Público 16 o regresso do povo 3.11.2012

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Público 16 o regresso do povo 3.11.2012

  1. 1. Elísio Estanque*Jornal PÚBLICO, 3.11.2012 O regresso do Povo, com P grande Para além da origem bíblica da ideia de povo (o Povo de Deus), os processoshistóricos de secularização progressiva das sociedades europeias deram origem adiferentes conceções acerca do “povo” e da cultura “folk” (que lhe serviu de suporte).Pensar o “povo” enquanto categoria sociológica implica refletir sobre a sua relação –ambígua ou conflitual – com as “elites”. É claro que essa relação evoluiu ao longo dasépocas, mas, nos dias que correm, e perante a crise que hoje enfrentamos, a ideia depovo enquanto sujeito coletivo ganha uma nova aura e força sociopolítica. Pode dizer-se que, durante muitos séculos, fora da “sociedade de corte”,praticamente só existia o povo – apesar da sua diversidade e das revoltas pontuais –,que era, em geral, conotado com “ralé”, miséria, trabalho, gente “sem eira nem beira”,mas visto como passivo e submisso (dependendo do “pão e circo”). Só em ocasiõesespeciais (como o carnaval, por exemplo) eram tolerados às classes populares algunsatos transgressivos, onde se podiam inverter pontualmente os papéis. A irreverênciacorrosiva do “riso carnavalesco” (bem retratados por Rabelais e analisados por MikhailBakhtin) podia ainda estender-se a outros meios populares da Idade Média. Aresistência à ordem vigente e às elites exprimia-se na blasfémia e no obsceno, naexibição apoteótica e desregrada do corpo grotesco, o “corpo baixo” da impureza e dadesproporção, na bebida intoxicante e na promiscuidade sexual, presentes emambientes como a taberna e o bordel, que nas principais capitais europeias do século
  2. 2. XIX se tornaram atrativos para artistas e intelectuais, alguns oriundos da aristocraciadecadente, em rutura com as convenções da boa sociedade burguesa. Porém, à medida que se consolidou a modernidade e o Estado burguês, a visão“exótica” ou bucólica da cultura popular alternou-se substancialmente. Além da imagemsuja e desbragada, segundo o olhar da burguesia triunfante, o povo passa a confundir-se com a “classe trabalhadora” e cresce-lhe a fama de violento e desordeiro, pelo que apreocupação principal passou a ser “localizar, conter e incorporar as multidõesperigosas” (P. Burke). A Revolução Industrial e as lutas sociais do século XIX deram umnovo protagonismo à classe operária, erigida em vanguarda do povo. Do ambiente ruralaos centros urbanos, da pequena tradição às grandes convulsões de massas econcentrações fabris, do povo passivo e humilde ao operariado reivindicativo, com ainstitucionalização das nações modernas o “Povo” afirma-se como sujeito da história. Mas foi sobretudo ao longo do século XX, depois de duas guerras mundiais quetiveram a Europa como palco, que se assistiu a uma rápida e nova segmentação social,com o crescimento do Estado social e das classes médias assalariadas, o quesignificou um esforço de demarcação destas em relação ao povo, tentando imitar aselites, em busca de modos de vida urbanos marcados pela cultura de massas. Emboranas democracias avançadas as elites políticas modernas também tenham promovidonovas formas de legitimidade fundadas na defesa dos mais desfavorecidos e emmelhores padrões de bem-estar e justiça social para o povo, é sabido que os velhosdesígnios do Iluminismo e da ideologia social-democrata (que deram corpo a taispromessas) há muito entraram em degenerescência, dando lugar a novas cliquesdirigentes que, em pleno século XXI, recriaram o desprezo ancestral para com o povo.A diferença é que a displicência aristocrática foi substituída pela arrogância do “novo-riquismo”, ou seja, ressurge um novo “ethos” elitista, mas paradoxalmente, semverdadeira elite. A hostilidade desta nova “casta”, que alcançou o poder político ao colo do podereconómico e das redes de interesses, tornou-se insuportável para quem trabalha. Osseus tiques, os gestos e desabafos de ocasião expostos nas imagens televisivas, sãobem ilustrativos do seu absoluto desprezo pelos “de baixo”. Perante o acelerado
  3. 3. desmantelamento da classe média e o seu regresso ao rol dos pobres e precarizados, ébem provável que esteja iminente o reerguer de um novo sujeito da mudança, já não oproletariado do século passado, mas a revolta de uma grande variedade de camadassociais – mulheres e homens de todas as idades, funcionários, professores, militares,jovens precários, estudantes, artistas, pensionistas, policias, empresários,desempregados, sindicalistas, domésticas, agricultores, agentes culturais, sindicalistas,etc. –, ou seja, 38 anos depois do 25 de Abril, é de novo o Povo (com P grande) que seergue, a marcar a distância abissal que o separa da elite privilegiada.__* Investigador do Centro de Estudos Sociais e professor daFaculdade de Economia da Universidade de Coimbra

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