente do seu sócio chileno...S: O velho Leon...E: Sim, o velho Leon... ele manda esse presente. Umregalo de alto valor ( e vai descobrindo o presentede um pano. Entrega o presente ao Simon, dentro dacasa, um grande espelho que brilha ).S: Um espelho!E: Um espelho... veneziano!S: Belo espelho! (ele o observa atentamente). Viajouem lombos de mula e passou por desfiladeirostraidores sem sofrer dano algum?E: Tivemos todo o cuidado... uma ordem do Sr. Leon.S: Dona Gracia! Venha ver.E: Ele dizia que o metal do espelho tem viajado pormetade do mundo!S: Dona Gracia, venha ver. Um presente...E: Diz ele que o primeiro metal do espelho foi 73
  73. 73. Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTAStrazido por nada mais nada menos que Marco Polo...S: Provavelmente em uma de suas viagens à Índia ouChina... Dona Gracia! Se faz o favor?(ela se aproxima, faz reverência ao Emissário e ficadeslumbrada com o espelho. Ela olha o espelho eolha o emissário. Troca de olhares e sorrisos ecumprimentos. Ela se vê no espelho. No reflexo elaestá mais sensual. O marido e o emissário aparecemtambém por detrás dela . Há névoa e fumaça. Umcerto embaçamento).G: Não estou me vendo bem ( ela se mira e se move,fingindo e gostando )E: É um espelho antigo... está claro... mas previno aomeu amo que é nisto que reside o seu maior mérito.S: Sim.. sim... claro... muito formoso e... muito antigo(como se fosse conhecedor de coisas antigas)...muitos méritos...E: E... quanto mais antigo... mais requisitado, maisvalioso...(Coloca o espelho em frente à sua cama, entrepinturas de santos e estátuas de Jesus).S: Muito mais valioso...(O quarto solo. Luz pela janela ou veneziana. Oespelho. A câmara faz uns travelings curtos. Simonentra no quarto. Curioso. Se coloca frente ao espelhoe se assombra, se persigna e sai correndo do quarto.Repetem-se os travelings, como de retorno)( Ele dorme ao lado da mulher. Repentinamenteacorda. O espelho. Imagens alternadas entre ele e oespelho, travelings curtos. Câmara se aproximalentamente do espelho a cada tomada ). 74
  74. 74. Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASS: Que demônios se passa com esse espelho? Eledemora para mostrar a imagem. Isso não pode ser...é uma coisa fantástica. Tenho a impressão de que aimagem que ele copia não é a do meu quarto. Pareceoutro aposento. Outro lugar.( ele se aproxima doespelho ) Parece que outras pessoas habitam as suasimagens. ( atrás de si pessoas passam pela imagem,sua mulher limpando as coisas, conversas do dia adia e ele se volta assustado só vê a mulher deitada ese volta novamente e se vê sozinho numa imagemnormal ).( Simon no escritório. Aparece Dona Gracia ).G: Simon... acho que esse espelho está embruxado.Parece enfeitiçado.S: E por que? ( meio rude )G: Porque hoje eu vi nele uma coisa que não é dehoje. Mas era de ontem.G: Já disse para você não me atrapalhar durante omeu trabalho. Não quero que contrarie minhasordens. Não posso perder meu tempo comassuntos... sem importância. ( ele está meio emdúvida na verdade ). Você está ficando boba, mulher( fixa sua visão em algum ponto, meio que perdido,segurando firme contra o peito os livros decontábeis. Resolve ir ao quarto, na ponta dos pés emeio temeroso enfrenta o espelho que lhe devolvesua imagem normalmente . Bufa, dá de ombros. Emoutro aposento ele se aproxima da mulher ).S: Tenho problemas maiores. Terei que sair de casapor uns dez dias.G: Mas, por que? 75
  75. 75. Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASS: Tenho que viajar para receber a fazenda que mecoube por pagamento de uma certa dívida.G: Mais terras.S: Mais ( eles se olham ). Mais terras para nossariqueza. ( eles se olham. Simon tenta descobrir algono olhar de Gracia e vice-versa ) Tenho que fazer osinventários, assinar papeis. Coisas que somente euposso fazer. E é necessário fazer tudo agora poispara nós, portugueses, os ventos estão soprando nadireção de uma tempestade.G: Explique-se.S: Apesar de achar que já me consideram castelhanovelho e dependendo do que acontecer na políticalocal, o importante é estar bem com todos. Lembrados pilotos que mataram e dos portugueses quetrouxeram a notícia da rebelião no Reino dePortugal?G: E quando o senhor parte?S: Hoje mesmo. Sem demora.( corte para a partida, bolsas e sacolas )S: Me dói deixar a senhora Dona Gracia mas... deixo,também, as minhas recomendações. Não saia decasa a pretexto algum, a não ser, se quiser, paraassistir às missas. Quero que a senhora fiqueenclausurada como corresponde a uma mulher desua posição e importância. Como uma monja! Umamadrecita! ( ele se persigna, vai dar uma últimaolhada no espelho ). E sobre ele (aponta para oespelho) é bom nem se comentar. Se osrepresentantes da Santa Inquisição ouvem umaconversa dessas... de espelhos com imagens 76
  76. 76. Coelho De Moraes CURTA os ROTEIROS de CURTASatrasadas ou adiantadas, é certo que me botam nafogueira.G: Deve ser um defeito na engrenagem.S: Que raio de engrenagem, mulher.G: Ah! Sei lá. Na engrenagem dos reflexos.S: E o que é que a senhora entende de engrenagemde reflexos?G: Aprende-se, ora essa. Ou pensa que minha cabeçanão tem outras idéias?S: Shhh! É bom nem se falar nisso. Há tanto feiticeiroem Veneza que até pode ser que um deles colocoualgum tipo de bruxaria nesses metais.G: Quem sabe se com o tempo essa água do espelhose adormece e ele melhore, não é Simon?S: Água do espelho? (ele não acredita no que ouve)Mais idéias? ( Eles se olham. Se estudam ). A senhoraandou aprendendo a ler, por acaso?G: Eu não, senhor!S: Toma cuidado, mulher. Essa coisa de mulhersaber ler é coisa do capeta. Acredito que oprocedimento mais certo, por enquanto, é não olharmuito para este espelho... e, sobretudo, não deixarque isso se torne uma obsessão. E não exagerar...não exagerar jamais, pois o Diabo deseja que sempreexageremos nas coisas. Seja lá no que for. Atémesmo na fé.( imagens e idéias que mostram a passagem dosdias.)( Corte: a bagagem de Simon no chão aos seus pés.Imagens ao rés do chão. )S: Dona Gracia! Cheguei! Onde está a senhora? 77

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