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SUPLEMENTO LITERÁRIO                                                                         O BANDEIRANTE - Novembro de 2...
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O Bandeirante - n.228 - Novembro de 2011

  1. 1. Jornal O Bandeirante Ano XX - no 228 - novembro de 2011 Publicação Mensal da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores - Regional do Estado de São Paulo - SOBRAMES-SP ...E meus amigos, cadê?Josyanne Rita de Arruda FrancoMédica PediatraPresidente da Sobrames SP / Biênio 2011-2012 Quanto tempo levará até que tado, planejamento para o futuro, Lápides inscrevem a passagemconsigamos perceber que a sau- rebeldia, namoro, segredos, enla- do tempo, enquanto a brisa dedade se instalou insidiosa dentro ces e perdas. Que vida é essa que um morno dia sem chuva assinalado peito experiente e calejado corre ligeira sem querer saber de a importância das sensações. Ho-pela vida? De repente, um incô- um pouco esperar? E as luzes na menagens a quem se foi, lembran-modo aponta que o passado ficou rua se multiplicando, riquezas da ças que jamais partirão e continu-na memória e repousa nos regis- noite que, antes de estrelas, dei- arão a se chamar saudade.tros captados por filmes e fotos, xou a seresta dormindo em algum “E meus amigos, cadê?”... é oainda assim palpitando febril nos canto da nostalgia. que pergunta o verso da cançãocaminhos arteriais e venosos que Buzinas de carros, ciclistas e que ouço baixinho no carro, can-indicam nossa latejante e pulsátil motos correndo sem nunca di- tarolando com entusiasmo.presença sobre a terra. zerem por quê. Novos tempos, Que vontade de ver meus di- Feito caminhos de rios ama- dizem os sábios contemporâneos letos amigos! Que vontade quezônicos, lágrimas escorrem nos de pouco alicerce e total solidão. cada dia transcorra cheio dosulcos expressos nas faces, re- Que tempo merece ser des- doce entusiasmo que colore ascordando felizes momentos... prezado com a falta de tempo? expectativas felizes, só para sen-Outros, nem tanto. São anos e Aguardamos futuro, porvir ri- tir a vida que se oferece no caloranos passando o passado a lim- sonho a nós prometido desde o do afeto compartilhado.po, olhando retratos, deixando princípio do ser, mas nos senta- A música que ouço no carrode lado o quase possível, só para mos na confortável poltrona da agora parece ser outra e diz “...existir. Amados, amantes, amigos grife mais cara e tão singular me dê um abraço, venha me aper-marcando história e narrativa, (excelente aquisição no salão de tar, tô chegando...” na voz suaveconcedendo o gosto de serem re- móveis importados), enquanto e melodiosa da outra artista.cordados ou o amargor de ainda nossos queridos vão fechando os O tempo é o mestre da vida, oserem lembrados. olhos, a boca e os ouvidos no si- senhor da história! Ele usa metá- Até pouco tempo éramos crian- lêncio sem volta da chama que se foras para se fazer compreender,ças sonhando folguedos, armando apagou. utiliza a saudade para perpetuarfolias no meio do mato, saltando Trabalho excessivo além do os momentos que leva embora...os muros, sujando as roupas de coerente para viver bem, de for- Surpreendo-me cantando “emlodo, de barro e suor pingado que ma honesta e tranquila, transfor- algum lugar do tempo nós aindaprecisavam ser lavados no córre- mando-se em correria, exaustão estamos juntos... Em algum lu-go bem ali, mais distante do que e doença. gar, ainda estamos juntos...” e meos olhos alcançam. Escola, dever Cidades de mármore e ausên- descubro sorrindo neste mês dede casa, missa aos domingos, rou- cias compõem o cenário que mar- novembro de tanta lembrança epa nova nas festas. Dinheiro con- ca o mês de novembro. saudade.
  2. 2. 2 O BANDEIRANTE - Novembro de 2011 EXPEDIENTE Tempo é um artigo precioso e não raras vezes nos encontramos fazendo duas coisas ao mesmo tempo.Jornal O BandeiranteANO XX - no 228 - Novembro 2011 Por exemplo, eu tomo meu café da manhã assistindo aos jornais. No plural, porque depois da invençãoPublicação mensal da Sociedade Brasileira de Médicos do controle remoto nós assistimos vários jornais aoEscritores - Regional do Estado de São Paulo SOBRAMES-SP.Sede: Rua Alves Guimarães, 251 - CEP 05410-000 - Pinheiros - mesmo tempo.São Paulo - SP Telefax: (11) 3062-9887 / 3062-3604 Editores:Josyanne Rita de Arruda Franco e Carlos Augusto Ferreira Existem duas temporadas de propaganda: noGalvão. Jornalista Responsável e Revisora: Ligia Terezinha último trimestre, pensando em desovar estoques ePezzuto (MTb 17.671-SP). Redação e Correspondência: RuaFrancisco Pereira Coutinho, 290, ap. 121 A – V. Municipal – CEP abocanhar o décimo-terceiro mês de pagamento,13201-100 – Jundiaí – SP E-mail: josyannerita@gmail.comTels.: (11) 4521-6484 Celular (11) 9937-6342. Colaboradores as empresas automobilísticas nos enchem de carrosdesta edição: Carlos Augusto Ferreira Galvão, Josyanne Rita velhos com pinturas, air-bags, computador de bordo,de Arruda Franco, Ligia Terezinha Pezzuto, Maria do CéuCoutinho Louzã, Sergio Perazzo. favorecendo o endividamento das pessoas e aumen-Tiragem desta edição: 300 exemplares (papel) e mais de tando ainda mais os congestionamentos. Mas isso não1.000 exemplares PDF enviados por e-mail. é nada perto do meio do ano.Diretoria - Gestão 2011/2012 - Presidente: Josyanne Ritade Arruda Franco. Vice-Presidente: Luiz Jorge Ferreira. Passando manteiga no pão, assisto uma disputa de aerossóis assassinos dePrimeiro-Secretário: Márcia Etelli Coelho. Segundo-Secretário: Maria do Céu Coutinho Louzã. Primeiro- baratas, ou uma criança que aos quatro anos quer ser médica, fazendo curativosTesoureiro: José Alberto Vieira. Segundo-Tesoureiro: Aida com barro e cocô de cachorro em um amiguinho. Meu sabonete é aquele qual-Lúcia Pullin Dal Sasso Begliomini. Conselho Fiscal Efetivos:Hélio Begliomini, Carlos Augusto Ferreira Galvão e Roberto quer que a minha mão alcança no supermercado, não o da criança prodígio.Antonio Aniche. Conselho Fiscal Suplentes: Alcione AlcântaraGonçalves, Flerts Nebó e Manlio Mário Marco Napoli. Num gole de suco de laranja, vejo em outro comercial quatro crianças com problemas de bexiga hiperativa entrando em casa ordenadamente, do mais Matérias assinadas são de responsabilidade de seus autores e não representam, necessariamente, a opinião velho ao mais novo (foram educadas muito bem), aos gritos de “xixi-xixi-xixi” da Sobrames-SP e na nossa posição de velhos prostáticos chegando em casa da rua. Desisto do meu café quando aparece o último garotinho: “Eu quero fazer Editores de O Bandeirante cocô na casa do Paulinho.” Faltou somente mostrar outro comercial do super-Flerts Nebó – novembro a dezembro de 1992 pato lavando o vaso sanitário que, pelo visto, deve ser uma imundície.Flerts Nebó e Walter Whitton Harris – 1993-1994 Cada vez mais acho que o mesmo episódio do Chaves, que cada famíliaCarlos Luiz Campana e Hélio Celso Ferraz Najar – 1995-1996Flerts Nebó e Walter Whitton Harris – 1996-2000 brasileira assistiu a pelo menos cinco vezes ainda é o melhor que a nossaFlerts Nebó e Marcos Gimenes Salun – 2001 a abril de 2009 televisão pode oferecer.Helio Begliomini – maio a dezembro de 2009Roberto A. Aniche e Carlos A. F. Galvão - 2010Josyanne R. A. Franco e Carlos A.F. Galvão - janeiro 2011 Roberto Antonio Aniche Presidentes da Sobrames – SP1º. Flerts Nebó (1988-1990)2º. Flerts Nebó (1990-1992)3º. Helio Begliomini (1992-1994)4º. Carlos Luiz Campana (1994-1996)5º. Paulo Adolpho Leierer (1996-1998)6º. Walter Whitton Harris (1999-2000)7º. Carlos Augusto Ferreira Galvão (2001-2002) O Malho8º. Luiz Giovani (2003-2004)9º. Karin Schmidt Rodrigues Massaro (jan a out de 2005)10º. Flerts Nebó (out/2005 a dez/2006)11º. Helio Begliomini (2007-2008) Pouca gente, é verdade, mas visitantes ilustres, vários. Textos pequenos, poesias12º. Helio Begliomini (2009-2010)13º. Josyanne Rita de Arruda Franco (2011-2012) lindas... Pizza brilhante; os colegas que perderam, perderam. Mas teve cada Editores: Josyanne R. A. Franco e Carlos A.F. Galvão ausência... Ficou assim como um jantar sem o arroz. Revisão: Ligia Terezinha Pezzuto Diagramação: Mateus Marins Cardoso Impressão e Acabamento: Expressão e Arte Gráfica CUPOM DE ASSINATURAS* Preço de 12 exemplares impressos: R$ 36,00 Nome:___________________________________________________________ End.completo: (Rua/Av./etc.) _______________________________________ Aniversário ________________________________ nº. _______ complemento _________ novembro: nesta data querida, nossos parabéns! Cidade:_____________ Estado:_____ E-mail:___________________________ Alcione Alcântara Gonçalves – 14/11 Grátis: Além da edição impressa que será enviada por correio, o assinante receberá por e-mail 12 edições coloridas em arquivo digital (PDF) Maria de Fátima B. C. Batista – 07/11 *Disponível para o público em geral e para não sócios da SOBRAMES-SP Sérgio Pelegrini Marun – 06/11 Preencha este cupom, recorte e envie juntamente com cheque nominal à SOBRAMES-SP para REDAÇÃO “O Bandeirante” R. Francisco Pereira Coutinho, 290, ap. 121 A - V. Municipal - CEP 13201-100 - Jundiaí - SP Sônia R. A. de Castro – 25/11 Dê uma assinatura de “O BANDEIRANTE” de presente para um colega
  3. 3. SUPLEMENTO LITERÁRIO O BANDEIRANTE - Novembro de 2011 3 Notícias No dia 08 do corrente, na Livraria MartinsFontes da Avenida Paulista, nossa Primeira-Secretá-ria Márcia Etelli Coelho realizou concorrido lan-çamento de seu livro de poesias “Entre o Laço e osNós”, ocasião em que foi prestigiada por diversosassociados da Sobrames-SP, amigos e admiradoresda escritora. Dia 9 de novembro, o Dr. Sérgio Pitaki, presidente da Sobrames Paraná, criou um grupo no facebook denominadoSociedade Brasileira de Médicos Escritores, que ajudará a divulgar o XXIV Congresso Nacional da Sobrames em Curi-tiba, de 11 a 13 de outubro do ano vindouro e também possibilita a aproximação entre as diversas regionais. Quemquiser ingressar na rede social da Sobrames pode entrar em contato pelo e-mail da Dra. Márcia Etelli, administradoraoficial do grupo: marciaetelli@ig.com.br Realizou-se de 13 a 15 de novembro a Jornada da Sobrames Nacional no Maranhão, um evento bonito e prestigia-do por diversas regionais. Nossa confreira e segunda tesoureira Aida Lúcia Pullin Dal Sasso Begliomini recebeu oprêmio de melhor poesia com o trabalho “O Tempo”. Na categoria prosa, o primeiro lugar foi do confrade do CearáJosé Maria Chaves com o trabalho “Faça, Não Faça, Faça”. Parabéns aos vencedores. Ainda sobre a Jornada do Maranhão, o Dr. Helio Begliomini, membro fundador de nossa regional e ex-presidenteproferiu palestra cujo tema foi "Minha Vivência na Sobrames". A Academia Brasileira de Médicos Escritores (ABRAMES), sediada no Rio de Janeiro, realizou sua consagradaSemana da Academia, ocorrida de 23 a 25 do mês em curso. Foi um evento elegante e distinto que premiou nossoconfrade da Sobrames paulista, Dr. Nelson Jacintho, em diversas categorias literárias e contou ainda com a presençado casal Begliomini no prestigiado encontro. Nossa presidente, Dra. Josyanne Rita de Arruda Franco, concedeu entrevista para a revista “Vamos Lá!”, um guiade cultura, lazer e gastronomia distribuído gratuitamente em Jundiaí, onde há reportagens sobre artistas e pessoasda cidade envolvidas com cultura e arte. A seção "Na Estante" divulgará a Sociedade Brasileira de Médicos EscritoresRegional São Paulo no mês de dezembro. As reuniões de diretoria acontecem sempre às primeiras quintas- feiras do mês, na Pizzaria Bonde Paulista, mesmo lugar onde se realizam nossos encontros festivos, as charmosas e concorridas Pizzas Literárias. Os interessados em participar, colaborando com ideias, sugestões e amizade estão convidados e serão bem acolhidos. Parti- cipem da construção da nova Sobrames-SP. Nosso blog está sempre atualizado e cheio de novidades no en- dereço http://sobramespaulista.blogspot.com Querendo receber mais informações sobre a Sociedade Brasileira de Médicos Escritores Regional São Paulo, inclusive como se tornar nosso associado, envie um e-mail para josyannerita@gmail.com
  4. 4. 4 O BANDEIRANTE - Novembro de 2011 SUPLEMENTO LITERÁRIO Quem é? Quem é? (resposta da edição de outubro) Dr. Walter Whitton Harris, nosso estimado sobramista e prestigiado colega médico. Perfil 2011 Sobrames-SPHelio BegliominiAtuação: médico urologistaCidade de nascimento: São PauloComida preferida: carnes e peixesEsporte: natação, caminhadas e musculaçãoLivro de cabeceira atual: há anos, as sagradas escrituras.Filme: Horizonte perdidoFim de semana: gosto de estar com a família, recarregando bateriasViagem inesquecível: tour pela Europa e AustráliaSonho: ter sido médicoIntolerância: arrogância, desonestidade, hipocrisia.Características pessoais: sou alegre, disciplinado, descontraído, sério,interessado e romântico.Projeto futuro: manter a família unida e em harmonia.Filosofia de vida: fazer o melhor que posso com alegria.
  5. 5. SUPLEMENTO LITERÁRIO O BANDEIRANTE - Novembro de 2011 5 Peregrino (para a Ellen)Sergio Perazzo Pousou o trinta e oito de cabo de madrepérola, cano longo(um colt?), em cima do balcão só como apoio, apontado para obarman, assim como quem não quer nada, como quem apontauma prega de cortina ou outro ponto qualquer com o bico deuma tesoura ou de um bule de chá que por acaso estivesse namão. Nada mais casual. Estava mais pra dona de saloon do quepra qualquer outra coisa. Se havia chegado a esse ponto, era porque a hora de pa-rar tinha sido cantada pelo cuco que a gente carrega mudo,calçando o passo da existência. Sentiu que tomara a decisão.Era o momento, momento que se impunha, momento defechar o Peregrino. Asinhas de frango constavam da lista de petiscos docardápio. Desde o começo. Antes mesmo, muito antes, deinaugurar o Peregrino. Quando foi parido, na mesa de outrobar, esse das asinhas de frango, aos goles de caldinho de feijão com cebolinha no frio congelante de Curitiba, não seimaginava o berço nem a trajetória. Muito menos o sucesso. Entre uma asinha e outra, a roda de amigos egressa de bar em bar, nem sempre a música na altura certa que embalasseo ritmo das coisas sem abafar a conversa. Não se podia dançar de rosto colado até as quatro e a saideira era imposta pelascadeiras antipáticas de cabeça para baixo, numa troça noturna de bêbados equilibristas. Tudo, enfim, sem aconchego.O que mais se desejava era um cenário adequado de acolhimento das agruras, desagruras e alegruras. Nada mais. Davida com relógio marcando cada segundo, já chegava a semana. Foi assim que ela idealizou e montou um bar de afinidades. Batizou-o Peregrino. No espírito, não todo espírito,é claro, um tanto Bagdá Café, em sua concepção brasileira, um oásis no deserto, num canto um piano meio bemoldesafinado, no outro o dourado descascado de uma tuba encostada na parede, início e fim de expediente. No arco doteto, desde rolos de pastel e escorredor de macarrão, até um berrante que ninguém conseguia tocar, era um desafioexplícito, muito menos acertar a embocadura. E para coroar o conjunto desses pingentes extravagantes e excêntricos,o monóculo que se dizia de Eça de Queirós, arrematado num leilão do cassino, à beira-mar, de Póvoa do Varzim, terranatal do pai do Padre Amaro. As cadeiras tinham braços que abraçavam e convidavam a ficar mais, como sala de visitas de tias-avós com seuslicores de jenipapo e biscoitinhos de araruta. Não eram aqueles sentantes que pareciam catapultas, tão logo chegavaa conta, enfileirando fregueses no bar em andamento de linha de montagem. Um lustre de cristal da Boêmia só pralembrar os anos 50 e as jaquetas James Dean, misturando o rock que nascia, o chapeuzinho Nat King Cole que abavae desabava e o baixo acústico dos trios de jazz com harmonias do Jobim. Até os abstêmios eram bem-vindos. Logo virou point dos desgarrados da noite, dos intelectuais de cabeceira, dos futeboleiros de ocasião, das beldadessiliconadas e não siliconadas, selecionadas por conteúdo, graça e espírito, pelos movimentos sensuais da dança e pelobrilho das frases completas que tudo tinham a dizer e pontuar, sublinhadas com a mais reta sobrancelha e o riscovermelho do lábio inferior sem fazer muxoxo ou biquinho. De casacos de pele ou pantalonas, não importa, coloriamo Peregrino das mais suaves e das mais escandalosas tonalidades ao gosto da alegria contagiante ou do toque cinzentode um traço de melancolia. O local em que se assentou o Peregrino era lá pros lados do Rebouças, não muito longe da antiga fábrica do Mate Leão,muito antes de ser encampada pelo templo de uma dessas religiões carismáticas que abarulham, com seus sermões dealto-falantes, todo bairro e todo sábado, num raio que até parece de 100 quilômetros, despertando emoções truculentasde um conto de Dalton Trevisan, ressuscitando, boca a boca, a Boca Maldita do Centro Velho, com sua mordacidade maldisfarçada de quem não tem nada a fazer, senão envenenar a vida alheia com o cianureto da maledicência. Fato é que a coisa deu certo. A convivência democrática do Peregrino abria palco para a declamação de um poema,mesmo que concreto ou só gestual, ou para um acorde de um violão de sete cordas na baixaria grave da introduçãode um chorinho ou de um samba de lei. No mesmo dia, ainda a surpresa de uma peça de jazz para oboé, escaletae reco-reco. Ou uma tímida subgerente do Banco do Brasil, sentada perto da janela, virando estrela de momento,incentivada pelos amigos de mesa, explodia, cantando Key Largo, reproduzindo os graves da Sarah Vaughan em suas (continua na próxima página)
  6. 6. 6 O BANDEIRANTE - Novembro de 2011 SUPLEMENTO LITERÁRIO(continuação da página anterior)melhores fases e em seu passeio sem esforço em escalas de dó a dó. Abria, inclusive, às segundas, para atenuar a aspereza do degrau que as separavam dos domingos, para que nãoficasse a impressão de um fim de semana esfacelado pelo retorno do cotidiano, desfazendo o sonho, refazendo a ilusãode um mundo todinho feito da transubstanciação dos sentimentos, do gozo pleno, da celebração da beleza pura, daamizade eterna, do amor a cada segundo renovado apenas em sua sensação do sublime, sem horizontes de fim deato, de dor crônica de cotovelo compondo sambas-canções envelhecidos pelo tempo, de novo, provisório. Peregrino,sempre Peregrino. Mas nem tudo é riacho de águas claras correndo solto. Como poeira que vai se insinuando pelas frestas impregnan-do cada vão, cada espaço de taco do assoalho, cada ângulo de teias de aranha da cumeeira, cada ranhura de parededescascada, até ficar tudo meio acinzentado, no limite do espirro sufocante à procura de desafogo dos respingos dacorrupção velada, da violência gratuita, do deboche declarado, da burocracia, da extorsão, da decadência moral, essapoeira inevitável também atingiu o Peregrino até o ponto de se correr o risco de não mais distinguir antiguidade develharia, tradição de entulho, consistência de esfarelamento, dignidade de degradação, deslumbramento de banali-dade, harmonia de caos. Primeiro os fiscais, pretextando um atraso na liberação de um alvará da Prefeitura, culpa da própria Prefeitura comseus meandros inconfessáveis de mil instâncias e adiamentos. Outra vez era a multa pelo lugar exato de um extintorde incêndio supostamente mal colocado ou da localização de um ralo ou de uma lata de lixo. Ela gastou o que tinhae o que não tinha, o que lucrara e não lucrara para tentar satisfazer a gula insaciável deste dragão de tributos, atéincorporar como rotina a bolada de reais para esconder na cueca, que molhava as mãos dos dignos representantesda administração pública como se fora uma arrecadação paralela legítima. Deixai nas portas do inferno qualqueresperança de regularizar alguma coisa! Depois, as ações trabalhistas, uma atrás da outra, que não paravam de se materializar na figura dos oficiais dejustiça, notificando horas extras que não tinham sido dadas, insalubridades inventadas e os mais variados argumen-tos que os advogados de porta de sindicatos são capazes de arquitetar, de olho na percentagem que lhes cabe comohonorários, fruto de sentenças paternalistas, impondo acordos sem acordos para preencher a falta de tempo e dedisposição de juízes sonolentos de ao menos ler o miolo de uma pilha interminável de processos, ações essas instigadaspor ex-empregados beneficiados fraudulentamente com a dispensa por justa causa. Pra complicar ainda mais a história, a dor de cabeça em que se transformaram os manobristas do serviço de valetcom suas arrancadas de F1 com os bólidos a eles confiados, arranhões nas carrocerias por manobras desastradas,furos de pneus, para-choques e para-lamas amassados, roubos de objetos e agasalhos deixados dentro dos carros,vidros trincados, lanternas quebradas e toda sorte de prejuízos diários que tinham que ser ressarcidos aos bolsos dosclientes da casa. Reclamações de todo tipo. Para culminar, o barman contratado não se sabe mais por indicação de quem e que, soube-se depois, tinha umapassagem breve e obscura, como lateral esquerdo, pelo rebaixado Paços de Ferreira, um time esquecido do campeo-nato português. Ao que se sabe, conseguiu uma dinheirama quando se transferiu para o Newcastle, do futebol inglês,envolvendo em maracutaias os cartolas dos dois times europeus. Saiu de lá poucos meses depois, corrido a pontapése com fama de sociopata, após alternar semanas com contusões suspeitas e noitadas varando madrugadas nas baladasbritânicas de scotch e cheiração, acompanhado de modelos de 2ª linha e de 3ª mão. Pois bem, formando quadrilha com outros dois garçons, começou a fazer desaparecer da adega do Peregrino vi-nhos de rótulos caros que revendiam aos concorrentes com boa margem de lucro e a dar sumiço nos defumados deprimeira, importados, trufas e toda sorte de especiarias, para desespero do chef e esvaziamento do estoque. Descoberto, começou a desfiar toda sorte de chantagens e ameaças que ela, praticamente sozinha, sentia dificul-dade de enfrentar, culminando com a tentativa de sequestro de seu filho adulto na rua já deserta, na hora de fecharas portas do Peregrino, no quase amanhecer. Eram três, de máscaras de esquiador e capuz, saindo de repente de um pedaço de sombra para obrigá-lo a entrarno banco traseiro do carro, o banco clássico dos sequestrados. Ela tinha ficado um pouco pra trás, fechando a porta do bar, sempre a última a sair. Viu de longe o filho sendoempurrado com violência, marchou firme até os assaltantes, enfrentando-os com a determinação de um xerife deMatar ou morrer ou de O homem que matou o facínora: Ou me leva junto ou solta meu filho. Daqui não saio. Podemficar com o carro e com minha bolsa, no que a quadrilha obedeceu, não se sabe até hoje por que, deixando os dois apé, lisos, lívidos, mas milagrosamente vivos. Desconfiou e teve provas depois, por uma dica de um amigo investigador, prata da casa no Peregrino, que o mandanteera o barman e o jeito que encontrou de parar com as chantagens, furtos, violência e, de lambuja, conseguir despedi-losem compensações trabalhistas, foi pegar na gaveta da mesinha de cabeceira o cano longo, herança do pai, que lá estavaadormecido, e pousá-lo no balcão, displicentemente, com seu cabo de madrepérola em recado de silêncio. Foi a gota e a solução. Adeus monóculo de Eça de Queirós, berrante, aconchego, oboé e reco-reco. Fechou as portaspara nunca mais. Sem custos trabalhistas. Peregrino, tchau! Até logo, good-bye, adeus!
  7. 7. SUPLEMENTO LITERÁRIO O BANDEIRANTE - Novembro de 2011 7 Walter Whitton Harris Uma ideia de felicidade Cirurgia do Pé e Tornozelo Ortopedia e Traumatologia Geral CRM 18317 Av. Pacaembu, 1.024 01234-000 - São Paulo - SP Maria do Céu Coutinho Louzã Tel.: 3825-8699 Cel.: 9932-5098 Busquei no baú da saudade Dr. Carlos Augusto Galvão O que vem a ser felicidade. Psiquiatria e Psicoterapia Rua Maestro Cardim, 517 Ali estava a infância despreocupada tão passageira Paraíso – Tel: 3541-2593 no faz de conta da vida brejeira. Coroas de flores do jardim criadas Para bonecas descabeladas, há muito abandonadas. PUBLICIDADE TABELA DE PREÇOS 2009 Livros coloridos onde falavam as fadas (valor do anúncio por edição) e brigavam bruxas. Agora com algumas páginas arrancadas. 1 módulo horizontal R$ 30,00 O urso tão meigo e simpático restou meio pelado 2 módulos horizontais R$ 60,00 3 módulos horizontais R$ 90,00 e ainda me ouvia ralhar só porque não ficava sentado. 2 módulos verticais R$ 60,00 4 módulos R$ 120,00 Caixinha de música, dourada, muito especial ao tocar 6 módulos R$ 180,00 uma valsa, para o parzinho de bonecos, dançar. Outros tamanhos sob consulta Presente trazido de longe encantou a menina. josyannerita@gmail.com Agora já não toca mais. Quebrou-se o sonho e a magia. Nos folguedos, pular corda, amarelinha, o caracol. Esconde-esconde, queimada, brincadeiras de roda “Atirei um pau no gato, tô”... até o por do sol. REVISÃO Porém agora tudo é passado. A TV deixou fora de moda de textos em geral Na escola, meu Deus, a tabuada! Ligia Pezzuto Especialista em Língua Portuguesa Mas quanta alegria quando decorada. Caligrafia, problemas para resolver. (11) 3864-4494 ou 8546-1725 E a leitura era preciso entender! O amanhecer puro da chegada do Natal longevità A árvore, os sapatinhos. Brilhava a estrela de purpurina! (11) 3531-6675 E encantada encontrar os tão sonhados brinquedos. Estética facial, corporal e odontológica * Depois as amigas confidentes que trocavam segredos. Massagem * Drenagem * Bronze Spray * Nutricionista * RPG Toc - toc: a emoção no primeiro salto alto. O batom permitido. Rua Maria Amélia L. de Azevedo, 147 - 1o. andar Na saída da escola olhares desviados, por ordem de Cupido, para os rapazes que passavam meio desapercebidos. Estaríamos encontrando nossos futuros maridos? Terminou de Sonhos possíveis, ver estrelas nos olhos brilhando. escrever seu A formatura. O primeiro baile. O vestido longo arrastando livro? Então pelo salão, à procura de alguém que nos sonhos existia. A orquestra, a valsa romântica eram encantada magia. publique! E um dia tão feliz finalmente o amor encontrado. Nesta hora importante, não deixe de O vestido de noiva, e com alegria está marcado consultar a RUMO EDITORIAL. o casamento. Flores, música, os brindes à felicidade. Publicações com qualidade impecável, Ficou longe o faz de conta, mas restou saudade. dedicação, cuidado artesanal e preço justo. Você não tem mais desculpas E um dia recebemos o presente celestial para deixar seu talento na gaveta. Começa uma vida nova para o casal. rumoeditorial@uol.com.br Choro recém-chegado na casa. É tudo um rebuliço. (11) 9182-4815 E a vida continua com um novo compromisso.
  8. 8. 8 O BANDEIRANTE - Novembro de 2011 SUPLEMENTO LITERÁRIO Amor incondicionalLigia Terezinha Pezzuto Te amo. Sem ligar para imagens. Apenas quero que sejas sempre tu mesmo. Te amo amor de partilha; amor que abre portas; do hoje, do amanhã. Amor que leva pra frente, faz ver o alto, sentir o chão. Te amo um amor de ponta a ponta; quer gostes ou não; quer saibas ou não; compreendas ou te confundas. Te amo sem saber se me amas. Te amo, querendo que te ames primeiro, sem saber se vais me amar depois. Ama; e descobrirás quanta vida existe em ti. Ama; e descobrirás o voo livre da gaivota, o ritmo das orquídeas, a cadência dos rios. Ama; e... finalmente... vive. Nem vem, Jean Carlos Augusto Ferreira Galvão Como pode o inferno ser os outros Se há felicidade em vocês Em estar com vocês, Em ouvir vocês?

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