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Masculinidades - Mariana Ghetler
 

Masculinidades - Mariana Ghetler

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    Masculinidades - Mariana Ghetler Masculinidades - Mariana Ghetler Document Transcript

    • Introdução No Brasil, é importante perceber que são poucos os estudos sobre amasculinidade, como ela é construída individualmente, suas características primordiais,e onde elas se manifestam no dia a dia. Pensando numa frase de Maciel Jr. (2006), “Muito além do sexo, os homens nãonascem homens, tornam-se homens” (p. 9) é importante relembrar que a mesma coisaque Simone de Beauvoir afirma para as mulheres, vale também para os homens: amasculinidade mantém-se em constante movimento e isso não apenas diferencia umamulher de um homem, mas um homem de outro. Além disso, não é a característicafísica que miraculosamente dá ao homem biológico, ou ao homem transexual (por maisque as bases biológicas da transexualidade estejam sendo ainda confirmadas) suamasculinidade: ela é construída, muito além do que o biológico apresenta oupotencializa. É relevante também ressaltar que a masculinidade hegemônica perpassa asmasculinidades subordinadas: cada indivíduo constrói-se a partir de uma história devida durante o desenrolar de seu ciclo vital, dos acontecimentos sócio-econômicos ehistóricos e da cultura inserida em determinado espaço geográfico. Segundo Connelll (apud Maciel Jr.,2006) “masculinidade hegemônica pode ser definida como a configuração de uma prática de gênero que incorpora a resposta aceita ao problema de legitimidade do patriarcado, que garante (ou que se ocupa em garantir) a posição dominante dos homens e a subordinação das mulheres” (p. 55) Portanto, a masculinidade hegemônica refere-se a uma dinâmica cultural pelaqual um grupo exige e sustenta uma posição de poder na vida social. Ela constrói-se narelação com outras masculinidades e feminilidades, submetendo-as e dissimulando-as.Há masculinidades dominantes, ou seja, consideradas hierarquicamente superiores, eoutras cúmplices, subordinadas ou marginalizadas, que são transformadas em duvidosase desprezíveis. A masculinidade hegemônica refere-se ao homem “normal, verdadeiro”, viril naaparência e nas atitudes, não efeminado, ativo e dominante. Segundo Connell (1995) asoutras masculinidades todas, como a gay e a transexual, por exemplo, sãomasculinidades subordinadas. 1
    • De acordo com Maciel Jr. (2006) a “masculinidade hegemônica é um modelodificilmente alcançado por todos os homens, embora tenha ascendência sobre os demaismodelos” (p.60). Oliveira (2004) afirma que a masculinidade “(...) destacou-se como valor básico sobre o qual a sociedade burguesa construiu sua auto-imagem. Os “desviantes” forneciam o modelo às avessas, “contratipo” que figurava a antinorma, o antiparadigma do homem burguês.”(p.78) Esta pesquisa se propõe a investigar como a masculinidade é construída porhomens transexuais, homo e heterossexuais, para que se possa refletir sobre como amasculinidade hegemônica permeia os ideais e o imaginário social. A compreensão dasarticulações e negociações entre a masculinidade hegemônica e as subordinadas aolongo da história dos participantes permitirão uma reflexão sobre as comunalidades ediferenças entre eles. Podemos evidenciar que a relação entre masculinidade e homoafetividade muitasvezes é deixada em detrimento da não-relação entre sexualidade e gênero, que muitasvezes é abordada na literatura queer, como é o caso de Sullivan (2003) ou Jagose(1996).Porém é algo que devemos nos deter de modo a comprovar ou modificar taisafirmações, de modo a entender melhor como esta relação (se é que ela existe) ocorre. A partir de pesquisas anteriores (Carvalho, Lopes e Ghetler, 2008; Bento, 2006)verificou-se também que o tema da transexualidade é muito pouco abordado pelaPsicologia. Faltam principalmente conhecimentos acerca dos homens transexuais(pessoas com o sexo feminino e gênero masculino), que são menos evidenciáveisdevido à dificuldade da cirurgia de transgenitalização (pelo risco que ela traz de umprocesso de necrose do neo-falo, e pelo preço). De acordo com Saadeh (2004) elestambém são minoria se comparados às mulheres transexuais (pessoas com o sexobiológico masculino e gênero feminino), numa proporção que varia mundialmente de1:1 a 1:4. Para entendermos do que se trata o trabalho, é preciso explicar alguns conceitoschave que irão nortear a pesquisa. A transexualidade de acordo com Bento (2008) é a “Dimensão identitária localizada no gênero, e se caracteriza pelos conflitos potenciais com as normas de gênero à medida que as pessoas que a vivem reivindicam o 2
    • reconhecimento social e legal do gênero diferente ao informado pelo sexo, independentemente da cirurgia de transegenitalização” (p. 144). Ou seja, é um fenômeno que se origina da dissonância entre o sexo biológico e aidentidade de gênero de um indivíduo situado em determinada sociedade em um dadomomento histórico e situação geográfica. Por esta razão diferencia-se do travesti, que deacordo com Kulick (2008), as travestis “consideram sinal de psicose o caso de homensque pretendem ser mulheres” (p.102), ou seja, por mais que mudem sua aparência parauma que denuncia traços das normas de gênero oposto ao sexo, não sentem-se emdiscrepância com seu sexo biológico. Também se diferenciam dos homossexuais, pois,como Rubin (1989) afirma, sexualidade e gênero são âmbitos completamente diferentese se a escolha de um indivíduo é homoerótica não significa necessariamente que suascaracterísticas de gênero irão se alterar. Essas confusões entre travestis, gays etransexuais sempre foram muito comuns, pois como cita Bento (2006) apenas nasdécadas de 60 e 70 eles foram diferenciados pela Ciência e muitas dúvidas e preconceitoainda se mantêm. O fenômeno da transexualidade é bastante incomum na sociedade ocidental, econsiderado pela medicina como expressão de gênero não pertencente à normalidade.Por isso pode ser encontrado inclusive no DSM-IV pelo termo de transtorno deidentidade de gênero e transexualismo, no CID-10. É importante perceber que háintersecções entre a Psicologia e a Medicina na busca de compreensão do fenômenotransexual. Grande parte dos psicólogos referem-se ainda ao fenômeno com o termotransexualismo, e chamam os indivíduos com esta característica de transexuaismasculinos, quando o sexo biológico é masculino e vice-versa, dando maior ênfase aocorpo biológico e não ao gênero. No entanto, se formos observar o fenômeno transexual com as/os próprias/ostransexuais e alguns psicólogos com quem se entrou em contato, percebe-se que nãonecessariamente os próprios transexuais vão se auto-denominar desta forma. Aliás,preferem ser chamados pelo gênero que assumem, minimizando a importância dopróprio corpo. Foi por este motivo que neste trabalho foi utilizada a denominaçãohomem transexual, para respeitar os colaboradores da pesquisa e percebê-los comorealmente são ou como querem se tornar. 3
    • É também importante salientar que, como Bento (2008) afirma, nãonecessariamente estes indivíduos vão ter desconforto com seu próprio corpo; existemtransexuais que preferem não fazer a cirurgia de re-designação sexual como podemosperceber de P. (Carvalho, Lopes e Ghetler, 2008), uma mulher transexual com a qualentrou-se em contato para pesquisas anteriores, que afirma que, por não ser mais tãojovem, e pelo fato de que é algo muito íntimo com que não deixa ninguém ter contato,não mudaria em seu corpo. Porém o nome é algo extremamente importante para ela,pois só dessa forma ela pode exercer sua profissão. Sendo que obteve muitos feitos coma identidade masculina, dos quais é muito orgulhosa, na arquitetura, só pode recobrá-losapós sua alteração de nome. Outro caso é de E., que logo ao falar com seu psicólogo, no começo da transição,avisou-o de que não faria a cirurgia, pois não sentia isso como necessidade e nãopercebia sua genitália como parte integrante de um gênero específico ou não. Oito anosdepois, é uma mulher em aparência que vive com seu marido e filhos (filhos seus comoutra esposa) e continua sem ter feito a cirurgia. Considera-se mulher como qualqueroutra. Preferiu-se, portanto, utilizar a denominação de Bento (2008) de transexualidadepor ser mais generalista e, assim, não descartarmos sujeitos que fogem às regrasdiagnósticas, mesmo que a característica fundamental da transexualidade, aincongruência de sexo e gênero e o possível sofrimento a respeito das normas sociaisassociadas ao sexo biológico também se encontre nos manuais diagnósticos. É crucial pensar na homoafetividade aqui como sendo apenas o fato de alguémde um gênero específico sentir-se atraído emocionalmente por alguém do mesmo gêneroque o seu, visto que existem variações sobre o que a homoafetividade significaenquanto sexualidade, gênero, e o efetuar deste desejo ou não. Desta forma, nasentrevistas, foi respeitado o critério dos entrevistados, de modo a perceber da formamais concreta o que isto significa para eles. É importante também diferenciar sexo e gênero, pois em grande parte da história,acreditou-se que os dois necessariamente andavam de mãos dadas e isso não é completamenteverdadeiro. O sexo de um indivíduo é atribuído pelas bases biológicas cientificamente formuladas.Isso implica atualmente nos caracteres sexuais presentes, sendo eles primários (gônadas, órgãossexuais tais como pênis, útero e caracteres genéticos) e secundários (protusão de mamas, 4
    • localização de depósitos de gordura, localização de pêlos, densidade óssea, diferença dequantidade de hormônios sexuais tais como progesterona, testosterona, estrógeno, entre outros). Já gênero é uma denominação criada nos entremeios dos movimentos feministas paradesignar, de acordo com de Barbieri (1990) “el sexo socialmente construído” e “En otras palabras: los sistemas de género/sexo son los conjuntos de prácticas, símbolos, representaciones, normas y valores sociales que las sociedades elaboran a partir de la diferencia sexual anátomo-fisiológica y que dan sentido a la satisfacción de los impulsos sexuales, a la reproducción de las especie humana y en general al relacionamiento entre las 1 personas”. (p.100) Com essa frase, entende-se que gênero é o sexo socialmente construído: refere-se arelações de poder (homem-homem; mulher-mulher; homem-mulher) que se inscrevem numdeterminado momento histórico e espaço geográfico. Articula-se com outras desigualdadescomo as raciais, étnicas, geracionais, de nível sócio-econômico, etc, como se refere Connelll(2000) ao dizer que essa bimodalidade é construída socialmente, mantendo-se apenas pelasrelações de poder, que são veiculadas por práticas e discursos nem sempre coincidentes.Beauvoir (apud Bento, 2006) completa: “em verdade, basta passear de olhos abertos para comprovar que a humanidade se reparte em duas categorias de indivíduos, cujas roupas, rostos, corpos, sorrisos, atitudes, interesses, ocupações são manifestadamente diferentes”(p. 71) De acordo com Scott (1986), o gênero é uma forma primária de dar significado às relaçõesde poder. Só se dá na relação, ou seja, não há a feminilidade sem a masculinidade, além de quenão há subordinado sem o subordinador, e vice-versa. É de forma dinâmica que se dão asrelações de gênero e subseqüentemente os papéis de gênero. Rubin (1989), afirma que sexualidade e gênero são âmbitos separados, ou seja, asexualidade é um âmbito completamente diferente e deve ser analisada independente dacategoria de gênero. Isso contribui muito para entendermos, por exemplo, o caso de um1 “Em outras palavras: os sistemas de gênero/sexo são os conjuntos de práticas, símbolos, representações,normas e valores sociais que as sociedades elaboram a partir da diferença sexual anatomo-fisiológica eque dão sentido à satisfação dos impulsos sexuais, à reprodução da espécie humana e em geral para orelacionamento entres as pessoas” 5
    • transexual que possui uma escolha homo-afetiva ( ou seja, deseja pessoas com o mesmo gêneroidentitário que o seu). Mais recentemente surge Judith Butler (1993) que afirma veementemente que aconstrução de gênero na ótica feminista acompanhou o sexo biológico para fazer uma leituracrítica da situação da opressão feminina, e isso na verdade foi inclusive moldado numaconstrução já autorizada socialmente, e tão imperceptível quanto a própria linguagem. Comocomenta em seu livro “Bodies that Matter: on the discursive limits of ‘sex’ “: “It seemed to many, I think, that in order for feminism to proceed as a critical practice, it must ground itself in the sexed specificity of the female body. Even as the category of sex is always reinscribed as gender, that sex must still be presumed as the irreducible point of departure for the various cultural constructions it has come to bear. And this presumption of the material irreducibility of sex has seemed to ground and to authorize feminist epistemologies and ethics, as well as gendered analyses of various kinds. In an effort to displace the terms of this debate how and why “materiality” has become a sign of irreducibility, that is, how is it that materiality of sex is understood as that which only bears cultural constructions and, therefore, cannot be a construction?” (1993, p. 28)2 E assim, pode-se perceber que gênero, assim como todos os constructos subjetivos, éformulado socialmente. Na transexualidade isso é importantíssimo, pois o gênero nãoacompanha o corpo e a vivência transexual é então possível e não patológica, pois não se fundano corpo e sim na experiência descrita por Bento (2008) como “experiência identitáriacaracterizada pelo conflito com as normas de gênero”(p. 15). Mas então o que seriam estasnormas de gênero, que delimitam possibilidades de ser e estar não apenas de transexuais, mas dequalquer ser humano? À feminilidade foram atribuídas tradicionalmente características como a sensibilidade ea emoção aflorada, a fragilidade (“em uma mulher não se bate nem com uma rosa”), a falta oudéficit de uma razão lógica, uma beleza construída através de valores que mudam com a “moda”(hoje, é ter cabelos compridos, repicados, soltos e lisos; na Idade Média era tê-los sempre presos2“ Parece para muitos, eu acho, que para o feminismo continuar sendo uma prática crítica, ele precisou sefirmar na especificidade sexuada do corpo feminino. Mesmo a categoria de sexo sempre ter sido inscritacomo gênero, aquele sexo ainda precisa ser o ponto irredutível de partida de várias construções culturaiscom as quais teve de lidar. E essa presunção da irredutibilidade material do sexo parece ter dado chão eautorizado as epistemologias e éticas feministas, assim como análises de gênero de vários tipos. Em umesforço para retirar os termos deste debate de como e por que a “materialidade” chegou a ser um sinal deirredutibilidade, isso é, como a materialidade do sexo é entendida como aquela que só se dá comconstruções culturais e, portanto não pode ser uma construção?” 6
    • em coque ou debaixo de panos e chapéus, e de preferência, com cachos; hoje é importante ovalor da magreza e da proeminência de seios e glúteos; nas sociedades feudais era importante aopulência, para significar riqueza). Segundo Bandeira (1999) “ser mulher, ter um corpo de mulher em nossa sociedade significa responder a uma série de apelos que o ideário da cultura estabeleceu – ter um corpo dócil, desejante, harmonioso, uma sexualidade sadia, e, ao mesmo tempo, estar inserida num sistema pautado pela subordinação, submetido às práticas sexuais normativas (procriação)” (p. 191). A Psicanálise, como outras abordagens em Psicologia, pode ser considerada comoexemplo de difusor deste valor, como indicam a resolução bem sucedida do complexo de Édipoe da fase genital da mulher. Freud deu à mulher permissão ao orgasmo, embora apenas aovaginal. Segundo Hime(2004), “As diferenças de gênero têm raízes históricas em formas e estruturas de relacionamento segundo as quais os homens têm maior status que as mulheres. No passado elas dependiam dos homens para definir suas identidades e organizar sua vida e era esperado que fossem subservientes e atentas a eles. Os homens eram considerados a autoridade legítima na casa e era esperado que mantivessem sua posição, que dessem proteção a seus dependentes e evitassem a vulnerabilidade emocional. Embora os ideais de relacionamento tenham mudado, muitos estereótipos de gênero persistem. Influenciam nosso comportamento, principalmente quando ficam invisíveis”(p. 11). Assim como maior status, eles devem também ter maior controle emocional, já que aexpressividade seria característica das mulheres: tornar-se homem implica, ainda nos dias dehoje, em diferenciar-se das mulheres e dos gays. “Homem não chora” é um ditado popular querevela a imagem de homem presente no imaginário social: o dono da razão, da frieza e dadureza, capaz de controle e domínio. Além disso, seu corpo também é regulamentado. Devem ser brutos, resistentes eesculpidos para qualquer combate que tiverem, seja nas grandes empresas, com ternos, 7
    • gravata e ombros largos, ou com músculos para a batalha física de uma guerra, contraoponentes que não lhes darão trégua. A masculinidade então é percebida como oposta ecomplementar à feminilidade: o masculino é viril, contém a força, dá grande valor àpenetração, é demonstrativo (no sentido que só existe ao demonstrar-se em relações), seutiliza sempre da razão, acredita num poder centralizado (falo), situa-se no mundopúblico, preza a individualidade, a produção, a atividade e a agressividade. São estesvalores que, de acordo com Maciel Jr (2006) vão servir como modelos do que oshomens devem ser e como devem se relacionar, sejam eles homens transexuais ouhomens biológicos: o gênero revela-se nas práticas e nos discursos, e manifesta-se porexemplo na relação do indivíduo consigo, com pessoas do mesmo ou do outro sexo,com os filhos, com a família, com a sociedade e suas normas, regras e valores, navivência da sexualidade, etc. A partir desta rápida contextualização que buscou oferecer uma compreensão ainda quesintética do âmbito no qual está inserido o problema de pesquisa, apresenta-se a seguir oobjetivo e a justificativa.Objetivo: O objetivo deste estudo é compreender como são construídas e expressas asmasculinidades de homens homo, hetero e transexuais, utilizando-se o conceito degênero. Este permite uma forma plural de pensar, o que será valioso para que se possarefletir sobre as articulações entre a masculinidade hegemônica e as subordinadas. Será dada atenção às intersecções entre o aspecto biológico, o pessoal e o socialna construção da subjetividade, priorizando-se um olhar atento à complexidade do temaabordado.Justificativa Pretende-se com esse trabalho não apenas contribuir para ampliar oconhecimento relativo às relações de gênero e à sexualidade, mas também gerarinformações que possam embasar intervenções psicológicas que visem a promoção desaúde, a prevenção de dificuldades pessoais e relacionais e a psicoterapia. Os homens transexuais muitas vezes não têm acesso a informações acerca de suacondição e das complexidades que a envolvem, vivenciando dor e sofrimento numa 8
    • sociedade a que não sentem pertencer e que não os aceita nem como homens, nem comomulheres. Grande parte das pesquisas realizadas com homens diz respeito à área médica emuitas vezes não revelam sensibilidade às suas questões psíquicas. Esta pesquisapretende dar voz aos participantes homo, hetero e transexuais, possibilitando maiorcompreensão sobre as intersecções entre sexo e gênero nas diferentes formas deexpressão da masculinidade. Sendo o psicólogo um agente ideológico, esta é uma oportunidade para que aaluna-pesquisadora reflita sobre a atuação psicológica nos vários âmbitos (clínica,pesquisa, institucional, hospitalar, educação, etc) a fim de desenvolver a atenção e umolhar crítico à interferência dos valores e ideologias no “fazer Ciência”. Dessa maneirapoderá contribuir para dar visibilidade às desigualdades de gênero, concorrendo paratransformações no âmbito da subjetividade, assim como no social mais amplo. Desta forma, nos deteremos no primeiro capítulo no histórico sobre amasculinidade, de modo a entender como ela se moldou ao longo dos anos para setornar hoje o que vemos em nosso cotidiano. Neste capítulo foi feito uma revisãobibliográfica sobre a masculinidade em vários contextos históricos e alguns culturais,como a Idade Média na cultura japonesa e árabe, também formadoras da visão atual damasculinidade brasileira. No segundo capítulo, iremos trabalhar com as relações em que a masculinidadese mostra, de modo a destrinchá-la enquanto característica relacional. São relaçõescomo o homem e sua sexualidade ou seu trabalho os refúgios da masculinidadeindividual e coletiva ao mesmo tempo, e pretende-se neste capítulo explorar estacaracterística masculina de modo sintético na bibliografia disponível. O terceiro capítulo trará à luz o método com o qual esta pesquisa foi produzida,explicitando como foram as entrevistas, a forma de análise escolhida e o quanto estapesquisa se preocupa com a ética e a não-maleficência às pessoas envolvidas napesquisa. O quarto capítulo traça uma análise individual de oito dos vinte e trêsentrevistados da pesquisa, delineando os resultados desta em relação à bibliografia. No capítulo da discussão, juntamos dados de todas as entrevistas para entãotentarmos perceber como tem se desenvolvido a masculinidade atual, observando tantoa literatura quanto a realidade apresentada pelos entrevistados. 9
    • Finalmente, no sexto capítulo, trazemos as conclusões percebidas durante apesquisa, e desta forma a encerramos, tentando então perceber de que forma estapesquisa pode auxiliar na captação de uma masculinidade atual e brasileira. 10
    • Capítulo I - Histórico Se pensarmos em uma perspectiva histórica e dialética, os homens tiveramvárias maneiras de expressar sua masculinidade durante a história da humanidade, e issoretroage nos ideais formados para este grupo populacional hoje em dia. De acordo comOliveira (2004) é importante pensarmos dessa forma, pois cada época possuiu um idealpara a masculinidade que permanece em resquícios no ideal seguinte, como uma marcad’água em um novo desenho. Este autor explica que este valor social, que é chamado demasculinidade, só pode ocorrer devido a complexas elaborações culturais, e tambémnão pode ser visto apenas como um recorte, pois isso simplificaria todo um processoextenso que é o destrinchar de um valor social. Iremos, para tanto, desvendar os valores sociais de momentos históricosespecíficos, desde a Idade Antiga, passando pela Grécia e Roma, até chegarmos acaracterísticas das masculinidades contemporâneas, de forma a contextualizar cada idealde masculinidade vigente e perceber no que as masculinidades atuais se pautam. É importante afirmar que a história, até há muito pouco tempo atrás, era escritapor homens e para homens, pois como afirma Beauvoir (1949), eles estiveram “nopoder” por muito tempo, no controle do conhecimento e do mundo público, assim comodas vias escritas e faladas das eras passadas. Como afirma Guggenbühl (1997) “Se nos voltarmos para a história, descobriremos dúzias de exemplos da grandiosidade masculina, de homens que trouxeram lágrimas e sofrimento a milhares ou pior, mataram milhares. Napoleão Bonaparte mandou incontáveis soldados aos portões de Moscou, onde congelaram até a morte pelas suas fantasias imperialistas. Foi este mesmo Napoleão que disse de si mesmo ‘Meu nome viverá tanto quanto o nome de Deus’. Hernán Cortez (1485-1547), comandando quatro mil soldados, destruiu o totêmico império Asteca de uma vez por todas para a glória do rei espanhol Charles. Com seus sonhos de banhos de ouro, ele entregou à morte esta cultura antiga. (...) A grandiosidade masculina nos faz lembrar de homens que impuseram suas vontades ao mundo, que colocaram a todos suas ambições por poder, e que perseveraram na imutabilidade de suas próprias idéias.(...) A grandiosidade masculina é onerosa”(p. 104). E realmente é difícil ao ler nos livros de História conhecer o outro lado; e osoutros seres humanos que estavam na terra também naqueles períodos sublinhados 11
    • como importantes à história da humanidade? Até chamar a humanidade de “os homens”nos faz esquecer que somos extremamente preconceituosos quanto às outras formas dehumanidade, como as mulheres, travestis, transexuais, etc. A partir disso, Welzer-Lang (2004) comenta que o androcentrismo, ou seja,centrar o homem como o mais importante em detrimento de outras formas de gênero, éalgo mal notado na sociedade, mas deve ser considerado quando pesquisamos gênero deforma a sermos menos parciais. Para que possamos desconstruir e analisar o masculinoé imprescindível que não excluamos as mulheres dos estudos, dando atenção especial àsrelações em que estas também se situam. Scott (1990) afirma que ao pensarmos em uma história permeada pelosexcluídos além dos hegemônicos, até o modo como a escrevemos deve ser diferente,pois o valor dado a certas características que antes eram deixadas de lado como asubjetividade e o mundo privado, a sexualidade e os relacionamentos amorosos, osdiferentes modos de vida e as pluralidades de vínculos deverão vir à tona, além do podere do mundo público, além das guerras feitas por homens sedentos de riquezas. Devehaver a preocupação de se estudar não apenas as mulheres (no início do feminismo,estudava-se apenas as mulheres, e os excluídos em geral), mas toda a gama de sereshumanos, como a autora reforça abaixo: “Só podemos escrever a história desse processo se reconhecermos que “homem” e “mulher” são ao mesmo tempo categorias vazias e transbordantes; vazias porque elas não têm nenhum significado definitivo e transcendente; transbordantes porque, mesmo quando parecem fixadas, elas contêm ainda dentro delas definições alternativas negadas ou reprimidas”(p. 9) Em grande parte da história não se fala além da heteronormatividade. Umhomossexual no poder, imagine... Só em conto de fadas queer (aludindo aos estudosqueer, que comentaremos mais adiante), ou polêmicas da papa/papisa Giliberta (mito ounão, é preciso comentar). Tentaremos aqui então sermos os mais imparciais possíveis,de forma a relembrar como a masculinidade foi se moldando através das épocas e comoa história ocorreu para todos os envolvidos. I.1. Grécia Na Grécia Antiga, durante seu apogeu entre os séculos VII e III a.C., situa-se omomento pioneiro da valorização da razão e da força física. Algumas cidades gregas 12
    • foram cruciais para entendermos a masculinidade neste momento histórico. Atenas, porexemplo, com a política, teatros e comunas tinha a fervilhar o pensar, o ser culto, oconhecimento. É importante salientar que estes homens não tinham como valorprimordial a heteronormatividade, de forma que quem não fosse homossexual3 ou nomínimo tivesse relações com homens, era mal visto pela sociedade. Era inclusive oúnico modo de Paidéia (educação) o relacionamento entre um homem mais velho,erestes (o amante) com um jovem de 12 a 18 anos, o eromano (o amado), já que amulher não ensinava, e o pai, o qual devia estar incumbido desta tarefa, não o fazia porestar envolvido com a vida social. O eromano deveria ser sempre passivo, aquele quereceberia o conhecimento e presentes do erestes, além deste papel em relações sexuais,segundo Corino (2006). Além disso, o autor afirma que estes eromanos, logo quechegassem a uma certa idade, deveriam se desligar de seus erestes, apenas mantendouma relação de amizade com os mesmos, para então desposar uma mulher e ter filhos. Outros valores incorporados nessa época eram a busca pela liberdade (afinal osescravos mal humanos eram) a valorização do corpo (a deficiência física era vista comodefeito, problema, incapacidade). É importante ressaltar que nessa época é bem forte adiferenciação entre homens e mulheres, com características excludentes umas dasoutras. Ora, quem era homem não haveria de ser mulher nunca, certo? Isso por que amulher na época era vista como ser inferior ao homem, incapaz do amor e da amizade, edeficiente por não ter o órgão genital masculino, além de incapaz mental e fisicamente,servindo apenas para a procriação e o cuidado dos filhos até os 6 anos de idade. O cuidado dos filhos pelas mães até esta idade também era realizado em Esparta,grande valorizadora da força física, da guerra, competitividade e da imposição de poder.Esparta era controlada por mulheres, pois os homens se mantinham guerreando durantegrande parte dos seus 35 anos de vida. A homossexualidade também era comum durantea guerra (era a homossexualidade viril, como citada também bem mais tarde noHagakure, manual japonês dos samurais, do qual falaremos posteriormente), mas afamília como a percebemos hoje (mãe, pai, filhos) era também comum, de modo arevelar uma relação entre homens e mulheres menos restrita à reprodução; entretanto,3 Quando se fala em homossexualidade em outras épocas que não a moderna, se quer dizer terpreferência por relacionamentos amorosos ou sexuais de pessoas do mesmo gênero, mas a conotação eos significados de nossa época não podem ser generalizados àquela época de que se fala. 13
    • não deixava de ser excludente, pois elas não tinham a possibilidade de ir para a guerra, etambém carregavam aproximadamente o mesmo estereótipo das atenienses. I.2. Roma Roma teve como característica primordial suas conquistas bélicas, veiculandomarcadamente um ideal de masculinidade parecido com o dos espartanos. Com adiferença que, pelo fato de que a política em Roma se baseava no Panis et Circensis4, osgladiadores e os ideais em relação à sociedade e o entretenimento muito puderaminfluenciar o atual ideal de masculinidade hegemônica. Para isso, é preciso entender o Gládio. Os gladiadores eram ex-escravos queeram colocados para lutar entre si, com animais, em bigas, etc, onde o mais forte, aqueleque matava todos os outros, permaneceria lutando. A desistência era então algodesonroso, pior que a morte, pois seria como desistir da própria vida, acima da luta.Estes casos eram julgados pela platéia, que a tudo assistia nas arenas, e o César, quetinha o poder de definir se aquele que estava lá iria morrer ou viver. Já o gladiador quese encontrava em posição superior, podendo matar seu oponente, se quisesse pormisericórdia não fazê-lo sair-se-ia bem, pois de qualquer forma, a honra era sua, e nãotomar a vida significaria ter alguém grato para sempre. Também são da Roma antiga os primeiros relatos de pessoas que se travestiame/ou ocupavam funções sociais de pessoas do sexo oposto. Segundo Saadeh(2004) Filo,um filósofo judeu, é o primeiro a relatar a existência destes no século I d.C.,comentando que alguns homens passavam a se vestir como mulheres, eliminavam suascaracterísticas secundárias masculinas e podiam extirpar os testículos e até mesmo opênis, de modo a viver como mulheres. Saadeh também comenta sobre Manilus eJuvenal a respeito dos poemas que estes autores faziam a respeito do ódio que tinhamquando um destes que trocavam as funções sociais de um gênero para outro eramcolocados no sexo de nascença. Segundo este autor, vários imperadores romanostravestiam-se e isso era algo considerado comum na época. No final do império romano, impérios bárbaros invadiram as cidades, e isso foimuito importante, pois grande parte destes era composto por povos nórdicos, que4 Um sistema no qual a população das grandes cidades era inativa devido à grande quantidade depessoas que era absorvida pelo império romano através das guerras e era preciso entretê-los (Circensis)assim como fornecer comida (Panis) para que não houvesse revoltas. 14
    • valorizavam as mulheres muito mais que o império romano. Estas mulheres guerreavamjunto com os homens, tinham papéis sociais significativos e eram muito mais bemquistas que as mulheres romanas. As culturas nórdicas em grande parte valorizavam amulher pelo fato de que esta poderia gerar vida e portanto, estava muito mais ligada àterra e às divindades que os homens, e isso influenciou em parte a idade média, comono significado da caça às bruxas, e na dicotomia Eva-Maria da qual se falará maistarde. I.3. Idade Média O medievalismo, ou idade média, foi marcada veementemente pela formação dehierarquias entre as masculinidades, assim como um aumento na imposição de poder.Várias características consideradas fundamentais para a masculinidade moderna foramcunhadas nessa época, e portanto nos prolongaremos mais neste momento histórico. Os feudos funcionavam de acordo com a fé cristã, o que significava que amulher teria a função reprodutora, deveria ser dócil e recatada, uma esposa fiel, e deacordo com sua casta, deveria mais ou menos favores (inclusive sexuais) ao dono dofeudo. Ao homem, então, era atribuída a função política, como guerreiro ou nobre dacorte (obviamente dependendo de sua classe social), a de chefe da casa em umahierarquia que privilegia mais os homens do que qualquer mulher( mesmo a esposa),pregavam ou lutavam pelo clero, portanto sendo ousados para conquistar o que lhes eradevido. Quanto às relações amorosas, é também dentro do medievalismo que surge oamor cortês, diferente daquele referenciado à Deus (o amor cristão); o amor torna-sesingularizado, e a Dama substitui Deus. O homem entoava hinos de amor à sua amada,intocável e incrivelmente bela, enquanto estava em combate, o que traz o caráter deservidão para com o outro, desde que este fosse puro, sem sexo, idealizado. Éimportante perceber nesse momento a transformação da mulher, também dicotômica: há“aquela que é pura” e também “aquela é devassa”, como é comentado através dadicotomia Eva-Maria em Carvalho, Lopes e Ghetler (2008): esse padrão vai semanifestar no modo como o homem irá se relacionar com as mesmas. “Se ela é pura,será uma boa esposa e terá filhos saudáveis”, “se ela for uma devassa, me divertireibastante com ela, mas não passará disso”. 15
    • Diferente do que ocorria na Grécia Antiga, a homossexualidade era vista comoqualquer desvio da heteronormatividade, como bruxaria, o mal personificado e atuado, eportanto, não era um ideal a se seguir. Porém, nas guerras, o companheirismo e aamizade tornaram-se valores estimados pois, não podendo voltar para casa, os amigosguerreiros eram os únicos confidentes. Aliás, o cavaleiro medieval cristão, segundoZamboni(2005), era um exemplo de conduta masculina a ser observado, pois a retidão efé inabalável eram imprescindíveis para os valores morais da época. Então, ao detentorda força e da ousadia, nada mais sensato do que incumbir-lhe tal fardo, o dedesempenhar o papel de exemplo. Mesmo as dores da batalha eram vistas comopositivas, pois se agüentasse (sem reclamar) a dor e o sofrimento, teria um lugar ao céu. Um curioso detalhe histórico descrito por Saadeh(2004) é que no século IX, umpapa (há controvérsias, pois a Igreja nega), João VIII, teria sido na realidade do sexofeminino, e teria morrido dando à luz, coisa que até hoje não se tem certeza pelaomissão destas informações. Seu nome de batismo era Giliberta, e teria sido papa pordois anos, sete meses e quatro dias. Uma característica também muito útil para nossa reflexão aqui são os duelos.Neste aspecto do medievalismo que acaba inclusive invadindo o renascimento e até a emergência da futura classe burguesa da Revolução Industrial, a honra era prezada de tal forma, que algo que a sujasse seria tão vil que teria de resultar em morte; do desonrado ou daquele que desonrou. A coragem, o “sangue frio”, o poder nele implicado, a dignidade eram postos à prova em um duelo. O próprio “por à prova” se tornou instituído, assim como o precisar provar às pessoas ao seu redor que sua honra não está manchada. Além disso, marcas deixadas no corpo por um duelo como cicatrizes, amputações, etc. eram vistas quase como troféus, simbolizando Figura 1 – Armadura Infantil no Musée de l’Armée, Paris, França dignidade e eram como um atestado de que este homem era destemido, não tinha fugido 16
    • ao combate. Como também pode se perceber nas armaduras (foto) utilizadas na época, ocorpo devia ter certas características específicas, como os ombros largos, narizcomprido, peitoral definido e uma postura altiva, inspirando literalmente ares denobreza; também podemos evidenciar que o exemplo a ser seguido é o homem que tudoagüenta, que não deixa transparecer nada, nem deixa que nada o atinja. Parece começardaí o hino de todos os pais aos filhos: “homem não chora!”. I.4. O Hagakure: Livro de prescrições para os Samurais; um olhar sobre oOriente Este livreto escrito por Yamamoto Tsunemoto em 1710 representa desde oséculo XI até o XIX, a época dos samurais no Japão. Escolheu-se este país paracontribuir à nossa revisão pois ele traz à tona o homem da Idade Média oriental, vistoque o Japão disseminou sua cultura ao oriente, desde a Rainha Himiko, quando noSéculo III D.C. fazia contatos com a China, até hoje em dia em períodos globalizados, oquanto a cultura revela e nos afeta com os Mangás, a comida típica, até o modo de ser eestar no mundo. Por estarmos interessados neste estudo sobre o modo como os homensexpressaram sua masculinidade, e como os guerreiros samurais são o expoente dessasociedade na era feudal, é importante comentar alguns trechos de suas prescrições paraentendermos qual era este ideal (afinal, o Hagakure foi escrito por um homem, parahomens). O Hagakure explicita em vários momentos como os homens devem se portar,andar, falar, expressar sua sexualidade, como sua honra era mantida, como eradestituída, os rituais de sepukku e harakiri (suicídios rituais diferentes no caso de umahonra irrestituível), etc. Alguns destes dados são: “Todos nós desejamos viver. E na maioria das vezes, construímos nossa lógica de acordo com o que gostamos. Mas não atingir nosso objetivo e continuar a viver é covardia” (p. 28) Podemos perceber que aqui, a vida de nada vale se o homem não se doa a suatarefa, é prático e objetivo. A subjetividade portanto não é importante. 17
    • “É de mau gosto bocejar na frente dos outros. Esfregar a mão na testa pode impedir um bocejo repentino. (...) O mesmo ocorre com o espirro, que ridiculariza a pessoa...” (p. 34) Aqui vemos a valorização que se dá às boas maneiras, da educação e discrição. “Existe uma maneira de um samurai criar seu filho. Desde sua infância ele deve ser encorajado à bravura, e deve-se evitar assustá-lo ou provocá-lo com trivialidades. Se uma criança for afetada pela covardia, isso permanecerá como uma cicatriz para toda a vida. (...) Uma mãe ama sua criança incondicionalmente, e será parcial a ela quando o pai repreendê-la. Se a mãe se tornar uma aliada para a criança, existirá a discórdia entre a criança e o pai. Devido à superficialidade de sua mente, uma mulher vê a criança como seu ponto de apoio na velhice” ( p. 56) Aqui vê-se o valor da bravura e da imparcialidade masculina, em detrimento damente feminina, considerada superficial. Em outras passagens fala-se a respeito da homossexualidade, que deve serdiscreta, porém é permitida desde que os dois estejam dentro do relacionamento afetivo,e estejam dispostos a passar a vida juntos. A morte é um valor cultuado, desde que seja honrosa. Dessa forma, ela é aindamelhor que a vida, pois a vida sem a honra é algo do que se envergonhar, e pelo qual éinsuportável passar. As pessoas cometem erros, mas eles não devem ser desvios de suaprópria índole, muito menos se deve abandonar ensinamentos de um mestre. O mestre étão importante quanto a própria vida destes indivíduos, pelo qual se deve viver e morrer.O valor da hierarquia então é salientado em vários momentos do livro, demonstrandoalto grau de importância desta característica na expressão da masculinidade. É importante ressaltarmos que este é apenas um recorte da expressão damasculinidade do Japão observada em um livro importante até hoje na cultura japonesa,e não um estudo detalhado a respeito do tema, no qual não nos deteremos mais por serapenas mais uma das facetas observadas neste trabalho. I.5. O Jardim Perfumado do Xeque Nefzaui: manual erótico; Amasculinidade sob a ótica Árabe 18
    • Como é sabido, a cultura árabe muito influenciou e influencia a cultura nacional,devido à ocupação árabe de Portugal durante a Idade Média, o que incluiu nos valoressociais da mesma várias informações, saberes e modos de ser e estar representados erepetidos até a presente data não apenas neste país, mas também em outras ex-colônias.O manual estudado, assim como o Hagakure, é um manual escrito de homens parahomens de modo a ensinar a estes como se comportar e não ser daqueles que “merecemcensura”. O Jardim perfumado foi escrito pelo Xeque Omar Ibn Muhammad Nefzaui noséculo XVI e tem como intuito auxiliar homens a se portar em sua sexualidade, e comolidar com as mulheres. É importante mais uma vez ressaltar que este é apenas umrecorte da cultura árabe, e portanto, não uma análise detalhada sobre a mesma, pois é denosso interesse perceber tal cultura, e não nos aprofundarmos nela por ser apenas maisuma das facetas do trabalho. Logo no primeiro capítulo, o Xeque faz uma análise dos homens dignos delouvor: seu pênis deve ser “avantajado e de comprimento amplo”(p. 29), pois a mulhersó se apaixonaria pelo homem através do coito. Seu corpo deve conter as seguintescaracterísticas: “tórax largo e a parte posterior do corpo bem fornida, bem como sabercontrolar sua emissão e ter ereções prontamente.”(p. 29) ; deve usar odores perfumadospara atrair e inebriar a mulher. Deve ser belo aos olhos delas e ter proporções coerentesem seu corpo. Sinceridade e verdade são valores presentes também neste homem ideal,além de generosidade, coragem e modéstia. Ele deve, sempre que puder, seduzir mulheres belas e “dignas de louvor”, ouseja, aquelas que tem curvas arredondadas, cabelos e íris bem negros, rosto oval, lábiose língua bem vermelhos, entre outras características. Mulheres valorizadas só falam ouriem em poucos momentos, não deixam a casa, não têm amigas, não são falsas, não têmsegredos, e só são devotas a um marido, ao passo de que o homem pode ter quantasmulheres conseguir, mesmo que elas sejam comprometidas com outro homem. O homem digno de desprezo é aquele “deformado, que tenha aspecto grosseiro, e cujo membro seja curto, fino e flácido, é desprezível aos olhos das mulheres.” (p. 83) “Desprezível também é o homem que é falso no que diz, não cumpre o que promete, que mente sempre que 19
    • fala, e que esconde da mulher tudo o que faz, exceto os adultérios que comete.” (p.84) Percebe-se também ao longo do texto um enorme desprezo por mulheres quesejam independentes ou que possuam sentimentos externalizados. Em compensação, ohomem tem maior liberdade para ser quem é, e deve procurar mulheres que estejam emconformidade com seus traços de personalidade. As mulheres são em essência más etraiçoeiras, características tais que devem ser percebidas e domadas pelos homens. Este livro traz uma visão, aos nossos olhos contemporâneos, machista epreconceituosa a respeito das mulheres, porém muito nos faz pensar a respeito do idealde masculinidade atual: o homem hoje também deve ser viril, conquistador e não deveconfiar nas mulheres. As mulheres devem ser bonitas, porém não muito mais do queisso; também são vistas como perigosas (dicotomia Eva-Maria presente em nossacultura), e devem ser tratadas com cautela. Devem sempre ser conquistadas, enquantoque o homem deve ter atributos físicos e morais para atrair as mulheres. I.6. Idade Moderna No Iluminismo, fim da “era das trevas”, temos como valor primordial oconhecimento. À ciência ficam a cargo as prescrições, os corpos, os pensamentos, etc. Aburguesia vitoriana também modifica muito os pensamentos a respeito da sexualidade,colocando-a em grilhões muito mais rígidos do que antes do século XVII. SegundoFoucault(1988), antes deste período “ainda vigorava uma certa franqueza. As práticas não procuravam o segredo; as palavras eram ditas sem reticência excessiva e, as coisas, sem demasiado disfarce; tinha-se como o ilícito, uma tolerante familiaridade. Eram frouxos os códigos da grosseria, da obscenidade, da decência, se comparados os do século XIX. Gestos diretos, discursos sem vergonha, transgressões visíveis, anatomias mostradas e facilmente misturadas (...); os corpos “pavoneavam.””(p. 9) O mesmo autor comenta que existem várias razões para tal mudança; umapossibilidade seria a incompatibilidade do uso da energia para os prazeres e para otrabalho, agora muito necessária devido à Revolução Industrial. Outra possibilidade,agora muito mais relevante, seria o uso deste artifício de repressão para um enormepoder sobre o que o ser humano pode ou não fazer. 20
    • “Se o sexo é reprimido, isto é, fadado à proibição, à inexistência e ao mutismo, o simples fato de falar dele e de sua repressão possui como que um ar de transgressão deliberada. Quem emprega essa linguagem coloca-se, até certo ponto, fora do alcance do poder; desordena a lei; antecipa, por menos que seja, a liberdade futura. Daí esta solenidade com que se fala, hoje em dia, do sexo” (p. 12) Bento(2006) também afirma que é nesta época que é criado o bissexismo, ouseja, ao invés da mulher ser vista como um homem defeituoso, como em muitas culturasse acreditava, ela então é vista como diferente, outro sexo. Como Beauvoir(1949)afirmou, um segundo sexo, necessariamente inferior (primeiramente afirmado pelaIgreja, depois então pela Ciência). Beauvoir comenta que como haveria um sentimento de “medo” do que a mulherpode significar, é mais fácil classificá-la de fêmea, coisa que seria um insulto aohomem, pois isto o encerraria ao seu sexo. A ciência, de acordo com a autora seria uminstrumento de controle, mais um artifício para a dominação das mulheres, o homem“projetando na mulher todas as fêmeas de uma vez. Ele a faz uma única fêmea.” (p. 35).Isso seria uma redução da mulher ao animal, não dando a ela chance de demonstrar suaspróprias características enquanto mulher humana, senhora de seus próprios rumos,como deveria ser, segundo a autora. Beauvoir, como outras feministas que a seguiriam,modificaram o modo da humanidade pensar a respeito da mulher e do homem; porém, equanto ao meio do caminho, a/o transexual, o/a travesti, o/a homossexual e todos osoutros meios de caminho? É no século XIX que os primeiros textos médicos a respeito de sexualidade egênero (na época, essa diferenciação não existia) começam a surgir com maior ênfaseem um conhecimento que se afastasse da moral vitoriana de acordo com Saadeh(2004).Este autor também afirma que o livro Psychopathia Sexualis, publicado em 1886 porRichard Von Krafft-Ebing é o primeiro livro a classificar a sexualidade do modo comoconhecemos hoje. Foucault(1988) vai afirmar que a nosologia, a classificação da sexualidade vaiajudar no controle da mesma, reduzindo as pessoas que tinham estas características aapenas estas mesmas, de modo a catalogar, porém não analisar ou perceber suasvivências. De qualquer modo, o conhecimento produzido por Krafft-Ebing e por muitosoutros que o seguiram ajudou de forma crucial a pensarmos a respeito destas várias 21
    • características, antes levadas ao esquecimento ou à fogueira devido à Idade Média, eque agora são vistas com maior naturalidade e percebidas como potencialidadeshumanas, não como desvios segundo vários autores que estudam gênero. Alguns autoresque pensam desta forma são Bento(2006), Bruns(2004), Dorais(1988), Connell(2005),entre outros. A burguesia traz valores como firmeza, repressão de sentimentos, e na literaturaisso se expressa no período do realismo e do naturalismo. Um exemplo disto é opersonagem Albino do livro “O Cortiço” de Aloísio de Azevedo. Esta obra marca naliteratura a entrada do cientificismo e do Darwinismo Social, trazendo à tona uma visãode homem marcada pela imutabilidade de caráter associada à classe social a que estepertencia. Ora, se sou de uma classe social menos privilegiada, necessariamente meucaráter também terá menos virtudes. Este personagem, assim como outros, na sociedadeda época, era visto como fora da normalidade. O trecho que se segue deste livro faz aprimeira apresentação de Albino, um homem afeminado que gostava de travestir-se demulher no carnaval. “Fechava a fila das primeiras lavadeiras, o Albino, um sujeito afeminado e fraco, cor de espargo cozido e com um cabelinho castanho, deslavado e pobre, que lhe caía, numa só linha, até ao pescocinho mole e fino. Era lavadeiro e vivia sempre entre as mulheres, com quem já estava tão familiarizado que elas o tratavam como a uma pessoa do mesmo sexo; em presença dele falavam de coisas que não exporiam na presença de outro homem; faziam-no até confidente dos seus amores e de suas infidelidades, com uma franqueza que não o revoltava, nem comovia. (...) não arredava os pezinhos do cortiço, a não ser nos dias de carnaval, em que ia, vestido de dançarina, passear à tarde pelas ruas e à noite dançar nos bailes dos teatros. Tinha verdadeira paixão por este divertimento; ajuntava dinheiro durante o ano para gastar todo com a mascarada. E ninguém o encontrava, domingo ou de dia de semana, lavando ou descansando, que não estivesse com a sua calça branca engomada, a sua camisa limpa, um lenço ao pescoço, e, amarrado à cinta, um avental que lhe caía sobre as pernas como uma saia.” (p. 40) 22
    • Obviamente, de acordo com José de Alencar, ele haveria de viver no cortiçodevido às suas características. O mundo só haveria de vê-lo no carnaval, onde tudo épermitido, desde que motivo de chacota. Albino era um homem afeminado, e compretexto de que isto era biológico, imutável, haveria de ter também característicasmorais condizentes. Isso acompanhou o homem atual no sentido em que qualquer queseja sua “falha” quanto à masculinidade ideal, ele necessariamente será subordinado,visto como imoral, doente, (até o DSM-IV em parte, onde a homossexualidade éretirada dos manuais diagnósticos, porém não as vivencias da travestilidade ou atransexualidade, consideradas como os indivíduos mais comprometidos sexualmente doespectro citado desde o livro de Ebbing em 1886) ou marginal. O exemplo de José de Alencar em “O Cortiço” traz também imagens sobre amasculinidade ideal a ser seguida pela burguesia letrada da época: o homem deve serculto, buscar ser algo melhor na vida, obter posses sempre que possível, ter um corpo ecomportamento másculo, ocupar profissões ditas masculinas, ser branco eheterossexual. E isso é apenas um espelhamento brasileiro da cultura vigente da época,que trazia a ciência em primeiro plano, como nos dias de hoje, dando suporte ejustificativas às representações de feminilidade e masculinidade. Quem deve construireste conhecimento científico? O homem. Quem deve passá-lo adiante através dacultura? A mulher. A fêmea humana tem grandes obrigações desde o começo do século XX até apresente data: reproduzir o conhecimento. É a ela que é dado o papel de educadora dascrianças, cuidadora, portadora das emoções e do 6o sentido... Uma sensibilidade que sóela pode ter. E ao homem, seu oposto: produzir conhecimento. Ser forte, cheio de razão,nunca chorar (ao menos não ser visto chorando). Até os anos 50 do século XX, ohomem era alocado no espaço público, a mulher, no privado. O homem, o self-made-man. A mulher, a rainha do lar. Cada um com seu papel. E quem não tem papel, nasociedade não está. Minorias homossexuais, transexuais e travestis eram resumidos aoslivros de patologias e às ruas sujas e estreitas do esquecimento. O binarismo do gêneroinvalida completamente outras possibilidades de ser e estar no mundo que não sejamessas duas, homem e mulher. Ser homem, identificar-me com o masculino e gostar demulheres. Ser mulher, identificar-me com o feminino e gostar de um homem. E osentremeios? 23
    • Além dos estudos psicopatológicos, surgiram nos anos 80 e 90 os estudosQueer5. Estes foram empreendidos por autores como Judith Butler, Lauren Berlant,Michael Warner, e tinham como objetivo primordial desatar as categorias gênero, sexo esexualidade, com o interesse de observá-las de forma separada, desfazendo o ideal daheteronormatividade6 que guiava os estudos psicopatológicos. Inicialmente, a teoriaQueer se ocupou de comportamentos homoafetivos, porém logo se fez presente nocampo das transgeneridades, do cross-dressing, dos trânsitos de gênero, de sexo e desexualidade, pondo à prova até os termos “homem”e “mulher”. Os estudos queerrevolucionaram o modo de olhar para como se forma a identidade de alguém nosâmbitos citados acima, e influenciaram áreas do conhecimento diversas, como asciências psi, as ciências sociais, a história, o direito, e várias outras, mudando o foco dasdesigualdades entre os gêneros, como fazia o feminismo, para as vivências de pessoas. I.7. Atualmente: A Masculinidade em Questão Na época atual vigora a Pós Modernidade7. Não chegamos aos carros voadores,mas alcançamos uma sociedade em que os veículos motorizados são utilizados até parair à esquina. O consumo desenfreado é característica marcante nas relações e aquelesque não possuem meios de comprar o que querem quando querem, são jogados àmargem. Tudo pode ser consumido, desde máquinas de lavar até os “Identikits” comocita Oliveira(2004): “Se há problemas, ótimo, nós temos a solução! O mercado não tarda a oferecer seus préstimos. Quereis identidade? Oferecemos várias possibilidades em cores, diferentes tamanhos e para todos os bolsos. Identikits são oferecidos “sob medida”, atendendo a todas as diferentes individualidades, isto é, “personalizados”. Você pode ser uma mulher moderna, liberada, desembaraçada, ou então5 Queer pode ter vários sentidos na língua inglesa, entre eles, alegria e homossexualidade. Muitas vezes,esta palavra é empregada no sentido pejorativo, mas o intuito dos Queer Studies é exatamente utilizar otermo e tornar seu sentido como algo positivo, a ser admirado.6 Heteronormatividade significa segundo Maciel Jr.(2006), Heteronormatividade se refere a umaideologia que promove uma perspectiva convencional das relações de gênero e da heterossexualidade, euma visão tradicionalista da família, como a maneira correta das pessoas viverem.7 A pós modernidade, ou “modernidade líquida” segundo Bauman(1991), é o período logo após a quedado Muro de Berlim em 1991 que tem como principais características a ambivalência de valores sociais, asociedade individualista, capitalista, onde não há tempo suficiente para o estabelecimento de novosvalores pois estes “se dissolvem”, como afirma o autor, tão rápido quanto foram criados. Segundo Rossi(s/d), “na cultura pós-moderna, tudo é muita coisa, sempre é muito tempo; nada deve durar demais e cadaindivíduo é, por si só, autosuficiente, um conjunto já bem saturado de dilemas e insatisfações”(p. 5) 24
    • uma dona-de-casa responsável, ponderada, amável, ou ainda uma jovem romântica, antenada, sensível, e isso só para começar. Para os homens, temos o identikit magnata impiedoso, autoconfiante, empreendedor; ou o jovem intelectual, estudioso, doutorando, talentoso; ou ainda o pai responsável, educado, charmoso, mas ao invés de ser o pai responsável, temos o solteiro bom partido, atlético, sexy, macho de físico exuberante. Se não gostar de nenhum desses, pode-se fazer uma bricolage self-service, onde o cliente escolhe duas características de cada um e ele próprio compõe seu identikit.”(p. 133) A cultura tornou-se tão representada pelos meios de consumo que ela não sóajuda a vender mais, mas modifica em alguns anos a bagagem cultural de cada um. Nãoapenas as culturas são múltiplas, mas também fluidas, mutantes, o que traz ao homemcontemporâneo angústia e falta de identidade fixa, que lhe dê segurança. O mercado de trabalho é composto por homens e mulheres, ambos grandesusuários da tecnologia e julgados por sua performance e competência, mas as mulheresainda ganham menos que os homens, são tratadas como potenciais mães (como afirmaBeauvoir(1949), encerradas em seu sexo biológico), e passíveis de “mudançashormonais”, a TPM, sempre que reivindicam algo melhor, ou brigam por algum motivo,seja sobre o controle remoto da TV, seja por melhores condições de vida. E claro, quemnão cabe na definição homem ou mulher de forma bem dicotômica, não é nemconsiderado como parte da sociedade (isso afinal não mudou, transgêneros em geralcontinuam marginalizados e encerrados à escória da humanidade e aos livros dedegenerações mentais e físicas). Outra característica crucial de nossa sociedade é o individualismo: é difícil oenvolvimento amoroso ou afetuoso com algo ou alguém. E por não nos apegarmos,participamos de uma sociedade onde os valores são supérfluos, as relações superficiais,e o amor, algo que desperta medo, por mais que este seja ainda celebrado como ideal. Ofeminismo trouxe vários efeitos importantes para revermos as questões relativas àdesigualdade de gênero, a sexualidade, comportamentos masculinos e femininos. Mas amudança é individual e ainda não reverteu para uma sociedade mais igualitária ou justapara todos. Os direitos são usufruídos individualmente e os deveres são cobrados dessaforma também, então, nossa sociedade continua favorecendo uns e desfavorecendooutros de acordo com os critérios que poucos dela decidem. 25
    • Bauman(2007) comenta que nossa sociedade passou de estado “sólido” ao“líquido”, ou seja, “uma condição em que as organizações sociais (estruturas que limitam as escolhas individuais, instituições que asseguram a repetição de rotinas, padrões de comportamento aceitável) não podem mais manter sua forma por muito tempo (nem se espera que o façam), pois se decompõem e se dissolvem mais rápido que o tempo que leva para moldá-las e, uma vez reorganizadas, para que se estabeleçam.” (p. 7) Em alguns anos na história do ser humano houve tantas mudanças que malconseguimos nos adaptar psicologicamente a todas estas novas demandas, as quaiscontinuam muitas vezes permeadas pelos padrões antigos de modo imperceptível,presentes em como nos comportamos, e como refletimos sobre o mundo. A masculinidade então é percebida também nos dias de hoje como oposta ecomplementar à feminilidade: o masculino é viril, contém a força, dá grande valor àpenetração e à intrusão, é demonstrativo (no sentido que só existe ao demonstrar-se emrelações), se utiliza sempre da razão, acredita num poder centralizado (falo), situa-se nomundo público, possui iniciativa, preza a individualidade, a produção, a atividade e aagressividade. São estes valores que, de acordo com Maciel Jr. (2006) vão servir comomodelos do que os homens devem ser e como devem se relacionar, sejam eles homenstransexuais ou homens biológicos: o Gênero revela-se nas práticas e nos discursos, emanifesta-se por exemplo na relação do indivíduo consigo, com pessoas do mesmo oudo outro sexo, com os filhos, com a família, com a sociedade e suas normas, regras evalores, na vivência da sexualidade, etc. O homem deve mostrar ao espelho e ao mundoque é homem. Mas de que isso vale atualmente? Pode-se dizer por meio de Dorais(1988) que o homem cavou para si mesmo suacova; isso porque espera de si e dos outros o ideal de masculinidade, enquanto sóencontra masculinidades subordinadas, inclusive a sua própria: o homem não devechorar, mas sente e tem vontade quando passa por uma situação impactante em suavida; o homem tem que ser viril, mas não consegue ser potente o tempo inteiro emqualquer fase de sua vida. Ele deve ser o provedor, mas como se não consegue emprego,e sua mulher sim, ou se ganha menos que sua mulher? E nas relações amorosas, o 26
    • homem não pode se envolver? Tantos questionamentos devem deixar os homensconfusos... (nota da pesquisadora) A mulher não é mais o sexo complicado, frágil; eagora, quem poderá salvar o “homem desamparado”? Como afirma o mesmo autor: “Esta confusão e esta insegurança decorrem das transformações sociais e culturais que, em menos de trinta anos, produziram uma reviravolta nas principais fontes da identidade masculina. O trabalho, o poder, a família, e mesmo a aparência física e a sexualidade do homem se modificaram. Essas mudanças não apenas exigiram adaptações por parte dos homens, mas mudaram a própria noção de masculinidade” (p. 18) Outros pesquisadores como Maciel Jr.(2006) também percebem estas mudanças.Estudos diversos citados em sua tese de doutorado remontam um panoramacompletamente novo sobre os homens, principalmente por que antes de pesquisaremsobre a feminilidade e o gênero, nada haviam falado sobre a “nova masculinidade”, ecomo os homens se relacionam com ela. Quais as diferenças agora entre homens emulheres? Um pedestal tão avidamente construído pelos homens agora bate de encontrocom o das mulheres, se choca e se mistura em pedras ambíguas, não se sabe mais dequem é o pedestal, ou se ele ainda existe apesar dos escombros. Oliveira(2004) também ressalta a masculinidade atual como muito influenciadapor uma tentativa de desconstrução de valores antigos, inclusive a própriamasculinidade, o que resulta em um declínio nas classes médias e altas quanto aodomínio exercido. Isso por que existe uma luta às hierarquias no período da pós-modernidade (aliás, o termo pós-modernidade vem das artes, um período dedesconstrução do ideal do período perfeito na arte, para colocar as tendências lado alado, apenas diferentes), uma busca pelo consumo (reprodução) ao invés dacriação(produção), uma descentralização de poderes. Nesse estudo, espera-se compreender como se processam estas transições noâmbito pessoal e relacional tão cheias de expoentes e influências. Será a masculinidadeatual a mesma do passado, com uma roupagem mais “bonitinha” (mandando edesmandando com um terno Armani® e as unhas pintadas com base)? Ou as angústias econflitos tomaram este papel e transformaram os homens para sempre? Buscamoscompreender como se revelam as possibilidades de construção e expressão dasmasculinidades por meio de categorias de análise relacionais, ou seja, como discutimos 27
    • que a masculinidade é demonstrativa e é sempre negociada por meio da relação dohomem com outros objetos, inclusive ele mesmo, é importante observarmos como ela seexpressa em cada campo relacional (como ele se relaciona consigo mesmo, comhomens, mulheres, filhos, no trabalho, entre outros). 28
    • Capítulo II - Em que campos a Masculinidade se expressa? Estamos nos referindo nessa pesquisa a gênero, ao gênero masculino. Pedrosa(2009), ao discutir gênero, trabalha com a vertente comportamentalquando diz que são comportamentos reforçados através do convívio social que geram aidentidade de gênero. Então gênero referir-se-ia a vários comportamentos que,reforçados pela sociedade, dão origem aos papéis de gênero, feminino e masculino, quese modificam através do tempo de acordo com os comportamentos reforçados oueliminados. Hime(2004) também nos ajuda a entender o gênero quando afirma que “ogênero revela como as diferenças sociais se estruturam a partir das diferenças entre ossexos e como se atribui significado às relações de poder”(p. 7) observando assim comoMaciel(2006), Welzer-Lang(2004), Connell(2005) entre outros, que as relações sociaissão primordiais para a identidade de gênero, e que elas ditam muitas vezes comodevemos interagir com homens, com mulheres e com ambos. Barbieri (1990) afirma que o sexo socialmente construído, ou gênero é “En otras palabras: los sistemas de género/sexo son los conjuntos de prácticas, símbolos, representaciones, normas y valores sociales que las sociedades elaboran a partir de la diferencia sexual anátomo-fisiológica y que dan sentido a la satisfacción de los impulsos sexuales, a la reproducción de las especie humana y en general al relacionamiento entre las 8 personas” (p.100) Esta autora é importante, pois localiza a origem do gênero no corpo, comoBeauvoir(1949), e faz do gênero algo que se vincula às características corporais. Asmulheres, por causa da possibilidade de gravidez, do corpo propenso a armazenargordura em locais específicos, das mamas, etc, deve ter características femininas comoo cuidado, a passividade, e portando serão oprimidas pelos homens, que tem osmúsculos mais desenvolvidos, possuem um pênis de modo a penetrar, e portantooprimirão, serão ativos e se utilizarão da força e do poder que seu corpo lhes gera. É1 “Em outras palavras: os sistemas de gênero/sexo são os conjuntos de práticas, símbolos, representações,normas e valores sociais que as sociedades elaboram a partir da diferença sexual anatomo-fisiológica eque dão sentido à satisfação dos impulsos sexuais, à reprodução da espécie humana e em geral aorelacionamento entre as pessoas” 29
    • desse olhar unido às descobertas científicas que abstraímos que o conceito de sexo éconstruído através das características corporais sexuais primárias (pênis, testículos eútero, ovários) assim como secundárias (pêlos corporais, localização de gordura,aumento ou não de mamas, desenvolvimento muscular, etc). Essa visão é reproduzida em vários textos feministas e em textos científicostambém; até hoje, e essa é uma das teorias mais aceitas quanto ao início do conceito degênero: o corpo. Segundo a definição de Barbieri (1991), todas as sociedades, parasobreviver, precisam de mulheres em idade fértil. Como só elas são capazes de gerarvida em seus corpos, as sociedades lhes atribuem um poder. Este fato leva à necessidadede controlá-las sem, no entanto, destruí-las. Este controle se dá por meio da capacidadereprodutiva, da capacidade erótica e de sua força de trabalho. Assim, há umatransformação do pênis em falo, exato símbolo de poder, e um valor é colocado navirgindade, na infidelidade feminina, valorada de maneira muito diferente da masculina,considerada algo sem importância. Embora o corpo feminino e masculino possam dar eter prazer, apenas o feminino é considerado objeto sexual. E finalmente, a capacidade detrabalho feminina poderia dar às mulheres a autonomia necessária ao questionamentodas relações de dominação-submissão. Para esta autora, a partir das diferençasbiológicas constroem-se as desigualdades entre homens e mulheres. Para outros autores, como Kimmel, Connell, Maciel Jr. e Butler, o ponto departida é o social, arena onde se articulam as relações de gênero que veiculam o poder,sustentado pela criação de heranças biológicas, usadas para justificar as desigualdades.Mas como pessoas então podem ter gêneros e sexos diferentes? É a partir desta questão que Bento(2006) expõe um outro universo, seguindoautoras como Butler(1999) que questiona os entremeios do gênero: existem pessoas quenão são homens nem mulheres? Onde elas se localizam no espectro binário de gêneroconstruído pela nossa sociedade? Como podemos compreendê-los/as? Esta autora entãodesconstrói o gênero para então entender o que se passa para que sejamos masculinos oufemininos. Ela afirma por fim que, diferentemente de Barbieri(1991) e grande parte dasfeministas, o corpo não é a matriz do gênero e sim, valores sociais e constructos da falae da cultura que são a matriz de como vemos o corpo, e dessa forma, construímos nossavisão do gênero e do corpo. Isso significa que o corpo que conhecemos é permeado devalores, e são eles que nos fazem afirmar que um corpo é masculino ou feminino e quetambém se deve agir de modo feminino ou masculino. Por ser um constructo idealizado 30
    • pelo ser humano, o corpo e suas normas hegemônicas se modificam ao longo do tempoe do espaço e desta forma podem se modificar em relação ao momento histórico-social eo lócus geográfico. Essas normas, ou leis, como afirma a autora, se materializam nodecorrer de um processo, nunca de uma vez só, apenas no nascimento ou através de umritual. Mas também não é possível enxergarmos o corpo pelo corpo, sem as normas degênero, pois elas se constituem como um ideal hegemônico, e é muito difícil nosdesviarmos deste valor que nos é ensinado e que atuamos desde bebês. Bento(2006)afirma que “Quando o médico diz ‘é um menino/uma menina’ produz-se uma invocação performativa e, nesse momento, instala-se um conjunto de expectativas e suposições em torno deste corpo. É em torno dessas suposições e expectativas que se estruturam as performances de gênero. As suposições tentam antecipar o que seria o mais natural, o mais apropriado para o corpo que se tem”(p. 88) Também não é possível pensar que o corpo não influi no gênero, que ele écompletamente passivo em relação às normas sociais, e que estas não têm uma base nomundo físico. Mas a cultura se constrói como o corpo se constrói, e existe uma dialéticaentre as construções sociais sobre o corpo e o gênero, de forma que a materialidade docorpo também é capaz de produzir, além de reproduzir, como foi pensado por Beauvoir.Butler(1993) nos traz estas indagações e dessa forma é possível pensar no/a transexual,n@9 travesti, nos drag kings e drag queens como o faremos neste trabalho. Os estudos de gênero são deste século e muito se referiram às mulheres, aoshomossexuais, aos desviantes em geral e suas angústias, suas disfunções dentro de umasociedade que se baseia em uma heteronormatividade, onde o macho é divinizado pelassuas características inatingíveis. Por que então, agora, falar deste macho? Será que eletambém não tem funcionado dentro da lógica criada por ele e para ele? É importante também contextualizar os estudos sobre a masculinidade para queentendamos em que ponto estamos na pesquisa. O feminismo foi precursor nos estudossobre gênero e até se escrevia sobre as “hombridades” de forma escassa antes das9 O arroba, quando substitui a vogal de uma palavra que contenha como característica o gênero, tem comosignificado um gênero não conhecido, ou diferente do masculino ou feminino. Entre @s travestis, isso émuito comum, pois é falta de respeito na maioria do tempo chama-l@s de homens, e nem tod@s sereconhecem como mulheres, ou se percebem dessa forma. Por essa razão, a linguagem utilizada pel@smesm@s é essa, e aqui será reproduzido em respeito ao como el@s querem ser denominad@s, segundoconversas informais com estas pessoas durante os anos de 2008 a 2010. 31
    • feministas de acordo com Maciel Jr.(2006), mas até Nicole-Claude Mathieu, em 1971, oestudo das mesmas se resumia às mulheres; os desviantes eram o problema a ser“dissecado” como afirma Welzer-Lang(2004). Mathieu foi a primeira pesquisadora deque se tem notícia a propor que estudemos os homens tanto quanto as mulheres, poissendo ambos formadores de um sistema relacional, o estudo de uma categoria de gênerofica incompleto se deixarmos de estudar a outra. Como Cecchetto(2004) comenta, não é possível falarmos que o tema damasculinidade foi completamente esquecido antes deste século, mas é importante frisarque apenas um tipo de masculinidade não deixou de aparecer: o modelo hegemônico decada época. Porém a masculinidade como um todo ficou às escuras por tempo demasiadoapós Mathieu. Isso não quer dizer que não houve sociólogos, psicólogos, historiadores emédicos olhando para questões do masculino, porém este foram raros em comparaçãocom o florescimento dos estudos de gênero. Podemos citar algumas revistas comoTypes- Paroles d’hommes e Contraception Masculine- Paternité, e autores renomadosna década de 70 como Lefaucheur e Falconnet(1975), e no começo da década de 80,Emmanuel Reynaud e Guido de Ridder, além de Michel Foucault, Philippe Ariès, JeanGenet e Michaël Pollack entre alguns outros. Como foi dito por Maciel Jr.(2006), “Na segunda metade da década de 80, iniciaram-se estudos e pesquisas centradas no tema-questão dos homens e da masculinidade, tendo como característica principal a rejeição ao modelo tradicional vigente que interpretava a experiência masculina como a norma”(p. 10) Então, o homem não mais é um ser já prescrito, moldado como sendo agressivo,competitivo, caçador, dominador, entre tantas outras características que ele podeapresentar. Ele pode ser isso, mas pode também não ser. E foram estes estudos nadécada de 80 que começaram a perceber o homem e a masculinidade comopossibilidades diferentes e até excludentes em alguns casos, como podemos ver nosideais das mulheres e homens transexuais. São poucos os estudos sobre a masculinidadese comparados aos outros estudos de gênero, mas eles formam um panorama geral arespeito de quem são estas pessoas, mostrando as várias possibilidades do “ser” e do“tornar-se” homem. 32
    • Quando estudamos gênero, é imprescindível notar como as relações de poder seinscrevem entre as possibilidades de gênero, seja dos homens para com as mulheres,seja entre homens e entre mulheres, ou qualquer outra possibilidade. Como os estudosde gênero e mais tarde os men’s studies foram baseados com razão nessa desigualdade,porque ela existia, era perceptível e continua sendo através dos olhos de MacielJr.(2006), Welzer-Lang(2001, 2004), Hime(2004), Monteiro(1997) entre vários outrosautores, observar apenas as diferenças seria deixar de olhar uma das mais importantes:quem construiu a história até há pouco foram homens, e eles detém todo este know-how,em detrimento das outras formas de gênero, que andaram à margem dos livros e daHistória humana, deixando suas marcas em leves pinceladas através de olharesmasculinos. Uma característica da expressão da masculinidade é que diferentemente dasmulheres, os homens precisam provar o tempo inteiro que são masculinos, que cultivamestes ideais e valores, seja para si, seja para outras pessoas. Se o homem fraqueja emdemonstrar que é masculino, é como se esta característica se esvanecesse para fora de si.Ele reforça isso para seus colegas de sexo e também para as mulheres, dizendo o quedevem ou não fazer. Suas prescrições também são para si, para lembrar em toda equalquer situação de que é um homem, de que é forte, detém o poder, é racional, etc. Weininger, no começo do século XX, foi um dos primeiros a afirmar que estasconstantes demonstrações de masculinidade se deviam ao fato de um hermafroditismooriginal que faz com que o homem, diferentemente da mulher, tenha que diferenciar-seda mesma, se não seu “outro lado” transpareceria. Apesar de como via as mulheres,Weininger, segundo Cecarelli(1998), influenciou toda uma geração sobre a indefiniçãode gênero inata dos seres humanos, e sobre o fato da masculinidade não ser algo detidopelos homens, mas sim algo desejado e necessariamente inatingível enquanto ideal.Connelll(2005) então formula a possibilidade de várias masculinidades, todas passíveisde transformação ao longo do ciclo da vida, da sociedade em questão, da cultura, e ,principalmente, de como este homem se relaciona. Por essa razão, é impossível perceber a masculinidade e como ela se expressa senão está em relação, se não se expressa a algo ou alguém. Algumas categorias de análiserelacionais a seguir podem ser exemplificadas como portadoras das relações em que seinscreve a masculinidade, as quais estudaremos com mais afinco por meio dasentrevistas. 33
    • II.1. O homem consigo mesmo O homem demonstra a si que é homem. Quando olha no espelho, vêcaracterísticas que o fazem sentir-se masculino, de forma diferente das mulheres, comoafirma Beauvoir(1949) quando explana que a mulher foi presa em seu corpo de forma aser subordinada à razão masculina, em detrimento das sensações e sentimentosconsiderados ponto forte feminino. Connell (1995) comenta que ao olharem para seuscorpos, os homens esperam transpirar, inerentemente, sua masculinidade, que é algo deque não têm controle e que os liga ou desliga de certos comportamentos (liga-os àviolência, e desliga-os do cuidado com crianças, como exemplos). O corpo masculinopode ser observado de duas formas: por meio da ciência biologicista, onde o sexoproduz as diferenças de gênero (o homem tem um pênis e deve ser ativo, comopossibilidade desse pensamento) ou o simbolismo impresso no corpo por sua sociedadevigente (o homem é visto como o provedor, por exemplo, ativo, produtivo).Butler(1993) com sua teoria de gênero nos aprofunda na compreensão do homem demodo a percebê-lo como atravessado pelas regras sociais, pelos valores de umasociedade. Quando veste uma roupa, quando senta, quando fala, revela a si mesmocaracterísticas consideradas masculinas, e se mune consciente e inconscientementedestas em seus pensamentos e de como foi-se percebendo enquanto homem ao longo deseu ciclo vital; É dessa forma que um homem transexual sabe que é do gêneromasculino, por exemplo, pois sua identidade de gênero demonstra a si estascaracterísticas, relaciona-se com a maneira que ele se percebe, e não ao seu sexobiológico. Vamos entender então como se forma essa identidade de gênero, no geral. Helen Bee (2000), grande psicóloga desenvolvimental, afirma que para que umser humano tenha em sua identidade o gênero e o papel sexual, é preciso que ele possuaa constância de objetos, que ele perceba que ele é diferente do mundo e que permaneçano espaço e no tempo. Através desse processo, o bebê começa a ter um senso de eu.Mas não apenas isso; ele precisa dar qualidades a si mesmo, compreender-se comoobjeto no mundo, dar-se um gênero, um tamanho, um nome, além de outras qualidades.Essa segunda fase do desenvolvimento do Self começa com o bebê de aproximadamente21 meses e vai se moldando daí em diante, através da interação com o mundo doindivíduo. 34
    • Quanto ao desenvolvimento de gênero, este possui três fases primordiais: aidentidade de gênero, ou seja, o reconhecimento de homens e mulheres, inclusive a simesmo (que acontece entre 9 meses e 1 ano), a estabilidade de gênero que constituiuma certa constância do sexo durante a vida (ocorrendo por volta dos 4 anos) e enfim, aconstância de gênero, onde a criança geralmente reconhece que alguém não muda degênero ao usar roupas diferentes, que ocorre durante o 5º e 6º ano de vida. Quanto ao papel sexual, ou às performances de gênero, começam a ocorrer dos 18aos 24 meses de idade, quando os bebês começam a preferir brinquedos “femininos” ou“masculinos”. Ela ainda ressalta que meninos normalmente têm estereótipos de papelsexual mais rígidos e tradicionais que as mulheres, levando à hipótese de que ascaracterísticas masculinas de gênero são mais valorizadas e reforçadas em nossasociedade, e por isso, as características consideradas femininas em nossa sociedade nãosão alvo de desejo destes meninos, mas sim para as meninas, que flexibilizam mais seusestereótipos de gênero para que estas características também caibam em sua definiçãodos gêneros (existirão homens que gostam de se vestir de meninas também, usar o nomefeminino, ou até se tornarem mulheres, o que nos faz pensar que nem todos querem serpessoas com características masculinas, mas esta incógnita será resolvida em trabalhosfuturos.). Essa autora também comenta sobre crianças de sexo cruzado, citando John Moneyao falar que o gênero de criação da criança nutrirá sua identidade de gênero. Mastambém afirma que caso haja um desequilíbrio hormonal na mãe durante a gestação,isto pode gerar meninas com características mais masculinas ou meninos comcaracterísticas mais femininas. Até hoje, não firmou-se nenhum diagnóstico conclusivoa respeito do aparecimento de pessoas transexuais e, até este segundo momento,sabemos muito pouco como isso acontece. Mas nem pistas biológicas, nem pistassociais podem nos dar algo conclusivo sobre o tema. Mesmo assim, existem váriasteorias que poderão embasar nossa reflexão com as quais analisaremos os homens, e aprincipal neste trabalho será citada a seguir. Quando falamos de identidade de gênero, precisa-se fazer uma ressalva: nãopodemos considerar sexo como sinônimo de gênero; nem gênero como sexualidade.Quando alguém considera-se homem fisicamente, não necessariamente se considerarámasculino, nem muito menos terá uma sexualidade pré-determinada. Temoshomossexuais, travestis, transexuais, crossdressers, drag-kings e drag-queens (entre as 35
    • variedades de trânsitos de gênero, sexualidade e sexo) para provar que nestes trêscampos, nada é a priori, e as combinações originam um leque sem fim de possibilidadesde ser e estar no mundo. Os autores principais desta vertente teórica são Butler(1993),Scott(1990), Derrida(apud Bento,2006). É importante que se considere como aquele serhumano se constrói enquanto ser social que trará sua auto-imagem, como ele se vê ecomo se sente sobre isso, ou seja, como sua auto-estima se constrói e reconstrói aolongo do seu ciclo vital. Este ponto é fundamental para compreendermos a masculinidade, pois apesar denos situarmos em uma sociedade com concepções rígidas acerca do masculino, homenstransexuais e homens homossexuais são tão homens quanto homens biológicos ehomens heterossexuais e talvez esse seja o ponto de convergência mais gritante: “Eusou homem, ué...” Ademais, assim como Beauvoir afirma que mulheres não nascem mulheres,tornam-se mulheres, os homens negociam suas masculinidades a vida inteira, e setornam homens a cada momento em que vivem desta forma. Quando crianças, quandoidosos, quando adultos, os homens atuam diferentemente suas masculinidades eexercem seus papéis de forma diferente durante suas vidas, com o que concordamWelzer-Lang (2001; 2004) e Maciel Jr. (2006). O primeiro comenta sobre as relaçõesentre homens que chama de “a casa dos homens”: “Nessa casa dos homens, a cada idade da vida, a cada etapa de construção do masculino, em suma está relacionada uma peça, um quarto, um café ou um estádio. Ou seja, um lugar onde a homossociabilidade pode ser vivida e experimentada em grupos de pares. Nesses grupos, os mais velhos, aqueles que já foram iniciados por outros, mostram, corrigem e modelizam os que buscam o acesso à virilidade. Uma vez que se abandona a primeira peça, cada homem se torna ao mesmo tempo iniciado e iniciador.” (p. 3) E a cada etapa do masculino, assim como qualquer pessoa, ele ressignifica asépocas passadas e vê de modo diferente que tipo de homem quer ser no futuro.Pensando que existem vários tipos de homens em etapas diferentes e modos diferentesde exercer sua masculinidade, como estes reagem quando estão com outros homens? 36
    • II.2. O homem com outros homens A pergunta feita no subtítulo acima traz ainda mais dúvidas: como o indivíduopercebe outros do seu próprio gênero, objetivamente e subjetivamente? Onde e o queeles conversam em cada ambiente que freqüentam? Como estas relações se transformamao longo do tempo? Como é uma amizade entre homens? Como um homem deve agirquando deve dar um exemplo a um outro homem mais novo? E quando a relação seinverte? Do que eles tanto contam vantagem? E as competições intermináveis entrecolegas de trabalho, nos esportes, etc.? Como é a relação amorosa homossexual?Podemos ver que este tópico “dá panopara a manga” e muitas destas questõesvão ser respondidas de forma simplesdemais para as reflexões que elasoferecem. Mas vamos tentar aqui passarpor todas estas e quem sabe, ainda outrasque surjam pelo caminho... Os homens têm algumas relaçõescom outros homens autorizadas pelasociedade vigente e outras que não, masnem por isso deixam de fazê-lo. Oshomens podem ser pais, filhos, colegas detrabalho, amigos, competidores, inimigos,conhecidos, namorados, amantes. E comoafirma Connell (2005), essas Figura 2 – Homer Simpson, um personagem da televisãorelações podem se dividir em quatro com seu filho, Bart Simpson; a relação entre masculinidades é bem presente nesta série de televisão,grandes blocos: hegemonia, principalmente quanto à relação pai e filho, mas também asubordinação, cumplicidade e respeito do homem e como ele atua com outros homens.marginalização, cada qual com suas características principais: • A hegemonia ocorre quando uma forma de masculinidade é exaltada em detrimento de outras formas de masculinidades e formas de gênero, e é o tipo de relação mais comum e bem aceita na história da humanidade; depende da correspondência desta com ideais culturais e poder institucional. Tem como ponto chave a autoridade e às vezes a violência pode lhe dar suporte. A hegemonia 37
    • masculina pode muito bem ser erodida por outras formas de gênero e, portanto, se altera. Um exemplo de masculinidade hegemônica através dos tempos é o homem branco heterossexual machista. • A subordinação existe em razão da hegemonia, e tem vários efeitos sociais, como a baixa auto-estima destas pessoas, a violência e humilhação verbal e física para manter os subordinados em seu lugar, a discriminação de forma negativa de suas características, apesar de haver outras que se encaixariam no perfil hegemônico (como a discriminação econômica). Podemos citar como exemplo histórico de masculinidade considerada subordinada os homossexuais, os homens negros, os homens transexuais, homens com deficiências físicas e mentais, entre muitos e muitos outros (veja bem, se um tipo de masculinidade é hegemônica, neste momento, todas as outras são subordinadas). • A cumplicidade é a relação em que não se exerce poder sobre outras pessoas, existe um mútuo acordo entre as partes e não se pensa muito sobre o modelo hegemônico de masculinidade, mesmo que ele exista e influa nessa relação também. É onde o respeito e a amizade podem estar, como na relação entre pai e filho, e exige profundidade. • A marginalização é a relação em que mesmo que os grupos subordinados possam trazer características boas, eles não serão inclusos na masculinidade hegemônica. Exige a autorização do grupo a ser marginalizado. Então, através dessas relações, cada um dos tipos de vínculo que estes homensformam pode ser diferente. Um homem pode namorar outro homem e mantê-losubordinado a ele, ou pode ser cúmplice e viver um relacionamento entre iguais. Outro autores como Williams(1985), falando sobre a amizade entre homens,comenta que as relações de poder permeiam muito estas amizades, e que têm muitomais a ver com possuir um grupo que o apóie caso se sinta ameaçado do que dividirconfidências ou se sentir bem quando seus amigos estão lá. Demonstrar intimidade seriaentão algo a se fazer a uma mulher e de preferência na cama, nunca com um colegahomem. Williams também comenta que dependendo do quão feminino ou masculinoum homem for, isto varia, pois os nos padrões femininos de amizade incluem-se aintimidade e a liberdade de expressar sentimentos. Já Migliaccio(2009) e Kimmel(2000) percebem que os modos como vemos aintimidade estão extremamente ligados à intimidade feminina, sendo esta a única forma 38
    • de afeto considerada na maioria das pesquisas de gênero. Estes autores consideram queo modo masculino de demonstrar afeto existe e é diferente do feminino e, portantomenos observável (não estão olhando para onde deveriam olhar, em outras palavras).Isto significa que homens têm amizades plenas, dividem intimidades, fazem coisasjuntos, mas têm maneiras de fazê-los diferente das mulheres. Cecchetto(2004), no Brasil, ao observar as “galeras” do funk no Rio de Janeiro,nota que existe grande companheirismo entre membros de comunidades amigas,servindo a lógica “quem é inimigo do meu inimigo, é meu amigo”. Os “sangue-bom”são aqueles em quem se pode confiar para entrar em conflito conta inimigos, chamadosde “alemães”. A luta em facções organizadas do crime os une e a lealdade os mantémamigos. Mas a competição de força física existe entre membros da mesma facção,mesmo que por motivos de afirmação. Aliás, como foi dito anteriormente, um dos valores de demonstração damasculinidade, não apenas a outros homens, mas também a outras formas de gênero éexatamente esta auto-afirmação de características ditas masculinas por umamasculinidade que escapa ao ser homem em qualquer momento, como diz Welzer-Lang(2001). Isso nos ajuda a responder a primeira questão: como eles se vêem mutuamente?Objetivamente, homens parecem ter richas com outros homens, brigam por status socialde forma a atingir a masculinidade hegemônica, aquela da racionalidade, da não-demonstração de sentimentos, da busca por grandiosidade. Porém se observarmos maisa fundo, homens tem relacionamentos duradouros de amizade, dividem seussentimentos, e não vêem qualquer homem como um competidor por presas fáceis(outros homens, mulheres, etc). Mas isso não quer dizer que baixem a guarda quandoestão com estes colegas de gênero, ou muito menos quando falam deles. Acredita-se queesta seja uma dificuldade metodológica de uma entrevistadora mulher, visto que é difícilinfiltrar-se nas relações masculinas quando a abertura é escassa, mas falaremos mais arespeito da metodologia no próximo capítulo. Quanto aos temas sobre os quais conversam em cada ambiente em que estão, estesdizem muito a respeito de como são os vínculos estabelecidos. Importa tambémconsiderar os locais que os homens freqüentam e se outras pessoas de gêneros outrostambém se encontram ali. Quando se pergunta a respeito do que se conversa, a respostairá depender muito dos gostos pessoais do grupo e do momento histórico e social, e 39
    • normalmente se discute poucos temas, mas todos eles a fundo, em extensão. Emconversa a respeito das relações entre homens, um homem conta que “80% do que seconversa entre homens é bobagem: é futebol, vídeo-game, mulher; o resto você tem queprestar atenção, se não cai no conceito do cara.” Outro comenta que futebol e negóciossão temas recorrentes. Ainda outro, comenta que assuntos recorrentes são o trabalho enegócios, carros, notícias, política e mulher (principalmente os atributos físicos) e quecom cada homem se conversa a respeito de um assunto; existem assuntos a se conversarcom cada amigo, e o vocabulário é tão próprio que ao verem uma mulher ou alguém dehierarquia diferente, as palavras a serem empregadas em certas situações são outras. Como estas relações se transformam ao longo do tempo? Welzer-Lang(2001) vaicomentar que a cada época da vida de um homem, o interesse nas relações homem-homem vai se alterando, modificando-se de acordo com as necessidades que aspermeiam. No caso de um adolescente que tem um grupo de amigos homens, a relaçãoque mantém será de um companheirismo e competitividade, de forma a dar mais levezaaos vários rituais da idade. Já os relacionamentos entre homens em idade produtiva serámenos vinculativa, visto que estes homens muitas vezes já têm um par (sexualmentefalando, seja de qualquer gênero), e já não comentam tanto a respeito de sentimentos,família ou assuntos mais íntimos com estes colegas ou amigos. Quanto aos idosos,podemos pensar que como suas ansiedades em relação à morte e à solidão sãoemergentes e muitas vezes transbordantes, os amigos são grandes alicerces para umavida plena. Já quando pensamos nas relações sexuais entre homens, podemos pensarque a idade e o contexto proximal e distal em que se passam estes relacionamentostambém influi nas características dessas relações. Relacionamentos entre homens maisjovens normalmente envolvem o sexo como característica primordial; járelacionamentos de homens mais velhos, ou entre casais, tem mais a característica decompanheirismo, cuidado de um pelo outro, amizade, e sentimentos relatados de afeiçãoe amor, além da honestidade de poder demonstrar quem se é para outrem. Leon10, um homem transexual de 35 anos que freqüenta o CRD (Centro deReferência da Diversidade de São Paulo o qual também é freqüentado pela autora desde2008), relata em conversa que suas experiências de relacionamentos amorosos foram tãodiversas que ele namorou travestis, homens e mulheres e comenta que com um@travesti que namorou, a relação baseava-se em uma troca muito grande, pois “El@ tinha10 Os nomes foram trocados em respeito ao sigilo de identidade. 40
    • o que eu queria para mim, e el@ queria o que eu tinha. Foi um relacionamento muitointenso.”. Kulick(2008) afirma que @ travesti não tem apenas atributos femininos, mastambém masculinos, houve uma relação entre masculinidades, assim como entrefeminilidades, e isso trouxe uma troca muito grande. Márcio, outro homem transexual de 40 anos palestrante em um simpósio arespeito de homens transexuais, comenta que como os outros como ele fazem questãode mostrar-se sempre como homens, másculos, heterossexuais, hegemônicos, muitospreferem esconder seu gosto por homens, principalmente no Brasil. Já no exterior, contaque é bem diferente: homens transexuais “saem do armário” também, e temrelacionamentos duradouros com outros homens. Como um homem deve agir quando deve dar um exemplo a um outro homemmais novo? E quando a relação se inverte? Vimos no capítulo passado que dos séculosVII a III a.C., mais precisamente em território grego, a educação era passada de umhomem mais velho para um mais novo e isso parece se repetir nos dias de hoje. Quandoum homem entra para comunidades com grande concentração de pessoas homoafetivascomo bares, clubes, restaurantes, etc., habitualmente um homem mais velho iniciará ummais novo, irá seduzi-lo e mostrará como ele deve fazer, se portar naquela comunidade. Aos seus filhos, o homem comumente procura ensinar os valores damasculinidade hegemônica, de forma que eles reproduzam os valores que lhe foramensinados mas, como afirma Dorais(1988), estes ensinamentos em momento algum temo afeto demonstrado ou misturado a eles. Mesmo que o homem sinta grande amor porseu filho homem, terá dificuldade de falar sobre tal sentimento com o rebento, oudemonstrá-lo com abraços, beijos e carinhos, como já consegue com suas filhasmulheres. Isso de certa forma pode gerar rebeldia, profunda tristeza, carência de afetoou mesmo retaliação relativa à função paterna por parte destes filhos, e gerar escaraspara o resto da vida destes homens. Além disso, os conflitos são constantes entre pai e filho pois existe tambémgrande necessidade dos pais e dos filhos de se auto-afirmarem enquanto homens, o quesignifica que pode existir uma relação mais turbulenta do que com uma filha mulher,por exemplo. Existe grande identificação entre um e outro, o que gera desconforto, porexemplo, quando seu filho faz algo de não-masculino (hegemonicamente falando),como tornar-se amigo de várias mulheres, não é o “macho-alfa”, e a mesma coisa ocorrede filho para pai. 41
    • Como afirma Dorais(1988) “A ausência, a frieza, às vezes a brutalidade, eis como é, frequentemente, a atitude dos pais em relação aos filhos. As reações destes últimos não se fazem esperar” (p. 68) E essas reações muitas vezes são retroativas ao pai; se o pai é ausente, o filho, porexemplo, poderá fazer de tudo para chamar sua atenção, seja fazendo algo que eledetesta, seja se auto-destruindo com drogas, seja se tornando igual a ele. E essa relaçãopoderá se repetir quando os filhos forem pais, porque não houve um modelo positivopara estes filhos. Loureiro(2009) explica que até há pouco tempo atrás, a função parental eraincipiente, e começou a ter importância para a educação dos filhos na sociedadeburguesa. Anteriormente, o valor que cabia ao homem era basicamente continuar sualinhagem de sangue e de nome (coisa que até hoje é um constructo social importantepara várias culturas). Essa função exige cuidado e dedicação por parte deste homem e por isso, muitospais abdicam dessa tarefa quando são inseguros demais para exercê-la, por falta dematuridade ou por não conseguir lidar com o relacionamento amoroso com a mãe dacriança, o que pode gerar dificuldades ainda maiores. Lembremos também que só porque uma pessoa contribuiu para o espermatozóide que gera um ser humano não significaque será pai deste indivíduo, que atualmente existem várias formas de ser pai, biológico,padrasto, avô, entre outros, e que aqui, tentaremos falar de pais que tem relações sociaiscom seus filhos, que os encontram com freqüência razoável. Outro aspecto importantíssimo a ser focado são as competições: estas ocorremfreqüentemente entre homens, pois é preciso provar e demonstrar, existe umanecessidade de se auto-afirmar crucial às relações entre homens, sejam elas quais forem.Alguns indivíduos falam que isso é divertido, que é uma forma de interação, dá“emoção” às relações. Outros sofrem muito com isso, é uma pressão constante por partede pais, amigos, colegas e de pessoas que nem se conhece. É inegável o fator de união que as competições propiciam. Homens jogam futebol,brigam por uma hora e meia a fio, se batem, xingam um ao outro, e depois saem todosjuntos para beber cerveja e comentar o jogo. Competem acerca de notas na escola, comquantas mulheres eles transaram naquele mês, quantos homossexuais eles agrediram.Quantas regras quebraram em suas casas, quantas vezes eles traíram suas esposas. 42
    • Quantas doses beberam naquela festa, como são muito melhores no xadrez e no gamãoe como ganham muito mais que o outro. Qualquer assunto é fonte de competição, e issoé visto como atributo masculino hegemônico por quase todos os homens. Aqueles quenão gostam de competir, ou de demonstrar sua superioridade em algo costumam sairperdendo prestígio, serem colocados no “saco” dos “maricas”, “bichinhas”, “frangotes”,etc. Estes, como se sentem? Este grupo de homens, ao não compartilhar de certos interesses que são discutidosentre homens, são discriminados, considerados medrosos e representantes demasculinidades subordinadas. Um homem que não entende nada de futebol, ou nãogosta de enganar mulheres, ou que não abomina os homossexuais pode ser excluído dosgrupos sociais se não fingir nem um pouquinho que concorda com seus interlocutoreshomens. Existe grande parcela de sofrimento nisso, pois lutar contra seus preceitos paraser aceito socialmente é uma faca de dois gumes. Como um homem se sente quandodeve fazer isso para ser considerado um bom pai, um camarada, “sangue-bom” em suacomunidade? Connelll (2005) comenta que na ótica capitalista em que vivemos, derivada deoutras épocas apontadas no capítulo anterior, é impossível que não haja competidorespor todos os lados, desde o trabalho, até como se vive na família. O filho algum diasubstituirá o pai, como ele um dia o fez com seu pai. Se você não for competente obastante, seu trabalho será ocupado por alguém que faz a mesma função e ainda pedemenos dinheiro. A competição se reflete em todos os cantos, e as relações entre homensnão haveriam de ser diferentes. Pensando em pesquisas sobre masculinidade, é impossível esquecer que o homem,em sua grande maioria, escolhe o palavreado com o qual falará com o seu interlocutor,os assuntos e como ele irá falar. Como disseram à autora em conversas informais, amaioria dos homens fala com outros homens sobre futebol, negócios, mulheres e carros,quando muito. Não há grande expressão de sentimentos na maioria do tempo. Seperguntarmos a uma mulher, ela não falará com uma amiga sobre seus sentimentos seela não for confiável, nem se estes forem intensos demais para que sejam partilhadosnuma conversa comum. Será que quando um homem não fala sobre seus sentimentos,isso significa a mesma coisa, que ele não confia na maior parte de seus colegas de sexo,e que a intensidade de seus sentimentos é demais para ser compartilhada em um bate-papo simples? Será que a intenção masculina de não expressar seus sentimentos tem 43
    • algo a ver com o poder e a racionalidade que tanto são culpados por tornar como valoreshegemônicos? Isso nos dá a oportunidade de discutirmos sobre suas relações com asmulheres, como eles percebem suas diferenças (se é que elas existem) e como estessentimentos vem à tona com elas. II.3. O homem com as mulheres Sou mais macho que muito homem! (Rita Lee, PAGU) Os homens da sociedade ocidental, depois do apogeu grego, se diferenciaram deum espécime humano que só servia para parir filhos, cuidar de crianças pequenas, nãoera capaz de amizades e não tinha o intelecto desenvolvido pois era como se fosse umhomem defeituoso. Hoje a masculinidade sofre grande mudança em relação a este serdiferente, diabólico porém angelical, amoroso porém traiçoeiro, competente tantoquanto ele em basicamente tudo. O homem por muito tempo foi hegemônico, teve podertotal sobre o mundo público, sobre a produção da história da humanidade. Hoje, ele temuma companheira para isso. As mulheres são atualmente a maior força de trabalho, lutaram contra osestereótipos de gênero e abalaram o mundo com o feminismo. Ruíram as antigascrenças sobre a procriação, sobre a maternidade, sobre a feminilidade, a sensibilidade eos modos de ser no mundo. E de meio século para cá, nada as detém em suadeterminação pela igualdade, além do Tchan11 e as novelas de alguns canais que teminteresse na mulher do passado cheia de bloqueios, romântica sem noção de realidade,que pertence aos homens (primeiro ao pai, depois ao marido), é passiva e se mantémcalada às atrocidades que as vezes sofriam e sofrem impostas por homens. Aliás, deacordo com a Fundação Perseu Abramo em 2003, 43% das mulheres brasileirasafirmam já ter sofrido alguma violência por parte de um homem, mas apenas 19%11 Grupo musical dos anos 1990, onde a mulher é tratada basicamente como um objeto de desejo, vesteroupas curtas de modo a mostrar a maior parte possível do seu corpo sem chocar as mães de família eseus filhos, que na época dançavam “hits” como “Na Boquinha da Garrafa” e “A Nova Loira do Tchan”.Este grupo musical influenciou muitos outros e influencia até hoje grupos do tipo musical Axé e do FunkCarioca com a visão da mulher como objeto útil apenas para o prazer sexual. 44
    • afirmam sem alguma estimulação a respeito do tema, o que significa que muitas aindacontinuam quietas a respeito deste assunto. Estas novas mulheres alteraram completamente o ideal de masculinidadehegemônico até então, tornando alguns outros ideais importantes: a sutileza, asensibilidade, a flexibilidade. Hime(2004) afirma que as diferenças entre homens emulheres vem se estreitando em seus relacionamentos amorosos, e outros campostambém agora possuem maior gama de mulheres, como o trabalho, a pesquisa científica,o mundo público em geral. Em compensação, cada vez mais homens entram emprofissões ditas “femininas” (enfermagem, psicologia, pedagogia, entre outras), cuidamdos filhos, tem relacionamentos plenos com mulheres, sejam elas suas mães, amigas,filhas ou esposas, contam de seus sentimentos a elas, sentem-se à vontade em ambientesditos anteriormente como femininos. Vale afirmar que, apesar disso, a desigualdade ainda existe e é perceptível, que asmulheres ainda são segregadas em grupos de profissões consideradas femininas, aindaganham bem menos que os homens, são desconsideradas ou rechaçadas em váriassituações do mundo público como a política e o setor industrial de trabalho, aindasofrem preconceito se inovam em suas áreas, ainda são ligadas primordialmente ao seucorpo através da maternidade e da beleza física, mas isso tudo é bem mais sutil do queera há 50 anos. Alguns homens se sentem à vontade na frente de mulheres, pois elas não irãojulgá-lo tanto se ele não agir da forma masculina hegemônica como outros homens ofariam. Ele pode deixar a máscara de lado e falar de suas conquistas homossexuais, decomo é apaixonado por uma pessoa, de como sua mãe lhe dá nos nervos, de como MPBé inteligente e sagaz (com palavras que ele leu, mas dificilmente usa com outroshomens) ao invés do Heavy Metal que ouve com os colegas, de como um livro o fezchorar às pencas pela morte do pai das crianças da história... Ele pode demonstrar outrolado de si, um lado desconhecido de outros homens. Mas também pode gritar, bater, estuprar, demonstrar que é superior, que doma etem o poder sobre aquela vida. Pode ser ciumento com elas até depois da morte dasmesmas, ou até depois de sua morte, com juramentos para evitar que a mulher secasasse novamente. Pode prendê-las, impedi-las de trabalhar, fazer monólogos sem fimsobre assuntos que não as interessam, ter preconceitos, ser machista também. Isso nosfaz perceber a ambivalência das relações entre homem e mulher que é até hoje 45
    • escancarada: um homem tem o direito ainda de fazer o que quiser com sua esposa? Asleis dizem que não, mas ele o faz. Ele pode ser amigo de uma? Sua cultura pode dizerque não, mas mesmo assim ele também o faz. O que tornam as relações entre homem emulher tão especiais que elas quebram regras sociais, que fogem dos estereótipos degênero (para o bem ou para o mal, do feminino e do masculino)? De que forma asmulheres influenciam no comportamento masculino? Mulheres também podem sermasculinas, e homens, femininos? Como são estas relações ao longo da vida de alguém,como elas ocorrem no tempo e no espaço? Como os homens pensam das mulheresquando estão com elas e quando estão com outros homens? A diferença de gênero nos é instalada antes mesmo de nascermos, quando existemprevisões sobre qual será nosso sexo. Se o médico diz que será uma menina, pronto: oquarto, as roupinhas, até boinas de bebê serão róseas, roxas, e se nossos pais forem umpouco modernos, quem sabe um branco ou amarelinho. E vice-versa com os meninos. Oultra-som, como afirma Bento(2006) é prescritivo, não apenas descritivo, como haveriade ser, e transforma a vida do pobre ser antes mesmo que ele respire fora de um útero.Estas normas, que nos são impostas desde o momento que somos um feto até o dia denossa morte, moldam também nossas relações com nosso sexo e com o sexo oposto. Desde quando colocamos crianças para brincar, seus modos de comunicação sediferenciam, as brincadeiras são diferentes e somos colocados para não gostar do sexooposto; ainda. Meninas e meninos têm rixas sobre como fazer as coisas, os penteados,as roupas, o modo de agir e se portar perante o outro. Meninas pulam amarelinha, ficamconversando, jogam elástico, cantam cantigas femininas ao pular corda, têm suasbonecas que cuidam como suas filhas. Meninos jogam futebol, têm bonecos de heróis ebrincam de lutinha, de bandido e ladrão, de animais ferozes que têm de ser domados, decarrinho. Relacionamo-nos muito bem com pessoas do mesmo sexo, temos váriosamigos, mas do outro... Até nossos 8 ou 9 anos, as relações entre meninos e meninas éturbulenta, cheias de brigas e derivam em muitos puxões de cabelo, pontapés earranhões, com algumas raras exceções. Mais tarde, os puxões de cabelo e os arranhõesserão por outros motivos (e não necessariamente entre meninos e meninas). Alguns anos são suficientes para que as relações entre homens e mulheres sealterem. Mais uma vez as normas de gênero irão ditar como devemos agir: como doispólos que se atraem, como yin e yang, como chave e fechadura; encaixando-se. Muitosirão concordar com este esquema: o diferente me trará mais que o igual, o que 46
    • significam amizades mistas, namorados e namoradas. Outros perceberão que as normasde gênero são restritas demais para sua existência, e irão ficar com pessoas do mesmosexo, como no subtítulo anterior foi comentado. Outras, ainda, ficarão com pessoas, nãose preocupando com o gênero que apresentam. Cada um, nesse aspecto irá se relacionarde uma forma. Mas falemos um pouco sobre o relacionamento amoroso heterossexual eseus desdobramentos como o casamento. O amor romântico é um valor que reverbera até hoje em nossa sociedade, e ébuscado por grande parte das mulheres e alguns homens, nem que seja de formainconsciente. Somos influenciados desde os contos de fadas até os filmes dramáticos,dos livros de amor até as novelas dos horários nobres da televisão. E é um desejo derealizar-se por completo em uma única relação amorosa, onde os dois são feitos um parao outro, que serão felizes para sempre. É um valor que constitui-se, segundoHime(2004) de crença em uma universalidade (ou seja, o mesmo amor ocorreu antes eagora, não é possível fugir do “verdadeiro amor”), de um sentimento involuntário eincontrolável, impossível se desvencilhar, e indispensável para a felicidade, uma vidasem amor nada seria. Porém, estes valores são todos constructos sociais, mutáveis através do momentohistórico e social, e portanto, a época atual influi e muito em como vivenciamos o amor.Depois da década de 50 do século passado, com adventos como a pílulaanticoncepcional, o casamento e o amor não são mais focados na reprodução, emulheres, assim como homens, podem vivenciar o prazer da sexualidade e do amor semter que se preocupar com terceiros resultantes da relação. Além disso, como anteriormente havia grande preocupação em manter ashierarquias de gênero, a relação entre homens e mulheres era vivenciada com certaviolência e desprezo por parte dos homens em relação às mulheres, o que atualmente seatenuou devido à busca pelo fim destas hierarquias, através do feminismo, pelas iguaisoportunidades entre os gêneros e pela oferta e procura do mercado de trabalho porcaracterísticas humanas diversas, sendo elas consideradas femininas ou masculinas.Para uniões entre os diferentes sexos esta preocupação também alterou muito ascaracterísticas dos interesses entre as partes que as integram. Isto decorre de o homemter perdido seu valor como único provedor, e a mulher não necessariamente irá quererfilhos, ou se envolver emocionalmente, como quase sempre era a regra. 47
    • Até o final do século XVIII, o casamento entre pessoas de sexo diferentesdissociava amor da sexualidade. Hoje, isso é praticamente algo impensável. Até osanos 60, o casamento era indissolúvel, hoje ele é tão fluido que não dura nem até os doisdizerem “eu aceito”. As relações eram hierárquicas e pendiam positivamente sempre aomarido. Hoje, se uma mulher não está feliz com seu casamento, ela divorcia-se semgrandes delongas. Mas algumas coisas mantiveram-se: o casamento significa aconstituição de uma família e a transmissão de valores sociais. Existindo grandesinfluências cristãs em nossa cultura, o casamento ainda é visto como uma união que temsempre como resultado filhos. Casais que não conseguem ter filhos e preferem nãoadotar ainda são recriminados, mesmo que de modo mais velado que meio século atrás. Quanto às amizades entre homens e mulheres, é possível também observargrandes mudanças. Como Kimmel (2000) relata, até há um século atrás, acreditava-seque apenas homens eram capazes de ter amizades plenas, sendo valores primordiais naamizade a bravura, a lealdade, o heroísmo e o dever. A intimidade não era um valorimportante, pois era considerado que esta forma de se relacionar era restrita àsexualidade e ao amor entre homem e mulher; nem à amizade com elas este valor eraatribuído como positivo. Porém, com o advento do feminismo e pelas lutas por igualdades de gênero, aintimidade se tornou algo positivo, e até foi discutido que o homem não conseguiria teramizades plenas porque não possuiria intimidade com seus amigos, esta sendo umacaracterística considerada puramente feminina. Porém, como este mesmo autor afirma,como houve uma feminização do conceito de intimidade, e da amizadeconseqüentemente; esqueceu-se de observar a amizade de um homem com outra formade gênero que não fosse irreal pela falta de uma intimidade que ele não pôde aprenderpor não ser do sexo feminino. Isso significa que não necessariamente um homem nãoserá intimo com seus amigos, apenas o demonstrará de forma diferente, como foidiscutido no subtítulo anterior. Em conversa, um homem comenta que quando está “batendo papo” com outroshomens e uma mulher entra na roda, o assunto, o palavreado, as entonações e as visõesde mundo mudam abruptamente. Mais uma vez percebe-se que dependendo de seupúblico, um homem modificará o jeito e o assunto que comunica para adequar-se àsituação. Com mulheres, não haveria de ser diferente. A masculinidade hegemônica, aopreservar a racionalidade como valor primordial, irá fazer com que aquele homem meça 48
    • as palavras que irá usar com a mulher com a qual conversa, e isso influi não apenasquando se fala de amizade, mas também quanto à colegas de trabalho, conhecidos,pessoas na rua, etc. O modo como elas influenciam o comportamento deles dependerámuito da relação estabelecida, mas não há dúvidas que mulheres mudam ocomportamento masculino, estejam elas presentes ou não no momento em que eleinterage com o mundo, pelo menos nos dias de hoje em nossa sociedade. O homem com sua mãe, no começo de sua vida, a terá como ponto de apoio eestrutura emocional para suas outras relações com o mundo. Ela é importantíssima paraele neste momento da vida e o será também até a sua morte, tanto que o piorxingamento a se fazer a um homem é falar de sua mãezinha querida. Ela é vista emgrande parte das vezes como assexuada, angelical e partidária em seu favor, uma grandeajudante nas questões emocionais pelo menos até o casamento heterossexual. Em casosde homens homossexuais, esta mulher será de grande importância na decisão ou não decontar ao mundo sobre a sexualidade, e ela será de grande influencia sobre a auto-estima destes homens, e principal fonte de apoio ou desprezo em caso de homens emulheres transexuais, sendo elas as que normalmente respeitam (em detrimento dospais) e ajudam no apoio emocional necessário à transição das performances de gênero,como afirmam Carvalho, Lopes e Ghetler(2008), onde as entrevistadas dizem que suasmães são em grande parte colaboradoras emocionais e modelos de conduta moralcruciais à uma transição menos turbulenta, como é o caso de C.M., P.M. e A.S., pessoasque compartilharam suas histórias nessa pesquisa destes autores. Se pensarmos a respeito de como os homens se relacionam com mulheres,também é de suma importância pensamos como é a relação destes homens com asexualidade, seja ela com homens e mulheres, quais as diferenças entre osrelacionamentos hetero e homossexuais, por que esta diferença é tão marcada e influitanto no comportamento relacional entre os sexos, sendo de forma tímida como notrabalho, seja pronunciadamente como no relacionamento amoroso. II.4. O homem com sua sexualidade Pensando em como o homem se relaciona com sua sexualidade, várias questõesvêm à tona, como bombas de um campo minado, prestes a explodir à menor pressão, oucomo ilhas desconhecidas, esperando serem descobertas. Por que este campo relacional 49
    • atrai tanto os olhares dos pesquisadores e quanto mais trabalhos são feitos a respeito dosexo, mais parece que nada sabemos sobre ele? E de que forma ele pode ser tãoperigoso que desperta hordas de fúria ao ser levemente tocado? Nesse subtítulo,exploraremos como a construção e a expressão da sexualidade por homens se dá, quaissão os momentos mais importantes para a sexualidade de um homem, sejam de escolhada sexualidade, conflitos como a impotência, crises como amor e sexo, e de que modosão enfrentados (ou não) pelos homens. Também tentaremos trabalhar como asexualidade deixa suas marcas na masculinidade, e como as relações de poder seenvolvem aí. Além de tudo isso, o que é relevante neste âmbito para um homem, e oque ele preza em uma relação sexual, seja com homens ou mulheres, e o que lhe dáprazer nesta área. Mas antes de nos envolvermos com a sexualidade masculina, é importantecontextualizarmos a sexualidade em si, em que momento histórico-social ela se encontraem nossa sociedade e no que isso altera o imaginário social não apenas a respeito destetema, mas como estabelecemos relações com o mundo a partir disso. Nossa sociedade valoriza muito o sexo, a consumação carnal do desejo sexual, eesta valoração não é novidade em comparação com épocas anteriores. A grandediferença é o propósito da união sexual e a visão desse ato impossível de ser esquecidoquando falamos de humanidade. De acordo com Eisler(1996), a sexualidade na idade dapedra era algo crucial para a organização das sociedades, pois a união entre os sexosaproximava os seres humanos da natureza, e portanto, das divindades criadoras. Aliás, amulher era extremamente valorizada, sendo a vulva, a vagina e o útero muitas vezesrepresentados em templos antigos para demonstrar a possibilidade de criação e de gerara vida da qual a mulher era capaz. Estas representações se repetem em todos oscontinentes datando desde oito mil anos a.C. até pouco depois do nascimento de Cristo,em várias culturas, da Índia à Romênia, da França à América Latina. Era comum aalusão destes templos à sexualidade, ao prazer sexual, aos comportamentos quelevassem aos relacionamentos entre corpos e almas de homens e mulheres, ambosnecessários para a ordem social. Aos poucos, em prol de uma cultura de dominação, o prazer e a igualdadepresentes em culturas não tão destoantes da nossa, como afirma a autora, se tornaramuma forma de chegar ao inferno. O prazer sexual foi eliminado em favor de umasexualidade com fins apenas reprodutivos, reprodutores de uma sociedade onde o 50
    • gênero feminino foi retirado de uma posição igualitária para se tornar escravo pormuitos anos dos desejos masculinos. A mulher de três gerações anteriores à nossa nãopoderia ter prazer algum nas práticas sexuais, o sexo necessariamente deveria sernormatizado pela religião e mais tarde, pela lei e favorecia, necessariamente, o homemna relação. Essa dominação permanece até os dias de hoje, e a sexualidade é um doscampos onde a dominação entre os gêneros mais explicitamente aparece, desde revistaspornográficas até o próprio ato. Como afirma o já mencionado Kimmel (2000), em nenhum outro campo seobserva mais as diferenças entre os gêneros que na sexualidade, principalmente em suaanálise sobre o século passado. Apesar de todas as barreiras às mulheres para suasexualidade (não para o seu corpo, como afirma Beauvoir (1949)), os homens eramencorajados a entrar em contato com esta possibilidade relacional o mais rápido quepudessem depois do período da infância. Pais levavam seus filhos em bordéis para quese iniciassem sexualmente com 11, 12 anos, enquanto torciam e controlavam o quantopodiam para que suas filhas não deixassem sua virgindade antes do casamento, ondeoutro homem tomaria conta da sexualidade de suas filhas. E mesmo que nossa sociedade tenha mudado bastante em suas atitudes perante osexo, os pensamentos em muitos casos continuam os mesmos. O homem que tem váriosrelacionamentos sexuais é um garanhão, um verdadeiro macho, enquanto uma mulherque faz o mesmo é considerada uma “vadia”, uma “cadela”, não é mais uma dama. Elasdevem esperar por um príncipe encantado, enquanto eles devem nunca sê-lo. Acredita-se em metáforas como “os homens são de Marte, as mulheres de Vênus”, e até há poucotempo atrás acreditava-se que mulheres unanimemente eram anorgásmicas. É evidenteque elas eram, apenas 30% das mulheres conseguem ter um orgasmo através dapenetração, e 59% das pessoas não acredita que o sexo possa ser mais que isso: chave efechadura. O sexo oral? Bobagem. Anal e masturbação? Pecado! E as preliminares?Bah, coisa de maricas... Por causa destes pensamentos que a mulher teve quemasculinizar-se para conseguir obter prazer sexual. Ela teve que se tornar a caçadora, transar com quantos homens quisesse, sercompetitiva no mercado de trabalho, dominar ao invés de ser dominada. Um exemplomuito interessante desta mudança feminina é o filme “Down with Love”, do diretorPeyton Reed; o enredo trata de um livro escrito pela protagonista vivida pela atriz RenéeZellweger que incentiva as mulheres a tomarem conta de suas próprias vidas, 51
    • satisfazerem seus desejos sexuais com quem quiserem, e comerem chocolate caso sesentissem sós. Por trás de seu livro, vive uma mulher frustrada por um desafetoamoroso, que decidiu se vingar de todo e qualquer homem. Para isso, decidiumasculinizar suas atitudes no âmbito comercial e sexual, mas que no fundo, quer seapaixonar e ter um final feliz. Como grande parte dos filmes holywodianos, o final delaé feliz, mas muito nos faz pensar sobre como queremos o comportamento sexual dosseres humanos: ele deve ser dominador e hierarquizante, seja do lado dos homens, sejado lado das mulheres? Ou deve ser algo que acrescente, trazendo prazer e satisfação àtodas as partes envolvidas? Logo feita nossa rápida contextualização de como andam os rumos da sexualidadeatual, vamos entender como a sexualidade masculina vem se expressando, assim comosua construção ao longo do ciclo vital. Assim como dito anteriormente, a sexualidadepor parte dos homens é algo realmente importante para sua auto-afirmação comomasculinos durante a maior parte de suas vidas. Na infância, como afirma Bee(2000), criamos nossas performances de gênero, eassim como Pereira(2005) completa, descobrimos nossa sexualidade na adolescência.De acordo com o segundo autor, a orientação sexual é definida multifatorialmente, porcaracterísticas hormonais pré-natais, pela genética e por fatores ambientais inclusive. Na adolescência, aprendemos muito sobre o comportamento sexual com nossasexperiências e através da instrução escolar e familiar (quando ela existe), nosinteressamos mais neste novo mundo que se abre a nós, e dessa forma muitas formas deperceber o mundo nesta época se modificam drasticamente. Como afirmaKimmel(2000), o modo como aprendemos sobre a sexualidade é diferente para cadagênero, e isso se expressa nas fantasias sexuais, nos objetivos da relação sexual, nomodo como conceituamos o sexo e como cada um lida com este tópico tão importante.Para os homens, as fantasias sexuais são baseadas normalmente em situações compessoas desconhecidas ou atrizes/atores, são bem descritivas e, como um filme, a cenatem um começo, um meio e um fim. A forma de escolher o outro com o qual ir-se-áfantasiar tem como critério primordial as características físicas, e pouco se sabe sobre oambiente onde a cena acontece ou os sentimentos envolvidos, além da excitação sexual. Como continua o autor de “The Gendered Society”, os homens consideram terfeito sexo com alguém principalmente o ato da penetração e do orgasmo, enquantotodos as outros comportamentos envolvidos com a sexualidade, como sexo oral, 52
    • carícias, tomar banho juntos, entre outros, como “preliminares” e não contam pontosaos seus colegas de gênero, aos quais irá contar como foi de modo a ser aprovado porestes colegas, e não pela parceira, necessariamente. O objetivo principal da relaçãosexual para o homem consiste então no orgasmo, e não no prazer que a situação lhecausa enquanto está no ato. Antes de aproveitar ter beijado a moça, ele já planeja emcomo tirar a blusa dela, e ela, ao invés de também aproveitar o momento de intimidadecom ele, pensa se irá deixá-lo seguir adiante. Outra característica comentada pelo autor diz respeito à linguagem de trabalhoutilizada no ato sexual, como “dei conta do recado” ou “cuidei do serviço”, assim comoa nomeação do pênis como “Long Tom”ou no diminutivo de seu nome, como se esteórgão tivesse uma própria personalidade. Kimmel(2000) comenta que esta é uma formade se distanciar emocionalmente da sexualidade, ao nomeá-la como um objeto. Alémdisso, a sexualidade masculina normalmente é considerada falocêntrica, ou seja,centrada no pênis, o que explica muito bem o motivo do foco dos mesmos napenetração e o cuidado com esta parte do corpo com nomes específicos, asseio, fixaçãoem tamanho e forma do mesmo ao invés de outras partes do corpo que tem a potênciade serem erógenas também, como o são para a maioria das mulheres. A sexualidade é para a masculinidade como a farinha é para o bolo, éextremamente importante em sua estrutura e isso pode ser evidenciado quando algo dáerrado, existem problemas de disfunção erétil, ejaculação precoce, por exemplo. Omesmo autor relata que quando estes casos acontecem, não apenas a sexualidade éenvolvida nesse momento, mas também de modo às vezes mais gritante, a identidade degênero, pois estes homens relatam não se sentirem mais “tão homens”, não conseguiremdar prazer a uma mulher, e se sentirem inferiores a outros homens. Quando se fala em sexualidade, é impossível deixar de falar na sua influência namasculinidade em homens homoafetivos. Se pensarmos de acordo com o senso comum,homens homossexuais possuem laços estreitos com a feminilidade, e mulhereshomossexuais, com a masculinidade. Ora, se isso fosse a realidade, o gênero estariaintimamente ligado à sexualidade assim como suas performances na sociedade. Homenshomoafetivos, de acordo com Michael Kimmel, possuem as mais altas taxas deparceiros sexuais enquanto mulheres homoafetivas, as menores taxas. Como tambémafirma, homens heterossexuais tem mais parceiras sexuais que mulheres, o que nos fazpensar no comportamento sexual masculino a respeito da poligamia. Homens homo ou 53
    • heteroafetivos possuem as maiores taxas de parceiros sexuais, então não há muitadiferença em questão de quantidade. Quanto à igualdade entre os parceiros, os casaishomoafetivos conseguem atingir escores bem maiores que os casais hetero. Se falarmostambém de experiências sexuais que não penetração, os casais homoafetivos tambémganham na disputa, pois conseguem construir uma maior intimidade com seus parceiros. Quando pensamos no homem idoso, se ele chega a essa idade(pois de fato a taxade mulheres que sobrevivem para chegar na velhice em nosso país é consideravelmentemaior(para cada 100 idosas, existem 81,6 idosos de acordo com o censo do IBGE de2000, sendo que as mulheres vivem em média 8 anos a mais que os homens de acordocom o mesmo censo), a sexualidade não é um tema de discussão em muitos casos, poiso imaginário social nos traz a imagem do idoso como assexuado em muitas situações.Se associarmos com o fato de que a sexualidade masculina se resume muitas vezes àpenetração, será comum fazer a ponte disfunção erétil = não-sexualidade. Além disso,como esta geração é mais marcada com valores a respeito do sexo apenas dentro docasamento, é complicado, depois de viúvo, um homem querer outro/a parceiro/a,mesmo que isso aconteça em maior proporção que as mulheres viúvas. Ademais, nossasociedade preza em excesso a beleza do jovem, e o idoso fica na desvantagem nesteaspecto. Financeiramente, ele também não é nenhum Don Juan, pois a aposentadoriapaga muito pouco no Brasil. Porém muito destes pré-supostos vem mudando ao longo dos anos. Com algumas“pílulas azuis” e o controle pela medicina moderna da hipertensão e diabetes, muitoshomens podem ser sexualmente ativos até muito depois da andropausa12. Não apenasisso, mas é importante lembrar que nem todos os homens passam pela andropausa, emuitos mantêm o apetite sexual até seus 80 ou 90 anos. Mesmo sendo esta uma geração marcada pelo forte apelo religioso e portantomenos propensa a casar-se novamente, muitos homens já tinham relações com outrasmulheres ou homens que não sua esposa antes de que esta morresse, então, eles sãomuito mais propensos a encontrarem novos/as parceiros/as depois da morte do cônjugedo que mulheres da mesma idade. Isso acontece inclusive pois o status, o charme, a12 Acredita-se que em torno dos 50 anos, grande parte dos homens perde o apetite sexual que costumavamter anteriormente por mudanças hormonais decorrentes do envelhecimento, como a diminuição deandrógenos como a testosterona. Além disso, devido à problemas circulatórios, muito comuns nesta idadee nas próximas, homens tem maior dificuldade de produzir ou manter uma ereção completa e existemvários outros sintomas relacionados à andropausa, como irritabilidade, aumento da gordura abdominal ediminuição da quantidade de cabelos no corpo. 54
    • experiência e o poder são atributos valorizados em um homem mais que sua belezafísica, o que para a mulher é o contrário, e estes tem um maior espectro de pretendentesnesta idade do que estas por serem mais valorizados, segundo Costa (2008). É essencial quando exploramos sexualidade masculina citar o poder que éenvolvido não apenas na relação sexual, mas também no vínculo criado por estasrelações. De acordo com grande parte dos estudos a respeito dos homens,(Maciel Jr.(2006), Welzer-Lang (2001,2004), Oliveira (2004), Dorais (1988), entre outros) asexualidade é uma forma de auto-afirmação e poder muito importante na constituição damasculinidade. Isso porque a mesma se forma a partir de valores como a atividade emdetrimento da passividade, a imposição de poder e a hierarquia. A atividade em detrimento da passividade se expressa na sexualidade, poisaquela/e que é penetrada/o é percebido como passivo, enquanto aquele/a que penetra épercebido como ativo na relação sexual, de forma a permitir a atividade àquele queimpõe e barrar com a passividade aquele que permite uma intrusão. É inclusive deacordo com essa concepção que Kimmel (2000) comenta que algumas feministasdiscordam da possibilidade heterossexual pois seria “aceitar a imposição masculina emdetrimento da liberdade de performance de gênero feminina”. Quando se pensa dessaforma, a sexualidade da forma como o homem a impõe é sexista e reproduz adesigualdade de gênero, principalmente porque a sexualidade não apenas se resume àsquatro paredes (ou não) da relação sexual. A conquista, por exemplo, é uma forma deexercer a sexualidade; o homem precisa conquistar, e a mulher, ser conquistada, e se umdos dois não cumpre bem seu papel nessa “disputa”, são desconsiderados pelos seuscolegas de gênero. A pornografia também é um bom exemplo de como a sexualidade exercita aimposição de poder. Segundo Eisler (1996), as produções pornográficas mantém aimagem da mulher objeto, a “gostosa” que serve quase como um prato de comida queacabou de sair do forno. Além disso, os homens devem estar sempre prontos a manter aereção por horas e massacrar a tudo e a todos, homens ou mulheres, inclusive mutilandoos órgãos, humilhando física e psicologicamente, mostrando uma brutalidade típica deum animal. Mas ele é humano. Assim como todos os personagens e produtores destesfilmes, revistas, animes, essas criações são humanas, e representam o imaginário socialsobre o sexo. Não apenas isso, mas de acordo com Kimmel (2000), a primeira figura dosexo oposto nua vista por homens normalmente é pornográfica e é dessa forma que eles 55
    • conhecem a sexualidade: através de exemplos violentos, que depreciam as outras formasde gênero. Quando falamos de hierarquia, vemos um sistema vigente em nossa sociedade:alguns mandam, o resto obedece. Isso seria interessante se o papel feito por ambas aspartes fosse considerado como importante para o crescimento daquela sociedade, masnão o é. O chefe é aquele que possui o poder, e os empregados, aqueles que para possuiralgum poder também, se submetem ao poder do chefe. E o vínculo entre masculinidadeshegemônicas e outras formas de gênero não é diferente, segundo Welzer-Lang (2004),mantendo como às desiguais classes sociais, as desigualdades de gênero. Como pudemos ver, a sexualidade é crucial para entender como a masculinidadese expressa. Mas pensando na sexualidade, e então casamento, e relacionamentos deafeto, grande parte das pessoas pensará em... filhos! Vejamos no próximo subtítulocomo essa relação se expressa. II.5. Do homem com seus filhos O homem atual não tem mais a função singular de trazer dinheiro para casa. Dealgumas décadas para cá, mais homens se preocupam em cuidar afetivamente de seusrebentos, observar seu crescimento, dar conselhos e sugestões aos mesmos a respeito davida e do mundo, coisa que quando foram filhos, muitos destes pais não puderam ter. Segundo Kimmel(2000), de 1650 até antes da revolução industrial, o homemassim como a mulher tinha obrigações com o lar, como cuidar e educar filhos homens,limpeza, etc. Seu horário de trabalho respeitava mais o horário da família e este era maisdividido entre o homem e a mulher. As decisões a respeito da escolha marital eramnormalmente feitas através do afeto e não mais pela linhagem familiar, e issocolaborava para um relacionamento mais igualitário entre o casal e entre pais e filhos.Este marco levou o homem a sair de casa para trabalhar muito mais do que era oesperado, e a mulher se resumiu ao mundo privado do lar. Os homens não maiseducavam as crianças ou ajudavam em casa, esta era uma função agora feminina,enquanto o papel de pai cuidador se tornou cada vez mais apagado da vida familiar. Na década de 50, o homem era apenas encarregado de suprir a família com bensmateriais, enquanto a mulher ficava em casa preocupada com a educação dos filhos. Eleera obrigado a produzir riquezas, e não tinha tempo para ajudar na reprodução devalores e na percepção de como era a vida dos seres humanos que tinha posto no 56
    • mundo. Muitos pais se arrependem de não ter podido ajudar seus filhos em váriassituações, e muitos filhos, que atualmente são pais, sentem falta de um direcionamentopaterno. Ruitenbeek(1967), um autor que retrata a masculinidade já na década de 60,afirma que a dominação das mulheres do mercado de trabalho muda drasticamente afunção do homem na sociedade, e faz observações de que esta mudou para pior, gerandoconfusão e discórdia. Se o homem não será o provedor, não é mais quem decide ascoisas, não controla a família e não mais pode reproduzir valores de imposição da forçafísica, como ele deve reagir à estas forças destruidoras de sua masculinidade, como arejeição de valores masculinos e a retomada de dignidade feminina? O autor comenta arespeito do homem norte-americano: “Uma nova masculinidade para o homem não demanda a potência sexual em si mesma ou a exibição de qualidades masculinas, mas requer, nas décadas vindouras, um senso de decisão, escolha, tranqüilidade, calma e paz consigo próprio. Não nos devemos iludir com a idéia de que os problemas do homem americano contemporâneo se podem resolver recorrendo-se aos preceitos; em última instância, só se pode resolver pela renovação do homem e pelo redescobrimento do seu senso de dignidade”(p. 196) Este teórico dirá que não adianta retomar os princípios básicos da masculinidadede forma a reaver seu poder, é preciso refazer a masculinidade, mudá-la de modo a usara potência sim, mas não do jeito com o qual ela era utilizada. Mas não é errado pensarna dominação masculina e na sua dignidade vinda desta dominação. Não seria a auto-afirmação o caminho (mesmo que no final, acabou sendo o ocorrido, visto que oshomens continuam demonstrativos a respeito de sua masculinidade, e atos são muitomais que pensamentos quando se fala no comportamento masculino, de acordo comMaciel Jr.(2006), mas sim a tomada de rédeas de seu próprio destino(e dos outrostambém). Mas outras coisas aconteceram desta época para cá. Com a demanda do mercado de trabalho por mulheres em vários cargos, e arevolução sexual dos anos 60, mais homens começaram a exercer a função paterna docuidado dos filhos, da preocupação com a educação destes. Isso ocorreu por conta devários fatores: segundo Dorais(1988), os homens não mais são considerados osprovedores, pois cada vez mais, os dois cônjuges trabalham, e não mais o homem, comoacontecia anteriormente. Isso significa maior renda em menos tempo de trabalho do 57
    • casal. A primeira coisa que é verificada a partir disso é um maior contato destes homenscom a vida privada, antes monopolizada pelas mulheres. Eles são obrigados a trocarfraldas, arrumar a casa e se envolver emocionalmente com sua família, não apenasmonetariamente. Além dos casais, que são atualmente uma parcela muito menor da populaçãoeconomicamente ativa do que se era anteriormente, os solteiros têm que aprender acozinhar, arrumar suas casas, limpar banheiros, passar roupas e cuidar de seus filhos derelações diversas. Segundo o senso do IBGE de 2000, 24% das famílias sãomonoparentais no Brasil, ou seja, 24% das famílias brasileiras são formadas ou pelamãe, ou pelo pai. Estes homens, separados de suas ex-esposas, solteirões, homoafetivos,assexuados, tem que cuidar de crianças de seus casamentos antigos muitas vezes, poisnem sempre a guarda destes será materna atualmente, podendo ser compartilhada ounão. E ainda existem aqueles que adotam, pois querem realmente fazer parte daeducação de uma criança e amá-la, mesmo se não podem gerá-la, não convivem comuma mulher que queira gestar ou são homoafetivos. Segundo Costa(2005), as brigasatuais por adoções para casais homoafetivos estão se tornando cada vez mais comuns noBrasil e no mundo, sendo este um assunto que vem revolucionando a instituiçãofamiliar nos vários campos que ela abrange. A definição adotada nessa pesquisa a respeito de parentalidade vem deLoureiro(2009), quando fala que “Existem importantes trocas entre o cuidador e quem recebe o cuidado e é no cuidar que se estabelece o vínculo, a forma primeira de se envolver com a criança, numa relação em que as emoções não ficam de fora e que propicia os subsídios necessários para a criança desenvolver as competências de explorar o mundo.(...) O cuidado envolve o atendimento das necessidades básicas promotoras do desenvolvimento, sociabilidade, além da sobrevivência da espécie, respeitando aspectos da inidividualidade. O cuidador é, pois, a figura que supre, dá limites e socializa, e a relação pais-filhos é construída no dia-a-dia, nas pequenas coisas, no vivenciar de atividades rotineiras, com tempo para o filho e com a atenção voltada para ele.”(p. 26,27) Feita esta rápida contextualização, algumas questões vêm à baila: como é ocuidado feito por homens de filhos e filhas e como fica a função materna com este 58
    • homem com um papel diferente no sistema familiar? Vamos tentar abordar estas duasquestões neste subtítulo e entender um pouco mais da função paterna. Kimmel(2000) irá comentar que mesmo hoje em dia, os pais passam pouquíssimotempo com seus filhos, e o cuidado é crescente de acordo com a idade da criança.Poucos pais acompanham seus filhos durante a pré-escola, porém muito entendem oquanto ser pai é mais importante atualmente do que era no passado e que muitos sãomais atuantes do que seus próprios pais, o que significa um avanço no ideal da funçãopaterna. Complementar a isso, Costa(2002) afirma que o papel da paternidade é muitoimportante para a reafirmação do homem enquanto masculino. Isso porque amasculinidade hegemônica é constituída através da virilidade, que tem como uma desuas faces conseguir produzir filhos, e a moralidade, que vai exigir deste pai que eleeduque e sustente este filho. A honra também está envolvida nesta questão, de modoque se enreda na relação de cuidado com seus filhos. De acordo com uma aula dada porElizabeth Brandão em 201013, o pai tem função primordial em desfazer a relaçãosimbiótica entre mãe e filho/a e introduzir a criança no mundo da cultura. Isso significaque o pai não deveria ter a função passiva de educar seus filhos, mas deveria seenvolver ativamente na tarefa, de modo a: a) Deixar que a mãe possa voltar ao papel de mulher, de alguém que tem necessidades além de suprir as do bebê; b) Trazer à criança novas experiências, incluindo-a na realidade e “cortando o cordão umbilical” da criança com a mãe, assim como introduzindo esta criança no mundo desejante; Isso significa que assim como a mãe, o pai tem funções muito importantes para odesenvolvimento do bebê, e elas são necessárias para a boa adaptação deste nasociedade. Mas quando os filhos crescem sua função não deixa de ser importante. Alémde prover, junto com a mãe atualmente, o sustento, a escolaridade, todos os custos deuma criança, e até adolescente, ele tem a função de prepará-lo/a para o mundo exterior.Deve ensinar coisas a respeito da vida do trabalho (não que a mulher não possa fazê-lo,mas o homem tem como valor construtor de sua identidade o trabalho, coisa maiscomplementar à mulher, em alguns casos.), da vida sexual, especialmente para seu filho13 Elizabeth Brandão é professora no Núcleo de Psicodiagnóstico na Pontifícia Universidade Católica deSão Paulo. 59
    • homem, como sua filha deve agir se um homem tentar qualquer coisa sexual com ela(desde a piscada do outro canto da sala até como dizer não em uma situação de coação). “Quando minha filha de 15 anos me pergunta se pode sair com um garoto,pergunto quem ele é, o que faz da vida, sua idade, onde eles vão, e fico torcendo queseja um cara boa pinta, que não a machuque. Sabe como é, né, a gente sabe como osoutros homens são... Já com meu filho, se ele vai sair, só falo para ele se divertir, e nãovoltar muito tarde... Sei lá, a gente tem medo de que aconteça algo com a menina, jácom o menino, não tanto” , falou um homem de 49 anos, em conversa informal com apesquisadora. E realmente, o tratamento de filhos e filhas é diferente, segundoFlood(2007). Este autor afirma que com seus filhos, o homem tende a exigir os valoreshegemônicos da masculinidade, de modo a prepará-lo para o mundo fora do micro-cosmos familiar, então exige dele uma postura de decisão, força, astúcia, eheterossexual principalmente, mas o modo como o homem irá criar seu filho dependemuito de sua própria masculinidade, esta ligada à masculinidade hegemônica, comodiscutimos anteriormente. As brincadeiras com meninos, segundo Kimmel(2000) sãomais cheias de regras e utilizam mais a força física, como lutas de brincadeira, o própriofutebol, entre outros. Já com sua filha, (esta relação é menos estudada como afirma Flood(2007) devidoao pouco valor dado à filha na sociedade patriarcal), o pai tende a dar mais limites econtrolar para que a menina siga mais um comportamento respeitável a uma mulher, deacordo com o que ele acredita que seja este comportamento. Pais acreditam quemulheres são mais delicadas e gentis, e a doçura e comportamento cooperativo são maisreforçados por estes. A importância do pai atualmente é vista como crucial à família como um todo,pois diminui a carga das mulheres no cuidado da casa e do trabalho (Double Shift),aumenta o contato dos filhos com a realidade masculina e une mais os laços de afeto ecompanheirismo desta organização sistêmica. Vamos no próximo subtítulo falar umpouco mais sobre esta complexa gama de relações que nos ensina sobre nosso papel nasociedade, do qual o homem não deve estar alienado: a família. II.6. Do homem com sua família A família, como descrevem Souza & Norgren (2002) contribui para a organizaçãosocial e cultural por meio dos cuidados com os filhos e da transmissão de valores. Ela 60
    • envolve pessoas em um mesmo ideal, ela é uma rede de relações costuradas pelagenealogia, a conjugalidade, convivência com outras pessoas e sua ajuda mútua, seja elaafetuosa, seja por laços de sangue. Como explicita Macedo (1994) apud Souza &Norgren (2002), “a família é vista como o primeiro espaço psicossocial, protótipo das relações a serem estabelecidas com o mundo. É a matriz de identidade pessoal e social, uma vez que nela se desenvolve o sentimento de pertinência que vem com o nome e fundamenta a identidade social, bem como o sentimento de independência e autonomia, baseado no processo de diferenciação, que permite a consciência de si mesmo como alguém diferente e separado do outro” (p. 12) A família sofreu várias mudanças desde a década de 50, pois o modelo de famíliada época despendia muito esforço de todas as partes envolvidas: a esposa deveriaarrumar a casa, cuidar dos filhos, manter-se no mundo privado do lar, ou seja, nãopoderia trabalhar. O homem, contrário à esposa, deveria servir de provedor da casa, evez ou outra levar o filho homem para fazerem atividades juntos. Também era ele quemimpunha as regras da casa, mesmo que a mulher as fizesse cumprir. As criançasdeveriam apenas estudar, obedecer e aprender muito bem aquela dinâmica familiar, paraque um dia pudessem reproduzi-la. Este modelo de família logo se dissolveu por exigir uma postura muito rígida dosseus participantes, e pouco tempo depois, com a revolução sexual, a onda de divórcios,a gigante quantidade de famílias sem os pais, a delinqüência juvenil (inclusive retratadamuito bem pela história da música na época, que até os anos 50 tinha como hits cantorescomo Frank Sinatra, dançarinos como Bing Crosby, e que já na década de 60 tinha o“rei” Elvis Presley, os Beatles e o começo do rock’n roll, música altamente contestadorados valores sociais até hoje, e que na época lutava contra esta maré de racionalidade aossentimentos e sensações, inclusive sexuais, dos jovens.), pais alienados da vida comseus filhos, mulheres infelizes com sua posição doméstica, o “american way of life” setransformou em apenas mais uma das formas do sistema familiar. Kimmel(2000), ao fazer um histórico da família, comenta que esta nos anos 70 e80, era muito mais resiliente por formarem-se não pela conformação “perfeita” daesposa – marido - casal de filhos – cachorro, mas por respeitar a diversidade de pessoasenvolvidas no contexto familiar, que tinha mais o intuito de apoio psicológico além da 61
    • transmissão de valores. Os papéis de gênero eram mais flexíveis, pais conseguiampassar mais tempo com seus filhos e as mães poderiam se empenhar mais em suas vidasprofissionais. Além disso, com conhecimento sobre a sexualidade e sobre controles denatalidade, o casal poderia se enredar mais no relacionamento e ter um nível maior deintimidade. Foi um pouco antes desse período, em 1969, que a população de lésbicas e gays“pôs sua cara a bater” para a sociedade, de acordo com Jagose(1996), e trouxe suas lutaspara as esferas públicas e políticas. Como ela cita, não era apenas o movimento gay quetinha objetivos diferentes para a sociedade mais conservadora da época, mas sim todauma contra-cultura baseada em novas formas de viver na sociedade, como o movimentohippie, o movimento dos negros e sua reivindicação por melhores condições de vida eoutros ativistas que muito influenciaram a organização familiar no mundo e no Brasilinclusive, moldando nossos ideais a respeito desta instituição até hoje. O Brasil é um país onde a família é uma instituição fundamental para explicarmossua estrutura e isso ocorre devido à fundação de nossos valores no patriarcado14,exercido e reverberado na mente brasileira em vários âmbitos da vida pública e privada.Na família, isto é percebido na autoridade paterna altamente evidenciada, presente àsvezes na autorização dada pelas mulheres. Segundo a pesquisa a respeito da mulherbrasileira da Fundação Perseu Abramo lançada em 2003, ainda 30% das mulheresacreditam que nas decisões importantes, é justo que o homem tenha a última palavra,24% pensam que a mulher deve satisfazer o marido sexualmente mesmo se não temvontade e 11% concordam que se a mulher trair o marido, é justo que o mesmo bata naesposa, o que representa que ainda estes valores permeiam muito nossa sociedade, deforma direta ou indireta. Além disso, uma discussão iniciada no subtítulo anterior aqui se torna muitoimportante: a instituição familiar vem passando por alterações extremamente bruscas,como o aumento do divórcio, os recasamentos, a homoparentalidade, e muito dadinâmica familiar vem se transformação desde a ida das mulheres em massa para omercado de trabalho. Mais homens tem se embrenhado nos afazeres domésticos, assim14 O patriarcado, ou patriarcalismo, segundo Oliveira(2004) caracteriza-se por ser um sistema onde aautoridade masculina se sobrepõe à mulher e aos filhos no âmbito familiar, de forma violenta muitasvezes. Para que isto continue ocorrendo, o patriarcalismo deve fazer parte de outras instituições também,como os meios de trabalho, do consumo, da política e da cultura. É importante citar que por mais que asconstituições familiares tenham se alterado muito nos últimos anos, o patriarcalismo ainda é retomado noideário social nacional. 62
    • como muito mais mulheres passam seus dias trabalhando, e isso inclusive altera tambémo cuidado e a transmissão de valores para as crianças na família. Inclusive, com o êxodorural que ocorreu no Brasil nos anos 60, estas dinâmicas se transformaramdrasticamente. Segundo Kimmel(2000), muito mudou no papel do homem na família, mas poucoa respeito das tarefas domésticas. As mulheres continuam tendo que arcar com estasresponsabilidades, ainda que trabalhem, e poucos homens realmente ajudam nas tarefasdo lar. Isso no Brasil também é verdadeiro, pois de acordo com a pesquisa de 2003 daFundação Perseu Abramo, 96% das mulheres (avós, mães e filhas) fazem os afazeresdomésticos, enquanto apenas 3% das mulheres entrevistadas não têm nenhum trabalhoremunerado. A masculinidade tem se mostrado bem resistente a adentrar e vivertambém no mundo privado. Como vimos nos relacionamentos explicitados anteriormente, a relação com osfilhos, com um/a esposo/a, com a sexualidade, e com a sociedade, como falaremos maisadiante, estarão presentes na relação que o homem estabelece com sua família. É comela que ele percebe seu lugar na sociedade, e é com ela que ele fundamenta suaidentidade social, onde ele ensaia seu contato com o mundo onde vive. A família, comoinstituição reprodutora de valores, reproduz as dinâmicas de gênero, e é isso que temoscomo base para esta relação presente na masculinidade. Muitos pontos serão abordados neste subtítulo: como o homem define sua família,como ele percebe sua função neste enredamento, quais os papéis que deve exercer sendoeste homem avô, pai ou filho, como acha que as outras pessoas da constituição familiardevem agir perante ele. Quais as principais transições familiares que o homem vivencia,e como isso ocorre? Como ele lida com as crises envolvidas neste sistema? Como ohomem se relaciona com sua família gera muito mais questões, mas tentaremos nos atera estas neste momento. Para grande parte dos homens, a família é onde ele se situa enquanto serrelacional, desde criança, quando relaciona-se com seus pais e irmãos até quando avô oubisavô. Sua função enquanto homem é demonstrar aspectos da masculinidadehegemônica em todas as fases da vida, que serão reforçadas quando o indivíduo écriança, copiadas quando o indivíduo faz a função parental, e estáticas e imutáveisenquanto idoso. Mas dentro da família atual, grande parte das mulheres detém ocontrole sobre regras e educação dos filhos. Ora, elas assim o foram até meados da 63
    • década de 60, como as coisas mudariam tão rápido? Vale apenas ressaltar o queHime(2004) comenta em sua tese de Doutorado: a subjetividade das pessoas não avançana velocidade da realidade, e os indivíduos demoram a se acostumar psicologicamentecom novos pressupostos, tecnologias, verdades e situações de seu mundo cotidiano. Por exemplo, ainda acredita-se que o homem deve ser o provedor principal derecursos financeiros da casa, e que “homem não tem jeito para cuidar de bebê”. Éevidente que o homem não tem um modo de criar seus filhos igual ao de uma mulher,pois ele não é uma e não foi criado para sê-lo, como pudemos ver no subtítulo anterior.Além disso, generalizar que todos eles devem ser os principais provedores também nãocondiz com a realidade, visto que cada vez mais existem mulheres de sucesso nomercado de trabalho. Não é fácil modificar a estrutura psíquica de uma pessoa, que diráde uma sociedade inteira. Ademais, como a sociedade atual espera do homem atitudes que condigam com amasculinidade hegemônica, ele espera uma sociedade de pessoas que se curvem ao seupoder, toda e qualquer forma de gênero dentro da família deve obedecer ao patriarcalegítimo (ou não), as mulheres não devem trabalhar e sim cuidar de seus herdeiros, oque muito tem a ver com o capital, segundo aula ministrada pela pós-doutora emciências sociais Carla Cristina Garcia na PUC-SP15. Ela afirma que a visão que ohomem tem sobre a mulher é de superioridade, de que ela é romântica (segundo oRomantismo no século XIX) e é sua, desde o momento em que não é mais do pai dela.Portanto, lhe deve favores como os trabalhos domésticos. Pensando nas transições que homem vive na família, a que mais o vem chamandopara o convívio familiar é o nascimento de um filho, seja de qual sexo ele forindependente do número de filhos que ele tiver. Kimmel(2000) descreve que nostempos de pós-modernidade, 90% dos homens vão à maternidade quando seus filhosnascem, enquanto esta proporção era quase nula há 30 anos. Segundo Freitas, Coelho &Silva(2007), mesmo antes do nascimento esta é uma experiência marcante aos homens,em seu estudo com pais que freqüentam uma clínica de reprodução humana: “No que tange ao sentimento de paternidade tendo como referência a notícia da gravidez e o processo vivido a partir dela, posicionamentos de sujeitos do estudo revelaram que, a paternidade15 Professora nos cursos de Ciências Sociais e Psicologia na Pontifícia Universidade Católica de SãoPaulo, nas disciplinas relacionadas à introdução da Sociologia e Questões de Gênero 64
    • foi uma experiência social significativa desde o momento em que tomaram conhecimento da gravidez” (p.140) O casamento também é uma transição importante na vida familiar de um homem,visto que é nesse momento que ele fará sua escolha afetiva a respeito de quem gostariade ter ao seu lado (ou aos seus pés). Enquanto seus filhos não nasceram, ou quando seusfilhos saem de casa, a união estável com outra pessoa é algo muito importante. Tãoimportante é que, se o outro/a cônjuge falece, ou existe a separação, o luto é algo tãodolorido que aquela masculinidade perde um de seus pilares principais. Aliás, a morte do/a cônjuge também é uma das possíveis transições familiaresmais importantes para um homem, podendo levá-lo até a problemas físicos mais sérios,pois normalmente a qualidade de vida do idoso cai com esta situação como afirmaHaddad(2008), e ele fica mais propenso a doenças físicas e mentais. Existem várias crises que a masculinidade pode enfrentar na família. Estasincluem revelar uma homossexualidade, uma gravidez indesejada da parceira, umaborto espontâneo, uma doença que afete o sistema familiar, um divórcio (ou mais), amorte de alguém importante na família, como seu próprio pai ou sua mãe, ou até mesmode um filho, entre muitas e muitas outras possíveis crises dentro da dinâmica familiar.Como esmiuçar cada uma das possíveis crises não é nosso intuito nesta pesquisa,falaremos mais a respeito de uma crise em particular: “sair do armário”. Assumir a homossexualidade para si mesmo, muitas vezes já é uma tarefa árdua.Isso porque assumir o desejo homoafetivo é claramente dizer a si mesmo dentro dosvalores da masculinidade hegemônica contemporânea: “possuo uma masculinidadesubordinada, serei humilhado perante a sociedade, pois não cumpro meu papel dehomem, aquele que domina outras formas de gênero. Sou um dos dominados. Não gostodo que me completa, mas do que me complementa, e quero um relacionamentoigualitário, diferente do meu pai, ou do que os meus amigos dizem.”. E em grande parte,estes pensamentos vão estar ligados àquilo que outros irão pensar, e não com orelacionar-se sexualmente com homens. Então quando uma informação deste tipo é revelada aos demais integrantes dafamília, todos ficam mobilizados. O pobre moço, sedento por aprovação, nervoso dasliberdades e privações que terá a partir desta informação dada aos pais. A mãe,sentindo-se fracassada enquanto educadora das normas de gênero, pois ela acredita quese seu filhinho deixar de dominar mulheres, e até espancá-las ocasionalmente, e 65
    • começar a beijar a e transar com homens é um tremendo mal negócio para ele. Ele vai, aseus olhos, se tornar mais feminino invariavelmente (E aqui nem falamos datransexualidade. Muitos/as transexuais são obrigados a sair de casa por assumirem suasverdadeiras identidades e isto é péssimo se pensarmos o quanto estas pessoas precisamdo apoio emocional para a transição). Isso se não for seu próprio marido que assumiuque a vida inteira preferiu homens a mulheres. É algo enlouquecedor de se pensar aalgumas delas, ser trocada por um homem... Mas se não for este o caso, o pai também não se sentirá nem um pouco bem comum filho homossexual. Em culturas menos urbanas, é comum ouvir relatos de pais quetentaram matar seus filhos ao descobrirem a homoafetividade dos mesmos, ouafastaram-nos dos outros irmãos, como se esta característica fosse uma doençacontagiosa, como é o caso de X, nas pesquisas de Connell (2005), onde os pais privaramo irmão homossexual do contato com seus outros irmãos. Além disso, o papel de gênero do pai também se abala se seu filho é homossexual,pois isso pode demonstrar que ele não está cumprindo sua função de educá-lo enquantohomem viril, heterossexual, dominador, e não dominado. A família, como o sistema solar, vai se ajustando com as órbitas gravitacionaisdos outros astros, e enfim, chega ao equilíbrio. Mas os custos com isso são tempestades,furacões e explosões em cada um dos envolvidos. É um esforço que todos estãodispostos a passar? Outra crise pela qual um homem pode passar em relação à sua família é a perda deseu emprego. Como veremos no subtítulo seguinte, o trabalho é um aspecto central daidentidade masculina. II.7. Do homem com seu trabalho Ao comunicar-se com outro homem, muitas vezes o primeiro comenta “souFulano, do banco Tal. E você?”. Isso nos traz alguns questionamentos a respeito dafunção do trabalho na masculinidade. De que forma ele a constitui? “O trabalhoengrandece o homem”? Como os homens se comunicam a respeito de seus trabalhos aoutros homens? E a mulheres? Quais as relações estabelecidas por homens no trabalho,e como elas afetam a masculinidade do sujeito? Quais são as relações de produtividade?Como o poder aparece nessas relações? Existem profissões ditas femininas oumasculinas? Analisaremos esta relação neste subtítulo tão edificador da masculinidade. 66
    • Como vimos anteriormente na pesquisa, alguns dos valores mais importantes namasculinidade hegemônica veiculada no ocidente são a racionalidade, a busca pelaexcelência, a manutenção da honra e da imagem da força, assim como a hierarquizaçãode características e por conseqüência, pessoas que as detém de acordo com sexo,sexualidade e função na sociedade. Um homem é constituído das várias funções na comunidade onde vive, segundoKimmel (2000). A maior delas, com certeza, foi por anos e anos a de provedor dafamília e portanto, a força de trabalho de uma sociedade. Para que o homem traga osustento de sua família e possa contribuir para o crescimento de sua comunidade, eledeve exercer uma função relevante à mesma, de forma a, por meio de troca do seuserviço por dinheiro (depois do Mercantilismo) ou mesmo comida, roupas e outrosobjetos que ele não produzia, manter sua esposa e filhos de forma material. Mas seu ofício, antes da revolução industrial, não se resumia a isso. Ele tinhafunções no lar também, auxiliando, como descrito no subtítulo a respeito de família, naeducação dos filhos e nos trabalhos domésticos. Após esta revolução, muito mudou emseu ofício: agora, deveriam trabalhar de 14 a 16 horas por dia, em locais insalubresmuitas vezes, e não mais de acordo com o horário da família como era entes destemomento histórico. Esta alteração no modo de ver e de exercer o trabalho em muitomodificou a visão do trabalho pelo homem, assim como sua função na família. Durante os anos dourados, os homens trabalhavam menos devido às leistrabalhistas, porém pouco mudou no ideal de masculinidade, permeado pelo homemprovedor, importante parte para o sustento dos filhos. E o trabalho constituía suamasculinidade pois era nele que ele se tornava independente, era lá que com outroscompetia e se sentia vivo dentro do sistema social, segundo Gusmán(2009). Essa autoradiscute que o desemprego relacionado à entrada das mulheres no mercado de trabalhonas últimas décadas resultou em um balanço muito forte dos valores de significação damasculinidade. Como afirma a autora “Los desempleados sufren la pérdida de su estructura temporal habitual, “los días se alargan cuando no hay algo que hacer..., el aburrimiento y La perdida del tiempo se convierte en algo cotidiano... Los desempleados experimentan un sentimiento de carencia de objetivos (para sí y para los otros), acompañado por uma sensación de exclusión y aislamiento. Durante el desempleo se produce una reducción de los contactos sociales y un incremento de 67
    • la tensión familiar; se percibe una perdida de estatus y de identidad” 16 (p. 41) Como Kimmel(2000) comenta, a entrada das mulheres no mundo do trabalho foiefetuada em menos de um século, enquanto os homens sempre fizeram seus ofícios.Este espaço era deles, e nós, mulheres, nos incluímos na força de trabalho. É evidenteque por mais que a quantidade de pessoas necessárias para trabalhar tenha aumentadomuito nestas últimas décadas, o mercado não consegue absorver a todos. Como asmulheres se submeteram à qualquer tipo de trabalho, muitos homens ficaramdesempregados, e são estes os homens que Gusmán (2009) entrevista no México e naArgentina. Ao falar sobre as subjetividades contemporâneas, Eccel (2009) comenta que umdos maiores medos das subjetividades contemporâneas é não ter espaço na sociedade,razão de existir ou tornar-se um refugo e vai além do desemprego, pois este ainda étemporário. No âmbito do trabalho, essa característica do homem contemporâneo setorna ainda mais evidenciável. O trabalho transforma a masculinidade no sentido em que é um facilitador para avida pública de um indivíduo, e em seu enquadre na sociedade, como afirmaGuzmán(2009) e Kimmel(2000). É no trabalho que ele fará sua rede social, é lá que eleterá chance de demonstrar sua masculinidade, é neste âmbito que ganhará status eexercerá o poder. Isso significa que para conseguir estes benefícios à sua identidade, eletambém deve adequar-se à regras sociais como a produtividade e a hierarquia antes queexercite seu ofício, deve usar roupas específicas (como o terno e a gravata, o macacãodo operário como exemplos) e portar-se como o empregado de tal empresa,emblemando os valores da mesma em seus atos. Deve performaticamente agir de formaracional e direcionada, sendo sempre bem sucedido e ambicioso por mais desafios,dinheiro e status. Inclusive mulheres devem agir dessa forma caso queiram ser bemsucedidas em seus trabalhos. Isso significa que o trabalho constitui as identidades masculinas do mesmo jeitoque estas constroem a estrutura da instituição do trabalho, suas formas de exercer opoder e de normatizar o gênero. Sem o trabalho, seu local de iniciação na sociedade, o16 Os desempregados sofrem a perda de sua estrutura temporal habitual, “os dias se alargam quando nãose tem o que fazer..., o tédio e a perda do tempo se torna algo cotidiano... Os desempregadosexperimentam um sentimento de carência de objetivos (para si e para os outros), acompanhado de umasensação de exclusão e isolamento. Durante o desemprego há a produção de uma redução dos contatossociais e um aumento na tensão familiar; se percebe uma peeda de status e de identidade. 68
    • homem se percebe sem rumo, sem essência e vazio de significados. Kimmel(2000)afirma que mesmo que estejam infelizes com seus trabalhos e que muitas vezes queirampassar mais tempo com suas famílias, a grande maioria dos homens não abdica desteespaço pois não tem tempo para pensar sobre suas necessidades dentro do ambiente detrabalho, além do status que consegue ao avançar em sua carreira. Quanto à comunicação a respeito de seus trabalhos, grande parte dos homens sebaseia no quanto àquela firma em que ele trabalha é valorizada no mercado de trabalho.Então, é mais fácil ouvir de um homem “Sou Fulano, do Banco Tal” do que “SouFulano, lixeiro da prefeitura” ou “Sou Fulano, sou michê da Rua Tal”. Profissões comolixeiro, profissional do sexo, jornaleiro, cozinheiro, pedagogo, traficante de drogas (anão ser onde estas profissões sejam valorizadas como positivas, como afirma Cecchetto(2004)) não funcionam muito bem como “sobrenomes” se pensarmos na populaçãobrasileira. Raramente são posições de prestígio para a maior parte da populaçãomasculina ou até feminina. Como foi dito em um documentário na Rádio CBN sobre a vida dos recolhedoresde lixo em São Paulo no ano de 2010, muitos mentiam sobre suas posições de trabalhoquando conheciam homens ou mulheres, e principalmente na frente destas, escondiamaté detalhes da rotina, que poderiam ser diurnos ou até noturnos. Essa profissão, comoafirmavam as pessoas que dela participavam, é “invisível” às outras esferas de trabalho,mesmo que seja extremamente importante para a sociedade como um todo. Outras profissões como esta, no ambiente de trabalho, se sentem consideradas nabase da pirâmide hierárquica entre as masculinidades. Isso realmente é uma impressãocondizente com a realidade, pois aquele que tem um cargo superior, normalmente trataaqueles que estão abaixo dele com menos atenção e apreciação que seus superioresdiretos, e estes, por sua vez, autorizam esta desvalorização, se relembrarmos o que falaConnell (2005) a respeito da complementaridade dos marginalizados e doshegemônicos, enquanto um autoriza o outro a ter seu lugar dentro da sociedade deacordo com o que estes grupos aceitam. O poder, no campo do trabalho, é onde maisclaramente aparecem as relações de poder entre homens e mulheres evidenciados nãoapenas com a hierarquia, mas também com outros expoentes, como a segregação degênero, o assédio moral ou sexual no trabalho, o valor monetário e atribuído à cada umadas profissões. 69
    • Quanto aos possíveis ofícios, nos dias atuais, não existem funções na sociedadeexercidas apenas por homens ou apenas por mulheres. Existem sim algumas melhoravaliadas pela sociedade como aquelas que são quase considerados “inúteis” (que sónão o são porque se a sociedade os criou, eles hão de ter uma utilidade, certo?).Normalmente, os trabalhos que possuem características consideradas “masculinas” sãomais valorizados com a moeda corrente e o prestígio social. Isso inclui profissões depensamento racional, onde o poder pode ser plenamente exercido, a força física pode sernecessária, além de outras características que foram várias vezes ressaltadas nestetrabalho sobre a masculinidade hegemônica. Isso inclui ofícios associados à construçãocivil, aos cargos políticos e militares, a posições de comando, entre outros. Já profissões com características típicas do comportamento feminino como cuidar,agüentar situações de stress, obedecer a ordens e cuidar da estética, são vistas nasociedade como supérfluas, desnecessárias, ou úteis até certo ponto, onde podemreproduzir valores da segregação de gênero. Profissões ligadas ao ensino, ao cuidadodas tarefas domésticas e de crianças, à saúde, à arte e outras correlacionadas são menosvalorizadas, no pagamento e no prestígio atingido pela sociedade. E como afirma Kimmel(2000), uma mulher que faz uma profissão masculinaperde sua feminilidade e vice versa, sendo ainda mais discriminada. Isso acontece poisela fica muito visada pelo resto da organização, mas invisível enquanto pessoa ou comotrabalhadora, e normalmente é contratada porque é estigmatizada. Este autor chamaestes indivíduos de Tokens, que muito têm que se esforçar para que seu trabalho sejanotado, mas pouco precisam fazer para chamarem atenção dentro daquele espaço.Porém até sendo um token, ser mulher ou homem causa impressões vividas opostas. Homens, quando tokens, são considerados mais capazes e sobem mais rápido nahierarquia de suas profissões que as próprias mulheres que dividem sua profissão.Quando na organização, ganham mais dinheiro e ocupam cargos de mais prestígio quesuas companheiras. Porém, quando fora destas organizações, estes podem sofrerestigmatizações a respeito de sua sexualidade e forma de exercer sua masculinidade.Mas em si, levam a hegemonia masculina para onde vão, como afirma o autor. Muito da ótica de gênero é reproduzida no trabalho e isso mantém a desigualdadenão apenas nas organizações, mas também em como a vida em sociedade éexperienciada pelas masculinidades. Como esta lida com as masculinidades diversas? 70
    • Esta é uma questão que discutiremos no subtítulo final: a relação do homem com asociedade. II.8. Do homem com a sociedade como um todo É importante ao falarmos neste subtítulo que os homens estabelecem relações como todo (a sociedade e os ideais e estereótipos que ela prega) e com as partes (comhomens, com mulheres, com seus filhos, etc.) e que ambos os campos estãointimamente ligados. Quando explicitamos que o homem exerce e recebe violênciadesde tenra idade, estaremos aqui colocando como a sociedade reage a ele e como elereage a ela, mas ele vai interagir com pessoas, não com a sociedade inteira. Mas aointeragir mesmo que com uma caneta ao assinar o nome em um cheque até quando elevota em uma eleição federal (aliás, o que logo acontecerá), ele imerge em valoressociais, históricos e geográficos, e ele não consegue deixar de ser influenciado por estes. Então, percebermos como o homem se sente ao viver na sociedade em que vive,no que contribui para a cristalização e mudança de valores desta sociedade e como elese vê como cidadão desta, principalmente aos cidadãos brasileiros, nosso foco deestudo, é fundamental. Como ele acredita que é seu papel enquanto homem? Quais ospadrões, normas e valores sociais que forjam a masculinidade hegemônica e o que criaas subordinadas? Quais as mudanças perceptíveis acerca da masculinidade hegemônicaque têm surgido depois da revolução sexual, e no que isso influiu na vida do homematual? Iremos então neste subtítulo final do segundo capítulo fazer uma tentativa deexplicitar as respostas para estas questões e fechar o mesmo com as informaçõesdemonstradas nos subtítulos anteriores para então movermo-nos para a pesquisa prática,e o método com o qual a realizaremos. Percebeu-se durante todo o capítulo que o homem tem de mostrar sempre para si epara o mundo sua masculinidade. Ela é demonstrativa e relacional, pois se mostraenquanto o indivíduo se apresenta, no modo de falar, de pensar sobre algo ou alguém,etc. Este subtítulo é extremamente complexo, pois ao mesmo tempo em que ele englobaos outros, ele determina os outros. Quando falamos a respeito da relação com o si-mesmo, com o corpo e mente doindivíduo, suas teorias sobre si são formuladas a partir do que a sociedade prega comomasculinidade hegemônica. O homem compara-se com o mundo, e percebe-se comoigual, ou diferente, melhor ou pior que a média ou outro indivíduo. 71
    • Na relação com outros homens e mulheres, os ideais sociais também aparecem,trazendo modos de agir, falar, pensar sobre o outro. Mais uma vez ele irá comparar-se asi mesmo com outras formas de gênero e poderá inclusive estabelecer valores em umahierarquia a cada uma delas, dependendo de várias características do outro sujeito com oqual se relaciona. Uma delas é o parentesco e a família, que por mais que tenha surgido com normasbem rígidas, atualmente é incerta e diferente, no sentido que mudou. Ser pai não é comoser o filho, mas um controla o papel do outro e a os valores sociais como o própriopatriarcado são veiculados na família brasileira, gerando forças instituintes à repressão emais confusões para os participantes desta complexa instituição. Pensando em instituições, o trabalho é edificador da masculinidade e local denegociações entre as masculinidades e as feminilidades sendo a masculinidade o âmbitocaracterizado por intensa competitividade e segregação, como se vê nas as organizaçõescontemporâneas. Homens e mulheres são forças de trabalho e isso também alterou asfamílias de um modo geral, e algumas gerações de uma sociedade que logo começarão agritar por seus pais. As expressões e significados associados à sexualidade, por sua vez, também vemmudando drasticamente, e com ela a sexualidade de todos os homens. Não existe maisum padrão rígido a seguir, mas muito homens ainda acreditam na força, no orgasmocomo única fonte de prazer e desvalorizam as lutas feministas pelo não-uso de poder“nos países baixos”, nos relacionamentos sexuais e amorosos. 72
    • Capítulo III - Método Pudemos neste trabalho estabelecer dados teóricos que suportem as informaçõesda realidade que buscamos quando nos propusemos a fazer uma pesquisa prática. Paraentão termos um método para compreender as masculinidades que estudamos, foicrucial que o instrumento se adequasse à realidade destes homens, e não à algolongínquo e distanciado como a pesquisa quantitativa. Segundo Flick (2009) “Diferente de um estudo quantitativo, o pesquisador não usa a literatura existente sobre seu tema com o objetivo de formular hipóteses a partir dessas leituras, para, então, basicamente testá-las. Na pesquisa qualitativa, o pesquisador utiliza os insights e as informações provenientes da literatura enquanto conhecimento sobre o contexto, utilizando-se dele para verificar afirmações e observações a respeito de seu tema de pesquisa naqueles contextos.” (p. 62). Ademais, como não existe apenas uma masculinidade, (e isso foi proposto eexplicado nos capítulos anteriores) foi importante ouvirmos as vivências individuais doser masculino, e como isso se expressa nas relações que este estabelece com seu mundo,que se modifica ao longo do tempo e do espaço. De modo a atingir os objetivos proposto no projeto, que são de compreender comosão construídas e expressas as masculinidades de homens homo, heterossexuais etransexuais, utilizando-se o conceito de gênero, dando atenção às relações que eleestabelece com seu corpo, com sua própria masculinidade e com o mundo que o rodeia,foi preciso que nosso modelo de pesquisa fosse qualitativo, no sentido que Flick (2009)comenta: “A pesquisa qualitativa é de particular relevância ao estudo das relações sociais devido à pluralização das esferas de vida. As expressões chave para esta pluralização são a ‘nova obscuridade’ (Habermas,1996), a crescente ‘individualização das formas de vida e dos padrões biográficos’(Beck, 1992) e a dissolução das ‘velhas’ desigualdades sociais dentro da nova diversidade de ambientes, subculturas estilos e formas de vida. Essa pluralização exige uma nova sensibilidade para o estudo empírico das questões” (p. 20). E este autor também nos lembrou que devemos estar atentos ao ambiente em quea pesquisa se dará, e como este ambiente altera a pesquisa. Para entendermos suas 73
    • individualidades, tão únicas e diversas, e percebermos as vivencias destes homens nãocomo queremos, mas como elas são realmente, foi importante que estes construíssemsignificados sobre suas vidas, como ressaltam Ludke e André (1986), objetivo nemsempre alcançado com a pesquisa quantitativa, devido ao limite de respostas que osujeito poderia dar. Mas ao mesmo tempo, os homens que foram entrevistados nesta pesquisa, porfazerem parte deste contexto, têm que dar algumas informações factuais de modo apoderem se adequar aos critérios de inclusão propostos pela, como veremos ao falar dosparticipantes. De acordo com Luna (2000), informações factuais são aquelas que nãodependem de interpretação nem de quem a fornece, nem de quem a registra, comoidade, nome, estado civil, escolaridade, etc. Esta pesquisa tem como objetivo trabalharcom o sujeito questões factuais sim, mas sua ênfase e foco serão localizados nasquestões não factuais. As situações, ações e interações complexas foram analisadas em seus contextos, apartir do ponto de vista do sujeito, para se obter uma compreensão do fenômeno e dosprocessos envolvidos como afirma Moon (1990), assim como do significado a elesatribuído. Para este trabalho foi organizado um roteiro de entrevista semi-aberto, com aintenção de obter uma amostra de dados que respeita a individualidade do indivíduo(assim assumindo que cada participante da pesquisa possui seu próprio pensamento,opções, sentimentos e ações). Ademais, deu-se maior liberdade ao colaborador parafornecer os dados que ele queria dar, focando-se apenas em certas questões norteadoras. Por ser uma entrevista semi aberta, há uma flexibilização da mesma dando umasensação de liberdade ao indivíduo, ele se sente mais à vontade. Isso por que, segundoMaciel Jr.(2006), a entrevista pode representar ao homem uma ameaça à suamasculinidade, e deixá-lo no controle da situação é uma alternativa para conseguirdados consistentes sem maiores resistências como a minimização, descrita pelo autorcomo uma forma de desqualificar o entrevistador e a entrevista dando respostas evasivasou curtas. Isso foi percebido no primeiro pré-teste da entrevista, quando o entrevistadoRodrigo17, no começo da entrevista, se mantém com uma postura corporal defensiva,usa óculos escuros mesmo em ambiente fechado, e dá respostas evasivas e gerais a17 Os nomes foram trocados em respeito ao sigilo dos entrevistados. 74
    • respeito das questões colocadas, e no final se solta mais, sorri, dá respostas maispessoais e se evade menos das questões, evidenciando que é necessário sim um “jogo decintura” quando entrevistam-se homens, e que é necessário conversar um pouco com oentrevistado antes da entrevista propriamente dita para quebrar estas possíveisresistências. Este é um dado observado pelo autor citado acima, que os homensdemonstram sua masculinidade também ao responder a entrevistas, assim como emqualquer situação social. É preciso então segundo Smith & Drummond (2003) apudMaciel Jr.(2006), “jogar conversa fora”, “quebrar o gelo” para que o entrevistadoperceba que não irá ser julgado, e trazer um sentimento de confiança e estreiteza delaços para o mesmo, garantindo assim o sucesso da entrevista. Já no segundo pré-teste,com Marcos, esta técnica funcionou substancialmente, deixando o entrevistado muitomais confortável para falar de suas experiências. Este entrevistado também colaborou a respeito do formato da entrevista, queconsiderou muito longo e cansativo, e sua sugestão foi diminuir a quantidade dequestões e deixá-las mais ricas de informação, assim dando a possibilidade de nãoperder dados verbais dos entrevistados que virão. Pensando a respeito da entrevista em si, se ela é mais flexível, Shwabe &Wolkomir (2003) comentam: “This is the kind of interview that is most likely to evoke the masculinity displays that block communication and call for interviewing skill in drawing out unarticulated meanings”(p. 55).18 Isso significa que a entrevista, quando semi-estruturada, dá maior liberdade paraque o homem demonstre características masculinas que bloqueariam a comunicação, eisso pede do entrevistador uma observação mais criteriosa dos significados nãoarticulados pelo entrevistado. É de suma relevância, portanto, perceber para estapesquisa quais são os pontos onde o silêncio se deu com mais freqüência, para entãosaber que características masculinas aí também estão presentes. Os obstáculos para se realizar uma entrevista com homens também deram oformato da pesquisa com o gênero masculino, assim se tornando grande fonte deinformação apesar de muitas vezes serem vistas como barreiras. De forma discreta estasbarreiras constituem os conhecimentos a serem obtidos na pesquisa. Como continuam Schwalbe e Wolkomir (2003),18 “Este é o tipo de entrevista que mais provavelmente vai evocar as demonstrações de masculinidade quebloqueiam a comunicação e pedem por técnicas de entrevista para delinear significados não articulados” 75
    • “For men, the dramaturgical task is to signify possession of an essentially masculine self, a self with desires and that warrant membership in the dominant group. Precisely, what must be signifyied, and how it must be done, will vary by age, ethnicity, social class, sexual orientation, local culture, and immediate circumstance. A masculine self is thus always the product of a performance tailored to the situation at hand” (p. 56).19 Portanto, como cada sujeito que foi entrevistado nessa pesquisa possui umamasculinidade individual, é importante delimitarmos quem foram nossos participantes. III.1. Participantes Tendo o gênero como foco de pesquisa, a idade delimitou-se dos 20 aos 55 anosde idade, sendo esta a faixa etária onde o indivíduo já em grande maioria construiu suaidentidade de gênero, possui um julgamento moral já elaborado, inclusive sobre o quequer como ser masculino e desejante (sexualidade), e de acordo com a teoriapsicossocial de Erik Erikson (1968), “(...) domina ativamente seu ambiente, mostra umacerta unidade de personalidade e é capaz de perceber corretamente o mundo e a simesma.”(p. 68). Dessa forma, ele tem mais condições de refletir e compartilhar com aaluna pesquisadora suas vivências, sentimentos e atitudes acerca da masculinidade. Além disso, é uma faixa etária em que o indivíduo está preocupado com suasfunções sociais mais importantes, de acordo com uma normatividade cultural brasileira:procura uma atividade profissional para tornar-se independente, tenta encontrar um parconjugal (seja ele homem ou mulher) e também é quando busca deixar seusdescendentes, e assim poder agora ser responsável pelo papel social que lhe cabe:profissional, marido e pai, veiculando as normas de gênero na família e na sociedade. Éevidente que nem todos querem ter filhos, ou mesmo casar, ou ainda até ter umaprofissão fixa. Por essa razão acredita-se que o homem não pode demonstrar suamasculinidade sem estar em relação, seja com outros homens (em ritos de passagem,brincadeiras de limite e dor física/psicológica), com outras mulheres, (na diferenciaçãodestes delas e/ou nas relações com as mesmas) entre outros, tendo como premissa de19 “Para homens, a tarefa dramatúrgica é significar que ele possui um self essencialmente masculino, umself com desejos e que garanta ser membro do grupo dominante. Precisamente, o que precisa sersignificado e como isso deve ser feito, vai variar na idade, classe social, orientação sexual, cultura local ea circunstância imediata. Um self masculino é sempre então o produto de uma performance talhada pelasituação que se apresenta.” 76
    • que a masculinidade é um valor social e que não apenas deriva-se da relação com outraspessoas, mas reproduz-se nelas como comenta Welzer-Lang (2001). A etnia nesta pesquisa não é ponto norteador para encontrar os colaboradores poisacredita-se que o ideal de masculinidade permeia a todos, não importando idade, etnia,sexo, gênero, escolaridade, entre outros, embora estas categorias se articulem de formascomplexas. Porém se era possível coletar mais dados a respeito de onde aquelamasculinidade surgiu isso foi feito e explorado como dado daquela individualidade. O grau de escolaridade do pesquisado é no mínimo o segundo grau completo. Estaescolaridade foi escolhida supondo-se que haveria uma reflexão, devido ao grau deconhecimento, sobre sua própria existência, de modo a conseguirmos entender melhor alinguagem, o passado e o presente dos entrevistados na questão sobre sua masculinidadee a dos outros, conceitos (supostamente) ensinados pelas escolas até o 3º colegial. Os participantes foram 23 homens pertencentes à região da grande São Paulo,sendo 8 homossexuais, 8 heterossexuais e 7 transexuais. III.2. Instrumento Foram usadas entrevistas semi-dirigidas como instrumento de coleta de dados. Éimportante considerar o pesquisador como parte do processo de coleta e análise dosdados: deve estar envolvido e ao mesmo tempo manter certo distanciamento, que lhepermita posteriormente pensar sobre o que ouviu. É co-participante da realidadeobservada, tendo responsabilidade pelo material produzido. É importante comentar também que assim como tentamos perceber a vivência e aexperiência do entrevistado, as impressões da entrevistadora também foram levadas emconta visto que, como afirma Flick (2009) “Na pesquisa qualitativa, o pesquisador e seu entrevistado têm uma importância peculiar. Pesquisadores e entrevistados, bem como suas competências comunicativas, constituem o principal “instrumento” da coleta de dados e de reconhecimento. Por este motivo, os pesquisadores não podem adotar um papel neutro no campo em seus contatos com as pessoas a serem entrevistadas ou observadas. Em vez disso, devem assumir certos papéis e posições – ou serão designados para tanto (...)” (p. 110) Criou-se um primeiro roteiro de entrevista com itens que foram reformulados no decorrer da revisão da literatura e do preparo para a pesquisa de campo, assim 77
    • como em campo, principalmente através das entrevistas pré-teste, que de acordo com Rubano et al (2008) são muito úteis para avaliar a adequação da técnica e do instrumento de coleta de informações aos objetivos da pesquisa, à situação e aos sujeitos, a adequação de cada item do instrumento, a adequação da linguagem utilizada, do registro das informações e da apresentação da pesquisadora ao abordar os participantes. Por meio da literatura, pudemos perceber que a masculinidade é relacional e demonstrativa não apenas em palavras, mas em atos. Para coletar as informações referentes às relações levemente abordadas no Capítulo 2, foi importante trazer ao roteiro de entrevista estas mesmas relações em questões claras, abrangentes mas ao mesmo tempo direcionadas, que estão presentes no Anexo I. Como as questões são abrangentes de modo a atingir todos os dados que estamos pesquisando, existem temas em cada questão que foi abordada na entrevista em que o entrevistado poderia ou não tocar espontaneamente. Se algum destes temas não fosse tocado, a entrevistadora poderia perguntar a respeito destes, mas sem desconsiderar que um tema não-dito pode possuir significados, como afirma Maciel Jr.(2006) ao comentar a respeito de entrevistas com homens, que as manifestações (ou não) de informações verbais e gestuais vão trazer dados relevantes à demonstração da masculinidade daquele entrevistado. III.3. Procedimento Os participantes foram contatados através de indicações de conhecidos etambém através de pesquisa em meios de comunicação tais como a internet; asentrevistas duraram desde 21 minutos, a 2 horas e 23 minutos, dependendo do relato doentrevistado. Foram realizadas onde era mais cômodo para os entrevistados, portanto, olocal foi indicado por eles, assim respeitando o “território” seguro para os mesmos,onde poderiam se abrir sem medos ou preocupações. O único pré-requisito era que fosseem local onde a privacidade, o sigilo e a tranqüilidade seriam garantidos. No início do encontro com cada participante foram explicados novamente osobjetivos do estudo. As questões éticas foram reafirmadas, com garantia de sigilorelativo à identificação do participante e das pessoas por ele citadas na entrevista. 78
    • Após o término do relato, foi oferecido ao participante a possibilidade de fazerperguntas, esclarecer dúvidas, explicitar sentimentos ou pensamentos relativos à suaentrevista, de modo a garantir a beneficência do sujeito. Dados não verbais também foram observados, como postura, roupa, olhares, entreoutros, de modo a captar mais informações que o participante deseja passar àentrevistadora e ao mundo que o cerca. III.4. Procedimento de análise dos resultados As entrevistas foram gravadas com a permissão dos participantes e transcritas naíntegra. Consideramos também os comportamentos não verbais e as reflexões esensações da aluna-entrevistadora como dados relevantes acerca da expressão damasculinidade. Fizemos inúmeras leituras e sínteses das narrativas, a fim de obtermos um relatocondensado que ao mesmo tempo contivesse as informações mais significativas. Esses dados foram analisados à luz do material que consta nos capítulosteóricos desenvolvidos. Além das análises e reflexões acerca da construção e expressãodas masculinidades dos participantes, foram feitas e discutidas as comparações entreeles, a fim de se destacar as comunalidades e diferenças existentes. III.5. Considerações Éticas Nesta pesquisa destacam-se também as questões éticas, pois as informaçõesobtidas envolvem um elevado grau de intimidade. Consideramos as normas previstaspelo Conselho Nacional de Saúde (Resolução 196/96): garantimos sigilo profissionalpelo comprometimento de não revelar a identidade dos participantes, bem como autilização dos registros obtidos apenas no âmbito acadêmico. O termo de consentimentoinformado e esclarecido consta do Anexo II e foi lido e explicado a cada um dosparticipantes para obter sua concordância. Além disso, como afirma Flick (2009) a respeito de pessoas que possam ocupar omesmo ambiente, como é o caso de nossa pesquisa pois ela se guia por indicações deconhecidos, “A questão da confidencialidade ou do anonimato pode se tornar uma problemática quando a realização da pesquisa envolver membros que compartilhem o mesmo ambiente. Quando o pesquisador entrevista diversas pessoas na mesma empresa ou vários 79
    • membros de uma família, a necessidade de confidencialidade não ocorre apenas em relação ao público externo àquele ambiente. (...). Com esse propósito, o pesquisador deverá alterar detalhes específicos para a proteção das identidades e tentar garantir que colegas não possam identificar os participantes a partir das informações que forneceram. (...)” (p. 55) Houve atenção e cuidado com a carga emocional que poderá ser mobilizada nosencontros. Colocamos-nos à disposição para outros contatos que foram necessários paraa elaboração das vivências relatadas, de forma a garantir a não maleficência, abeneficiência, a autonomia do participante e a justiça. Este projeto foi encaminhado ao Comitê de Ética da PUC/SP, e aprovado em 1º deJulho de 2010, conforme o Anexo III. 80
    • Capítulo IV - Análise dos dados Foi possível perceber durante as várias entrevistas, diversos dados quedemonstram como a masculinidade hegemônica que discutimos nos primeiros capítulosdeste trabalho está presente nas masculinidades dos entrevistados. Também foi possívelperceber, no entanto, que a masculinidade hegemônica apenas permeia asmasculinidades individuais e não se mostra concretamente, e é um fator que influenciaem diferentes graus cada masculinidade. Isto nos traz uma sensação de universalidadedas diferenças: cada masculinidade é diferente, e portanto todas são masculinidades. Desta forma, faz-se necessário que analisemos de forma mais profunda pelomenos 8 dos entrevistados, das 23 entrevistas efetuadas (visto que houve uma saturaçãode dados) de modo a trazer informações mais intrínsecas de cada um destes. O critériode escolha dentre os vinte e quatro entrevistados buscou trazer à tona diferentesmasculinidades de modo aleatório, de modo a ilustrar esta diversidade tão presente noshomens paulistas. Eles foram escolhidos em ordem também aleatória, de modo arespeitar o fato de que é impossível também fazer uma análise de todas asmasculinidades percebidas nessa pesquisa devido ao tempo restrito da mesma. São elesRodrigo, Fábio, Ramón, Maurício, Gustavo, Artur, Glauber, e Mauro. Quatro deles sãoheteroafetivos, dois homoafetivos e dois homens trans heterossexuais. É importante afirmar que todos os entrevistados tiveram seus nomes e dadospessoais trocados ou omitidos de modo a respeitar o sigilo presente na pesquisa atravésda ética que esta preza. Todos eles leram e assinaram o termo de consentimento livre eesclarecido autorizado pelo Comitê de Ética da PUC-SP e caso qualquer um delesdecida que seus dados sejam retirados da pesquisa, até a entrega da mesma paraavaliação do departamento de Desenvolvimento. Isto será feito e outra entrevista seráutilizada para a análise, discussão e conclusão da pesquisa. Os locais onde foram feitas as entrevistas foram escolhidos pelos participantes,que foram desde as casas destes até academias, cafés, local de trabalho ou de estudo,cabelereiro, entre vários outros. Os contatos foram feitos através de e-mails, blogs, sitesde relacionamentos, telefones de conhecidos e contatos fornecidos pelos própriosentrevistados, caracterizando o método bola-de-neve de busca de participantes. As entrevistas tiveram durações extremamente variadas, podendo durar desde 21minutos até 2 horas e 23 minutos, dentre um e dois encontros, e estiveram de acordo 81
    • com as disponibilidades de cada um dos entrevistados e portanto é difícil afirmar que amédia faça jus a todos os participantes. Foi feita uma ficha de todos os colaboradores noanexo IV contendo todos os entrevistados, sua identidade de gênero, seu objeto dedesejo sexual, sua idade, profissão, dados sobre relacionamentos amorosos, se fez ou fazpsicoterapia e alguns comentários a respeito de suas vidas, além de dados referidos porestes que são importantes para a análise de cada masculinidade. Comecemos então asanálises. Rodrigo Rodrigo foi entrevistado no bar onde trabalha, e recebeu a entrevistadora de modocordial porém frio, com postura altiva e óculos escuros, que permaneceram durante todaa entrevista, mesmo que o local da mesma fosse feito em local fechado. Rodrigo fezparte do curso de filosofia em uma faculdade particular paulista, porém trancou e entãodecidiu por buscar sua independência financeira e só então terminar a faculdade. Eleteve um relacionamento estável com uma mulher mais velha que ele duranteaproximadamente dois anos, porém este terminou e hoje em dia se relacionasexualmente com várias mulheres ao mesmo tempo, chegando a namorar algumasenquanto tem outros relacionamentos. Este homem de 28 anos foi um dos únicos que não deu dados pessoais a respeitode sua família durante a entrevista, porém através de contatos posteriores, afirmou tersido criado por sua mãe, que engravidou do mesmo na França, onde mora seu pai. Anopassado, foi vê-lo pela primeira vez, e muito se identificou com ele. É importanteafirmar que ele estava nervoso e sempre com os braços ou então com as pernascruzadas. A primeira questão, respondeu basicamente por dados físicos a respeito do que éser um homem: ter um pênis, não ter mamas, possuir uma postura altiva. Depois,afirmou que existem diferenças entre mulher e homem psicologicamente, como adelicadeza feminina, diferente da força masculina. Além disso afirmou que a mulher, anão ser que seja masculina, no mínimo tem profissões as quais homens não são capazesde fazer, e vice-versa. As características que fazem com que ele seja masculino na sociedade são: ter umcorpo masculino, funções masculinas na sociedade, assim como demonstrar o mínimode afeto, não chorar na frente de ninguém. Também comentou que uma mulher ser 82
    • masculina diz respeito à sua postura, se ela anda diferente, fala diferente, ou tematitudes consideradas masculinas, como falar grosso, brigar, entre outros. Rodrigo falou que quando conversa com outros homens, fala muito de assuntosque tenham a ver com o que seu interlocutor comente. Isso pode significar falar sobrefutebol, mulher, carros ou qualquer outro assunto extremamente superficial. Rodrigonão foi criado pelo pai e por isso não tem uma vivência com o mesmo, nem tem irmãoscom os quais conviveu, o que significa que ele não teve uma vivência com homens emsua família. Comenta também que o volume e o tom de voz se alteram quando porexemplo uma mulher adentra o recinto. Então ele falou suas diferenças de uma mulher:ele comenta mais uma vez do corpo, e também frente as situações de conflito, como elasreagem de forma menos objetiva. Afirmou também que nada o faz parecido com umamulher, apenas o fato de serem humanos. Afirma se comportar completamente diferentequando uma mulher entra no recinto, sendo ela mãe e irmã filha ou qualquer outro tipode vínculo. Comenta que mãe ou irmã são mulheres sagradas, intocáveis ou não possuidorasde sexo ou sexualidade. Ele ri, porém afirma que existem mulheres e existe família, oque significa que é importante evitar falar a respeito sobre o comportamento e sexualdestas, " mãe é santa, qualquer outra mulher tem a capacidade de ser vadia. Por isso nãose pode confiar nas mulheres." é importante lembrar que a ascendência de Rodrigo éárabe, o que muito pode ter a ver com sua visão da mulher. Com relação à sexualidade masculina, Rodrigo respondeu e que o homem deveconquistar, assim como a preferência masculina e heterossexual, pela mulher. Comentana necessidade de virilidade masculina, e que existe uma diferença bem grande entresexo e amor, porém os dois podem estar juntos, mesmo que raro. Rodrigo comenta quesua sexualidade muito tem a ver com a expressão da masculinidade, pois é nessemomento que ele a demonstra. A respeito do que uma parceira quer de um homem, diz que o que a mulher quer écarinho e compreensão, assim como respeito, mas não são todas as mulheres quepensam da mesma forma. Afirmou que o homem deve tratar seus filhos principalmente com regras, assimcomo o sustento necessário à vida. Explica que existem várias diferenças entre filhos efilhas, como o controle que deve ser feito quando existe a filha mulher, tomandocuidado para que ela não perca a virgindade com alguém que "não presta", e considera-a 83
    • como uma santa também. Quanto a um filho, Rodrigo comenta que é necessário educá-lo para tentar respeitar as mulheres, do jeito que elas são. Ele diz também que existembrincadeiras com as quais brincar com cada um dos tipos de filho, sendo que seria osensato jogar futebol com um menino, assim como deixar a educação da menina e paraa mãe. Comenta que a família é um núcleo de pessoas que se relacionam através dovínculo sangüíneo ou não, que costumam morar em um mesmo local, e que tem afunção de passar certos conhecimentos para pessoas mais jovens. Um homem tem comopapel na família suprir as necessidades financeiras da mesma, deve também imporregras que auxiliem na educação dos filhos, e afirma que uma família é muito difícil deformar, pois são necessárias muitas responsabilidades. Acredita que na frente de suafamília, um homem deve dar exemplo enquanto pessoa responsável e deve mentir senecessário para manter este lócus. Rodrigo acredita que o trabalho é extremamente importante e para a formação damasculinidade do indivíduo, pois edifica-o assim como traz independência. Afirma queuma mulher no trabalho pode ter um pensamento diferente de um homem, pois fazfofocas, possui modificações de humor e isso altera o ritmo do trabalho. Isso não querdizer que não existam mulheres que trabalhem com funções ditas masculinas, mas issoainda é muito novo. Finalmente, comenta que mulheres têm maior facilidade para lidarcom situações de cuidado, o que as torna muito mais sensíveis aos problemas queocorrem no dia a dia em detrimento dos homens, que são mais focados e o portanto, têmdificuldade em de ver a figura total. Quanto à relação entre homem sociedade, o participante comentou que a funçãodo homem diz respeito a fazer a história, a manter o que a sociedade já construiu, assimcomo coordenar as pessoas para novas mudanças. Acredita também a que amasculinidade é construída pela sociedade, assim como a sociedade é construída peloshomens, o que significa que eles têm um papel de retroação um no outro. Afirma quecada homem é diferente do outro da forma como lida com as situações e isso o tornaúnico. Rodrigo é um homem que possui muitos traços machistas em sua fala, e tenta aomáximo pertencer ao patamar talhado pela masculinidade hegemônica. Sua visão não éigualitária, por mais que diga isto, e que busque de uma certa forma, atingir tal feito. 84
    • Fábio Fábio é um jovem de 28 anos que convidou a entrevistadora a fazer a entrevistaem sua casa. Foi extremamente gentil, oferecendo água, deixando-a ao máximoconfortável. Ele possui duas gatas pequenas, que no dia da entrevista não pareciam termais que três meses. Ele é loiro de olhos azuis, usa camiseta e bermuda de sarja. Fumou durante aentrevista inteira. Ele é professor de inglês e inclusive perguntou se a entrevista poderiaser feita nesta língua, e realmente em alguns momentos ela foi feita dessa maneira,especificamente ao se tratar de sexualidade e relação entre mulheres, muitoprovavelmente pois para ele, este era um assunto mais delicado e complexo. Afirma que ser homem é algo bem amplo e que a única diferença entre homens emulheres é o órgão sexual, apenas é uma questão corporal, e não psicológica. Tambémcomenta que homens e mulheres tem características masculinas, como usar a força brutaem um primeiro momento. Coloca que gosta de tratar homens e mulheres de formaigual, e não se prende em esteriótipos. Fala que masculinidade é uma postura, e tambémnão chega a ser dominação (visto que sua mãe é uma mulher muito feminista, ficouclaro de onde ele chegou neste link após a entrevista, quando ele mesmo falou sobreesta relação de sua mãe com o feminismo). Para ele, uma mulher seria masculina setentasse atingir o estereótipo masculino, seria mais firme, mais “moleca” ou mesmolésbica. Comenta que não se percebe um homem que atua devido à pertinência a umgênero específico, mas sim devido ao seu jeito. Quanto à sua relação com outros homens, Fábio tenta sempre ser justo erespeitoso, para ser tratado de forma igual, independentemente do interesse de cada umcom a relação. Comenta que para ele, as amizades são importantes em sua vida, econversa sobre tudo com eles, desde como a menina que passa é “gostosa” até fofocas(nesse momento ele se recrimina, e se defende falando que todo mundo faz fofocas),futebol, depende muito do momento. Fábio coloca que não teve uma relação próximacom seu pai, pois ele foi ausente até a fase adulta do entrevistado. Mesmo assim, agoraque eles tem saído mais, as conversas são mais superficiais. Termina o assunto falandoque apóia muito a relação de sua mãe com o novo namorado e passa a outra questão. Ao falar sobre diferenças entre ele e uma mulher, diz que depende de que mulherestamos falando. Isso pois se for o estereótipo feminino “Barbie”, ele se consideracompletamente diferente. Mas da maioria, existem apenas diferenças nos caracteres 85
    • sexuais e quanto ao temperamento. Afirma que as mulheres possuem muitas alteraçõesde humor devido aos ciclos hormonais. Mas em todos os outros aspectos, como emdireitos e deveres, ele percebe-se muito parecido com uma. Ao falar com uma mulher de sua família, Fábio considera que não age tãodiferente, porém com amigas sim, mede palavras e toma cuidado para saber “onde estápisando”. Já com namoradas ele chega a ser mais íntimo, mas demora um pouco paraque ele possua completa liberdade em falar o que pensa. Diz também que dependendoda situação é necessário ser mais duro com mulheres, “agir como homem”, colocandolimites, mas isto depende da situação (nota da pesquisadora: não fica claro nestemomento se o pesquisado tem a intenção de intimidar a pesquisadora, se os limites deque ele comenta chegam a subordinar a mulher ou apenas significa que como qualquerser humano, existem limites de direitos e deveres nas relações.) Quando fala de sua sexualidade, Fábio comenta que é heterossexual e que temcomo tabu a conquista. Não consegue conquistar, para ele é “antinatural” e que nãoconsegue “chavecar”. Fala que o relacionamento deve ser construído, e não forçado, naopinião dele. Além disso, diz que sente por parte das mulheres uma pressão para que eleefetue a conquista, mas ele gostaria que fosse mais igual. Afirma que ele é um “ímã para mulheres loucas”, é muito difícil ele namorar comalguém que não queira cortar os pulsos, ou roubar a senha do cartão de crédito da mãedele. Sua primeira namorada era bem mais velha que ele, e sua primeira relação não foinem um pouco romântica e portanto “zoada”. Ao mesmo tempo, não desiste de acharalguém legal, mas não sonha casar-se. Quanto à relação entre sexo e amor, Fábio diz que existe o sexo com amor e osexo por esporte, assim como outras formas de amor sem sexo. “sexo com amor é bemmelhor, não, é diferente” ao comparar os dois. E quanto à sexualidade e masculinidade,fala que a masculinidade demonstra-se em maior grau na sexualidade, o homem é maisincisivo. Ao dizer sobre come ele deve se portar na relação sexual, faz seu marketingpessoal falando que “atende a todos os gostos”, que gosta de variedade e que sente quedeve ter um jeito especial com as mulheres, o que é chamado em termos comuns de “apegada”. Fábio tenta prezar o gozo da parceira sempre antes do seu, e até se sente maisconfortável para chegar ao orgasmo quando ela vai primeiro. Quanto à questão davirilidade, ele faz o seguinte comentário: “algum dia vai acontecer, eu vou broxar, ou 86
    • também nem todo mundo tem tesão o tempo inteiro, e acredito que com as meninastambém acontece a mesma coisa, só porque elas não tem um pau não quer dizer que elasnão broxem. O ser humano cria a máquina e quer que todo mundo seja igual a ela,pronto 24 horas.” O que faz muito sentido se pensarmos no que Oliveira (2004)comenta sobre a relação entre o homem e a modernidade, citado anteriormente. Comenta que tem várias fantasias sexuais, mas algumas que ele se interessa maissão lingeries, gozar na cara da parceira, passar chantily na parceira, sexo oral, algemas,em locais públicos como elevadores, entre outros. Para ele, é importante que hajavariedade, e que o casal esteja de acordo. Pensando no que uma mulher realmente quer de um homem, “a mulher no geralquer apoio, carinho, amor, companheirismo, cumplicidade, tamanho do pênis, dependeda pessoa, a respeito de dominação ou não, atenção, preocupação com o que a pessoaestá sentindo ou pensando.” Quando falamos na relação entre homens e filhos, Fábio veementemente afirmaque não pretende ter filhos, mas que um pai deveria brincar com seus filhos, além deajudar na educação e na imposição de regras. Um pai para ele não pode super-protegernem deixar os filhos de lado, deve dar atenção e se relacionar de igual para igual. Umpai deve ainda, na concepção deste entrevistado, brincar com seus filhos do modo comoa criança quiser, sendo menino ou menina. Afirma também que o controle exercidodeve ser igual para filhos e filhas, mas as brincadeiras devem respeitar o porte de cadacriança, menino ou menina. Para ele, a família é introjetada em cada um, uma raiz, a base da ética, das regras,é “a semente que você vai ser”. Fala que é um apoio muito importante, principalmentequando se é idoso, para ele seria um vazio grande não deixar uma continuidade ( e énesse momento que comenta que sua decisão de não ter filhos o afetaria neste instanteda vida). Fábio acredita que uma família se estabelece por vários motivos: um ajuda ooutro, duas pessoas se conhecerem, e são pessoas que estão lá uma para a outra. Paraele, não é preciso ter filhos para criar família, podem ser pessoas sem laços de sangue,desde que se conheçam e estejam juntas. Ele percebe a função da família como darcontinuidade à sociedade, aprimorá-la, propagar novos valores e verdades. Para ele, éum “sistema retroativo da humanidade de se auto melhorar”. Sua função enquanto homem em sua família atualmente é de ajudarmonetariamente, fazer algumas das tarefas de casa e principalmente cuidados com seu 87
    • avô, que possui mais idade e precisa em alguns momentos ser levantado ou levado aalgum lugar, coisa que sua mãe não consegue fazer pela força física. Quanto à relação entre homem e trabalho, afirma que se estivesse desempregado,seria menos feliz, mas não se perceberia menos homem por causa disso. Também não sesente mal por ocupar uma profissão percebida como hegemonicamente feminina, é oque gosta de fazer, e é o que lhe traz dinheiro. Percebe também que existem váriasvantagens de um homem para com uma mulher dentro de sua área de trabalho, porémisso não deveria ocorrer, afinal eles possuem capacidades iguais. Fábio já não vê mais marcadamente papéis ditos femininos e masculinos, e colocaque homens deriam possuir mais características femininas como a sensibilidade paracuidarem do mundo, e preocuparem-se mais com a vida e menos com futilidades.Quanto ao que o diferencia, diz sentir-se mais confortável em andar na rua sozinho ànoite, pois é menos visado em assaltos. Mas além disso, faz o possível para fugir deestereótipos e é isto que o torna diferente. Ele quis fazer um café para a entrevistadora, e insistiu tanto que ela aceitou umsuco que também foi oferecido. Ele mostrou suas gatas, com as quais tem grandecarinho e afeição, e a entrevistadora delicadamente se despediu. Fábio é um homem que ao mesmo tempo em que possuiu uma formaçãofeminista, tem conflitos com sua masculinidade individual e mesmo queinconscientemente, pode perceber a mulher como objeto em alguns momentos. Apesardisso, policia-se para manter suas relações igualitárias. É um homem que acreditainclusive que faz parte da mudança da masculinidade hegemônica. Ramón Ramón escolheu seu prédio como local da entrevista. Ele, com seus 1,55m dealtura, cabelos curtos e corpo levemente “gordinho”, me chamou para conversarmosonde ele pudesse fumar, já que mora com seu sobrinho aqui em São Paulo e este éalérgico. Ramón é um dos 112 (aproximadamente) homens transexuais paulistas queprocuram modificações cirúrgicas pelo diagnóstico de transexual FtM (Female toMale). Já realizou a cirurgia de mastectomia (retirada dos seios), toma hormônios comotestosterona e realizará este ano o processo de mudança de nome e de sexo na justiça.Ele tem um relacionamento estável a doze anos com uma mulher mais velha que ele, eatualmente é servidor público, e faz também transcrições de áudio. 88
    • Foi extremamente acessível para que a entrevista fosse realizada, ligou inclusivepara confirmar a mesma e para antecipá-la para um hora antes, pois conseguiu adiantarseu trabalho. Foi gentil, oferecendo após a entrevista que ficasse para um café. A respeito da relação consigo mesmo, afirma que é difícil responder mas traz,como atributos de um homem, basicamente características físicas como a barba, asmamas não desenvolvidas, e comportamentais, como o cavalheirismo, a impossibilidadede realizar mais de uma tarefa ao mesmo tempo, assim como as mulheres que conhece,e a questão da postura, várias vezes citada pelos outros homens, que é sutil porémentendida pelas pessoas em nossa sociedade. Acredita também que ser o provedor desua esposa é uma característica que o faz masculino, e comenta que quando não pôdefazê-lo, sentiu-se mal a ponto de nunca mais querer que isto ocorresse novamente.Afirma também que outra característica que o faz masculino é a facilidade com mapas,em comparação com sua esposa “que pode virar o mapa do avesso que ela não acha ocaminho”. Ramón também coloca que ser masculino também é uma expressão dematuridade e respeito perante outras pessoas e vai de encontro com o queKimmel(2008) escreve a respeito da mudança do menino para o homem, que é precisoagir de forma diferente ao se tornar um homem, ser mais forte, se impor, respeitar asmulheres (do jeito que o homem entender o que é o respeito por uma mulher, pois issodifere para cada homem na pesquisa), por mais que estas características tem demorado avir cada vez mais em nossa época. No caso de Ramón, respeitar uma mulher significaentendê-la enquanto complementar ao homem, e bem diferente dele. Ramón comenta a respeito da relação entre homens que o que se faz é sair parabeber, jogar bilhar, falar a respeito de mulheres e de preferência, falar “muita besteira”.É o “clube do bolinha”20, que ele afirma ter sido seu recinto desde jovem, e que é ondese sentiu confortável para bater papo, falar de suas conquistas amorosas (das quaisfalaremos mais adiante). Ramón também explicita que ele mede muito a pessoa paracada assunto, e tem assuntos específicos com cada homem que existe em sua vida. Seupai, por exemplo, é uma pessoa que gosta muito de conversar, mas não é com ele queconta para falar a respeito de emoções ou família. Já o pai de sua esposa é mais aberto aisso, e ele conversa bastante com o sogro a respeito deste assunto. Com seus amigos,cerveja é um dos papos possíveis. E com desconhecidos, como taxistas, ele deixa que a20 Clube do Bolinha significa um espaço de construção e afirmação da masculinidade, partilhado apenaspor homens. É um sinônimo da “Casa dos Homens” citada por Welzer-Lang (2001). 89
    • pessoa dê um assunto para que conversem, e atribui esta característica de tentar percebermelhor o outro ao fato de ser profissional da saúde. A respeito da relação homem – mulher, ele diz que nunca achou que fosse mulher,mesmo antes da passabilidade21 (ver Ghetler, Pinto & Lopes (2008)). A mesma coisaafirma sobre ser lésbica, e que esta nomenclatura foi utilizada basicamente para fazercom que outros entendessem que ele gostava de mulheres. Conta que “mesmo quandoeu socialmente me portava como mulher, eu me sentia um traveco”, e que eraextremamente anti-natural para ele. Diz também que sempre sentiu-se parte do “grupo do bolinha”, e que quando estenão era presente, sentia muita falta. Mas completa que são poucas as diferenças entrehomens e mulheres porque, na verdade, estas são características atribuídas pelasociedade, e assim como sua esposa é ótima em consertar telhados ou pintar prédios, eleé ótimo em lavar louças e cozinhar. Vai muito das características de cada indivíduo docasal, e não do que a sociedade estipula. Também muitas características físicas sãosociais, como sua mãe, que tinha músculos extremamente bem definidos devido a umadoença congênita e que era o corpo que “todo trans homem gostaria de ter”; rebate aocolocar sua altura como feminina (1,53m). Quando conversa com mulheres, Ramón mede muito bem o que irá falar, assimcomo o modo de expressão, não brinca tanto nem fala palavrões, e muito menos esperaisto delas. Coisas de sua intimidade sexual são assuntos apenas mencionados com suaesposa, e só fala de outras mulheres com seus amigos. Quanto à sexualidade, Ramón conta que sempre teve sua libido aflorada, mesmoantes de tomar os hormônios para a transição. Teve sua primeira relação sexual com 14anos e este foi um evento bem marcante, visto que na época (na década de 70) e no local(interior de São Paulo), ele se considerou jovem ao fazê-lo. Diz que acabou “pintando ebordando muito”, não gostando de ter relacionamentos duradouros, tanto com homensquanto com mulheres. Mas afirma que a grande maioria dos homens com quem estevese assumiram homoafetivos ou se tornavam mais amigos que namorados, o que nãoacontecia com as meninas com quem tinha relacionamentos, que queriam manter osmesmos, e isto não acontecia; “um, dois, três encontros e tchau. Ninguém podia dizerque eu não avisava antes que eu não ia ligar”. Ramón passou sua adolescência sempre21 Termo que indica quando uma pessoa que possui a vivência da transexualidade consegue passardespercebida pela sociedade em geral enquanto realiza a transição das características físicas ecomportamentais comuns a esta vivência. 90
    • com pessoas mais velhas que ele, e atualmente percebe o quanto faziam como “troca –troca” (quando pessoas, principalmente meninos, têm relações sexuais com outrosjovens do mesmo gênero para experimentar a sexualidade; normalmente a idade é bemtenra, desde os 8, 9 anos até 13, 14 anos, quando ainda se sabe muito pouco sobre oassunto). Diz também que seus pais foram muito esclarecedores neste aspecto, e sempre“se cuidou”. Ao falar sobre o assunto, comenta que foi por tentativa e erro quedescobriu sua sexualidade, e que atualmente tem muita liberdade com a esposa,principalmente quando começou a fazer as transições como a mastectomia e o uso dehormônios. Antes disso, tudo neste âmbito tinha mais travas, e sua esposa não odesejava tanto quanto atualmente; “quando uma pessoa vivencia o próprio corpo, sesente, ele tem um relação entre sexualidade e ser”, completa. Também comenta que não existe jeito certo de se portar na cama, porém sustentaa importância do homem ser viril assim como responsável pelo prazer da(o) parceira(o).Comenta que seu clitóris é grande e é com ele que ele penetra sua esposa, e que admiraa forma como as mulheres podem ter vários orgasmos em comparação com eleenquanto homem, não tantos. Termina este assunto falando que uma parceira realmentequer de um homem atenção, apoio, lazer, e de sentir que existe apoio. Além disso, querter alguém para dividir as coisas, ter com quem construir uma vida, e que ele resolvacoisas que ele é bom. Ele fala que é pelo menos o que sempre esperaram dele, e issoinflui em uma responsabilidade que afeta de certa forma sua masculinidade. Quanto às questões a respeito da relação homem – filhos, para Ramón, filhosdevem ser orientados tanto quanto supridos, devem brincar com os pais, assim comoreceber apoio. Afirma também que existem jeitos diferentes de criar um menino e umamenina, mas as informações passadas devem ser as mesmas. Uma coisa que ele sente émedo, por exemplo de cuidar de uma menina e acabar machucando-a de alguma forma,como em uma brincadeira. Afirma que o controle deve ser igual entre filhos e filhas eque caso um de seus filhos tenha filhos, não importando o sexo, ele ou ela haverá deassumir. Ramón respondeu que só conheceu o que era família ao ter mais contato com afamília da esposa, que se apóia mutuamente, é rigidamente hierárquica (avô, pai, mãe,filhos), e deveria ser um porto-seguro para qualquer indivíduo. Afirma fazer poucocontato com seu pai, já que sua mãe é falecida e que não se sente tanto dentro de uma 91
    • família com se sente na família da esposa. Completa falando que famílias se formamatravés da convivência. Inserido na família, o homem deve ser sempre o provedor, deve dar exemplostanto aos homens mais novos quanto às mulheres, deve ser prático e resolver o que lhecabe (como ser o “motorista” para sua esposa, ou lavar o carro). As vezes, o homemtambém pode dar medo, tornado tratos combinados mais sérios, como é o caso do irmãoda esposa de Ramón, que deve dinheiro e sua esposa colocou o nome de Ramón caso oirmão não devolvesse o dinheiro ao casal. Nosso participante sente que deve “segurar aonda” quando está em família, não chorar, por exemplo, mas tenta agir o mais naturalpossível, de modo a tornar este espaço seu. Em outro momento, coloca que a família desua esposa tem papéis muito específicos para cada um e isto configura uma estruturafamiliar. O trabalho para a vida de Ramón é central para o sustento, além de que ele nãoconsegue ficar parado, sente-se incapaz, menos homem, improdutivo. Ele tem que fazerno mínino as tarefas de casa, desde que a esposa deixe que ele as faça (pois ela afirmaque ele é muito ruim em fazer certas tarefas, como dobrar camisas por exemplo.). Coloca que em seu ramo de trabalho, homens são mais objetivos, por mais queisto não seja uma regra de acordo com ele. Comenta também que existem tarefas maisadequadas a pessoas diferentes independente do sexo que elas possuam. Afirma tambémque é cultural que a mulher cuide dos filhos, por exemplo, e falte mais por isso, poisambos os pais podem fazer o trabalho de cuidar de uma criança. Quanto a o que o diferencia na sociedade enquanto homem, ele comenta quemuito tem a ver com postura, tipo de roupa e corte de cabelo. Que ao ser percebidocomo homem na sociedade, se tornou mais cobrado em não sentir dor, em observar emanter preconceitos e ele percebe menos igualdade entre os gêneros. Ele comenta que asociedade ainda impõe à mulher a jornada dupla, o cuidado com os filhos, assim comoresponsabilidades diversas e afirma que cada um deveria fazer o que sabe fazer bem enão o que a sociedade determina. Ramón foi muito cordial ao final da entrevista, levou a entrevistadora para queconhecesse seu apartamento, o qual divide com seu sobrinho, enquanto a esposa moraem Sorocaba, onde realmente considera sua casa, mas que seu trabalho é aqui. Quisfazer um café, mas este foi recusado cordialmente também e ele a levou até embaixo e 92
    • se ofereceu a levá-la ao estacionamento, embora este se localize a meia quadra doprédio. Este entrevistado possui uma visão concreta da masculinidade, já razoavelmenteformada. Entende inclusive onde pode ser considerado machista, e de onde vêm estespensamentos, principalmente na questão do trabalho. Em contraste, sua sexualidademuito colabora para uma visão mais igualitária, assim como a visão do masculino.Ramón não precisou procurar a masculinidade. Ele já a possuía antes mesmo de alterarcaracteres físicos e isto demonstra o quanto estes dados não necessariamente possuemlaços tão rígidos. Maurício Maurício é um homem alto e razoavelmente gordinho. Combinou de encontrar apesquisadora em um café dentro de um centro comercial reconhecidamente freqüentadopor homossexuais. Este participante demorou cinqüenta minutos a me encontrar e meexplicou quando chegou que tinha acabado de participar de uma seleção para trabalharem uma sauna específica para o público homoafetivo. Maurício é educado e se sentainclinado para a frente, curioso pela pesquisa. O contato foi feito através de um blogescrito por ele, e o encontro foi “às escuras”, ou seja, a pesquisadora conheceu-opresencialmente (tanto sua voz quanto fisionomia) no momento da entrevista, comoaconteceu com a maioria dos entrevistados. A respeito da primeira questão, o participante afirma que ser homem é serdefinido pelo gênero masculino, e não tem a ver com responsabilidades ou sobre o que épreciso fazer. Afirma também que não existem características físicas que diferenciem ohomem da mulher. “No meu ponto de vista, ser homem é apenas um gênero”. Porém,quando afirma as características que o fazem masculino, responde a respeito da forçados traços de seu rosto, da barba (que gosta de deixar por fazer), dos pêlos, dos “traçosfortes que os homens tem”, principalmente por traços físicos. Quanto ao que o fazmasculino perante a sociedade, ele afirma que o jeito de se vestir, o corte de cabelo, abarba o fazem assim ser percebido, e que traços comportamentais variam de pessoa parapessoa, mas a primeira característica que faz por exemplo uma mulher ser masculina sãocomportamentais, como postura, pró-atividade principalmente, e percebeu-se comomachista ao afirmar tal frase, quase desculpando-se ao falar isso para a entrevistadora.Ela repetiu o discurso a respeito da individualidade do sujeito e do não julgamento que 93
    • teria ao entrevistá-lo, e ele então re-afirmou que mulheres pró-ativas demais sãomasculinizadas. Fomos adiante. A respeito da relação com outros homens, comenta que lida de forma linear, queconversa da mesma forma que conversaria com uma mulher, a não ser quando a relaçãoé amorosa com outro homem. Comenta que a única diferença é que ele se abre maiscom mulheres do que com homens, e coloca que a razão deste fenômeno se deve à suasexualidade. Afirma que existe inclusive uma dificuldade em conversar e em se abrircom outros homens, e que isto facilita que haja assuntos em comum com mulheres. Umexemplo de assunto em comum é a moda. Outra razão pela qual ele tem mais amigasmulheres é que “elas abrem mais a guarda”, e não o julgam, não existe a preocupaçãodo homem desejando ou não. Diz que fala a respeito de outros homens de conquistas,música e ainda coloca que a maioria de seus amigos são homoafetivos como ele. Emoutros casos, como na faculdade que está fazendo, (Sociologia), diz conversar muitosobre a sociedade. A respeito da relação com mulheres, Maurício coloca o gênero como diferença epor conseqüência o comportamento (ou seja, devido aos gêneros diferentes, cada umage e se comporta de modo binário), e que isso o torna diferente “apesar” de se sentiratraído sexualmente por homens (como a maioria das mulheres, segundo ele); é destaforma que se torna diferente de uma mulher. Em compensação, ao falar das semelhanças coloca a característica de ser sensíveltanto como algo feminino que compartilha quanto algo pejorativo: generaliza isto aomundo gay. Coloca ainda que esta sensibilidade lhe traz uma percepção de mundodiferente. Finalmente diz que ao estar na frente de uma mulher não percebe nenhumamudança em seu comportamento, “me comporto como ser humano”. Sua sexualidadepara ele é motivo para não ter travas e portanto para que possa se comportar de qualquerforma com uma mulher, inclusive dar-lhe um beijo se este for seu desejo “da mesmaforma como eu faço com meus amigos gays”. A respeito de sua sexualidade, Maurício diz que os homens, diferentemente dasmulheres, conseguem chegar muitas vezes à plenitude sexual, e atribui ao falsomoralismo da sociedade o fato de que elas tenham que ter menos prazer e menospossibilidades que os homens. Afirma que houve eventos marcantes relativos àsexualidade principalmente na infância: o primeiro momento em que descobriu quegostava de homens foi na oficina de costura de sua mãe, que confeccionava lingeries; 94
    • gostava de ver revistas de homens e não de mulheres seminuas, porem não atribui a esteevento a única causa de sua homossexualidade, e inclui em seu discurso fatoresgenéticos assim como ambientais. Afirma também que não existe relação alguma entre sexo e amor e ainda dá maisvalor ao sexo que ao amor. Justifica tal visão explicando que acabou de sair de umrelacionamento longo, e por mais que ame muito seu ex, jamais faria sexo com ele denovo, “sexo com amor é muito mais gostoso, mas são coisas que andam muito bemsozinhas”. Para ele, o homem é criado para ser forte no sexo, e isso o influenciasobremaneira, assim como o machismo, e percebe que nessa sociedade isso acontece,não em todas. Ele se porta de forma “dada”, porém prefere ser ativo; então faz aanalogia entre ser um ativo – passivo, ou seja, alguém que penetra porém gosta de serguiado no sexo. Sente que será alguém participativo também em outros ramos da vida,comentando que se algum dia se casasse, seria tão útil quanto seu companheiro,ajudando-o nas tarefas de casa. Comenta que isso é raro, que existe sempre a“menininha e o menininho da relação no casal gay”, reproduzindo padrão heteroafetivosde relacionamento. “Não sei porque o casamento é tão importante”, complementandoeste discurso a respeito do casal gay. Nesse momento a entrevista precisou ser interrompida e só dois dias depois,retomada. Continuando a entrevista, Maurício diz que o que um parceiro realmente quer deum homem é satisfação, seja ela sexual ou sensual. Quanto a filhos, ele comenta ter vontade de tê-los, e que na relação anteriorconversava muito com o parceiro sobre ter filhos biológicos. Porém “achar uma amigalésbica que queira ter um filho é muito fácil, agora, eu quero ter um filho pra criar, (...),será que ela vai deixar isso?” e deixou a história esfriar. Tem um sobrinho e gosta muitode cuidar dele, e sonha com filhos biológicos, e nem pensa sobre filhos adotivos. ParaMaurício, não existe como ser pai ou mãe, isso é inventado, e afirma que um pai devetanto cuidar quanto nutrir um filho no momento em que o tem. Os pais, sendo hetero ou homoafetivos, devem dividir as tarefas que se sentemmas confortáveis em fazer. Tem um discurso extremamente inflamado a respeito disso,e levanta a voz ao dizer que todos são iguais em responsabilidade e que a sociedade trazestes papéis que necessariamente não serão benéficos às pessoas que deles se utilizam.Comenta que crianças são extremamente intuitivas e portanto os pais devem perceber 95
    • estas demandas para cada um dos sexos das crianças, porém existem sim jeitosdiferentes de tratar filhos e filhas, principalmente na questão de sexualidade (o homem éo ‘pegador’ e a menina a ‘santa’) e coloca que sim, a mulher é mais frágil que o homem. Afirma que apesar de pensar desta maneira, não foi fácil que seus pais oaceitassem, e que inclusive levou surras do seu pai “por ser gay”, e que eles por seremprotestantes, encararam-no como alguém possuído pelo demônio. Porém “o amor dafamília supera tudo” e hoje em dia sua mãe o entende, torce por ele, e o respeita. Seu paijá não toca no assunto, porém deixa que ele tome suas próprias escolhas. Outra coisacaracterística de sua família é que eles não o deixam sair de casa, em oposição a váriosamigos seus também gays, que os pais forçaram a “deixar o ninho”. Para ele, família é um aglomerado de pessoas que tem um objetivo em comum,que se ajuda, mas não necessariamente tem laços de sangue. “O que gays mais seaproximam de famílias são os seus amigos”, afirma. Acrescenta que em sua família,existe uma hierarquia a ser seguida assim como regras ditadas pelos pais, e que estasconvenções são comuns a todas as famílias que conhece. Maurício acredita que umafamília heteronormativa (termo utilizado por ele) se forma através da busca por filhos,enquanto a família não-heteronormativa se consolida através de escolhas feitas pelosseus integrantes. A família para ele é feita também de conquistas e afinidades. Asfunções da família para ele são manter um equilíbrio, ou como “norma de controle”,devido à facilidade de controle deste tipo de estrutura pelo estado. Quanto a trabalho, diz que sua única função é o sustento, não importando o gêneronem o tipo de trabalho. Além disso, não existem funções masculinas ou femininasespecificamente, isto é cultural e pode ser alterado. Finalmente, sobre a função do homem na sociedade, Maurício é hesitante emafirmar se realmente existe um papel específico ao homem, e que mesmo que algunspapéis lhe sejam atribuídos, estes só serão reais ou não de acordo com cada indivíduo.Afirma também que antigamente estes papéis eram mais definidos, porém atualmenteeles se mantém de forma velada. Coloca que a mulher é o “sexo forte” e que elacontrola um homem como ninguém o poderia fazer. Mesmo assim, o poder hoje em dia é exercido por homens, ainda que isso sejasocialmente construído. “Se elas não estão no poder, é falta de oportunidade,machismo.” Maurício diz que enquanto homem gay, ele é infeliz com a sociedade emque vive, pois tem vários direitos negados, como o casamento, herança, direitos 96
    • previdenciários. Comenta que em nossa carta magna, os direitos são iguais, porém naprática isto não ocorre, devido ao preconceito. Terminando a entrevista, Maurício cordialmente acompanhou a entrevistadora atéo caixa do café onde estavam, pagaram cada um suas bebidas e se despediram. Pode-se ver que este entrevistado está entre as convenções sociais e o que gostariade acreditar, e seu pensamento é um reflexo disso, cheio de contradições, às vezes emum mesmo tipo de relação. Isso nos traz o aspecto da masculinidade hegemônica comomodelo ideal em conflito com a masculinidade individual, como se elas não pudessemcoexistir. Maurício está formando suas acepções sobre nossa sociedade, e assim como aprópria masculinidade, está em transição, demonstrando racionalidade, mas fazendoescolhas com o coração. Gustavo Gustavo é um homem baixo, de barba expessa e olhar fixo, que parece quereranalisar o mundo que o cerca. Tem 33 anos e nasceu no estado do Rio de Janeiro, nointerior. Mudou-se para São Paulo devido à sua esposa, que já morava por aqui.Trabalha como tradutor e está fazendo a faculdade de psicologia. Encontrei-o no Blog que escreve, onde faz questão com todas as letras de afirmarque apóia a causa trans, principalmente por se sentir assim desde pequeno. “Mesmoquando eu era criança, eu já não gostava de usar vestido, aquela não era eu”. Fazterapia há um ano e seis meses, e hoje em dia participa como auxiliar em um grupo parahomens trans, tendo como objetivo causar identificação e entender também um poucode sua própria vivência. Para Gustavo, ser homem é ser si mesmo, é olhar para si e se reconhecer, éentender que existe tanto a feminilidade como a masculinidade em si, estandoconfortável com sua própria situação. Mas afirma também que nunca abre mão dosímbolo “barba”, e isso o faz se sentir mais masculino, mas não certos estereótiposcomo a questão de ser o provedor de sua família, não ser frágil ou ser agressivo. Colocaque anteriormente isso era muito difícil, principalmente no começo de sua transição depapéis de gênero22, pois havia uma questão do excesso da masculinidade para rebater22 Se pensarmos na vida de um indivíduo que possui a vivência da transexualidade, é sempre importantefrisar que a transição efetuada nos corpos, nas roupas e nas atitudes não são mudanças de gêneronecessariamente, mas sim de comportamentos mais ou menos aceitos na sociedade de acordo com o que asociedade identifica como gênero. Portanto, um/a transexual não muda seu gênero, ele muda o modo 97
    • uma feminilidade externa. Porém ao se deparar com o homem que era, isto foimudando. Comenta que ao se relacionar com outros homens hoje em dia, já confortávelconsigo, ele é capaz até de ter um relacionamento afetivo com um homem, abraçá-lo oumesmo beijá-lo sem que isto cause dúvidas. “Depende da pessoa, depende domomento”, afirma então, e coloca que dependendo do homem, ele reage de mododiverso. E isso abrange tanto vocabulário, quanto tom de voz, quanto assunto. Quanto às diferenças que percebe comparando-se a mulheres, Gustavo apontapara a mastectomia23. Nesse momento ele diz que ainda não fez a cirurgia deneofaloplastia24, e nem pretende, pois considera sinal de saúde psíquica alguém nãoquerer fazer uma alteração corporal tão invasiva quanto essa. Inclusive, coloca que fazeresta escolha o coloca como uma pessoa diferente, criando algo “a mais”, umaindividualidade própria sua, “por que eu não podia me apoiar em termos de falo, pradizer, ‘sou homem’.”. Além disso, componentes que o diferenciam das mulheres são abarba, a histerectomia25, a ooferectomia26: foca nestas duas últimas pelo aspecto de nãomais menstruar assim como não ter mais as mudanças hormonais cíclicas femininas.Quanto à personalidade, não percebe nenhuma diferença física que possa mudar o modode pensar feminino e masculino, e diz que não sabe até que pontos estas diferenças sãoconstruídas socialmente. Comenta que existem mais homens sensíveis, e mulheres maispragmáticas. Quando falou nas características que o faziam parecido com uma mulher, afirmaque uma das características com as quais ele se percebeu foi a sensibilidade, e que umadas coisas que ele teve que reaprender em terapia, o sentir. Coloca que quando se étransexual, é necessário reaprender a sentir, a se relacionar, como uma criança. “Eu voume relacionar como eu me sinto, ou eu vou me relacionar como esperam que eu faça?”coloca. E afirma que esta experiência para ele acaba sendo fantástica, pois consegue vera sociedade de mais ângulos, “você está inserido mas você consegue olhar de fora”, ecomo a sociedade o/a enxerga, mas a priori, ele/a já possuía aquele gênero, que era invisível à percepçãoempírica humana e foi demonstrado a partir de atos, roupas e mudanças corporais efetuadas pela pessoaem questão.23 Cirurgia onde são retiradas as mamas e o excesso de pele do seio feminino, assim como a diminuiçãodas auréolas.24 Cirurgia onde é criado um pênis com pele do indivíduo, sendo que existem algumas variações decirurgias, como com órtese(de silicone) assim como o alongamento do clitóris.25 Retirada do útero.26 Retirada dos ovários. 98
    • afirma que as pessoas o olham de forma diferente quando ele andava como mulher eatualmente. Na frente de mulheres, ele tenta sempre ser gentil, ser cavalheiresco, e consideraisso bom dependendo da pessoa, e como ela reage a isso (lembrando que ele não medeixou pagar meu próprio café, e inclusive o trouxe para mim.). Faz o paralelo arespeito de como se porta na frente de homens, depende muito de quem é que estádiante dele. Quanto às mudanças hormonais, comenta que quando sua esposa as têm, eleprefere ficar mais quieto e dar presentes como chocolates para que ela fique maistranqüila, além de tentar ser paciente (coloca que não é por que ele já teve estesperíodos que compreende completamente sua esposa quando ela os têm), e tenta fazercom que o diálogo seja o pilar da relação que têm com sua esposa. Quanto à sexualidade masculina, afirma que é mais rápida, as respostas corporaissão mais rápidas, e que não necessariamente são cruciais certos estímulos para que aexcitação ocorra. Gustavo afirma também que a excitação não obrigatoriamente vem dapessoa de que você gosta, não é algo tão constituído com afeto. Quando começou atomar hormônios masculinos, o desejo mudou muito, e as sensações em zonas erógenasaumentaram assim como o tamanho do clitóris. A vontade de fazer sexo tambémaumentou muito, e isso alterou a vida de casal que possuía, e possui até hoje. Comentaque levou um tempo razoável até se acostumar com sua nova libido, e que essa é umacaracterística muito diferente entre o desejo masculino e o feminino. Diz que chegavaem momentos a pensar em sexo o dia inteiro e até sua esposa reclamou da freqüênciaque ele pedia que ela tivesse relações sexuais com ele. “É a puberdade, literalmente.Mas depois as coisas vão amansando.” Neste momento ele também coloca que isto aconteceu com ele, mas que nãonecessariamente o desejo diminui para outros homens trans, principalmente pois estacaracterística de ser viril o tempo inteiro é estereotipicamente hegemônica, e portantobuscada pela maioria deles. Isso implica inclusive em problemas relacionais com ascônjuges muitas vezes, pois elas tem a impressão de que este aumento da libido vaidiretamente de encontro à traições, independentemente do amor sentido pelos dois.“Muitas vezes tenho que explicar para namoradas de amigos trans que não é porque eleestá tomando hormônios que ele vai querer transar com qualquer árvore que aparece nafrente dele.”. Comenta que isso depende do respeito mútuo e a confiança entre os dois.Fala que com sua esposa existem várias diferenças pois ela gosta muito de sair com 99
    • amigos de antes do namoro, e ele não gosta deles, mas existe respeito, e se por um acasoa situação se inverte, o apoio também existe. Eles estão juntos há bastante tempo, e ela passou pela transição com Gustavo,respeitando-o em seu momentos mais difíceis. Conta que nem sempre foi a pessoasegura que é hoje, e que quando era adolescente, teve vários problemas psicopatológicoscomeçando por uma compulsão alimentar, depois então invertendo para anorexia, eentão surtando. Também era percebido que ele tinha uma postura masculina desdepequeno. Assumiu-se homossexual para sua família na adolescência mais para dar nomeà sua preferência sexual do que realmente descrever o que sentia sobre si, e seus paislogo aceitaram. Porém em relacionamentos amorosos, suas parceiras percebiam que nãoestavam namorando bem uma “menina”, e eles logo terminavam. Com as dietas naadolescência para emagrecer e as rejeições, a saúde de Gustavo foi minada de tal formaque ele entrou em uma síndrome anoréxica, desmaiou e teve um trauma crânio-encefálico grave. Ficou em coma e ao sair do hospital, passou de quatro a seis anos emdepressão e com episódios de automutilação. Passou por uma psicóloga por um ano emeio e ela ajudou-o a entender-se um pouco e questionar-se mais ainda. “Teve umasessão em que ela falou para mim ‘você não tem gênero’ isso me indignou; é claro queeu tinha, eu só não sabia qual era!”. Passou por psiquiatras e tomou variadospsicotrópicos, como Prozac, anti-psicóticos, lítio. Para ele, foi um momento de deixarde ser “Maria27” e se tornar alguém, alguém sem um nome procurando um modo de serno mundo condizente a si. Então, ao assistir o filme “Meninos não Choram” que conta ahistória de Brandon Teena, um homem trans, que Gustavo começou a perceber seurumo. Afirma que este período foi um divisor de águas importantíssimo para chegar aser quem é atualmente. Quanto à masculinidade e sexualidade, ele diz que a expressão da masculinidadenão precisa estar condicionada a uma sexualidade específica, não dá para colocá-los emrelação do modo como a maioria das pessoas coloca. Falando sobre como um homemdeve se portar na cama, coloca que não conseguiria ser passivo. Em relação ao gozo,comenta que é impossível que os dois cheguem no mesmo momento ao orgasmo, afirmaque isto é uma ilusão e que é uma delicadeza deixar que a mulher chegue primeiro. Efala que uma fantasia sexual masculina sua é a da enfermeira, pois o cuidar é muitosignificativo para ele.27 O nome foi trocado para respeitar a identidade do sujeito. 100
    • Para Gustavo, o que uma parceira realmente quer de um homem écompanheirismo, amizade, afeto, ainda mais depois de uma relação de longa duração, éestar com o outro, tomar café juntos, ao invés do sexo ou da paixão inicial. É baseadano diálogo, na conversa, é chegar em consensos. Quanto à relação com filhos, ele acredita que é preciso cuidar deles com afeto. Emsua vida pessoal, Gustavo teve uma relação muito confusa com seus pais (os dois eramausentes, nunca moraram juntos e uma série de outros fatores fazem com que Gustavoclassifique sua relação com seus pais desta forma), e não gostaria de reproduzi-la comseus filhos. Não acha que seja possível não errar em algum grau no cuidado com osfilhos, porém, é preciso tomar cuidado, “ainda mais nos dias atuais”. E como seus paisnão demonstravam afeto nunca, ele afirma que não gostaria de repetir isso em suaprópria família. Porém outras pessoas em sua família foram importantes em sua vida, eisso o auxiliou a ser quem é hoje. Quanto a limites, ele acredita que é algo necessário, porém que não chegue emabuso ( como por exemplo ajoelhar no milho). “O filho tem que aprender o não, temque aprender a lidar com as próprias frustrações.”. Tem como princípio que éimportante colocar limites sem podar possibilidades de ser para assim ensinar a criança. Quanto a diferenças entre filhos e filhas, ele comenta que como ele considera aadoção um meio possível e desejado de ter filhos, a pessoa que escolher sua família serásua prole, não importando o sexo biológico. A respeito de família, Gustavo afirma que é algo muito importante para se sentiracolhido, que são pessoas com quem compartilhar, cuidar, se preocupar e exige umtempo razoável de sua vida. Pontua também que uma família não precisa ter laços desangue para existir e é a base que dá forças para que as pessoas cresçam. Não apenasisso, para Gustavo não existem funções fixas sobre o que ele deveria fazer enquantohomem dentro de uma família, pois isto depende da capacidade e dos limites de cadaum. Comenta que na frente de sua família, mantém sua postura, as vezes muda apenasde assunto. Quanto à função do trabalho em sua vida, já se cobrou bastante, mas hoje é maistranqüilo. Teve uma época em que não conseguia trabalho pela cidade onde morava porcausa da questão transexual, mas hoje em dia gosta de seu trabalho e foca em mudar decarreira, estudando psicologia. Outro ponto que coloca é que ganha muito mal comotradutor, e se priorizasse ser o provedor em sua casa, estaria perdido. Afirma também 101
    • que não existem diferenças entre homens e mulheres em seu campo de trabalho, porémesta característica organizacional pode não se repetir talvez em trabalhos braçais. Quanto ao papel que o homem exerce na sociedade atual, Gustavo tem comopremissa que as pessoas continuam tendo pensamentos bem arcaicos e machistas quantoà relação entre gêneros; que o homem tem que ser “o provedor, aquele que não chora,etc.”; coloca que o preconceito e a diferenciação das funções masculinas e femininasainda existe, e está enraizado no modo de ambos pensarem. Finaliza esta questão aodizer que as diferenças entre pessoas de gêneros distintos na realidade são individuais enão do gênero em si. Ao diferenciar-se de outros homens, a característica de terconseguido assimilar a parte feminina sem que fosse gerada angústia ou maispreconceitos o coloca em destaque para si. Afirma que é preciso exigir direitos, porémeles virão no momento em que exista uma igualdade entre as individualidades e não oressaltar das diferenças. Gustavo fez questão de pagar o café da entrevistadora, e gentilmente se despediu. Este entrevistado passou por várias complicações em seu caminho e estas foramcruciais para o descobrimento de sua masculinidade. Hoje, tem dentro de si segurança eforça para auxiliar seus colegas de vivência, pois muito provavelmente gostaria quequando ele estava no momento de transição, que alguém o tivesse ajudado desta forma.Acredita-se que sua masculinidade individual é atualmente concreta, porém, sem fixar-se completamente. É na fluidez de sua existência que ele vai montando e desmontandodados que formam sua masculinidade, e isto a torna completamente diferente das outras,pois é apenas sua. Artur Este entrevistado foi encontrado no clube que ele costuma freqüentar, assistindoseu filho de 12 anos jogar badminton. Ele atualmente é casado pela segunda vez, está noauge de sua vida profissional e redescobrindo várias características de si ao aprender ase abrir mais (No começo do ano passado, fez pela primeira vez 6 meses de terapia eisto lhe abriu horizontes). Artur possui uma paralisia hemiplégica, ou seja, não conseguemexer as pernas e não possui sensação táctil até o peito, que pelo que o entrevistadocomenta, é algo que possui desde a infância. As possuir 54 anos, ele teoricamenteestaria fora do continuum pesquisado, porém se observarmos seu momento de vida, elese encaixa com o de outros pesquisados em se tratando de momento profissional, 102
    • pessoal, amoroso e existencial. Então foi decidido mantê-lo no espectro demasculinidades que observamos durante a pesquisa. Artur possui uma postura bem rígida e no começo da entrevista manteve-se debraços cruzados e olhos cerrados. No peito sem camisa, via-se um crucifixo dourado epelos brancos contrastando com sua pele bronzeada. Sentado em sua cadeira de rodas,ele começou falando pouco. Mais tarde, foi se soltando ao perceber acolhimento.Inclusive, foi um dos únicos a mandar e-mails para a entrevistadora pós-entrevistaexplicitando mais questões que o faziam ser como era. Para ele, ser homem significa cumprir as funções que tem como designadas, comopai, marido e dono de casa. Também significa trazer tranqüilidade e proximidadeàqueles ao seu redor. Percebe-se como masculino através de várias características.Fisicamente, do seu jeito, da barba que usa, seu tamanho e altura. Já psicologicamente,coloca que características como ser mais fechado, teimoso, emburrado, duro são o que ofaz masculino, assim como a potência de querer mudar estas características também.Acredita também que ao ser honesto com os outros e consigo, ter metas, ser bom, estarem paz, tratar bem as outras pessoas, tentar fazer o que gosta, e mostrar aos filhos a tero mesmo tipo de atitude também são atitudes que transformam-no em alguém maismasculino. Quanto à relação com outros homens, Artur afirma que possui “dois modos defuncionamento: inseguro, no qual eu fico disputando com os outros homens, e seguro,no qual, eu aprendo, convivo e troco idéias e sentimentos”. Esta divisão nos faz lembrarmuito as relações entre homens romanos, que ia da profunda amizade entre colegas debatalha, que os entendiam e percebiam sua dor além de seus ganhos, e os própriosinimigos de batalhas, na qual a disputa era a própria relação. Os assuntos que conversa com outros homens são geralmente valores, notícias,filhos, esporte, carro, temas da vida diária, esposa, vida sentimental e amorosa, mal-estares, assim como estágios da vida. Aqui o que comentamos a respeito de relaçõesentre homens no capítulo sobre as relações é válido, visto que cada assunto que Arturconversa, ele o faz dependendo de que homem está na sua frente. Quanto a sua relação com mulheres, afirma que fisicamente, ele é completamentediferente de uma (reafirmando a questão dos opostos), porém existem aspectos emcomum com algumas delas, como filhos e gastronomia, visto que esta é uma de suaspaixões. Também põe como ponto comum direitos e deveres e reafirma diferenças 103
    • comportamentais e de atitudes como entregar-se em uma relação amorosa; afirma quemulheres não se entregam se acreditam que um relacionamento terá fim, enquanto eleenquanto homem não age desta forma. Afirma que em função de sua infância,adolescência e casamento, possui uma carência afetiva vinda do sexo feminino grande, epercebe-se como um homem com baixa auto-estima. Por isso, ao relacionar-se comuma, já pensa se poderia conquistá-la ou se ela poderia ser dele. (neste ponto daentrevista a pesquisadora se sentiu desconfortável; estaria ela na frente de um caçador?O que percebe-se é que a intenção desta fala não foi apenas explicitar pensamentos, masintimidar alguém que o intima, se defender de algo que o faz sentir-se desconfortável:abrir-se.) Coloca que altera o tom de voz dependendo da aproximação que tem comalguma mulher. Quanto aos assuntos que ele só fala com mulheres, são relacionados asexualidade e sentimentos. Quanto a algo que só fala com homens, é a frase “comoaquela mulher é gostosa”. Diz que já tentou falar isto com mulheres, porém elas nãogostavam, mesmo este sendo para Artur um elogio, e não algo pejorativo. “Elas vêm agente como o lobo mau” afirma. Quanto à sua relação com sua sexualidade, ele a considera terrível, pois dependemuito de seus estado mental. “Se a cabeça está prejudicada,toda a atividade tambémsegue o mesmo rumo da cabeça, inclusive a sexualidade”. Afirma que possui uma baixaauto-estima devido ao relacionamento que teve com seu irmão e pai. Apenas namoroucom uma mulher, e foi com ela que se casou, querendo muito que este casamento dessecerto. Não foi o que aconteceu. Com a esposa atual existem divergências a respeito desexo, visto que ela gosta menos que ele das relações sexuais. Uma vez ele disse algo aela, e ela se blindou completamente neste aspecto; ele então tem estado entre a espera ea luta por ela (Porém é possível deduzir que tem perdido várias batalhas, e este é um dosmotivos que o incentivaram buscar terapia no começo do ano passado.). Sobre a conquista, Artur afirma que é mútua, pois a conquista em si está dentro detodo e qualquer ser humano, independentemente do objeto a ser conquistado. Para ele, aconquista nunca é suprida, e é por esta razão que os homens trocam objeto de desejorapidamente; isto inclui mulheres cada vez mais novas e mais bonitas aos olhos dasociedade, carros cada vez mais atuais, a tecnologia mais avançada. Quanto a eventosmarcantes em seu ciclo vital que o tornaram deste jeito, ele relembra de seu pai, que eramuito envergonhado por ser homem e passou isto aos filhos. “Para o meu pai,demonstrar masculinidade na frente de uma mulher era muito feio. E isso ele passou 104
    • para a gente.” Além disso, afirma que não era muito fã de sair até tarde da noite, oubeber com seus irmãos e amigos. Gostava dos esportes, e era muito tímido com asmulheres. Namorou apenas uma vez, e casou-se com esta mesma mulher. Diz queapenas teve relações sexuais com sua primeira esposa 4 dias depois da cerimônia,“depois de muita falta de jeito” como coloca. Esta esposa não gostava de dormir juntocom ele, o que dificultava muito na intimidade dos dois. A relação que faz entre sexo e amor remete muito à idade para este entrevistado.Ele comenta que se a idade é tenra, o sexo é algo mais importante, e apenas mais tardeque o amor é descoberto. Quanto à relação entre masculinidade e sexualidade nos fala algo completamentenovo: ele se sente extremamente masculino, mesmo que sua sexualidade nãoacompanhe seu desejo. Mas ele percebe que na maior parte dos homens, isto é diferente,que sexualidade muito tem a ver com masculinidade. Comenta que possui sensações atéos ombros, e que quando faz sexo com sua mulher, ela lhe dá beijos no pescoço, nasbochechas e na parte superior do peitoral e ele sente prazer, e manipula-a com as mãos ea língua. Comenta que não existe jeito certo de se portar na relação sexual, que é precisoespontaneidade, sentir as sensações que vem com o prazer. Ele preza como Fábio oprazer da parceira em primeiro lugar. Uma fantasia sexual que cita é a de ver as pessoas que nadam na piscina tirarem aroupa, o proibido (na questão estética), que chama de “teasing”. Outra que cita é veruma situação onde cai um biquíni ou um sutiã de uma moça, ou mesmo quando umamulher se abaixa poder ver seus seios ou em posições de ginástica, algo visto de acordocom a circunstância. Afirma que o que uma parceira realmente quer de um homem é segurançafinanceira e de bens materiais, visto que as pessoas atualmente são muito ligadas aomundo material. “talvez o que as mulheres queiram e não saibam necessariamente, éamor, mas ela percebe que pouquíssimos homens estão dispostos para dar isso pra ela,então elas guardam isso no inconsciente, e vão atrás de outra coisa.” Comenta. Artur comenta que ao cuidar de seus filhos, não possui uma função enquantohomem, mas sim como pessoa. Afirma que o relacionamento deveria ser de igual paraigual, um ensinando o outro a viver. Comenta também sobre as expectativas que algunspais põe em seus filhos: “você não pode matar seu filho, ele tem a vida dele; se ele tema vida dele, ele não poder ter a tua própria vida. Se você impuser a sua vida, o seu jeito, 105
    • as tuas coisas, é como se você tivesse matando ele”. Comenta que age de forma maisnatural com sua família, e tenta agradar seus filhos fazendo companhia para eles,ensinando-os sobre as causas e efeitos no mundo. Comenta também que existem diferenças cruciais entre filhos e filhas, e que osdois nunca poderiam ser tratados de modo igual, a não ser quanto a controle, que deveser exercido em ambos os sexos. Para o entrevistado, família é um grupo de pessoas quese amam e que possuem um compromisso uma com a outra, nem que de formainconsciente, segundo ele, para formar um grupo que dê sustentação. Artur destaca quenão existe um roteiro específico de como um homem deveria se portar perto de suafamília, e que depende muito da demanda que é apresentada a ele. Para o entrevistado,as coisas boas de estabelecer uma família são a convivência, e ter contato com aspessoas que se gosta. As coisas ruins, no entanto, remetem a alguém específico dentroda dinâmica familiar que possa atrapalhar o relacionamento com os demais. Para Artur, o trabalho não possui função edificadora, como para Ramón. Emcontraste, é apenas fonte de renda, e afirma que não gosta de sua função. Quanto àsdiferenças entre homens e mulheres em seu ramo de trabalho, estas são várias: para ele,homens evitam perder tempo, tentam resolver conflitos, fazem menos bagunça e muitomenos fofoca, têm menos medo de chefes ou de perder o emprego. Além disso, acreditaque as mulheres não acham ruim errar, e que estas possuem uma auto-estima baixa deacordo com a família que tem e, portanto, têm menos medo de perder o emprego. Outracaracterística feminina no campo de trabalho é que elas alterariam seu estado de humordependendo de elogios ou reclamações, coisa que não acontece com homens segundoArtur. O papel do homem para este entrevistado depende de como ele é se porta nomundo onde vive. Para ele, um homem que quer ser uma pessoa boa deveria conversar,debater, explicar e discutir suas idéias. Além disso, coloca que quem constrói os papéisna sociedade são o transistor, a psicologia e a linha de produção. Isto porque o transistoraumentou a rapidez das informações, tudo se torna descartável na medida em que otempo passa. Além disso, a psicologia ensinou ao marketing como criar e incutir desejosnas pessoas, então nos tornamos consumistas. Enfim, a linha de produção dita padrõesque deveríamos seguir, lembrando os identikits colocados por Oliveira (2004). Destaforma, hoje em dia existem várias personagens estereotipadas, e não há mais troca depapéis, se não as pessoas não se sobressaem em sua área de interesse. Finalmente, o que 106
    • o faz diferente de outros homens é a coragem de ser do seu jeito, e a vontade deinfluenciar as pessoas a seguirem um bom caminho. Artur é um homem esclarecido que sente possuir uma missão em vida: ensinar.Suas características formaram um homem sensível a mudanças em sua sociedade assimcomo suas próprias alterações na masculinidade. Ele se percebe responsável pelo seufilho assim como por sua sociedade, e quer que ela seja mais igualitária. Glauber Este entrevistado é uma pessoa muito simples, que se veste de acordo com seutrabalho no dia da entrevista. Ele é zelador de um prédio no centro da cidade, e dessaforma, acaba morando no centro também. Sua família de origem veio de Taboão daSerra e seus dois filhos assim como cachorro moram com ele. Ele tem 42 anos, cabelos bem pretos, e sempre um sorriso estampado no rosto. Jáfez terapia familiar quando era pequeno, mas atualmente não se encontra em terapia.Suas pernas estiveram cruzadas em grande parte do tempo da entrevista, e suas mãosdadas em cima da mesa. A entrevista foi no prédio em que trabalha, sendo este localescolhido pelo colaborador. Para ele, ser homem significa ter caráter, responsabilidade, ser positivo, firme nasdecisões, assumir uma família de modo que a mesma consiga perceber o que o homempode trazer, ser fiel tanto à esposa quanto à família, ser responsável, assim como mantersua postura na educação dos filhos. É também importante para ele que um homemtrabalhe, se sustente e sustente a todos que são de sua família, e mantenha sua posturamasculina, como ele acredita que Deus lhe deu. (É necessário perceber uma visãocriacionista ao olhar para este entrevistado, sendo que em vários momentos ele colocapalavras religiosas no meio de seu discurso.) Uma característica que o faz sentir-se masculino remete à sua sexualidade; porgostar do sexo oposto ao seu, e por perceber que uma mulher masculinanecessariamente irá gostar do mesmo sexo, há uma mistura de conceitos nestemomento. Além disso, ele acredita que uma mulher masculina possui ou umadeficiência ou sofreu uma desilusão amorosa para que se sentisse desta forma, e aindaexerce funções masculinas na sociedade. Outras características que o fazem masculinosão ter respeito pelo próximo, pelas pessoas que ama e ser honesto com elas. Suapostura muito remete ao que Sullivan(2003) afirma ser uma característica comum sobre 107
    • o pensamento da sociedade a respeito da relação entre gênero e sexualidade, em comoele percebe que alguém masculino necessariamente gosta de mulheres e vice versa. Quanto à relação entre masculinidades, ele comenta que na frente de um homem,age naturalmente, sempre respeitando o outro e o espaço do outro. Com seu filho, emcompensação, ele procura principalmente orientá-lo nas questões amorosas e sexuais.Conversa com seus amigos a respeito de mulheres e faz a seguinte afirmação: “Ohomem faz a mulher”, tentando explicar que ao falarem de uma, eles a colocam comoobjeto, seja qual for o teor que este objeto terá. Quanto ao que o faz diferente de uma mulher, comenta que sua postura ecaracterísticas físicas o colocam como diferente. Coloca também a seguinte frase:“mulher tem que ser submissa, frágil, ela é delicada, ela é uma coisa que Deus deixoupara ser companheira do homem, jamais a gente deve se igualar a uma mulher, ela éalgo a ser almejada.”. Para ele, um homem é mais rígido, bruto. Já o que faz parecido com uma, comenta que é bem sentimental com crianças,animais, e diz que é carinhoso enquanto pai, e admite ser frágil nesta parte. Quanto aocomo ele se porta na frente de uma mulher, comenta que “no convívio, uma mulherquerida, quero dialogar e dar atenção, mas fazer sempre valer a última palavra minha,dentro de um contexto que não venha a ofender, a magoar, uma coisa que venha a ser p/ambas as partes. Trato ela como ela deve ser tratada, pela fragilidade, pela sensibilidade,procuro dar carinho, deixando prevalecer minha postura masculina.”. Comenta tambémque dependendo da situação, ele só consegue se abrir com outros homens ou outrasmulheres. Um exemplo dado foi traição com o qual só conversa com homens, e nuncaconversaria sobre isso com sua mulher. Quanto à sua relação com sua sexualidade, percebe como sendo algo natural, quedepende do momento e é algo que necessita de “clima”. Glauber se consideraheteroafetivo e para ele, o sexo não pode pesar na consciência. Em relação à conquista, este entrevistado relata que na época em que namorava, aconquista era feita por homens, porém hoje em dia, ele acredita que elas também estãotomando parte desta função. Comenta “que hoje em dia, tanto faz, a mulherada seigualou muito nos relacionamentos; atualmente, não conquisto nem sou conquistado,porque estou divorciado, perdi um pouco desta sensibilidade, me tornei frio a respeitodisso, convivo com a pessoa com quem me casei e ainda falta alguma coisa, o perdão eo “ir para frente”. Segundo ele, houveram momentos de auge com esta esposa, assim 108
    • como momentos de decisão, quando ele fez a vasectomia aos 28 anos. Comenta quetinha muita certeza do que queria, e que atualmente não se arrepende, mesmo que seusmédicos na época o alertavam da possibilidade da não-continuação do relacionamentocom a esposa, visto que esta era uma possibilidade a ser alertada. Ele, como a maioria dos entrevistados separa criteriosamente amor e sexo: amor éfidelidade, companheirismo, dedicação, dividir sentimentos e opiniões, respeito,enquanto o sexo remete apenas ao ato sexual, uma aventura. Quanto à relação entresexualidade e masculinidade, revela que a preocupação de ser viril e de gostar do sexooposto exprimem a masculinidade, e que estas duas características só trazem amasculinidade ao sujeito se conjugadas. De acordo com ele, uma parceira espera de umhomem segurança, carinho, companheirismo, fidelidade, garantia de um amorverdadeiro (principalmente para que haja uma vida sexual abundante), uma vida sexualsaudável. Para Glauber, o homem é quem cria os filhos, já que não os gera, e portanto lhesdeve sustento, educação e deve sempre arcar com a conseqüência, visto que nomomento em que põe um indivíduo no mundo, deve sempre pensar nisso. Afirmatambém que o pai dificilmente tem tempo para conversar ou dar carinho aos filhos, eque ele tenta fazer isso com seu filho homem. Já sua filha mulher, deixa à cargo de suaex-esposa. Porém percebe que nem todas as famílias funcionam desta forma, e quedepende muito da relação entre o casal para a forma em que vão criar os filhos. Comenta sobre as diferenças entre filhos e filhas que seu menino lhe perguntasobre sexo, vida amorosa, como lidar com uma mulher. Já sua filha, pede auxíliomonetário assim como uma “opinião masculina” a respeito de roupas, acessórios.Comenta que esta é mais frágil, carente e consumista que o menino, e que possui maisafinidades quanto a brincadeiras. Para este entrevistado, uma família é um grupo de pessoas que se formou na uniãode um homem e uma mulher que residem dentro de um mesmo teto, participam dasmesmas atividades, e ficam juntos, do mesmo sangue da mesma índole, mesma fé,mesmo caráter, e pode permanecer assim como mudar. Uma função que dá à família éque ao ser colocada em um currículo, as chances de pegar uma vaga são maiores, que afamília deve formar religiosamente seus filhos, assim como educar e trazer saúde aosmesmos. Existe uma dinâmica, visto que ela possui movimento e mudanças fazem partedela. É como um organismo vivo, se uma parte está ruim, o organismo inteiro sofre. 109
    • Comenta que seu papel dentro de uma família é orientar, cuidar e sustentar. Vistoque é o pilar da casa, se ele “quebra”, todos “quebram”. Sente-se com necessidade deser o exemplo positivo, sendo que ele acaba por ser pai sendo um exemplo. Diz quedeve cuidar, orientar, deve estar atento a tudo e a todos na família e a esposa deveauxiliá-lo. Glauber afirma que inclusive é responsável por cuidar de sua mãe que temMal de Alzheimer e de seu pai, que tem câncer de próstata, e que não poderia abandonarseus pais de forma alguma. Quanto à relação com o trabalho, comenta que “é uma grande responsabilidadeem primeiro lugar, mas também é algo que me dá caráter, me dá dignidade de sustentarminha família. Me dedico bastante durante o dia inteiro, existem até críticas quanto aoquanto eu trabalho, são muitas atividades e tem também os bicos, vivo em função domeu trabalho. Moro e trabalho no mesmo local, e não abro mão do trabalho em diaalgum. Em 12 anos de trabalho, faltei dois dias por um torcicolo.”. Além disso, comentaque a atividade profissional estimula sua masculinidade, o faz se sentir honrado, e serum pai melhor. Afirma que mulheres não são tão responsáveis nem tão dedicadas quanto oshomens em sua profissão, visto que elas trabalham por dignidade, mas se foremdemitidas não há tanto problema, pois ela será sustentada pelo marido, demonstrandouma visão bem machista sobre as razões de entrada das mulheres no mercado detrabalho. Diz também que um homem desempregado fica em pânico, diferentemente damulher. Quanto aos ramos de trabalho mais ou menos adequados a cada um dos sexos,Glauber coloca que hoje em dia existe uma igualdade maior em relação a isso, mas nãopercebe, por exemplo, “uma mulher sendo policial militar”, que Deus não a colocaria lá,mas ela escolhe de acordo com as possibilidades de emprego que possui. Na relação entre homem e sociedade, este entrevistado comenta que o homemnasceu com papel que possui para mandar, ser superior, buscar estar sempre acima damulher, e deve garantir que sua palavra seja sempre a última. Mas (com um sorriso naboca, e rindo levemente) isto tem mudado um pouco, devido à presidente DilmaRoussef eleita. Para ele, quem constrói o papel masculino na sociedade é a necessidade,no decorrer do dia do homem. É ele quem constrói tanto o papel feminino quanto omasculino. Finalmente, o que o diferencia de outros homens é sua postura, sua vontadede vencer, sua perseverança e honestidade, segundo ele. Se compara a outros homens 110
    • comentando que “tem pouco homem, tem muito veste calça” e que são poucos os quefazem jus às calças que vestem, visto que para este entrevistado, este papel exige váriasresponsabilidades. O entrevistado agradeceu a entrevista, comentando que tinha sido muitointeressante e logo se despediu. Glauber é um homem que é tranqüilo com sua masculinidade, mesmo com assituações adversas que poderiam perturbá-la. Ele, como Rodrigo, faz questão depermanecer na masculinidade hegemônica, mas possui esta clareza de forma muito maisextereriorizada que o outro. Ao mesmo tempo, percebe-se que ele cristalizou seu papel,ou seja, não percebe outras formas de se relacionar com o mundo a não ser esta, vistoque sua dominância é clara na frente da entrevistadora, e ele poderia ter “floreado”. Istosó traz mais dados sobre o machismo de nossa sociedade, o quanto ele impregnapensamentos, trazendo viseiras para outras possibilidades de vivências. Mauro Mauro é um homem simpático, e sempre está sorrindo. A entrevistadora oconheceu em um grupo para travestis e transexuais, onde ele foi visitar uma amiga. Foimuito receptivo para fazer a entrevista, e chegou adiantado ao local onde combinamos. Ele fez jornalismo, porém trabalha em área administrativa. Mora com sua mãe eirmã, e atualmente namora a 6 meses um homem. Diz não ser nada acanhado, e quegosta muito de falar. Ao comentar o que seria um homem para ele, respondeu que ser um homem é aquestão de possuir uma atitude íntegra, séria, cumprir um papel no qual se temresponsabilidades. Para ele, não têm a ver com o corpo (estatura, cor, etnia, ou outrascaracterísticas) ou com a orientação sexual, apenas difere de um “moleque”, alguém quenão tem responsabilidades. A postura masculina, de acordo com Mauro, tem muito a vercom a atitude. Se percebe masculino através de o que as pessoas vêem nele, como elas“projetam o que elas vêem de mim, pra mim”, características como virilidade presentesna voz, pêlos, postura, e como ele se coloca diante das situações tendo comocaracterística relacional sua maturidade, sua visão de mundo, entre outros lados dofenômeno. Ao ser homem, ele evita demonstrar fragilidade, sentimentos, sensibilidade,“fazer coisas caracterizadas como coisas de menina”. Afirma que para a masculinidade,é mais importante prestar atenção no que você não pode fazer, que atitudes permitidas. 111
    • Uma mulher é masculina para Mauro no momento em que ela evita ser frágil,vaidosa, e tenta se guiar através de diretrizes determinadas à homens, como usar roupasmais sóbrias, cortar seu cabelo curto, falar palavrões, fumar na rua, isso a deixamasculinizada, mais perto dos homens. De alguma forma, e ele relaciona uma mulhermasculina a uma falta de aceitação da feminilidade em contraposição de uma super-valorização masculina. Ao se relacionar com outros homens, comenta que sua sexualidade de certa formadireciona suas amizades a um mundo LGBT e amigas mulheres ou homens gays.Aqueles com quem ele se relaciona obrigatoriamente e são héteros são normalmentecolegas de trabalho, na faculdade e em sua casa, e afirma que é difícil a convivênciacom estes. Todos os outros amigos são gays. Com os héteros, as conversas sãosuperficiais e muitas vezes remetem a cultura, enquanto com seus amigos gays, ele ospercebe com naturalidade, e se identifica com eles. Comenta que assuntos abordadoscom estes amigos são baseados em sentimentos, impressões mais abstratas,relacionamentos, ele afirma que é mais fácil possuir intimidade com eles. Com suafamília, relaciona-se superficialmente e de forma distante com seus irmãos, e nãoconhece as intimidades da vida deles, e nem eles a de Mauro. Seu pai é falecido. Em uma situação onde ele não conhece o outro homem, comenta que falabastante, é simpático e não deixa transparecer de forma alguma sua orientação sexual. Relacionado a mulheres comenta que as diferenças são extremamente subjetivas, anão ser a maternidade, a qual ele coloca como um poder, um papel fundamental e maiorque o masculino. Percebe as mulheres como completas, abençoadas, características queele não possui. Ao mesmo tempo, percebe as mulheres como “erráticas”, pois ocomportamento é turbulento devido ao foco fragmentado que elas possuem segundo ele.Possui inclusive um grau de condescendência quando o humor feminino se altera, eatribui estas características ao biológico. Percebe-se como mais estávelpsicologicamente que uma mulher, e mais previsível conseqüentemente. Comenta queno trabalho é muito diferente uma mulher em cargo de comando em relação a umhomem, visto que as mulheres para ele são mais suscetíveis ao meio em que estão. Quanto a características físicas, comenta que a pele é diferente quanto à textura, afragilidade na pele, as feições femininas das masculinas. O que o faz parecido remete àquestão de falar sobre sentimentos, de estabelecer intimidade ou mesmo ser maisafetuoso, carinhoso, tentar entender outras pessoas, o cuidado intrínseco às mulheres 112
    • segundo ele. Ele também se considera muito vaidoso, usa cremes todos os dias, pensaem dietas, entre outras características. Ao se portar na frente de uma mulher, este entrevistado comenta que com cadapessoa, representa um papel diferente. Isso significa que quando sua mãe esta na suafrente, por exemplo, ele evita “dar pinta”, se mostra como homem hétero, responsável,que está sempre pronto para resolver os problemas e é o provedor da casa (visto que nãosaiu de casa até este momento) e portanto deve se portar como “o homem da casa”. Já com amigas de longa data, ele é o “homem legal”, que vai entendê-las, vaiperceber nuances de cor em uma camiseta, por exemplo, não vai “atacá-las” e simrespeitá-las. Ele se sente responsável em mostrar às mulheres que existem homens quediscutem, conversam sobre relacionamentos, que são cultos, tentam entendê-las, aoinvés de demonstrar o estereótipo do “homem das cavernas, com o tacape e que bate namulher e puxa pelos cabelos”. Afirma, porém, que um de seus maiores problemasexatamente por isso é receber muitas cantadas de amigas, pois elas se interessam porele. Diz que já “ficou” com duas mulheres, mas as duas tinham características muitomasculinizadas, segundo o entrevistado. Ele flerta com mulheres desconhecidas, nãodeixando transparecer seu desejo por homens, talvez de modo a demonstrar o quanto eleé passível de ser encaixado em um mundo heteronormativo. Em compensação, nãoconsegue flertar com homens, é mais retraído nestas situações e normalmente esperaconquista vinda de outrem, nunca de si. Finalmente, comenta que não há nada que sófalaria com mulheres, visto que possui tanto amigos como amigas para os quais elecontaria tudo. O inverso é verdadeiro, visto que também não possui um assunto que sódividiria com homens. Quanto à sexualidade, ele considera este aspecto como sendo crucial à suavivência, e que qualquer âmbito de sua vida se relaciona a como ele se portasexualmente. Gosta de vivenciá-la sempre que pode, em situações diversas, desdelivros, filmes, observações no dia-a-dia, etc. Comenta que se sentiria muito desesperadose perdesse seu pênis, e tivesse que viver sem ele. Quanto à conquista, com mulheres ele é sedutor, aquele que flerta e conquista.“Olha, tá vendo? Eu consigo conquistar até uma mulher!” afirma que é uma forma de seauto-afirmar, de aumentar sua auto-estima. Em contraste, com homens, percebendo queo flerte pode ter conseqüências concretas, ele fica sério e é o conquistado da relação. 113
    • Acredita que como o homem é muito agressivo na conquista e competitivo, prefere “nãoentrar no jogo”, não competir, de modo que acaba deixando-se entrar na relação atravésdo flerte de outrem. Comenta que existe uma externalização dos papéis de dominador edominado, e que às vezes muitas mentiras são contadas em razão de uma conquista. Os eventos marcantes na sua vida a respeito de sua sexualidade foram alguns.Segundo ele, a perda de sua virgindade foi premeditada, ou seja, 20 de dezembro 1998,com vinte anos. Ele tinha marcado que iria a um prostíbulo com um amigo, e esteevento seria à noite. Ele tinha dúvidas sobre o que queria quanto à sua sexualidade. Àtarde do mesmo dia, no entanto, tinha sido marcada com um cara para que ele perdessea virgindade com ele. Ele perdeu então a virgindade tanto hétero quanto homoafetiva nomesmo dia. O segundo evento marcante foi quando descobriu que poderia proporcionar prazera outro homem, pois tinha problemas com auto-estima devido ao fato de que costumavaser gordinho, e ficou vislumbrado com esta sua nova possibilidade de ser, alguém quedá prazer. Comenta que queria fazer isto a toda hora. Todas as suas relações por um anoa um ano e meio consistiam neste objetivo para Mauro. Este objetivo modificou-se eentão ele teve seu terceiro evento marcante. Ele chegou a ter um relacionamento amoroso de seis meses com outra pessoa, orelacionamento acabou e ele descobriu que seu ex-namorado havia falecido “de HIV”.“Foi a experiência mais devastadora que poderia me ser incutido, que me bloqueou, até.Depois que eu fiz isso, eu fiquei desesperado, porque tínhamos feito várias vezes sexosem proteção e eu não sabia se ele tinha contraído o vírus antes ou depois que nóstivéssemos separados.”, desabafa. Fez o teste para saber se tinha pego, mas tinha certezaque tinha contraído a doença durante meses antes do teste, e descobriu que não estavacom a doença. Não acreditava no resultado do teste, e o fez várias vezes. Passou um anoinclusive sem nem beijar novas pessoas devido à esta angústia. Depois deste evento, nãoconsegue mais fazer sexo sem proteção, e mesmo com seu namorado, ele nunca o faz. Outro evento marcante foi quando percebeu novamente que poderia fazer sexocom amor. Afirma que normalmente são assuntos desvinculados um do outro, que elenão precisaria ser monogâmico para ser fiel. Atualmente isto mudou um pouco, vistoque com este novo namorado, está mantendo um relacionamento monogâmico, devidoao amor que sente por este (e também é possível supor que pelos problemas de auto- 114
    • estima do entrevistado, ele pode querer que seu cônjuge tenha a mesma atitude que ele,ser fiel.). Ele relaciona sua masculinidade e sua sexualidade de forma extremamenteconjugada, ou seja, todos os atributos masculinos de seu corpo são aquilo que elepercebe como atrativo sexual para si, além de que é o que tem a oferecer ao outro, nãoconseguiria pensar nestes âmbitos em separados. Além disso, percebe que não existemregras na hora de exercer a sexualidade, nada é proibido e as possibilidades sãoilimitadas, os limites de atividade/passividade, virilidade. Sua fantasia sexual (que aindanão realizou, visto que não costuma deixar de realizá-las) relaciona-se a fazer sexo comvários homens e ter vários espectadores ao mesmo tempo, de forma a se exibir. Afirmaque seu namorado não cogitaria jamais fazer esta fantasia, mas isto não o intimida pararealizar outras fantasias. Quanto à relação com filhos, Mauro pensa em não tê-los (nem biológicos nemadotivos) e percebe que é uma responsabilidade muito grande colocar um filho nomundo do jeito que ele está. Além disso, não se percebe estruturado suficiente paratrazer uma estrutura a um filho seu. Mesmo assim, um pai deveria tratar seus filhos comamizade, companheirismo, intimidade e abertura, como um relacionamento ideal, maspercebe que muitas vezes não é assim na vida real. Acredita que deveria haver umaigualdade entre os modos de tratar filhos e filhas, quanto a controle, regras ecomportamentos. Mas mais uma vez, afirma que existem muitas vezes diferenças entreos sexos na sociedade, e tenta fazer com que sua irmã tenha a liberdade que ele mesmoteve quando pequeno. Para este entrevistado, família pode ser separada em duas: a família que se vive ea família que se fala. A família que se vive é aquela composta pela própria dinâmicafamiliar do indivíduo, enquanto a que se fala é aquela representada aos amigos, colegas,pessoas que trabalham no mesmo ambiente. E ele comenta que se sente dividido entreestas duas famílias. Sente-se acolhido e ama seus familiares e ao mesmo tempo, sente-secontrolado por eles. Prioriza a família em momentos de festividades, como Natal e anonovo, porém em outros momentos, prefere passar com seus amigos e namorado. Seupapel enquanto homem dentro de sua família depende de que lugar ele fala. Comochefe, ele é o norte, o provedor, que toma conta das tarefas práticas, e é o para-raio, ouseja, a pessoa que tem como função auxiliar em tudo que está errado. Sente-se que tem aresponsabilidade de ser o exemplo para seus irmãos, de ter caráter, ser pontual, e ter 115
    • responsabilidade. Além de ser o norte, ele deveria se esforçar em ser cuidadoso, mas édifícil para a maioria das pessoas, um dos papéis para ele se sublima. O apoio da família é o ponto forte desta assim como a continuação da mesma,presente nos filhos. Em compensação, a família demanda dedicação quase que integraldas pessoas envolvidas, o que pode ser um peso e um contraponto. As funções do trabalho em sua vida, em relação de masculinidade, são as deinserção na sociedade através de uma capacidade dele, a integração entre pessoas, masisto pouco tem a ver com sua masculinidade em si, visto que o intelecto neste caso émais importante que seu gênero ou sexualidade. Sente que sua masculinidade nunca foiafetada com seus trabalhos, mesmo nos trabalhos anteriores. Porém para Mauro existem vários pontos onde uma mulher se diferencia de umhomem em seu ramo de trabalho: a mulher tem um foco alterado segundo ele quemodifica o jeito de executar tarefas, como a falta de pragmatismo delas. A gestão feitapor homens e mulheres são diferente para ele, e isto reflete no ambiente profissional.Afirma que as mulheres aceitam mais, enquanto os homens são mais objetivos eresistentes. Percebe que existe muito machismo em seu local de trabalho, visto quepessoas como ele ou mulheres têm dificuldade de ascender, mesmo sendo ótimosprofissionais. O papel do homem na sociedade para este entrevistado é o mesmo da mulher, serhonesto, íntegro, consciente dos papéis que exerce enquanto pai, filho, profissional entreoutros, ser igual a uma mulher. Afirma que todas as influências que se sofre ao longo davida constituem e guiam os papéis masculinos. O que o diferencia enquanto homemperante a sociedade diz respeito às suas verdades, e capacidades, e que estas estãoabertas a quem quiser ver. Mauro é um homem que procura ser o mais liberto possível de amarras quepossam surgir dentro de sua masculinidade, porém algumas coisas o engessam, como afalta que seu pai fez quando faleceu, criando um Mauro preocupado em participar dospadrões sociais familiares, profissionais, etc. Percebe a mulher não como sendocomplementar, melhor ou pior, mas sim completamente diferente do homem, e istobaseia sua relação com elas. Sua auto-estima muito influi em seu papel masculino noexercer da sexualidade assim como na vida profissional, e a relação que faz dos papéissó completa o que pensamos a respeito das várias masculinidades. 116
    • Capítulo V – Discussão Neste capítulo, iremos unir as informações da análise nas entrevistas e a teoria quese encontra no capítulo I e II, de modo a perceber como as duas se relacionam. Ascategorias relacionais que utilizamos para as entrevistas aqui são extremamente úteis,visto que elas dividem ao mesmo tempo em que compreendem as várias possibilidadesde liaison masculina. É importante ressaltar que as inúmeras leituras das conversas com os homensdemonstraram a abrangência do instrumento, visto que nenhum dos entrevistados sentiuque “faltava” algo; melo contrário, em algumas situações eles inclusive relatavam oquão minuciosa era a entrevista. Desta forma nos utilizaremos dos temas para abordartais reflexões. V.1 –Relação entre homem e sociedade. Como pudemos observar e compreender, realmente a frase de Maciel Jr. (2006)que comentamos no começo também se baseia na realidade; as masculinidades semantêm em constante movimento e isto se evidencia não apenas na teoria, como na vidade nossos entrevistados. E é realmente impossível perceber a masculinidade sem que elaesteja em relação, ela expressa-se apenas desta forma, e da maneira como as pessoassentem estas relações. Estando no período histórico da pós modernidade, é crucial evidenciar dadoscomo o consumismo (tanto de “mulheres objetos” quanto de sexos masculinos para umamaioria dos homens homoafetivos), uma sociedade hierárquica e que além de terdireitos e deveres iguais entre iguais (isso obviamente não exclui o fato de que nossasociedade agrupa alguns pelos graus de igualdade), possui o sofrimento comocaracterística coletiva, assim como uma busca por identificação às vezes mesmo paraatenuar este sofrimento. E apesar de nosso mundo ter mudado bastante, nossa mentemantém padrões anteriores, como percebemos em Patrício, Carlos, Cássio, Frederico ouMarcel. E isto nos dá dados que confirmam o que Dorais(1988) diz a respeito damasculinidade. Ela, como está atualmente, é atuada de modo completamente diferentede como as pessoas a pensam e um exemplo claro disso é o depoimento de Maurício,cheio de contradições entre pensamentos e ações. 117
    • O que se percebe ao falar com Joe e Mateus, assim como o conjunto deentrevistados é que a masculinidade é tão fluida quanto a pós-modernidade de Bauman:suas inúmeras possibilidades se mesclam em pessoas, e é impossível pensar em umrepresentante modelar para estes indivíduos. Existe o ideal do homem verdadeiro, daquele que é ativo, dominante, viril. Mas oideal não existe enquanto pessoa. Todos os nossos entrevistados são desviantes dealguma forma, o que nos faz pensar que o desvio é exatamente a masculinidadehegemônica, a que foge da norma no sentido estatístico de maior freqüência de eventoscontinua. Mas ao ser algo buscado ainda por muitos homens (por que outros não mais aprocuram conscientemente), a masculinidade hegemônica encontra suporte nasinstituições que regem nossa sociedade. Para Artur, por exemplo, quem rege o papelmasculino na sociedade é “o transistor, a psicologia e a linha de produção”, explicandoque o transistor faz com que as informações sejam mais rápidas, a psicologia é utilizadapara criar o desejo das propagandas e do marketing e a linha de produção fez com que asociedade se padronizasse, e para ele são estas características que simbolizam amasculinidade atual. Já Gustavo acredita que este papel é construído e reproduzido pelas pessoas, tantohomens quanto mulheres, e é mantido por ambos também independentemente do gênerocom o qual se identifiquem. Cada um dos entrevistados vê facetas deste papel, mas suaorigem para eles é desconhecida. Apontam que, inclusive, alterações no meio ambientepodem causar mudanças no modo de pensar dos indivíduos. O fato de Dilma Roussef ter ganhado as eleições foi de extrema relevância paravários de nossos entrevistados quanto ao papel do homem na sociedade, visto que elarepresenta mais um passo para a igualdade de gênero para muitos deles (apesar da frasesarcástica de Glauber ao afirmar que ela será uma boa governanta para o país aoexemplo de Lula). Mas é evidente que ela será marcante na história brasileira quanto àsrelações de poder exercido. Algo que também remete ao homem público é a dificuldade do mesmo em falarde suas diferenças em relação ao papel hegemônico de masculinidade. Não foi nadafácil a Artur e Fernando falarem de suas deficiências físicas, ou mesmo para Márciodemonstrar seu desejo por homens, mesmo na frente de seu namorado. Assim como existem estas dificuldades, existe uma exigência social que homensdevam demonstrar status e capacidade de acordo com o que aquela sociedade específica 118
    • preza. Não é à toa que pelo menos metade dos entrevistados não deixou que aentrevistadora pagasse o café, ou que Artur e Fausto pratiquem esportescompetitivamente. É preciso, de modo que eles se sintam confortáveis em sua situaçãoenquanto homens, que eles demonstrem atributos valorizados, como força física oupoder aquisitivo. Já características que não são vistas como positivas para nossa sociedade sãoescondidas, como ocorre com Mauro, que inclusive seduz suas amigas e não “dápinta”28, além disso a heteronormatividade foi reforçada em sua vida em váriosmomentos, embora sinta desejo por homens. Sua história é muito interessante nesteaspecto, pois no mesmo dia em que perdeu a virgindade com um homem, também o fezem outro momento com uma prostituta contratada por amigos seus, incentivando-o aseguir padrões heterossexuais. Como comentamos anteriormente, nossa sociedade se fecha para pessoas que sãodiferentes da maioria, que são excluídas, arcando com o peso dos preconceitos. Luíssentiu muito isto ao ir para a prisão ou mesmo ao ter sido rechaçado em baladas GLSquando andava com sua ex-esposa, uma travesti e experiências como estas em sua vidao marcaram muito enquanto pessoa. Maurício também sofreu preconceito ao falar paraseus pais que era homossexual, sofrendo até agressões físicas de seu pai, e agressõesverbais que deixaram escaras em seu modo de ser. Mas em algum momento, eles foramem frente e viveram suas vidas, plenamente, como desejavam. V.2. A relação do homem com sua família. A aceitação familiar, para muitos deles é fator decisivo para saúde emocional.Mauro se baseia completamente na felicidade de sua família para escolher seu caminho,e Luís ao sair da prisão, sentiu-se muito só percebendo que sua família não queria maisnada com ele. A aceitação das mães de Juliano fora tão crucial para sua mudança defenótipo que ele sente -se grato todos os dias quando pensa no apoio que elas lhe dão,evidenciando o fator de apoio psicológico que a família pode lhe proporcionar. A família também tem papéis muito importantes na auto-aceitação de certascaracterísticas por parte de cada um de nós. Em caso positivo, quando Gustavo obteve a28 “dar pinta” é uma expressão comum entre a comunidade LGBT brasileira, que significa demonstrarcomportamentos marcadamente femininos em nossa sociedade, ou mesmo demonstrar em peças de roupa,acessórios ou atos sua homossexualidade. 119
    • aceitação de seus pais a respeito de seu gosto por mulheres (lembrando que este é umhomem trans, e que seus pais na época o viam como mulher), isto o tornou maisconfiante. Em compensação, existem as exceções como Eduardo, que se sente muito melhordepois que deixou sua casa e não mais dá satisfações aos pais. Ele se vê como suaprópria família, com quem ele pode contar e refletir sobre si mesmo. Também outra possibilidade de pensar a família é a de pais homoafetivos, que é oque Maurício gostaria de ter, ou mesmo o que Álvaro possui, ao falar de sua afilhada.As questões aqui são as mais diversas, desde a fala de Maurício a respeito de arranjaruma amiga lésbica para ter filhos biológicos, ou mesmo a adoção que o namorado deEduardo gostaria de ter. São questões extremamente relevantes se pensarmos nas novasconstituições familiares que percebemos cada vez mais em nossa sociedade. Ao pensar nas crises familiares... Realmente nos detemos aqui, pois todos osnossos entrevistados possuem ao menos um problema sério de relacionamento com ospais, que não se tratam de crises normativas, de algum modo previsíveis. Para a suasuperação, é necessário mobilizar os recursos existentes ou criar novos recursos,pessoais ou advindos do meio. Alguns são gerados por ocasião de maior vulnerabilidadee portanto de risco a disfunções psicológicas ou mesmo físicas. Uns devido à revelaçãoda homossexualidade, como Maurício e Márcio, possuem conflitos com sua família.Outros devido à crises com a parceira como a traição de Glauber, doenças que afetam adinâmica familiar como a esclerose múltipla de Fernando, divórcios como Artur, amorte do pai de Mauro, entre várias outras, que mudam o equilíbrio desta galáxia complanetas em órbita. Cada um teve seu jeito de lidar com estes fenômenos comuns à vidamoderna ou não. Alguns voltaram-se à religião, outros se tornaram chefes de casa, eainda outros remoem todos os dias este acontecimento em suas vidas. Mas estesmarcam a todos eles pois nenhum deles se resolve em um passe de mágica. V.3. A relação entre sexualidade e masculinidade. Quando pensamos a respeito da relação entre gênero e sexualidade, tambémvemos vários conflitos que afloram. O caso de Artur nos ajuda muito a entender oquanto estes âmbitos estão separados, mesmo se interceptando. O fato dele se acharmuito masculino não possuindo uma sexualidade convencional nos ajuda a explorar este 120
    • tema, que é o X da discussão sobre o que percebemos como senso comum na sociedade.O fato de Mauro ser homoafetivo e de ser extremamente másculo, assim comoMaurício, também demonstra que masculinidade não se liga necessariamente à umasexualidade heteronormativa, viril, falocêntrica. Além disso, existe grande dificuldadede alguns homens em abrir informações sobre suas sexualidades, como se este aspectovital fosse profundo suficiente para significar obscuro. É importante salientar que ao falarmos de uma sociedade que se baseia em umamasculinidade falocêntrica, poderíamos imaginar que todos os homens trans deveriamalmejar a neo-faloplastia. No entanto não é o que ocorre na prática. Tanto Gustavoquanto Juliano, por exemplo, expressaram com todas as palavras que esta não é umaambição para eles. Não apenas isso, mas eles ainda colocam que tal tipo de cirurgia nãodeveria ser feita, tamanha é a invasão e as possibilidades de erros que a mesma podeacarretar. Em compensação, Patrício afirma que só terá relações sexuais depois destacirurgia: percebe-se grande diversidade de olhares para a mesma questão entre eles. Outra característica que percebemos é que o homoafetivo viril é mais valorizadoperante outros homens, inclusive pelos de mesma opção sexual, colocando inclusiveapelidos naqueles que não são desta forma. A quantidade não tem a ver com a virilidadenecessariamente neste aspecto, mas o quanto este homem possui característicasmarcadamente masculinas em seu porte físico, modo de falar ou andar, entre outrosatributos. Além disso, depois de períodos de ascensão e queda, a homoafetividade hoje érazoavelmente aceita em nossa cidade, claro que dentro da “redoma” LGBT (Ainda sepercebe que o “gueto” existe, a exemplo das falas de Maurício, mas que ele causa umasensação de tranqüilidade e bem estar, e portanto, não exige que as pessoas quefreqüentam este grupo procurem outras vivências.). É importante salientar que foradeste grupo, é impossível não perceber o preconceito e os vários obstáculos que jovenshomoafetivos ou transexuais ainda tem de suportar. Mas muito mudou, visto que nossosentrevistados foram tranquilamente exercer seus desejos bem jovens, (com rarasexceções, como Eduardo e Álvaro) e a maioria das famílias aceita bem este fato, casonão seja muito religiosa. Existe também uma característica muito peculiar a respeito da atividade epassividade no sexo homoafetivo: não existe para eles apenas uma forma de ser gay;alguém pode ser passivo (gosta de ser penetrado) e dominado (gosta que lhe dêem 121
    • ordens), passivo e dominante (gosta de dar ordens, definir o trajeto da relação sexual),ativo (gosta de penetrar) dominante ou dominado, como nos explicou Maurício. Esegundo ele, muitos desta comunidade se baseiam nisso inclusive para escolher seusparceiros com maior tempo de relação como é o caso de Álvaro que continua depois de20 anos com o mesmo homem. Aí percebe-se muito que os padrões heteronormativosde imposição de poder se mantém mesmo em casais homoafetivos, existe, como afirmaeste mesmo entrevistado, “a mulherzinha e o homenzinho da relação”, onde o penetradoou passivo é visto como inferior, o subordinado, e aquele que penetra, e é dominador, ochefe da relação. Além disso, percebe-se que casais homoafetivos possuem maior intimidade quecasais heterossexuais, vide os casos de Jaques, André, Maurício (com seu ex), Mauro eCarlos, o que concorda com o que Kimmel (2000) comenta a respeito deste grupo.Acredita-se que isto se deve ao fato de que há uma busca por uma relação maisigualitária, não existem papéis rígidos a serem seguidos na relação e isto vai de encontrocom um respeito maior dos parceiros uns com os outros. Quanto à relação homossexual em várias idades, podemos perceber com Eduardo(que tem 21 anos) um foco na sexualidade enquanto relação sexual. Já Álvaro (com 50)comenta que não há mais tanto fervor quanto havia antigamente com seu parceiro, masoutros sentimentos afloram com maior intensidade, como companheirismo, intimidade,respeito, entre outros. A iniciação de jovens gays não se dá necessariamente por homensmais velhos também como se pensava anteriormente. Com o advento da internet e dasboates GLS extremamente acessíveis a todos os públicos, homens como Carlos,Maurício ou André tiveram toda a liberdade de logo resolver seus desejos, sem anecessidade de que alguém lhes mostrasse algo. A relação entre amor e sexo é algo unânime: são dois sentimentos que existem emseparado, e de vez em quando, andam juntos. Mesmo que o que um/a parceiro/a queirade um homem amor e carinho, não necessariamente será o que vai acontecer na relação.O que observamos a respeito da cultura árabe também é demonstrado em nossasociedade a respeito da relação entre sexo e amor: não existe amor se o sexo inexiste,com exceção do que dizem Artur e Patrício, que não exercem sua sexualidade de formaconvencional, e amam suas esposas. Algo que Artur comenta e é extremamente importante quando pensamos nasexualidade masculina remete à conquista. Se pensarmos nesta questão à luz de 122
    • Kimmel(2000), nossa sociedade coloca que as mulheres devem ceder aos encantosmasculinos, enquanto os homens devem conquistar. Esta, característica normalmenteatribuída por nossa sociedade aos homens, de acordo com vários entrevistados comArtur é vista como sendo algo muito próprio da humanidade, e não de um gêneroespecífico. Para este colaborador da pesquisa, ser humano é desejar, e portantoconquistar quando lhe é possível. Não especificamente algo de um dos parceiros. Aliás, as fantasias masculinas colocadas pelos nossos entrevistados foram dasmais diversas possíveis, desde fazer sexo dentro de um frigorífico a sado-masoquismo,passando por fantasias de enfermeira até em praias desertas ou mesmo orgias. Apenasum falou de uma personalidade famosa, não foram nem um pouco descritivos e citaramcenas, mas não colocaram situação que levasse ao ato. Kimmel(2000) neste ponto nãoconcorda com o que nossos colaboradores dividiram conosco, o que nos faz pensar quenossa amostra difere da pesquisada por ele. Isso só prova o quanto a masculinidade esua relação com a sexualidade é diversificada. É essencial comentar que na masculinidade heteroafetiva existe uma preocupaçãocom virilidade, mesmo que as mulheres não exijam diretamente este aspecto. Elesmesmos se cobram muito serem sempre “prontos ao ataque”, e em casos como o deArtur, é algo que ele não se sente bem em comentar. Mas a grande maioria lida bemcom este valor hegemônico. É verdade que muitos casos persistem em manter com unhas e dentes o idealhegemônico de masculinidade, como Glauber, Patrício ou Fausto. Eles querem possuircontrole emocional, controle sobre suas esposas, controle sobre a sociedade que lhesdeve respeito. Mas Fábio já afirma o quanto é pesado ter que se manter “durão” o tempointeiro, o fato de que homens precisam manter uma pose a maior parte do tempo. Este,por exemplo, afirma o quanto a sensibilidade, antes do campo feminino, deve entrar nomundo globalizado tanto em razão ao meio ambiente, quanto na questão dasustentabilidade humana. Gustavo concorda com este participante, afirmando que aoesquecer que todos temos características femininas e masculinas, estamos nos fechandopara o mundo em que estamos, diminuindo a gama de seres humanos que podemos ser. Quanto a homens transexuais homoafetivos, não conversamos com nenhumdurante a pesquisa, porém em redes de relacionamento na internet isto é até bemcomum, não apenas fora do Brasil, mas também por aqui. Inclusive é algo que algunshomens trans comentaram na pesquisa; que homens trans homoafetivos existem, porém 123
    • muitos não querem “sair do armário”, visto que já são masculinidades que seconsideram subordinadas e não gostariam de serem percebidos com mais um fator quepossivelmente poderia subordiná-los ainda mais. Um dado muito interessante que renderá muito provavelmente pesquisasposteriores é que todos os homens trans com quem se teve contato já tinham uma taxade testosterona mais alta que de uma mulher mesmo antes de começar a transição.Hipóteses são incontáveis para este resultado, como o funcionamento cerebral da pessoagerenciado a maior produção deste hormônio, ou a superprodução deste hormôniodevido a uma alteração congênita, mas é algo que vale ser explorado em pesquisasposteriores. A grande maioria dos homens trans comenta o quanto o corpo feminino é ligado àmaternidade. Isso pois fenômenos como a menstruação e as alterações hormonais antesda transição são extenuadamente agressivos à estas masculinidades, então muitas vezescomentam que não desejam este fim a ninguém, muito menos a eles próprios, comoafirmam Caio e Luís ao darem o exemplo de um homem trans que engravidou.29 Algo também curioso sobre os homens trans é que em alguns casos, assumir-setrans depois de assumir-se homoafetivo é um alívio para os pais, pois existe um motivopara que aquela pessoa goste do mesmo sexo biológico com o qual ela nasceu. Mas istonão é regra, como no caso de Caio, que mudou de Brasília para o Rio de Janeiro, edepois para São Paulo para começar o tratamento. Seus pais não o entendiam, e osconflitos eram constantes. Neste caso, a ocupação profissional foi um ganho deindependência, tal como foi para Renato. Também foi espaço de convivência comoutras pessoas, muito importante inclusive como suporte para a construção daidentidade masculina. V.4. A relação de homens com homens. Se pensarmos nas relações entre homens, percebe-se a estratificação dos gênerosmuito marcada. Homens héteros não conversam com gays e vice-versa. Homens quepossuem certo estigma possuem menos possibilidades de amizades com outros homens,29 Thomas Beatie, um homem transexual estadosunidense, engravidou em durante os anos de 2009 e2010, dando à luz a 3 filhos. Ele é considerado um dos primeiros homens a engravidar. 124
    • como é o caso de Artur, e acabam tendo mais amizades com mulheres, como Gustavo,Mauro ou Fernando, talvez devido ao fato do que Connell (2005) comenta sobre ostipos de relações entre homens, onde há espaço para a amizade e respeito, ainda que deacordo com as normas ditadas pela sociedade sobre submissão e dominação. Também é perceptível o valor que os homens dão à seus amigos, como podemosperceber em Fábio e Juliano ao falarem de seus “ companheiros de batalha”. Sãopessoas que estão presentes em qualquer caso, faça chuva ou sol, e muito remetem aoideal de companheirismo medieval. Mesmo em relacionamentos homoafetivos,podemos ver uma relação que se baseia em direitos iguais às partes, como no caso deJaques. Em relações que não a de amizade, muitos não percebem relações de hegemoniaentre suas masculinidades e outras, como Juliano ou Cássio, e muitos se subordinam ànorma vigente de modo a manterem-se hegemônicos, como Álvaro ou Marcos, oumesmo Artur, que tenta “apesar” de possuir uma deficiência física, ser um engenheirofantástico, de modo que haja uma compensação e negociação das relações através dostatus social. A profissão, neste aspecto, é campo fértil das relações de subordinação edominação presentes nos campos relacionais masculinos, e no caso de Artur, que possuiuma profissão que é vista como hegemonicamente masculina, este dado pronuncia aindamais sua busca por aceitação. Além disso, os assuntos abordados entre eles dizem respeito aos temasmencionados pela teoria, (mulheres, negócios, futebol, carros, entre outros) e dependemmuito do público que irá ouvi-los. Também é importante citar que eles comentam simsobre seus sentimentos com amigos, caso os tenham desde tempos anteriores a vidaadulta, como são os casos de Juliano, Artur, Maurício e Glauber. Aliás, nenhum denossos entrevistados gosta de jogar futebol ou mesmo assistir aos jogos constantemente,nenhum era “fã de carteirinha” de time nenhum, o que nos faz perguntar então por queeles falam disso com outros homens, ou mesmo assistem os jogos com seus amigos aoinvés de ir tomar um café, ou fazer outro esporte. De acordo com Artur, existem dois modos de um homem agir na frente de outrohomem: ele pode agir de modo seguro, quando ele percebe-se acolhido pelo outrohomem e não há por que esconder sentimentos e conflitos, ou ele pode agir do modoinseguro, precisando provar-se melhor na frente de qualquer pessoa, tanto homensquanto mulheres, e para isso não medirá esforços. É nesta definição que 125
    • compreendemos os times de futebol, existe um desejo por parte dos homens de seremmelhores, e nada mais simbólico que o esporte nacional para demonstrar tal hegemoniasobre outrem. V.5. A relação do homem com seus filhos. Ao falar sobre as relações de pai e filho, é importante citar que existem rarasexceções como Joe e Artur enquanto pais, e a relação entre Cássio, André e Ramón comseus pais, onde há demonstrações de carinho. Homens como Fábio ou Juliano nemforam criados pelos pais, outros sempre se deram mal com eles, como Maurício ouMárcio. Pode-se dizer que as relações entre pais e filhos estão um pouco diferentes doolhar de Dorais (1988), mas ainda percebe-se que muito precisa ser mudado, e isso épresente na fala destes homens quanto ao papel de pai. A maioria dos entrevistados afirma com veemência (a não ser Fernando) que opapel de pai vai além do suprimento material das necessidades de um filho, mas quemuito tem a ver com a educação e carinho, respeito e brincadeiras. Além disso, elestambém colocam que existem jeitos diferentes de tratar filhos e filhas, mas a educaçãodeve ser a mesma para os dois (salvo Fernando e Márcio). Um fato interessante neste âmbito é que muitos de nossos entrevistados nãoquerem ter filhos, vide Rodrigo, Fábio, André, Fernando, Luís, Carlos, Eduardo, eJaques. E inclusive, alguns os teriam por suas esposas, como Gustavo e Cristiano, masnão teriam filhos se estivessem sós. Uma relação possível a este fato é que não existe avontade de muitos deles de passarem seus valores (inclusive sobre ser pai) a futurasgerações. Isso não significa que não possuem um ideal de pai, afinal eles mesmostiveram um, presente ou não. Um olhar diferente dos demais foi o de Eduardo que comenta que não precisa terfilhos para possuir uma família, coisa que outros entrevistados não verbalizaram e quemuito vai de encontro à visão de família atual, fluida e diversa, onde o intuitoprimordial já não é mais possuir uma prole. Outra questão abordada remete ao fato de que nossa sociedade coloca que o filhodeve obedecer ao pai sempre que possível, ao patriarca legítimo. No caso de André, quepossui três pais, quem é o patriarca de sua família? Seu pai biológico que bebia? Ou oatual, que faz tudo o que sua mãe quer? De qualquer forma, ele se dá bem à sua maneira 126
    • com os três, mas é muito complicado pensar em um modelo de família tão antigo quenão mais corresponde à atualidade ainda orientando as escolhas de “quem deve mandarna casa”. Mais uma vez é sumário relembrar o que Hime (2004) comenta sobre asobreposição de pensamentos e ações que necessariamente irão destoar: os preceitosanteriores demoram mais tempo para se alteraram em comparação com as atitudes e oscomportamentos. V.6. A relação entre homens e mulheres. Quanto à relação de homens e mulheres, muito mudou da relação de amor cortês.Aos dias de hoje elas até podem ser vistas como objetos, tanto de desejo quanto deendeusamento, mas também pode ser uma grande amiga ou companheira, aquela paraquem se mostra todas as facetas. Mesmo na relação sexual heterossexual, muito mudou,como é o que aparece no depoimento de Fábio, que fala que a mulher pode ser ativa (eas vezes deve) tanto quanto qualquer pessoa na relação. O amor ainda é buscado, masde modo romântico, como é o caso de Gustavo, Ramón, Patrício e Fernando aobuscarem alguém que os complete, que some suas características às deles. Ainda se atribui à feminilidade a fragilidade e a sensibilidade em muitosmomentos, e é pejorativo se um homem as tiver aflorado. Em compensação, quanto àcaracterística de flexibilidade uma vez atribuída às mulheres, hoje em dia é muito bemvista pelos homens, tanto em relação a regras sociais, ao trabalho e nas relações.Inclusive, a flexibilidade nos modos de se portar no mundo é algo relacionado àinteligência. Segundo os colaboradores, uma mulher masculina possui uma característicabásica, que muitos não souberam exemplificar com palavras, apenas com gestos eexpressões: postura. Segundo eles, a postura masculina pode deixar uma mulhermasculinizada, como usar roupas masculinas, falar palavrões, andar como um homem,ou mesmo “coçar o saco”, mesmo que este inexista. Houve exceções como Maurício,que comentou que mulheres que se atiram demais no mercado de trabalho, ou que nãoquerem ter filhos são masculinas (o que traz à tona dados sobre quanto uma mulher paraMaurício deveria estar no mundo privado, e não no público), ou mesmo Glauber querelaciona masculinidade em uma mulher com o fato de ela gostar de outras mulheres(que exemplifica a confusão feita em nossa sociedade a respeito da relação entre gênero 127
    • e sexualidade). A maioria percebe que existe algo de diferenciado entre homens emulheres, no jeito em que a masculinidade e a feminilidade são atuados, mas não colocaestes como pejorativos necessariamente, com exceção de Glauber e Cássio. Os homens entrevistados possuem amigas, em exceção de Fernando e Glauber,daquelas de se contar absolutamente tudo. Inclusive, a maioria dos homenshomoafetivos preferia ter amigas mulheres, assim como os homens trans. Comentamque com elas, normalmente ficam mais tranqüilos para expressar seu interior, coisa quenão acontece, por exemplo, com uma mãe. Neste caso, muitos mudam tom de voz, eevitam falar palavrões. Esta segundo Rodrigo, é assexuada, santa e deve ser protegida atodo custo de outros homens. Já não foi o que aconteceu na família de André, onde elereconhece três pais, maridos de sua mãe em momentos diferentes. Mas em si, um dospossíveis motivos para que os homens mudem sua postura na frente de suas mães émedo de não ser aceito (se cruzarmos com a relação entre mãe e criança, os filhostendem a querer ser aceitos pelos familiares, em especial a mãe), ou mesmo a falta deconfiança na mãe para entenderem quem são, como é o caso de Eduardo, que evita falarsobre sua vida à mãe pois “ela não entenderia”, segundo ele. A relação entre homens e mulheres é extremamente complexa, e é muitodificultoso explorar todos os dados que nos fora passado neste ramo de relações,principalmente porque as próprias entrevistas se deram em relação entre homem emulher, e muitos dados são de difícil acesso neste caso. V.7. A relação entre homem e trabalho. Um aspecto que tínhamos a impressão de achar mais dados do que realmenteforam encontrados foi a com o trabalho. Eles logo mudavam o assunto, falavam pouco,com exceção de Ramón, Jaques, Caio Glauber e Álvaro. A maioria falou que é apenasum meio de subsistência, algo que traz “dinheiro” para casa, e pouco tem a ver com amasculinidade. Porém, visto que a menos de meio século atrás o papelpredominantemente masculino era atuado no mundo público, se faz necessário quelevantemos esta questão, mesmo que para contextualizar-mo-nos em relação àmasculinidade atual. Pudemos perceber poucos de nossos entrevistados em profissões em que eles sesentem realizados, como Jaques, Álvaro ou Fernando. E a não ser Fernando, nenhuma 128
    • destas profissões é de destaque como profissões idealmente masculinas, como podemosver na tabela de entrevistados do anexo IV. Outra questão que talvez nos auxilie a observar a relação entre homens e trabalhoé que vários entrevistados comentaram que suas esposas (ou mães) ganham mais queeles, e isso não é vivido de forma negativa, vide Fábio, Gustavo ou Caio, o que talvez aalgum tempo atrás seria motivo de fracasso profissional. Outra possibilidade atual é ado trabalho dentro de casa, vide Gustavo ou Artur, que fazem seu serviço estando dentrode casa, e isso altera em muito a dinâmica familiar. O trabalho exerce funções importantes na vida destes homens como afirmaRamón, mas qualquer mulher poderia realizar-se tanto quanto ele em seu trabalho,tornando-o parte de sua identidade, fazendo-o fonte de rede social ou mesmo de auto-afirmação. É importante evidenciar que os homens ainda fazem muito pouco esforço para seauto-conhecerem, mesmo sofrendo, e não são ávidos em procurar as psicoterapias comoprincipal objeto que aplaque angústias. De nossos entrevistados, 5 estão fazendo terapiaatualmente de forma obrigatória, (a não ser André, que é psicólogo e faz terapia desdeos 15 anos de idade) devido à transição comum ao tratamento efetuado pelos homenstransexuais. Porém a mesma é efetiva, como visto no caso de Artur e Luís, que conseguiram seperceber melhor no mundo mesmo depois de pouco tempo em processo terapêutico(Artur, por exemplo, esteve apenas 6 meses em terapia, e ele afirma que esta muitomudou sua vida.). A associação de terapia com demonstração de fraqueza é umaresposta possível para este resultado, assim como a crença social de que existe umaimutabildade de caráter, como explicitamos na revisão bibliográfica, porém, estaquestão não se esgota e deve ser aprofundada em trabalhos posteriores, devido à riquezade detalhes que este dado pode trazer ao trabalho psicoterápico com homens. 129
    • Capítulo 6 – Considerações Finais Pode-se dizer que este trabalho foi extremamente difícil. Acredito que a pior partefoi terminá-lo, do jeito em que está para ser entregue. Prazos são prazos, porém sepudesse, haveria muito a modificá-lo. Sempre falta algo, ou por que está incompleto, ouporque percebemos novas facetas de nosso trabalho. Reconheço-me em pessoas quedizem que é impossível chegar na inteireza de um fenômeno, mesmo se você o vivencia.Minha angústia é de não captar mais em menos tempo. Um tema tão apaixonante comoeste me tocou de tal forma que é impossível olhar para os homens da mesma forma. Em primeira instância, pensou-se que sendo a entrevistadora uma mulher, oshomens não se abririam. O engano foi tal que vários entrevistados se comunicaram coma entrevistadora inclusive depois da entrevista sobre assuntos complicados para eles,assim como para convidá-la para um café com outros que passam pela mesma situação.Como afirma Maciel Jr. (2006), é preciso “quebrar o gelo” antes da conversa e é dessaforma que muitos demonstraram posturas de conforto com a pesquisadora. Então, é bemprovável que a característica de diferenças de gênero não tenha sido marcante quanto àvinculação dos colaboradores com a entrevistadora, e sim a forma como a relação seconstrói. Muito foi aprendido com cada um dos entrevistados, tanto neste aspecto comoem outros. O que foi possível apreender principalmente é da universalidade das diferenças,mesmo que em massa nós os percebamos como estáveis e parecidos entre si. Eles sãoapenas humanos. Eles dominam ou não, pensam em sexo ou não, sentem-se úteis notrabalho ou não. Como qualquer possibilidade humana. Assim como o gênero nãoconstitui sexualidade ou sexo, também não vai definir comportamento ou modo ser esentir. Nossas complexas vidas nos tornam o que somos, não apenas o que a sociedadenos impôs necessariamente. É bem verdade que a masculinidade hegemônica existe, e ela permeia homens emtodos os âmbitos de alguma forma. Inclusive, em algumas entrevistas, a pesquisadora,ao ter uma postura que vai contra estes princípios, se sentiu agredida pelosentrevistados, porém, respeitando a individualidade dos sujeitos, ela ficou quieta e asentrevistas seguiram, de modo a respeitar a opinião do entrevistado, e para que ele sesentisse confortável para expressar esta opinião. Mas este machismo também permeiamulheres, e hermafroditas, e qualquer outra forma de expressão sexual. Amasculinidade hegemônica permeia a sociedade inteira, assim como a instituição da 130
    • família e da religião. Cabe ao ser humano perceber o que fará com estas instituições,deveres e direitos que constituem o equilíbrio do mundo moderno. Percebem-sealterações gritantes entre as masculinidades dos homens que são nossos participantes e amasculinidade hegemônica, e isso deve ser evidenciado, pois isto clareia o quanto destaforma assumida idealmente pela masculinidade está sendo alterada. E assim como foi citado anteriormente, como Oliveira (2004) muito bemevidencia, a masculinidade hegemônica é plástica em razão do tempo e da sociedade emque se encontra e parece que uma transição está surgindo. Ainda temos homens comoGlauber e Fausto, resistentes em suas masculinidades, que ainda mantêm relaçõeshierárquicas, colocando o masculino acima de qualquer outra forma de gênero. Mastambém temos homens como Joe, Mateus, André, Luís e tantos outros, que demonstramque cada masculinidade é o que cada vivência faz com ela. Estamos em momento de alteração da masculinidade. Aliás, masculinidades! 131
    • Bibliografia- ALMEIDA, M. B. V. B. Tornar-se pai: uma experiência subjetiva em transformaçãoIn ST 21 – São Paulo: Masculinidades e paternidade: leituras feministas e de gênero- ALVES, J. E. D. (2004). A linguagem e as representações da masculinidade.Rio deJaneiro, Impressão pelo IBGE-BANDEIRA, L. (1999). Relações de gênero, corpo e sexualidade. Em L. Galvão e J.Diaz (Orgs.), Saúde sexual e reprodutiva no Brasil, São Paulo: Hucitec.-BARDIN, L. (1979). Análise de conteúdo. Lisboa: Edições 70.- BARANCELLI E. & ANGELOTTI, E. L. ; PINHEIRO D. P. N., PRESTES, I., C. P.(2005).A Masculinidade na Família Moderna em que o Homem deixa de ser o Provedordo Lar. Localizado em:http://www.utp.br/proppe/IXsempes/psicologia/A%20masculinidade%20na%20fam%EDlia%20moderna...doc-BAUMAN,Z.(2007) Tempos Líquidos; Rio de Janeiro; Editora Jorge Zahar- BENTO, B. (2006) A Reinvenção do Corpo: Sexualidade e Gênero na ExperiênciaTransexual; Rio de Janeiro: Editora Garamond Universitária- BENTO, B. (2008) O que é transexualidade;, São Paulo Editora Brasiliense- BUTLER, J. (2003) O parentesco é sempre tido como heterossexual?. In cadernospagu v. 21 : p.219-260- CALDAS,D. et al.(1997) Homens. São Paulo, Editora Senac- CARVALHO, L. P. de; LOPES, L. & GHETLER, M. (2008) O ideal de mulher detransexuais MtF; trabalho elaborado para a matéria de Modelos de InvestigaçãoPsicológica II da PUC-SP, São Paulo- CASTRO, R. B.(2007) Amor e Ódio em Relações Conjugays. In Conjugalidades,Parentalidades e Identidades Lésbicas, Gays e Travestis, Rio de Janeiro, EditoraGaramond. p. 89-107.- CECCARELLI, P. R. (1998) A Construção da Masculinidade. In Percurso, SãoPaulo, Vol. 19, p.49-56.- CECCHETTO, F. R. (2004) Violência e Estilos de Masculinidade. Rio de JaneiroEditora FGV- CONNELLL R. W. (1995) Masculinities: knowledge, power and social change.Berkeley / Los Angeles: University of California Press-CONNELLL, R. W. (2000) Gender. Cambridge: Polity Press. 132
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    • ANEXO I - ROTEIRO DE ENTREVISTA Nome:___________________________________ Idade:___________________________________ Profissão:________________________________ Natural de:_______________________________Mora em:___________________________________ Faz terapia?_______________ Se sim, há quanto tempo?____________________________________ Homem consigo mesmo 1. O que é ser um homem para você? - fisicamente - socialmente - psicologicamente 2. Quais as características que fazem vocêser masculino? - fisicamente - na sociedade - no que se é preciso fazer (responsabilidades) e nosdireitos - no que faz um homem masculino - no que faz uma mulher ser masculina Homem – Homem 3. Como você, enquanto homem, lida comoutros homens? - o que conversam - no trabalho - na família - com amigos - com outros homens desconhecidos (ex: cara dotaxi, cara da fila no banco) Homem – Mulher 4. O que te faz diferente de uma mulher? - aspectos físicos - responsabilidades - direitos - aspectos psicológicos e comportamentais 5. O que te faz parecido com uma? - aspectos físicos - responsabilidades - direitos - aspectos psicológicos e comportamentais 135
    • 6. Como você, enquanto homem, secomporta com uma mulher? - mãe; - irmã; - filha; - esposa/ amante; - qualquer mulher. - Como estas relações se alteram durante o tempo - Como se fala de uma mulher com outros homens, eo que se conversa com mulheres que não com homens Homem- Sexualidade 7. Como é a sexualidade masculina,pensando em sua vivência da sexualidade? - qual a preferência sexual - como deve ser a conquista/ quem deve conquistar - se houveram eventos marcantes no ciclo vital - sexo X amor - relação entre sexualidade e masculinidade 8. Como você, enquanto homem, deve seportar na cama? - força - atividade/passividade - em questão ao gozo, ele deve prezar primeiro a(o)parceira(o) ou a si mesmo - virilidade - fantasias masculinas 9. O que um(a) parceiro(a) realmentequer de um homem, e o que isso muda no exercer dasexualidade masculina? Homem – Filhos 10. Como você enquanto homem devetratar seus filhos? - em relação à regras - cuidado X sustento - brincadeiras 11. Existem diferenças em tratar de filhos efilhas? - em relação à regras/ controle - cuidado (dos mais simples, como trocar uma fraldaaté os mais específicos como escolher uma tiara para afilha) - sustento - brincadeiras Homem – Família 136
    • 12. O que é família? - aspectos de dinâmica - como ela se forma - o que ela abarca - quais suas funções na sociedade 13. Qual o seu papel enquanto homem emuma família? - em relação a receber e impor regras - cuidado com os filhos e esposa - cuidado de pessoas idosas, (avós, etc) - coisas boas e ruins de estabelecer uma família 14. Como você se porta perante suafamília? - em questão a respeito - exemplos que deve dar ou não - verdades/mentiras Homem – Trabalho 15. Quais as funções do trabalho na suavida, em relação à sua masculinidade? 16. Quais são as diferenças de um homem ede uma mulher em uma empresa? - causas de absenteísmo - relações com pares e trabalhos em grupo - subordinados e superiores - uso do tempo - tarefas mais ou menos adequadas Homem – Sociedade 17. Qual o papel do homem na sociedade? - em relação ao poder exercido - em relação à visão global/focal em problemas - hierarquia - competitividade - o que guia e quem constrói o papel masculino nanossa sociedade 18. O que diferencia você, enquantohomem, perante a sociedade? - direitos - deveres - o que cada homem tem de diferente de outroshomensComentários: 137
    • ANEXO II – TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDOTERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO Eu, ________________________________, RG__________________, declaro,por meio deste termo, que concordei em ser colaborador voluntário na pesquisa decampo referente ao projeto intitulado “Características do papel de gênero masculino emhomens transexuais com homens biológicos”, desenvolvido pela Faculdade dePsicologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Fui informado, ainda, quea pesquisa é orientada pelo Prof. Dr. Plínio de Almeida Maciel Jr., a quem podereicontatar a qualquer momento que julgar necessário através do telefone 36708320. Fui informado dos objetivos estritamente acadêmicos do estudo, que, em linhasgerais é, observar como a masculinidade hegemônica permeia a sociedade, como ela fazparte das masculinidades individuais, perceber como isso se dá em homens biológicos ehomens transexuais em São Paulo e quais são as semelhanças e diferenças entre asmasculinidades individuais dos dois grupos numa análise qualitativa de entrevistassemi-dirigidas. Fui também esclarecido de que os usos das informações por mim oferecidasestão submetidas às normas éticas destinadas à pesquisa envolvendo seres humanos, daComissão Nacional de Ética em Pesquisa do Conselho Nacional de Saúde, doMinistério da Saúde. Minha colaboração se fará de forma anônima, por meio de entrevista a sergravada. Estou ciente de que, caso eu tenha dúvida ou me sinta prejudicado(a), podereicontatar o pesquisador responsável ou seu orientador, ou ainda o Comitê de Ética emPesquisa da PUCSP. A pesquisadora principal do estudo me ofereceu uma cópia assinada desteTermo de Consentimento Livre e Esclarecido, conforme recomendações da ComissãoNacional de Ética em Pesquisa.Fui ainda informado(a) de que posso me retirar deste estudo a qualquer momento, semqualquer prejuízo .Dados para contato:Mariana Ghetler(11) 8380-0240maghetler@hotmail.com São Paulo, ____ de __________________ de 2009. _______________________________________________ 138
    • (nome em letra de forma)_______________________________________________ (assinatura) 139
    • ANEXO III - PARECER DO COMITÊ DE ÉTICAPONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULOCOMITÊ DE ÉTICA EM PESQUISA DA PUC-SPSEDE CAMPUS MONTE ALEGREProtocolo de Pesquisa nº 147/2010Faculdade de Ciências Humanas e da SaúdePsicologiaOrientador(a): Prof.(a). Dr.(a). Plínio de Almeida Maciel JuniorAutor(a): Mariana GhetlerPARECER sobre o Protocolo de Pesquisa, em nível de Iniciação científica, intituladoConstruçãoe expressão da masculinidade em homens homo, hetero e transexuais: um olhar a partirdo gêneroCONSIDERAÇÕES APROVADAS EM COLEGIADOEm conformidade com os dispositivos da Resolução nº 196 de 10 de outubro de 1996 edemais resoluções do Conselho Nacional de Saúde (CNS) do Ministério da Saúde (MS), emque os critérios da relevância social, da relação custo/benefício e da autonomia dos sujeitos dapesquisa pesquisados foram preenchidos.O Termo de Consentimento Livre e Esclarecido permite ao sujeito compreender o significado, oalcance e os limites de sua participação nesta pesquisa.A exposição do Projeto é clara e objetiva, feita de maneira concisa e fundamentada, permitindoconcluir que o trabalho tem uma linha metodológica bem definida, na base do qual serápossível retirar conclusões consistentes e, portanto, válidas.No entendimento do CEP da PUC-SP, o Projeto em questão não apresenta qualquer risco oudano ao ser humano do ponto de vista ético.CONCLUSÃOFace ao parecer consubstanciado apensado ao Protocolo de Pesquisa, o Comitê deÉtica em Pesquisa da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC/SP – SedeCampusMonte Alegre, em Reunião Ordinária de 07/06/2010, APROVOU o Protocolo de Pesquisa nº147/2010.Cabe ao(s) pesquisador(es) elaborar e apresentar ao CEP da PUC-SP – Sede CampusMonte Alegre, os relatórios parcial e final sobre a pesquisa, conforme disposto na Resolução nº196 de 10 de outubro de 1996, inciso IX.2, alínea “c”, do Conselho Nacional de Saúde (CNS)do Ministério da Saúde (MS), bem como cumprir integralmente os comandos do referido textolegal e demais resoluções do Conselho Nacional de Saúde (CNS) do Ministério da Saúde (MS).São Paulo, 07 de junho de 2010._____________________________________________Prof. Dr. Edgard de Assis CarvalhoCoordenador do Comitê de Ética em Pesquisa da PUC-SP 140
    • ANEXO IV – FICHA DE ENTREVISTADOSNome Identidade Sexualida Idade Profissão Relac. Terapia? Comentáriosfictício de gênero de AmorosoRodrigo Homem Hetero 28 barman Relac. aberto Não, já fez Fam. Árabe, ele nasceu na França, mora sozinho.Marcos Homem Hetero 27 economista solteiro não Fam. Japonesa, veio para São Paulo estudarJoe Homem Hetero 40 Pesquisador e Divorciado não Afro-descendente, tem um filósofo filho, estuda desigualdades.Ramón Homem Hetero 42 Func. Público Casado 12 sim Fam. Testemunha de Jeová, trans e faz transcr. anos funcionário publico com formação em fisioterapiaFábio Homem Hetero 26 Professor de solteiro Não, já fez Fam. Feminista, mora com a inglês mãe, percebe mulheres como melhores em alguns aspectos.Maurício Homem Homo 32 Trab. Sauna ficando Não Mora com os pais, esta gay fazendo sociologia, acabou de terminar um relacionamento de 6 anos.Gustavo Homem Hetero 33 tradutor Casado 10 Sim Hospital das Clínicas, veio trans anos do Rio pela esposa, está fazendo psicologiaFausto Homem Hetero 32 advogado Noivo por 3 não Atleta, pretende casar-se anos logo e ter filhos.Artur Homem Hetero 54 engenheiro Casado 12 Não, já fez Def. físico, filho de 12 anos, anos timidez na adolescênciaAndré Homem Homo 31 Psicólogo, Relac. Sim, desde 3 pais, uma mãe, ativista p/ Aberto por 3 os 15 anos relacionamento aberto. causa anos homoafetivaGlauber Homem Hetero 42 zelador Divorciado, Não, já fez 2 filhos, hist. de traição, mas mora novo filho vindo. com exFernando Homem Hetero 31 advogado Divorciado Não, já fez Esclerose múltipla que não se sabe se está curada, trabalhou em NY com entretenimentoMauro homem Homo 32 Auxiliar adm. Nomoro 6 Não 1º namorado com AIDS, meses mora com a mãePatrício Homem hetero 42 Comerciante Casado 2 Sim, 2 Nasceu em recife, trans de informática anos anos farmacêutico, HCÁlvaro Homem Homo 52 Publicitário Casado 20 Não Empresário, possui um blog, anos escreve respostas a perguntas para uma revista de público femininoLuís Homem Bissexual 50 Ator divorciado Não, mas Casado com travesti por 10 trans faz acomp. anos, prisão, ator mensalCarlos Homem Homo 33 Massoterapeut Solteiro Não, já fez Psicólogo, casamento de 7 a anos, atualmente mora com a mãeJuliano Homem Hetero 28 Atual Namoro 6 Não, já fez Campinas, obesidade, trans desempregado meses adotado p/ 4 irmãsCássio Homem Hetero 38 Professor Casado a 3 Não, já fez Viveu na Bahia, veio pela trans Universitário e anos esposa, começo da transição 141 contador
    • Eduardo Homem Homo 21 Disponível no Namora a 2 Não Entrevista com o namorado, mercado anos mora sozinho, ele é sua própria famíliaMárcio Homem Homo 28 Dep. Pessoal Namora a 2 Não Entrevista com o namorado, anos mora com os pais, já contou 3X para os pais que é homoafetivo e eles não aceitamJaques Homem Homo 37 Ativista É casado. Não Se interessa em Sado Político Masoquismo, não quer nem pensar em filhos e fez Letras faz pós em ciências sociaisCaio Homem Hetero 29 Disponível no Casado a 9 Sim, já fez É judeu, estudou história trans mercado anos judaica, nasceu em Brasília, mudou-se para o Rio e depois veio para São Paulo 142