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Fortalezas de Bissau

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Fortalezas de Bissau

  1. 1. A primeira fortaleza de Bissau teve, como origem, um acto de pirataria de trêsnavios franceses cuja tripulação pretendeu construir, num local da embocadura do rioGeba - já então regularmente frequentado por comerciantes portugueses - um forteque lhes protegesse a feitoria e porto que ali queriam edificar. Através de ofertas ao régulo papel da região, de nome Bacampolco, conseguiramos nossos negociantes que fosse negada aos estrangeiros a pretendida edificação,sendo aqueles obrigados, pelos indígenas, a embarcar os materiais de construção quejá tinham colocado em terra. Certamente que este acontecimento foi comunicado ao Rei de Portugal, porque D.Pedro II se apressou, por intermédio do governador de Cabo Verde, a enviar ao réguloBacampolco régios presentes, que foram agradecidos por uma carta, datada de 4 deAbril de 1687, na qual também se comunicava que os portugueses poderiam, à vontade,construir no porto de Bissau uma fortaleza. Ante esta concessão, o primeiro capitão-mor de Cacheu, António Barros Bezerra, logo
  2. 2. enviou Manuel Teles, com alguns soldados e duas peças, para garantir a autoridadeportuguesa naquele local e iniciar a construção de um posto militar, que seria o núcleo deuma futura fortaleza. Para a construção do «forte e outras despesas» foram enviados, de Lisboa,6.000$000 réis, mas, ao que parece, esta quantia foi absorvida noutros gastos da Provínciade Cabo Verde e Guiné. Em Lisboa, no dia 21 de Dezembro de 1695, publicou-se um decreto autorizando oConselho Ultramarino a encarregar a Companhia de Cacheu e Cabo Verde, recém-formada,da «administração da fábrica da fortaleza de N.a S.a da Conceição de Bissau» (CHRISTIANOJOSÉ DE SENNA BARCELOS, Subsídios para a história de Cabo Verde e Guiné. II. p. 114.). Meses depois, a 7 de Março de 1696, o Rei confirmou este decreto e, a 17 do mesmomês, o Conde de Alvor, como presidente do Conselho Ultramarino, e Gaspar de Andrade,como administrador-geral da Companhia, assinaram (lbid . p. 123. ). o respectivo contrato paraa construção da fortaleza. Já, em 23 de Fevereiro de 1696, o engenheiro das fortificações do Alentejo, JoãoCoutinho, com a função de Capitão de Engenharia de Cabo Verde e Guiné, ganhando25$000 réis por mês, tinha sido nomeado para dirigir a construção de um forte em Bissau. Após uma curta paragem pela ilha de Santiago, este engenheiro chegou ao seudestino, onde, imediatamente, traçou um grandioso projecto para a fortaleza que pretendiaconstruir. Este plano não mereceu a aprovação do Capitão José Pinheiro e do Bispo D.Vitoriano. que pretendiam - certamente guiados pela experiência e conhecimento daGuiné - uma fortificação muito mais simples e modesta. Em 26 de Agosto desse ano, uns escassos dois meses após a sua chegada, morreuo engenheiro João Coutinho e, ao que parece, com uma certa satisfação do CapitãoJosé Pinheiro, pois este, num dos seus escritos, comentou que aquela morte «tinhasido uma providência, porque João Coutinho daria cabo de todos os cabedais, por querermeia Bissau por fortaleza. O Capitão José Pinheiro desenhou, então, o projecto de um forte que se limitava a umsimples quadrado abaluartado, rodeado de uma cava. Conforme Lopes de Lima (Ensaios sobre a statistica das Posessões Portuguezas, Livro I, Parte 11, p.104.), «desde 1690 a Companhia de Cacheu e Cabo Verde começou a fazer muito caso doporto de Bissau aonde em 1696 por mandado dEl-Reí D. Pedro 2.° se estabelleceu uma ,Feitoria Portugueza fortificada, e nesse mesmo tempo allí foi, levado pelo seu zeloapostolíco, o venerando Bispo D. Fr. Victoriano do Porto, o qual fez construir de pedra aIgreja Matriz de Nossa Senhora da Candelaria e o Hospicio dos Capuchos, de que já hamuito nem vestígios existem». No dia 16 de Outubro de 1696, com grande solenidade e na presença do bispo D.Vitoriano da Costa, lançou-se a primeira pedra da futura fortaleza que, como a pequeninacapela construída por Fr. José de Beque, ficava sob a protecção de N.a S.a da Conceição. Trabalhou-se, naquelas obras, com o mesmo afinco e titânico esforço que levou osportugueses de 1500 a espalharem pelo mundo os marcos indestrutíveis da sua presença -as Fortalezas de Portugal. Assim, dos terrenos lateríticos das proximidades de Bissau
  3. 3. extraiu-se a pedra, que depois foi transportada ou a dorso, de homens, ou a baste depequenos burros, ou ainda através das águas nas típicas canoas guineenses, cujo formatoainda hoje se mantém. Junto às margens do Geba fizeram-se fornos para a preparação decal, que ficava ao preço de 1$500 réis por pipa, sendo possível que - conforme se praticavana construção das fortalezas da Índia - fossem também utilizadas muitas toneladas decascas de ostras, pacientemente esmagadas e reduzidas a pó (Segundo LOPES DE LIMA, algumasdas casas de Cacheu eram «caiadas com cal dostra, que alli se fabrica bem, e sahe barata». Op. clt , p. 95. Em criouloesta cal chama-se «combé».). Ao fim de quatro meses, as obras indispensáveis da fortaleza estavam prontas e, meioano depois do lançamento da primeira pedra - em Março de 1697 - EI-Rei D. Pedro II foiinformado pelo Capitão José Pinheiro da Câmara que «a fortaleza era importante paraaquella terra, com os seus 140 pés de cada comprimento; que faz em redondeza 560 pés,com 4 baluartes com suas pontas de diamante, dois para a banda do mar e dois para aterra; cada um deles pode levar 8 peças de artilharia, fora uma cortina para o mar entre osdois baluartes, que pode levar 12 peças». Numa carta escrita um mês depois, a 17 de Abril, José Pinheiro dava a seguinte einteressante notícia (SENNA BARCELOS. Subsídios para a história de Cabo Verde e Guiné. II, p. 135.): «... a fortaleza de Sua Magestade fica em bom terreno, porque estas águas ficam já dabanda de dentro, que lhe ffirmo a V. S.a que em Africa não tem Sua Magestade outro comoella porque todas teem falta dagua e se valem de cisternas; e vendo eu que este gentionão tinha com que nos fazer mal que em tolher-nos a agua, me resolvi abrir um poço muitolargo, que quiz a minha fortuna que com quatro braças e meia achei agua com abundanciae a melhor que tem hoje Bissau para beber, isto dentro da fortaleza, que os mesmosgentios, vendo que abri agua, me pozeram de feiticeiro e ficaram com grande magoa.» Muitos anos mais tarde, quase meio século depois, em ofício de 12 de Março de 1752,Francisco Roque de Sotto Mayor, capitão-mor de Cacheu, referiu-se a esta fortificação doseguinte modo: «Era a dita fortaleza eregida em hú pequeno tezo junto ao principal porto daquellailha, regularmente feita, e neIla montadas 18 ou 20 pessas de artilharia; seguia-se afortificação de marinha, com sete ou outo baluartes, e em cada hü 4 ou 5 pessass(BERNARDlNO ANTÓNIO ÁLVARES DE ANDRADE. Planta da Praça de Bissau e Suas Adjacentes, p. 73.) Voltando à construção da fortaleza, as obras arrastaram-se por mais alguns anos,possivelmente em acabamentos e construções internas para habitação das guarnições,além dos melhoramentos que a prática aconselharia. Em Dezembro de 1697, dois patachos ingleses fundearam nas águas lodosas do Gebae pretenderam desembarcar vários produtos para transacções comerciais. O Capitão JoséPinheiro não consentiu e intimou-os a abandonarem o porto, o que foi cumprido. No entanto, este acto legítimo do Comandante da Praça de Bissau levou à primeirarevolta dos indígenas da região, que, sob a chefia de um novo régulo, chamado Incinhate,cercaram a povoação, impedindo o reabastecimento de víveres. O Capitão José Pinheiro viu-se na necessidade de pedir socorro aos moradores dasmargens do Geba e ao Capitão-mor de Cacheu, Vidigal Castanho, que, prontamente,
  4. 4. acorreu a Bissau com 92 soldados transportados em três lanchas. Contactado o régulo rebelde, segundo o relatório de Vidigal Castanho, datado de 21de Março de 1698, este provou a sua amizade a Portugal e o seu consentimento para apermanência do forte. No entanto, queria, em troca, a substituição do Capitão-mor JoséPinheiro da Câmara e que lhe fosse pago o terreno onde se construíra a fortaleza, além delhe ser garantido o livre comércio com a navegação estrangeira. É de salientar a informação do Capitão Vidigal Castanho, referindo que «a fortaleza éde pequena capacidade, feita de pedra e terra; dizem os que entendem que promete pouca
  5. 5. defesa»... Ainda nesse relatório, Vidigal Castanho informava o Rei de Portugal que a maioria dossoldados da guarnição de Bissau tinha desertado, pelo que deviam ser substituídos comurgência. De acordo com o orçamento económico referente ao ano de 1696-1697, a guarnição daPraça de Bissau seria constituída pelo Capitão-mor, um alferes ou tenente, um ajudante,um sargento, três cabos de esquadra, quarenta soldados, um tambor, um condestável edois artilheiros, além de vários indivíduos civis com funções burocráticas. Em Janeiro de 1698, sendo presentes, além do Capitão-mor José Pinheiro e docapitão-tenente João de Almeida Coimbra, os escrivães Francisco Lourenço e José Correiade Sá e o régulo Incinhate, seus acólitos e intérprete, foi lavrado, no Livro de Registo daAlfândega de Bissau, o auto da compra do terreno onde fora construída a fortaleza,adquirido pela importância de 300 barafulas, ou seja. 60$000 réis. Precisamente um mês depois desta cerimónia, um novo episódio, relacionado com ocomércio livre, provocou outra rebelião dos indígenas. O comandante de uma nau holandesa, armada com 26 peças, sob o pretexto decomerciar com os nativos da região mas com a finalidade de formar, em território sob anossa soberania, uma feitoria, fundeou nas águas do Geba. O comandante da fortalezaintimou o navio estrangeiro a levantar ferro e, como não fosse obedecido, atacou-o a tirode canhão, obrigando-o a retirar-se. No dia seguinte a fortaleza estava cercada e um emissário dos rebeldes informou oCapitão-mor que «se continuasse na sua teimosia (o régulo), derrubaria as muralhas,cortando a cabeça aos moradores», A paz só se conseguiu através de várias concessões, entre as quais a autorização delivre comércio e a substituição do Capitão-mor José Pinheiro da Câmara pelo CapitãoRodrigues de Oliveira Fonseca. O régulo Incinhate, logo que viu satisfeitas as suas pretensões, escreveu a El-Rei, em23 de Maio de 1698, agradecendo e pedindo novas concessões, que, em parte, foramatendidas, Ao iniciar-se o século XVIII, o Capitão-mor Oliveira Fonseca teve um conflito com ogerente de uma firma francesa, estabelecida em Bissau. Esta desavença foi logo exploradapelos franceses, que, alegando razões sem fundamento, pretenderam construir nasmargens do Geba uma feitoria e um forte com vistas a aniquilarem o comércio e poderioportuguês em Bissau. Assim, em 13 de Março de 1700, surgiu no porto de Bissau um navio de guerrafrancês, o Anna, ameaçando o seu comandante que desembarcaria 200 homens paragarantir a manutenção dos direitos da firma da sua nacionalidade e salvaguarda dos seusconcidadãos. A semelhante arbitrariedade retorquiu Oliveira Fonseca que impediria qualquerdesembarque e, acto contínuo, mandou que os canhões da fortaleza fossem assestadossobre o navio estrangeiro. Como um dos princípios da guerra naval daquela época era que«poderia bastar um só tiro de uma fortaleza para afundar um navio, enquanto que nem cem
  6. 6. tiros de um barco destruiriam uma fortificação», o comandante francês, ante a ameaça doscanhões portugueses, mudou de ideias. Assim, vendo que não poderia demover o CapitãoOliveira Fonseca, procurou aliciar os Indígenas para que atacassem a fortaleza. Não contou, porém, com a lealdade do régulo Incinhate, que, categoricamente, serecusou a trair a confiança que o Rei de Portugal depunha nele e nos seus súbditos. Foi este o último episódio da fortaleza de N.ª S.ª da Conceição de Bissau. Em 1707, o Capitão-mor de Cacheu, Paulo Gomes de Abreu e Lima, num relatóriosobre a Guiné - e que hoje nos parece um tanto ou quanto incompreensível - afirmava queBissau era «terra muito ambicionada pelos franceses, que nessa ocasião empregavam osmaiores esforços para ali levantarem uma fortaleza e se tal conseguissem tornar-se-iamsenhores de toda a Guiné». No entanto, apesar destas sensatas afirmações, acabava porpreconizar que a fortaleza de Bissau fosse arrasada. D. João V, embebido com o sonho das minas preciosas do Brasil, pura esimplesmente, em 5 de Dezembro de 1707, mandou demolir a fortaleza de N.ª S.ª daConceição de Bissau, o que se realizou em 1708. O Capitão-mor de Cacheu, Francisco de Sotto-Mayor, mais tarde, em 1752 (Oficio de 12de Março. Vide ÁLVARES DE ANDRADE op. cit . p. 74.), explicava a decisão de D. João V da seguintemaneira: «A causa de demolirce foram certas dífferenças que o capitão-mor desta PraçaSantos Vidigal Castanho teve com o capitão-mor da dita ilha, Rodrigo de Oliveira daFonseca, sobre materia de mais ou menos interesses nos seus negócios,» Em breves dias foi demolida a fortaleza de N.ª S,a da Conceição de Bissau, querepresentava não só 20 anos de soberania como também o sacrifício de muitas vidas deportugueses. A sua artilharia foi enviada para Cacheu, ficando abandonadas 6 peças, quese consideraram incapazes (Oficio de 12 de Março. Vide ÁLVARES DE ANDRADE op. cit . p. 74.). Assim, desapareceu a primeira fortaleza de Bissau, com grande descontentamento detodos os residentes da região, incluindo os próprios indígenas. Estes, através do seu régulo, recusaram sempre aos franceses as necessáriasautorizações para construírem, nas margens do Geba, uma feitoria e forte, alegando que«haviam dado aquele terreno ao Rei de Portugal e que não faltariam à sua palavra». Apesar da insistência francesa e da lealdade dos papéis, os membros do ConselhoUltramarino, falando em nome do Rei, afirmavam em 1718, perante um pedido para aconstrução de uma nova fortaleza, que: «Portugal não tinha meios para conservar e sustentar o presídio, e também pelainconstância dos negros e reis de Bissau, motivos por que tinha EI-Rei mandado demoli-lo.» Em 1723, só devido ao naufrágio de um navio que transportava os materiais deconstrução, é que a França não viu realizadas as suas aspirações de ter a suabandeira a flutuar aos ventos de Bissau, onde pretendia construir um forte «à vivaforça, se necessário fosse». Talvez essa a razão de o Conselho Ultramarino, poucotempo depois, ter emitido o parecer de «mandar-se reefícar em Bissau a fortaleza quenelIa houve», mas o Procurador da Fazenda contrariou a ideia, alegando «não saber
  7. 7. qual seja a utilidade que possamos tirar desta ilha» (Cf. ÁLVARES DE Ar.llRADE. ob. cit., p. 71.). Emais uma vez foi posta de parte a construção de uma nova fortificação. No mês de Abril de 1739 dois navios franceses fundearam nas águas do Geba e asua tripulação procurou, por todos os meios, captar as boas graças dos nativos parapoderem construir a tão almejada feitoria e forte. No entanto, não foram felizes e, antes de se fazerem ao mar, ameaçaram quevoltariam no ano seguinte e então, com a força dos seus canhões e das armas dosseus soldados, a bem ou a mal, construiriam uma fortaleza. Numa carta escrita ao Capítâo-mor de Cacheu - e que posteriormente chegou aoconhecimento de D. João V - o régulo de Bissau declarava que «enquanto ele fosse vivo,jamais a França teria um forte nas suas terras». Mas também, ao que parece, enquanto D.João V existisse não haveria em Bissau qualquer fortaleza de Portugal. Após a morte do régulo Incinhate, em 18 de Setembro de 1746, os franceses foramautorizados, pelos nativos, a construir, no ilhéu do Reí, uma feitoria fortificada, mas,apesar disso, El-Reí D. João V manteve a sua vontade, baseado no parecer do Procuradorda Fazenda de que «não se devia levantar de novo a fortaleza» e apoiado na informação doConselho Ultramarino de que. para a sua construção, seria «preciso mandar umengenheiro com patente de capitão-mor e promessa de que findos os trabalhos se lhedaria o governo de Cabo Verde, o que levava a excluir a ideia de uma nova fortaleza emBissau. Após a morte de D. João V, o seu sucessor, D. José I - certamente comoconsequência do ofício de 12 de Março de 1752 do Capitão-mor Francisco Roque SottoMayor - mandou, em Janeiro de 1753, uma pequena esquadra de quatro navios - N.ª S.ª daGuia e Santo António, Santa Margarida e Ventura de Amigo - sob pavilhão do Capitão demar e guerra Guilherme Kínray, embarcado na nau de guerra Nossa Senhora da Estrela,com a missão de se construir em Bissau uma fortaleza (Cf. ALVARES DE ANDRADE, ob. cit. p, 77.). Esta seria planeada pelo Capitão-engenheiro Francisco Xavier Pais de Menezes,tendo-lhe sido indicado pelo Ministro da Marinha e Ultramar que: «verá V. Mercê a dita ilha,tirará um plano della e fará o desenho da fortificação que nella se pode fazer, com.defensa, e sem muitas obras exteriores, e só assim aquellas precisas e necessárias para opoder pôr em execução quando o dito capítam-mor lhe disser que se pode executar». Quando o régulo Incinhate mostrava o maior interesse pela presença portuguesa noseu chão, o Rei D. João V opunha-se a essa ideia. Após a morte destes dois personagens,os papéis inverteram-se - o novo Rei de Portugal queria mandar edificar uma fortaleza emBissau e o novo Régulo papel de nome Palanca não queria, ou, pelo menos, não semostrava interessado. Embora contra a má vontade dos indígenas, em 17 de Fevereiro de 1753, .o réguloPalanca acabou por assinar "um auto de fidelidade a Portugal e de consentimento daconstrução de uma fortaleza, cuja primeira pedra foi lançada, com grande solenidade,nesse mesmo dia. Durante cerca de dois meses, muitas centenas de homens trabalharam afincadamentena construção da nova fortificação, lutando contra o mau clima da região e contra osconstantes atritos com os nativos e, ao que consta, nessas escaramuças morreram 9
  8. 8. europeus e, vítimas do clima, cerca de 500 indígenas e operários. A 22 de Março de 1753 as principais e indispensáveis obras de defesa estavamprontas, mas, oito anos depois, ainda se trabalhava na construção da fortaleza,desaparecendo, durante este espaço de tempo, as «pyramides com as armas reaes»enviadas de Lisboa a bordo da nau «Nossa Senhora da Estrela» e que tinham sidodesembarcadas em Bissau. Talvez que a lentidão destes trabalhos fosse motivada, pela grande mortandadedos obreiros, vitimados pelo escorbuto, paludismo e febre-amarela - a que chamavamo «vómito negro». As mortes chegaram a ultrapassar as dezenas por dia e, entre elascontou-se a do Capitão-engenheiro Pais de Menezes, que planeou e deu início àfortificação. Em 16 de Novembro de 1753 foi atribuída a primeira guarnição à fortaleza, que ficousob o comando do Capitão-mor Nicolau Pinheiro de Araújo, subordinado à capitania-morde Cacheu. O armamento atribuído nessa ocasião foi de 34 peças de artilharia - conformeSotto Mayor tinha solicitado em 1752 - que foram expedidas de Lisboa em Dezembro de1753. No entanto, em 22 de Março de 1776, o tenente António Alvares de Andrade, aosolicitar os «reparos para a artilharia que se acha descavalgada na ditta praça de Bissau»faz pressupor que as peças existentes eram as seguintes: 12 de calibre 18, 12 de calibre12, 12 de calibre 6 (todas de ferro) e 6 peças colombrinas de bronze, das quais 3 de calibre3 e as outras de calibre 6 (Cf. ÁLVARES DE ANDRADE. ob. Cit., pp. 79 e125.). Em Janeiro de 1754 a guarnição de Bissau recebeu uma leva de 50 soldadosdegredados de Cabo Verde, mas, passados quatro anos, estes estavam reduzidos a 20 - amaioria tinha morrido e os outros desertaram. Nessa ocasião, as obras concluídas em 1753 já ameaçavam ruína. Na falta de umtécnico responsável não só pela reconstrução como também pela conclusão da Fortaleza,foi nomeado Frei Manuel Vinhais Sarmento, que se limitou a mandar fazer algumas obras,provisórias e imperfeitas (CRISTIANQ BARCELOS. III. ob. Cit.,. p, 26, indica que «Frei Manuel V. Sarmento deucomeço à reconstrução da fortaleza. segundo um plano seu ».). Em 19 de Julho de 1755, o ConselhoUltramarino, baseando-se numa carta do Capitão-mor de Bissau, Nicolau de Pina Araújo,pronunciou-se que «para povoar e fortalecer aquela ilha, era necessario hum enginheiropara delinear a fortificação e com elle officiaes para executarem e gente para a guarnição». Com a data de 15 de Junho de 1757, Frei Manuel Vinhais Sarmento escreveu(Transcrita no Boletim Cultural da Guiné Portuguesa. VI (1951) 979) a seguinte carta: «... q. está isto em hü total dezamparo: as artelharias q. he a que só existe nestapraça estão arruinadas, mas não encravadas. som.te depois da morte do deffunto temos negros com gr.de ouzadía desmontado quasi todas quebrando carretas. e tirandolheas ferrages chamando lhe suas, o que tinhão principiado antes que morresse o cap.m móroutras estavam em terra desde q. sahirão p terra.» A 13 de Maio de 1758, o Capitão-mor de Cacheu (Cf. ÁLVARES DE ANDRADE. ob. cit.. p. 82.)indicava para a corte de Lisboa que a direcção das obras da fortaleza devia ser entregue aoCapitão Anastácio Domingos Pontes, pois era «sujeito em quem concorre o predicado de
  9. 9. ter bastante noticia da sciencia de fortificação e ser pratico d estes países». A situação da Fortaleza, caminhando rapidamente para uma ruína total, foi exposta ao
  10. 10. Rei D. José I, tendo, em 6 de Agosto de 1765, os moradores de Bissau solicitado aautorização para construírem uma nova fortificação a erigir «na ilha de Bissau ou no ilhéoque fica defronte». E tão confiantes estavam na anuência real, que encarregaram o Capitão-mor da ilhado Fogo, Manuel Germano da Mata - que se dizia engenheiro - de a planear, o que este fez,mas «tão irregular, que. examinada por pessoas práticas do paiz, que foram sobre ellaouvidas, se assentou que não se devia mandar executar» (Ibid . p. 83.). D. José I tomou medidas imediatas para que se abandonassem as obras em curso e,por sua resolução de 12 de Agosto de 1765, foi determinado que se construísse uma novafortaleza em Bissau. Para isso, em fins desse ano, chegou ao porto de Santiago a corveta «Nossa Senhorada Esperança» com ordem de arrebanhar, por todo o Cabo Verde e Guiné, os vadios econdenados por crimes comuns e levá-los para Bissau. Aqui, em regime de liberdade,trabalhariam nas obras da nova fortificação, recebendo um salário diário de 180 réis, alémda comida e uma ração de aguardente - na altura considerada essencial e indispensável naluta contra as febres palustres. Muitos anos mais tarde, em 13 de Abril de 1790, JoãoGomes Pereira apresentou ao Conselho Ultramarino a seguinte informação (Cí, ALVARES DEANDRADE, ob. Cit,. p. 147.): « ... (que) em 11 de Dezembro do dito ano (1765) remeti para Bissau na fragata NossaSenhora da Penha de França, e nas embarcações da Companhia que a acompanhavão com720 criminosos com as suas espadas largas e zagaias muito luzentes.» Outros escritores referem que o efectivo era formado por 270 vadios e criminosos,juntamente com 450 soldados retirados das 30 companhias que então existiam pelaProvíncia, além de 1 cirurgião, 25 cabos, 10 pedreiros e 20 carpinteiros, sem contar o chefeda construção e o seu adjunto, respectivamente João da Costa Ataíde Teive e Tenente degranadeiros Bernardino Alvares de Almada. Este pessoal teria desembarcado em Bissau no dia 26 de Dezembro, tendo sidotransportado numa esquadra de cinco navios, sob o comando de Frei Luís Caetano deCastro com o cargo de capitão de mar e guerra, constituída pela fragata Nossa Senhora daPenha de França; nau Nossa Senhora do Cabo; galera São Sebastião, corveta NossaSenhora das Necessidades e a escuna (ou corveta) Nossa Senhora da Esperança, além deum bergantim (Cf. ÁLVARES DE ANDRADE. ob. Cit., p, 87.). Com a ajuda de um milhar de indígenas, o então.sarqento-mor Manuel Germano daMata, a 30 de Dezembro de 1765, deu «princípio a cortar as árvores e mato e a limpar oplano para se lançarem as primeiras linhas» (Ibid .. p. 97.) de uma fortaleza de que ele era oautor do projecto. Pouco tempo depois, a Companhia do Grão-Pará - entidade concessionária daexploração da Província de Cabo Verde e Guiné e cujas despesas da construção dafortaleza corriam a seu risco - expressou por escrito o seu contentamento pelo «bomsucesso do princípio da fundação da fortaleza», levantada junto às margens lodosas doGeba, «a cousa de 100 passos das suas águas». Em 11 de Abril de 1766, Germano da Mata teria pretendido modificar o traçado,avisando a Companhia do Grão-Pará da «mudança que fez na planta do risco que da
  11. 11. Fortaleza levou desta corte». Imediatamente os Directores daquela Companhiaescreveram-lhe, não concordando com essa alteração, pois «verdade he q. o discursonatural nos quer persuadir q. um quadrado não póde defender bem os lados sem quatroBaluartes nos anglos; os dous Baluartes q. estão á frente do mar bem defendem essaparte; porem o baluarte, q. está só no meio do lado na frente do gentio, de q.m devemosrecear continuos assaltos, não duvidamos possão defender os dous flancos lateraes:porem sempre nos parece q. os Lados Lateraes a esses flancos ficam com fraqueza se porahi forem attacados». Calcula-se que a primeira fase das obras de construção tivesse importado em 50contos de réis, mas em vidas humanas, o custo foi elevadíssimo. Mais de 1000 operários eobreiros - incluindo o cirurgião, o boticário, capatazes, etc, - ficaram para sempresepultados no cemitério que existia perto da fortaleza. Devido a essa mortandade -atribuída ao paludismo e ao «vómito negro» - e ainda ao facto de a Companhia do Grão-Pará, que pagava os salários e custeava as despesas, ter esgotado os seus recursos, asobras diminuíram consideravelmente de ritmo, aumentando, em contrapartida, aindisciplina de operários e tropas, a ponto de ter que desembarcar uma força de marinha,sob o comando do Capitão-Tenente João da Costa Ataíde Teive, para «disciplinar a tropa eorganizar a gente de trabalho» (Cf. ÁLVARES DE ANDRADE. ob. cit., p. 94.). Segundo o tenente-coronel Germano da Mata, quatro meses após o início dostrabalhos já se levantavam «o quadrado fortificado com 67 braças de lado e 4 baluartes,que foram designados pelos nomes de Bandeira, Poana, Onça e Balança. No entanto, uma testemunha contemporânea refere-se, somente, à existência de «trêsbaluartes pequenos para terra, e as cortinas da mesma de três palmos de largo, feytas depedra e cal...» (Ibid. p. 111.).
  12. 12. Com a retirada de Ataíde Teíve, o autor do projecto, Germano da Mata. assumiu adirecção da obra, sendo ajudado pelo Capitão-mor de Cacheu, Sebastião da Cunha SottoMayor - visto que o tenente de granadeiros Alvares de Andrade fora chefiar a botica. Alémdisso, ajudava também nas obras o Capitão-cabo da Praça de Ziguinchor, Carlos deCarvalho Alvarenga. Em Agosto de 1766, Germano da Mata comunicou para Lisboa que tinha prontas a serinauguradas as principais obras defensivas e, meses depois - a 17 de Fevereiro do anoseguinte - informou que «a obra da fortaleza se vay continuando na abertura do fosso». Ao que parece, a abertura deste fosso deu origem a grandes problemas,porquanto, mais tarde, numa reclamação apresentada pelo Capitão de engenheirosCarlos Andreis, afirmava-se o seguinte(Cf. ÁLVARES DE ANDRADE, ob. cit., p. 106.): «... que por baxo de dois e tres dedos de terra se encontra huma pisarra e roxa,que seria percizo, par fazer só o foço determinado, de sessenta palmos de largo e duasbraços e meia de fundo, ao menos dous annos atendendo que no tempo das agoas senão pode trabalhar.» Mas, precisamente um ano após a informação de Germano da Mata, em 14 deFevereiro de 1768, o Capitão de mar e guerra João da Silva indicava que «os baluartesdonde se acha a artilharia montada tem dezabado muita parte dellas com as agoaspassadas, e como se não repararão, na occaslão presente pode facilmente dismontara artilharia, caindo por terra, pois os ditos baluartes não tem resistencia á calamidadedo tempo». No entanto, Germano da Mata continuava a mandar para Lisboa optimistasinformações sobre o andamento dos trabalhos, referíndo-se à conclusão da «casa dogoverno a padrasto sobre a porta de armas, os quartéis dos officiaes e da guarnição,as instalações hospitalares», além de uma pequena capela que passava a ter comoorago S. José. A consulta dos documentos da época mostra-nos, porém, uma situação muitodiferente daquela descrita por Germano da Mata. Este, ao que parece, era um indivíduo sem qualquer capacidade de trabalho,incompetente e quezilento - a ponto de um marinheiro euro, peu lhe ter dado com umapicareta na cabeça, que o ia matando, e, de outra vez, ter sido agredido pelosoperários. No entanto, alardeava profundos conhecimentos e prática, atributos essesde que era destituído. O seu imediato, capitão com exercício de engenheiro. António Carlos Andreis,era, de facto. muito competente mas, em contrapartida, um alcoólico crónico, deespírito tempestuoso. Entre Germano da Mata e Carlos Andreis havia uma rivalidade enorme e, sóquando era de todo impossível, o que um fazia o outro não desfazia ou dizia mal. Esta situação ter-se-la mantido ao longo de alguns anos, até que Germano da Mata,em 1769, foi obrigado a ir a Lisboa justificar-se dos seus trabalhos, tendo conseguido,graças a um enorme favoritismo e protecção, juntamente com a imensa propaganda quefazia de si próprio, obter uma alta recompensa pelos seus trabalhos na edificação da
  13. 13. fortaleza de São José de Bissau. Como consequência, o Capitão Carlos Andreis obteve, por decreto de 6 de Novembrode 1766, o desterro para a ilha de Santiago, donde saiu trinta anos depois, sendo restituídoà liberdade, ao seu soldo e às honras do seu posto por despacho régio de 27 de Outubrode 1799, isto é, quando já estava às portas da morte. Assim laureou-se um incompetente e desprezou-se um técnico de certo valor, numaaltura em que a Guiné tanto precisava de homens válidos. O Governador Sotto Mayor, numofício datado de 3 de Junho de 1769, dirigido ao Ministro da Marinha e Ultramar criticaabertamente a acção de Germano da Mata, referindo que a fortaleza «se achava irregularno que respeita aos terraplenos dos baluartes e cortinas, porque achando-se os ditosdoies baluartes fronteyros à campanha em altura tão proporcionada, que ficam os tiros daspessas de artilharia orizontaes à campanha, e em algumas partes ainda ficão mais baixosdo que a mesma campanha ... e nesta forma se achão os ditos doies baluartes do mar comos de campanha, é trez cortinas a ellas contíguas, que qualquer embarcação do meyo doporto as domina, como tambem os ditos baluartes», concluindo por responsabilizar o autordo projecto e director das obras de edificação «deste tão grande descuido achar-se agoraesta fortaleza por todos os lados arruinada. dezabando por húa e outra parte» (Cf.BERNARDINO ÁLVARES DE ANDRADE. P/anta da Praça de Bissau e Suas Adjacentes. Pp. 107 e seguintes.). Aliás a planta da fortaleza de Bissau também não foi muito do agrado do Marquês dePombal, que, entre várias coisas, estranhou a falta de canhoneiras, pois Germano da Mataentendera ser «mais fácil laborar com artilharia por cima dos parapeitos para todas aspartes». O primeiro documento que alude à conclusão da fortaleza de São José de Bissau édatado de 30 de Novembro de 1773. No entanto, jà em 10 de Maio do mesmo ano a Junta deAdministração da Companhia Geral de Grão-Pará e Maranhão tinha providenciado para odespedimento dos operários e demais obreiros, além de ter proposto a respectivaguarnição. Esta foi nomeada por decreto real de 28 de Novembro de 1774, que era doseguinte teor: «Relação dos officiaes que Sua Magestade he servido nomear para guarnição daPraça de Bíssao. Para sargento mor da dita Praça o capitão della Luiz da Silva Cardozo. Para ajudante da mesma, o cadette do regimento de Setuval Antonio de Braun. Para capitão da primeira Companhia de infantaria da guarnição da dita Praça o cadettedo regimento de Setuval José Lufz de Braun. Para tenente da mesma companhia Bernardino Antonio Alvares da Andrade. Para alferes da mesma o sargento José Joaquim Pereira. Para capitão da segunda companhia de infantaria da guarnição da dita Praça Luiz daVeiga Barros. Para tenente da dita companhia Domingos da Veiga.»
  14. 14. Assim nasceu a fortaleza de São José de Bissau. cujo custo de construção atingiu omontante de 147690$763 réis. No entanto. para que se mantivesse de pé durante os seusdois séculos de uma história mais ou menos agitada. foi necessário. quase de 50 em 50anos, reconstruí-la de novo. A guarnição da fortaleza era da ordem dos 250 homens, distribuídos por duascompanhias de Infantaria e uma de Artilharia a 80 homens cada. No entanto, os efectivosandavam à volta de 200 homens, sendo estes, na maioria, desterrados ou mesmocriminosos, e, no dizer de Lopes de Lima (Ensaios sobre a statistica das Possessões Porluguezas. livro I.cap. VI, p. 126), «mal vestidos, mal nutridos, mal disciplinados, enervados pelo vício, e pelasdoenças inseparaveis delle, que alli ha longos annos vegetam languidamente, antes paraenvergonhar, que para defender a Bandeira Portugueza». Antes de embarcar para a Guiné, a 22 de Março de 1776, o Tenente Alvares deAndrade deu ao Conselho Ultramarino um parecer sobre a situação da fortaleza de Bissau(ÁLVARES DE ANDRADE. ob. Cit., pp. 79 e 125.), ao qual lhe juntou uma «Relação de que he maisnecessario para a praça de S. José de Bissau pello que pertence á artilharia e muniçõespara a infantaria». Desta relação constava que eram necessárias as seguintes peças de artilharia erespectivos «prettences»: «16 Pessas de artelharia, de 24 ou 36, comlombrinas 8 ditas de dezoito do mesmo género 16 ditas de nove 4 Pessas píquenas para sahirem ao campo. Bailas de 3. 6. 9. 12. 18. 24 ou 36 Díttas meudas para ce empinharem Breu e pó de pedra para se fazerem as pinhas e curdel de piam Ferro velho para a mitralha Algumas bailas emcadiadas dos sobreditos calibres Algumas palanquettas.» Entretanto, a fortaleza de S. José de Bissau continuava a desmoronar-se. De um relatório de Dezembro de 1777 constava que «... estava completamenteacabada... porém os reparos estão arruinados». No ano seguinte, em 2 de Novembro, oCapitão-mor de Cacheu, António Vaz de Araújo, escrevia que «a fortaleza de Bissau he depedra e cal, tem quatro baluartes, toda mal fabricada, e de pouca duração, e só humpedaço que fez o engenheiro António Félix de Amaral está bom; o mais é qualquerparede»... São raras as descrições sobre a velha fortaleza de São José de Bissau onde nãoconstem alusões que a mesma está em ruínas, e são vários os relatórios que aludem aimportantes obras de restauro e sem os quais as suas muralhas e outras edificações ter-se-iam desmoronado. A vida da fortaleza, quase se pode dizer que até aos nossos dias, decorreu entreamotinações da sua guarnição e obras de restauro. A primeira insubordinação deu-se em 1783, tendo o Comandante da Praça CapitãoJosé António Pinto, fugido para algures do Geba, conseguindo assim salvar a vida. O seu
  15. 15. substituto foí o Capitão João das Neves Leão, que tomou posse em 1799, mas poucotempo depois abandonava aquele cargo, seguindo-se-lhe o Capitão António Cardoso Faria,que, em 1803, foi envenenado pela soldadesca. Em princípios de 1805 foi nomeado paracomandante da capitania de Bissau e da Praça Manuel Pinto Gouveia, que trouxe uma novaguarnição, constituída por 150 criminosos retirados da cadeia do Limoeiro, em Lisboa, e 80vadios e condenados por crimes comuns trazidos de Cabo Verde, os quais, conformeescreveu Cristiano Barcelos (Ob. cit.. III. P. 326.), juntamente com os «230 soldadosindisciplinados em Bissau formavam um Batalhão de 450 desordeiros». Esta escolha fora motivada pela razão de não haver soldados que, voluntariamente oupor obrigação, quisessem ir prestar serviço na Guiné, nomeadamente em Bissau. O facto de, desde 1807, os soldos serem pagos em fazendas - e mesmo assim commuito atraso - originava constantes protestos das guarnições militares. Alegando essa razão, em 14 de Abril de 1811, a tropa da fortaleza sublevou-se contrao seu comandante, Capitão António Cardoso Figueiredo, exigindo-lhe o pagamento dosseus soldos, «pois tinham fome e andavam rotos e descalços». O Governador de Cacheu teve que arranjar um empréstimo - feito a título particular,pois não o conseguiu em nome do Governo - para pagar aos sublevados, alguns dos quaisjá não recebiam há quatro anos, aliás como sucedia ao próprio Governador. Ao que parece, esta intentona fora fomentada pelo comerciante Tomás da CostaRibeiro, que, em 12 de Julho desse ano, conseguiu originar nova revolta. Cristiano Barcelos (Ibid., p. 173. Consulte-se também a IV parte, p. 72, onde o mesmo autor escreveu oseguinte: «Caetano José Nozolinl reuniu 60 manjacos e com estes cahíu sobre os soldados indisciplinados, prendendo-os e restituindo à liberdade o Governador e offíclaes, e assim se restabeleceu o sossego em Bíssau»,) fez oseguinte descrição da fortaleza de Bissau, referente ao ano de 1821: « ... tinha os muros mui damnificados; em mau estado e telhado do quartel dosoffícíaes e em ruínas o dos soldados, vivendo estes em improvisadas barracas queconstruíram de paus e esteiras, estando os muros da fortaleza cheios de furos querecebiam os paus; nestas habitações viviam os soldados com suas mulheres gentias,contando alguns seis mulheres; não havia hospital, nem médico; a egreja, que outrora foracoberta de telha, estava coberta com palha e as paredes ameaçando ruínas; a artilhariaconstava de cincoenta peças, estando onze desmontadas, de calibre 9, 12 e 18; cavalgadasem reparos novos dez, e as restantes vinte e nove, de vários calibres, montadas emreparos velhos; os soldados no effectivo de cento e setenta e sete homens formavam trêscompanhias de infantaria ... » Dez anos depois, em 16 de Junho de 1831, na ilha da Boa Vista, Manuel AntónioMartins, na sua Memória (Transcrita no Boletim Cultural da Guiné Portuguesa. XIII (1958) 206.), faz aseguinte descrição da fortaleza de São José de Bissau: «Tem huma cappela dentro da fortaleza, aonde hum padre, com o nome de vigário, vaicelebrar o Santo Sacrifício da Missa aos domingos e dias santos, a que assiste a poucatropa da praça, e todos os que da povoação querem entrar nesses dias, ou para a ouvir, oucom esse pretexto, prática esta bem estranha, e que há-de resultar em grande prejuízo. O vigário he mandado de Cabo Verde para allí, e geralmente escolhido entre os maos
  16. 16. ... como espécie de castigo. Tem a praça de Bissau 64 peças em número, famoza artilharia, muita parte della decalibre 18, reforçadas em 24, algumas de 12, e poucas de 6: e em o numero de 64 entram 6
  17. 17. comlumbrinas de bronze de calibre 9, e duas de campanha de 6. De toda esta artilharia, não se acha huma só peça capazmente montada para dar fogohuma hora succesiva, e assim mesmo a maior parte por terra desmontada ou cahida para abanda com parte da carreta, excepto todas as de bronze, que nem signal de carretas tem. Enquanto ao armamento de tropa, entra em questão de duvida haver doze armasperfeitas, ou capazes de cada huma dar dous tiros.» Devido ao estado em que se encontrava a fortaleza, não é para admirar que, nosprincípios de 1822, se tivesse dado, em pleno porto de Bissau, um ultraje à soberaniaportuguesa, e que Senna Barcelos (Ob. Cit., III, p. 278.) descreve da seguinte maneira: «Em 25 de fevereiro de 1822 communicaram os membros da Junta da Praça de S.José aos da Praia o ataque que um batelão e dois escaleres, com tripulantes armadose com peças de artilharia, deram no porto da mesma Praça à escuna portuguezaConde de ViIla Flor, alli fundeada, na noite de 21 daquelle mes... ... Estavam todos já a bordo e a escuna devia deixar esse porto em que foiatacada por aquellas embarcações, que ficaram atracadas ao costado da refferidaescuna, ao abrigo dos tiros da Praça; cortaram-lhe a amarra e fizeram-se de vela,sendo conduzida para o canal do Geba, onde estava fundeada uma fragata inglezacom quarenta e oito peças. Da Praça, de que era capitão-mor João Hygino CurvoSemedo, não foi possivel socorrel-a por falta de embarcações e pela impossibilidadede se fazerem tiros, que poderíam metter no fundo a escuna, morrendo não só osinglezes, mas os portuguezes... Parece que esta fragata fora a mesma que na manhã de 4 de Março de 1823mandara cinco lanchões bem armados atacar a escuna franceza denominada africana,tentando picar-lhe a amarra. Da Praça acudiram a tempo, fugindo os lanchões debaixode um nutrido fogo mandado fazer pelo capitão-mor interino Marcelino Pinto daFonseca. A fragata acima referida era a LOwen Genndower.» Em 7 de Abril de 1823 foi nomeado como sarqento-mor da fortaleza o CapitãoMarcelino Pinto da Fonseca e, na ocasião, a guarnição foi reforçada com 45 soldados e76 degredados da ilha de Santiago. A falta de pagamento de vencimentos e a má qualidade de rancho originaram,em Maio de 1826, nova revolta, que só foi dominada quando fundeou no porto deBissau uma fragata inglesa e surgiu um destacamento vindo de Geba com 50soldados. Os rebeldes, perante as imposições da força da ordem libertaram o capitão-mor ealguns deles entregaram-se, mas a maioria fugiu para o mato. No rescaldo darevolução, ficaram presos 5 oficiais e 38 soldados, os quais, mais tarde, foramjulgados em tribunal militar e condenados.
  18. 18. Em 1 de Maio de 1835, registou-se mais uma insubordinação militar. Os soldados sublevaram-se, prenderam os seus superiores e promoveram-se aoficiais. Um deles, António Picadas, foi nomeado Governador, e um outro foipromovido a general! Foi o então capitão Caetano Nozolíni que conseguiu persuadiros revoltosos a restituírem à liberdade os seus oliciais e a desistirem dos seuspropósitos. Assim, «em 7 de Maio, para que o sossego se conseguisse na Praça,houve unia convenção entre o governador e os amotinados, fazendo-se umjuramento. pelo qual reciprocamente se obrigaram a esquecer o passado, sendo estegracioso juramento deferido pelo capelão» (CRISTIANO BARCELOS. ob. cit., III, p. 349.). No decorrer dos anos, a fortaleza foi-se arruinando e, em Dezembro de 1837, oseu poder defensivo era muito reduzido. Ante a ameaça de um ataque dos papéis, o Governador Joaquim António da Mata,após ter ouvido em conselho todas as entidades da terra - civis, militares eeclesiásticas - e com o apoio unânime, mandou ao comandante de uma corvetafrancesa, surta no Geba, um patético ofício em que pedia protecção. O oficial francês limitou-se a devolver o ofício e nem sequer lhe deu resposta. O almejado auxílio foi então solicitado ao governo da Gâmbia, que, segundoparece, também não ligou importância ao pedido. Coincidência curiosa. Nessa ocasião, o Governador de Cabo Verde e Guiné,coronel Joaquim Pereira Marinho, sem que tivesse tido conhecimento do que sepassava em Bissau, escrevia para Lisboa (lbid., IV, p.158.), aludindo que as tropas daGuiné «eram indisciplinadas e bárbaras... caindo aqueles estabelecimentos naanarquia mais deshonrosa e de maior miséria...» o que, no caso da fortaleza de Bissau,era absolutamente verdadeiro. Aliás, este governador, tendo estado desterrado,voluntariamente, em Bissau no ano de 1836, escreveu que encontrara «a Praça emestado miserável, e que a história dos últimos governadores de Bissau e Cacheu é amais deshonrosa. AlIi tudo tem sido roubado, até pedras das plataformas; orevestimento de contra-escarpa também fora arrancado para construções de casasdos vizinhos;... a artilharia desmontada e os ouvidos das peças alegradas pelopessimo tratamento que tem tido...» Em 1840 a fortaleza contava 70 soldados (pouco disciplinados) e estava armadacom 22 peças de artilharia capazes de fazer fogo (CRISTIANO BARCELOS. em ob. cit., IV, p. 271,indica que nove peças estavam montadas em reparos de ferro.). Mais ou menos nessa ocasião, Lopesde Lima (em ob. cit.,Livro I, Parte II, p. 103) fez a seguinte descrição: «Praça de guerra de S. José de Bissau - Reduto quadrado de boa cantaria, flanqueadopor quatro Baluartes. tendo cem passos de comprido cada uma das faces, cercado todo deboa cava (que está servindo para hortas) guarnecido com quarenta e tres Peças de ferro enove de bronze, de diversos calibres (quase metade dellas desmontadas por falta dereparos em paíz aonde ha tão excelentes madeiras de graça). Dentro da Praça tem Quartel para o Governador - bons Quarteis para duzentossoldados, - e para os fficiaes correspondentes; -Igreja - Alfandega; - e Grandes Armazens; -tudo em pedra, coberto de telha; mas carecendo de grandes concertos até as muralhasque tem quarenta pés de altura (apesar de apparecer todos os annos no Orçamento uma
  19. 19. verba de concertos, que não se vêem); acha-se tambem dentro no recinto um poço seccodesde tempo immemorial, sendo aliás de primeira necessidade, que dentro na Fortalezahaja um poço, ou cisterna de agoa potavel para a guarnição;... A fortaleza dista uns cempassos da borda da praia, tendo em frente da porta principal dois grandes Poílões, queservem de marca aos navios, que vão dar fundo.» Segundo o mesmo autor, a guarnição de Bissau, em 31 de Dezembro de 1843, era deum oficial superior, comandante da Praça, dois tenentes e dois alferes, um primeirosargento, quatro segundos sargentos, dois tambores, cinco cabos, três anspeçadas(praças para impedimentos pessoais), cinquenta e seis soldados, num total de setenta ecinco homens de força arregimentada de 1ª linha. Quando, em Novembro de 1840, se procedia à reconstrução dos baluartes, queestavam em vias de desmoronamento, registou-se em Bissau, num armazém civil deaguardente e pólvora, uma violenta explosão que provocou a queda da «casa do governo»,da capela e de mais um ou outro edifício da fortaleza (CRISTIANO BARCELOS.. ob. cit .. IV. p. 273.). Em Novembro de 1842, tendo sido determinado aos indígenas de Bissau que «não seconcertassem nem se levantassem mais casas junto das muralhas da fortaleza», estesnegaram-se a cumprir essa ordem, e, segundo o relatório do governador A. José Torres,datado de 7 de Junho de 1843(Ibid . pp. 314-315.), «emboscados pelas casas fezeram osgrumetes fogo para a Praça, que rompeu com o da artilheria, obrigando-os a retirar. Até aodia 4 de Janeiro atacavam todos os dias a Praça, sendo repellidos... No dia 5 mandaram,como parlamentarios, dois homens grandes da Povoação, para tratarem da paz...» Em 4 de Janeiro de 1844 desembarcou em Bissau um Conselho de Investigação(Era constituído pelo comandante do Brigue «Vouga», Francisco Assis da Silva, Chefe do Estado-maior daProvíncia Tenente Rosado de Faria e pelo escrivão da Junta de Fazenda de Cabo Verde, Evaristo de Almeida.)para apreciar os casos de indisciplina da guarnição. Segundo o relatório que esteConselho elaborou, no tocante a instalações, «os aquartelamentos estavam emruínas, e que os soldados haviam construído na esplanada mais de 40 palhotas, ondeviviam com as suas mulheres, ou exerciam a profissão de comerciantes. Além disso,os muros da fortaleza estavam sem reboco e o fosso entupido e muitas palhotas dapopulação avançavam até junto das muralhas, impedindo o emprego da artilharia». Pretendeu-se então pôr em vigor varias medidas tendentes a não só impedir aconstrução de mais palhotas no interior da fortificação, como também a desafrontar assuas muralhas. Mas, precisamente cem anos depois, a situação ainda se mantinha!Aliás, já em Abril de 1842 tinha sido recebidas em Bissau instruções do governador-geral para que se «abrisse o fosso e a ponte levadiça na parte que dá acesso à Praça;que (se) evitasse a construção de novas casas junto à mesma Praça que pudesseprejudicar a sua defesa» (CRISTIANO BARCELOS, ob. cit .. IV. p. 280. Na ocasião foi dada ordem aogovernador de Bissau que «diligenciasse ajuntar materiais para se construir no ilhéu do Rei o forte que se mostra naplanta levantada pelo tenente de engenheiros António Maria Fontes Pereira de MeIo». Cf. C. BARCELOS. ob. cit., IV, p.280.). Foi a revolta dos papéis e grumetes de 1844 - e que durou poucos meses: de 11de Setembro a 29 de Dezembro - que originou a construção de uma «palissada,protegida interiormente por uma parede de taipa», cercando parte de Bissau, ou seja,
  20. 20. ligando a fortaleza ao pequeno forte do Pigiguiti, também em construção e formadopor um semibaluarte, onde se montaram velhas peças de artilharia. Ao que parece, duas destas peças foram, já em nossos dias, levadas para juntodo Museu de Bissau, ficando a ladear a porta principal do edifício; uma outra tevediferente serventia: foi enterrada na avenida marginal, junto ao cais do Pigiguiti,ficando só com o cascavel, a faixa e parte da culatra de fora, para servir de cabeço deamarração. É possível que as restantes tivessem fim ainda mais inglório. Foi tal o interesse dos habitantes de Bissau na construção da «muralha», que selevantou junto à palissada, que, segundo Cristiano Barcelos, «até as senhorasrivalizavam com os homens, transportando ellas também pedra e barro para essaconstrução da muralha». Para os papéis a revolta terminou três meses depois da sua eclosão, numacerimónia realizada na esplanada da fortaleza e que se caracterizou pela suaoriginalidade(Consulte-se, para maior desenvolvimento sobre esta rebelião dos indígenas, C. BARCELOS. ob. dt ..IV, pp. 25 a 38.). Seguidamente, os assistentes a semelhante cerimónia beberam aquela mixórdiae, segundo as crenças indígenas - pelos vistos também perfiIhadas pelos europeus - apaz ficaria feita e manter-se-ía por muitos e muitos anos. Mas, ao que parece, ou à mistura faltaram alguns ingredientes ou nem todos os
  21. 21. Num misto de religiosidade e de paganismo, um sacerdote cristão e umasacerdotisa (??) indígena, chamada Balobeira, benzeram uma bacia feita da casca deuma enorme cabaça, onde tinham sido postos aguardente, balas, pólvora e outrosamuletos nativos. Seguidamente os assistentes a semelhante cferimónia beberam aquela mixórdiae, segundo as crenças indígenas – pelos vistos também perfilhadas pelos europeus –a paz ficaria feita e manter-se-ia por muitos e muitos anos. Mas ao que parece, ou à mistura faltaram alguns ingredientes ou nem todos osassistentes cumpriram na íntegra todo o ritual, e o resultado foi que, passados unsquatro meses, a paz já tinha desaparecido da região de Bissau. Em Maio de 1845, a guerra estava generalizada a toda a ilha, e os indígenasiçavam a bandeira francesa, salvando-a com tiros de peças (roubadas nos nossosfortes). O gentio pretendeu, na ocasião, destruir a recente palissada de Bíssau, e sóperante a ameaça dos canhões da fortaleza e do brigue Vouga é que desistiram dassuas intenções. No ano seguinte celebrou-se um tratado de paz com os papéis e grumetes - quenão duraria muito tempo, como era habitual - e adquiriu-se o porto de Bandim. Alémdisso, registou-se, ainda em 1846, a conclusão do pequeno forte do Pigiguiti,constituído por um simples reduto quadrado: feito a pedra e cal, em que cada ladotinha cerca de 15 metros, sendo o do lado de terra rasgado num amplo acesso. Em 7de Abril de 1846 o tenente-coronel Nozolini enviou ao governador-geral de Cabo Verdee Guiné o seguinte ofício: «Participo a V. Ex.ª que o forte que offereci fazer no sítio de Pigiguití se achaquasi prompto, tudo de pedra e cal com casa para a guarda e arrecadação dasmunições de guerra; no dia 1 de Maio pretendo arvorar alli a bandeira nacional e levarpara ali duas peças de artilharia. V. Ex.ª ordenará o nome que quer se ponha ao ditoforte» (Em CRISTIANO BARCELOS, ob. cit., p. 73.). Este forte devia-se aos esforços do tenente-coronel Caetano NozoIini (Este oficiaInasceu em 1801 na ilha do Fogo e morreu em 22 de Julho de 1850 na Vila da Praia. Assentou praça em 1 de Maiode 1816, tendo sido promovido: a alferes em 1816; tenente em 1823; capitão em 1825; major em 1837; graduado emtenente-coronel em 1842 e promovido a este posto em 1843. Possuía os hábitos de Aviz e da Conceição.), quehá muito estava radicado em Bissau como importante homem de negócios, tendoprestado relevantes serviços à Guiné, razão por que foi proposta para esta fortificação onome deste oficial, o que não foi aceite pela corte de Lisboa, por motivos políticos. No dia 7 de Abril de 1845 o capitão de artilharia Tavares de Almeida, com «14 artistasentre carpinteiros de banco e de machado, pedreiros e canteiros», iniciou o trabalho para aconstrução de um forte no Ilhéu do Rei. Depois de ter sido aberto um fosso e construídauma face dos redutos, as obras foram, a 16 de Maio, interrompidas e nunca maiscontinuaram. No início de 1847, começou-se a construir, dentro da fortaleza, um novo quartel,substituindo as antigas edificações, que estavam completamente em ruínas. A falta deverbas, porém, fez interromper as obras, que só foram concluídas mais tarde, em 1851,
  22. 22. graças a dádivas do Governador Major Lobo de Ávila, de Nicolau Monteiro Macedo e de seuirmão João Monteiro Macedo. além de mais alguns comerciantes. A 5 de Julho de 1853, a guarnição da fortaleza, por um motivo fútil, revoltou-se. OGovernador interino, Major Maria Morais, na impossibilidade de dominar a rebelião, pediusocorro a um brigue francês, de nome Pellimure, sob o comando do Capitão AugustoBosse. Uma força de marinheiros franceses desembarcou e após ter levado os revoltosos asubmeterem-se ocupou, por um escasso mês, a fortaleza de S. José, enquanto seaguardava a chegada do vapor Mindelo, trazendo de Lisboa um contingente de tropas. Durante a estadia dos franceses em Bissau, o Comandante Bosse mandou içar a suabandeira na secular fortaleza, mas, ante a oposição de todos os portugueses, militares ecivis, teve que desistir da sua ideia. Como consequência da revolta da guarnição da fortaleza, faleceu, no recontro com osrevoltosos, o tenente da Marinha Imperial de França Gillardaie. O seu corpo ficousepultado à entrada da capela da Praça de S. José de Bissau e, mais tarde, a viúva daqueleoficial solicitou a anuência do Governo Português para que fosse colocada uma pedra,simples mas durável, sobre a campa do seu marido. Ao que parece, este tão justo e humano pedido nunca se concretizou, pois nãoencontramos, nem consta da tradição popular, qualquer alusão à existência de algumalage sepulcral na velha fortaleza, e não há, em todo o recinto da sua esplanada, a maispequena memória que assinale aquela sepultura. No dia 26 de Abril de 1859 morreu na fortaleza de Bissau o grande português eguineense Honório Barreto, na ocasião governador da Guiné, por decreto de 30 deNovembro de 1858 (Cf. JAIME WALTER, Honório Pereira Barreto, memória n.º 5 do Centro de Estudos da GuinéPortuguesa, Bissau, 1947.). Hoje, nem uma singela placa assinala tão infausto acontecimento e recorda a memóriade um dos mais ilustres governadores desta Província - que tanto pugilou por tudo quantodizia respeito à Guiné e sua soberania portuguesa - e que teve um especial interesse pelafortaleza de São José de Bissau, mandando restaurar as suas velhas muralhas e melhorar asua artilharia, além de lhe ter dedicado, ao longo da sua vida política, várias referências edescrições, uma das quais na Memória (HONÓRIO BARRETO. Memória sobre o estado actual daSenegâmbia Portuguesa, escrita em Cacheu em 1842 e publicada em Lisboa em 1843.) que publicou em Lisboae que, segundo um seu biógrafo (JAIME WALTER. ob. cit., p. 29.), é um «livro modelo de verdade epatriotismo, e ainda de actualidade flagrante». Da referida memória transcrevem-se as seguintes palavras:«Bissau é uma praça situada na Ilha deste nome. e construída segundo o systema deVauban; mas não foi acabada. Não tem obras algumas exteriores, á excepção dosfossos já quasi entulhados, e aonde se planta algodão, milho, e indigo. Teve contraescarpa mas parece que ella e as lages das plataformas foram arrancadas para sefazerem algumas casas dos Particulares. - Dentro ha os edifícios seguintes: - OQuartel da tropa, que está quasi a cair, e por isso a maior parte dos soldados moramem palhoças; - o indecente quartel dos Offíciais, aonde chove como na rua; - o arrui-
  23. 23. nado armazem do Governo; - e a pequena, e destelhada Capella com invocação de S.José, que é o Orago da Praça. O Governador mora no quartel dos Officíais com unsquartos pequenos, e ridiculos. Deixou-se arruinar o quartel do Governo, que não era lámuito boa cousa, e que uma explosão de pólvora apenas destelhou, e lhe abaloualgumas paredes podia então ser composto com pouca despeza. Até 1912, segundo Senna Barcelos, estas nove peças - cujos reparos tinham sidoadquiridos por Honório Barreto, em 1837, ao governador da Gâmbia - eram as únicasda fortaleza de S. José de Bissau que podiam fazer fogo. Pouco depois da morte de Honório Barreto - que foi sentida em toda a Guiné - acidade de Bissau foi visitada por um diplomata e escritor, Francisco Travassos Valdez,que fez a seguinte descrição da fortaleza de S. José (ln Africa Occidenlal. p. 313.): «A praça de S. José de Bissau, com os seus poílões (erio exdendron anfractorum),árvores gigantescas que se erguem com magestade nos quatro baluartes, e que osabrigam com a sua sombra, sendo de taes dimensões que uma dellas tem 18 metrosde perimetro na maior grossura, está situada na foz do rio Geba, e foi construida noanno de 1766, reinando el-reí D. José I. Até 1912, segundo Senna Barcelos, estas nove peças - cujos reparos tinham sidoadquiridos por Honório Barreto, em 1837, ao governador da Gâmbia - eram as únicasda fortaleza de S. José de Bissau que podiam fazer fogo. Pouco depois da morte de Honório Barreto - que foi sentida em toda a Guiné - acidade de Bissau foi visitada por um diplomata e escritor, Francisco Travassos Valdez,que fez a seguinte descrição da fortaleza de S. José (ln Africa Occidenlal. p. 313.): «A praça de S. José de Bissau, com os seus poílões (erio exdendron anfractorum),árvores gigantescas que se erguem com magestade nos quatro baluartes, e que osabrigam com a sua sombra, sendo de taes dimensões que uma dellas tem 18 metrosde perimetro na maior grossura, está situada na foz do rio Geba, e foi construida noanno de 1766, reinando el-reí D. José I. Até 1912, segundo Senna Barcelos, estas nove peças - cujos reparos tinham sidoadquiridos por Honório Barreto, em 1837, ao governador da Gâmbia - eram as únicasda fortaleza de S. José de Bissau que podiam fazer fogo. Pouco depois da morte de Honório Barreto - que foi sentida em toda a Guiné - acidade de Bissau foi visitada por um diplomata e escritor, Francisco Travassos Valdez,que fez a seguinte descrição da fortaleza de S. José (ln Africa Occidenlal. p. 313.): «A praça de S. José de Bissau, com os seus poílões (erio exdendron anfractorum),árvores gigantescas que se erguem com magestade nos quatro baluartes, e que osabrigam com a sua sombra, sendo de taes dimensões que uma dellas tem 18 metrosde perimetro na maior grossura, está situada na foz do rio Geba, e foi construida noanno de 1766, reinando el-reí D. José I. Do seu princípio teve alojamento para o governador, bons quarteis para 200homens e officíaes correspondentes, igreja da invocação de S. José, alfandega,grandes armazéns, e um poço com água potável. Mas depois de tudo isto feito comgrossos capitaes, pela necessidade que houve de conduzir de Lisboa muitos operários
  24. 24. e grande parte dos materíaes, bem como os vasos de guerra contra o gentio papel ebalanta, e para proteger a edificação da praça, que referem escríptores antigos custoua vida a mais de 2 000 portugueses, chegou este estabelecimento a uma decadênciatal que ainda ha bem pouco tempo só lhe restava um casarão construido de pedra ebarro, aonde o governador e officiaes estavam pessimamente alojados e nas peiorescondições higienicas, um quartel para soldados quasi em ruínas e em grande partedescoberto, uma mesquinha capella, algumas miseraveis barracas cobertas de palha,destinadas ás mulheres dos soldados, e um poço cheio de entulho! Ultimamente porém, além de se estabelecer uma nova tarifa para os soldos dosofficiaes da provincia de Cabo Verde, destacados na Guiné portugueza, dando-se-lhesde augmento o equívalente á metade dos seus vencimentos, têm tido certo incrementoas obras militares. O governador geral Fortunato José Barreiros ordenou que se procedesse áreparação da forte do Pigiguiti, da tabanca e da palissada, e auctorizou a construçãode uma parede (guarda fogo) no paiol da pólvora. Sob a direcção do activo e íntelligente governador de Guiné, Antonio CandídoZagallo, reconstruiu-se o quartel militar, comprehendendo alojamentos para ossoldados e officiaes inferiores, arrecadação e cozinha, e começaram-se também asobras para a reconstrução da casa de residencia dos governadores, cujo madeira-mento foi offerecido gratuitamente pello fallecido commendador Honorio PereiraBarreto. Considerada em si, aquelIa praça, formada por quatro frentes abaluartadas,traçadas sobre um quadrado de 100 metros aproxímadamente de lado, com muralhasde 10 a 12 palmos de elevação sobre o fosso que a circunda, não passa de umapequena povoação mal alinhada, com algumas casas palhoças, outras de barro, e bempoucas de solida construção. Tem por limites nas duas extremidades de ENO e SSO,na primeira, uma palissada, na segunda uma tabanca, que ambas fecham a fortificaçãoque a defende, e lhe fica superior pelo lado do N; ao NO, serve-lhe de limite o rio deBíssau.» Quase no final do século XIX, em Fevereiro de 1890, os papéis e qrumetes deBissau rebelaram-se e, a 22 desse mês, atacaram a povoação, tendo sido repelidos. Aluta prosseguiu até Março de 1892, tendo custado a Portugal a vida de muitos dos seusmilitares, dos quais dois capitães, um tenente e um alferes. Em Dezembro de 1893 os papéis recomeçaram a guerra, mas no espaço de algunsmeses foram subjugados, em parte devido aos vários disparos dos canhões dafortaleza, em parte devido ao revés que sofreram quando, a 7 de Dezembro, atacaramBissau e foram repelidos. Em 28 de Novembro de 1893 o gentio de Bissau assassinou, não muito longe dosmuros da fortaleza, um civil, natural de Cabo Verde, fornecedor de pão e de génerospara o exército. Seguidamente os papéis e grumetes da ilha de Bissau sublevaram-se. Sendo, por
  25. 25. portaria n.º 127 de 1 de Dezembro, declarado o estado de guerra e autorizado «obombardeamento do interior da praça para fora da mesma contra os seus habitantes»() Em Revista Militar, ano de 1897, p. 518.). Da fortaleza foram efectuados muitos disparos «dirigidos para as differentespartes da ilha, tanto com as peças de artilharia como com as espingardas Snyder»,parecendo então que a rebelião tinha si sufocada. No entanto,. os nativos, dias depois,atacaram com violência a cidade de Bissau, sendo a acção descrita (Alferes MIGUELANTÓNIO PIMENTEL, A guerra de Bissau em 1894, in Revista Militar, ano de 1897.) por um oficial, que tomouparte activa na defesa, da seguinte maneira: «No dia 7 de Dezembro, seriam cinco horas da manhã, quando a fortaleza foisurprehendída pelo inimigo em numero provavel de 3 000 homens (papeis e grumetes), quedurante a noite anterior, por um qualquer descuido da parte da guarnição da praça efortaleza, se haviam aproximado das muralhas encobertos com os tarafes (matto), a umadistancia de 50 metros, pouco mais ou menos e entre o Pyjiguity e o baluarte da Onça;travou-se então um renhidissimo combate entre os revoltosos e a guarnição da praça,fazendo eu nessa ocasião parte da força postada no denominado baluarte da Onça, juntocom o meu illustrado camarada tenente Graça Falcão, o qual então se entretinha comalgumas peças Krupp de 7C m/1882 com que escangalhou ainda parte das paredes dosmuros do cemiterio e creio que as cabeças de alguns papéis, enquanto eu me entretinhacom a minha espingarda Snyder ... Foi tal o effeito produzido por tão renhido ataque de 7 de Dezembro, causado pelodemasiado estrondo das bocas de fogo e fuzilaria, que aterrorizou extraordinariamentetodo o pessoal estranho áquelle serviço e que então se achava no interior da praça. emuito especialmente o pertencente ao sexo feminino... Como felizmente a boa estrela favoreceu sempre as nossas forças, viram-se então osrebeldes na dura necessidade de retirar em debandada deixando a praça e ainda o campolivre, do que elles nada gostaram... Depois do referido ataque deram-se mais alguns pequenos combates de mais oumenos importância, mas não tão importantes como aquelle, nos mezes de janeiro eFevereiro, e alternadamente até á saida da columna para fora da praça ... ...Pelas tres horas da tarde do mesmo dia (27 de Abril)... surgiram os rebeldes nasalturas fazendo fogo vivo. A este ataque responderam os auxiliares que se portaramrazoavelmente bem, sendo o inimigo repellido pelos tiros da fortaleza e do fortim doPyjiguity.» A guerra de Bissau do ano de 1894, que foi pelo autor anteriormente citado, referidacomo «uma das mais importantes que nas possessões ultramarinas portuguezas se têemrealizado nos ultimos anncs», terminou com a completa derrota dos gentios em Bassim nodia 10 de Maio, sendo a paz assinada em 22 do mesmo mês, numa cerimónia realizada nointerior da fortaleza de S. José de Bissau, na presença do Governador, de muitos militarese povo. Data sensivelmente do final do século passado a seguinte descrição do capitãoBarahona e Costa, feita na Revista de Engenharia Militar de 1901:
  26. 26. «A fortaleza de S. José de Bissau, quando ali cheguei, também inspirava poucaconfiança aos seus defensores. Basta dizer que o parapeito estava quase destruído, acimado terraplano de circulação. Deste modo os pretos rebeldes podiam bem alvejar asreduzidas tropas da guarnição que fomos encontrar exaustas por sucessivos alarmes. A densa vegetação que circundava a praça permitia que o inimigo se pudesseaproximar sem ser visto. O artilhamento da praça era simplesmente mesquinho, para não dizer outra coisa.Basta citar o facto de termos ido encontrar ali peças de artilharia assestadas noparapeito sobre reparos constituídos por grossas lages postas de cutelo! Tanto o fortim de Pigiguiti como o forte de S. José foram convenientementereparados durante o tempo que estive na Guiné e o artilhamento foi muito melhorado,o que não obstou a que poucos annos depois já ali se vissem as peças de artilhariaamarradas com cordas aos respectivos reparos! Os capitães de artilharia Joaquim de Freitas Ramos, Jacinto I.Santos e Silva e Viriato Fonseca envidaram patrióticos esforços para organizar de vez o materialde guerra da Guiné em condições favoráveis á defensa. Como se vê, porém, ali tudomuda rapidamente... Tendo citado aquelles tres offícíaes, não quero deixar no olvido o nome dovalente capitão Lage, que em 1891 comandava a fortaleza de Bissau. Quando em 1891 fui servir na Guiné, encontrei a fortaleza de S. José de Bissauquase completamente arruinada... Durante a minha estada na Guiné (1891-1892) procedi a importantes trabalhos nafortaleza de S. José de Bissau, que restaurei em grande parte, pondo-a em condiçõesde resistir ás sortidas do gentio irrequieto que a rodêa. O forte de S. José de Bissau tem 4 faces abaluartadas, dispostas segundo os lados deum quadrado... As muralhas teem 12 metros de elevação sobre o fosso que a circunda. Este fossotinha a escarpa revestida, mas quando ali cheguei achava-se quase entulhado com osescombros da muralha e os revestimentos do fosso tinham desaparecido. Honório Barreto, que foi governador da Guiné, assevera, numa memória que escreveusobre a Guiné, que as pedras que guarneciam a contra escarpa, e as lages das plataformasde artilharia foram roubadas para se fazerem algumas casas particulares ... ...em cada um dos baluartes, ao centro, havia gigantesco poilão (erio exdendronanfractorum) que lhes dava farta sombra. …o tronco de um desses gigantes mede na base cerca de vinte metros de perímetro. ...a povoação de Bissau fica apertada entre o forte e uma cortina que liga o baluarte daOnça ao fortim do Pigiquiti, nome pelo qual em 1891 era conhecido o antigo forte Nozolíni,do qual, alíaz, só existia a face que olha para a campanha.» Durante alguns anos uma paz relativa reinou em Bissau e a fortaleza de S. José deBissau pouca acção teve no desenrolar das campanhas de 1908 - se bem que tivessealojado no seu interior grande número de militares que tomaram parte na Campanha deBissau, que foi, para todas as nossas tropas que até então tinham actuado na Guiné,aquela que mais baixas causou.
  27. 27. Em 1913 houve grande alvoroço entre os moradores de Bissau, porquanto a paliçadaque ligava a fortaleza ao forte de Piguiti fora mandada demolir. Esta medida foiconsiderada altamente prejudicial à cidade pois, segundo se escreveu ao Ministro doUltramar, «a defesa desta ficaria só apoiada pela velha fortaleza de S. José». Nos acontecimentos políticos provenientes da mudança de regime em Portugal, em1910, e durante as guerras mundiais de 1914-1918 e 1939-1945, a acção da velha fortalezafoi de pequeno relevo e, desde então, praticamente só serviu de aquartelamento e depósitode tropas. Fotografias existentes nos arquivos do Quartel-General de Bissau, datando de hápouco mais de um quarto de século, mostram a fortaleza de S. José com as suas muralhasdesmoronadas, as edificações em ruínas, aparecendo, entre os destroços, ou quasecobertas pelo capim, uma ou outra peça. Para se celebrarem as comemorações do quinto centenário da descoberta daGuiné, a fortaleza foi parcialmente reparada, dado que algumas das principaiscerimónias desenrolar-se-iam no interior das suas seculares muralhas. No dia 1 de Janeiro de 1946 começaram essas comemorações, que abrangeramtoda a Guiné e às quais Portugal inteiro, desde o Minho a Timor, se associou. A primeira cerimónia teve lugar às oito horas desse dia com o içar, pelocomandante da Guarnição Militar, Major Pedro Pinto Cardoso, da Bandeira dasDescobertas (Esta bandeira encontra-se emoldurada na Biblioteca do Quartel-General do Comando TerritorialIndependente da Guiné.). Ao acto prestaram honras militares forças da Armada, do Exércitoe do Corpo da Polícia de Segurança Pública. Finda a salva de 21 tiros, Sua Excelência o Governador, Comandante SarmentoRodrigues, proferiu a sua célebre «Mensagem do Baluarte» (Em Boletim Cultural da GuinéPortuguesa, I (1946) 349-352.). que começa com as seguintes palavras: «do alto deste baluarte, onde a bandeira portuguesa sempre com honra seergueu... » Seguidamente as forças em parada desfilaram e inaugurou-se, na esplanada dafortaleza de S. José de Bissau, um pequeno monumento dedicado «aos heróis daocupação e pacificação da Guiné», iniciando-se, assim, as cerimónias comemorativasdo quinto centenário da Província. Em 1947 desmoronaram-se alguns lanços das muralhas da fortaleza e, no anoseguinte, deu-se a derrocada das edificações do Pavilhão dos oficiais e arrecadaçõesdo material de guerra. Dois anos foram necessários para se reconstruírem as muralhas e se demoliremas ruínas das edificações. Depois, em 1951, começou a construção de duas moradias,que substituíram o velho «Quartel de officiaes» que há cem anos, pouco antes da suamorte, o governador Honório Barreto mandou reconstruir. Durante anos e anos os quartéis da fortaleza serviram para alojar unidadesmilitares, quer da guarnição de Bissau, quer em trânsito para o interior da Província,sendo a última unidade que se abrigou no interior das velhas muralhas o Batalhão deIntendência da Guiné.
  28. 28. Na luta que hoje se trava contra um inimigo alentado e bem remuniciado porpaíses estrangeiros, têm sido capturadas muitas toneladas de armamento. O GabineteMilitar do Comando-Chefe das Forças Armadas da Guiné promoveu uma exposiçãopública do material capturado e escolheu como local mais representativo para aapresentação desses troféus de guerra - que testemunham bem o inegável apoio domundo comunista aos terroristas da Guiné - o interior da velha fortaleza de S. José deBissau, espalhando pelo seu recinto, misturadas com seculares canhões, as maismodernas armas de fogo.Após esta exposição, em 1969, a fortaleza - vulgarmente chamada da Amura, ou seja, onome em crioulo de muralha - passou a servir de sede ao Comando-Chefe das ForçasArmadas da Guiné e, praticamente, a vida política e militar da Província voltou airradiar, para todos os pontos guineenses. da antiga «casa do governo» da fortaleza de S.José de Bissau. Hoje, uma ponte de características modernas e simples, atravessa o único troço defosso, existente junto à face poente, dando acesso à porta de armas, que está ladeada pordois belos exemplares de canhões belgas, fundidos em 1757 por L. Lefache, e por duasguaritas de cimento armado, estas sem qualquer interesse artístico. Um portão de ferro, tão modesto e simples que talvez fosse rejeitado em qualquerquinta um pouco mais abastada, substitui a porta que a fortaleza certamente devia terpossuído e que a riqueza de madeiras da região impunha. O túnel de passagem é baixo e curto, com uma curvatura de tecto pouco pronunciada.Nas suas paredes laterais existem duas lápides, modernas e de discutível bom gosto. A dadireita tem o escudo da Guiné, mas com a tradicional «negrinha» (D. Afonso V, como símbolo daposse da Guiné. fazia uso de um bastão de marfim. rematado por uma cabeça de negra. Este bastão era conhecido peloDOme de cnegrinha,. e foi. mais tarde. adoptado como emblema heráldico da provlncla da Guiné. sendo mantido pelaportaria ministerial de 5 de Maio de 1935.) muito se assemelhando a um canhão - erro normalmenteseguido e que dá origem a outra interpretação deste símbolo tendo gravadas as seguintespalavras: FORTALEZA DE S. JOSE DE BISSAU PRIMEIRAMENTE CONSTRUIDA EM 1696 PELO CAPITAO-MOR JOSE PINHEIRO. FOI INICIADA A SUA RECONSTRUÇAO EM 1753 SEGUNDO OS PLANOS DE FREI MANUEL DE VINHAIS SARMENTO E CONTI NUADA EM 1766 COM A TRAÇA DO COR MANUEL GERMANO DA MATA RECONSTRUIDA PARCIALMENTE EM 1916 Ao ler-se esta lápide quase se pode afirmar que, em cada linha, há um erro. A primeira fortaleza que existiu em Bissau tinha o nome de Nossa Senhora daConceição, a padroeira de Portugal e orago da capela da fortificação que foi mandadademolir, completamente, por D. João V em 1707, e põe-se em dúvida se, meio séculodepois, teria sido reconstruída.
  29. 29. Deve-se a traça da segunda fortaleza de Bissau ao Capitão-Engenheiro Pais deMeneses (Cf. ofldo do Ministro da Marinha e Ultramar. transcrito por ÁLVARES DÊ ANDRADÊ. ob. cit., p. 77 e indicada napág. 489 deste trabalho.) e foi só após a morte deste que Freí Vinhais Sarmento, e por algumtempo, foi nomeado para a direcção das obras da fortaleza. Mas, como se indicou,tudo quanto construído sob a sua direcção foi provisório e ficou imperfeito. Da leiturade vários documentos verifica-se que a segunda fortaleza de Bissau estava de péquando a Companhia do Grão-Pará expressou por escrito o seu contentamento pelo«bom sucesso do princípio da fundação da fortaleza»( GERMANO DA MATA ~ categ6r1co aoafirmar que. em 30 de Dezembro de 1765 deu «princípio a cortar as árvores e matos e a limpar o plano para se lançaremas primeiras I1nhas». Cf. CUNHA SARAIVA. A Fortaleza de Bisseu e a Companhia de Grão-Parã· é MaranMo. p. 167;ÁLVARES ANDRADE. Planta da Praça de Bissau e suas adjacentes. p. 57.). Portanto, esta foi construída emlocal diferente das anteriores, contrariamente ao que se depreende da lápide. Por último, duvida-se da reconstrução da fortaleza em 1946, porquantoreconstruir é restaurar segundo a traça primitiva, e, nesta reconstrução, só houve apreocupação de tornar a fortaleza funcional para determinado fim, não se atendendoao seu passado histórico. Assim, a pequenina capelinha de evocação a S. Josédesapareceu para dar origem a uma singela casa quadrada, tipo colonial, e tambémdesapareceram os majestosos poílões que existiam em cada um dos baluartes(Noarquivo do Quartel-General existe uma fotografia destes poilões.), além de hoje se verem nas arestas dasmuralhas inestéticas guaritas de cimento, pintadas de branco, em nítido contraste coma cor enegrecida das pedras lateríticas. Na parede do lado esquerdo do túnel de acesso à esplanada há uma pequenaplaca de bronze indicando que a fortaleza foi VISITADA PELO CHEFE DO ESTADO, GENERAL FRANCISCO HIGINO CRAVEIRO LOPES EM 3 DE MAIO DE 1955 Na esplanada, mas descentrado, ergue-se, desde 1946, um pequeno monumentodedicado aos «heróis da ocupação e pacificação da Guiné». Está rodeado de 4 canhões deferro, de calibre 36, montados em reparos do mesmo metal. Dois destes canhões, os que estão voltados para a porta de serviço, são holandeses,um tem uma coroa que parece a sueca e o outro, provàvelmente, é de fundição inglesa. Junto à porta de serviço - que se vê ter sido rasgada na muralha, em ampliação daoriginal - há um montículo de terra, ajardinado, onde se encontram uma caronada, umancorote e uma hélice de avião, querendo simbolizar a união dos três ramos das ForçasArmadas. Para realização deste fim, julga-se que a caronada - canhão típico da marinha -devia ser substituída por uma peça. No lado exterior da porta de serviço estão dois canhões de ferro, de calibre 24,montados nos respectivos reparos, tendo um as armas holandesas e o outro aspecto deser de origem inglesa. Espalhados pelos parapeitos das muralhas encontram-se 24canhões de ferro (Em todas as descrições sobre a fortaleza de S. José de Bissau verifica-se que o número decanhões vem diminuindo. Conquanto em 1847 tivesse sido dada ordem, de Lisboa, para «a inexplicável medida do
  30. 30. desartllhamento gerai» (Revista Militar. ano de 1864. p. 128), não nos constou que, quer nessa ocasião quer em 1856 e1877, ou datas posteriores, tivessem recolhido ao Arsenal do Exército canhões de ferro ou de bronze provenientes daGuiné. Assim o desaparecimento dos canhões que existiram na fortaleza de Bissau só se explica, para os mais pesados,pelo abandono e consequente enterramento natural; para os mais pequenos, em especial os de bronze, pelo roubo. Alémdas 35 peças de artilharia que se encontram na fortaleza de S. José. conhecem-se, em Bissau, mais nove bocas de fogoantigas, cujas características e locais onde se encontram resumidamente se indicam: - No Balalhão de Intendência deAngola: - Morteiro de ferro, possivelmente de fins do século XVIII – 1. No munhão esquerdo tem a marca S BOWLING eno fogão os números de referência 7 - I - 12. Está montado em reparo de ferro, próprio, e tem um diâmetro de boca de 230mm. - No Museu de Bissau: . Canhão acolumbrinado, de ferro, do inicio do século XVII – 1; . Canhão de ferro do flnaldo século XVIII – 1; . Peça de tiro de sinal, de ferro, do princípio do séc. XVIII – 1; N. B. A peça de tiro do sinal, uma dasmuitas que os indígenas nos roubaram, 101, há pouco mais de cem anos, utilizada pelos mandingas suas lutas contra osfulas. CI. Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, II (1947) 449. . Canhão de bronze com a cifra de D. Maria I – 1. Os doiscanhões de ferro parecem ser de origem inglesa. O canhão de bronze tem um corte triangular em bisel, invertido, junto ao«ouvido», que teria sido feito para embutir um «grão», o que sucedia quando as peças tinham feito muito fogo. - NoCemitério Municipal de Bissau: . Canhão de bronze, com o comprimento total de 96 cm e diâmetro de 10 cm. Alma com 6estrias, slnistrorso. Na faixa da culatra tem a legenda: RUELLE-AN 1863, e nos munhões, esquerdo a direito,respectivamente, «N.º 100» e «P 101 K». . Canhão de bronze, idêntico ao anterior, com a data de 1870, tendo no munhãoesquerdo a Indlcação: «N.º 16». . Canhão de bronze, com o comprimento total de 96 cm e o diâmetro de boca de 11.5 cm.Tem a alma lisa e a câmara estrangulada. No munhão esquerdo tem a indicação «N.º 232» e no direito «P 98 K». Temmarca de mira na bolada e na faixa da culatra, lado esquerdo superior, uns furos de adaptação de um aparelho,possivelmente de pontaria. Uma peça idêntica foi roubada em 1959, ignorando-se o seu paradeiro. - Junto ao cais doPigiguiti, na Avenida Marginal: . Canhão de ferro, provavelmente de calibre 36, enterrado pela boca, estando de fora ocascavel, culatra e parte do primeiro reforço. Esta peça, bem como os dois canhões de ferro que se encontram no Museude Bissau, guarneciam o antigo forte do Pigiguiti. Por uma feliz determinação do Ex.º Secretário-Geral da Provinda vãorecolher ao Museu de Bissau todas as peças antigas de artilharia que se encontram espalhadas pela Guiné, mesmoaquelas que estão a ser utilizadas como cabeços de amarração), dos quais só um ostenta as armasportuguesas – embora não tivesse sido feito em Portugal. Os restantes são holandeses,um possivelmente é sueco, outro deve-se às fundições belgas de Lefache, e há aindaum que tem, nos seus munhões, a característica «flôr de liz» francesa. No interior da esplanada, em parte sombreada por mangueiras, encontram-se,além dos quatro canhões já aludidos que rodeiam o monumento e da carona da pertoda porta de serviço, mais duas peças deste tipo, uma das quais encravada com umpelouro de maior calibre. No chão, junto a cada uma destas bocas de fogo, existemuns quatro ou cinco pelouros de diversos tamanhos. Na varanda da «casa do governador», voltados para o mar, encontram-se quatropequenos canhões de 47 mm, que há meio século faziam parte do armamento dealgum navio de guerra. Exceptuando estas quatro peças, um total de 35 velhos canhões fazem imaginar, aquem os contempla - melhor que estes simples e breves apontamentos - o que foi ahistória da fortaleza de S. José de Bissau, através dos seus dois séculos de existência.Uma história atribulada, de sucessos e insucessos, de esperanças e desânimos, indelevel-mente ligados pela nossa constante vontade de permanecer na Guiné.
  31. 31. BIBLIOGRAFIAANTÓNIO AFONSO MENDES COUTINHO -- Apontamentos sobre a Praça de S. José de Bissau, Lisboa, 1853.BERNARDINO ANTÓNIO ALVES DE ANDRADE- Planta da Praça de Bissau e Suas Adjacentes. Introdução e notas do Dr. Damião Peres. Edição da Academia Portuguesa de História. 1952.Boletim Cultural da Guiné Portuguesa Bissau.CHRISTIANO JOSÉ DE SENNA BARCELOS - Subsídios para a história de Cabo Verde e Guiné, Tipografia da Academia Real das Sciencias de Lisboa, 1899 a 1912.FRANCISCO TRAVASSOS VALDEZ - Africa Occidenfal. Edição de Francisco .Artur da Silva. Lisboa. 1864.Cap. Eng. HENRIQUE C. S. BARAHONA – Carteira de um Africanista. Algumas palavras sobre as fortalezas da Guiné e da Africa Oriental. ln Revista de Engenharia Militar, ano de 1909.JOÃO BARRETO – História da Guiné. Edição do Autor. Lisboa. 1938. JOSÉ JOAQUIM LOPES DE LIMA - Ensaios sobre a statlstica das Possessões Portuguezas, Livro I. Imprensa Nacional, Lisboa. 1841.JOSÉ MENDES DA CUNHA SARAIVA - A Fortaleza de Bissau e a Companhia do Gão-Pará e Maranhão, ln Conqresso Comemorativo do Quinto Centenário do Descobrimento da Guiné, vol. I. pp. 157 ss.Idem. I Congresso da História da Expensão Portuguesa no Mundo. pp. 167-170. doc. n.º 2. nota F.MANUEL ANTÓNIO MARTINS – Memória demonstrativa do Estado Actual das. Praças de Bissau, Cacheu e suas dependências em África, ln Boletim Cultural da Guiné Portuguesa. XIII (1958) 203-216. Alf. MIGUEL ANTÓNIO PlMENTEL - A Guerra de Bissau em 1894. ln Revista Militar, ano de 1897, pp. 616 ss. TITO AUGUSTO DE CARVALHO -- As Compenhias Portuguesas de Colonização, Memória apresentada à Sociedade de Geografia de Lisboa, Lisboa, 1902.

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