Amor em quatro idiomas

  • 4,655 views
Uploaded on

 

More in: Business , Technology
  • Full Name Full Name Comment goes here.
    Are you sure you want to
    Your message goes here
    Be the first to comment
    Be the first to like this
No Downloads

Views

Total Views
4,655
On Slideshare
0
From Embeds
0
Number of Embeds
14

Actions

Shares
Downloads
15
Comments
0
Likes
0

Embeds 0

No embeds

Report content

Flagged as inappropriate Flag as inappropriate
Flag as inappropriate

Select your reason for flagging this presentation as inappropriate.

Cancel
    No notes for slide

Transcript

  • 1. AMOR EM QUATRO IDIOMASIAmélia está desenhando novas joias quando Vitor chega e coloca duaspassagens de avião em cima do desenho.- Pode começar a arrumar as malas, meu amor... partimos daqui a umasemana.- Vitor... – murmura Amélia, quase suspirando. Ela olha as passagens e sorri –Florença?- Só pra começar. Depois vamos para Veneza, Milão, Amsterdã, Madri,Barcelona... como combinamos.- Meu Deus, mas assim vamos passar muito tempo fora... e o frigorífico, aRurbana?- Já está tudo encaminhado – Vitor conta tranquilamente – A Fátima vai cuidardo frigorífico, e administra também de lá os pedidos da Rurbana. Já combineitambém com a Manu, ela e a Pérola vão cuidar da produção das joias emGirassol.- Você pensou em tudo, né? – Amélia sorri.- Mas claro! Nós vamos viajar em lua-de-mel, sem pensar em mais nada... sóvivendo como se fosse um sonho.- Você é um sonho! Um homem maravilhoso, que faz de mim uma mulherimensamente feliz... – Amélia passa os braços em torno do pescoço de Vitor,fitando-o de um jeito apaixonado.- É tudo que eu quero... te fazer feliz! – ele devolve o olhar de paixão, elentamente aproxima seus lábios dos dela, em um beijo intenso.Uma semana depois, Vitor espera na sala, impaciente:- Vamos, Amélia! Assim a gente perde o voo!- Tô indo, é só fechar a mala – ela responde do quarto.- Como assim? Sua mala já não estava pronta?
  • 2. - Estava, mas eu tinha que conferir se não faltava nada – explica Amélia,entrando na sala.- Se faltar algo a gente compra lá. Não sei por que mulher é tão complicada,precisa levar metade da casa na mala... – ele brinca.Amélia olha fixamente para ele, querendo rir:- Porque a gente tem que levar tudo que vocês homens não levam e depoisnos pedem! Ah, Vitor, minha mala nem está tão grande assim...Ele examina a mala de Amélia com um olhar zombeteiro:- É, pensando que nós vamos ficar bastante tempo fora, até que você nãoexagerou...Ela ri e questiona:- E então, você não estava com pressa?- Sim, sim, mas acho que dá tempo de mais uma coisa – ele dá um beijoapaixonado em Amélia, sorri e só então vai abrir a porta.Com um sorriso de encantamento nos lábios, ela o segue.Trilha sonora: Con te partiro – Andrea Bocellihttp://www.youtube.com/watch?v=tcrfvP11HboChegando ao aeroporto, eles vão direto para a fila do check-in. Enquantoesperam a sua vez, Vitor passa os braços em torno da cintura de Amélia e acontempla.- O que foi? – ela questiona, sorrindo.- Só estou olhando o quanto minha mulher é linda...- Ah, Vitor... – ela murmura de um jeito derretido.A fila anda um pouco, Vitor empurra o carrinho com as malas sem soltartotalmente Amélia. Quando param, ele a encara novamente:- Linda! – Vitor sussurra, e se aproxima mais para beijá-la.Amélia empurra delicadamente o rosto dele, com o dedo nos lábios do amado:- Aqui não...- Por quê? – ele reclama com voz me menino manhoso.- Vitor, nós estamos no meio do aeroporto. Vamos ficar nos comportando comoum casal adolescente, sem noção de limite? – ela repreende com doçura.Como a fila andou novamente, Vitor dá uns passos à frente antes deresponder, trazendo Amélia junto:- É que ao seu lado eu me sinto sempre como um adolescente que estáamando pela primeira vez...- Eu também, meu amor. Mas se controla um pouquinho...- Tá bem – ele resigna-se, e fica apenas acariciando o rosto dela, até seremchamados no balcão.Após despacharem as malas, eles vão tomar um café, para esperar até a horado voo. Vitor fica roçando nos dedos de Amélia sobre a mesa e comenta:- Lembra aquela noite em que jantamos juntos em Juruanã, tendo que disfarçaro que estávamos sentindo?- Lembro. Quando o Max estava no hospital?Vitor faz uma careta ao ouvir o nome do ex-sócio:- É... – ele respira fundo e fica com a expressão amena novamente – Então,naquela noite, eu estava louco para fazer assim...
  • 3. Ele entrelaça seus dedos com os de Amélia, e traz a mão dela para junto deseus lábios, percorrendo o dorso da mão dela com beijos. Desce até o pulsobeijando, e então olha para Amélia com um sorriso. Ela também está sorrindo,com os olhos brilhando, encantada.- Você me deixa sem palavras... – é só o que ela consegue dizer.- Seu olhar e seu sorriso já dizem tudo que eu preciso.- Ai, Vitor... como você consegue ser sempre assim, tão romântico?- Nem eu sei. Foi você quem me deixou assim, culpa sua – ele ri.Amélia também ri, e fica contemplando Vitor. Ele se levanta:- Você espera aqui um pouquinho, que eu vou buscar uma encomenda e jávenho?- Que encomenda?- Você já vai saber curiosa... – ele brinca, dá um beijinho nos lábios dela e sai.Amélia fica ansiosa, a cada pequeno gole de café ela olha para a porta,esperando ver Vitor de volta. Finalmente ele chega, senta-se, e estende umacaixinha de veludo para Amélia:- Mandei fazer especialmente para usarmos durante nossa viagem – explica.Ela abre a caixinha e fica boquiaberta. Há duas medalhas de ouro branco comuma imagem em relevo, junto a correntes do mesmo material.- É São Valentim, o protetor dos apaixonados – Vitor diz, pegando uma dasmedalhas e olhando na parte de trás – É, essa é a sua.Ele se levanta e coloca a corrente no pescoço de Amélia, que segura amedalha entre os dedos e lê o nome gravado no verso:- Mas aqui está escrito “Vitor”...- Sim. E na minha está escrito Amélia. Nós somos um do outro, não somos? –ele esclarece, pegando a outra medalha para colocar também.Amélia se levanta e o ajuda a fechar a corrente, depois o abraça forte e lhe dátrês beijos nos lábios:- Vitor... que lindo! Você não existe... – ela murmura, com a voz embargada, osolhos quase marejados.Algum tempo depois, eles vão para o avião e se acomodam em seus lugares.Quando é dado o aviso de que o avião vai decolar, Vitor segura a mão deAmélia e eles ficam se olhando, e sorrindo, cheios de expectativa.II
  • 4. Vitor já havia reservado uma suíte num dos melhores hotéis de Florença. Aochegarem, Amélia se arruma para almoçarem e depois irem visitar os pontosturísticos da cidade.- Vou tomar um banho antes, está bem? – avisa Vitor.- Vai lá, eu espero – sorri Amélia.Enquanto Vitor vai para o banheiro, Amélia caminha até a sacada do quarto.Observa atentamente a vista por alguns instantes, até que seu olhar vai ficandoperdido. Em sua mente, ela vai revendo tudo que viveu com Vitor até aqueleinstante.Trilha sonora: Eppure Sentire – Elisahttp://www.youtube.com/watch?v=llew0MMIxDoLembra-se desde quando sentia o chão fugir de seus pés diante dele, masachava que não passaria de um sentimento platônico... o dia em que seusolhares se encontraram ao experimentar a cama na estalagem... o primeirobeijo... a angústia quando ele desapareceu... a alegria do reencontro...E depois disso, tantos beijos e declarações trocados no quarto da estalagem,às escondidas, o medo da vingança de Max, o começo da sociedade das joias,a revelação aos filhos e o apoio deles, o atentado na noite do lançamento docatálogo, as loucuras de Vitor aparecendo de surpresa em seu quarto, maisbeijos e declarações... Ela ri ao recordar do encontro no salão de beleza, ondechegara disfarçada. Naquele dia, Vitor disse que iriam morar na Europa,citando as cidades que agora começavam a visitar. Depois continuaram seencontrando furtivamente até o dia em que Vitor levou o tiro...Amélia engole em seco e não consegue evitar as lágrimas ao lembrar-sedaquela noite, da dor de vê-lo ferido, quase perdendo a vida... Ela solta umsuspiro, dizendo a si mesma que aquela dor os uniu ainda mais, porque depoisdaquele momento jamais se separaram. E sorri, recordando dos diasmaravilhosos no Jalapão... a vida só de alegrias desde então...Ela estava ainda com o olhar perdido quando Vitor se aproxima e a abraça portrás. Ele fica preocupado ao perceber o rosto úmido dela:- Amélia, você está chorando?- Meu amor... estava lembrando de tudo que vivemos até aqui... nossa, nóspassamos por tanta coisa para hoje podermos estar vivendo essa felicidade...- É mesmo. Talvez seja justamente por isso que nosso amor é tão forte... jásuperou muita coisa – ele responde virando Amélia de frente para ele, eacariciando os cabelos dela, enquanto com a outra mão enxuga uma lágrimaque ainda estava caindo.Eles trocam um beijo delicado, e Amélia pergunta:- Está com fome?- Estou... doido por uma legítima pasta italiana.- Andiamo! – ela diz, puxando o pela mão.Vitor a contém, retrucando:- Io non parlo italiano, donna...- Ma... tu stai parlando!- Que nada... – ele ri – só tem uma coisa que eu realmente sei “parlar” – eleolha bem nos olhos de Amélia – Io ti voglio bene, amore mio...Ela solta um suspiro apaixonado e murmura:
  • 5. - Tu sei l’amore della mia vita...- Eu sou o amor da sua vida, é isso?Amélia dá um grande sorriso:- Isso!- Ah, essa foi fácil... – Vitor brinca.- Bobo... ou melhor, “scemo”. Andiamo a mangiare... – ela vai puxando-o pelamão.- “Mangiare” eu sei, é comer – ele ri, enquanto deixam o quarto.Após o almoço, Amélia leva Vitor para conhecer vários museus e igrejas deFlorença, como o Duomo de Santa Maria dei Fiori, a Galleria degli Uffizi,Palazzo Strozzi e o Palazzo Vechio.Ao passarem pela Ponte Vecchio, sobre o rio Arno, Amélia chama a atenção deVitor para os vários cadeados colocados na estrutura dela:- Os casais vinham colocar esses cadeados aqui. Existia uma tradição de queao trancar o cadeado e lançar a chave ao rio, os amantes tornavam-seeternamente ligados.- Onde eu arrumo um cadeado, agora? – diz Vitor, em tom maroto.Ela ri antes de responder:- Como tinha muitos turistas colocando cadeados, a remoção estavaestragando a estrutura da ponte. Por isso, hoje há multa para quem é flagradofazendo isso...- Quanto?- Cinquenta euros.- Ah, mas o que são cinquenta euros perto de uma vida toda ao lado da mulherque eu amo? – ele retruca.Amélia acha graça e devolve:- Nós dois não precisamos de cadeado nenhum... já estamos eternamenteligados – ela passa os braços em torno do pescoço dele.- Estamos – concorda Vitor, aproximando os lábios.Eles trocam um beijo demorado ali mesmo, no meio da ponte, e seguem opasseio.Trilha Sonora: Amare Veramente – Laura Pausinihttp://www.youtube.com/watch?v=tOfjDd-nQ9cAinda na ponte, Amélia pára e comenta:- Escuta, essa música...- O que tem ela?- Ela diz muito do que sinto por você. Esse trecho, vou traduzir:“Tudo passa rapidamente ao nosso redorVocê pertence a mim agora e eu seiAntes eu tinha o coração adormecido paraAmar verdadeiramente”- Nossa... – Vitor balbucia, impressionado.- Espera, tem mais:“Você está em minha vida mais do que nuncaAlém do muro dos meus silênciosUm suspiro de serenidade
  • 6. O amanhecer de uma nova liberdade”- Eu represento tudo isso pra você? – ele pergunta, ficando emocionado.Amélia olha bem nos olhos dele e aponta na direção do som, traduzindo otrecho final:“O que eu nunca entendiEstá agora tão claro a meus olhosVocê sabe amar de verdade, e você sabeChegar onde nenhum outro jamais esteve.”Vitor e Amélia se olham, ambos com os olhos marejados, e ao mesmo tempose juntam em um abraço bem forte, até que os lábios vão se procurando. Eeles se beijam de um jeito cheio de amor.- Te amo, te amo... – sussurra Vitor.- Também te amo... – devolve Amélia, também sussurando.Vitor respira fundo, tentando voltar ao normal:- Ai... como você me faz ficar emocionado desse jeito em público? – ele brinca,enxugando uma lágrima do canto do olho.- Não se preocupa... nós estamos na Itália, aqui as emoções ficam à flor dapele. Ninguém vai reparar – ela responde com doçura, sorrindo.- É verdade... você e eu aqui, juntos e felizes - Vitor sorri também – E o quemais você vai me mostrar nessa cidade linda?- Mais palácios e galerias. Ah, e também a Piazzale Michelangelo!- Então vamos em frente, amore mio... – ele caminha, segurando a mão deAmélia com os dedos entrelaçados.IIILogo depois de sair da ponte, eles se deparam com o Palazzo Pitti.- Olha, Vitor, que bonito! – exclama Amélia.
  • 7. - É mesmo – ele a abraça por trás, e ficam alguns instantes assim, em silêncioe abraçados, contemplando o palácio – A gente deveria morar num lugarassim...- Um palácio? – ela fica curiosa.- Sim. Você é uma rainha, merece nada menos do que um palácio.- Ah, Vitor... – murmura Amélia, achando aquilo muito fofo.Vitor sorri, lembrando de algo:- E além disso, eu prometi pro Fred que ia tratar você como uma rainha, sabia?- Sério?- Sério. Foi no dia em que ele contou pra Manu sobre nós. Eu disse que nãosabia como retribuir o apoio e a confiança deles. E o seu filho nem hesitou –ele imita a voz de Fred – “Eu sei como: tratando a dona Amélia como elamerece, como uma rainha!”- Que bonitinho! – ela exclama, tentando olhar para Vitor.- Mas nem precisava ele dizer isso, né? – Vitor vira Amélia para ele e dizchegando bem perto dos lábios dela – Minha rainha...Ele nem a deixa responder e já cola seus lábios aos dela.Depois de um beijo carinhoso, Amélia diz:- Vamos entrar no palácio? Quero lhe mostrar a Galeria Palatina, cheia deobras renascentistas. Tem vários museus lá dentro também.- E eu consigo dizer não pra você? – ele retruca.Ela ri e puxa Vitor pela mão. Eles passam o restante da tarde vendo as obrasda Galeria Palatina e dos muses da Prata e da Porcelana. Saem do palácio já ànoite.Trilha sonora: Amo Te – Biagio Antonaccihttp://www.youtube.com/watch?v=FuPd01DfeeA&feature=relatedAo chegarem de volta ao quarto do hotel, Vitor se joga na cama:- Nossa, acho que nunca caminhei tanto!- Exagerado...- Amélia, você quis me mostrar Florença toda num dia!Ela ri:- Ih, tem muito pra ver ainda... em muitos lugares a gente nem entrou.- Ainda bem que a gente não vai ficar muitos dias aqui – ele brinca - Logovamos para Veneza, depois Milão...- Vitor, como nós já estamos na Itália, podemos passar em Roma também? NoVaticano... pedir uma benção do papa.Vitor senta na cama:- Se você quer, nós vamos.- Quero, sim – ela responde, segurando a medalha de São Valentim.- Então, Roma já está no roteiro.- Obrigada, amor – Amélia atira um beijo e se afasta.- Onde você vai?- Tomar um banho – ela responde já quase na porta do banheiro.- Hummm – ele murmura, com um olhar malicioso – Será que...Amélia o chama fazendo um gesto com o dedo indicador. Vitor levanta e vaidepressa até ela:- Ué, não estava cansado? – ela brinca.- Foi só pensar em tomar banho juntinho com você que o cansaço sumiu...
  • 8. Amélia ri, e entra no banheiro. Vitor abre o ziper do vestido dela, fazendo-o cairno chão. Depois vai cuidadosamente tirando a roupa íntima de Amélia,contemplando o corpo dela. Enquanto ela entra na banheira, ele tirarapidamente a própria roupa, e entra também, abraçando-a. Vitor passa asmãos pelo corpo de Amélia, esfregando a água misturada com sabonetelíquido e sais. Começa massageando o pescoço e vai descendo, até chegaraos pés. Então Amélia aproveita e pega um dos pés dele, começando umamassagem.- Você caminhou muito hoje. Assim vai passar a dor nos pés – ela explica,trocando de pé e pressionando a sola com as pontas de seus dedos.Vitor fecha os olhos por alguns instantes, apenas curtindo aquela sensação.- Humm, isso é bom! Acho que eu vou querer uma massagem dessa todo dia...– ele brinca.- Ah, é? – Amélia ri e joga um pouco de água nele.- Não... eu quero muito mais que a massagem... – Vitor responde, vindo paracima dela até encaixarem seus corpos e seus lábios.O beijo vai ficando mais intenso e eles se amam ali na banheira. Depois Améliafica aninhada nos braços de Vitor por algum tempo, até que pergunta:- Vitor, há quanto tempo estamos aqui dentro da água?- Que importa?- A gente esqueceu da vida aqui... – ela ri.- E estava tão bom... – ele retruca, com um sorriso travesso.- Estava – Amélia também sorri – Mas já é hora de sair.Ela se levanta e pega uma toalha. Vitor sai da banheira rapidamente e pega oroupão de Amélia, ajudando-a colocar.- Meu Deus, até isso você faz? – ela murmura, encantada.- É, estou tentando ser perfeito – ele brinca.- Bobo...Vitor também veste um roupão. Eles se recostam na cama, e de tão cansadosacabam dormindo logo.No dia seguinte, Amélia leva Vitor até o Palazzo Vechio, do qual só tinhampassado na frente. Desta vez eles entram para visitar os pátios e salas, comtodas as suas obras de arte. Estão contemplando o primeiro pátio quandoouvem uma voz masculina:- Amélia?Os dois se viram e se deparam com um homem alto, de cabelos grisalhos,sorriso cativante, com aquele típico charme dos italianos.- Andrea! Há quanto tempo! – exclama Amélia, reconhecendo-o.- Amélia, é você mesma? Como pode estar ainda mais bonita do que a últimavez que nos vimos?Vitor engole em seco, esperando pela resposta da esposa.IVAmélia segura no braço de Vitor e o apresenta:- Andrea, esse é meu marido, Vitor Vilar – ela olha para o marido – Vitor, oAndrea é um velho amigo, aqui de Florença.- Andrea Antonacci, muito prazer – o italiano estende a mão para Vitor, queaperta a mão dele, ainda meio inseguro.
  • 9. - Você mora aqui mesmo, em Florença? – pergunta Vitor, analisando o outrocom o olhar.- Um pouco em Florença, um pouco em Milão. Tenho uma grife de modamasculina.- O Andrea era modelo também, na mesma época que eu. De vez em quandonos encontrávamos nos bastidores – lembra Amélia, sorrindo para o amigo.- É mesmo... – Andrea também sorri - você era a mais linda de todas,exuberante. Pena que logo parou de desfilar porque casou com um fazendeiro,não foi?- Foi... – ela fica com uma sombra no olhar - larguei tudo por causa do Max.Mas ele morreu tem algum tempo e eu refiz minha vida, casei novamente – elaolha para Vitor, voltando a sorrir – e estou mais feliz do que nunca.- Que bom, Amélia... Fico feliz por você. Eu já não tive a mesma sorte, já meseparei duas vezes e estou sozinho há uns cinco anos. Às acho que nunca vouencontrar uma mulher que me deixe perdidamente apaixonado.- Logo você falando assim... as minhas colegas de passarela brigavam porcausa do Andrea, sabia, Vitor? – revela Amélia.- Ah, nem tanto... – o italiano ri – Vocês vão ficar quanto tempo em Florença?Podíamos marcar um jantar.- Estamos em lua-de-mel pela Europa, daqui há dois dias já vamos para Roma,não é, amor? – Vitor apressa-se em explicar.- Sim – ela confirma – Mas isso não inviabiliza um jantar.- Amanhã, que tal? Vou levá-los para conhecer o melhor restaurante deFlorença – convida Andrea.Amélia olha para Vitor de um jeito de quem pede para ele aceitar.- Está bem. Jantaremos amanhã – ele concorda, tenso.Após trocarem telefones, Andrea se afasta.Trilha sonora: Vivimi – Laura Pausinihttp://www.youtube.com/watch?v=e1VDNwYg990Vitor fica calado por alguns instantes, como se estivesse digerindo tudo queouviu.- Amor... algum problema? – pergunta Amélia, preocupada.- Você e esse Andrea... já tiveram alguma coisa além de amizade? – elequestiona, bastante incomodado.Amélia começa a rir:- Vitor, você ficou com ciúme? – ela continua rindo – Nunca tive nada com oAndrea... e mesmo se tivesse acontecido um namoro, algo assim, teria sidomuito antes de te conhecer.- Sei lá, o jeito que olhou pra você, que falou da sua beleza... não gostei, eleparecia que estava cobiçando a minha mulher – Vitor dá enfase ao “minha”.- Mesmo se estivesse, eu não daria importância. – Amélia olha nos olhos dele –É você que eu amo, ouviu?- Eu sei, meu amor, desculpa... – ele a olha com arrependimento – Mas assimcomo você às vezes pensa que eu possa querer uma mulher mais jovem, daminha idade, eu também fico inseguro de vez em quando, pensando que derepente você pode me achar muito imaturo e querer um homem com maismaturidade, experiência de vida...
  • 10. - Nunca mais pense isso... Como eu poderia não te querer mais? Só se eufosse muito burra. Eu já tenho o melhor homem do mundo ao meu lado.- Você pensa isso mesmo? – ele devolve com um sorriso emocionado.- O que mais eu preciso fazer pra te convencer?- Nada. Só me beija – ele toma Amélia nos braços e beija seus lábios compaixão.Amélia e Vitor passeiam por todas as salas do palácio, depois almoçam numrestaurante ali perto e seguem para outros museus e galerias.No outro dia, eles visitam o centro histórico e mais obras de arte. Aoretornarem ao hotel, no final da tarde, recebem da recepcionista um recadodeixado por Andrea, avisando que o jantar teria que ser cancelado, porque eleprecisara ir para Milão às pressas.- Ah, que pena... – murmura Amélia.- Eu não acho – retruca Vitor, segurando-se para não rir.- É, eu imagino que você tenha gostado da notícia – ela devolve com leveironia – Mas quem sabe a gente consegue jantar com o Andrea em Milão?- Tá bem interessada em jantar com esse cara, né? – Vitor não conseguedisfarçar o ciúme.Amélia ri:- Não... prefiro jantar com você – ela diz, passando os braços em torno dopescoço dele – Mas eu adoraria poder conversar mais um pouco com meuamigo Andrea...Tenso, Vitor questiona:- Você acha que ele é mais bonito do que eu?- Desde quando você ficou tão inseguro? – devolve Amélia, sem perder acalma.- Não sei... me responde, por favor... – ele implora.- No quarto eu respondo. Vamos – ela o conduz pela mão até o elevador. Elessobem em silêncio, Vitor bastante ansioso.V
  • 11. Após entrarem no quarto, Amélia larga a bolsa num canto e se posiciona bemem frente a Vitor. Ela percorre o rosto dele com os dedos, enquanto vaifalando:- Esses olhos profundamente verdes, esse nariz do tamanho exato, esseslábios tão bem desenhados... – ela passa os dedos em torno dos lábios dele,que tenta beijar os dedos dela.Amélia sorri e vai descendo as mãos:- Esses braços fortes, esse peito onde gosto tanto de repousar... – ela acariciaos bíceps e o peitoral de Vitor - Você é tão perfeito que me dá até medo.- Medo de quê?- De que um dia eu descubra que você não é real... – ela sorri.Vitor a puxa para seus braços e responde, sorrindo:- Eu sou real, sim... – ele a beija com intensidade, e vai conduzindo-a até acama.Amélia desabotoa a camisa de Vitor ao mesmo tempo em que ele tira a blusadela. Logo se livram das roupas que faltam e sentem seus corpos coladoscomo se fossem se fundir. Vitor beija o pescoço e o colo de Amélia, enquantosuas mãos percorrem o corpo dela, que se entrega totalmente aos carinhosdele. Eles se amam sem pressa, curtindo intensamente cada sensação queprovocam um no outro.Eles acordam tarde no dia seguinte, e tomam café no quarto, intercalandomorangos e torradas com beijos.Depois arrumam as malas. À tarde, partem para Roma.Trilha sonora: Abbracciami – Nekhttp://www.youtube.com/watch?v=-iUWn05NFlA&feature=relatedJá na capital italiana, à caminho do hotel, eles passam em frente à Fontana deTrevi. Amélia grita para o taxista:- Pare, per favore!- Que foi, Amélia? – pergunta Vitor.- Vamos parar aqui um instante – ela se dirige ao taxista – Aspetta un attimo(Espera um momento)?O homem confirma com a cabeça. Amélia desce do carro, seguida por Vitor.- Essa é a Fontana de Trevi.- Sei, já ouvi falar – ele fica pensativo, observando a fonte – Acho que já estiveaqui... deve ter sido com meus pais, quando era pequeno. Minha mãe erabastante religiosa, e uma vez meu pai a presenteou com uma viagem a Roma.A única coisa que eu me lembro daquela viagem é de minha mãe chorando deemoção ao ver o papa João Paulo II.- É? Você nunca me contou isso – comenta Amélia, comovida.- Minha mãe rezava tanto, e morreu tão cedo... cheguei a me revoltar contraDeus, na época. Perdi a fé, sabe? Eu procurei esquecer tudo que tivesse a vercom religião. Com o tempo eu fui me reaproximando de novo da igreja... masainda guardo uma desconfiança, sabe?- Vitor... – ela o abraça com carinho, e acaricia os cabelos dele.
  • 12. - Talvez não seja por acaso que você me fez vir a Roma... e vai me levar aoVaticano. Será que eu consigo fazer as pazes com Deus? – Vitor questionacom um sorriso meio triste.- Eu te ajudo – Amélia garante, acarinhando o rosto dele.Vitor abraça a esposa com força, e fica abraçado a ela por alguns instantes, emsilêncio, até que ao levantar os olhos vê o táxi parado.- O taxista está esperando, meu amor.- Já vamos, só me consegue uma moeda, antes?Vitor encontra apenas duas moedas na carteira, e mostra para Amélia.- Só precisamos de duas, mesmo... – ela sorri, pega uma das moedas da mãodele, e ensina – Agora a gente vira de costas para a fonte, e joga a moeda.Eles se posicionam e jogam as moedas na fonte.- Pronto, garantimos nossa volta a Roma – ela sorri, e puxa Vitor pela mão –Vem aqui, agora...Amélia o leva até uma parte especial da Fontana di Trevi:- Essa é a Fontanina degli Innamorati, ou Fontezinha dos Apaixonados. Reza alenda que os namorados que beberem juntos dessa fonte se amarão parasempre.- Mas eu vou te amar pra sempre de qualquer jeito... – alega Vitor, com umolhar apaixonado.- Eu também... – ela retribui o olhar – Mas quero cumprir essa tradição comvocê.Vitor sorri, e os dois se aproximam mais da Fontanina, bebem juntos de suaágua, e selam o amor eterno com um beijo.- Será que o taxista ainda está nos esperando ou já desistiu? – Amélia ri.- Espero que não – Vitor também ri.- Tomara, porque ele está com nossas malas! – ela lembra, e corre para o táxi,puxando Vitor pela mão.O taxista continuava à espera, pacientemente.- Scusa, signore, mi sono distratta nella Fontana. (Desculpa, senhor, nosdistraímos na Fontana) – diz Amélia, enquanto entram no carro.- Tutto bene. La Fontana é magica per due innamorati.- É vero – concorda Vitor, se esforçando para falar com a entonação bemcorreta, o que provoca risos em Amélia.- Falei errado? – ele pergunta, preocupa.- Não, você está aprendendo direitinho.- Eu tenho uma boa professora – Vitor dá uma piscadinha para ela.Amélia sorri e acaricia o rosto dele, depois deita a cabeça em seu ombro,ficando assim até chegarem ao hotel.Depois de se acomodarem no quarto, Amélia avisa que vai descansar umpouco.- Enquanto isso, eu vou resolver umas coisas, tutto bene, amore mio? – eledevolve, dando um beijo carinhoso nos lábios dela.Amélia sorri:- Você fica tão lindo falando em italiano...- Allora io voglio aprendere a parlare solo per te. Acertei?- Quase. Não se diz aprendere, se diz imparare – ela explica, recostando-se nacama – Aprendere não está errado, mas é melhor imparare.Vitor sorri e dá mais um beijo em Amélia, dizendo:
  • 13. - Ritorno subito, amore mio, razão della mia vita...Amélia fica repousando enquanto Vitor sai um pouco.VIQuando ele volta, ela está penteando os cabelos diante do espelho. Vitor aabraça por trás e lhe dá um beijo no rosto.- Eu consegui – ele avisa.- O quê? – ela se vira, curiosa.- Uma audiência com o papa. Amanhã, no começo da tarde, Sua Santidade vainos abençoar.Amélia fica alguns instantes apenas olhando para Vitor, com os olhosmarejados.- Como você conseguiu isso assim tão fácil? – ela finalmente questiona.- Você não conhece meu poder de convencimento? – ele retruca, brincando.- Conheço muito bem – ela ri, depois fica contemplando-o emocionadanovamente – Uma benção do papa... Sabe, uma vez estive em aqui em Romacom o Max, e queria tanto essa benção... mas ele disse que era frescura, que opapa era um padre como qualquer outro, acredita?- Bem típico do Max menosprezar os desejos das outras pessoas... Mas nãovamos mais falar dele, né?- É, não vamos estragar esse momento tão lindo lembrando daquele... Ah,Vitor... – ela passa os braços em torno do pescoço dele – Nosso amor seráabençoado pelo papa!Vitor acaricia o rosto dela, contemplando o brilho nos olhos de Amélia.
  • 14. - Nosso amor já é abençoado... mas o que é importante pra você, é importantepra mim também – ele afirma, beijando-a carinhosamente.Depois de alguns beijos, Vitor pega uma sacola que tinha trazido na rua elargara no chão ao entrar no quarto:- Ah, no caminho de volta eu passei diante de uma loja e resolvi comprar umpresente pra você... pra usar hoje à noite.Amélia tira de dentro da sacola um lindo vestido verde escuro, de tecido fluido,com decote em v, cavas profundas, e uma faixa de cetim na cintura,arrematada por um laço.- Vitor... – ela murmura, impressionada – Pra que isso?- Vamos sair para um jantar bem romântico, só nós dois – ele enfatiza o “sónós dois”.Amélia ri, entendendo a indireta:- Nós não vamos encontrar o Andrea aqui em Roma.- Acho bom – devolve Vitor, tentando conter o ciúme.Amélia se olha no espelho com o vestido diante do corpo, depois o colocasobre a cama e avisa que vai tomar um banho. Depois é a vez de Vitor.Enquanto ele se lava, ela faz a maquiagem, marcando bem os olhos comdelineador. Ajeita os cabelos em um coque meio soltinho, finalizado com umadelicada presilha de capim-dourado, criação sua. Só então coloca o vestido echama Vitor para ajuda-la a fechar o zíper. Ele se aproxima, arrumando agravata, num tom parecido com o do vestido de Amélia, mas um pouco maisclaro. Enquanto fecha o zíper, Vitor aproveita para dar um beijo no pescoçodela.- Humm, que cheiro bom... Acho que vou abrir esse vestido de novo e...- Agora não, amor... – ela responde com doçura, se afastando, colocando assandálias e finalmente parando diante dele – E então, como estou?- Ma che bella donna! - ele exclama, maravilhado – Aceita a companhia destehumilde ragazzo?Sorrindo, Amélia encaixa seu braço no dele e saem para o jantar.No restaurante, Vitor pede um bom vinho e eles curtem o clima de romance.Trilha sonora: Amarti è Limmenso Per Me – Eros Ramazzottihttp://www.youtube.com/watch?v=rSwmnKH9YGcO casal acorda cedo no dia seguinte. Amélia escolhe um vestido longo, de corcreme, com um casaquinho leve quase do mesmo tom, e sapatilhas marrons.Vitor coloca uma calça social quase da cor do vestido de Amélia, e uma camisabranca com camiseta por baixo. Eles saem cedo para passear pelos museusda Basílica de São Pedro.Na Capela Sistina, Vitor fica boquiaberto, contemplando os famosos afrescosde Michelangelo:- Como eu demorei tanto para ver isso de perto? – questiona, sem tirar osolhos do teto.- Talvez porque você tinha que vir comigo... – responde Amélia, sorrindo.Vitor olha para ela:- Com certeza.Eles ficam por alguns instantes paralisados, apenas trocando um olhar cheiode amor. Depois seguem observando os demais afrescos da capela.
  • 15. Quando se aproxima o horário da audiência, Vitor avisa:- Vamos, amor? Chegou a hora.- Vamos – ela confirma, soltando um suspiro de ansiedade.Eles caminham de mãos dadas para o local onde receberão a benção. Vitorsente um tremor na mão de Amélia.- Você está tremendo, Amélia?- Estou nervosa... Bobagem minha, né?- Não... este é um momento especial pra você, tem todo o direito de ficarnervosa – ele a tranquiliza.Com a mão que está solta, Amélia mexe na medalha de São Valentimpendurada em seu pescoço, e a ajeita bem no centro de seu colo. Depois fazVitor parar por um instante e arruma também a medalha dele, que estavaescondida sob a camiseta.- Vamos pedir para abençoar nossas medalhas também, para que essaproteção nunca nos falte.- Sim... – concorda Vitor, tentando não demonstrar, mas ansioso também.Diante do papa, ao receber a benção, Amélia deixa algumas lágrimas correrempor seu rosto. Vitor olha para ela e sente os olhos marejados, comovido por vê-la tão emocionada.- Vão em paz, e que Deus os acompanhe – conclui o Santo Padre.- Amém – dizem Amélia e Vitor, ao mesmo tempo.Eles saem de lá devagarinho, sentindo uma paz inexplicável. Só ao chegaremde volta ao pátio da Basílica, é que Amélia comenta:- Acho que foi um dos momentos mais bonitos da minha vida – ela olha nosolhos de Vitor – Obrigada por me proporcionar isso.- Eu é que tenho que agradecer muito a Deus por ter colocado você na minhavida, fazendo de mim um homem melhor. Hoje, aqui nesse lugar, tive certezaque foi obra divina nossos caminhos terem se cruzados.- Eu já tinha essa certeza... – Amélia sorri.Vitor acaricia os cabelos dela antes de continuar:- Já pensou, Amélia? Se você já não fizesse parte de mim, mesmo sem euperceber, talvez eu tivesse sucumbido naquela mata, quando caí com o avião...Foi por você que eu busquei forças para sair daquela mata, foi você quemsalvou minha vida...- Você também salvou a minha – ela devolve, deixando Vitor com um olharsurpreso:- Como?- Me devolvendo a alegria de viver. E me mostrando que eu ainda tinha muitacoisa para fazer, para conhecer... – Amélia sorri.Vitor também sorri, e dá um delicado beijo nos lábios dela, depois conclui:- Tinha não... tem. Andiamo, amore mio, temos muito ainda que visitar em labella Itália.
  • 16. VIIDepois de mais um dia visitando pontos turísticos e históricos de Roma, comoo Campidoglio e o Coliseu, Amélia e Vitor partem para Veneza.Eles chegam ainda de manhã, e saem para conhecer a cidade. Logoencontram a Basilica di San Marco, a mais famosa das igrejas de Veneza,construída em estilo bizantino, e ficam impressionados.- Nossa, nós estamos na Itália mesmo? – brinca Vitor.- Incrível, né? – Amélia ri.O casal passeia pela Piazza San Marco e visita o Palazzo Ducale.Na parte da tarde, chegam ao Palazzo Contarini del Bovolo, conhecido por suaescadaria de caracol no exterior.- Você quer subir, ver a vista lá de cima? – convida Vitor.- Vamos! – ela responde, animada, já puxando o amado pela mão e subindo osprimeiros degraus.Eles sobem aos risos, como crianças desbravando um túnel secreto. Enfimalcançam a parte mais alta da escadaria. Vitor abraça Amélia por trás, e elesficam contemplando a vista por longos minutos, em silêncio, como se o tempotivesse parado.- Nós estamos em Veneza... – murmura Amélia.- Tá uma vendo uma gôndola, lá adiante? – aponta Vitor.- Sim! Ah, Vitor, vamos passear de gôndola? – ela pede de um jeito meigo.- Claro! Você acha mesmo que a gente viria para Veneza e deixaria de fazerum passeio romântico desses, de novela, de filme? – ele sorri.- Hum, então você já tinha planejado isso também?- Nosso passeio de gôndola está até marcado, combinei tudo por telefone e e-mail antes de virmos pra cá. Amanhã, nesse horário, estaremos no meio doGrande Canal.Amélia se vira para Vitor e olha nos olhos dele:- Você... me deixa sem palavras.
  • 17. Ele a enlaça pela cintura e responde:- Já ouviu dizer que o beijo é um artifício que a natureza inventou para quandoas palavras se tornam supérfluas?Ela sorri, encantada, e Vitor a puxa para mais perto e beija seus lábios comintensidade. O casal fica namorando no alto da escadaria por algum tempo, atéque outro par de turistas chega lá em cima. Só então Amélia e Vitor descem.Trilha sonora: Imbranato – Tiziano Ferrohttp://www.youtube.com/watch?v=RL8zMj5Xdd4&feature=relatedNo dia seguinte, Vitor leva Amélia até o ponto de partida da gôndola.- Mas cadê o gondoleiro? Está atrasado? – ela questiona, ao ver a embarcaçãovazia.- Não, meu amor... depois de muito tentar eu consegui, em segredo, umagôndola emprestada para passearmos sozinhos. Eu é que vou remar.- Mas você sabe controlar essa coisa? – pergunta Amélia, franzindo a testa.- Quê? Eu piloto avião, meu amor... uma gôndola é muito mais simples – eleresponde, cheio de si.- Espero que você saiba o que está fazendo... – ela se contém para não rir.- Você não confia em mim?- Claro que eu confio, senão nem entraria nessa gôndola...Vitor ri, e estende a mão para ela:- Andiamo, bella donna...Ele ajuda Amélia a entrar na embarcação, depois assume seu lugar. Ele vairemando tranquilamente, e quando estão bem no meio do grande canal,comenta:- Viu? Não há o que temer.Ela sorri, e olha em volta, maravilhada. Vitor conduz a gôndola para um canaladjacente.- Olha, Vitor, a Ponte dos Suspiros! – exclama Amélia, ainda mais encantada.- Parece que estamos viajando no tempo, né? – ele devolve.- Ah... é muito bonito tudo isso – ela suspira.Logo Vitor traz a embarcação de volta para o Grande Canal. Ele troca olharesapaixonados com Amélia, até que se ergue e inclina um pouco para beijá-larapidamente.- Cuidado, Vitor... – ela alerta.- Está tudo sob controle – ele garante – Só mais um beijinho...O beijo acaba ficando mais intenso, e sem perceber Vitor larga o remo. Elelogo se dá conta e tenta pegá-lo de volta, mas não dá tempo. O remo caidentro da água e afunda. Vitor olha para Amélia com um sorriso amarelo, semsaber o que dizer.- E agora? Como vamos sair daqui? – ela pergunta, aflita.- Calma, eu vou ligar para o rapaz que me emprestou a gôndola – ele tentaparecer tranquilo, enquanto tira o celular do bolso. Ao olhar para o aparelho,faz uma careta – Sem sinal.- Ah, meu Deus... – Amélia fica ainda mais angustiada, depois olha para Vitorcom um pouco de raiva, e comenta com ironia – É fácil controlar uma gôndola,né?- Foi um acidente... – ele balbucia com cara de cachorro que quebrou o pote.- Não, senhor, foi distração – ela retruca ainda irritada.
  • 18. - É, eu me distraí... com você – Vitor admite.- Ah, agora a culpa é minha?- Não... Tudo bem, eu fiz uma besteira. Mas não vamos brigar justamenteagora? – ele devolve com olhar de súplica.Amélia respira fundo, tentando-se acalmar.- Está certo, não adianta discutir agora. Estamos à deriva, no meio do GrandeCanal... o que vamos fazer?- Esperar. Daqui a pouco alguém vê que estamos à deriva, ou a gôndola vaiparar junto da margem.- Ai, Vitor, por que você tinha que se meter a gondoleiro? – ela diz, quase comvoz de choro.- Porque eu queria proporcionar um passeio único pra você.- É, e conseguiu – ela devolve meio irônica, e finalmente ri – Será realmenteinesquecível.Vitor olha para Amélia meio de canto de olho, ainda envergonhado pelo quefez:- Já que vamos ter que esperar, não sabemos quanto tempo, melhoresperamos bem juntinhos, não acha?- Acho – ela sorri levemente, já quase sem raiva.Ele senta bem ao lado dela e a envolve em seus braços. Fica acariciando oscabelos e o rosto de Amélia, enquanto a gôndola desliza pela água.VIIIDepois de algum tempo, a gôndola se aproxima da margem do canal. Vitoramarra a embarcação na primeira coisa possível que encontra, e suspiraaliviado.- Vem, amor – ele estende a mão para ajudar Amélia a descer.- Tem certeza? – ela brinca, querendo rir.- E você tem escolha? Prefere ficar aí? – Vitor retruca, levemente irônico.- É, não tem outro jeito... – Amélia devolve, apertando os lábios, e finalmenteaceita a ajuda de Vitor.Ela coloca um pé em terra firme, e quando tira o outro da gôndola, seu sapatocai dentro do canal.
  • 19. - Ah, não! – ela exclama, ajoelhando-se de na margem e olhando para a água.- Esquece, Amélia, ele já afundou – avisa Vitor, descendo da gôndola também.- E agora, vou ter que caminhar até o hotel com um pé só?Amélia e Vitor se olham e caem na gargalhada, sem conseguir parar de rir atéquase perder o fôlego. Ela respira fundo e comenta:- Só me faltava mesmo perder um sapato, para coroar esse passeioatrapalhado... – e cai na risada de novo.- Atrapalhado sou eu... quis bancar o bonzão, o sabe-tudo, e quase provocouma tragédia – ele ri de si mesmo.- Ah, não exagera... Acabou tudo bem.- É, acabou. Por falar nisso, preciso ligar para o dono da gôndola – Vitorconfere o celular, vê que voltou o sinal e faz a ligação, explica onde estão.Depois, conta para Amélia - Ele está aqui perto, já vem.- Que bom. Estou louca para chegar ao hotel, tomar um bom banho edescansar. Em que situação você nos colocou, hein, Vitor?- Minha culpa, minha máxima culpa... já reconheci. Mas pensa por outro lado,essa história vai virar uma lenda na família – ele dá uma risada.- É verdade – Amélia recomeça a rir sem conseguir parar.- Já estou até vendo o quanto que a Mané vai me zoar por causa disso... –brinca Vitor.- Vai mesmo, gondoleiro trapalhão!Eles estão aos risos quando o dono da gôndola chega. Vitor acerta tudo comele, dando um valor a mais pela perda do remo. E o próprio gondoleiro, numaembarcação a motor, os leva para o outro lado do canal, deixando-os próximoao hotel.Amélia sai mancando, com um sapato só.- Não, meu amor, você não vai ficar andando assim – diz Vitor, pegando-a nocolo.- Vitor, não precisa... – ela murmura, encantada.- Eu te levo. Nós estamos pertinho do hotel.Vitor carrega Amélia até a porta do elevador. Assim que ele a coloca no chão,ela lhe dá um suave beijo nos lábios.- Obrigada, você é verdadeiro cavalheiro... – ela comenta sorrindo.- Eu me esforço – ele ri.Amélia tira o outro sapato, e sobe descalça para o quarto, ainda rindo juntocom Vitor de toda a situação daquela tarde.Ao entrarem no quarto, Amélia vai direto começar a encher a banheira. Vitorespia da porta do banheiro:- Vai tomar um banho demorado?- Eu preciso disso – ela responde.- Hum, então vou descer rapidinho, não demoro.Amélia se vira para perguntar aonde ele vai, mas Vitor já sumiu da porta. Elatermina de preparar a banheira e fica algum tempo na água, relaxando.Trilha sonora: Una Poesia Anche Per Te - Elisahttp://www.youtube.com/watch?v=gKkL_WZ_ePk
  • 20. Amélia veste um roupão e volta para o quarto. No mesmo momento, Vitorchega da rua, trazendo um buquê de rosas vermelhas, cor-de-rosa e amarelas.Amélia fica vendo ele se aproximar, surpresa.- Para a mulher mais linda do mundo... – diz Vitor, entregando o buquê.- Que lindo! – ela murmura, contemplando as flores.- É o mínimo que eu podia fazer depois do que aprontei hoje – ele justifica, comcara de menino arrependido.- Você fez tudo com boa intenção, só se atrapalhou um pouquinho – garanteAmélia.- É, mas nunca mais vou querer bancar o gondoleiro, prometo.Ela ri e pega o cartão que está no meio das flores. Abre e lê o poema impresso:- Se avessi la possibilità di nascere e morire di nuovo, lo rifarei solamente pervivere la mia vita insieme a te, per rimediare ad ogni mio errore, per cucire ognitua ferita, e per cancellare ogni tua sofferenza in modo tale che il mondo possaconoscere solamente il tuo sorriso, che mi ha incendiato il cuore, come dalprimo istante che ti ho visto!Amélia olha para Vitor, emocionada, e ele repete a mensagem, mas emportuguês:- Se tivesse a possibilidade de nascer e morrer de novo, o faria somente praviver minha vida junto a você, para remediar cada erro meu, para cicatrizarcada ferida tua e para apagar todo seu sofrimento, de tal modo que o mundopossa conhecer somente teu sorriso, que me incendiou o coração, como doprimeiro instante que te vi! – Vitor solta um suspiro e explica – Fiquei tentandotraduzir vários cartões, mas quando encontrei não tive dúvidas de que essepoema era o que eu queria te dizer.- Vitor... – murmura Amélia, se jogando nos braços dele e dando-lhe váriosbeijos nos lábios.Ele a beija com ardor. O beijo vai ficando mais intenso, até que Vitor desfaz olaço do roupão de Amélia e vai fazendo-o deslizar para o chão. Ele conduzAmélia para a cama ao mesmo tempo em que vai percorrendo o corpo delacom os lábios. Já deitados, Vitor começa a descer pelo colo dela com beijos,mas Amélia traz o rosto dele para junto do seu, juntando os lábios de um jeito
  • 21. ardente. Enquanto o beija, ela pressiona seu corpo contra o dele, desejando sejuntarem como um só. Ele corresponde, e os dois se entregam àquele desejo,amando-se como se o tempo tivesse parado.Amélia e Vitor partem para Milão. Ao passarem pela Piazza del Duomo, Améliaolha em volta e comenta:- Olha, Vitor, a catedral de Milão... sabia que é a segunda maior igreja da Itália?Só fica atrás da Basílica de São Pedro.Mas Vitor não responde, está pensativo, olhando um cartaz que anuncia umgrande show do cantor Andrea Bocelli.IX- Vitor? – insiste Amélia.- Hã? Que foi, amor?- Você ouviu o que eu falei, sobre a catedral?Vitor olha para Amélia e segura às mãos dela:- Desculpa, eu estava distraído...- Dessa vez eu perdoo – ela sorri de um jeito cúmplice – Mas agora olhe acatedral...Ele obedece, e fica boquiaberto:- Nossa... é incrível...- É mesmo... Vamos deixar as malas no hotel e depois voltar para conhecê-lapor dentro?- Vamos, sim.Eles dão entrada no hotel e arrumam suas coisas no quarto. Amélia avisa:- Vitor, eu vi que tem um salão de beleza aqui. Preciso fazer minhas unhas,depois vamos para a catedral... pode ser?- Pode, claro. Enquanto você trata de ficar ainda mais linda, vou dar uma volta.- Aonde você vai? – ela pergunta, curiosa.- Depois você vai saber – ele responde com um sorriso enigmático.
  • 22. Trilha sonora: Nel Cuore Lei – Andrea Bocellihttp://www.youtube.com/watch?v=d2JHOJH5vkYQuando Vitor volta, não acha Amélia no salão. Ele sobe ao quarto, e ao entrarjá se depara com a amada penteando os cabelos diante do espelho.- Voltei, amore mio... – ele diz, abraçando-a por trás e dando-lhe um beijo nopescoço.Ela se vira para Vitor, sorrindo:- O que você foi aprontar agora?- Isso – ele entrega dois papéis a ela.Amélia lê quase sem acreditar:- Ingressos para o show do Andrea Bocelli no Teatro alla Scala?- Sim, para amanhã à noite.- Vitor... eu adoro o Bocelli!- Eu também gosto muito... principalmente de uma música, que pareceinspirada no que sinto por você... chama “Nel Cuore Lei”.- “No Coração Dela”?- É... – Vitor se aproxima e canta baixinho no ouvido dela, enquanto dançambem juntinhos:“Ti prenderà il cuoreTi vinceràLei sarà la tua stradaChe non puoi lasciare maiA leiTi legherai finchè vivrai, a lei…”(Te prenderá ao coraçãoTe venceráEla será a tua estradaQue não poderá deixar nuncaA elaTe prenderá enquanto viver, a ela...)Amélia solta um suspiro, com os olhos marejados, e vai aproximando seuslábios dos de Vitor. Eles trocam um beijo demorado, antes de saírem parapassear pela Piazza del Duomo.No restante da tarde, eles visitam a catedral e também a galeria VittorioEmanuele II, do outro lado da praça.Voltando para o hotel, eles passam diante de uma grande loja de calçados.- Vamos entrar – avisa Vitor – quero te dar um sapato novo, para compensaraquele que você perdeu em Veneza.- Ah, Vitor... não precisa.- Eu faço questão.- Está bem – ela concorda, sorrindo.Eles entram na loja, e Amélia não consegue se decidir, pois havia muitosmodelos lindos. Ela experimenta vários pares enquanto Vitor espera, tentandoser paciente. Por fim, Amélia fica indecisa entre três modelos.- Qual você prefere, Vitor?- Os três ficaram igualmente lindos. Também, né, o que não fica bonito emvocê?- Ah, me ajuda... não sei qual deles escolho.
  • 23. Vitor olha para os sapatos por um instante e depois diz para a vendedora:- Vamos levar os três.- Mas, Vitor... – murmura Amélia.Ele não a deixa terminar:- Aproveita que eu tô bonzinho... – ele ri, depois a olha de um jeito apaixonado– Você merece tudo que eu puder te dar.A vendedora quase solta um suspiro, comovida com a cena, mas se contém epergunta:- Vão os três pares, mesmo?- Sim – confirma Vitor.- Então me acompanhem – ela avisa, conduzindo o casal para fazer opagamento.Depois de acertarem tudo, Amélia vai pegar as sacolas, mas Vitor se antecipa:- Não, não, deixa que eu levo... Não é essa uma das funções do homem,carregar as sacolas? – ele brinca.- Bobo... Obrigada, viu? Mas sabe qual foi o presente mais valioso que jáganhei até hoje?- Qual? – ele olha para ela.Amélia responde olhando nos olhos dele:- Você.Vitor sorri, e eles trocam um rápido beijo, antes de saírem da loja, de mãosdadas.Chegando ao hotel, Amélia marca um horário no salão para o dia seguinte,para se arrumar para o show.- Vitor, nós vamos numa das maiores casas de ópera do mundo, assistir aoAndrea Bocelli, já pensou?- É, e isso nem estava na nossa programação inicial... Essa viagem tem sidoainda mais emocionante do que eu imaginei. Sabe, planejei tudo para quefosse uma lua-de-mel de sonho pra você...- E está sendo um sonho pra você também, né? – ela completa, passando osbraços em torno do pescoço dele.- Está... amore mio... – ele confirma, colando seus lábios aos dela.X
  • 24. No outro dia, Amélia nem quer passear, de tanta expectativa. Passa a tardeescolhendo o vestido, os sapatos, as joias, depois vai para o salão arrumar ocabelo.Quando ela volta para o quarto, Vitor está no banho. Amélia confere openteado e a maquiagem no espelho, satisfeita com o resultado. Coloca ovestido, longo e estampado discretamente em tons de branco, preto e cinza, ejoga sobre os ombros uma estola leve de cor vermelha bem escura, quasemarrom. Calça as sandálias de salto e põe os brincos, um anel e pulseira. Vitorsai do banheiro com uma toalha enrolada na cintura e abre um grande sorrisoao ver Amélia toda arrumada:- Nossa, será que eu estou à altura de uma mulher dessas?- Você ainda está assim? – ela sorri.- Me apronto num minuto.Ele põe um terno escuro, com uma camisa cinza claro e gravata. Ajeita oscabelos com gel, deixando-os bem alinhados.- Que lindo... – comenta Amélia, admirando-o – Nem vi que você tinhacolocado esse terno na mala. Depois do acidente, você só usa roupas claras...- Eu trouxe para alguma ocasião especial... como essa.Ela ajeita a gravata dele:- Acho que hoje sou eu que vou ficar com ciúme. Você vai ser o homem maisbonito da plateia, não tenho dúvida.- Então estamos quites, por que... ai, meu Deus, não queria nem pensar, masvai ter muito homem virando o pescoço por sua causa... Precisava ficar tãolinda, hein? – ele brinca.Amélia chega mais perto e toca no rosto dele:- Que olhem... porque eu só vou ver você. E o Andrea Bocelli, claro – ela ri.- Espero que a gente não encontre um outro Andrea por lá... – Vitor pensa alto.- Vitor... isso é bobagem sua – ela repreende com doçura.- Eu sei. Não está mais aqui quem falou – ele oferece o braço – Andiamo,amore mio?- Andiamo – responde Amélia, encaixando seu braço no dele.Trilha Sonora: Vivo Per Lei – Andrea Bocellihttp://www.youtube.com/watch?v=DKa0wN31OD4Eles chegam ao teatro e vão logo tomar seus lugares. O show começa, eAmélia e Vitor assistem emocionados. Quando Andrea Bocelli começa “VivoPer Lei”, Vitor sussurra no ouvido de Amélia:- Essa também é dedicada a você... – ele canta junto um trecho, no ouvidodela:Vivo per lei perché mi daPausa e note in libertàCi fosse unaltra vita la vivoLa vivo per lei(Vivo por ela porque me daPausas e notas em liberdadeSe tivesse outra vida eu a vivoEu vivo por ela)Amélia aperta a mão dele, ainda mais emocionada.
  • 25. No intervalo entre uma música e outra, Amélia olha para Vitor, e os dois trocamum rápido e delicado beijo. Logo Bocelli canta “Nel Cuore Lei”.- Ah, essa música diz tudo... – Vitor sussurra de novo, cantando junto baixinho:E non cè niente come leiE non cè niente da capireEtutta lìLa sua grandezzaIn quella leggerezzaChe solo lei ti dà(E não há nada como elaE não há nada para entenderEstá tudo aliA sua grandezaNaquela levezaQue só ela te dá).Amélia, com uma lágrima correndo pelo rosto, deita a cabeça no ombro deVitor, e eles ficam assim o restante do show, bem juntinhos.- Ah, Vitor, foi maravilhoso! – exclama Amélia, quando chegam ao foyer doteatro.- Foi mesmo. Parecia que a gente estava em outra dimensão, né? A voz dessecara não parece desse mundo...- É... – ela sorri, com o olhar iluminado.Eles são interrompidos por uma voz:- Amélia e Vitor! Nos encontramos de novo...O casal se vira na direção da voz e vê Andrea Antonacci.- Andrea! – Amélia cumprimenta o amigo com um rápido abraço – Você estavano show também?- Claro! Acha que eu ia perder Bocelli no Scala?- Por que eu fui falar... – murmura Vitor, entredentes.- Tudo bem, Vitor? – cumprimenta o italiano.- Tudo. Estávamos comentando que o show foi incrível.- Foi mesmo – concorda Andrea, que para em silêncio por alguns instantescontemplando Amélia – Meu Deus... hoje você está especialmente linda. Comtodo o respeito, Vitor.Vitor passa o braço em torno da cintura dela:- Está mesmo – ele diz, se esforçando para não ser hostil.- Assim eu fico sem graça... – comenta Amélia, tentando amenizar o climatenso.- Não tive a intenção de constranger ninguém, me desculpem...- Tudo bem... né, Vitor? – pergunta Amélia.- Tudo – ele confirma, apertando os dentes.- Para me desculpar, convido vocês para um jantar... me acompanham?Vitor olha para Amélia e percebe que ela quer ir, mas está com receio de deixa-lo aborrecido. Então pega na mão dela:- Vamos, sim. Estamos devendo aquele jantar que ficou pendente em Florença,não é? – ele responde, tentando conter a vontade de ser irônico.- Que bom. Tem um restaurante ótimo bem aqui perto – devolve o italiano.
  • 26. Durante o jantar, Amélia e Andrea relembram várias histórias dos tempos depassarela, entre risos. Vitor sente-se deslocado, quase o tempo todo, mesmoque a esposa tente a todo o momento incluí-lo na conversa. Mas porconsideração à Amélia, ele tenta ser simpático com o italiano.Quando retornam ao quarto do hotel, Amélia fica bem diante de Vitor e olhanos olhos dele:- Obrigada... por ter tentado ser compreensivo, passado por cima da suainsegurança... O Andrea é apenas um amigo querido, que eu fiquei anos semencontrar, nada mais. Que bom que você entendeu isso.- Você está feliz, né? É isso que importa – ele afirma, acariciando os cabelosdela.Amélia sorri e beija os lábios dele, que corresponde com intensidade e depois aolha de um jeito malicioso:- Mas agora eu quero algo em troca... deixa eu tirar seu vestido?Ela devolve um olhar travesso e se vira de costas, para que Vitor abra o fechodo vestido. Ele beija a nuca de Amélia várias vezes, a fazendo arrepiar, e vaidescendo até chegar ao vestido. Conforme abre a roupa, vai beijando o corpodela. Ao terminar o fecho, faz o vestido deslizar para o chão e vira Amélia defrente para si, beijando-a com paixão. Enquanto se beijam, ela vai tirando agravata dele e desabotoando a camisa. Vitor a pega no colo e leva até a cama,onde terminam de desfazer das roupas, se entregando completamente aodesejo. Depois se amarem, dormem abraçados.Na manhã seguinte, Vitor deixa uma bandeja de café da manhã no quarto esai. Quando Amélia acorda e procura por ele, encontra um bilhete na bandeja:“Fui preparar a surpresa desta tarde. Te amo muito. Vitor.”XIAmélia suspira:- Surpresa da tarde? O que pode ser?
  • 27. Ansiosa, ela toma o café da manhã e começa a se arrumar. Escolhe umvestido com delicada estampa floral, longo e leve. Depois, penteia os cabelos,prendendo-os num rabo baixo com uma presilha de capim dourado. Faz umamaquiagem leve e coloca brincos e pulseiras também de capim dourado, daprodução da Rurbana.Vitor chega quase na hora do almoço. Amélia está sentada sobre a cama, elevanta-se rápido ao vê-lo:- Vitor!- Buongiorno, amore... – ele se aproxima calmamente e dá um beijinho nela,depois a olha de cima a baixo – Está linda... Pronta para sair?- Não sei aonde a gente vai... – ela retruca.- Acho que este vestido está ótimo para o passeio que a gente vai fazer. Assapatilhas também, o ideal é um calçado confortável.- Ai, Vitor, para de me deixar curiosa!Ele ri:- Então, andiamo...Vitor leva Amélia até o Parque Sempione. Eles passeiam por seus bosques,lagos e alamedas, até chegarem num recanto meio afastado da área central.Na grama, à sombra de uma grande árvore, há uma grande toalha xadrez compratinhos de diversos petiscos, como biscoitos salgados e doces, mini pão-de-queijo, pedacinhos de pão italiano, geleias, além de uma jarra de suco de uva euma garrafa de vinho. E de um pequeno aparelho de som sai uma bela música.Trilha sonora: Il Regalo Più Grande – Tiziano Ferrohttp://www.youtube.com/watch?v=boK3pjUMNbE&playnext=1&list=PL47166BE43431FE61Amélia fica por alguns instantes paralisada, admirando aquilo tudo.- Vitor... foi você que preparou tudo isso? – ela finalmente balbucia.- Não fiz sozinho, mas... foi ideia minha.- Eu amei – ela sorri – Um piquenique no Sempione...- É. Para encerrar em grande estilo nossa passagem pela Itália – ele completa.Vitor dispensa o rapaz que havia ficado cuidando do piquenique, e conduzAmélia para sentar num canto da toalha.- Tem até bombons, olha – ele mostra, pegando um bombom e levando até aboca de Amélia. Ela morde um pedaço, e Vitor come o restante, enquantoficam com os olhos fixos um no outro.Depois Amélia analisa os quitutes:- Nossa, nem sei por onde começar... – ela acaba se decidindo por um pedaçode pão com geleia de morango.Vitor ajeita as duas taças à sua frente e abre a garrafa de vinho. Põe umpouquinho da bebida na própria taça e experimenta:- Humm... perfeito.Só então ele serve a ambos, e passa um das taças para a mão de Amélia,dizendo:- Vamos fazer um brinde... ao nosso amor, que não precisa de cadeados,fontes, nada disso, para ser eterno.- Ao nosso amor – confirma ela, tocando a taça dele com a sua.
  • 28. Após beberem um gole do vinho, eles trocam um beijo apaixonado.Amélia pega um pão-de-queijo e leva à boca de Vitor, que retribui. O casal ficaalgum tempo assim, dividindo aquele lanche e trocando carinhos.Depois de satisfeitos, Vitor se recosta no tronco da árvore, com Amélia nosbraços dele. Ela solta um suspiro:- Tão bom ficar assim com você...- Vamos ficar assim pra sempre? Abraçadinhos, nesse lugar lindo... – ele ri,estreitando Amélia em seus braços.- Dá vontade, né? – ela sorri, se aconchegando no peito de Vitor.Eles ficam em silêncio, apenas curtindo a sensação daquele momento, até queAmélia se ergue e olha nos olhos dele:- Enquanto te esperava, no hotel, fiquei lendo um livro de poemas em italianoque comprei aquele outro dia, lembra? Teve um poema que li até decorar,porque parece que escreveram o que sinto por você: “Sei come una colombabianca che, volando nel cielo più cupo, porta la luce. Quella stessa luce che hotrovato, per la prima volta, nei tuoi occhi dello stesso colore delloceano. Riempiil mio cuore sempre.” – Ela sorri e traduz – “Você é como uma pomba brancavoando no céu escuro traz a luz. Essa mesma luz que eu encontrei, pelaprimeira vez, em seus olhos da mesma cor do oceano. Enche meu coraçãopara sempre.”.- Nossa... – ele murmura, com os olhos marejados – Você também me trouxeluz, fez de mim um homem melhor...- E você, faz de mim uma mulher feliz, plenamente feliz, como nunca fui...Ambos emocionados, eles juntam os lábios em um beijo sem pressa, como senão existisse mais nada além do amor que os une.No outro dia, partem para Amsterdã. O primeiro passeio é ao museu VanGogh, que reúne obras do pintor holandês. Ao chegarem diante do quadro “OsGirassóis”, Amélia comenta:- Como será que estão todos lá em Girassol? Que saudade dos meus filhos...Vitor a abraça por trás e responde:- Antes de voltar à vida “normal”, prometo que vamos passar uns dias emGirassol. Também estou com saudade dos meus enteadinhos... – ele ri – e da
  • 29. Terê, da Lurdinha... de todo o pessoal. Mas essa tela lembra muito a estância,né?- É mesmo. O Solano tinha até uma cópia desse quadro na sala.- Tinha, é verdade!- Mas agora vamos voltar para a Holanda? Ainda temos muita coisa para ver.Depois de Van Gogh, quero ir ao Stedelijk Museum ver Picasso, Monet,Chagall, Matisse... que acha?- Você estudou todos os guias turísticos, é? – ela ri.- Fiz a lição de casa direitinho... – Vitor também dá uma risada.Enquanto caminham pelos corredores do museu, ele comenta:- E amanhã, você se prepare... nós vamos num dos lugares mais bonitos daHolanda.XIIVitor acorda Amélia com beijinhos no rosto. Ela abre os olhos e sorri:- Oi, amor...- Hora de acordar... – ele dá um beijo nos lábios dela.- Tão cedo?- Precisamos sair cedo para aproveitar melhor o passeio.- Está bem – ela concorda, sentando na cama e se espreguiçando.Vitor contempla a cena, achando lindo o jeito de Amélia se espreguiçar. Elalevanta e escolhe um vestido branco longo de malha, com um colete de crochêpor cima, também branco. Ele se troca também, vestindo calça cinza e camisagelo. Amélia termina de se arrumar e eles descem para tomar o café-da-manhãantes de sair.
  • 30. Depois, Vitor leva Amélia aos campos de tulipas de Keukenhof. Eles andamentre os canteiros, maravilhados com as flores de diversas cores.Trilha sonora: Angel of mine – Evanescencehttp://www.youtube.com/watch?v=e7fVuAetyBQ&feature=relatedDe repente, Vitor para e fica observando Amélia, que caminha próximo àstulipas. Ela logo percebe a ausência dele ao seu lado e vira para trás:- Vitor? O que houve? – pergunta Amélia, fazendo menção de voltar para juntodele.Ele sinaliza com mão para que ela pare onde está:- Fique aí. Estava te olhando... Você, com este vestido branco, os cabelosvoando com o vento, em meio a essas flores todas... você está parecendo umanjo – ele se aproxima de Amélia, emocionado – O meu anjo...Ela sorri, ficando emocionada também. Vitor chega mais perto e toca o rostodela, acariciando levemente como se tocasse uma pétala de rosa. Ele olhapara os lábios dela e devagarinho vai aproximando os seus, num beijodelicado.Depois Vitor pega Amélia pela mão e eles continuam passeando pelos camposde tulipas, parando de vez em quando para tirar fotos. Ela posa entre as florese Vitor maneja câmera, encantado com a combinação da beleza de Amélia edas tulipas.No final da tarde, quando estão caminhando pelas ruas de Amsterdã de voltaao hotel, eles passam em frente ao Museu do Sexo. Ao ler o nome na fachada,Vitor se empolga:- Olha isso, um museu do sexo! Vamos entrar Amélia?- Ai, Vitor, não... – ela olha para baixo, encabulada.Ele dá uma gostosa risada:- Você está com vergonha? Deixa disso, vamos só ver o que tem aí dentro...- Esse é o problema. Sabe lá o que a gente vai encontrar?- Nada de mais, ora... Sexo é algo que todo mundo faz. Tá, quase todo mundo.Vamos lá, quero conhecer! – ele tenta convencê-la.- Não sei... – Amélia hesita.- Por favor... – Vitor pede de um jeito que ela não consegue recusar.Ao entrarem, se deparam com estátuas, objetos e imagens relacionados aotema sexo. Algumas peças fazem Amélia tapar os olhos, constrangida:- Que é isso, Vitor...- Ah, você não conhece? – ele retruca aos risos.- Para, seu bobo! – ela se contém para não rir também, mas mais de nervosodo que por achar engraçado.Depois de olharem mais alguns corredores, Amélia implora:- Chega, Vitor... vamos embora.- Eu achei bem divertido – ele continua rindo do jeito dela.- Pra mim é estranho ver essas coisas... – ela argumenta.- Está bem, vamos – Vitor tenta controlar as risadas.Ao chegarem no quarto, Amélia vai tomar um banho, depois Vitor faz o mesmo.Ela está sentada cama, de roupão, terminando de passar creme no corpo,
  • 31. quando ele se aproxima, recém-saído do chuveiro, com o corpo ainda úmido euma toalha enrolada na cintura.- Aquele museu me deixou inspirado... – Vitor comenta, olhando para Améliacom desejo.- Até parece que você precisa de alguma coisa para se inspirar... – ela retruca,devolvendo o olhar.- Não preciso mesmo... é só olhar para você... – ele se inclina sobre Amélia epassa os dedos no pescoço dela, descendo até o colo – sentir essa pelemacia... – ele olha nos olhos dela e depois para os lábios, com a respiração jáofegante – esses lábios...Vitor cola seus lábios aos de Amélia e vai se debruçando sobre ela, fazendo-adeitar na cama, onde se amam até, exaustos, pegarem no sono.Algumas horas depois, já tarde da noite, Vitor acorda com fome. Améliacontinua dormindo, tão tranquila que ele decide não acordá-la. Veste umaroupa simples e sai, voltando pouco tempo depois com sacolas. Améliadesperta quando ele fecha a porta, percebe que Vitor não está ao seu lado eergue um pouco o corpo, vendo-o se aproximar com as sacolas:- Vitor? Você saiu?- Fui comprar alguma coisa para a gente comer aqui na cama mesmo... Já estámuito tarde para pedir um jantar. Mas acordei com fome...- É, agora que você falou, também senti uma fominha...- Trouxe sanduíches, frutas secas, e um vinho – ele explica, se ajeitando nacama e tirando as compras da sacola.- Vinho?- Sim... é tão gostoso tomar vinho a dois... Onde estão aquelas taçaspersonalizadas que a gente comprou em Milão?- Na minha mala.Vitor pega as taças e volta para cama, servindo o vinho. Enquanto fazem olanche, ele comenta:- Amanhã, eu sugiro que você use uma daquelas suas calças de montaria.Você fica linda nelas, realça seu corpo.- Por quê? O passeio de amanhã não dá pra fazer de vestido?- Acho que não. Ainda mais com esses seus vestidos compridos... pode serperigoso.- Perigoso por quê?- Você já está querendo saber demais... espere até amanhã – ele conclui comum sorriso travesso, e antes que ela pergunte mais alguma coisa, ocupa oslábios dela com mais um beijo.XIII
  • 32. Ao saírem do hotel, no dia seguinte, Vitor sorri ao ver o céu azul e o soliluminando tudo:- O dia está perfeito!- Pra quê? – questiona Amélia, ansiosa, e vestida como ele recomendara, decalças.- Você já vai saber.Chegando ao Vondelpark, Vitor pede que Amélia espere um instante. Logovolta trazendo duas bicicletas:- Olha o que aluguei para nós...- Então é isso, nós vamos pedalar? – ela diz, sorrindo.- Você não disse uma vez que gosta de andar de bike? Não tem lugar melhorpara fazer isso do que Amsterdã.- Pois é, até de bicicleta eu fugi pra te ver... – ela ri.- Mas valeu a pena, né?- Valeu. Aquele dia... aquela noite foi tão linda e também tão horrível. Quandovi você caído no chão, ensanguentado, tive tanto medo de te perder... – lembraAmélia, franzindo a testa.Vitor acaricia o rosto dela:- Não pensa mais nisso. Eu sobrevivi.- Graças ao Dr. Gabriel...- E ao seu amor. Foi por você que eu lutei para continuar vivo.- Que bom... não sei se eu teria suportado ficar sem você, ainda mais sabendoque teria por culpa daquele... monstro.Ele olha nos olhos de Amélia:- Você nunca vai me perder, ouviu? Agora vamos esquecer tudo de ruim que agente viveu, e curtir esse dia lindo, sentir o vento no rosto... enquantoconhecemos as belezas do Vondelpark.- Vamos lá, então – ela concorda, sentando no selim e se posicionando parapartir.- Finalmente vou ver você andando de bike! – Vitor ri.- Você quer ver, é? – Amélia sai pedalando, e Vitor vai atrás.Trilha sonora: Loves Lookin Good On You – Lady Antebellumhttp://www.youtube.com/watch?v=OMsZVxnSJqAEles pedalam curtindo a visão das árvores, lagos e flores. De vez em quando,param para contemplar as obras de artes espalhadas ao longo do parque,como uma estátua de autoria de Pablo Picasso chamada em holandês de “Devis” (o peixe). Param também no coreto, que Amélia acha muito bonito e pedepara tirarem fotos nele.Seguindo o passeio, Vitor quase se desequilibra da bicicleta ao fazer umacurva. Amélia ri tanto que precisa parar para recuperar o fôlego. Vitor, que jáestava um pouco à frente, volta para junto dela:- Está rindo de mim, é?- Você quase caiu no meio do Voldenpark... desaprendeu a fazer curva, é? –ela continua rindo.- Admito, fazia bastante tempo que eu não pedalava, acho que perdi um poucoa prática. E eu prefiro percorrer outras curvas, se é que você me entende... –ele olha para Amélia de um jeito malicioso.
  • 33. - Vitor! Você não sossega nunca?- Não – ele retruca, ainda olhando para o corpo dela.- Ai... melhor voltarmos a pedalar. Vamos – ela parte novamente.Vitor a segue, mas logo diz:- Vamos descansar um pouco ali, ó – ele sugere, apontando uma árvore diantede um lindo lago.Amélia concorda com a cabeça. Eles largam as bicicletas na grama e serecostam na árvore, abraçados. Ficam em silêncio, ele acariciando os cabelosdela, até que Amélia aponta para a água:- Olha lá, os patos! Que bonitinhos...- Que é isso, parece que nunca viu pato... – ele ri do entusiasmo dela – Vocênão morava numa fazenda, não?- Chato... – ela acaba rindo também – Claro que tinha patos na fazenda, masnão bonitos, assim, nadando num lago...- É, lá eles iam pra panela... humm, agora me lembrei do pato ensopado que aLurdinha faz... quando formos pra Girassol, vou pedir pra ela fazer pra mim.Amélia apenas ri, e Vitor continua:- Por falar em comida, você não está com fome? Já passou da hora do almoço.- Estou.- Então vem, tem um restaurante aqui no parque – ele avisa, ajudando-a alevantar.Após almoçarem, eles continuam pedalando pelo parque, parando de vez emquando para descansar, até ficarem exaustos.De volta ao hotel, tomam banho e se jogam na cama.- Não consigo mais mexer minhas pernas hoje – comenta Amélia.- Nem eu. Acho que pedalamos demais – Vitor ri.Eles se olham e caem na risada juntos. Amélia se aconchega nos braços deVitor, e logo os dois estão dormindo, vencidos pelo cansaço.O casal parte para Madri. No primeiro dia, já visitam o Museo del Prado, vendode perto obras como “As Meninas”, de Velásquez, além de telas de Rafael, ElGreco, Rembrant... Ficam horas no museu, contemplando os quadros. Depois,Vitor deixa Amélia no hotel e avisa que vai sair por alguns instantes,prometendo voltar logo.- Só concordo porque meus pés estão doendo, senão ia com você – elaressalta.- Aproveita para ficar quietinha... quero você bem descansada hoje à noite.- Ah, mais surpresas?- Claro. Deixa providenciar tudo, logo estou de volta – ele dá um delicado beijonos lábios de Amélia, que fecha os olhos para repousar.Como prometido, Vitor retorna em pouco tempo, trazendo uma sacola. Améliaainda está cochilando. Ele senta na beirada da cama e fica observando o sonodela, achando lindo. Amélia abre os olhos, e sorri ao vê-lo:- Vitor... – ela senta-se na cama – Dormi muito?- Não, acho que não demorei mais do que meia hora. Acabei de chegar.- É? Conseguiu arrumar tudo que você queria?- Consegui... a começar por isto – ele entrega a sacola para Amélia.
  • 34. XIVEla tira de dentro da sacola um vestido de seda, rosa-chá, levemente plissado,longo e com decote profundo, com a cintura alta marcada por uma faixa damesma cor.- É lindo! – ela murmura, ainda contemplando o vestido.- Vamos sair para jantar mais tarde.- E você comprou esse vestido só para eu usar no jantar?- Gosto de ver ainda mais linda... como se isso fosse possível, porque você élinda de todo jeito.Amélia sorri:- Vou tomar um banho, então, e começar a me preparar.Vitor a acompanha com o olhar até que ela entre no banheiro.Depois do banho, Amélia prende os cabelos em um coque baixo, bemalinhado, faz uma maquiagem ressaltando os olhos e finalmente coloca ovestido. Vitor, que havia entrado no banheiro logo que ela saiu, voltaenxugando os cabelos com uma toalha e para ao vê-la já vestida:- Você está maravilhosa! E agora, como eu me visto para merecer acompanharuma mulher tão linda?- Deixa que eu escolho sua roupa – ela responde sorrindo.Vitor coloca terno e gravata, e eles partem para o restaurante.Logo que se acomodam numa mesa, Vitor pede um vinho, e eles fazem umbrinde, trocando olhares apaixonados.- Adorei esse lugar, com música ambiente... – comenta Amélia.- Tem espaço para dançar também, você viu?- É mesmo... – ela fica olhando para a pista de dança por alguns instantes.- Espera um pouco – ele se levanta e vai até o responsável pela aparelhagemde som, e pede uma música.
  • 35. Trilha sonora: Adoro – Alejandro Sanz e Chavela Vargashttp://www.youtube.com/watch?v=YaqkIW2qn9M&feature=player_embeddedVitor retorna até a mesa e estende a mão para Amélia:- Me concede essa dança?Ela sorri e vai com ele para a pista, onde dançam de rosto colado, se deixandolevar pelo ritmo da melodia. Vitor sussurra trechos da música no ouvido dela:“Y me muero por tenerte junto a mí, cerca,muy cerca de mí, no separarme de tiY es que eres mi existencia, mi sentir,eres mi luna, eres mi sol, eres mi noche de amorYo, yo te adoro, vida, vida mía...”Amélia escuta com os olhos fechados, como se estivesse sonhando.Quando a música termina, Vitor ainda sussurra, cantando:- Yo te adoro, vida mía...E finaliza beijando-a com cuidado, ali mesmo no meio da pista de dança. Elesse olham como se tivesse acabado de viver um momento mágico, e Améliasorri de um jeito apaixonado. Depois Vitor a conduz de volta para a mesa,puxando a cadeira para que Amélia sente-se. Dá um beijo na mão dela e sóentão toma seu lugar de novo.- Quanto eu sonhei dançar assim com você, sem precisar se preocupar comnada... – ele comenta, contemplando-a.- É mesmo? – ela pergunta com doçura.- Naqueles tempos em Girassol, cada música romântica que eu ouvia, euimaginava nós dois dançando de rosto colado, como fizemos agora.- Eu também imaginava... embora eu tivesse tantos problemas familiaresnaquela época que nem me restava muito tempo para sonhar...Vitor acaricia a mão dela sobre a mesa, e se inclina um pouco para a frente,baixando o tom de voz:- Teve uma noite que eu até chorei, sozinho no quarto. Foi quando ouvi essamúsica que acabamos de dançar... Você estava presa na fazenda, e eu ali,precisando tanto de você ao meu lado para continuar vivendo...Amélia aperta a mão dele:- Nunca mais nós vamos ficar separados, nunca...- Nunca mesmo. Eu não vou deixar você sair de perto de mim. “Eres mi luna,eres mi sol...” – Vitor cantarola novamente.Amélia olha fixamente para ele:- Te amo.- Te amo – ele retribui, beijando a mão dela outra vez – Vamos pedir agora? Jáescolheu seu prato?- Você escolhe pra mim? – ela pede de um jeito meigo.- Ah, que responsabilidade...- Confio em você – assegura Amélia.Vitor sorri e faz o pedido, com pratos iguais para os dois.Após o jantar, enquanto voltam para o hotel, Vitor comenta:- Amanhã quero te levar no Real Jardim Botânico. Você, que gosta tanto deflores, vai adorar. Tem plantas do mundo todo, cerca de 5000 mil espécies deárvores, plantas e rosas coloridas.
  • 36. - Jura? – ela pergunta, boquiaberta – Mas nós vamos conseguir ver tudo numdia?- A gente vai duas vezes, então. Tem outro lugar que precisamos visitar, oCentro de Arte Reina Sofia. É lá que está a famosa “Guernica”, de Picasso. Eujá estive lá, e acho que fiquei uma meia hora só diante dessa tela, examinandocada detalhe, quase hipnotizado.- Ah, quero ver também! Quando eu vinha para a Europa, ficava mais entre aFrança e a Itália, quase não conheço nada da Espanha.- Já comigo era o contrário. Pouco conhecia da Itália, mas de Madri eBarcelona, modéstia à parte, eu entendo. Quase namorei uma espanhola,sabia?- Como assim? – Amélia questiona sem perder o sorriso.- Ih, faz muito tempo isso, acho que foi na primeira vez que vim pra cá, nãotinha nem 20 anos ainda. Me apaixonei perdidamente por uma moça, aqui deMadri, inclusive. Mas ficamos juntos uma vez só, e já tive que voltar para oBrasil. Até trocamos telefones, mas acabamos perdendo totalmente o contato,nunca mais soube dela.- Ah... coisa do passado, então?- É, passado remoto. Meu presente agora é levar a mulher da minha vida aoslugares mais bonitos dessa cidade que eu adoro.Eles trocam um rápido beijo e continuam o caminho, abraçados.Amélia e Vitor passam os dias seguintes nesses passeios. No terceiro dia, elesestão chegando de volta ao hotel quando são abordados por uma bela moçade longos cabelos castanho-escuros.- Vitor e Amélia Vilar?XVOs dois se viram para a moça:- Sim?- São vocês mesmos? O casal da Rurbana?- Em carne e osso – brinca Vitor.
  • 37. - Eu vi vocês no catálogo... Amélia, suas peças são maravilhosas! Mas até hojesó pude comprar essas pulseiras – a espanhola ergue o braço, mostrando trêspulseiras de capim dourado.- Obrigada. Logo nós vamos lançar uma nova coleção – agradece Amélia.A moça olha fixamente para Vitor, e fica por alguns instantes parecendohipnotizada. Finalmente, diz, ainda paralisada:- Você é ainda mais bonito ao vivo do que nas fotos...Vitor baixa os olhos, constrangido. Amélia o abraça e olha com firmeza para amoça, esforçando-se para não ser hostil:- É, eu também acho.A espanhola se dá conta da gafe:- Ah, desculpa! Não queria causar nenhum constrangimento... é melhor eu irembora. Adorei conhecer vocês pessoalmente – ela dá um sorriso amarelo ese afasta.Amélia a acompanha com um olhar nada amigável até que a moça suma davista deles. Ao seu lado, Vitor aperta os lábios para não rir.Eles entram no hotel, e pegam o elevador, apenas os dois. Amélia ainda estácom cara de raiva, e Vitor não se contém mais, cai na risada, quase chora detanto rir.- Qual é a graça? – pergunta Amélia, ainda zangada.- Você está tão bonitinha, assim, com ciúme... – ele brinca, entre risos.- Aquela zinha estava te devorando com os olhos! – ela exclama, impaciente.- E daí? Ela não vai pôr mais do que os olhos em mim...Amélia se desarma:- É verdade, desculpa... sou uma boba, né?- A coitada ficou com medo do seu olhar fuzilante... – comenta Vitor, ainda sedivertindo com a situação.Ela retruca com altivez:- Era para ficar mesmo... assim ela aprende a respeitar o meu homem.Ele muda de expressão, fica com a respiração quase suspensa:- Como, Amélia? O que eu sou? Repete pra mim...- O meu homem... só meu.Vitor puxa Amélia para os braços dele quase bruscamente e a beija com ardor.- Assim você me deixa louco... – murmura no ouvido dela, voltando em seguidaa beijar-lhe os lábios cada vez com mais intensidade, ao mesmo tempo em queas mãos percorrem o corpo dela como se quisessem tirar-lhe a roupa alimesmo.Amélia tenta reagir, mas não consegue, o desejo toma conta dela também.Trilha sonora: Fuego en el fuego – Eros Ramazzotihttp://www.youtube.com/watch?v=V9zb5G5sidcO elevador para no andar deles, que continuam aos beijos quando a portaabre. Eles saem para o corredor sem se soltar.- Calma, Vitor! – ela sussurra, tentando afastá-lo até chegarem ao quarto.Ofegante, ele a pega nos braços e anda o mais rápido possível para o quarto.Mal tranca a porta e já a coloca no chão, tirando-lhe a blusa com pressa, edescendo com beijos pelo colo, enquanto empurra-a até a cama. Améliatambém vai abrindo a camisa de Vitor, que termina de tirá-la sem abrir todos osbotões. Eles vão deitando na cama de qualquer jeito, tomados por um desejo
  • 38. mais forte do nunca. E se amam intensamente, com urgência, como setivessem ficado muito tempo longe do corpo um do outro e não soubessemquando estariam juntos de novo.Quando despertam do sono depois do amor, Vitor contempla Amélia ali ao seulado e pede:- Diz de novo?- O quê? – ela se faz de desentendida, com um olhar travesso.- Você sabe... - ele retruca – Me chama do que você me chamou antes, vai...Amélia olha para ele como se estivesse pensando se ele merecia ou não, aindacom um jeito travesso. Morde o lábio e enfim, diz:- Meu homem...- Amélia... – ele murmura, trazendo para o mais perto possível de si e abeijando com paixão. Depois, olha nos olhos dela – Sou seu, sim... todo seu.Ela sorri, e ele continua, perguntando com ar de quem já sabe a resposta:- E você, é minha?- Você tem alguma dúvida?- Não... – ele afirma, juntando seus lábios aos dela novamente.Eles se deixam ficar na cama por mais algum tempo, trocando beijos e carícias,de um jeito mais ameno do que no início.Mais tarde, ainda na cama, eles conversam.- Aonde vamos amanhã? Ainda temos mais um dia em Madri, né? – perguntaAmélia.- Estava pensando em te levar no Parque de El Retiro. É o maior parque deMadri. A gente pode alugar um barco e passear pelo lago que tem lá...- Barco? Desde que você não queira conduzi-lo... – ela ri.- Ah, só porque eu deixei cair o remo da gôndola em Veneza? Mas uma coisadessa não acontece duas vezes... – ele tenta argumentar.- Melhor não arriscar – ela continua rindo.- Está bem, você venceu. Sem barco, então. Se bem que, eu até preferia teralguém remando por mim, assim eu posso concentrar toda a minha atençãoem você!- Devia ter pensado assim em Veneza... – ela provoca.- Tá, eu sei que fui culpado, que deixei a gente à deriva no meio do canal... nãoprecisa ficar me lembrando de disso – Vitor reage, um pouco chateado.- Estou brincando, amor... – Amélia se justifica, mas Vitor continua sério,parecendo incomodado. Então ela começa a dar beijinho pelo rosto dele, atéque ele sorri e junta seus lábios aos dela.XVI
  • 39. Depois de passearem boa parte do dia pelo Parque de el Retiro, eles voltam aohotel para arrumarem as malas, pois partem no final da tarde. Enquantoconferem se nada ficou esquecido no quarto do hotel, Vitor comenta:- Que pena que já estamos indo embora. Se a gente ficasse mais uns dias,podia ver as touradas na Plaza de Las Ventas, que começam amanhã.Amélia olha para ele, surpresa:- Não acredito que você gosta de touradas... não tem pena dos touros?- Amélia, eu sou dono de frigorífico... Se eu tivesse pena de boi, já tinhamudado de ramo, não acha? – ele retruca com calma.- É mesmo... mas é diferente, você não maltrata os bois por esporte.- Entendo. Também não gosto daquelas touradas em que espetam o touro portodo lado, o fazem sangrar... bonito é ver o toureiro manejando a capavermelha, fazendo quase uma dança com o touro – Vitor explica com o olharmeio distante, de quem está relembrando cenas já vistas.- Acho que eu nunca vou compreender o prazer que algumas pessoas têm comesse tipo de espetáculo, desculpa – devolve Amélia, sem saber mais o quedizer.- Tudo bem, amor... – Vitor a abraça – É a sua forma de pensar, eu respeito.Além do mais, não vamos ver touradas mesmo... Barcelona nos espera.Trilha sonora: Por amarte – Enrique Iglesiashttp://www.youtube.com/watch?v=Sgs5_4clCpQ&feature=player_embeddedEles chegam a Barcelona à noite, e ficam descansando no hotel. No diaseguinte, logo cedo, Vitor leva Amélia para o porto da cidade.- É por aqui que você vai começar a conhecer Barcelona. Vamos subir na torrede Cristovão Colombo, tem um mirante lá em cima – ele explica.Quando alcançam o mirante, Vitor abraça Amélia por trás e diz:- Olha... daqui a gente tem um vista panorâmica do centro da cidade. Bem-vinda a Barcelona, meu amor...- É linda...Eles ficam algum tempo olhando a vista da cidade, abraçados. Depois vãodescendo as escadas lentamente, enquanto Vitor avisa:- Saindo daqui, nós vamos subir o monte Montjuic. Lembra da Olimpíada de92?- Lembro, sim.- O Montjuic foi a sede do Parque Olímpico. Lá também fica o Museu de Miró,você quer conhecer?Amélia para na escada e contém Vitor, passando os braços em torno dopescoço dele:- Quero conhecer tudo que você quiser me mostrar.- Ah, é? Tudo mesmo? – ele devolve com um sorriso malicioso.- Tudo – ela garante, aproximando seus lábios dos dele.Eles trocam um beijo apaixonado ali mesmo, no meio da escada. Sãointerrompidos por um grupo de turistas que tenta subir ao mirante. Amélia eVitor dão passagem e descem os degraus restantes aos risos, como um casaladolescente flagrado num beijo escondido.
  • 40. No dia seguinte, eles passam algumas horas no Museu Picasso, admirando asobras do grande pintor espanhol, dispostas em ordem cronológicas. Depoisalmoçam num dos restaurantes do Parc Guell e saem a caminhar pelo parque,que, como fica no alto de uma colina, proporciona uma bela vista da cidade.Vitor avista um banco e convida Amélia para sentarem um pouco. Após seacomodarem no banco, ela olha em volta:- Quem lugar bonito, né? Esses jardins...- É, a gente pode vir pra cá um dia fazer um catálogo da Rurbana. Embora euache que se a gente decidir mesmo fazer as fotos em Barcelona, o Parc de laCiutadella pode ser um cenário ainda melhor. Diante da Fonte da Cascata!Vamos para o Ciutadella amanhã?- Vamos. Fiquei curiosa para conhecer essa fonte...Vitor fica pensativo por alguns instantes, olhando para Amélia:- Sabe o que lembrei agora? Daquele dia em que você e as meninasfotografaram para o primeiro catálogo. Fiquei te olhando de longe... doido parachegar mais perto.- Mas tinha um cão de guarda me vigiando... – ela recorda, com o olhar meiosombrio.- Não ia ter cão de guarda que me impedisse de ao menos te olhar naquele dia.Você estava tão linda! Tão linda... que naquela noite até sonhei que vocêchegou no meu quarto da estalagem vestida com a mesma roupa do ensaio, amaquiagem, o cabelo... Mas no sonho não era um aplique, eu desfiz o seupenteado e admirei os cabelos caindo por seus ombros, mergulhei no meiodeles para beijar sua nuca...- Nossa... – murmura Amélia – Sabe que também sonhei com você naquelanoite? No sonho, só havia nós dois, eu posando e você me fotografando. Acada clique você chegava mais perto, até dar um close nos meus lábios...Vitor a corta:- E aí larguei a câmera e te beijei, não foi?- Como você sabe? – ela ri.- Se você estivesse na minha frente, tão perto, eu não ia ficar só tefotografando, com certeza! – ele também ri.Ainda rindo, eles trocam um beijo.Mais tarde, os dois estão andando em direção à saída do parque quando umamoça que vem na direção contrária exclama:- Vitor?!O casal para, e Vitor olha para a moça, intrigado:- Desculpa, eu...- Você não está me reconhecendo? – ela interrompe, achando graça.Ele analisa atentamente o rosto dela, de traços fortes, adornado por cabeloscastanhos muito lisos, na altura dos ombros. De repente, fica surpreso:- Penélope? É você?- Estou tão diferente assim?- Muito. Eu lembrava de uma menina com cabelos pela cintura, rosto deboneca...Amélia escuta a tudo com a respiração quase suspensa.- É, meus cabelos estão bem mais curtos – responde Penélope, rindo.- Você está muito bonita – ele devolve com educação.- Obrigada. Já você não mudou tanto, continua com o mesmo rostinho de anjo.
  • 41. - Ah, mudei sim, mais do que parece. Deixa eu te apresentar... – ele seguraAmélia pela cintura – essa é Amélia, minha esposa.- Prazer, Penélope – a moça cumprimenta Amélia.- Lembra que te contei que quase namorei uma espanhola? Foi a Penélope.- Ah... – murmura Amélia, discretamente analisando a moça.XVIIVitor continua se explicando:- Você viu, nem a reconheci de cara...- É, percebi – responde Amélia, ainda meio desconfiada, mas tentando sersimpática. Ela se dirige à moça – Você está morando aqui em Barcelona?- Sim, me mudei faz alguns anos. E vocês, passeando?- Estamos viajando pela Europa em lua-de-mel, não é, Vitor? – ela olha para omarido.- Isso mesmo – ele devolve meio sem graça, percebendo que Amélia estavacom um pouco de ciúme de Penélope.- Achei que vocês tinham vindo divulgar as peças da Rurbana. Elas fazem omaior sucesso aqui na Espanha, sabiam?Vitor sorri:- Está vendo, Amélia... não disse que a gente ia ganhar a Europa? Não é porser minha esposa, não, mas você a melhor designer de joias do mundo!- Ai, Vitor, não exagera... – ela retruca meio encabulada.- Se posso dar a minha opinião, acho suas peças lindíssimas, Amélia –comenta Penélope, mostrando o brinco que está usando, da Rurbana – Usomuito esse brinco, sabia?- É mesmo? Obrigada... – Amélia fica ao mesmo tempo feliz pelo elogio e semgraça por ter sido quase hostil com a moça.Vitor fica olhando para a ex-namorada por alguns instantes, ainda surpreso portê-la encontrado:- Penélope... há quanto tempo, né?- É, Vitor Vilar... faz anos que a gente perdeu o contato, aliás, que você não meligou mais – ela acusa em tom de brincadeira.- Quando voltei para o Brasil tive que assumir o frigorífico do meu pai, e daí emdiante minha vida foi só trabalho... – ele olha para a esposa - até conhecer aAmélia.Enquanto o casal troca um olhar apaixonado, Penélope os observa comadmiração. Depois ela convida:- Vamos tomar um café e conversar mais um pouco? Tem um café muito bomaqui pertinho.- Vamos, sim! – Vitor se empolga – Quero saber mais de você, o que tem feitoesses anos todos...- Então me acompanhem – Penélope sorri.Amélia segue Vitor, pensativa. Por mais que soubesse que não havia motivopara ciúme, sentia-se incomodada.No café, Vitor e Penélope recordam do curto namoro:- Lembra, Vitor, que nos conhecemos numa tourada?- Claro que eu lembro... vi você toda concentrada olhando os movimentos dotoureiro, e não tirei mais os olhos de cima de você, esqueci completamente daarena.
  • 42. - Depois você tentou saber de mim através dos amigos que tinha feito emMadrid, não foi?- Eu quase subornei o Diego para que ele te levasse ao Real Jardim Botanico –Vitor dá uma risada.- Aquele que nós visitamos? – Amélia, sentindo-se deixada de lado, tentaentrar na conversa.- Aquele mesmo. Nós passeamos bastante por lá, sabia, Penélope? Achei oJardim ainda mais bonito do que eu lembrava.- Imagino. Mas quando passamos uma tarde lá acho que você nem reparoumuito nas flores... – a moça ri.- O Jardim eu tinha certeza que veria de novo. Já você... – retruca Vitor, rindotambém.- Mas foi tudo como tinha de ser, não acha? Tínhamos que viver aquelemomento, apenas aquele – pondera Penélope – É uma lembrança bonita quecarrego da minha adolescência.- Eu também. Sempre lembrei com muito carinho de você. Se tivéssemosinsistido numa relação à distância, poderíamos ter nos machucado, deixadomarcas não tão boas um no outro – ele concorda.- É... espero que você seja muito feliz com a Amélia. Vocês formam um casalmuito bonito – afirma a moça.Vitor olha para a esposa enquanto responde:- Eu já sou imensamente feliz, muito mais do que imaginei que pudesse ser.Amélia sorri para ele, lisonjeada.Penélope observa, achando lindo, e comenta:- Nossa, Amélia, não é qualquer homem que faz uma declaração dessas...- É, eu sou uma mulher de sorte – devolve Amélia, sem tirar os olhos de Vitor.- Bom, está na minha hora – avisa a moça – Felicidades pra vocês. Foi bom tever, Vitor.- Também gostei de te encontrar, Penélope – ele retribui.Trilha sonora: La Unica - Juaneshttp://www.youtube.com/watch?v=8_sUuOx6MJUDepois que a moça vai embora, Vitor acerta a conta e sai do café com Améliatambém.Eles caminham pela rua, abraçados, enquanto Vitor vai falando dos locais poronde passam. Amélia apenas escuta. Ele para e fica de frente para ela.- O que você tem, Amélia? Está tão calada...- Ah, Vitor, eu sei que é bobagem minha, mas... você ficou tão feliz em reveressa sua antiga namorada que eu cheguei a pensar que você tivesse sesentido balançado por ela – Amélia confessa meio constrangida, sem conseguirolhar para ele direito.- Não acredito que você pensou nisso, meu amor... – ele diz com ternura, elevanta o rosto dela – Olha pra mim... É você que eu amo e que vou amar peloresto da minha vida.- Eu sei, me desculpa. Você me perdoa?- Perdoo, sim... mas quero um beijo.- Aqui, no meio da rua?- Aqui mesmo... vem cá – ele a puxa para seus braços, segura em sua nuca ea beija com paixão, depois desce os braços para a cintura dela, e ergue Amélia
  • 43. do chão, rodopiando com ela, que ri, feliz. Quando a coloca no chão de novo,Vitor a beija novamente e depois diz:- Sabia que a cada dia te amo mais?- É? Eu também – ela responde olhando nos olhos dele.- Então vem, chega de passeio por hoje. Vamos logo pro hotel – ele a puxapela mão, fazendo Amélia correr com ele pela rua.XVIIIEles chegam ao hotel aos risos, e ofegantes. Ao entrarem no quarto, Améliatranca a porta, e Vitor fica logo atrás dela. Quando ela se vira, ele coloca asduas mãos espalmadas sobre a porta, não deixando Amélia sair dali:- Você está presa – ele ri.- Ah, meu Deus... e agora, o que você vai fazer comigo? – ela responde,entrando na brincadeira.- Deixa ver... – Vitor chega mais perto, juntando seu corpo ao dela,pressionando-a contra a porta. Depois roça a barba no pescoço dela, fazendoAmélia arrepiar. Chega seus lábios perto dos dela, mas quando Amélia tentabeijá-lo, ele se afasta e sorri de um jeito malicioso – Não... ainda não- Ah... – ela reclama, devolvendo o olhar.Vitor se aproxima de novo dos lábios dela, mas em vez de beijá-la desce parao pescoço, que vai percorrendo com suaves beijos. Desce mais um pouco pelocolo, depois vai subindo pelo outro lado do pescoço, até chegar perto doslábios. Afasta o rosto outra vez e contempla Amélia, sorrindo ao ver os olhosdela brilhando de desejo. Só então toca os lábios dela com os seus, primeirode leve, depois ambos se entregam a um beijo intenso. Vitor vai recuando,
  • 44. trazendo Amélia junto, sem parar de beijá-la, até caírem sobre a cama. Sempressa, vão tirando as roupas um do outro, sem pensar em mais nada alémdaquela vontade de terem seus corpos cada vez mais juntos.No dia seguinte, Amélia acorda com o barulho de uma leve batida na porta.Quando ela se ergue na cama, Vitor já está indo atender. Ele volta carregandouma bandeja de café da manhã, que coloca diante de Amélia:- Pedi para trazerem para nós – explica.- Humm, estou cheia de fome – ela comenta, analisando a bandeja.- Então vamos aproveitar – ele diz, colocando um pouco de mel num pedacinhode pão e levando até a boca de Amélia.Enquanto saboreiam o café da manhã, Vitor comenta:- Não visitamos ainda a igreja da Sagrada Família, que é a atração turísticamais popular de Barcelona. Esta catedral está sendo construída há mais de100 anos, sabia?- Sério?- Sim, e ela é uma das obras que Gaudi deixou pela cidade. Você vai ver ariqueza de detalhes dela, vai ficar impressionada.- Fiquei curiosa – responde Amélia, servindo-se de mais café com leite.- Combinado, então: primeira parada, Sagrada Família. Depois vamos para oParc de la Ciutadella, namorar diante da cascata...- Você quer namorar mais? Não vai enjoar de mim desse jeito? – ela brinca.- Enjoar de você? Não, meu amor... sabe que quanto mais eu te beijo, mais eugosto dos seus lábios? – ele devolve, aproximando seu rosto do dela.- Gosta mesmo? Tanto quanto eu gosto dos seus? – ela rebate, olhando paraos lábios dele.- Tanto ou até mais... – ele finaliza, beijando Amélia com paixão.No dia seguinte, quase no final da tarde, eles estão andando pelas Ramblas,famosas avenidas cheias de lojas, bares, restaurantes e cafés, comprandolembranças para os amigos de Girassol, quando Vitor olha a hora no celular eavisa:- Precisamos ir, amor, senão não chegamos a tempo no aeroporto.- As malas já estão prontas, é só passar no hotel e fechar a conta.- Então vamos logo.Ao saírem do hotel, pegam um pequeno engarrafamento no caminho, mas otaxista os tranquiliza, garantindo que chegarão à tempo.Quase em cima da hora, eles correm para fazer o check-in. Quando aatendente olha as passagens, acha estranho:- Mas o voo de vocês acabou de sair.- Como assim? Vamos pegar o voo das 18 horas – contesta Vitor.- Não, o voo era às 17h, olhem aqui – a moça aponta para o campo do horáriona passagem.- Não acredito que me enganei no horário – suspira Vitor, levando a mão àtesta.- E agora? – questiona Amélia, preocupada.- Vamos comprar outra passagem. Pode me esperar ali com as malas, Amélia– ele aponta para as cadeiras logo adiante – Eu fiz a confusão, eu resolvo –afirma, irritado consigo mesmo.
  • 45. Vitor volta logo depois e senta-se ao lado de Amélia, com cara de quem temnotícias não muito boas.- Só consegui passagem para amanhã cedo – ele revela.- Mas nós já fechamos a conta no hotel... vamos ter que passar a noite aqui noaeroporto?- Que jeito... – ele fica pensativo – Que acha de deixarmos as malas numguarda-volumes e sairmos caminhando pela cidade?- Melhor do que ficar aqui, parados... – ela devolve.- Vamos fazer um belo passeio noturno, você vai ver – ele tenta animá-la.Depois de andarem mais de uma hora pelas ruas do centro, contemplando osprédios iluminados, Amélia se queixa:- Estou cansada, vamos sentar em algum lugar?- Vamos... Nós temos bastante tempo ainda. A gente pode até o Ciutadella,que acha?- À noite?- Sim! Vamos, vou comprar um vinho, a gente escolhe um cantinhoaconchegante no parque e fica lá passando o tempo...Trilha sonora: Experiencia Religiosa – Enrique Iglesiashttp://www.youtube.com/watch?v=3DV57Y4tEAM&feature=player_embeddedChegando ao parque, eles sentam na grama, próximos a uma árvore.Intercalam goles de vinho com beijos. Vitor acaricia o rosto de Amélia, já meioquente por causa do vinho. Com cuidado, a faz deitar sobre a grama, e vaipercorrendo o rosto dela com suaves beijos, descendo até o pescoço. Depoisele sobe até os lábios novamente, num beijo carinhoso que Améliacorresponde igualmente, enroscando os dedos nos cachos do cabelo dele.Eles se aconchegam num abraço bem apertado, e ficam algum tempo assim,apenas sentindo o calor um do outro. Aos poucos vão roçando os rostos, até oslábios se encontrarem de novo, num beijo demorado, como se o tempo já nãoexistisse mais. Entorpecidos pelo cansaço e pelo vinho, eles acabamadormecendo ali mesmo, abraçados.XIX
  • 46. Amélia acorda com os raios de sol, ainda tênues, tocando seu rosto. Ela erguea cabeça e olha em volta, tentando entender onde está e lembra-se do vooperdido, a decisão de ir para o parque, o vinho...- Que loucura... – murmura, rindo sozinha.Com cuidado, ela toca no rosto de Vitor, chamando:- Amor, acorda... já amanheceu.- Hã? O que foi? – ele pergunta, ainda sem despertar direito, e esfrega osolhos.- Nós estamos deitados no meio do Ciutadella, e precisamos ir para oaeroporto – ela explica com calma, ainda achando graça da situação.- Nós dormimos aqui? – Vitor ri, e Amélia confirma com a cabeça. Ele continua– Sabe que foi bem gostoso?- Foi... eu nunca imaginei que fosse fazer isso – ela sorri – Mas não está nahora de voltarmos para o aeroporto?- Está! – ele levanta rápido, ajudando-a a se levantar também – Quase que agente dorme demais e perde o voo de novo.- Nem brinca... – ela retruca, enquanto saem depressa para procurar um táxi.Check-in feito, eles aguardam na sala de embarque. Amélia olha nos olhos deVitor:- Essa foi a melhor viagem da minha vida. Você conseguiu, foi um sonhomesmo. Pena que chegou a hora de acordar, né?- É... quem sabe a gente sonha mais um pouco? – ele devolve, com olhar dequem está aprontando algo.- Eu adoraria, mas já vão anunciar nosso voo.Mal Amélia termina de falar, eles ouvem a chamada para o voo Barcelona –Salvador.- Acabaram de anunciar – Vitor ri e se levanta, estendendo a mão para ela –Vamos?- Como assim, Vitor? Chamaram o voo para Salvador!- Sim, é nesse mesmo que nós vamos. Já que nós perdemos o voo para casa,resolvi esticar nossa lua-de-mel...- Você é louco... – Amélia ri – Como me leva assim, de susto, para Salvador?- Vai dizer que não gosta das minhas loucuras? – ele retruca, com um sorrisotravesso.- Adoro... – ela devolve beijando os lábios dele rapidamente.Trilha sonora: O que é o amor? – Maria Ritahttp://www.youtube.com/watch?v=eQXl5cANEZsAo chegarem a Salvador, eles vão direto procurar um hotel para se hospedar.Logo encontram, e depois de tudo acertado sobem ao quarto para guardar asmalas.- Que calor... – comenta Amélia, rindo – E ainda devemos ter grama doCiutadella nas nossas roupas. Preciso urgente de um banho.- Eu também. Que tal se... você ajudar a esfregar minhas costas e eu ajudar aesfregar as suas? – Vitor sugere com ar malicioso.- Hum, deixa eu pensar... – Amélia faz charme – Será que você merece dividiro chuveiro comigo? – ela sorri com um ar maroto – Merece.- Oba! – ele comemora, já empurrando Amélia para o banheiro.
  • 47. Após um banho demorado, em que trocam muitos carinhos embaixo dochuveiro, ele veste apenas uma bermuda, senta na beirada da cama e ficaolhando Amélia se arrumar. Depois de pentear os cabelos molhados, elaescolhe um vestido fresquinho, logo acima do joelho. Já vestida, Amélia paradiante de Vitor, perguntando:- Que acha?- Linda! Essas pernas... – ele responde, olhando para as pernas dela de umjeito devorador e estende a mão – Vem aqui.Amélia dá a mão para Vitor, que a puxa, fazendo-a sentar no colo dele. Eletoca num dos tornozelos dela, e desliza sua mão até a coxa, depois faz omesmo na outra perna. Amélia fica com a respiração alterada e olha para Vitorcom desejo. Ele retribui o olhar, e ela desce os olhos para o peitoral dele.Amélia percorre com os dedos os músculos do peito dele, depois repete otrajeto com suaves beijos, até que Vitor não consegue mais resistir, levanta acabeça dela e a beija com bastante intensidade. Em instantes o vestido e abermuda já estão caídos no chão.Depois do amor, Amélia fica aconchegada nos braços de Vitor, passando aspontas dos dedos pelo peitoral dele.- Agora estamos suados de novo... vamos precisar de outro banho – elecomenta, fingindo inocência.- Mas agora eu vou tomar banho sozinha, depois você vai. Se não, não vamosconseguir sair desse quarto hoje – ela ri, já se levantando.Ele senta na cama:- Então a gente não sai, fica aqui, na cama, o resto dia... hein? – sugere,malicioso, levantando as sobrancelhas.- Você não quis me trazer para Salvador? Agora quero conhecer a cidade – elaretruca, entrando no banheiro – E estou com fome!- Está bem, eu me rendo – devolve Vitor, resignado.Eles vão para o Pelourinho, almoçam num restaurante de lá e depois passeiampelas ruas, passando diante das igrejas históricas e das casas coloridas.- Acho encantadores esses sobrados, cada um de uma cor... dá uma vida aesse local, né? – comenta Amélia.- É verdade – concorda Vitor.Andando mais um pouco, eles encontram uma roda de capoeira e Vitor ficaempolgado:- Vem, Amélia, vamos olhar o pessoal jogando! – ele chama, puxando-a paramais perto da roda.Amélia fica observando em silêncio por alguns instantes, até que diz:- Nossa, é tão bonito de ver...- É mesmo... sabia que eu jogava capoeira quando era moleque? – conta Vitor,com um sorriso travesso.- Você tá brincando, né? – duvida Amélia.- Hã, não acredita? Olha só – ele faz o gingado da capoeira e de repente passaa perna por cima da cabeça dela, que ri.Alguém da roda vê a cena e chama Vitor para o meio. Ele olha para Amélia:- Será que eu vou? – estufa o peito – Eu vou.
  • 48. XXVitor se dirige ao meio da roda, começa a gingar junto com o desafiante eavisa:- Começa de leve que eu estou destreinado...O outro balança a cabeça afirmativamente e eles começam a jogar. Depois dealguns movimentos bem executados, Vitor levanta a perna bem no alto e acabase desequilibrando. Cai sentado no chão, provocando risos de toda a roda.Amélia corre até ele, se segurando para não rir também:- Amor, você está bem?- Estou, foi só um tombinho de nada – ele se levanta, limpa um pouco abermuda e se dirige ao desafiante – Vamos continuar?- Não, Vitor, por favor... chega – implora Amélia.- Só mais um pouquinho, Amélia... Senão eu vou sair desmoralizado, poxa!Amélia se afasta, resignada, e Vitor joga mais um pouco, sem errar mais, e saide cabeça erguida.- Viu, eu disse que sabia jogar... – comenta Vitor, enquanto ele e Amélia seafastam da roda.- Ahã, eu vi... – ela devolve, querendo rir.Ele percebe o leve tom de deboche na resposta de Amélia e retruca:- Aquele tombinho foi um acidente de percurso. Calculei mal o movimento, sóisso. Mas pra quem não jogava há anos, eu mandei muito bem, admite...- Mandou... mandou... Ah, Vitor, na hora levei um susto, achei que você tinhase machucado... mas agora, lembrando-se da cena... – ela não consegue seconter mais e cai na risada.Vitor a encara com um olhar de leve censura, mas ao mesmo tempo debrincadeira:- Amélia... quando eu te conheci você não era assim, tão risonha. Agora dequalquer coisa você ri, inclusive da minha cara.- Culpa sua. Faz de mim uma mulher tão feliz que eu tenho vontade de rir otempo todo.- Ah, se saiu bem... espertinha – ele a enlaça pela cintura – Minha espertinha...Você fica linda quando está rindo, sabia?Ela dá um grande sorriso.- E sorrindo assim, então... eu não resisto! – completa Vitor, puxando-a paramais perto e a beijando apaixonadamente.Trilha sonora: Alegre – Jorge Vercilohttp://www.youtube.com/watch?v=pH9CXpatDQM
  • 49. O casal continua andando pelo Pelourinho, até que encontra uma baiana doacarajé. Vitor olha para Amélia:- E então? Vamos experimentar o famoso acarajé?- Vamos.Eles se aproximam e pedem os acarajés.- Completos? – questiona a baiana.- Acho que sim, né, Vitor? – agora é Amélia quem olha para ele, que confirmacom a cabeça.Logo a moça entrega os quitutes. Vitor fica olhando enquanto Amélia morde oacarajé. Imediatamente ela começa a abanar a boca e pedir, desesperada:- Água, água!A baiana rapidamente alcança uma garrafinha de água mineral para Amélia.Vitor aperta os lábios tentando segurar os risos, mas não consegue se conter epõe a mão na frente da boca para disfarçar. Um pouco mais calma, mas aindabebendo água, Amélia percebe que Vitor não para de rir.- Está achando engraçado, é? Prova seu acarajé, então – ela desafia.- Só você que pode rir? Agora é minha vez – ele ainda se diverte.A baiana interfere:- Moça, desculpa se botei pimenta demais. Eu troco seu acarajé, lhe dou umsem pimenta.- Ah, obrigada – Amélia sorri, devolvendo o quitute.- Pode trocar o meu também? – pede Vitor.- Vai fugir, espertinho? Está com medo da pimenta? – provoca Amélia.- Medo? Você vai ver – sem querer dar o braço a torcer, ele prova o acarajé.Mal sente o gosto, já arregala os olhos, fazendo caretas, tenta se manter forte,mas não aguenta – Passa essa água pra cá!- Agora sim, pode trocar o acarajé dele, moça – avisa Amélia, rindo, enquantoVitor esvazia a garrafinha de água e pede mais uma.Os dois se olham e não conseguem parar de rir até que a baiana entrega osacarajés sem pimenta. Eles agradecem e saem caminhando enquanto comem.- Mais uma para a nossa história... – brinca Vitor, quando terminam de comer.- No final das contas foi engraçado... mas parecia que minha boca estavapegando fogo – Amélia ainda ri.- Precisamos vir pra cá mais vezes, assim a gente acostuma com o temperobaiano – ele sugere.- Ah, estou adorando passear aqui, mas... não tem comida como a da Lurdinha.- É, não tem mesmo. A da Terê também!- No começo você não gostava das refeições da estalagem... – lembra Amélia.- Verdade. Mas nada como passar dias tendo que procurar comida na matapara dar valor aos pratos mais simples. Nossa, quando eu consegui voltar, tudoque a Terê servia parecia a melhor comida do mundo. Acho que antes eu nemsentia o sabor das coisas direito. Aliás, não só dos alimentos... eu não sentia osabor da vida.- Por mais estranho que seja dizer isso, o acidente fez bem a você... Você setornou uma pessoa melhor.- Isso mesmo. Mas não foi só por causa do acidente. Acho que eu também quisme tornar um homem melhor para merecer você.Amélia para e fica olhando para Vitor, sem palavras. Ele se aproxima e toca norosto dela com carinho. Os lábios naturalmente se encontram em mais umbeijo.
  • 50. Na manhã seguinte, logo que acordam, Vitor pergunta:- Amor, você trouxe biquíni na mala?- Não, porque achei que a gente ia só para a Europa.- Hum, então vamos passar em alguma loja e comprar um. Quero conhecer aspraias de Salvador.- Está bem. Então vamos nos apressar, para aproveitar bem o dia – elaresponde, já se levantando.- Vai ser até bom você comprar um biquíni novo, junto comigo. Assim, quemsabe te convenço a comprar um menorzinho, porque seus biquínis são muitograndes, Amélia.- Vitor! Não sou mais uma menininha pra usar biquíni pequeno. Aliás, eu nãogostava nem quando era mocinha – Amélia retruca, quase chocada com asugestão dele.- Estava brincando... – Vitor ri – Não quero mesmo que você fique expondomuito o corpo, não quero outros homens de olho grande pra cima de você...não mesmo. Ih, já estou até me arrependendo dessa ideia de praia.- Agora que você me entusiasmou? Tarde demais. Nós vamos à praia. Sai logodessa cama e vai se arrumar! – ela devolve, atirando nele uma almofada queestava na poltrona.XXINa loja, Amélia escolhe alguns biquínis e vai para o provador. Vitor fica junto àporta, e pergunta:- Posso ver?- Não! Espera, me deixa escolher sossegada – ela responde.- Ah... – ele resmunga de um jeito manhoso.- Não adianta fazer manha – Amélia ri.Após alguns minutos, ela sai do provador vestida como entrou, carregando osbiquínis:- Já experimentei todos, e vou levar este – ela mostra um modelo com sutiãtomara-que-caia.- Eu não tenho direito nem de dar minha opinião? – ele brinca.- Nesse caso não – ela ri de novo.Mais tarde, eles chegam a uma praia de águas tranquilas, e Vitor já vai tirandoa camiseta e a bermuda, ficando só de sunga.
  • 51. - Vem, vamos cair na água! – ele chama, estendendo a mão.Amélia tira o vestido que usa por cima do biquíni, e dá a mão a Vitor. Elescorrem para o mar Mergulham e brincam nas ondas até que Vitor enlaçaAmélia pela cintura.- Que foi? – ela pergunta sorrindo e olhando nos olhos dele.- Nada não, só me deu uma vontade de te beijar... – ele responde com um armaroto, puxando-a para mais junto de si, terminando em um beijo intenso.Eles ficam namorando dentro da água, até resolvem sair para caminhar pelabeira da praia. Juntam as roupas e vão andando. De repente Vitor encontra umgraveto e se abaixa, desenhando um coração na areia e escrevendo dentro“Amélia e Vitor”. Ela sorri, enquanto ele analisa a própria obra por algunsinstantes, depois comenta, rindo:- Olha como você está me deixando cafona...- Não, não é cafona... Achei bem bonitinho – Amélia garante – Nunca ninguémtinha feito isso pra mim.- Também, você foi casar justo com o Max, o ser mais sem sentimentos que eujá vi... – Vitor fala sem pensar, e ele mesmo se repreende – Ah, por que eu fuilembrar dele?- Você tem razão, o Max era incapaz ser romântico assim, quase cafona – elabrinca.- Quase, é? Está admitindo minha cafonice – ele ri.Amélia passa os braços em torno do pescoço dele:- Que importa se é cafona ou não? O importante é que eu achei bonito – elasorri e aproxima os lábios, beijando Vitor com carinho.Eles vestem as roupas e seguem o passeio, indo até uma outra praia de águasmais agitadas, impróprias para banho, mas que é muito bonita. Sentam naareia, abraçados, e ficam olhando as ondas quebrarem, em silêncio, por algunsinstantes, curtindo a sensação de paz proporcionada por aquele lugar.Logo um grupo de jovens também chega à praia e senta um pouco distante docasal. Alguns rapazes trazem consigo violões, e o grupo forma uma rodinhapara ouvi-los tocar.Vitor fica pensativo observando o grupo, e em seguida se levanta, avisandopara Amélia:- Espera um pouco.Ele vai até os rapazes e pede um violão emprestado, prometendo devolver emseguida. Um dos jovens lhe estende o instrumento, e Vitor volta para junto deAmélia, que olha para ele surpresa, quase sem acreditar no que acabou de ver.Ele senta bem em frente a ela e acomoda o violão.- Você sabe tocar? – Amélia finalmente questiona.- Sei um pouco. O suficiente para tocar uma música que esse momento me fezlembrar... nós dois aqui, diante desse mar...Ela observa, atenta, enquanto Vitor começa a tocar e cantar “Você é linda”, deCaetano Veloso.Trilha sonora: Você é linda – Caetano Velosohttp://www.youtube.com/watch?v=3tcY9rE_CjsQuando ele termina, Amélia tem uma lágrima correndo por seu rosto. Vitorcoloca o violão de lado e ela chega mais perto, enchendo o amado de beijos.
  • 52. - Que lindo, meu amor, que lindo... – ela murmura.- Que bom que você gostou – ele diz retribuindo os beijos – e que eu conseguilembrar de toda a letra! – Vitor ri e afasta Amélia com cuidado – Deixa eudevolver o violão.Ele vai rapidamente até o grupo, entrega o instrumento e agradece. Amélia oespera em pé, e o enche de beijos novamente.- Nossa, se eu soubesse que ia ser recompensado assim, tinha tocado pravocê antes... – Vitor brinca.- Bobo... – retruca Amélia, com os olhos brilhando e aproximando os lábios dosdele de novo.Saem caminhando pela beira do mar, abraçados, parando a cada poucospassos para trocarem mais beijos.Depois de caminharem um bom tempo, eles encontram um restaurantesimples, mas aconchegante. Pedem uma moqueca de camarão e sentampróximo a uma janela, de onde podem ver o mar. Enquanto esperam o prato,Vitor fica observando Amélia, em silêncio. Ela sorri:- Por que está me olhando assim?- Não canso de te olhar... – ele explica, enlevado, e beija o dorso da mão dela.Eles ficam naquele clima de namoro até que o almoço chega. Comemtranquilos por algum tempo, até que Vitor para, prestando atenção em algo dooutro lado do restaurante. Ele come mais um pouco e olha para o mesmo pontooutra vez. Amélia percebe:- Algum problema?- Aquele cara não tira os olhos de você. Caramba, ele não enxerga que vocêestá acompanhada? – ele responde, irritado.- Vitor, eu não percebi nada, e não estou olhando para ele. Relaxa, vamoscomer em paz – ela tenta acalmá-lo.Vitor olha para o prato e respira fundo, tentando seguir o conselho de Amélia.Mas dali a pouco olha na direção do tal homem novamente, e fica ainda maisnervoso ao ver que ele continua olhando para Amélia:- O que esse sujeito está pensando? – diz Vitor, levantando-se bruscamente,quase empurrando a cadeira longe.- Vitor, o que você vai fazer? – Amélia fica assustada.- Vou resolver isso – ele responde, partindo em direção à mesa do outro.- Não, volta aqui! – ela pede, angustiada, mas Vitor não lhe dá ouvidos.Ele chega diante da mesa e olha para o homem com raiva:- Escuta aqui: tira os olhos da MINHA mulher! Minha, entendeu? Não teensinaram a respeitar a mulher alheia? Se não ensinaram, vamos lá pra foraque eu te ensino!- Desculpa, rapaz... não quero violência – responde o sujeito, saindo de fininho,enquanto Vitor fica bufando.Quando ele retorna para a mesa, Amélia está de pé, com olhar de decepção:- Acerta a conta e vamos embora.- Mas, Amélia...- Então fica aí que eu estou indo.- Espera – ele segura o braço dela – Eu vou.Vitor tira algumas notas da carteira e larga sobre a mesa, saindo em seguidado restaurante junto com Amélia.
  • 53. XXIIJá do lado de fora do restaurante, Vitor tenta se explicar:- Amélia, eu...Ela o corta, ríspida:- Não fala nada agora. Vamos pro hotel.- Mas... – ele tenta insistir, mas Amélia sai andando.Vitor suspira e vai atrás dela, que fica calada até chegarem ao quarto do hotel.Só então diz o que estava segurando:- Por que você fez aquela cena, Vitor? Precisava daquilo? Apelar pra violência?Nosso dia estava tão lindo, e você estragou tudo...- Eu perdi a cabeça, me perdoa... mas aquele... – ele se contém para não dizerum palavrão – aquele sujeito ficou olhando pra você o tempo todo.- E daí? – ela aumenta o tom de voz - Ele ia só olhar, e se você não tivesse mefalado, eu nem teria notado!- Amélia, não era um olhar inocente... Eu sou homem, eu sei o que um homemestá pensando quando olha para uma mulher do jeito que ele te olhava, comose... – ele fecha os olhos, sofrendo para prosseguir – como se estivesseimaginando o que havia embaixo do seu vestido. Ele estava desejando você,entende?- E por acaso passou pela sua cabeça que eu pudesse pensar em dar umachance àquele homem?- Não! – Vitor fica chocado com a pergunta – Eu sei que não, eu confio emvocê.- Então por que você se alterou tanto? Por quê? Nunca vi você se descontrolarassim...- Não sei, meu amor, não sei... – ele responde quase chorando – Me perdoa,isso não vai se repetir, eu juro.- Não precisa jurar nada. A nossa história não vai terminar por causa disso, euacredito no seu arrependimento – ela afirma, ainda com olhar de decepção –
  • 54. Mas a nossa viagem... não quero mais ficar aqui nessa cidade, vamos arrumarnossas malas e pegar o primeiro voo para Goiânia ou Brasília.- Amélia... nossa lua-de-mel não pode terminar desse jeito... Vamos para outrolugar, então? Você escolhe.- Não sei – ela senta na cama, de costas para ele.Vitor dá a volta na cama e se ajoelha diante de Amélia, com olhar de súplica:- Por favor... me dá uma chance de consertar o que eu fiz, de terminar nossaviagem do jeito que você merece...Amélia solta um suspiro:- Está bem. Vamos pro Sul, então. Liga para o aeroporto e vê se tempassagem ainda pro próximo voo a Porto Alegre. De lá nos vamos paraCanela.- Fica na serra, né?- Fica – Ela levanta e vai pegar as malas.Vitor consegue as passagens e desce para fechar a conta do hotel. Depoissobe para buscar Amélia, que ainda está aborrecida.- Tudo pronto? Podemos ir? – ela pergunta, tentando ser fria.- Podemos – ele responde, angustiado.Amélia se dirige para a porta, e Vitor vai mais rápido e para diante dela.- Meu amor... não vamos ficar assim, nesse clima... Eu não aguento.- Pensasse antes de dar vexame – ela devolve, parecendo triste – Acha que euqueria brigar com você? Estou sofrendo também.Ele acaricia o rosto dela:- Me perdoa... me perdoa...- Eu perdoo... mas preciso de tempo pra apagar da minha cabeça aquela cenalamentável.- Eu vou fazer de tudo pra você esquecer isso logo, tá?- Tá – ela finalmente esboça um sorriso.Vitor também sorri, e beija os lábios dela com cuidado. Eles saem de mãosdadas, tentando aos poucos recuperar o clima perdido.Trilha sonora: Ainda bem – Vanessa da Matahttp://www.youtube.com/watch?v=kenOHjdUK4UJá hospedados em Canela, Amélia comenta:- Quero te levar num lugar lindo que eu conheci há alguns anos, quando estiveaqui com o... – ela interrompe, não querendo dizer o nome do ex-marido.- Com o Max, pode falar. Estou até merecendo ouvir o nome dele. Que lugar éesse?- Cascata do Caracol.- Hum, cascata me lembra cachoeira... – ele brinca.- Nem se anima, porque lá não dá pra tomar banho – Amélia ri.- Ah... Mas não tem problema, ainda vou te levar para uma cachoeira antes devoltar pra casa, esteja certa disso.- Vai, vai... mas agora nós dois vamos ficar aqui quietinhos, descansando daviagem, para amanhã passarmos o dia no Parque do Caracol.- Quer ficar quietinha? – ele se recosta na cama – Então vem aqui... juntinho demim.
  • 55. Amélia sorri e se aconchega nos braços dele, que fica acariciando os cabelosdela.Na manhã do dia seguinte, eles passeiam pelo parque, conhecendo todos osatrativos antes de visitarem a cascata.- Ah, Vitor, olha o trenzinho... que graça! – comenta Amélia ao se aproximaremda Estação Sonho Vivo.- Vamos lá! – Vitor a puxa pela mão, empolgado.Os dois escolhem o segundo vagão e sentam abraçadinhos. O trem passa pelaVila dos Imigrantes, que mostra um pouco da história da imigração no RioGrande do Sul.- Outra vez, parece que estamos viajando no tempo... – diz Amélia.- É mesmo... Você gostaria de ter vivido em outra época? – devolve Vitor.- Não sei... talvez. E você?Ele olha nos olhos dela para responder:- Eu viveria em qualquer tempo e qualquer lugar, desde que você estivessecomigo.- Vitor... – Amélia suspira, aproximando os lábios dos dele.Eles se desligam um pouco da paisagem, trocando um beijo carinhoso.Após o almoço, eles seguem para a Cascata do Caracol.- É ali, Vitor, o mirante. Vem ver que coisa linda! – chama Amélia, indo nafrente.Ele a segue. Ela segura na grade do mirante, e Vitor a abraça. Ficam poralguns instantes em silêncio, apenas observando a queda d’água.- É linda mesmo – concorda Vitor.- Sabia que tem como chegar lá em baixo, na base dela? – conta Amélia.- Sério?- Sim, tem uma escadaria. Da outra vez não pude descer, porque com o Max,né, você imagina... Vem, acho que ainda lembro onde fica o topo da escada –ela o puxa pela mão.Ao chegarem no começo da escadaria, Vitor lê um cartaz com algumasadvertências, e arregala os olhos:- Amélia, são 927 degraus! Você tem certeza que quer descer?- Tenho – ela responde com firmeza.XXIII
  • 56. - Pensa bem, amor... vai ser puxado. Não esquece que depois de descer tudoisso, a gente vai ter subir todos esses degraus de volta – Vitor tenta convencê-la a desistir.- Eu sei, nós vamos voltar mortos... – Amélia ri – Mas quero ir mesmo assim.Nem que seja sozinha.Ela tenta se dirigir ao primeiro degrau, mas Vitor corre na frente dela:- Nem pensar. Acha que vou deixar a minha mulher descer sozinha essaescadaria toda? Que espécie de homem eu seria? E eu vou à frente,conferindo o estado dos degraus – ele avisa, e começa a descer.- Que bom ter um homem que cuida de mim... – ela brinca, seguindo Vitor.Trilha sonora: É Você – Marisa Montehttp://www.youtube.com/watch?v=wSgpPA7KD6QEles vão descendo devagar. Quando já venceram quase 500 degraus, Vitoravança um pouco, ficando mais adiante de Amélia, e se vira para trás,esperando-a:- Essa escada não tem fim, não?Ela ri, e desce depressa para alcançá-lo:- Tem, falta só mais uns 400 degraus.Amélia está chegando junto de Vitor quando pisa em falso e se desiquilibra,projetando o corpo para frente. Vitor a ampara, apavorado:- Cuidado, Amélia! Pelo amor de Deus, não vai cair aqui...Ele a abraça forte, firmando os pés no degrau. Ela ainda está tremendo dosusto, pálida, sem conseguir dizer nada.- Amélia, vamos voltar... Essa escada é perigosa – ele pede, tambémassustado.- Não, já estamos na metade, vamos até o fim – ela responde, ainda ofegante –Vou tomar cuidado, não se preocupa.- Ai, se eu tivesse problema de coração tinha empacotado agora... não possoperder você, meu amor... Ainda bem que eu fui à frente, e consegui te segurar– Vitor continua nervoso.- Justamente, se eu caísse te levava junto – ela ri, tentando amenizar o clima –Foi só um susto, não aconteceu nada... fica calmo.Amélia acaricia o rosto dele, tentado tranquiliza-lo. Vitor respira fundo epergunta:- Você está bem, mesmo?- Estou – ela garante, sorrindo – Vamos em frente.Vitor segura firme na mão dela:- Vamos, mas não solta mais a minha mão, tá bem?- Tá... mas foi você que correu na minha frente – ela retruca.- Fui olhar melhor quanta escada ainda temos pela frente... como mearrependo de ter saído do seu lado – ele balança a cabeça, parecendochateado consigo mesmo.- Não, meu amor, você não teve culpa... eu que não olhei direito onde estavapisando, coisa que não se faz numa escadaria dessas.- Ainda bem que você sabe... Não me dá outro susto desses, por favor... – Vitorimplora.- Não dou... meu herói – ela sorri.
  • 57. Ele finalmente sorri de volta, e os dois seguem descendo a escada, de mãosdadas.Ao chegarem à base da escada, eles ficam alguns instantes estáticos,admirando o que veem:- Não valeu a pena o esforço? – diz finalmente Amélia.- Valeu, sim – concorda Vitor, a abraçando por trás – Mas vamos achar umcanto para sentar? Daqui a pouco a gente vai ter que subir tudo isso... hajapernas.- É mesmo – ela ri.Ele olha atentamente para as pedras em torno da queda d’água, e franze atesta, engolindo em seco:- Se você tivesse caído podia rolar até bater nessas pedras... meu Deus.- Não pensa mais nisso, meu amor... não aconteceu nada.- Não aconteceu porque eu te segurei, né? – retruca Vitor, apertando mais osbraços em torno da cintura de Amélia – Tá vendo como você precisa de mim,como tem que ficar juntinho de mim o tempo todo? – ele brinca, tentandoamenizar a tensão.- Convencido... – ela se vira de frente para Vitor, rindo – Mas é verdade, eu nãoposso mais viver sem você... o que eu faço agora?- Fica comigo – responde Vitor, puxando-a para junto de si e beijando-aapaixonadamente.Eles sentam numa grande pedra e ficam descansando por algum tempo,curtindo a paisagem. Depois iniciam a subida. Após pouco mais de 100degraus, Amélia se queixa:- Nossa, estou começando a me arrepender...- Ah, é? – Vitor ri.- Eu sei, você avisou – ela retruca, rindo também, enquanto se segura comforça no corrimão buscando apoio para continuar subindo – Minhas pernasestão mais pesadas a cada passo... será que consigo chegar lá em cima?- Vem cá, eu te ajudo... se apoia em mim – ele a segura pela cintura, econtinuam a subir abraçados.Quando chegam de volta ao início da escada, eles se jogam no chão,exaustos, e caem na risada.- Socorro... como a gente faz para caminhar até o hotel? – brinca Amélia, aosrisos.- Boa pergunta... eu também não sei – Vitor está quase chorando de tanto rir.Ele respira fundo e continua:- Sabe o que eu preciso? De um prato enorme de massa, para conseguir merecuperar desse exercício todo.- Acho que até eu estou precisando – Amélia continua rindo – Temrestaurantes ótimos aqui, é uma região de colonização italiana.- Ah, una buona pasta... é tudo que eu quero.- Mas não podemos ir assim, precisamos passar no hotel para tomar um banho– ela lembra.- Precisamos, é verdade – ele responde, levantando-se e estendendo a mãopara Amélia – Vamos logo, porque se a gente ficar mais tempo aqui, nãoconsegue mais levantar.
  • 58. Vitor ajuda Amélia a fica de pé e eles seguem para o hotel, ainda aos risos.Ao chegar no quarto, eles estão tão cansados que acabam cochilando porcerca de uma hora. Depois se arrumam e saem para jantar. Em frente aorestaurante, uma loja do outro lado da rua chama a atenção de Amélia, e eladiz a Vitor:- Vai entrando e escolhendo a mesa, que eu quero ver uma vitrine ali e já teencontro.- Eu vou com você – ele afirma.- Não, Vitor, quero ir sozinha. Por favor, vá escolhendo a mesa? – Amélia pedecom doçura, convencendo-o.- Está bem, mas não demora – Vitor concorda, a contragosto.Amélia dá um beijinho nele, e espera que entre no restaurante. Só então elaatravessa a rua.XXIVVitor está impaciente, batendo com as pontas dos dedos sobre a mesa, quandoAmélia retorna e senta a sua frente.- Já pedi um vinho. E você, achou o que queria? – ele pergunta, bastante sério.- Não exatamente – ela devolve, sorrindo.- Você foi mesmo olhar vitrine? Não encontrou nenhum conhecido? – Vitorquestiona, levemente irônico.- Vitor, não começa... – Amélia fica zangada.- Desculpa, meu amor, me perdoa... – ele segura a mão dela sobre a mesa –Foi besteira minha perguntar isso, sou um idiota mesmo.- Tudo bem... – ela esboça um sorriso – Não encontrei nenhum conhecido, se éisso que te preocupa, ciumento... O Andrea está lá na Itália, bem longe daqui.- Ah, e ele é seu único amigo? – Vitor retruca – Mas chega desse assunto, né?- É. Vamos pedir? – Amélia pega o cardápio e escolhe – Vou querer penne aomolho branco. E você?- Estou entre o talharim ao pesto e o espaguete à carbonara.Eles fazem o pedido e ficam conversando, lembrando de detalhes do passeio àcascata, até os pratos chegarem.- Humm, isso está um delícia... Prova, amor – Vitor aproxima seu garfo da bocade Amélia, com um pouquinho do talharim.
  • 59. - Humm, bom mesmo – ela concorda – Mas o meu também está maravilhoso,experimenta – Amélia retribui, dando um pouco de penne na boca de Vitor.- Delicioso... – ele olha para ela de um jeito malicioso – Só não é mais deliciosoque seu beijo.- Pára, Vitor... não fica falando essas coisas assim, em público. Alguém podeouvir – ela pede, encabulada.Ele ri, e os dois continuam a refeição, trocando olhares.Trilha sonora: Nós Dois Aqui – Flávio Venturinihttp://www.4shared.com/audio/3DvPvKR_/09_Ns_dois_aqui.htmChegando ao hotel, a recepcionista chama Amélia:- Dona Amélia, deixaram isto para a senhora – a moça lhe entrega uma sacola.- Ah, obrigada.Vitor fica curioso:- Que tem aí? Quem será que deixou essa sacola para você?- Calma... Fui eu mesma quem pedi para entregar aqui. Não fui ver vitrine... euestava preparando uma surpresa para você.- Uma surpresa? – repete ele, boquiaberto.- Sim – ela sorri – Só você pode fazer surpresas? Vem, você só vai ver o quetem nessa sacola lá dentro do quarto.Vitor segue Amélia. Ao entrarem no quarto, ela tira os sapatos, sem largar asacola, enquanto ele senta no sofá que fica próximo à cama.- E então, meu amor? – Vitor pergunta, ansioso.- Você já vai saber o que tem aqui dentro... – Amélia se aproxima devagarinho,com um sorriso travesso, e senta no colo dele, entregando-lhe a sacola –Pronto, pode abrir.Ele tira lá de uma cesta com algumas caixinhas onde se veem frases escritascom chocolate, usando pequenos quadrados com letras em relevo. Entre ascaixinhas, também há também bombons em forma de coração. Vitor vaipegando as frases, uma por uma, e lendo:
  • 60. - Essa é a declaração de amor mais gostosa que eu já recebi... – ele comenta,com um grande sorriso.Amélia ri:- Então você gostou?- Claro, amor! Achei lindo... mas vou ter que desmanchar essas frases.Vitor abre bem o celofane que embrulha a cesta, depois vai separando asletras e colocando sobre o plástico. Amélia fica observando, curiosa, enquantoele monta outra frase. Ao terminar, estende a caixinha:- Essa é pra você...- Ah, Vitor... – Amélia fica relendo a frase, encantada.- Que pena que não vou poder guardar esse presente, porque, né, não dá praficar só olhando para esse chocolate... – brinca Vitor, pegando uma letra A elevando até a boca de Amélia – O primeiro vai para você... A de amor e deAmélia...Ela sorri, degustando o chocolate, e também dá uma das letras para ele.- V... de Vitor e de vida.Vitor olha nos olhos dela e aproxima os lábios, beijando-a demoradamente.- Hummm, que beijo bom, com sabor de chocolate... – ele diz, quandodescolam os lábios – Quero mais.- É? Também quero... – ela devolve.Eles ficam comendo chocolate e trocando beijos até que Amélia deita a cabeçano ombro dele, sentindo o cansaço daquele dia. Ela fecha os olhos por uminstante, depois abre de novo e avisa:- Amor, vou colocar uma camisola, antes que eu acabe dormindo assimmesmo... Nós gastamos muita energia hoje na cascata...- Você deve estar cansada mesmo. Também estou. Vamos cair na cama,então.Após trocarem mais um beijo, Amélia vai para o banheiro, se preparar paradormir. Quando volta, Vitor já está deitado na cama. Ela se troca, vestindo acamisola, e deita ao lado dele.- Já coloquei os chocolates aqui, ó – ele aponta para o criado-mudo – Vamoscontinuar a brincadeira?
  • 61. - Vai comer sobre a cama e dormir sem escovar os dentes? Que coisa feia... –ela brinca.- Ah, quem disse isso?- Do jeito que estamos cansados, não vamos conseguir levantar mais dessacama hoje... – Amélia ri.- Tem razão. Eu já volto – Vitor vai depressa para o banheiro.Amélia está com os olhos pesados, mas fazendo um esforço para mantê-losabertos. Vitor retorna e, em vez de deitar no seu lado da cama, vem de quatropor cima de Amélia, se encaixando sobre ela. Quando está com o rosto bemjunto ao dela, pergunta:- Agora posso te dar um beijo de boa noite?- Pode – ela sorri. Eles trocam um beijo demorado, depois se acomodam na cama, bemjuntinhos, e logo estão dormindo, vencidos pelo cansaço.Vitor acorda, no meio da manhã, e se ergue na cama para contemplar o sonode Amélia. Ela também acorda e olha para ele:- Bom dia, meu amor...- Bom dia... – ele se vira de lado para olhar melhor para ela, e sente o corpodolorido, principalmente as pernas – Ai, parece que corri duas maratonasontem... estou quebrado.- Nem me fala... mal consigo mexer as pernas, dói tudo.- Foi ideia sua descer aquela escada... – ele ri.- Eu sei, e não estou arrependida. Só não sei como vou conseguir levantardessa cama hoje...- Não levanta. Vamos ficar aqui o dia inteiro – ele sugere, com um olhartravesso.- É? – Amélia ri – E vamos nos alimentar de quê?- De chocolate! – Vitor se vira, pega a cesta no criado-mudo e coloca na cama,entre os dois – Está servida?Ainda rindo, ela pega um bombom de coração, enquanto Vitor pega outro.- Acho que o jeito vai ser tirar o dia para descansar, mesmo... Depois, maistarde, a gente podia sair para comer uma fondue... que acha? – Amélia sugere.- Gostei da ideia – ele concorda, pegando mais chocolate.- Também quero passar naquela loja de novo, comprar alguns presentes para aManu e o Fred.- Ah, sim, tem que levar chocolate para as crianças... – diz Vitor, rindo.- Bobo! Quero levar alguma coisa pra Lurdinha também, uma caixa debombons daquelas bem bonitas, sabe?- Ih, ela vai ficar toda metida, dizendo que ganhou chocolate “muito dochique”... – ele brinca, imitando a empregada.- Vai mesmo – Amélia ri – Mas ela merece... a Lurdinha nos ajudou tanto!Sabe, desconfio que ela percebeu que estava acontecendo algo entre nós doisdesde o começo.- É?- Sim, quando você sofreu o acidente, ficou desaparecido, ela viu a minhaaflição... acho que desde aí ela já suspeitava de alguma coisa. E nunca dissenada, nunca me entregou pro Max. Pelo contrário, depois ela me ajudava afugir pra ver você.
  • 62. - Verdade, ela me ajudou também, no dia que me escondi no seu quarto,lembra?- Lembro... – ela ri novamente – Então ela merece duas caixas de bombons!- Está certo – ele também ri – E depois de comprar chocolate, o que a gente vaifazer?- Não sei... você tem alguma sugestão?- Tenho. Está tão boa essa lua-de-mel que eu quero estica-la mais umpouquinho...- Vitor... desse jeito a gente não volta mais para casa – Amélia acha graça.- Volta sim, só mais uns dias. Dois lugares, apenas... prometo.- Para onde a gente vai?- Mais tarde vou organizar tudo, depois te digo – ele sorri.- Vitor... – ela murmura, ansiosa.- Adoro ver você curiosa... – ele diz com um olhar travesso, enquanto aproximaseus lábios dos dela para mais um beijo.XXVVitor pede um café-da-manhã reforçado, para ser entregue no quarto. Ele eAmélia ficam na cama até meados da tarde. Só então Vitor toma um banhorápido e se arruma para sair, enquanto Amélia ainda se alonga na cama.- Mas o que eu vou fazer na rua? Tenho que resolver à distância de qualquerforma... – ele pensa alto, pegando o celular e sentando-se no sofá.- Que foi, amor? – pergunta Amélia, levantando-se.- Nada, não, estava só pensando alto. Pode tomar seu banho tranquila que euvou ficar aqui dando alguns telefonemas.Ela sorri e entra no banheiro. Demora-se no banho, e quando retorna para oquarto, Vitor continua no sofá, esperando por ela.- Está tudo certo. Depois de amanhã vamos para Foz do Iguaçu, visitar asfamosas cataratas.- Jura? Ah, eu estive lá uma vez com o Fred e a Manu, eles eram pequenos...- Então faz mesmo bastante tempo, né? – ele ri.- Faz... e a gente só olhou um pouco as cataratas do mirante, mais nada.
  • 63. - Hum, dessa vez vamos conhecer tudo que temos direito – Vitor se aproxima,enlaçando Amélia pela cintura, e a beija.Enquanto se arruma, ela pergunta:- Você disse que vamos depois de amanhã, né? Então temos mais um diaaqui?- Isso mesmo. Tem mais algum lugar que você quer me mostrar em Canela?Desde que não tenha escada de 900 degraus... – ele começa a rir de novo.- Não, nem pensar – Amélia ri também – A gente podia passar o dia emGramado, que acha?- Se você quer, nós vamos – Vitor sorri, admirando-a.- Então amanhã vamos a Gramado. Agora, podemos ir saborear aquela fonduede queijo que combinamos?- De queijo? Achei que seria de chocolate... – ele brinca.- Não comeu chocolate que chega ainda, não? – ela retruca, rindo.- Não! – Vitor ri – Mas tudo bem, fondue de queijo...No dia seguinte, eles vão cedo para Gramado. O primeiro destino é o LagoNegro, com pedalinhos em formato de cisne.- Quer andar de pedalinho? – pergunta Vitor, achando graça.- Ah... não fica meio ridículo pra uma mulher da minha idade? – Améliadevolve, insegura.- Que ridículo nada, meu amor... É romântico. Vem... – ele a puxa pela mão.Trilha sonora: O infinito amor – Jorge Vercilohttp://www.youtube.com/watch?v=mHToGFQHl4E&feature=fvsrVitor pedala o cisne até chegarem no meio do lago. Então para e se vira paraAmélia. Fica algum tempo em silêncio, olhando para ela, pensativo. Amélia ficaintrigada:- Que foi?Ele sorri:- Estava lembrando de quando te conheci... A Manu tinha avisado que você eramuito bonita, mas eu não imaginava que fosse tanto. Fiquei surpreso, te acheilinda, encantadora... Mas naquele momento jamais passaria pela minha cabeçame apaixonar por você... Eu amava a Manuela, ou achava que amava. Nosmeus planos, você seria minha sogra. Só que, parece que quanto mais a Manuse afastava de mim, mais você entrava na minha vida... pra não sair nuncamais.Ela olha para baixo, como se lembrasse de algo guardado há muito tempo:- Sabe, eu me achava uma péssima mãe, porque quando via você sofrendo porcausa da Manu, tinha vontade de te dizer que eu podia te dar todo o amor queela não conseguia te dar... Mas parecia uma loucura, um despropósito tãogrande, eu gostar de você desse jeito...Vitor levanta o rosto dela, segurando em seu queixo, e olha em seus olhos:- Não era loucura... A gente estava destinado um ao outro, hoje eu tenhocerteza disso. Não foi por acaso que nós dois nos sentimos tão à vontade umcom o outro desde o começo... já existia algo que nos ligava, mesmo sem agente saber.
  • 64. - Eu acredito nisso também. Mas foi difícil, logo no início, encarar que minhafelicidade não estava em nada do que eu tinha construído. Você virou minhavida do avesso...- Não, ela estava do avesso antes... – ele sorri.- É verdade. Você virou para o lado certo – ela concorda, com os olhosbrilhando – Obrigada por ter me dado força e coragem para ser feliz.- Ah, Amélia... eu não te dei nada... só amor – Vitor devolve, emocionado.Amélia segura às mãos dele:- Mas era só disso que eu precisava, que eu não tinha... só com você euconheci o que é ser amada.Ele acaricia o rosto dela:- Como pode, uma mulher tão linda e tão doce não ser amada?- Não sei... acho que tinha que ser você, só você – ela sorri, com os olhosmarejados.Vitor também sorri, e vai aproximando os lábios. Primeiro roça seu rosto nodela, de leve, e devagarinho vai encontrando os lábios. Eles trocam um beijocarinhoso e demorado, enquanto o pedalinho flutua no meio do Lago Negro.Depois Vitor volta a conduzir o cisne, dando a volta pela margem do lago, evolta e meia trocando olhares com Amélia.Saindo do Lago Negro, eles passam em uma loja dos tradicionais chocolatesde Gramado. Enquanto Amélia escolhe os presentes para os filhos, Vitorcoloca uma porção de bombons e barras numa cestinha.- Pra que tudo isso, Vitor? – ela questiona, ao ver a cesta quase cheia.- Ora, pra nós... – ele se aproxima e sussurra no ouvido dela – Quero maisbeijos com chocolate.- Ah, é? – Amélia ri, olhando para ele de um jeito cúmplice, e depois volta àatenção para a cesta – E o presente da Lurdinha? Não esqueceu, né?- Não... está aqui – ele mostra a caixa de bombons – E olha o que achei para aminha enteadinha... – Vitor pega um cavalinho de chocolate.- Que graça... é a cara da Manu, mesmo. Acho que já chega... senão vai faltarespaço na mala para tanto chocolate.- Mas isso é fácil de resolver... te garanto que boa parte desses bombons nãovão chegar até Foz – ele brinca.- Que é isso... parece criança que nunca viu chocolate... – ela se diverte.- Fazia tempo que eu não me esbaldava assim... mas agora eu viciei nos seusbeijos doces, quero mais, e mais, e mais... – ele retruca, dando beijinhos noslábios dela.- Mas é um bobo... – Amélia sorri e o puxa pela mão – Vem, vamos para ocaixa.- E agora? – pergunta Vitor na saída da loja, carregando as sacolas – Paraonde vamos? Você conhece algum bom restaurante aqui, pra gente almoçar?- Hum... – Amélia pensa por alguns instantes – Almoço, não. Vamos fazer algodiferente, bem típico da região... tomar um café colonial.- Café colonial?- É, vem comigo, você já vai ver do que se trata.Eles entram num café perto dali e escolhem uma mesa. Logo em seguida, osgarçons trazem diversos pratos: bolos de chocolate, milho, coco, banana,laranja, limão e cenoura, pasteizinhos de queijo e de frango, waffer, cuca,
  • 65. queijadinhas, pão sovado, geleias diversas, uma tábua de frios, polenta frita, eaté frango à milanesa e lombo de porco, entre outros quitutes, além de cafécom leite, chocolate quente, suco de uva e vinho.- Nossa, por onde a gente começa? – surpreende-se Vitor.XXVI- Você eu não sei, mas eu vou começar por este pastel de queijo – respondeAmélia, servindo-se.Vitor nem retruca, já está de boca cheia e escolhendo mais coisas para colocarno prato. Amélia ri do jeito dele, enquanto explica:- O café colonial foi inspirado nas mesas fartas dos colonos italianos ealemães. E assim, nessa dinâmica de restaurante, começou aqui em Gramado.- E bota mesa farta nisso... – ele se diverte.- Ainda tem um buffet de sobremesas lá no canto, com tortas, musses, sagu,ambrosia, pudim de leite.. – ela ri.- Isso chega a ser maldade... – brinca Vitor – Não tem como uma pessoa sóprovar tanta coisa.- Não precisa provar tudo, escolhe o que te agrada mais – Amélia acha graça.- Ah, mas não dá vontade de experimentar um pouco de cada?- Dá!Os dois caem na risada. Vitor respira fundo e serve vinho para ambos:- Um brinde... a esse momento, que é simples e rico ao mesmo tempo – elesegura a mão de Amélia antes de continuar – Porque todo momento é rico senós dois estamos juntos.- Vitor... – ela murmura, emocionada.Eles tocam as taças e continuam comendo, como se estivesse em lugar ondesó existe felicidade.Quando saem do café, Vitor passa a mão sobre a barriga:- Acho que comi demais... – ele diz, fazendo uma careta.- Guloso! – Amélia dá uma risada.Vitor a olha de um jeito malicioso e passa os braços em volta da cintura dela,sem largar as sacolas dos chocolates:
  • 66. - Sou guloso, sim... mas por outra coisa – ele cola seus lábios aos dela, em umbeijo apaixonado.- Vitor... nós estamos no meio da calçada... – ela diz com dificuldade, assimque consegue se esquivar um pouco.- Tá certo... – ele solta um suspiro – Já é hora de voltarmos pro hotel emCanela, mesmo. Amanhã partimos bem cedo.No quarto do hotel, Amélia toma um banho e depois fica arrumando as malas,enquanto Vitor se lava. Vestindo apenas um roupão, ele se aproxima dela e aabraça por trás:- Depois a gente arruma o que falta... Agora eu quero continuar aquele assuntoque começamos em Gramado.- Que assunto? – ela se faz de desentendida, com um sorriso travesso,enquanto Vitor a faz virar de frente para ele.- Esse... – ele a beija com intensidade.Amélia se entrega ao beijo, colocando as mãos dentro do roupão dele,pressionando-lhe as costas e os ombros. Vitor vai conduzindo ela até a cama,sem descolarem os lábios. Ainda aos beijos, ele deita Amélia, se colocandosobre ela, até se encaixarem, numa sensação de necessidade de terem seuscorpos cada vez mais juntos.Trilha sonora: Bem Maior – Roupa Novahttp://www.youtube.com/watch?v=Qr1iw31_N8oMal amanhece, eles já deixam o hotel de Canela, rumo à Foz do Iguaçu. Lá,eles se hospedam no Hotel das Cataratas, de onde partem as trilhas para asfamosas quedas d’água. Eles saem para o passeio à tarde, após o almoço. Aochegarem num dos principais mirantes, Amélia fica encantada com vista, com acombinação da espuma branca das águas com o verde da vegetação dasencostas. Naquele momento, a paisagem está ainda mais bela, adornada porum arco-íris.- Meu Deus... é lindo! – balbucia Amélia, emocionada – E com esse arco-íris,ainda...- Gostou? – Vitor sorri e brinca – Mandei fazer especialmente pra você...- Bobo... – ela retruca de um jeito todo derretido, beijando os lábios dele.Eles seguem pela trilha, encantando-se com as plantas, flores e animais queveem pelo caminho. Borboletas coloridas aparecem a todo momento, tornandoainda mais bonito o percurso.Uma borboleta pousa no braço de Amélia.- Olha, Vitor! Dizem que quando uma borboleta pousa na gente, é sinal desorte... Será que é possível ter mais sorte do que eu já tenho, por terencontrado você?- Quem sabe? Muita coisa pode acontecer ainda nas nossas vidas... Nossahistória ainda está só começando – ele sorri.- É verdade... mas nossa história é tão intensa que já parece que estamosjuntos há muitos anos.- Mas estamos... juntos há muitos séculos. Nós dois não nos encontramos,nossas almas se reencontraram... tenho certeza disso.Ela olha nos olhos dele, emocionada:
  • 67. - Eu também. Talvez eu tivesse algumas contas para pagar antes dessereencontro, por isso vim um pouco antes para esse mundo...- Ou talvez eu não tenha merecido vir antes... mas o que importa é queestamos juntos outra vez, e nada mais vai nos separar.Ambos com os olhos marejados, eles aproximam os lábios num beijo tranquilo,como só experimentam aqueles que têm certeza do amor.O casal percorre a passarela que leva para perto das cataratas. Ali, as palavrasse tornam desnecessárias. Eles ficam em silêncio, de mãos dadas, olhandopara aquela água abundante e ouvindo o som que ela faz, um som que os fazsentir quase em outra dimensão. Depois de algum tempo, Vitor abraça Améliapor trás, e sussurra no ouvido dela:- Parece que a gente está mais perto do céu...- Parece mesmo – ela sorri e solta um suspiro – Que bom que você está aquicomigo... que bom que posso compartilhar tudo isso com você.Ele beija o rosto dela, e a abraça mais apertado, ficando com os rostos coladoslado a lado. Assim eles permanecem mais alguns instantes, como quehipnotizados pelas águas das cataratas.XVIIOs dois estavam tão absortos com o que viam e ouviam que nem tinhampercebido que estavam se molhando com os respingos da catarata. É Vitorquem se dá conta primeiro:- Meu amor, olha como você está, com a roupa úmida... Vamos, não quero quevocê pegue um resfriado – ele avisa, com de um jeito todo cuidadoso.Amélia olha para ele, com um sorriso de quem se sente em paz:- Você também está molhado... – ela mexe nos cabelos dele, e fala comsuavidade – Também precisa se trocar...- Então vamos voltar para o hotel – responde Vitor.
  • 68. Eles dão uma última olhada para as cataratas e fazem o caminho de volta napassarela, de mãos dadas.Trilha sonora: Vieste – Leninehttp://www.youtube.com/watch?v=9u6iTGeVfWEJá no quarto do hotel, Vitor começa a tirar o leve casaco que Amélia usa,enquanto ela desabotoa a camisa dele.- Até sua camiseta está úmida... Melhor você tomar um banho... – elarecomenda.- Sozinho? Não... vem comigo – ele a conduz até o banheiro.Amélia se deixa conduzir, sorrindo. Vitor abre o chuveiro, confere atemperatura da água e puxa Amélia, beijando-a enquanto a água cai sobreeles.- Vitor! Que ideia é essa, entrar de roupa no chuveiro? – ela ri.- Deu vontade – ele também ri, tirando a camiseta molhada, depois ajudandoAmélia a também tirar as roupas.- Seu maluco... – ela murmura, sorrindo.Vitor a puxa para junto de si, dizendo:- Maluco por você! – e a beija intensamente.Após um longo beijo, ele pega o sabonete e passa pelo corpo de Amélia comcuidado. Logo em seguida ela tira o sabonete da mão dele e retribui,deslizando pelo peito, braços, costas... Eles curtem aquele momento numclima de total carinho e cuidado mútuo.Após o banho, eles se recostam na cama, aconchegados. Ficam trocandobeijinhos e carinhos até que Vitor diz:- Vamos jantar aqui no quarto?- Por quê?- Ah, não queria sair... está tão bom ficar assim de chamego com você...- É, não dá vontade de sair mesmo... – ela concorda, aconchegando-se aindamais nos braços dele, que a abraça forte.- Lembra quando a gente ficava assim, no meu quarto da estalagem?- Claro que lembro... – ela sorri – Era tão difícil levantar daquela cama para irembora, nem sei como eu conseguia. Acho que era o medo de queacontecesse algo com você que me movia.- Agora não existe mais medo, só amor – ele levanta o rosto de Amélia e abeija mais uma vez.No dia seguinte, logo de manhã, eles saem para o Macuco Safari, onde naprimeira etapa do passeio andam numa carreta aberta que permite uma visãogeral do cenário ao longo da trilha, cheia de árvores centenárias e flores típicasdas matas.- Amor, olha aquelas orquídeas... que lindas! – aponta Amélia, encantada –Adoro orquídeas!- Eu sabia que seriam elas que iam mais chamar sua atenção – ele ri.- Ah, é?- É. Uma vez, antes até da gente se apaixonar, fiquei te olhando enquanto vocêcuidava das suas orquídeas lá na fazenda... cuidava com tanto carinho, quasecomo se fossem suas filhas. – Vitor olha para ela de um jeito contemplativo -
  • 69. Fiquei um bom tempo te admirando naquele dia. Acho que eu já estava meapaixonando, só não tinha percebido...- Vitor... – Amélia sorri, e dá um delicado beijo nele. Depois voltam a apreciar atrilha, que é atravessada de vez em quando por alguns animais silvestres.Ao final do trajeto, ela suspira:- Amei, Vitor! Achei tudo lindo!- Mas ainda não acabou, essa foi só a primeira parte do passeio aqui. Vem! –ele a puxa pela mão.- Onde você está me levando? – ela pergunta, enquanto o segue.- Você só vai saber quando chegar lá – Vitor responde com um sorrisotravesso.Eles chegam ao cais do Macuco Safari, na margem brasileira do rio Iguaçu. Ali,um barco inflável bimotor está ancorando, esperando pelos turistas para partir.- Você quer me levar para passear nesse barco? – Amélia questiona, um poucoinsegura.- Não se preocupa, não sou eu quem vai conduzir – brinca Vitor.- Ainda bem! – ela ri.- Ah, mas será que você nunca vai esquecer a minha trapalhada na gôndola?- Difícil, né? Quem mais vai me deixar à deriva no meio do Grande Canal deVeneza? – Amélia se diverte.- Eu mereço, eu mereço... – ele balança a cabeça, rindo – Mas não foi tão ruimassim, foi?- Agora tudo parece engraçado... – ela continua aos risos.- Já estou até vendo... quando a gente chegar a Girassol, a primeira coisa quevocê vai contar pro pessoal é que eu tentei bancar o gondoleiro e perdi oremo... Vou ser a piada do dia – Vitor reclama em tom de brincadeira.- Ah, Vitor, aquela foi histórica! Tem como não contar? – ela ri mais um pouco,depois passa os braços em torno do pescoço dele – Mas a primeira coisa queeu vou dizer é que essa foi à viagem mais linda da minha vida... mesmo comtrapalhadas.Vitor sorri, e Amélia aproxima os lábios. O casal troca um rápido beijo.- Vamos logo colocar os coletes salva-vidas, que o barco já vai partir – ele diz,pegando primeiro um colete para Amélia e a ajudando a colocar. Depois elatambém o ajuda a colocar o seu salva-vidas, e os dois se acomodam no barco.Ela solta um suspiro, enquanto esperam a partida. Vitor sorri e aponta:- Tá vendo ali, ó? É barco a motor, não vai ter problema com remos...- Eu nem falei nada... – ela ri.- Mas pensou, eu sei... Conheço seus suspiros – ele também ri.Antes que Amélia consiga responder, os motores do barco começam a fazerbarulho.- Preparada? Vamos chegar perto da base das cataratas – avisa Vitor,segurando a mão de Amélia.- Preparadíssima – ela sorri, enquanto o barco começa a subir o rio.
  • 70. XXVIIIO barco atravessa o canyon, enfrentando as corredeiras, até chegar perto dachamada “grande ferradura”, também conhecida como Garganta do Diabo, nabase das cataratas. Vitor e Amélia admiram a tudo, encantados. Estando tãoperto das quedas d’água, são inevitáveis os respingos. Mas o casal não seimporta, pelo contrário, sentem como se tivessem sendo abençoados pelanatureza.Quando começam o trajeto de volta, Vitor olha para Amélia:- Molhou aqui... e aqui... aqui... – ele diz enquanto vai enxugando o rosto delacom as pontas dos dedos.Ela sorri:- Aqui também... – devolve, passando os dedos no rosto dele.Vitor sorri de volta e beija os lábios dela com carinho. Depois Amélia acaricia orosto dele de novo:- Obrigada por ter me trazido aqui... nesse lugar lindo. Estou sentindo uma paz!Sinto como se nada pudesse nos fazer mal, sabe?Ele a estreita em seus braços:- Sei... estou me sentindo assim também. Acho que uma paz assim só sentiquanto estávamos no Jalapão.- É mesmo. Naquelas dunas, cachoeiras... só nós dois... – Amélia chega a ficaremocionada de lembrar.- ...e o nosso amor – Vitor completa, e fica pensativo – Queria ficar assim denovo com você, sozinhos em meio à natureza...- Seria maravilhoso – ela concorda.- Vou planejar isso. Mas para daqui a alguns dias... ainda temos coisas lindaspara ver aqui em Foz.
  • 71. Eles saem do Macuco Safari e vão procurar um restaurante para almoçar. Já équase metade da tarde, mas os dois estavam tão envolvidos com o passeioque nem sentiram fome.- A gente precisa ir ao Parque das Aves. Dizem que é muito bonito. Maspodemos deixar para amanhã, assim podemos ver tudo com muita calma –Vitor sugere.- Sim, amanhã... Hoje eu queria ir de novo naquele mirante perto do hotel, podeser?- Claro que pode!Após o almoço, Vitor leva Amélia para o mirante. Ela fica em silêncio,contemplando as quedas d’água, até que ele comenta:- Se você está tão encantada com as cataratas, imagina quando chegarmosem Bonito...Amélia se vira para ele, surpresa:- Hã?- Isso mesmo, Bonito, no Mato Grosso do Sul. É lá que vamos terminar nossalua-de-mel – Vitor sorri.- Nem sei o que dizer... – ela murmura, boquiaberta.Ele acaricia os cabelos dela:- Não precisa dizer nada, não... me basta ver que você está feliz.- E estou, muito... – ela põe os braços em torno do pescoço dele – Te amo,sabia?- Sabia... mas é sempre bom ouvir de novo – retruca Vitor, com um sorrisotravesso.Amélia ri e vai aproximando os lábios, para um beijo que acontece entresorrisos.Trilha sonora: Tudo - Gonzaguinhahttp://www.youtube.com/watch?v=UdBNorXfVp4No outro dia, eles chegam cedo ao Parque das Aves. Logo na entrada,conhecem a Árvore da Vida. Junto dela, há uma placa com uma lenda queVitor lê em voz alta:“Em suas andanças pelo mundo, o jovem deus Wotan se depara com a Árvoreda Vida. Entre as raízes da árvore nasce a Fonte do Saber”.O Deus oferece um olho em sacrifício para beber da água e então com suaespada corta um pedaço do tronco.Com esta madeira ele cria uma lança, na qual entalha as regras do mundo.Com esta lança ele domina o mundo.Mas… A árvore ao ser ferida morre e a Fonte do Saber seca.A árvore pega fogo, se espalha e consome toda a Terra.Depois a água inunda tudo… extinguindo homens, gigantes, anões e deuses.As águas descem… e a natureza ressurge, porém desta vez sem sereshumanos.”- Sabe o que quer dizer essa lenda, Amélia? Que a natureza não precisa denós, somos nós que precisamos dela.- É verdade... – ela concorda, ainda refletindo sobre a história, enquantocontempla os pássaros que voam em torno da Árvore da Vida.
  • 72. Em seguida eles visitam viveiros de araras e papagaios. Uma placa avisa queuma arara azul, encolhida no tronco, teve as asas amputadas por traficantesantes de ser resgatada pela polícia florestal.- Meu Deus! Como pode alguém ser tão cruel? – Amélia fica chocada.- É, não dá nem pra chamar um ser desses de humano... – responde Vitor.- Não dá mesmo... é muita maldade. Amputar um bicho tão lindo, só pordinheiro? Imagina a dor que essa pobre arara sentiu? – ela diz, quasechorando.- Calma, Amélia... – Vitor a abraça – Também não me conformo. Mas essaarara, pelo menos, foi salva.- É... – Amélia esboça um sorriso, olhando para a ave – Espero que ela nuncamais passe por nenhum sofrimento.Andando mais um pouco, encontram um lago com flamingos e cisnes.- Olha os cisnes, Vitor! Que lindos! - exclama Amélia.- Isso me lembra O Patinho Feio, sabia? Eu gostava muito dessa históriaquando era criança...- Por quê? Você devia ser uma criança linda, loirinho assim, com esses olhosverdes... – ela se surpreende.- Justamente por isso. Eu era aquela criança que os adultos acham linda... Eque os outros meninos invejam. Meus colegas viviam me zoando, implicandocomigo. E eu, pra querendo me impor, tentava resolver na porrada – ele ri –Geralmente era por causa das brigas que eu voltava esfolado do colégio...- Não consigo imaginar você brigando com os coleguinhas...- Melhor assim, nem tente... Continue com a imagem de bom moço que vocêtem de mim – Vitor dá outra risada.- Sei... – Amélia também ri.Depois de visitarem mais viveiros de aves, eles chegam à área dos répteis,onde veem jiboias, sucuris e jacarés. Vitor se encanta com uma iguana:- Olha só... queria ter uma dessas de bichinho de estimação.- Para, Vitor... – Amélia não leva a sério.- Quero mesmo, dá pra criar no apartamento – ele insiste, querendo rir.- Não, o lugar delas é na natureza – ela censura.- Tá certo, desisto – Vitor não consegue mais segurar os risos.Seguindo a trilha, eles visitam o borboletário, onde Amélia fica fascinada comas diversas cores das borboletas. Junto dali ficam também os beija-flores.- Adoro beija-flores! Me sentia recompensada quando aparecia algum parabeijar as minhas flores lá na fazenda... – ela comenta.- São lindos mesmo – Vitor concorda – Mas vamos em frente, que eu quero veras corujas. Acho fascinantes... elas têm um ar misterioso, né?- Têm. E são o símbolo da sabedoria, você sabia?- Sabia, sim, professora – ele brinca.- Bobo! – Amélia dá um tapinha nele.Vitor a segura pela cintura:- Sabe que eu gosto quando você me chama assim?- De bobo?- É – ele ri – Fico com vontade de te mostrar que não sou tão bobo assim...Vitor puxa Amélia para junto de si e a beija apaixonadamente.
  • 73. XXIXApós um longo beijo, Amélia afasta Vitor com dificuldade:- Ai, Vitor... você fica me roubando beijos e agora olha lá, o guia e os outrosturistas já foram adiante e nós ficamos para trás... – ela censura brincando.- Você não gostou? – ele retruca com um olhar travesso.- Gostei – Amélia ri, e puxa Vitor pela mão – Mas agora vamos, rápido.Eles dão uma corridinha, aos risos, alcançando o grupo.Depois de visitarem os últimos viveiros, Amélia suspira:- Que lugar lindo, Vitor! Todos esses pássaros... e outros animais...- Aqui a gente vê que somos só uma pequena parte de algo muito maior, né?Às vezes a gente se distancia tanto da natureza que se esquece disso.- Verdade... - ela fica pensativa – A Rurbana podia apoiar algum projeto comoesse parque, não acha? Algo no Araguaia ou no Jalapão.- Vamos ver isso, sim, assim que chegarmos em casa – ele concorda, com umsorriso entusiasmado – Agora vamos almoçar, para voltar cedo ao hotel...partimos ainda hoje para Bonito.Eles chegam ao Mato Grosso do Sul à noite, e vão direto para o quarto queVitor já havia reservado num hotel-pousada. Após se acomodarem, Vitor sejoga na cama:- Chega por hoje, né?- Chega do quê? – Amélia pergunta, sentando na cama, perto dele.- De sair, andar, ver coisas... quero olhar só pra você agora. Vem cá – ele apuxa, fazendo-a deitar junto dele.Ele percorre o rosto dela com os dedos, delicadamente, depois cola seus lábiosdela. O beijo começa suave, mas vai ficando mais intenso. Já com a respiraçãoalterada, Vitor vai tirando a roupa de Amélia, beijando o corpo dela. Ao mesmotempo, ela vai subindo a camiseta dele, e apertando suas costas com aspontas dos dedos. Vitor encaixa seu corpo ao de Amélia, e eles se amam atéadormecerem nos braços um do outro.
  • 74. Trilha sonora: As Coisas Tão Mais Lindas – Cássia Ellerhttp://www.youtube.com/watch?v=jOowmbyhZnkNa manhã do dia seguinte, Vitor leva Amélia para o Aquário Natural. Primeiroeles treinam numa piscina o uso de máscara e snorkel. Só depois eles vãopara o rio Baía Bonita praticar a flutuação, onde se usa o equipamentonecessário para não tocar no fundo e nas plantas, assim evitando que a águaturve. Os pedriscos do leito do rio refletem a luz do sol em tonalidades quevariam do azul ao prata. Como se estivessem num imenso aquário, Amélia eVitor flutuam entre várias espécies de peixes, que nadam entre as plantasaquáticas ondulantes.Quando voltam para o barco de apoio, Amélia comenta, ainda encantada:- Vitor... acho que nunca vi nada tão lindo quanto esse rio.Ele sorri, olhando para ela:- Eu já vi... você!Amélia dá um sorriso iluminado e o beija com carinho, emocionada.Saindo dali, eles pegam a trilha até o rio Formoso.- Vamos, Amélia, soube que tem algo muito legal aqui... – avisa Vitor, sorrindode um jeito travesso e puxando-a pela mão.- O quê? – ela pergunta, seguindo-o sem escolha.- Isso! – já na margem do rio, ele aponta para um pula-pula inflável dentro daágua.- Você não está querendo que eu suba nisso?- Vai ser divertido... vem!- Não, Vitor...- Vem, não tem perigo... eu cuido de você.Sem conseguir resistir, Amélia se deixa conduzir até o pula-pula. Vitor seguraas duas mãos dela, à sua frente, e vai dando impulso de leve. Nos primeirospulinhos ela ainda está tensa, mas logo relaxa e pulam juntos com mais força,aos risos. Vitor vai chegando mais perto de Amélia sem parar de pular, e derepente a abraça. Assim, com os corpos colados, continuam pulando mais umpouco, até que ele a “derruba” no meio do brinquedo, caindo junto, por cimadela.- Vitor! Por que você fez isso? – ela reclama.Ele dá um sorriso travesso:- Pra fazer outra brincadeira... – Vitor junta seus lábios aos dela, e sem pararde beijá-la vai rolando até caírem na água.Entre risos, eles trocam mais beijos dentro do rio, até que Amélia comenta:- Vitor... só você pra me colocar numa dessa... brincar num pula-pula!- Mas não foi divertido?- Foi! – ela ri.- É bom voltar a ser criança de vez em quando... você está com um sorriso tãolindo! – ele a contempla.- Estou me sentindo leve...Vitor olha para Amélia com paixão e abraça forte:- Humm, como é gostoso estar na água com você! Adoro! Que pena que nãoestamos sozinhos... – ele afasta o rosto o suficiente para encará-la com umolhar malicioso.
  • 75. - Vitor! – ela o censura.- Eu sei, vou me comportar... Dá só um beijinho?- Só um – ela sorri, aproximando os lábios.À noite, enquanto Amélia se prepara para dormir, Vitor conta:- Amanhã quero te levar na Gruta do Lago Azul... Mas preciso saber se vocêestá disposta a um certo exercício, porque para chegar à gruta tem que desceruma escadaria rústica.- Quantos degraus?- Só 300.- Só? – ela ri.- Amor, nós sobrevivemos aos mais de 900 degraus da Cascata do Caracol...300 vai ser moleza!- Ah, vai... – Amélia ainda acha graça.Os dois ficam apenas rindo juntos por alguns instantes, até que ela diz comconvicção:- Você tem razão, a gente aguenta essa escada.- Assim é que eu gosto, corajosa... – ele sorri, mas logo muda para um arpreocupado – Ah, mas toma cuidado, viu, presta bastante atenção onde pisa!- Pode deixar, eu cuido... e qualquer coisa, você me salva – Amélia respondecom um sorriso travesso.- Não brinca com isso – ele retruca, muito sério – E se eu não conseguir tesalvar, hein? Não quero nem pensar...- Desculpa... não brinco mais – ela se aproxima dele com um olhar dearrependimento, e o beija delicadamente – Não vai acontecer nada, tá?Vitor olha para ela, ainda com um jeito angustiado:- Não posso te perder, Amélia... não consigo nem imaginar isso.- Não, isso não vai acontecer – ela segura o rosto dele entre suas mãos e olhafixamente em seus olhos – Também não posso ficar sem você...Ele finalmente dá um leve sorriso, e tira as mãos dela de seu rosto, beijando-lhe as palmas, depois a puxa para junto de si, beijando-a, primeiro de leve,depois com avidez, como se tivesse uma necessidade imensa daquele beijo.Depois, Vitor acaricia o rosto dela enquanto diz:- Vai ser mais um dia lindo, sabia? Já estou imaginando você, naquelas águasazuis...XXX
  • 76. Ansiosos, Vitor e Amélia seguem o guia até a entrada da Gruta do Lago Azul.Vitor desce os primeiros degraus da escadaria e chama:- Vem, Amélia... com cuidado.Eles vão descendo devagar. Ao chegarem à base da escada, ficamboquiabertos com o que veem: um lago de águas intensamente azuladas,cercado por formações rochosas como estalagmites e estactites, no teto e nopiso da gruta.- Meu Deus... esse lugar é de verdade? – murmura Amélia, aindaimpressionada.- É sim, meu amor... – responde Vitor, também maravilhado. Ele puxa a mãodela – Vem...Os dois chegam mais perto da água e se ajoelham na margem do lago. Ficamalgum tempo apenas mexendo naquelas águas com as mãos, vendo aqueleazul infinito ondular-se com o movimento.- Cuidado, a profundidade do lago pode chegar a 80 metros – avisa o guia.- Obrigado, não vamos sair da margem – garante Vitor.Amélia faz uma concha com as mãos e pega um pouco de água do lago,despejando no rosto. Vitor a observa, sorrindo. Ela pega mais um pouco deágua, e despeja no rosto dele, depois sorri. Ele a olha com jeito de quem vaiaprontar algo, e de repente começa a jogar água na direção dela, feito umacriança brincando na piscina. Ela ri e joga também água nele. Ficam os doisbrincando assim por algum tempo, até que, bem molhados, param e ficamapenas rindo.- O que foi isso, Vitor? – Amélia pergunta, sem conseguir parar de rir.- Não sei – ele também continua aos risos – Será que a gente encontrou afonte da juventude e voltou a ser criança?- Não... – ela sorri de um jeito iluminado, e abre bem os braços – Acho queestamos só nos sentindo livres!Sorrindo também, Vitor chega mais perto e a beija, depois ajeita os cabelosdela, que ficaram bagunçados na brincadeira:- Olha só, está toda molhada...- Você também, dá pra torcer sua camiseta... – Amélia ri.- Hora de voltar, então? – ele faz um bico.- Ah, que bonitinho... Mas não adianta fazer essa cara, o guia já está nosesperando lá na escada.Vitor se levanta e estende as mãos para Amélia, ajudando-a a se levantar.Eles seguem passeando por Bonito. No final do outro dia, Amélia está noquarto, se arrumando depois do banho, quando Vitor entra:- Amor, já fechei a conta.- Como assim? Vamos embora hoje?- Não, só amanhã.- Mas... não estou entendendo.Ele sorri:- Vamos passar essa noite em outro lugar – ele vai até o armário e tira um saco– Está vendo essa barraca? Eu aluguei.- Você está querendo dizer que... – ela balbucia, incrédula.Vitor balança a cabeça afirmativamente:- É, nós vamos acampar. Consegui um local bem tranquilo, perto do rio.- Vitor... você está brincando, né?
  • 77. - Não, Amélia. Já está tudo preparado: colchonetes, lanternas, mantimentos...- Como você providenciou tudo isso sem eu ver? – ela parece lembrar-se dealgo – Ontem, enquanto eu estava no banho, você foi pra rua... ah...- Eu já tinha encomendado tudo por telefone. Sou eficiente, meu amor... – eledá uma piscadinha.- E convencido! – Amélia ri, e olha para o saco da barraca, nós pés deles,depois volta o olhar para Vitor – Ai... eu ainda acho isso uma loucura, mas... euvou passar a noite com você na beira do rio, claro que eu vou.- Vai ser uma noite linda, te prometo. Até encomendei um céu estrelado, sabia?– ele diz com um sorriso.- Bobo... – derrete-se Amélia.Vitor sorri e dá um beijo nela, interrompendo repentinamente:- Ah, nossas malas vão ficar aqui no hotel, antes de partir definitivamente deBonito a gente vem busca-las – ele volta até o armário – Agora vamos levar sóalgumas roupas, nessa mochila. Não esquece o biquíni, hein?- Vou precisar, é? – ela pergunta achando graça.- Vai... Mas se você preferir tomar banho de rio sem biquíni, acho até melhor...– ele devolve com um olhar malicioso.- Até parece... – ela ri – Vou pegar as roupas... e o biquíni, tá?Aos risos, eles arrumam o que falta antes de deixarem o hotel.Trilha sonora: É Necessário – Almir Saterhttp://www.youtube.com/watch?v=pF_5jwnegrQVitor monta a barraca no local reservado, depois estende os colchonetes dolado de fora. Ele liga um pequeno tocador de música portátil, colocando paratocar a canção “É Necessário”, de Almir Sater. Amélia ainda está de pé,observando tudo. Vitor senta no colchonete e chama:- Vem! Vai ficar aí só olhando?Ela ri e senta ao lado dele, que acaricia o rosto dela:- Olha em volta... – Amélia obedece, e ele continua – Só nós e a natureza.- Você disse que ia planejar outro momento assim, como no Jalapão... ecumpriu – ela sorri, encantada.- Isso mesmo... Essa noite é totalmente nossa.Ele beija de leve os lábios dela, depois convida:- Deita aqui, juntinho de mim – Vitor ajuda Amélia a se aconchegar nos braçosdela – Agora olha pra cima... não disse que o céu estaria cheio de estrelas?Amélia fica algum tempo em silêncio, contemplando aquele céu salpicado deestrelas, como se estivesse imersa nele. Quando se volta para Vitor, ela tem osolhos marejados:- Lindo, lindo... olhando assim, desse jeito, parece que estamos mergulhadosnesse céu...Ele acaricia o rosto de Amélia de novo, e sussurra:- Mas a estrela mais linda está aqui do meu lado...Ela sorri, e os lábios vão se aproximando até se juntarem. Beijam-se sempressa, como se tivessem todo o tempo do mundo para ficarem ali, entreguesàquele momento. Sem pensar em mais nada, Vitor vai tirando a roupa deAmélia devagar, acariciando cada parte do corpo dela que descobre. Ele parapor um instante e contempla o corpo de Amélia diante dele. Então, ela vaitirando a camiseta dele, deslizando as mãos por seu tórax. Ofegante, Vitor vê
  • 78. Amélia desabotoar a calça dele, e ajuda a tirar o que falta. Com cuidado, elesvão colando seus corpos, e se amam ali mesmo, sob as estrelas.Já é madrugada quando Amélia acorda, e se junta mais a Vitor.- Tá com frio, amor? – ele pergunta com voz de sono, percebendo que elainstintivamente busca se aquecer abraçando-o.- Sim...- Também, nós acabamos adormecendo aqui fora, desse jeito... – ele sorri,passando a mão pela máxima extensão do corpo dela que consegue – Vamospra barraca, vem...Eles juntam as roupas e entram. Amélia tenta vestir a blusa, mas Vitor aimpede:- Larga isso... – ele murmura, tirando a blusa das mãos dela e jogando numcanto da barraca, Em seguida, começa a beijar o colo dela, subindo atéencontrar os lábios. Amélia se entrega aos beijos, sem pensar em mais nada, eeles se amam mais uma vez, depois dormem abraçados.XXXIO sol já está alto quando Vitor acorda e abre a portinha da barraca, espiandopara fora. Ele sorri ao ver o céu muito azul, sem nenhuma nuvem. Depois voltapara junto de Amélia e diz, perto do ouvido dela:- Acorda, amor... vem ver como o dia está lindo!Ela abre os olhos e sorri ao vê-lo:- Bom dia...- O dia vai ficar melhor ainda depois que você colocar seu biquíni e meacompanhar – ele diz com ar travesso.Amélia se espreguiça, depois procura o biquíni na mochila. Quando ela estápronta, os dois saem da barraca. Amélia olha em volta, encantada com o céuprofundamente azul, a água do rio brilhando com a luz do sol, a vegetaçãoemoldurando tudo.- Está lindo mesmo... – ela comenta.- É... – Vitor concorda, e sem aviso a pega no colo.- Vitor! O que você vai fazer? – reage Amélia, pega de surpresa.Vitor apenas ri, e pula dentro do rio com Amélia nos braços. Já dentro da água,a enlaça pela cintura e a beija demoradamente, mergulhando e voltando à tonasem parar de beijar.- Pronto, agora acordamos pra valer – ele explica entre risos.- Eu digo que você é maluco... – ela também ri.- Vai dizer que não gosta das minhas maluquices?Ela põe os braços em torno do pescoço dele:- Adoro! – responde sorrindo, e o beija.Quando saem da água, Vitor liga o fogareiro e bota água para esquentar.Depois vai tirando uma porção de coisas da mochila:- Ó, tem café solúvel e leite em pó, e também biscoitos doces e salgados, boloinglês, barrinhas de cereal... Não sei se vai ser uma refeição à sua altura,minha linda dama, mas temos um café da manhã – ele brinca.- Você não existe, Vitor... pensou em cada detalhe!
  • 79. - Claro, pensei em tudo com muito cuidado, para saísse nada menos do queperfeito...- Você que é perfeito, sabia? – suspira Amélia.- Não... eu tento ser... pra você! Só pra você.Ela sorri e se joga nos braços dele, enchendo-o de beijos.- Você disse que nossa viagem ia ser um sonho... e foi mesmo! Muito mais doque eu podia imaginar. Essa última noite, então, foi algo que nunca passoupela minha cabeça... acampar, dormir num lugar desses...- Você gostou? – ele pergunta sorrindo.- Achei maravilhoso! Nunca vou esquecer dessa noite... obrigada por ter meproporcionado tudo isso, meu amor... – ela responde quase emocionada.- Tá achando que acabou? Não... ainda tenho mais uma surpresa pra você.- Mais? – ela fica boquiaberta.- É, mas primeiro vamos tomar nosso café – ele pega o sachê de café solúvel ecomeça a ler as instruções – Você sabe como se prepara esse negócio? É sómisturar na água?- Dá aqui que eu faço... – ela ri, colocando as canecas perto de si.Amélia prepara o café com leite dos dois, e eles fazem a refeição num clima depura alegria. Depois Vitor desmonta a barraca e guarda todas as coisas namochila, enquanto Amélia coloca uma blusa e uma calça sobre o biquíni. Vitortambém veste uma bermuda sobre a sunga e uma camiseta, coloca a mochilaàs costas, e então estende a mão à Amélia:- Vem, amor, a gente vai pegar uma trilha agora...- Pra onde?- Surpresa, lembra?- Ah... – ela sorri, dando a mão à Vitor, e os dois seguem em direção à trilha.Depois de caminhar algum tempo, um som chama a atenção de Amélia:- Amor, esse barulho... é o que estou pensando?- É... – ele sorri – Estamos chegando.- Eu devia ter imaginado... você não iria embora sem fazer isso – ela ri.- Claro que não! Olha lá, já está dando pra ver...
  • 80. A cada passo, Amélia fica mais maravilhada com que vê: várias quedas d’águaagrupadas numa linda cachoeira que quase forma uma parede de água, comoutras cachoeiras menores por perto. Ao chegarem à margem do rio, Vitorlarga a mochila e tira as roupas, enquanto Amélia permanece estática,contemplando aquela paisagem.- Amor?- Hã? Que foi? – ela parece despertar de um transe.- Tira essa roupa logo, vamos tomar banho de cachoeira!Amélia ri da empolgação dele, que parece um menino ansioso, e tira calça eblusa rapidamente. Com cuidado, vão entrando na água de mãos dadas. Vitora conduz até a cachoeira, onde primeiro apenas sentem a água caindo sobreseus corpos, depois trocam beijos apaixonados debaixo da água.Eles se recostam numa pedra, bem junto da cachoeira, sem saírem totalmentede dentro do rio. Vitor percorre o corpo de Amélia com o olhar:- Você está tão linda assim, com os cabelos molhados, as gotinhas de águabrilhando em sua pele...Ele a traz para mais junto de si e a beija com paixão. Ficam trocando beijos ecarinhos, sem pressa, depois mergulham de novo e se banham mais uma vezna cachoeira. Ainda dentro da água, Vitor diz:- Agora sim, nós podemos voltar pra casa...Amélia sorri:- Como eu vou me acostumar com a vida normal, depois de tudo isso?- Não precisa se acostumar. De vez em quando a gente pega um avião e fogepor alguns dias... – ele responde, sorrindo também.- Ah, é? Você vai continuar me fazendo surpresas?- Sempre! Vou continuar te surpreendendo, te amando, querendo você bemjuntinho de mim... – Vitor fala aproximando os lábios de Amélia, terminando emum beijo intenso e demorado.Trilha sonora: Soneto do Teu Corpohttp://www.youtube.com/watch?v=ypicmQUKJJw * FIM *