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H
Á
R
I
S
Kathársis

2008/2009


 Edições BiblioFaria

          2
Edições BiblioFaria

Escola Secundária Severim de Faria
Estrada das Alcáçovas, 7000 - Évora


Reservados todos os direitos...
Somos todos escritores. Só que uns escrevem, outros não.

                                         José Saramago




     ...
PREFÁCIO

À LAIA DE INTRODUÇÃO



É-me particularmente grato aceder ao convite que me foi endereçado
para, em duas palavra...
sentido da magia das palavras. E essa afirmação da palavra não é uma das
menores virtudes do concurso que agora honramos.
...
ILUSTRAÇÃO 1 SELFDRAW, DAVID CHORÃO




7
PROSA I




          8
VIAGEM AO PALEOLÍTICO


      Olá, eu sou o MELF. Vivo no Paleolítico Superior e vou relatar mais um
dia normal da minha p...
DESEJO

        Devia ter uns sete anos, não sei ao certo, mas caminhava sozinho pela
rua, arrastava a sola dos sapatos no...
tinha-se apagado, o meu coração era agora um ponto final, sem parágrafo a
seguir. A luz branca da lua ofuscou-me e, quando...
RIOS DE VENTO

      Ultimamente os dias têm sido cheios de nada, o tempo é o único que
passa pela minha vida, mais nada s...
Voltei a sentir-me criança e sorri, coisa que já não fazia há algum tempo.
Corri, saltei e por fim deitei-me no meio daque...
UM DIA…

        O apito do comboio soou nos meus ouvidos e os meus olhos já o
avistavam ao longe. Faltavam poucos segundo...
A viagem que tinha prometido fazer estava diante do meu coração e da
minha alma, porque o que é realmente importante é aqu...
ILUSTRAÇÃO 2 HADES, DAVID CHORÃO




16
POESIA




         17
SONHO DE MENTIRA

És como areia
Foges-me entre os dedos
Corres para longe
E tornas reais os medos

Nunca digas que estás s...
DISCRETO SER HUMANO

Prevejo os teus olhos ao nascer do Sol,
Sinto tocares-me na manhã fria,
Espero pacientemente pela tua...
MEMÓRIAS DESOLADAS


Um pequeno brilho no ar,
Um cheiro antigo,
Coisas que mal me lembro.

Recordações suaves,
Momentos po...
CAROLYNA

Somente mais uma rapariga,
No meio de tantas outras,
Com o mesmo nome,
Tanta vida por aí.

Esta é diferente,
Rou...
O SUSSURRO

Um secreto sussurro,
Caiu-me nas mãos,
Olhei para ele,
Pediu-me segredo.

No telhado o escondi,
Sob o céu estr...
ILUSTRAÇÃO 3 SEM TÍTULO, MARTA CRISTO




23
Um Sonho…

Um sonho é uma viagem
Realidade ou Imaginação?
Um sonho não tem margem
Dentro do nosso coração

Serás realidade...
ESCURECER

Um dia a mais bela flor murchará
E aí tudo o resto acabará

A alegria há-de morrer
E a tristeza renascer

Os so...
TU…

O dia e a noite
Que diferença pode haver?
Se não há ninguém que conte
Tudo aquilo que podemos ver

Quando o mundo des...
VIDA

A vida é feita de tormentos
Mas temos que aprender,
Nos bons e maus momentos
A ganhar e a perder

A distância separa...
EU


Não tenho significado
Não sou nada para ninguém
Arrependo-me de ter ficado
E sinto que não estou bem

Sinto-me perdid...
UMA AMIGA


Quando pensares que nada tem sentido
Lembra-te de bons momentos
Nada estará perdido
Se acreditares nos bons pe...
UMA FLOR


Uma simples flor
Com um simples odor

Enterrada no mar
Louca por te amar

Enterrada no chão,
Enterrada no coraç...
NÃO VOU RECUAR


Não eras assim
Mudaste completamente
Eras tudo para mim
E foste-te de repente

Gostava que voltasses
A se...
O INCERTO


Nunca sabemos
Aquilo que nos reserva
Mas conhecemos
O inferno que é esta selva

Podemos morrer
Como podemos vi...
LEMBRANÇA


Tu morreste
Talvez nunca viveste,
Um dia foste essencial
Mais do que especial

Foste uma vida
Foste uma espera...
ILUSTRAÇÃO 4 GOKU, DUARTE ALVES




34
ESPERANÇA NUMA FLOR



  Luz sem vida,
  O começo de uma flor.
  Sozinha… Encurralada…
  Sem vida… Sem cor…

  Bondade pel...
AO VISLUMBRE DO LUAR


  Foi naquele glorioso momento,
  Uma glória sentida por céus e paraísos,
  Que fui capaz de residi...
ENQUANTO ESTIVERES AÍ

Sou superior
Às ondas a bater na rocha
Sou superior
Ao sol a estalar o chão
Sou superior
Às escolha...
POR NÃO SABER ESCREVER

Morro por não saber
O que aconteceu para me esquecer.
Dou corda ao relógio das palavras
Que se par...
RETICÊNCIAS

O vento sopra
E a magia paira
Nos raios de invisibilidade
Que me compõem
Tu choras esquecida
Entre pedras
Ent...
ILUSTRAÇÃO 5 PANGOLIM 2, DAVID CHORÃO




40
E NESSE DIA?

Não sei como lidar
Com aquele aperto
Será saudade?
Será medo?
Não sei.
Ou talvez saiba
É tudo,
Também lhe po...
COMO NUM FILME

Os dias passam
À velocidade de um segundo
O sangue corre, ou deixa de correr,
Nas nossas veias
Passamos, o...
ILUSTRAÇÃO 6 YIN E YANG, PEDRO FERREIRA




43
NÃO OLHES PARA TRÁS

Não olhes para trás,
Para o caminho que percorreste,
Podes não gostar do que vês,
De ver as coisas qu...
TRISTEZA



Num olho sem vida
Vejo mais que um olhar de despedida
É um sonho, uma canção, um pedaço de nada
Uma esperança ...
CASTIÇAIS DE CRISTAL SUSPENSOS

Existem mentiras nos espelhos
Para os quais olho.
Nestas mentiras penso,
A minha cara não ...
ILUSTRAÇÃO 7 PASSAR O TEMPO – A CORES, JOANA CATELA




47
PROSA II




           48
TIRO PERDIDO




  Prólogo

Mal podíamos esperar que o dia acabasse e regressar a casa para podermos
falar sobre tudo o qu...
Capítulo I

Ao chegar a casa, agi como todos os dias. Tomei banho, fiz os trabalhos de
casa, jantei e, por fim, dirigi-me ...
Capítulo II

E agora, aqui estou… sentada no sofá da minha sala vazia de qualquer tipo de
sentimento bom. Não há lugar par...
14 de Janeiro de 1994

Hoje decidi escrever um poema, apeteceu-me. É sobre tudo o que me tem
acontecido ultimamente. É ele...
A felicidade, digo eu, não existe. Constrói-se.
E para que haja felicidade temos que errar e sofrer… É isso que nos torna
...
31 de Janeiro de 1994
Continuas a preencher-me o coração e eu odeio-te por isso… Odeio-te porque
és muito especial para mi...
16 de Fevereiro de 1994

Amigo… Não há definição escrita num dicionário porque a amizade não se
define, vive-se! Vive-se t...
2 de Março de 1994

Chateei-me com a minha melhor amiga… Agora que tinha superado toda a
minha tristeza com a sua ajuda, e...
Tudo o que acontece deixa marcas. Por vezes boas, por vezes más.
Na nossa amizade, a nossa zanga só deixou marcas boas. To...
26 de Março de 1994
Não posso, não quero e não consigo!
Por muito que tente não dá.
É um sentimento muito forte mas nada é...
15 de Abril de 1994

Sinto-me feliz e de repente todos os receios e preocupações desapareceram.
Finalmente abri a minha me...
ILUSTRAÇÃO 8 NOVA VIDA - A CORES, ELSA VILA




60
A MENINA DOS CABELOS DA COR DO CÉU

Era uma vez dois jovens inexperientes: o Sol e a Lua.
À medida que foram crescendo, fo...
A Lua, que viu a outra filha aproximar-se, correu para as duas e disse:
— Tens de te afastar! As pessoas estão espavoridas...
PEQUENA HISTÓRIA DE UM PEQUENO SONHO


Era uma vez um sonho. Um sonho puro, sonho de crianças. O sonho de um
mundo diferen...
MUNDO A CAIR


As poucas folhas que se aguentavam nas majestosas árvores, envergonhadas
pela sua própria nudez, acabavam s...
O SOM DO MEU BAILAR


Eu sou um piano. Não um piano qualquer!...

      … Sou um piano amado…

Já se passaram séculos desd...
estavam cobertos por maravilhosas histórias coloridas, com o objectivo de
harmonizar; foi naquele momento que eu passei a ...
negro, outrora arruinado, foi reparado por várias pessoas, que se esforçaram
ao máximo para a perfeição se tornar comum no...
perguntou, com uma grande curiosidade, o porquê de ele querer um piano tão
mal tratado, e ele respondeu que eu era algo qu...
CARTA A MARGOT


1 de Maio de 2009

Querida Margot,

Fico feliz por saber que está tudo a correr bem por aí. Como eu já te...
o pudesse privar de alguma coisa… Eu só posso ser muito estúpida por ainda
me preocupar, e tentar entender. É tão estranho...
A CADA NASCER DO SOL

― Tudo começou naquela noite escura, mais precisamente a noite mais escura
do ano: o solstício de In...
extremamente inteligente que fez um grande trabalho a simplificar a vida às
pessoas, com grande sentido de estilo) e de um...
calmos, que estava tudo controlado, e decidi entrar em casa para ver se algum
fusível tinha rebentado.
Passei pela sala, o...
espinhos que se cravavam na lua em quarto crescente. Quando olhei para
aquilo voltei a sentir a dor de cabeça que tinha se...
ILUSTRAÇÃO 9 MEMÓRIAS A CORES, JOANA CATELA




75
- Vem para dentro Eleina, não há nada que possas fazer para mudar o que
acontecer! – Ele estava tão transtornado como eu, ...
família que eu tanto tinha desprezado, e cada coisa que passava pela minha
mente ia aumentando o nó que tinha na garganta,...
Olhei para cima desdenhosamente.
- E se não levantar?
- Não estamos aqui a brincar, rapariga! – Vociferou o homem – Esperá...
- Eleina…fica-te bem…combina contigo.
- Não sei o que queres dizer, mas também não interessa. Estou farta desta
conversa s...
Todo o poder acumulado por ele soltou-se, demorou apenas uma fracção de
segundos, tive medo que me atingisse, verdadeiro m...
Eu estava a ficar histérica.
- Mas saber o quê?
O meu irmão tentou falar, mas foi imediatamente interrompido pela minha mã...
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Kathársis2009

  1. 1. K A T H Á R I S
  2. 2. Kathársis 2008/2009 Edições BiblioFaria 2
  3. 3. Edições BiblioFaria Escola Secundária Severim de Faria Estrada das Alcáçovas, 7000 - Évora Reservados todos os direitos de acordo com a legislação em vigor Junho de 2009 Título original: Kathársis Revisão: Paginação: 1ª edição: Junho de 2009 Depósito legal: 13 13 13 /07 Impressão e acabamento: escola-casa- reprografia ISBN: 3
  4. 4. Somos todos escritores. Só que uns escrevem, outros não. José Saramago 4
  5. 5. PREFÁCIO À LAIA DE INTRODUÇÃO É-me particularmente grato aceder ao convite que me foi endereçado para, em duas palavras, assinalar o décimo aniversário do Concurso Literário “Kathársis”, promovido pela Escola Secundária de Severim de Faria. Não se trata, em rigor, de um prefácio por excelência, dado que neste texto se não faz, nem pode fazer, qualquer espécie de apreciação literária. O que aqui, um pouco à laia de nota introdutória, se pretende firmar é a relevância que um concurso desta natureza assume nos tempos que correm. Pouco importará, neste contexto, enaltecer os premiados, que merecem, naturalmente, um enfático estímulo, mas sublinhar o carácter de ampla participação de alunos de todos os anos de escolaridade que têm contribuído, como anónimos militantes, para a causa da Língua Portuguesa e a ela associada para a reflexão sobre o papel do Eu e do Nós, em turbilhões de sentimentos, de contradições, de histórias, de atitudes, de ideias, de construções, de vontades e vivências. Atrever-me-ia mesmo a dizer que a Língua Portuguesa tem de ganhar o estatuto de grande causa. O “Kathársis”, fruto da persistência, do envolvimento, do esforço, da dedicação e determinação e, às vezes contra ventos e marés, tem sabido responder a este desafio, a todos os títulos cativante, que aos Portugueses se coloca e se deve colocar, e de forma muito actuante, aos nossos estudantes na defesa e na expansão desta Língua, única, complexa, rica, depressiva, altiva, vibrante, símbolo de um património que não se pode permitir ser ameaçado. Dez anos é muito tempo numa escola com pouco mais de trinta de existência, razão por que o “Kathársis” se constitui, indubitavelmente nesta data, como um selo cultural da nossa vida interna e colectiva. E continua a construir-se, insistindo num posicionamento de não conformismo perante a contra-corrente dos que, há muito, ou há pouco, desistem da língua enquanto seus cultores, e sobretudo, perderam o 5
  6. 6. sentido da magia das palavras. E essa afirmação da palavra não é uma das menores virtudes do concurso que agora honramos. Por tudo isto, e certamente por muito mais, o “Kathársis” está de parabéns, como de parabéns estão todos os que o edificam, sendo, em absoluto, justo destacar a Dr. Ana Paula Fadigas por ser a sua máxima, pertinaz, obreira. O “Kathársis” é hoje uma marca fundamental de uma Escola que teima em fazer da cultura um desiderato identitário. Para sempre. Carlos Percheiro 6
  7. 7. ILUSTRAÇÃO 1 SELFDRAW, DAVID CHORÃO 7
  8. 8. PROSA I 8
  9. 9. VIAGEM AO PALEOLÍTICO Olá, eu sou o MELF. Vivo no Paleolítico Superior e vou relatar mais um dia normal da minha pequena vida. Levantei-me quando o primeiro raio de sol bateu no meu acampamento. Quando já todos nos tínhamos levantado, começámos a trabalhar e o nosso chefe foi ver o que é que nós estávamos a fazer. Agarrei no meu percutor e comecei a dar pancadas precisas no núcleo, a fim de fabricar uma ponta de lança. Acabei e fui colher bagas para o meu almoço. Passada essa fase, fiz uma agulha com todo o cuidado, para a minha mulher confeccionar algum vestuário, utilizando as peles da caçada que tínhamos realizado há alguns dias. Depois, com um arpão que construí, fui ao rio pescar, e aproveitei para trazer água para o meu acampamento. Nesta actividade, demorei o dia quase todo. Então, apanhei uns bocados de madeira. Produzi o fogo com muita paciência, e assei a carne da caçada. Comi e convivi com a família e os amigos à volta da fogueira. Finalmente, fui-me deitar para me preparar para outro emocionante dia que, de novo, me espera. Miguel Ferrão, 7º Ano 9
  10. 10. DESEJO Devia ter uns sete anos, não sei ao certo, mas caminhava sozinho pela rua, arrastava a sola dos sapatos no alcatrão e cantarolava. Parecia feliz, tinha um grande sorriso e um brilho nos olhos. Carregava uma mochila verde seco às costas e na mão direita tinha um isqueiro, com o qual se divertia. Olhou para o céu e por cima de si voavam três pássaros, voavam livres, sem barreiras, sentiam o vento nas asas e dirigiam-se para o sol que já se punha. Parecia que iam ao encontro da luz. O rapaz começou a correr para acompanhar os pássaros, mas ao aperceber-se que não era tão rápido como eles, nem tinha asas para voar, parou. Levantou a mão, olhou para o isqueiro e, com um gesto brusco, atirou-o para o chão. Pisou-o e seguiu caminho com um ar mais livre enquanto corria de braços abertos, na tentativa de levantar voo. Segui-o com o olhar até o deixar de ver por completo. No lugar do sol estava agora a lua, era lua cheia, bem redonda. O céu iluminava-se de estrelas, pequenos pontinhos cintilantes sobre o manto escuro que se tinha posto. Sentei-me na cadeira de baloiço do meu pai. Há muito que estava no terraço da minha casa. Olhei para a noite escura e densa, sim, a noite que em tempos tinha sido vadia, a noite que tinha sido uma criança livre e inocente. Agora acorrentada à velhice, tinha perdido o seu brilho intenso. Costumava dizer que as estrelas eram chamas que ardiam e duravam, longas chamas que aqueciam o meu coração. Agora o pavio estava a chegar ao fim, as luminosas chamas que, em tempos tinham sido a minha luz, eram agora pequenos pontinhos que se apagavam aos poucos. Todas as noites me sentava a olhar para o céu e sempre que alguma chama se apagava, morria um pouco de mim, pois cada chama levava com ela memórias e recordações dos velhos tempos. Os tempos em que o coração era grande e batia à velocidade da luz, os tempos em que as lágrimas eram de felicidade e os sonhos eram doces como o chocolate, os tempos em que as histórias eram castelos, cavaleiros e palácios de princesas encantadas, os tempos em que a vida era páginas de livros de fantasia e tudo tinha um final feliz. Agora, tudo isso fazia parte da colecção de livros da estante, aqueles que estavam cobertos de pó e cheiravam a antigo, pois há muito que as suas histórias não eram abertas. Fazia tudo parte do passado. O meu coração a cada minuto era mais pequeno, e já não batia à velocidade da luz, agora era como um caracol que trepa um muro. Os pontinhos no céu eram cada vez menos, e eu era menos um bocadinho de mim. Lembrei-me que, quando era pequena, vi uma estrela cadente, e como qualquer criança sonhadora e inocente pedi um desejo. Pedi que um dia o príncipe encantado me viesse buscar no seu cavalo branco e me levasse para o mundo das fadas. O príncipe nunca apareceu, e as fadas, essas nunca as vi. Nesse momento, pequenas borboletas esvoaçavam à minha volta, eram todas diferentes e coloridas. Pousaram em mim, olhei para o céu e o último pavio 10
  11. 11. tinha-se apagado, o meu coração era agora um ponto final, sem parágrafo a seguir. A luz branca da lua ofuscou-me e, quando dei por mim, estava sentada num lindo cavalo branco que galopava em direcção ao mundo das cores e dos sonhos. As borboletas continuavam a esvoaçar à minha volta, mas desta vez, o bater das suas asas tinha um som diferente que me deixava feliz. Pois é, as borboletas eram agora as fadas do mundo encantado. Há muito tempo que estou neste mundo, e todas as noites me deito à beira do lago dos cisnes. Olho para o céu, a lua não é cheia, é quarto crescente, e as estrelas são chamas que ardem eternamente. Sofia Colaço, 9º Ano 11
  12. 12. RIOS DE VENTO Ultimamente os dias têm sido cheios de nada, o tempo é o único que passa pela minha vida, mais nada se atreve a quebrar a monotonia dos meus dias. Estou velha e cansada, o pouco tempo que me resta passa a correr, a cada momento me sinto mais perto do fim. Os dias já não sorriem para mim, já nada me sorri, já nada me faz dar um passo, já nem os sonhos me perseguem. Há muito que não sonho, nem me lembro bem o que é sonhar, mas, cada vez que penso nisso, sinto conforto, portanto, sonhar deve ser algo bom. Lembro-me que em tempos sonhava; era tão feliz nessa altura, tudo sorria para mim, até o tempo. Desde criança o meu maior desejo é voar.Nunca consegui, nem mesmo em sonhos, mas era algo que eu queria experimentar, sentir o vento a puxar os cabelos para trás, seguir um rumo sem destino, observar o mais belo que há lá em cima e atravessar as nuvens. Eu acredito que consigamos voar, mas apesar de acreditar muito nunca consegui. Tenho pensado muito nesse meu desejo ultimamente, mas com o meu fim já perto, as esperanças de voar desapareceram. Agora tenho outras esperanças e outros desejos. Tenho esperança que o meu fim não seja doloroso e que tudo melhore quando o tempo já não passar por mim. Tenho o desejo de que, num dos poucos dias que me restam consiga sonhar… Os dias passaram, o tempo envelheceu-me um pouco mais e numa noite as estrelas trouxeram-me um sonho. Nesse meu tão esperado sonho tinha uma longa escadaria diante de mim, não se conseguia ver o seu fim. Ao meu lado estava um ser perfeito de olhos escuros que cintilavam e penetravam os meus. Esse ser pegou na minha mão e reparei que a sua pele era macia como seda. Olhei para as minhas mãos, todas as rugas e sinais do tempo tinham desaparecido, espantada virei-me para ele e numa voz doce ele disse ―Estas são as escadas para o Paraíso‖. Não resisti e subi o primeiro degrau, logo a seguir o segundo e não parei até chegar ao último degrau. Ele acompanhou- me ao longo daquela viagem. Não trocámos palavras, apenas olhares, e a sua mão não largou a minha. Quando cheguei ao cimo das escadas, uma luz muito forte quase me cegou, e depois, diante dos meus olhos, um prado verdejante apareceu. Era lindo, os raios de sol penetravam por entre os ramos das árvores, e um pequeno riacho cantava. O Paraíso era de facto um lugar harmonioso. Nesse prado havia outros seres, tão perfeitos como aquele que me tinha acompanhado ao longo da escadaria, mas nenhum deles tinha um olhar tão doce como aquele que me acariciava a mão. 12
  13. 13. Voltei a sentir-me criança e sorri, coisa que já não fazia há algum tempo. Corri, saltei e por fim deitei-me no meio daquele lindo prado e olhei o céu. Já não sentia o tempo a passar por mim; ali o tempo não existia, os dias eram infinitamente recheados de encanto e perfeição. O céu não tinha nuvens, apenas pássaros que agitavam as suas asas à medida que se deslocavam naquele azul imenso. O desejo de voar voltou a palpitar no meu peito, levantei-me, abri os braços e fechei os olhos. Tentei, tentei e tentei, mas não consegui. Desisti e fiquei desiludida, nem no Paraíso conseguia voar. Olhei à minha volta e o ser perfeito continuava a olhar docemente para mim, fitou-me durante um bocado, avançou na minha direcção, estendeu o braço, acariciou-me a face e por fim disse: ―Ainda não está na altura, mas um dia as tuas asas levar-te-ão levemente ao longo dos rios de vento.‖. Não consegui dizer nada perante aquela voz tão meiga, a voz acalmava e dava-me um conforto enorme. Decidi ir passear pelo Paraíso, aquele ser nunca me largou a mão. Chegámos a um sítio onde havia um tapete imenso de flores, todas de cores diferentes, agachei-me e peguei numa, o perfume que dela emanava era apaixonante, deixava-me tão leve e colorida. O ser perfeito que me acompanhava colocou-se diante de mim, acariciou docemente a minha mão e beijou-me a face. Nesse momento despertei do sonho, olhei-me ao espelho, as rugas continuavam vincadas na minha pele, afinal tinha sido a, ter conseguido sonhar. Passei o resto do dia com um grande sorriso; para dizer a verdade, nem senti o tempo passar, foi tão bom. Agora só me resta sentar e esperar que a morte me consuma, enquanto observo o fogo a arder a madeira diante de mim, e as pálpebras, já pesadas, me correm sobre os olhos e escurecem a vista. O meu corpo torna-se leve como a cinza e a minha alma eleva-se como o fumo cinzento que sai pela chaminé e se dissolve nos longos rios de vento. Finalmente, estava a voar, e ao meu lado o ser perfeito olhava-me e sorria. Demos as mãos e fomos rumo ao infinito. Nunca mais senti o tempo a passar, agora limito-me a abrir as asas e voar… Sofia Colaço, 9º Ano 13
  14. 14. UM DIA… O apito do comboio soou nos meus ouvidos e os meus olhos já o avistavam ao longe. Faltavam poucos segundos para te voltar a ver, foram os segundos mais longos da minha vida. O comboio aproximava-se, estava cada vez mais perto, e o meu coração batia cada vez mais rápido. A brisa tocou-me nos cabelos, e eles voaram livres enquanto um sorriso se pintava nos meus lábios. O comboio não parou, seguiu viagem sem deixar ninguém para trás. Toda a esperança que tinha, foi levada pelo comboio, com ela foram também os sonhos e as fantasias. O meu sorriso apagou-se e os meus olhos deixaram de brilhar. Parecia que o mundo tinha desabado sobre mim, sentia um peso nos ombros e um oceano nos olhos prestes a esvaziar-se. Apercebi-me que me tinhas ignorado, aliás, eu sempre fui todos os dias a que escolheste ignorar, mas fiquei contigo por não ter mais ninguém. Cheguei a casa e olhei o céu que já estava estrelado, a lua brilhava, e a sua luz branca estava mais redonda que nunca. Lembrei-me dos tempos em que corríamos por entre as flores e seguíamos as borboletas. Lembrei-me dos tempos em que nos sentávamos junto ao lago e olhávamos as nuvens. Lembrei-me das noites em que me sentava na janela à tua espera, e quando aparecias trazias-me flores de todas as cores. Lembrei-me do dia em que fizeste as malas, apanhaste o comboio e desapareceste sem te despedires. Lembrei-me de todas as noites em que andava perdida por entre as árvores na esperança de te encontrar. Desde o dia que partiste, as flores nunca mais sorriram para mim, as borboletas nunca mais me contaram segredos e o lago nunca mais reflectiu alegria. Decidi então, que um dia iria ser feliz, mas não encontrei a felicidade. Decidi que um dia iria voltar a amar, mas também nunca encontrei o amor. Decidi que um dia nunca mais ia dizer ―um dia‖, até à altura em que decidi que ia fazer uma viagem, correr mundo fora à espera de encontrar mais flores e mais borboletas. Apercebi-me que as coisas podem ser obscuras quando olhadas sem sentimento. Quando olhamos para elas com olhos que amam, elas abrem-se para nós, mostrando uma dimensão diferente, onde os sonhos e as fantasias se tornam mesmo realidade, uma dimensão onde o vento nos leva ao céu e as nuvens nos elevam ao sol. Naquela noite o manto preto sobre mim estava cheio de pinceladas brilhantes e o vento parecia empurrar-me. Deixei-me levar por ele, levou-me às estrelas e aí percebi que o amor se encontrava junto a mim, era tudo o que me rodeava, eram as borboletas, as flores, os pirilampos, as nuvens, o sol e a lua. Na verdade era tudo aquilo que me fazia acreditar que um dia voltarias, e voltaste! Encontrei-te nas pétalas, nas cores, na luz e no brilho que me rodeava. 14
  15. 15. A viagem que tinha prometido fazer estava diante do meu coração e da minha alma, porque o que é realmente importante é aquilo que sentimos, não aquilo que os nossos olhos aparentam ver. Sofia Colaço, 9º Ano 15
  16. 16. ILUSTRAÇÃO 2 HADES, DAVID CHORÃO 16
  17. 17. POESIA 17
  18. 18. SONHO DE MENTIRA És como areia Foges-me entre os dedos Corres para longe E tornas reais os medos Nunca digas que estás sozinho Não te sintas mais perdido Procura o teu caminho E vê em mim o teu abrigo Acordada de um sonho Esboça-se um sorriso Voam todas as dúvidas De que és tudo o que preciso Crio asas no pensamento Subo devagarinho firmando-me nas esperanças Alcanço o mais divino firmamento Mas tudo se vai no rasgo da aliança Sonho contigo Deixo que a esperança me fira Mas sonho com o impossível Um sonho de mentira Ana Filipa Raimundo, 10º Ano 18
  19. 19. DISCRETO SER HUMANO Prevejo os teus olhos ao nascer do Sol, Sinto tocares-me na manhã fria, Espero pacientemente pela tua vinda, Quando chegavas, Aquecias-me a alma, Era contigo que eu sempre sonhava, Mas diz-me o quanto gostas de mim. Deixa-os falar, Sempre fomos muito insubmissos, O nosso secreto segredo, Não deve ser revelado. E os dias vão passando, Sinto uma presença, A presença da tua ausência, Um vazio profundo. Hoje chove, O meu estado de espírito é reflectido no tempo, Hoje choro, Puras e perfumadas lágrimas de cristal, marinhas. Hoje está bom tempo, Regressaste, O mais belo girassol dos campos, Voltou a florescer. E quando os teus lábios frios tocam os meus, Sinto-me a levitar, O teu perfume, Penetra na minha pessoa. Sobrevives no meu coração, Alimentas-te das minhas recordações, Sei que voltarás, Entretanto, só quero que me beijes outra vez. Carolina Pena, 10ºAno 19
  20. 20. MEMÓRIAS DESOLADAS Um pequeno brilho no ar, Um cheiro antigo, Coisas que mal me lembro. Recordações suaves, Momentos pousados, Quase perdidos com o tempo. Um salão tão grande, Bailes sem fim, Jantares grandiosos. Nobres, Imaculadamente vestidos, Damas, Com sapatos de cristal. Atravessa-me a garganta, Uma música de encantar, Passos de dança perdidos. Há muito tempo, Nascida aqui, Não sonho as vezes, Que aqui sonhei. Uma tempestade de memórias, Uma canção que alguém canta, Coisas que mal me lembro. Carolina Pena, 10º Ano 20
  21. 21. CAROLYNA Somente mais uma rapariga, No meio de tantas outras, Com o mesmo nome, Tanta vida por aí. Esta é diferente, Roubaram-lhe tudo, Tiraram-lhe a alegria, Literalmente presa ao mundo. Coração destroçado, Está tão melancólica, Estes dias cinzentos, Congelam-lhe a alma. Esta gente avariada, É de deixar qualquer um maluco, Deitam-te abaixo, Mas amanhã será melhor. Há que erguer, Mandar o passado para trás, Será outro dia, Carolyna. Não desistas, Ó Carolyna, És forte, Vais conseguir Tudo passará, Esse frio vai embora, E o Sol, destapado, Vai-te fazer brilhar, Carolyna… Carolina Pena, 10º Ano 21
  22. 22. O SUSSURRO Um secreto sussurro, Caiu-me nas mãos, Olhei para ele, Pediu-me segredo. No telhado o escondi, Sob o céu estrelado, Contemplámos o luar, Vi o seu sorriso enigmático. Um mistério, O sussurro, Soprei-o, Por entre as minhas mãos. Foi a voar, Distante, Não olhou para trás, Não o voltei a ver. Carolina Pena, 10º Ano 22
  23. 23. ILUSTRAÇÃO 3 SEM TÍTULO, MARTA CRISTO 23
  24. 24. Um Sonho… Um sonho é uma viagem Realidade ou Imaginação? Um sonho não tem margem Dentro do nosso coração Serás realidade? Serás imaginação? Quero-te de verdade Porque é paixão És quem eu sempre quis Não consigo evitar Só tu me fazes feliz Só contigo quero ficar Estás diferente Tens feridas por sarar Tens isso na tua mente Espero um dia te alcançar Por ti sofro Por ti vivo Não sinto conforto Mas por ti sobrevivo Daniela Fialho, 10º Ano 24
  25. 25. ESCURECER Um dia a mais bela flor murchará E aí tudo o resto acabará A alegria há-de morrer E a tristeza renascer Os sorrisos irão acabar E lágrimas se vão derramar O Verão deixará de existir E o tempo negro e escuro irá surgir Deixaremos de sentir sabor Deixará de haver cor Cada momento uma lembrança Cada sentimento uma esperança Apenas recordações vão existir Quando tudo à nossa volta se destruir Daniela Fialho, 10º Ano 25
  26. 26. TU… O dia e a noite Que diferença pode haver? Se não há ninguém que conte Tudo aquilo que podemos ver Quando o mundo desabar Não olhes para trás Tens que superar E encontrar a paz Quando te sentires só Pensa em mim Lembra-te de nós E serás feliz assim Vives num mundo distante Nem fechado nem aberto, Podes não estar radiante Mas quero-te sempre por perto Daniela Fialho, 10º Ano 26
  27. 27. VIDA A vida é feita de tormentos Mas temos que aprender, Nos bons e maus momentos A ganhar e a perder A distância separa As coisas mudam A verdade não se encara E as mentiras não curam Já falei muito E pouco resolvi Sempre no intuito De te ter aqui Daniela Fialho, 10º Ano 27
  28. 28. EU Não tenho significado Não sou nada para ninguém Arrependo-me de ter ficado E sinto que não estou bem Sinto-me perdida Como um túnel sem fim Sei que andei iludida Mas não posso ser assim Sou muito rígida Mas dou por mim a chorar Já não sei nada da vida Já nem sei por onde andar Daniela Fialho, 10º Ano 28
  29. 29. UMA AMIGA Quando pensares que nada tem sentido Lembra-te de bons momentos Nada estará perdido Se acreditares nos bons pensamentos E quando estiveres triste Com vontade de chorar Lembra-te que existe Alguém que te pode amar Quando precisares Eu estarei aqui Para te ajudar E te ver feliz Daniela Fialho, 10º Ano 29
  30. 30. UMA FLOR Uma simples flor Com um simples odor Enterrada no mar Louca por te amar Enterrada no chão, Enterrada no coração Daniela Fialho, 10º Ano 30
  31. 31. NÃO VOU RECUAR Não eras assim Mudaste completamente Eras tudo para mim E foste-te de repente Gostava que voltasses A ser aquilo que eras Talvez se te ajudasse Te conseguisses libertar dessa esfera Custa-me assim viver Mas embora queira voltar Sei que é assim que tem que ser E não vou recuar… Daniela Fialho, 10º Ano 31
  32. 32. O INCERTO Nunca sabemos Aquilo que nos reserva Mas conhecemos O inferno que é esta selva Podemos morrer Como podemos viver Mas nunca vamos saber O que há para acontecer Podemos mudar Ou até ficar igual Mas não podemos rejeitar Uma mudança pessoal Daniela Fialho, 10º Ano 32
  33. 33. LEMBRANÇA Tu morreste Talvez nunca viveste, Um dia foste essencial Mais do que especial Foste uma vida Foste uma esperança Agora és uma história lida E não passas de uma lembrança Não te vejo Nem sinto desejo Não há nada a fazer Nem nada a dizer Foi o fim, E por ti Nunca mais serei assim Daniela Fialho, 10º Ano 33
  34. 34. ILUSTRAÇÃO 4 GOKU, DUARTE ALVES 34
  35. 35. ESPERANÇA NUMA FLOR Luz sem vida, O começo de uma flor. Sozinha… Encurralada… Sem vida… Sem cor… Bondade pela flor, Sem vida, estava perdida… O céu chora com amor, Em auxílio da sua nova amiga. Lágrimas caem no chão, Dando claridade ao luar. Caiu-me a folha da mão, Que agora está a voar. Começa a vida, a felicidade, Pára a chuva, pára o tempo. Esperança para toda a sua eternidade, Nada a derruba, nem o vento… Joana Catela, 10º Ano 35
  36. 36. AO VISLUMBRE DO LUAR Foi naquele glorioso momento, Uma glória sentida por céus e paraísos, Que fui capaz de residir no teu alento, Corpos imaginários e indecisos, E descansar nesses teus braços meus. Não os ouvi, não os senti, Esses deuses teus, derrotados Por mil e duas noites em que menti, Eles não regressaram parados, Para descansares nestes meus braços teus. Acabou? Regressaste, ou nem sequer exististe, Nesta pobre mente demente, Que por mil e três dias foi onde caíste, E habitaste num mundo nosso, pois, indiferente, Onde os meus braços rodeavam os teus. Houve final, mas sem começo, E neste papel vazio eu fico, que habitas Em memórias translúcidas, por onde envelheço, Por tudo e por nada, onde tu gritas Por teus braços dançarem nos meus. Joana Catela, 10º Ano 36
  37. 37. ENQUANTO ESTIVERES AÍ Sou superior Às ondas a bater na rocha Sou superior Ao sol a estalar o chão Sou superior Às escolhas que faço Sou, também, humana Sonhadora, mas humana Controlada por tudo Dependente do mundo E de ti. Um dia soltarei o último sorriso Chorarei a última lágrima E olharei uma última vez para trás Ao fim da tarde. Um dia deixarei de sonhar Ou sonharei para sempre Sem ter onde me agarrar Para voltar a aterrar. Continuo a ser superior Ao que é absolutamente certo Mesmo temendo a cada passo, Continuo a ser superior a mim mesma, E a viver Enquanto fores o meu porto e a minha praia, Enquanto estiveres aí. Maria Teresa Vaz Freire, 10º ano 37
  38. 38. POR NÃO SABER ESCREVER Morro por não saber O que aconteceu para me esquecer. Dou corda ao relógio das palavras Que se partiu em mil estilhaços Como as simples estrelas, Como os simples pedaços de sonhos. É triste descrever o dia-a-dia Mas é apenas o que agora sei fazer Palavras banais, Sentimentos normais Nada onde me perder. Por isso reino aqui Num mundo de ilusões quebradas Onde nas palavras que escrevo não há nada A não ser fria solidão. Na escolha de um passar ou vaguear Escolhi a escolha que não tinha que fazer A escolha que não mais sei descrever. Foi difícil, foi errado, foi imperfeito Mas a perfeição não existe, não se almeja: Sente-se E eu não sinto. Não quero acordar e perceber Que já nada mais tenho para ver, Que já não tenho o mundo na minha mão Apenas a minha sombra, a de um inimigo Que odeio por ainda pisar este chão Não há espaço nem tempo, Apenas um vortex confuso Onde ainda sou o passado Mas também sou o futuro Um futuro que não vai existir Porque não quero ver partir O meu sonho de sempre, para sempre. Contei as gotas Que as nuvens choraram por mim Porque finalmente morri Por não saber escrever. Maria Teresa Vaz Freire, 10º ano 38
  39. 39. RETICÊNCIAS O vento sopra E a magia paira Nos raios de invisibilidade Que me compõem Tu choras esquecida Entre pedras Entre notas E a nossa historia Voa para junto de mim As páginas de piadas Que dissemos Procuram-me por saber o que sentes Por saber que não vais esquecer O que falta: A despedida Acrescento um só mais capítulo Duas palavras mais ―Até breve‖ Depois…reticências… Maria Teresa Vaz Freire, 10º Ano 39
  40. 40. ILUSTRAÇÃO 5 PANGOLIM 2, DAVID CHORÃO 40
  41. 41. E NESSE DIA? Não sei como lidar Com aquele aperto Será saudade? Será medo? Não sei. Ou talvez saiba É tudo, Também lhe posso chamar nada Ou esperança De que tudo nunca acabe De que um dia seja o infinito Não sei explicar Como me faz sentir O simples acto de pensar Que um dia vais partir Que um dia não mais te vou ver sorrir Talvez se eu ficar sempre a espreita E não fechar os olhos Não te vás Não te percas Não te desvaneças Talvez não possa mudar O que vier a acontecer Mas não posso pensar Que um dia tudo vai mudar Que um dia algo vai acontecer E que eu te vou perder Para um alguém ou alguma situação E me vais deixar na ilusão De que continuas para me ouvir E que vou ter sempre tempo de me despedir Não sei como lidar Sem choro ou desespero Com o simples acto de pensar Que nada posso fazer Para um pedaço de mim não morrer. Maria Teresa Vaz Freire, 10º Ano 41
  42. 42. COMO NUM FILME Os dias passam À velocidade de um segundo O sangue corre, ou deixa de correr, Nas nossas veias Passamos, olhamos e seguimos Cheios de rotinas, Minutos marcados Para uma liberdade Que de livre não tem nada. Sentimos o sol ou a chuva Nem importa Temos que sair para o mundo Ante a ultima badalada O relógio não pára Avançando a um ritmo alucinado E passaram milhares de horas Desde a ultima vez que olhaste o tempo Irónico… Falta tempo até para o tempo. Divagamos também À velocidade a que as folhas caem das árvores Tudo à nossa volta muda, Se altera Ouvimos explicações E palestras Ou apenas mentiras. O mundo sonha Não, ainda não deixou de sonhar Foram-lhe feitas promessas Que reclama a cada nascer do sol Será que restaremos intactos Incautos sobreviventes da onda? Rogaremos fazer parte De uma superioridade Que certamente precisamos que exista? Ou ficaremos parados No centro de uma praça apinhada A ver tudo mover-se e o tempo passar, Como num filme… Maria Teresa Vaz Freire, 10º Ano 42
  43. 43. ILUSTRAÇÃO 6 YIN E YANG, PEDRO FERREIRA 43
  44. 44. NÃO OLHES PARA TRÁS Não olhes para trás, Para o caminho que percorreste, Podes não gostar do que vês, De ver as coisas que escolheste. Podes pensar que valeu a pena Que talvez não tenha sido tudo em vão Que os fins justificam os meios Mas, e se não? Tinha mesmo que ser assim? Passar numa estrada escura, Pelas mais profundas trevas Caminhando sem rumo À deriva, sempre à espera… Até que encontraste o teu lugar O teu propósito de viver Bastante simples, não era? Bastava ver… Miguel Coelho, 10º Ano 44
  45. 45. TRISTEZA Num olho sem vida Vejo mais que um olhar de despedida É um sonho, uma canção, um pedaço de nada Uma esperança perdida. Mas há algo mais Bem lá no fundo Algo que me atormenta, Mas que me faz querer o mundo. É algo tão forte, mas tão sem vida, Uma chama despida Que arde, gelada, No tempo parada, mas sempre viva E tudo isto, Sem tirar, nem pôr, Não é amor, não é harmonia É tristeza e monotonia. Miguel Coelho, 10ºAno 45
  46. 46. CASTIÇAIS DE CRISTAL SUSPENSOS Existem mentiras nos espelhos Para os quais olho. Nestas mentiras penso, A minha cara não é assim, A horribilidade foi escondida, Por detrás de uma máscara À qual nunca atendi. Choveram cristais Quando apontei às mentiras. Cristais, castiçais, espelhos, Mentiras. Tudo se esconde por detrás Do falso brilho Destes não diamantes Tentei desvendar, Dar tudo - Dei demais. Quando divisei Da minha perfídia, Do meu embuste, Do que não sou. Tiago Mariano, 10º Ano 46
  47. 47. ILUSTRAÇÃO 7 PASSAR O TEMPO – A CORES, JOANA CATELA 47
  48. 48. PROSA II 48
  49. 49. TIRO PERDIDO Prólogo Mal podíamos esperar que o dia acabasse e regressar a casa para podermos falar sobre tudo o que tinha acontecido. Assim que a campainha tocou, ambas nos despedimos de todos e pusemo-nos a caminho. Durante o nosso caminho habitual de regresso a casa, falámos e rimos como se tivéssemos ganho a lotaria. E, como todos os dias, despedimo-nos com um abraço na esquina que separava as nossas ruas. Como desejava ter sabido que aquele seria o último… 49
  50. 50. Capítulo I Ao chegar a casa, agi como todos os dias. Tomei banho, fiz os trabalhos de casa, jantei e, por fim, dirigi-me para a cama preparando-me para mais uma noite de sono como qualquer outra. Mas aquela noite não era igual, muito pelo contrário. Foi a pior noite da minha vida. Fui acordada pela minha mãe enrolada no seu roupão de noite que, com toda a calma que conseguiu ter, me deu a notícia mais dolorosa. Ela, a minha melhor amiga, aquela rapariga com quem estava todos os dias. Sim, essa menina cuja presença eu tomava como garantida, a Sofia. Algo terrível lhe tinha acontecido. A sua mãe, desfeita em lágrimas e dor, tinha acabado de ligar para nos contar. Quando estava quase a chegar a casa, foi atingida por um tiro perdido de um assalto do outro lado da rua. Morreu instantaneamente. Eu não queria acreditar no que a minha mãe me estava a dizer. Não podia ser verdade. Ela estava ali, comigo, há apenas umas horas atrás a rir às gargalhadas com toda alegria que podíamos mostrar ao mundo. Como pode ter desaparecido assim, tão de repente, como numa nuvem feita de recordações de momentos que agora doíam ao serem lembrados? Porquê ela… Porquê agora… Porquê? Ninguém me conseguia responder a todas estas perguntas que me faziam chorar. Ninguém conseguia fazer-me sentir melhor. Ninguém conseguia ocupar o vazio que ela deixara. Por muito que tentassem falar comigo, eu nunca consegui descrever o que senti nem desabafar sobre tudo o que me magoou. Nos dias que se seguiram tive de ir ao seu funeral e, aos poucos, tentei voltar ao que era. Mas, na realidade, acho que nunca voltei a ser a mesma pessoa… 50
  51. 51. Capítulo II E agora, aqui estou… sentada no sofá da minha sala vazia de qualquer tipo de sentimento bom. Não há lugar para eles. O espaço está completamente preenchido por dor, saudade e talvez um pouco de raiva. Não há dia que não pense nela e acabe a chorar. E hoje, 15 anos depois de ela me deixar, percebo que nunca voltei a sua casa. Acho que nunca tive a coragem para o fazer. Mas agora penso que está na hora. Não posso mais ficar presa a esta dor. Tenho que a deixar descansar em paz. Assim que arranjar coragem, vou visitar a sua casa e despedir-me de vez. *** A casa onde partilhámos tantos momentos estava inabitada, entrei sem problemas. Assim que pus um pé no jardim, o vento soprou e um arrepio percorreu-me pelo corpo. Quando cheguei perto da porta, pensei que não passaria dali por estar trancada. Felizmente não estava. Rodei a maçaneta e o ranger da porta fez-me tremer. No momento em que entrei, andei sem pensar. Fui directamente para o quarto dela. Fiquei em estado de choque ao reparar que tudo estava onde a minha querida Sofia deixou. Era petrificante pensar que ela tinha sido a última pessoa a tocar naquelas coisas. Como tenho saudades dela e dos nossos velhos tempos… Daquelas intermináveis conversas e das gargalhadas verdadeiras. Dava tudo para mudar o passado e poder ter crescido ao seu lado. Mas isso é impossível. Agora só posso olhar para trás e relembrar cada momento único que partilhámos. Vagueio pelo quarto, vendo os pormenores que não via há mais de 15 anos. Sem poder aguentar, as lágrimas rolam pela minha cara. Sento-me na cama ligeiramente suja para sentir que ela estava ali ao meu lado. Quando finalmente recupero forças para me levantar, vou até à sua secretária e vejo as nossas fotografias. Baixo-me para apanhar uma que estava caída no chão e reparo num pequeno livrinho que nunca havia visto. Tinha uns desenhos na capa que logo reconheci como da Sofia. Abri-o e rapidamente percebi que era uma espécie de diário. Sentei-me de novo na cama e comecei a lê-lo. O tempo e o espaço pararam. Só existia eu e a Sofia a ler-me o seu pequeno diário. 51
  52. 52. 14 de Janeiro de 1994 Hoje decidi escrever um poema, apeteceu-me. É sobre tudo o que me tem acontecido ultimamente. É ele. É quem eu procurava. Sozinha no escuro Vi um brilho ao fundo Fez-me acreditar Que eu podia gostar Não há nada melhor Que a vida me pudesse dar. Ainda bem que não desisti De te procurar. Pergunto-me onde estavas. Eu não tinha ninguém, Até que perguntaste se estava bem Ou se precisava de alguém. Nunca pensei Ter-te assim Junto a mim. Só agora consegui Ver como és. Olhar para ti E ver o que nunca vi. Agora que estou contigo Não consigo imaginar Como seria viver Sem te poder abraçar. Quando penso em ti Esboça-se um sorriso. Ter-te aqui É tudo o que preciso. *** 52
  53. 53. A felicidade, digo eu, não existe. Constrói-se. E para que haja felicidade temos que errar e sofrer… É isso que nos torna pessoas melhores. Só assim é possível aprender… Com os erros. A vida é uma longa estrada cheia de vários caminhos e encruzilhadas. E, como é óbvio, não vamos seguir sempre o caminho certo, o mais fácil e o mais seguro. Pela longa caminhada que é a vida existirá uma altura em que nos vamos deparar com um cruzamento com várias estradas, cada uma com uma direcção completamente diferente. Será que vão dar todas ao mesmo caminho? Não sei. O que sei é que quando, á nossa frente, se abrirem muitas estradas temos de ponderar bem em qual iremos seguir e não seguir por uma ao acaso. Muitas vezes seguimos o caminho menos fácil, ou até mesmo o errado. Porém, noutras ocasiões, iremos seguir o mais fácil e o correcto. Seguimos o caminho certo porque erramos e aprendemos com o erro. Quem não erra não consegue aprender, e quem não aprende com o erro nunca poderá ensinar. A Sofia descobriu uma enorme traição do seu grande amor e sofreu muito. A felicidade com que antes vivia desapareceu. O grande e majestoso arranha- céus que outrora parecia tão forte e que nunca iria cair revelava-se agora construído por mãos pouco hábeis, frágil como um castelo de areia construído á beira-mar que é derrubado com a primeira onda que passa. A Sofia seguiu a estrada errada, e mesmo depois de tudo o que aconteceu não conseguia perdoá-lo mas também não conseguia esquecê-lo. 53
  54. 54. 31 de Janeiro de 1994 Continuas a preencher-me o coração e eu odeio-te por isso… Odeio-te porque és muito especial para mim e o pior é mesmo odiar-me por não te conseguir odiar. Odeio-te porque te conheci, pelo modo como falas comigo e como sabes sempre o que dizer. Odeio quando ficas com aquele olhar, tão encantador, onde me perco. Odeio quando estás longe de mim e ao mesmo tempo sempre no meu pensamento… Odeio pensar que não te consigo esquecer e que não consigo viver sem ti... Odeio-te por te amar! 54
  55. 55. 16 de Fevereiro de 1994 Amigo… Não há definição escrita num dicionário porque a amizade não se define, vive-se! Vive-se todos os dias com todas as nossas forças. Quando crescemos, vamos reconhecendo o valor de cada pessoa presente nas nossas vidas. Ao mesmo tempo em que existe a pessoa que conhecemos e acabamos por esquecer, também existe aquela de quem jamais nos queremos distanciar e com a qual nunca queremos perder contacto, nem por um segundo! A amizade é um dos sentimentos mais belos que existem. A vida sem amigos nada seria. Mas um amigo verdadeiro…. Sim, um amigo verdadeiro é aquele que te acompanha nas tuas derrotas e vitórias, é aquele que te oferece o ombro para te desfazeres em lágrimas, é aquele que te oferece um sorriso e, acima de tudo, que te leva dentro do coração para onde quer que vá. Não tem medo de mostrar o que sente. Tenho tudo isto numa amiga… Aquela que nunca me deixou e neste momento difícil foi a luz ao fundo túnel. 55
  56. 56. 2 de Março de 1994 Chateei-me com a minha melhor amiga… Agora que tinha superado toda a minha tristeza com a sua ajuda, ela afasta-se de mim magoando-me desta maneira?! Apetece-me escrever a história da nossa amizade para ver se consigo aliviar um pouco este peso que tenho em cima. Passou muito tempo até te conhecer, dantes não te falava e dizia mal de ti, parece estranho mas foi assim. Acho que te odiava, nem sequer olhava para ti. Sabia quem eras mas não te conhecia de verdade. Mas, de repente, a amizade surgiu e foi ganhando cada vez mais confiança. A minha vida mudou Ganhei uma amiga Uma grande amizade foi estabelecida Foste a pessoa em quem passei a confiar. Tantas palavras ditas que nos fizeram chorar, rir, abraçar. Lembro-me de todos esses momentos, dos bons dias que me dás sempre a sorrir. Onde estão as palavras que me dizias? Espero que tudo volte ao normal entre nós rapidamente porque eu preciso de ti como nunca precisei de ninguém. Dediquei-me à nossa amizade de corpo e alma e não me deste o devido valor, gostava que entendesses isto um dia. Como podes fazer isto comigo? Como podes passar ao lado de tantas recordações e ignorares? Como? Gostava de poder entender… *** 56
  57. 57. Tudo o que acontece deixa marcas. Por vezes boas, por vezes más. Na nossa amizade, a nossa zanga só deixou marcas boas. Tornámo-nos mais próximas e prometemos nunca mais magoarmo-nos. No coração da Sofia, aquele grande amor atraiçoado deixou marcas muito más. Ela perdeu confiança e auto-estima. Por muito que eu tentasse fazer-lhe ver a pessoa fantástica que ela era, os meus esforços eram em vão. Não conseguia confiar noutro rapaz. Aliás, a única pessoa em quem ela confiava agora, era eu. Era a pessoa que ela sabia que nunca a magoaria. Um dia, ela olhou para um rapaz de maneira diferente. E todos sabiam como ele gostava dela desde que eram crianças. Era a pessoa perfeita para a ajudar a melhorar mas ela não queria admitir o que sentia. Tinha medo de confiar num rapaz de novo. Tinha medo de entregar o seu amor assim a um rapaz. Simplesmente tinha medo de sofrer. 57
  58. 58. 26 de Março de 1994 Não posso, não quero e não consigo! Por muito que tente não dá. É um sentimento muito forte mas nada é forte o suficiente para fazer desaparecer as feridas deixadas outrora. De novo o mesmo sentimento Se apodera do meu coração De novo o mesmo sentimento Me invade como um trovão Tenho medo de sofrer Medo de cair Medo de me aleijar Medo de a ferida nunca sarar Medo de deixar uma cicatriz Medo de não conseguir ser feliz. O que fazer? Esquecer? Ou tentar algo em que tudo pode acontecer 58
  59. 59. 15 de Abril de 1994 Sinto-me feliz e de repente todos os receios e preocupações desapareceram. Finalmente abri a minha mente, reflecti e cheguei á conclusão que se cometemos um erro temos de aprender com ele e evitar repeti-lo de novo. Afinal é para isso que os erros servem, para aprendermos com eles. Eu tinha medo de voltar a gostar de alguém, abrir o meu coração e contagiar-me. Mas esse medo passou, percebi que as pessoas são diferentes umas das outras e lá porque alguém nos magoou não significa que outra pessoa nos vá magoar de igual forma. Eu cometi um erro e segui a estrada errada mas, ao fim de um tempo consegui voltar ao caminho certo. Se a vida nos dá oportunidades temos de as aproveitar. Este rapaz foi essa oportunidade, a minha segunda oportunidade de ser feliz. Ele faz-me feliz como nunca antes fui. Nunca ninguém me fez tão feliz como ele. A minha vida está perfeita… Tenho a melhor amiga que alguém pode pedir na vida e uma pessoa que gosta de mim de verdade. Hoje, neste preciso momento, apetece-me olhar para o imenso céu azul e gritar ― Hoje sou feliz! ― *** Foi neste dia. A minha vida mudou E a vida da Sofia acabou. Toda a felicidade que o coração dela guardava naquele caminho de regresso a casa foi-lhe tirada por um tiro. Um tiro acabou com o sorriso com o qual a Sofia contagiava toda a gente. Ela era, é, e sempre será a minha melhor amiga. Ana Lurdes Lopes, 10º Ano 59
  60. 60. ILUSTRAÇÃO 8 NOVA VIDA - A CORES, ELSA VILA 60
  61. 61. A MENINA DOS CABELOS DA COR DO CÉU Era uma vez dois jovens inexperientes: o Sol e a Lua. À medida que foram crescendo, foi-lhes dito que deveriam, conjuntamente, tratar do jovem planeta que estava aí para vir: o seu nome era Terra. Uma vez que eram apenas dois, cada um tinha de tratar do seu lado do planeta. Nenhum tinha algo a opor, até que o recém-nascido chegou e cada um teve de ir para seu lado. As saudades foram aumentando até que o Sol não aguentou mais aquela tortura e foi em busca da Lua. Estes encontram-se e da sua relação ilícita, nasceram duas gémeas. As duas muito belas, tendo uma o cabelo azul claro e a outra o cabelo azul muito escuro, quase preto. Uma vez este procedimento foi de uma tamanha irresponsabilidade, tendo deixado as pessoas muito assustadas, os jovens pais foram castigados e a Lua fugiu com a segunda filha (a que tinha os cabelos escuros), deixando a outra com o Sol, prometendo que nunca mais o procuraria. Assim sendo, quando o Sol estava num lado da Terra com a filha mais velha, a Lua estava sempre do outro lado com a filha mais nova, andando sempre ao mesmo passo à volta do planeta azul, nunca se encontrando, como tinha sido antes determinado. As duas meninas foram crescendo cada vez mais formosas. Dependendo do seu estado de espírito, o cabelo das duas irmãs ia mudando: quando a primeira estava feliz, os raios do seu pai reflectiam-se com maior júbilo nos seus cabelos; o cabelo da segunda, quando esta estava feliz, enchia- se de pequenas estrelas brilhantes. Os seus cabelos eram, então, o céu. O da mais velha era o céu de dia; o da mais nova era o céu de noite. À medida que foram crescendo, nenhum dos progenitores falou da existência da outra irmã à filha que lhe tinha sido encarregue. Mas a mais velha começava a desconfiar do secretismo do pai sempre que ela lhe perguntava a identidade da mãe. Um dia, quando estava pensativa e umas nuvens brancas lhe passeavam pelos cabelos, ouviu dois homens a conversar sobre o pai. Logo as nuvens se afastaram um pouco e ela prestou mais atenção à conversação. Muitos dos nomes que os homens disseram, ela desconhecia. Falaram da Lua e das Estrelas... Então, ela foi ter com o pai e perguntou-lhe: — Pai, o que é a Lua? E o que são...? Mas o Sol nem acabou de ouvir as perguntas. Furioso, gritou com a filha: — Que não te ouça falar disso nunca mais! A menina, furiosa e assustada, fugiu. O Sol bem tentou apanhá-la, a fim de evitar outra catástrofe, mas ele já não era nada jovem e a filha era muito rápida, ainda mais com a ajuda do vento. Fugiu para o mais longe que conseguiu até que foi esbarrar contra uma outra menina, exactamente igual a ela, mas com o cabelo muito mais escuro. As duas raparigas ficaram aterrorizadas, mas não tanto como as pessoas da Terra, que viam o céu de duas cores completamente diferentes. 61
  62. 62. A Lua, que viu a outra filha aproximar-se, correu para as duas e disse: — Tens de te afastar! As pessoas estão espavoridas! Tens de ir ter com o teu pai, minha filha! Logo o Sol apareceu, pegou na sua filha e foi embora. Nenhuma das meninas questionou os pais sobre a existência da outra. Os dias passavam-se e de dia apenas chovia (pois a mais velha chorava incansavelmente) e à noite já não havia estrelas (pois a mais nova encontrava- se pensativa). Assim, a curiosidade acabou por falar mais alto e, poucos dias depois, foi a vez da mais nova ir à procura da mais velha. Um dia em que a Lua não estava a prestar-lhe atenção, a mais nova fugiu em busca da sua gémea. Acabou por encontrá-la, enquanto esta chorava. As nuvens dissiparam-se, mas, em lugar do céu azul, as pessoas, assustadas, viram o céu tingido de duas cores completamente diferentes. O Sol, logo começou a gritar com a sua outra filha e berrou-lhe que se fosse embora. Mas a corajosa menina não lhe deu ouvidos. Queria desvendar o mistério que a envolvia. Aí apareceu a Lua, que tentou persuadir a sua preciosa filha a voltar, evitando os olhos da outra descendente, que lhe faziam vir lágrimas aos olhos. Como nenhuma das meninas se queria separar da outra, eis que aparece o Rei dos Céus e cita a sua decisão: — Uma vez que estas duas irmãs se conheceram e não querem viver uma sem a outra, temos nas mãos um problema, pois os seus cabelos são indispensáveis à vida na Terra. Assim sendo, só vejo uma solução: os seus cabelos serão rapados e cada pai carregará o cabelo da filha que costumava acolher. As meninas poderão ir viver para a Terra, sem se lembrarem de tudo o que aconteceu. E, dito isto, desapareceu. Efectivamente, o cabelo das meninas foi rapado, o Sol ficou com o cabelo da mais velha e a Lua com o da mais nova, tendo continuado cada um com as suas andanças. Quanto às meninas, elas foram para a Terra, onde são irmãs inseparáveis, nem sonhando de quem são realmente filhas, se bem que a mais velha adorava observar o céu de dia, com o Sol radiante e a as nuvens brancas, e a mais nova adorava observar o céu à noite, com a Lua brilhante e as estrelas cintilantes. Mas, diga-se de passagem, nenhuma delas voltou a ter o cabelo tão bonito quanto tinha... Elsa Vila, 10ºAno 62
  63. 63. PEQUENA HISTÓRIA DE UM PEQUENO SONHO Era uma vez um sonho. Um sonho puro, sonho de crianças. O sonho de um mundo diferente. Sonho de poder ser mágico. O sonho era feliz, porque todas as crianças, pelo menos uma vez na vida, sonhavam com ele. Mas, assim que cresciam, esqueciam-se dele. "Porquê?", pensava o sonho. "Sou tão adorado durante um tempo da vida das pessoas e depois sou esquecido...!" Na verdade, era impensável sonhar com ele quando já se é grande: sonhar ser tão forte quanto os Deuses, era pecado. Pelo que, além de as pessoas pararem de sonhar com ele, passava até a ser odiado e renegado. E o que é que o sonho podia fazer? Como é que podia ser reconhecido e amado durante uma vida inteira de uma pessoa normal? E, de tanto pensar, chegou a uma conclusão: tinha de tornar o sonho realidade. Juntando as forças de várias crianças que sonhavam com ele, o sonho formou um mundo. Esse mundo estava rodeado de uma tal atmosfera mágica, que qualquer ser humano poderia ser mágico, controlar um elemento. Tendo-se tornado algo real, o sonho transformou-se numa figura humana, numa rapariguinha pequena e frágil, de curtos cabelos brancos, representando a pureza dos desejos das crianças ao sonhar com ela. Esperou e esperou e esperou. Mas as pessoas não chegavam. "Porquê?", pensava ela, um dia, enquanto observava a linda cascata que caía aos seus pés, respingando-os. "Tornei-me realidade para fazer as pessoas felizes, mas elas não me descobrem!". Então decidiu que tinha de fazer as pessoas chegar até ela... Elsa Vila, 10º Ano 63
  64. 64. MUNDO A CAIR As poucas folhas que se aguentavam nas majestosas árvores, envergonhadas pela sua própria nudez, acabavam sempre por desistir, e cair, deixando a farsa revelar-se. Caíam na erva suja e molhada, indigna da sua beleza, e pintavam- na de dourado e vermelho. Caíam mortas, nas ruas dolorosas da nossa rotina, mas, deixavam nela, um pequeno grande rasto de vida, que esperava, tinha esperanças, de eu não ter sido a única a seguir esse rasto. O rasto do seu amor por ela… Pela vida… Eu estava no carro imóvel, enquanto observava e ouvia a força das folhas, que choravam enquanto lutavam com o ousado vento, para permanecerem juntas à sua mão moribunda. E, oh…! O seu maravilhoso, mas triste planar… Caíam. E coloriam o chão sujo e molhado sem vida. Eu estava no carro quieta, sentada e confortável, enquanto observava o mais maravilhoso espectáculo a que já tinha assistido. Ninguém seguira o rasto das folhas, pelo menos o rasto que eu tinha seguido, que tanto lutaram para não morrerem, para viverem, para serem algo importante. Poucos segundos passaram, quando um novo vento as varreu daquela rua suja e molhada. Foram varridas para um novo mundo, morto e espinhoso, que não merecia aquela beleza, tão perfeita… O movimento no meu assento regressou dos mortos inertes. Começou a andar como que para fugir de tão gracioso e deprimente momento. O meu olhar não abandonava as pequenas lutadoras, que desistiam e se deixavam ir no vento cheio de promessas com um melhor fim e com um novo começo. Caíam mortas. E eu observava. Observava um mundo dourado e vermelho, a planar, a chorar, a voar… … A cair… Joana Catela, 10º Ano 64
  65. 65. O SOM DO MEU BAILAR Eu sou um piano. Não um piano qualquer!... … Sou um piano amado… Já se passaram séculos desde o meu nascimento num mundo repleto de esperança no meu existir. Eu era um novo modelo, e a minha existência fez nascer grandes expectativas. Tinha, e continuo a ter, um maravilhoso vestido de cauda negro, cujo som criado ao eu bailar, levantava as lágrimas de fantasia daqueles sem este lindo sentido de ouvir. Eu era a mais bela, a mais desejada por todos, todos me queriam tocar; o mundo adorava-me e eu adorava o mundo. O primeiro a tocar-me tinha um aspecto desordenado, de um louco, mas, também, só um louco me poderia ter criado… A agitação dentro de mim e do meu criador provocou expectativas que, ao princípio, foram destroçadas pelo fracasso. Libertei uma tímida sinfonia, pois não sabia bem o que fazer, e como fazer, naquele momento musical; limitei-me a obedecer às ordens de um maestro louco. Não sabíamos como compensar aquele silêncio com um novo som feito por nós; o meu bailar era desordenado e o meu criador estava a criar um novo e indesejado fim. Enquanto ele me tocava com aquelas mãos antigas, cheias de histórias por contar, eu bailei, bailei, e com o meu vestido negro, dancei ao som da música que o meu pai me comandava libertar até me sentir gorda de felicidade. Mas o meu criador não partilhava da mesma alegria de criar som, como eu sentia, naquele momento mágico; várias vezes repetiu as palavras de abdicar do meu novo som… Quase no seu limite de esperança, as teclas tornaram-se numa melodia há tanto tempo esperada num cemitério construtivo. Sinfonias melancólicas e melodias eléctricas invadiram a oficina da criação do seu ser, e cantava com o meu bailar; sentia-me feliz, porque eu era capaz, e sempre serei capaz, de encher o mundo com sentimentos que ele tão bem nega e reprime. Sentia-me importante! Ele tocava-me tão ao de leve com mãos delicadas e gastas pela fantasia musical, que o meu bailar e o meu cantar se tornaram harmoniosos, num só… Nunca mais o voltei a sentir… No dia seguinte, fui entregue a um sistema de compra. Esperei e esperei, e durante muito tempo fui um móvel que era constantemente limpo e observado, e constantemente tocado. Todo o mundo que me rodeava queria ouvir o meu som, e só os mais abastados é que tinham o direito, ou a sorte do lucro, de me tocar. Todos olhavam especados para o som que o meu bailar fazia encher nos seus ouvidos enfeitados. Todos me admiravam, todos me queriam, mas ninguém me comprava. Finalmente veio o dia em que este foi comprado por um senhor de meia-idade com os olhos mais negros que o meu vestido. Colocaram-me numa ampla sala branca, com mais cuidado que o ouro recebe pela sua magnífica existência. Os enormes vitrais que rodeavam a divisão, 65
  66. 66. estavam cobertos por maravilhosas histórias coloridas, com o objectivo de harmonizar; foi naquele momento que eu passei a amar anjos… Fui muito bem recebida e tratada… com amor… Todos os dias, eu era comandada a bailar para entreter os presentes, nunca me cansando. As festas enchiam-se de silêncio para eu ser ouvida por todos os cantos da casa. Festejos foram realizados com o único propósito para eu ser tocada; um solo que todos admiravam, e que todos desejavam ter… Ficava facilmente feliz, naqueles momentos… Um dia fui utilizada para um recital escolar, para ser tocada por crianças nervosas e medrosas. Nunca tinha sido tocada por crianças, por isso fiquei surpreendida quando as mãos seguras e fortes, que eu estava tão habituada a sentir, foram substituídas pelas mãos trémulas dos estudantes. Com mãos suadas e receosas, eu fui comandada a dançar e libertar os sons que o publico queria tanto ouvir. As mãos dos estudantes tremiam, quando me tocavam, e muitas vezes eu caí, devido ao nervosismo e à pressão que as pobres criaturas sentiam. O público nem uma gargalhada de troça libertou, no som parado por momentos de reflexão, devido a um pequeno engano que pode provocar o caos numa pequena divisão no mundo. Dancei, dancei e dancei, novamente, gorda de alegria; todos os espectadores gostaram, adoraram e amaram, bem como eu. O fim estava pronto a começar, só faltava uma criança, e eu já sentia falta da música. Chegou a última música e um menino apresentou-se ao público para me tocar. Fiquei surpreendida quando um ser tão pequenino teve a confiança de me agarrar, segurar e bailar comigo, fazendo-me libertar o maravilhoso som de uma serenata. Aí sim, houve um silêncio, quase avassalador, que penetrou nos meus ouvidos, por parte das testemunhas que escutavam o nosso inocente bailar. Pequenas mãos rodeavam-me e não me largavam no caso de cair. Durante anos ansiei pelo miraculoso momento de voltar a sentir aquelas mãos. O recital terminou, e o meu coração partiu-se em dois, para que uma metade seguisse o meu adorado amado, e a outra permanecesse para dedicar cada som e cada dança a essa criança. Mas as felicidades de ser tocada, foram rapidamente dadas como desaparecidas, quando um novo e maravilhoso piano, entrou pela minha querida sala e ocupou o meu lugar, como o grande espectáculo. Fui de novo posta à venda, mas ninguém me queria. O mundo estava péssimo e o som tinha sido temido, naquele tempo; se o som do vento a bailar era escutado, o público nada mais podia fazer, senão tentar ao seu máximo para salvar-se. Fiquei anos sem saber se algum dia voltaria a ser tocada por alguma alma desejosa de me escutar; o que me manteve foi a recordação do confiante e seguro toque do meu pequeno menino, por quem eu tanto sufocava… Poucos dias após este pensamento, fui escorraçada do sistema de compra e abandonada à mercê de um mundo com receio do som… Permaneci semanas nos subúrbios com a questão, e a insegurança, se algum dia iria dançar com o meu amado, quando um homem, um senhor me salvou da decadência das ruas, que começaram a ser tão temidas. O meu vestido 66
  67. 67. negro, outrora arruinado, foi reparado por várias pessoas, que se esforçaram ao máximo para a perfeição se tornar comum no seu mundo moribundo. E eu, assim, regressei ao meu mundo rodeado pelo silêncio dos restantes, para assim o meu som ser ouvido; a admiração, o entusiasmo, a felicidade, a tristeza, os sentimentos sentidos por eles, enchiam-me com uma vida que eu tanto desejei que não se tivesse desvanecido. No bar do meu salvador, eu entreguei ao meu novo público de refugiados, a vida e a morte, que os fizeram recordar velhas histórias desaparecidas, e me fizeram gorda de felicidade, por ser novamente tocada. Mais uma vez, fui amada e adorada por todos, naquele pequeno grande mundo, e dia e noite, eu era comandada a tocar sinfonias melancólicas e melodias eléctricas, que eles tanto apreciavam; transmiti assim a minha glória e a minha vitória, não só aos meus espectadores, mas também ao meu amor… Foi o dono do bar que me encontrou, que me salvou, que me acolheu, que me reparou e que tocou dia e noite, todos os dias. Ele bailava comigo, quando o bar estava mais cheio, e eu sentia-me triste ao ouvir a minha serenata… Não eram aquelas mãos grandes e seguras que eu queria sentir, e de que eu tanto sentia falta. Queria de volta aquelas pequenas, seguras mas doces mãos, que me agarraram com tanto vigor e que eu tanto amava, forçando-me a nunca esquecer que ele estava neste mundo, e que eu um dia, talvez, o reencontraria… Anos passaram e eu continuei a cantar e a maravilhar o público com o meu bailar. Permaneci no lado do dono do bar, que poucas vezes me agarrava para me tocar, e encher os ouvidos dos presentes com promessas de amor ausente, mas cujas mãos nunca me agradaram… Mas, também nunca mais voltei a sentir os seus sentimentos de vida e de alegria, pois ele sofreu um acidente de viação e o seu sorriso desapareceu ao som de uma bomba, mensageira do final. O bar fechou as portas ao mundo e fechou-me as portas, e as ruas abriram as suas, repletas de sofrimento e decadência. Vários vagabundos, sujos e porcos, tristes e bêbedos, tentaram tocar-me, numa tentativa de criar alegria falsa para os seus problemas serem afastados com o meu som. Mas o meu bailar era feio, horrível, descoordenado e errado, pois eles não sabiam tocar-me, acabando por irritar-se e magoar-me; o meu lindo, maravilhoso vestido negro de cauda foi destruído em poucas semanas… Quase no meu fim, dois homens, carregaram-me para dentro de um enorme camião que me transportou para um destino desconhecido… talvez era o final… Não… não era o final, mas sim o começo. Fui entregue a uma monumental casa branca, que me fez recordar da minha sala que agora estava ocupada por uma intrusa… mas isso também já não interessava… Bateram três vezes numa grandíssima porta de madeira escura e, quando esta se abriu, eu gritei um som de alegria e espanto. Ali estava o par de olhos negros como o meu vestido, que me tinham maravilhado, durante uma magnífica serenata, de há tantos anos, e que me tinham, naquele momento, abraçado com amor e dedicação. Com um corpo mais desenvolvido, ele tocou-me ao de leve quando um dos homens 67
  68. 68. perguntou, com uma grande curiosidade, o porquê de ele querer um piano tão mal tratado, e ele respondeu que eu era algo que ninguém iria entender… Aí, os dias e as noites do resto da nossa vida mortal, fui tocada vezes sem conta… com amor… com amor… Eu sou um piano. Não um piano qualquer!... … Sou um piano amado e tocado por mãos fortes e seguras… Joana Catela, 10º Ano 68
  69. 69. CARTA A MARGOT 1 de Maio de 2009 Querida Margot, Fico feliz por saber que está tudo a correr bem por aí. Como eu já te disse, só te vais adaptar com o tempo. Não é fácil estar num lugar que nos é estranho, sem ninguém familiar. Mas no entanto tenho a certeza que, quando te sentires mais à vontade, vais adorar. Tirando o clima, que eu sei que não gostas, estás num país fantástico e estou ansiosa por ir ter contigo nas férias. Respondendo agora às tuas imensas questões… O Pai está bem. Ultimamente, anda bastante eléctrico e muito entusiasmado com os projectos que pretende realizar. Está actualmente a trabalhar na recuperação do nosso antigo gira-discos, que há muito tempo se refugiava no sótão. Procurou e comprou um braço novo que correspondesse ao tamanho do antigo, e mandou fazer uma agulha (igual a esta não havia em nenhuma loja!). Penso que depois de concluído, irá encaixar muito bem na nossa sala. O Pai comprou logo um móvel, que já se encontra ao lado da televisão, que por agora tem apenas com os discos de vinil na parte de baixo: The Beatles, Rolling Stones, Scorpions, The Police, Supertramp, ACDC, Van Halen… Acho bastante agradável estarem ali expostos, depois de tantos anos de serem lançados, é como se os imortalizássemos. Quanto a mim, vou-me aguentando. Às vezes sinto-me muito cansada devido aos imensos esforços em casa e na escola. Estou com boas notas, média de 19, o que deixa o Pai muito feliz, e só por isso, já vale a pena. Mas, de qualquer forma, é muito exaustivo chegar a casa, estudar, arrumar o que está fora do lugar, e ainda fazer o jantar. A minha sorte é que ele costuma almoçar com uns amigos no café ao pé do seu escritório, o que agradeço profundamente, pois se viesse almoçar a casa teria trabalho a dobrar na noite anterior. Gosto muito dele, mas por vezes desejava que se esforçasse mais e que percebesse que não posso ser só eu a ―gerir‖ a casa. O Barbas está cheio de saudades tuas, tenho reparado que os riscos no portão aumentaram devido à sua vontade de sair de casa (à tua procura, deduzo, já que ele nunca foi adepto de abandonar o seu ―habitat‖). Continua a largar imenso pêlo e está enorme… Vou, finalmente, responder à tua ―questão principal‖, como citaste. Estou cansada do Ricardo. Sinto-me esgotada. Simplesmente não consigo perceber a razão pela qual ele não fala comigo. Aliás, fala. Mas não como antes. Ele mal olha para mim, parece que evita que cruzemos o olhar. Está invulgarmente estranho e só usa frases curtas, com medo de estabelecer um diálogo. Não sei porquê, mas parece que tem medo de estar comigo, como se 69
  70. 70. o pudesse privar de alguma coisa… Eu só posso ser muito estúpida por ainda me preocupar, e tentar entender. É tão estranho, tão inquietante. Não percebo por que raio tenho uma vontade imensa de lhe tocar sempre que estou perto dele. Como se me pertencesse. E, quando tento falar com ele, reage como se eu estivesse a pisar um risco, a ultrapassar um muro proibido, ou uma barreira inquebrável… Estou saturada destas situações. Não sei em que parte da sua memória é que ele depositou os nossos momentos, talvez naquela que se designa por ―memória a curto prazo‖, que dura apenas algumas horas. É irreal. Chego a questionar-me se alguma vez o conheci. Chego a duvidar se alguma vez o abracei, se alguma vez o beijei. Perante a sua indiferença comigo, aparentemente ele não se importa, não me demonstra qualquer tipo de carinho ou preocupação. Mas, no outro dia, quando recusei ir com eles tomar café (com o pessoal de sempre), e dei como desculpa que já tinha combinado algo com o André (inventei no preciso momento), ele ficou… Sei lá, irado! Como se não gostasse que eu estivesse com outra pessoa. Foi-se embora mal eu pronunciei o nome do meu amigo fictício, dizendo que estava com pressa. Eu tinha recusado ir com eles porque achei que o ambiente não ia ser agradável, ele não falaria comigo e eu ficaria frustrada. Mas parece que as minhas palavras colidiram contra ele de uma maneira arrebatadora. Ele deixou rigorosamente de falar comigo, como pôde reagir assim? Porquê? Gostava de perceber, juro... Margot, Margot. É nestes momentos que preciso, ainda mais, de ti. Promete que dás notícias. Eu morro de saudades tuas, e o pai, moderadamente, também evidencia a falta que lhe fazes. Peço-te ainda que não te esqueças de tirar uma foto ao rio Tamisa de uma perspectiva que apanhe a Tower Bridge, pois ainda não concluí o meu trabalho de história sobre as construções de Londres no século XIX, e é suposto entregá-lo daqui a duas semanas. As outras fotos estavam muito boas. Obrigada. Com muito, muito amor, Mariana. Maria João Bilro, 10º Ano 70
  71. 71. A CADA NASCER DO SOL ― Tudo começou naquela noite escura, mais precisamente a noite mais escura do ano: o solstício de Inverno. Eu era apenas uma rapariga de 16 anos, sem nenhum conhecimento sobre nenhuma das coisas importantes da vida. A minha família era uma daquelas que estranhamente não têm problemas, em que os irmãos convivem todos em plena felicidade, e os pais são um casal feliz e com uma vida de sonhos. Reconheço que sempre fui o elemento mais estranho daquela família, sempre a escapulir-me para o meu quarto para enfiar o nariz nalguma nova história. Por sermos a família perfeita, sem nada que pudesse demonstrar estranheza, desde os meus 12 anos que eu usava o cabelo com uma franja extremamente comprida, que me tapava toda a testa e quase toda a parte esquerda da cara. Foi exactamente aos 12 anos que o sinal que eu sempre tive na testa, começou a mudar. Eu achava-o muito engraçado, começou por ser apenas uma bolinha preta que nasceu comigo, mas começou a mudar aos poucos, ficou maior e tomou a forma de uma lua em quarto crescente. Nunca ninguém deu pela mudança enquanto eu não usava franja, mas comecei a usá-la porque tinha a sensação que aquela lua deveria «brilhar» só para mim, deveria ser um segredo só meu. Até que a franja combinava bem comigo, ao meu cabelo enorme, preto e ondulado, sempre parecera faltar qualquer coisa, até que descobri que a franja era a forma de o complementar. O único problema é que escondia um dos meus enormes olhos verde-mar, cheios de pestanas, em que toda a gente parecia perder-se. Bem, como eu estava a dizer, toda a gente sempre achou «a Eleina uma menina muito estranha», e ninguém sabia dizer onde os maus pais tinham errado para eu sair assim. Enfim, lá por gostar de estar sossegada no meu quarto com os meus 236 blocos e cadernos cheios de histórias, poemas e desenhos, que ocupavam o meu tempo, segundo a segundo, e os meus CD, não quer dizer que eu fosse uma miúda assim tão estranha, afinal, não me metia em drogas, não me cortava toda, nem fazia coisas estranhas. Conclusão: era uma miúda completamente normal que tinha nascido numa família com sentido de normalidade diferente do resto do mundo. Não sei porque é que foi precisamente naquela noite nem nunca ninguém me soube explicar. Era uma noite em que, mais uma vez, tudo tinha que estar perfeito lá em casa. O «querido maninho mais velho» fazia os seus 18 anos, e eu tinha que me comportar como uma princesa para não estragar o fogo de vista que o meu irmão anunciara a todos os amigos. À força, e com a disposição de quem está prestes a ir para a forca, lá me meti no meu vestido preto e branco, que só tinha sido eu a comprar, para impedir a minha mãe de escolher um cor-de-rosa às flores cor-de-laranja, que mais parecia o letreiro fluorescente de um bar. Eu por mim, sou absolutamente fã de calças de ganga (abençoada pessoa 71
  72. 72. extremamente inteligente que fez um grande trabalho a simplificar a vida às pessoas, com grande sentido de estilo) e de uma simples t-shirt, e não visto mais nada, a não ser que a minha mãe me implore, claro. Os saltos altos foram o cúmulo, afinal eu era uma rapariga de 16 anos, não uma modelo da Fashio Week de New York, e faziam-me sentir como se tivessem sido «colocados na cena do crime» para que eu não pudesse fugir a correr daquele jardim quando os convidados começaram a chegar, e eu tive que tirar o meu melhor sorriso Pepsodent do armário. A noite estava, de facto, muito escura, e a minha mãe quase teve um ataque quando o imprestável do meu irmão não conseguiu acender as tochas que estavam espalhadas por todos os cantos, como se o jardim fosse uma almofada de alfinetes, e lá teve que ir aqui a maninha fazer o trabalho sujo. A hora da tortura aproximava-se a passos largos e eu estava cada vez mais mal disposta. Sentia que aquela noite não devia ser desperdiçada com festas daquelas, e que eu deveria estar noutro lugar qualquer, que não incluísse ter de estar sempre a pentear a franja ou a afastar os brincos dos caracóis do cabelo. Por falar em franja, eu nesse dia estava com uma comichão muito estranha na minha lua, para falar verdade eu até já achava que era dos nervos. Depois de dar mais uma vez os parabéns ao meu irmão, e de fazer um grande sorriso a um grupo de amigas da minha mãe, decidi circular um bocado pelo jardim, e foi o que fiz, enquanto mordiscava uma folha do meu carvalho centenário, nos ramos do qual tinha acabado de estar sentada. Quando passei em frente da porta que dava para a sala de estar, notei que o meu pai estava lá, a beber whisky com um ar estafado, e preparando-se para se sentar discretamente no sofá, em frente à televisão. Estava a pensar se deveria ou não ir ter com ele quando via aparecer um sujeito muito estranho, todo vestido de preto, com cabelo preto e olhos pretos, que se dirigiu ao meu pai. Achei muito estranho, ninguém lá em casa conhecia gente com aquele tipo de estilo, muito menos o meu pai. Fiquei à espreita junto á porta, e vi o meu pai levantar-se do sofá para falar com o homem. Não aprecia nada satisfeito, como se o homem lhe estivesse a dizer alguma coisa do tipo que ele considerava desrespeitoso dentro da sua própria casa. Nenhum deles me viu, pareciam estar a começar a discutir, mas no meio de tudo o que disseram eu só consegui ouvir uma frase: «Não diga disparates homem, a minha Eleina não é desse tipo». Então estavam a falar de mim, e era o tipo de conversa que o meu pai não gostava…Tentei lembrar-me se conhecia aquele homem vestido de preto de algum lado, mas não, tinha a certeza que nunca o tinha visto na vida! Então como é que ele sabia o meu nome? E o que estaria a dizer sobre mim? Eu estava a olhar fixamente para os dois homens, ainda a discutir, quando uma forte e súbita dor de cabeça me fez desviar a atenção. Nesse momento houve uma rajada de vento gelado que me arrepiou toda e que apagou as tochas, ao mesmo tempo que também as luzes da casa se apagavam, por qualquer motivo desconhecido. Não havia luar, e os convidados da festa estavam a começar a ficar assustados. Ouvi a minha mãe a dizer para ficarem todos 72
  73. 73. calmos, que estava tudo controlado, e decidi entrar em casa para ver se algum fusível tinha rebentado. Passei pela sala, onde estava agora tudo calmo, como se a discussão tivesse acabado de repente, quando as luzes se apagaram, e quando estava a passar perto do sofá tropecei em alguma coisa que quase me fez cair. Não sabia o que era, mas isso tinha de ficar para depois, agora o mais importante era acender as luzes. Fui até ao quadro da electricidade, onde constatei que não havia nenhum problema, apenas tinha disparado, e voltai a ligar as luzes. Pude ouvir no jardim as vozes aliviadas dos convidados e quase fui capaz de perceber um suspiro da minha mãe. Sem me lembrar mais de ir à sala ver em que é que tinha tropeçado, decidi subir ao meu quarto para ver do meu telemóvel, que me pareceu ter ouvido tocar. Subi as escadas discretamente para ver se a minha mãe não dava por mim e me mandava fazer sala a mais alguma tia emprestada que só me faria perguntas às quais não ia gostar das respostas. Quando (finalmente) consegui chegar ao meu refúgio, já o telemóvel tinha parado de tocar, e nem me dei ao trabalho de ver de quem era a chamada, preferi tirar aqueles sapatos horríveis e atirar-me para cima da minha cama gigante com os cadernos onde estava o meu mais recente trabalho, à frente dos meus olhos. Era um desenho, uma espécie de logótipo, um esquema de figuras entrelaçadas com o qual tinha sonhado, e cuja imagem principal era a minha lua. Estava a retocar as 6 estrelas que deveriam estar entrelaçadas à volta da lua, quando ouvi um grito horrorizado, vindo do andar de baixo. Desci a correr, sem me dar ao trabalho de calçar os sapatos, alinhar o vestido ou compor o complicado penteado que a minha mãe me tinha feito, e com o coração aos saltos como se já soubesse o que me esperava, mas sem o saber bem. Mas nem todas as premonições do mundo me podiam ter preparado para o drama que se seguiu. O barulho vinha da sala onde eu vira o meu pai e o homem de preto, e era justamente aí que se encontravam agora todos os convidados da nossa festa, aos gritos e exclamações, como se estivessem no mais brejeiro dos mercados. Estava toda a gente reunida à volta de qualquer coisa, e só depois de muitos, e nada elegantes empurrões, consegui ver do que se tratava. Talvez preferisse não ter visto, porque no chão estava o meu pai, ainda com a mesma expressão zangada que eu lhe tinha visto, mas indiscutivelmente morto. Olhei em volta sem perceber nada, achando que aquilo não podia ser real, ate que dei de caras com o homem de preto. Estava à porta da sala, olhando discretamente para a confusão. Os seus olhos fixaram-se em mim, quando também percebeu que eu estava a olhar para ele, e fez a coisa que mais me indignou naquele momento: mandou-me um beijo… Depois, virou costas e foi- se embora, com a capa, que só nessa altura reparei que tinha, a esvoaçar atrás de si. Essa mesma capa que, segundo consegui ver, tinha na bainha uns desenhos bordados a fio de prata. Representavam uma rosa prateada com 73
  74. 74. espinhos que se cravavam na lua em quarto crescente. Quando olhei para aquilo voltei a sentir a dor de cabeça que tinha sentido antes de as luzes se apagarem. Para não pensar nela, voltei a concentrar-me no drama surreal em que se tinha tornado, de um momento para o outro, a minha vida, e que tinha como tema principal, o meu pai morto, com um punhal espetado no coração, e deitado no chão da sala com a minha mãe a soluçar agarrada a ele e os meus irmãos a tentarem acalmar e mandar embora os convidados de uma festa que, supostamente, deveria ser perfeita. Não conseguia olhar para os olhos abertos do meu pai, por isso decidi fechá- los, enquanto pensava no que teria acontecido e quem o teria feito. Não sei porquê, o meu olhar foi atraído para o punhal: era de outro, trabalhado com os mesmos desenhos que eu vira de relance na capa do homem de preto. Apesar de não me ter apercebido disso antes, eu já tinha a certeza de que tinha sido aquele homem, certeza essa confirmada agora pela visão dos desenhos. Perguntei à minha mãe se alguém já tinha chamado a polícia, mas não consegui perceber metade do que ela disse por entre os soluços, e a metade que percebi, apenas dizia respeito a coisas da vida dela com o meu pai que ela deveria estar a relembrar naquele momento. Não consegui dizer nada para a confortar, nem sequer conseguia chorar, apenas lhe fiz uma leve festa na mão que ainda segurava a do meu pai, e saí para procurar os meus irmãos. Como ninguém ainda o tinha feito, liguei para a polícia, que apareceu pouco depois. Dois agentes fardados e dois criminalistas fizeram as perguntas do costume à família, que se tinha reunido na sala de jantar. Contei-lhes o que sabia, e dei a descrição pormenorizada do homem, mesmo que, nem sei bem porque, não acreditasse muito que o conseguissem apanhar. Depois de levarem o corpo e de eu e o meu irmão termos obrigado a minha mãe a tomar um calmante, foram todos dormir, e eu saí para o jardim para me sentar no carvalho. As coisas da festa estavam espalhadas por todos os lados, como se os copos e os pratos estivessem à espera que os seus donos voltassem a qualquer momento, e as tochas, que alguém tinha voltado a acender, estavam quase apagadas. Atravessei o jardim como um fantasma, sem um único som, e procurei refugio na minha árvore, escondida entre as suas folhas. Ainda na semana passada o meu pai a quisera cortar, e só depois de muita insistência e muitas desculpas estapafúrdias, o tinha convencido a não o fazer. Agora, o meu pai estava morto, fora assassinado por um estranho, e a minha vida tinha mudado para sempre. Subi para um dos ramos mais grossos e abracei-me à casca com toda a força como se tivesse medo que desaparecesse. - Sabia que te ia encontrar aqui… - Era a voz do meu irmão, que eu nem tinha ouvido aproximar-se, de tão imersa em recordações que estava. - É! – Respondi simplesmente. 74
  75. 75. ILUSTRAÇÃO 9 MEMÓRIAS A CORES, JOANA CATELA 75
  76. 76. - Vem para dentro Eleina, não há nada que possas fazer para mudar o que acontecer! – Ele estava tão transtornado como eu, com o que tinha acontecido, podia senti-lo. - Não percebes? Aquele homem queria qualquer coisa de mim, queria falar comigo, e sabia alguma coisa sobre mim que mais ninguém sabe! Foi por minha culpa que o pai morreu! – Eu disse aquilo inconscientemente, mas sabia que era inteiramente verdade. - Como é que tu sabes o que ele queria? – Perguntou o meu irmão confuso – E qual é o mistério que poderia haver em ti? Não digas disparates, não foi culpa tua nem de ninguém o que aconteceu. Ou melhor, foi única e exclusivamente culpa desse tal homem, desse louco! - Não sei como é que o sei, mas sei que ele queria falar comigo - Não digas disparates Eleina! Vamos para casa, é tarde, tivemos demasiadas emoções por hoje. – Ordenou o meu irmão. Eu desci do carvalho e juntei-me a ele no caminho para casa. Subimos as escadas juntos e ele deixou-me à porta do meu quarto. - Dorme bem, amanhã temos um dia difícil. – Disse ele afastando me um bocadinho a franja. Mas eu dormi tudo menos bem, tive um sonho estranhíssimo em que eu era uma sacerdotisa da lua, como aquelas que apareciam nos meus livros e nas minhas histórias. No dia seguinte acordei sem querer acordar, o sonho tinha sido estranho, mas a realidade tinha-se tornado mais estranha do que qualquer sonho. A minha mãe passou o dia no quarto, mergulhada em tudo o que lhe lembrasse o meu pai, e eu, sendo a rapariga mais velha, fiz as honras da casa a todos os familiares, amigos e conhecidos que queriam prestar as suas condolências. Não tive sequer tempo para falar com o Kevin, o meu melhor amigo, que passou lá por casa para estar comigo, apenas lhe dei um abraço e me deixei ficar alguns minutos nos seus braços. - Estou aqui para ti, sempre, minha pequenina! – Disse-me ele, e foi o único momento em que senti que podia chorar. Ao fim da tarde recebemos a visita da polícia, que nos informou que não havia impressões digitais no punhal, coisa que eu já sabia: tinha visto as luvas que o homem usava. Quando os agentes se foram embora, fui ver das minhas irmãs que estavam sentadas à porta, sempre fechada, do escritório do pai, a chorar. Sentei-me ao pé delas e fiquei à espera que quisessem falar, mas não quiseram, abraçaram-se a mim e choraram até adormecerem no meu colo. Levei-as para cima e deitei-as, depois tranquei-me no meu quarto. Tinha passado todo o dia por menina insensível que não chora com a morte do pai, eu não estava minimamente interessada no que as outras pessoas pensavam, mas, por um lado, eu queria chorar, porque sentia que talvez fosse mais fácil se conseguisse dissolver aquela dor que tinha cá dentro. Não saiu nem uma lágrima, lembrei-me de todos os anos que passei com o meu pai, com a minha 76
  77. 77. família que eu tanto tinha desprezado, e cada coisa que passava pela minha mente ia aumentando o nó que tinha na garganta, tanto que quase sufocava. Deixei-me ficar sentada no chão da varanda a sentir as lajes geladas nas costas. A lua nova tinha acabado, e apareceu no céu um quarto crescente perfeito, igual ao que eu tinha na testa. Fiquei a olhar fixamente para ele até ter atingido o seu tamanho máximo. Era belo, brilhante, misterioso, era meu, a minha natureza. A certa altura comecei a sentir aquela comichão estranha na testa, mais leve, apenas um pequeno formigueiro. Meti a mão pela janela para tirar o meu espelho de cima da mesa. Afastei a franja e vi a minha lua a brilhar com uma cor prateada muito estranha, quase como a lua que estava no céu. Esfreguei os olhos, só podia estar a sonhar, mas quando voltai a olhar a luz continuava lá. Enquanto olhava para o espelho comecei a ver pequenas figuras a moverem-se, como se estivessem atrás de mim, mas não estavam, tinha a certeza. Era o homem de preto, o homem que matara o meu pai, estava no meio de um grupo de pessoas. Todas usavam a mesma capa, e tinham uma rosa prateada na mão. O grupo entoava um cântico, e pelas vozes percebi que eram só homens. Chegaram a uma parte em que diferentes parcelas do círculo cantavam coisas diferentes, tornando o cântico extremamente confuso para mim. Passados alguns momentos, voltaram a unir-se numa única palavra, o meu nome. Eu sabia o que era aquilo, tinha lido nos meus livros: era uma invocação. Eu só podia estar a sonhar, por isso belisquei-me. Não esperava que doesse, mas doeu, mostrando que estava bem acordada. A invocação continuava a acontecer no meu espelho, e eu sabia o que deveria acontecer a seguir. O meu espírito deveria começar a abandonar o meu corpo, que entraria em transe, permitindo ao meu espírito viajar ao encontro de quem me convocava. Tomei consciência que estava a pensar demais. Estava a partir do principio que aquela invocação estava MESMO a acontecer. Podia ser apenas uma partida do meu subconsciente, a minha mãe estava sempre a dizer que eu passava demasiado tempo agarrada à ficção. Nesse momento, comecei a sentir-me mal, a ver tudo desfocado, a ponto de as figuras no espelho não passarem de borrões, e tremer, a tremer muito, até que desmaiei. Foi uma sensação horrível, como se o meu corpo estivesse a ser transportado pelo ar e eu não conseguisse abrir os olhos. Não conseguia, estava tudo escuro. Como se tudo aquilo fosse um filme de terror, um daqueles mesmo assustadores, «acordei» no meio do círculo que vira através do espelho, ajoelhada aos pés do homem que tinha morto o meu pai. E digo ajoelhada porque, sabe-se lá como, o meu corpo tinha viajado juntamente com o meu espírito até àquele cenário surreal. - Levanta-te! – Ordenou o homem 77
  78. 78. Olhei para cima desdenhosamente. - E se não levantar? - Não estamos aqui a brincar, rapariga! – Vociferou o homem – Esperámos muitos séculos por este momento. Não te atrevas a desafiar-me. -Senão?! Espeta-me um punhal de ouro no coração? – Não deixava de me sentir inferior a ele, ali no chão, mas não tinha medo – Acho muito estranho que tenha um stock de punhais tão ilimitado. - Não preciso realmente de um punhal para matar alguém. Houve uma agitação no círculo de homens, mas ninguém disse nada. - Não ousarias! – Estava certa das minhas palavras, mas não sabia o que significavam – Precisas de mim viva para poderes gabar-te primeiro, senão, porque dares-te ao trabalho de uma invocação corpórea? Ele riu. - Não saberás de certeza, Kea? - Não sou Kea, ela morreu há muito. As palavras saíam da minha boca mas não parecia ser eu que as proferia. O homem fez um sorriso de escárnio. -Eu sei que sim, fui eu quem a mandou matar. Só que, pelos vistos, o trabalho não ficou bem feito e tivemos que reencarnar, para ver se desta vez fica. Olha que pena, vou ter de te matar outra vez! – Riu com tanta vontade, e num riso tão frio, que me arrepiou. - Ou pode ser que desta vez eu te mate a ti! – Foram as palavras que corajosamente saíram da minha boca… - Ora, ora! Parece que estamos a regressar aos princípios. Afinal sempre te lembras, é uma pena que não estejas em posição de fazer ameaças. Realmente uma pena. Começava mesmo a lembrar-me, parecia um sonho distante. Levantei-me com uma leveza e altivez que, quem me conhecesse diria certamente que não eram minhas. Agora olhava-o nos olhos, uns olhos que afinal eu bem conhecia. - Gostaste do beijo que te mandei? Fez te lembrar os velhos tempos? Desta vez fui eu quem sorriu. - Acabaste de encontrar um pormenor que certamente não se irá repetir. Um erro que não voltarei a cometer, Ewein. - Agora chamam-me Gawen. – Explicou o homem -Não difere muito do antigo, mas não sei como tens coragem para usar esse nome. Era ridículo que ele o usasse, um verdadeiro insulto a tudo o que eu alguma vez representara, portanto perfeito para ele. - Vejo que continuas ligada às velhas histórias – Comentou ele com um sorriso – e que o meu nome te afecta…continuas a ser demasiado picuinhas. Já soubeste o meu nome actual, agora resta-me saber o teu?! Estava a começar a ficar irritada, aquele homem matara o meu pai e muitas outras pessoas de quem eu gostava, não fazia sentido aquela conversa toda. - Se queres mesmo saber, é Eleina. 78
  79. 79. - Eleina…fica-te bem…combina contigo. - Não sei o que queres dizer, mas também não interessa. Estou farta desta conversa sem sentido. - Simplesmente Eleina é o nome de uma pessoa fraca como tu. - Sou fraca, mas tenho conseguido sobreviver-te, muita gente não foi capaz! Não estava assustada, nunca estivera, estava irritada, cheia de vontade de acabar com aquele homem. - Tratemos disso! Assumiu a sua posição de ataque: corpo direito e expressão fechada, e o seu cabelo preto começou a esvoaçar. - Finalmente vamos começar? - Vocês ficam quietos, ninguém se mete. Da ultima vez não fui eu e viu-se o que aconteceu… - Finalmente alguma coragem! Também o meu corpo parecia assumir uma posição de combate, mas mais uma vez não era eu que o comandava, nem sequer percebia totalmente o que se estava a passar. Os homens alargaram o círculo dando-me espaço para me afastar de Ewein. O seu cabelo cada vez esvoaçava mais, e as suas pupilas alargaram-se até não haver mais branco nos seus olhos. - UH! Intimidante! – Trocei eu. Em resposta ele lançou-me um relâmpago, um autêntico relâmpago, energia pura, que passou a centímetros de mim. - Gostas dos novos truques? Não tinha falado, não tinha proferido uma única palavra para me lançar o relâmpago. - Não me afectou, como podes ver. Estava cada vez mais irritada. Lançou outro, e outro, e outro, que miraculosamente não me acertava, pareciam ser desviados por uma barreira invisível. Estava a ficar furioso a pontos extremos, tinha uma aura de energia à sua volta, energia visível, que lançava pequenos raios à sua volta. - Tenho que te matar, para ires ter com o teu querido Gawen, e Deidara. As suas intenções de me irritar estavam a ser bem sucedidas, lembrei-me de pessoas que não me lembrava de ter visto nos últimos dezasseis anos, mas que faziam parte de mim. Comecei a chorar de fúria, muitas, grandes e grossas lágrimas que instantaneamente se transformavam em pingentes de vidro, ou melhor, diamante, afiados como facas, que voavam directamente para Ewein. Ele esforçava-se para pará-los, destruía-os com a energia, mas eram muitos, demasiados, as suas roupas começaram a rasgar-se e começou a sangrar de um milhão de pequenos golpes. - Sua maldita! – Ele estava ainda mais furioso. A onda de energia intensificou- se ainda mais, e o ar ficou pesado, fazendo com que os cabelos de todos os presentes se levantassem. – Vais morrer! 79
  80. 80. Todo o poder acumulado por ele soltou-se, demorou apenas uma fracção de segundos, tive medo que me atingisse, verdadeiro medo, mas nessa fracção de segundos, tudo ficou escuro… «Será que morri?» – Pensei. Nunca tinha tido uma sensação assim, estava leve, parecia não ter corpo. Só havia uma coisa que me incomodava: a escuridão não acabava. Eu era uma pessoa de escuridão, mas não durante eternidades, que era o que aquilo parecia, nunca mais acabava. Comecei a perder-me, a desaparecer, só queria acabar com aquilo, fosse como fosse. Ao fim de uma eternidade pareceu-me que as coisas estavam a clarear um pouco, minuto a minuto mais um bocadinho, mas podia ser só o reflexo dos meus desejos. Sinceramente tinha mesmo começado a acreditar que estava morta, mas se era assim, estar morta era horrível. Alguns momentos depois comecei a ouvir um cântico, não aquele que me convocara, mas um mais leve e mais suave, uma música linda cantada apenas por mulheres. A cada nota a escuridão à minha volta diminuía, era como que o contraste da invocação. Acabei de adormecer ao som da música. Acordei sentada na varanda, com o espelho no colo. Já era de manhã. De repente começai a lembrar-me do que tinha acontecido na noite anterior. Já não sabia se tinha sido real, ou apenas mais um dos meus sonhos, apenas que era estranho. Levantei-me e entrei no quarto calmamente, doía-me o corpo todo. Olhei para o espelho e vi que o meu cabelo estava todo levantado, cheio de electricidade estática, como se realmente tivesse combatido com Ewein. Penteei-me e fui buscar um livro para ler, estava cansada e cheia de sono, mas não queria adormecer, por medo do que iria acontecer. Decidi-me pelo primeiro volume das Brumas de Avalon, um dos livros que mais me fazia voar. Quando estava sentada na cama, a ler, lembrei-me da música que tinha ouvido antes de acordar. Não era português nem inglês, era latim, e eu sabia-o porque tinha tido aulas. Enquanto tentava decifrar o seu significado, alguém bateu à porta. Era o meu irmão, que pediu para falar comigo. - Eleina, estás bem? - Estou, porque não haveria de estar? - Não mintas! Temos que ser fortes, mas não a ponto de negar a verdade. - Mas tu não sabes qual é a verdade, por isso nem te atrevas a falar em verdade. Para ti, tal como para os pais, esta sempre foi uma família perfeita, quase que ignorando a minha existência, e agora continuas a tentar manter as tuas preciosas aparências. Não somos, nunca fomos e certamente não vamos ser a família que vocês querem. Gritava e esbracejava como uma louca. - Desde que viste viver connosco que destruíste essas aparências! - Edward! – Ouvi um grito escandalizado, enquanto as palavras do meu irmão ecoavam na minha cabeça. - Ela tem o direito de saber! – O meu irmão gritava em direcção à minha mãe, que se sustinha em na ombreira da porta do meu quarto. 80
  81. 81. Eu estava a ficar histérica. - Mas saber o quê? O meu irmão tentou falar, mas foi imediatamente interrompido pela minha mãe: - Não te atrevas Edward, não assim! - Mas o que é que se passa? - Eleina, temos que falar, querida! Edward, sai. A minha mãe olhava para mim tristemente enquanto o meu irmão abandonava o quarto. - O que é que se passa? - Querida, tenho imensa pena! Não sei se há uma boa maneira de contar uma coisa assim, mas mais vale saberes. Depois de o teu irmão ter nascido, eu e o teu pai tentámos ter mais filhos, durante muito tempo, sem sucesso. - Mas engravidou de mim, obviamente! Não estava bem a perceber onde é que a minha mãe queria chegar. - Não me interrompas! Consegui engravidar, e estávamos muito felizes. Aos sete meses caí das escadas e perdi o bebé. Não se chegou a saber, porque menos de uma semana depois tocaram à porta, e quando fui abrir encontrei uma bebé linda, a olhar para mim. A minha mãe olhava-me a medo. - Era eu? - Eras sim, querida. Desculpa. A minha mãe tentou abraçar-me, mas eu fugi-lhe e saí do quarto a correr. Refugiei-me nos ramos mais altos do meu carvalho, a chorar compulsivamente. Não fazia ideia do que fazer, aquela era a minha casa, o meu mundo. - Eleina, desce daí. A minha mãe encontrava-se lá em baixo. - Há mais alguma verdade escondida sobre a minha existência? - Querida, és minha filha, eu e o teu pai sempre te amámos. - As manas são suas filhas? – Perguntei de repente - São. Tens que perceber que eu tinha que te contar. Se fosse o teu irmão a fazê-lo nunca me perdoarias. - O que a leva a pensar que assim perdoarei? - Eu não espero que perdoes por agora, mas a verdade é que nunca esperei ter que te contar. - E os meus pais biológicos? – Perguntei muito baixinho. - Desculpa querida, a única coisa que deixaram foi um papel que dizia ―Eleina‖. Pensámos que seria o teu nome. - Mãe, vá para casa. Preciso de ficar sozinha. – Pedi calmamente - Está bem, mas não te esqueças que és e serás sempre minha! Mais uma vez sentia-me estranhamente alheada da realidade, como se não estivesse a viver aquele momento. Não saí do meu carvalho durante todo o dia, tinha uma ideia em mente, mas tinha que pensar realmente bem… Acabei por adormecer nos ramos mais altos. 81

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