Os radiojornalistas
PAULO MARCOS        Os radiojornalistasO pensamento e o perfil dos produtores de   notícias da Região Sisaleira da BahiaUN...
(CC) 2009 Paulo MarcosPesquisa, textos e edição: Paulo MarcosDesing gráfico (capa e capítulos): Márcio MendesSupevisão par...
Agradecimentos        Meu professor/orientador é um cara tranquilo. Elechega cedo com livros, novas ideias e um bom papo. ...
texto final;         Ao professor Tiago Sampaio, que assim como Jorgee Carolina, também compôs à banca de avaliação e cont...
SUMÁRIOApresentação, 9Introdução, 15Livro-reportagem: perfil e retrato do radiojornalismo, 18Região: o que é isso?, 23O rá...
Uma mulher em movimento, 92Do sisal ao rádio: uma trajetória de sucesso, 96Deus, Ferraz e o povo!, 100O radialista profess...
APRESENTAÇÃO         Este é o resultado de uma pesquisa fundamentada eplanejada para analisar o perfil e pensamento dosrad...
sobre a produção de notícias para o rádio: e este é um dosfatores importantes para entender como se dá o desenvolvi-mento ...
No terceiro capítulo, Tocando ética, levanto uma dis-cussão sobre os princípios éticos da atuação dosradiojornalistas. Faç...
Introdução         É hora de começar. Este é o momento de esclarecerum pouco mais sobre o que estamos debatendo. Antes del...
zada”, pesquisadores, especialistas, acadêmicos, seja lá oque for: é quem já tem experiência própria, já pesquisou aárea e...
Perfil e Retrato, estes são os modelos de livro-repor-tagem propostos no projeto da pesquisa. O primeiro, segun-do os estu...
REGIÃO: o que é isso?        O conceito de Região Sisaleira aqui adotado englo-ba dois Territórios Rurais de Identidade*, ...
A professora Vilbégina Monteiro dos Santos, que tempesquisas em andamento, sobre o Território do Sisal, apontaque:        ...
P.M.: Professor, o rádio ajuda a manter esse discur-so regionalista do Nordeste?         Albuquerque Jr.: O rádio em grand...
O rádio: popular e sempre          Dia de sol na Fazenda Morrinhos. Quase às 5h30 damanhã e o rádio já está ligado. No mei...
O advento das redes de rádio via satélite altera umpouco esta realidade. As grandes cadeias de emissora têmsede, na maiori...
não se expande, não valoriza o profissional e tão pouco ofe-rece a ele as dignas condições de exercer esta função tãoprest...
Metodologia: as rádios e radialistas pesquisados         Nesta pesquisa busquei entrevistar radialistas queatuam na ativid...
Os Territórios do Sisal e da Bacia do Jacuípe, quedemarcam o foco deste trabalho, possuem outras emissorascomerciais e com...
Chegada do rádio na Região               Sisaleira         No Sertão da Bahia, o pequeno rádio de pilhas colo-ridas é usad...
de um que é aliado a Lomes ele lhe tira do ar. Ou então, lhechama e lhe fala “não vai falar nada porque esse cara é alia-d...
Epitácio Pessoa, durante a comemoração do centenário daIndependência do Brasil e que somente em 20 de abril doano seguinte...
DIFUSORA AM: a primeira rádio da região         A primeira emissora da Região Sisaleira surgiu qua-se 50 anos depois da pr...
Da decadência vivida nos últimos anos da adminis-tração de Miranda, a primeira rádio da região se transformouem Continenta...
como Serrinha FM, opera em 97.9 Mhz no ar 24 horas e ébasicamente musical. Com o slogan “A dona do primeiro lu-gar” a emis...
bém com programas de entretenimento.         O estúdio é bem climatizado, ainda no estilo antigocom cabine de locução sepa...
SISAL AM: o trono da família Rios         “O símbolo de maior riqueza da nossa região” este éum dos primeiros slogans da R...
Por falta de capital suficiente para adquirir os equipa-mentos os sócios resolveram, em dezembro de 1985,transformá-la em ...
saber – concluiu Nilton Feliz.         Com a nova estrutura talvez isso não aconteça mais.A Sisal comemorou seus 23 anos d...
JACUÍPE AM: muda de dono, mas não muda de ob-jetivo         A emissora é comercial e é propriedade do ex-prefei-to de Serr...
como na maioria das rádios. Na maior parte do tempo a rádioestá a serviço dos governos ou dos políticos que estão forada e...
A ideia deste e outros estudos que precisam ser fei-tos é trazer para o debate problemas antigos e ao mesmotempo bem atuai...
a notícia nem com a miséria do povo.         A associação das rádios comunitárias foi criada, em2004, para manter o movime...
mos ligações contrárias a nossas colocações, mas sempreprocuramos ouvir o máximo de opiniões. E nunca esquece-mos os fatos...
Federal cuidavam de calar a rádio.         – O jornalismo da emissora foi se tornando maiscrítico e fiscalizador, virando ...
bros da diretoria, locutores e entidades que compõem o Con-selho Comunitário e que garantem uma atuação apartidáriada emis...
rupções. Agora também disponível na Internet através de seublogue: santaluzfm.blogspot.com.         O maior problema enfre...
CURSO DE RÁDIO E TV: a formação profissional         Jota Sampaio, Paulo Catu, Rodrigo Carneiro, Marce-lo Felipe e eu eram...
A proposta de implantação da graduação surgiu nomovimento de radiodifusão comunitária, em 2004, na criaçãodo Plano de Comu...
Fundamentos da Comunicação; Domínio da Formação Só-cio-Cultural e Humanística; e Domínio da Formação Especí-fica. A propos...
Fazendo jornal pelo rádio        Radiojornalismo: perfil e características na RegiãoSisaleira                      “O ouvi...
ta e gosta de desafios:         – Não existe jornalismo imparcial – contesta o radi-alista –, existe jornalismo sério, que...
tados na Rádio Sisal AM e depois durante dois anos na Rá-dio Regional. O maior sucesso do grupo que terceirizou oshorários...
nalismo. Os programas são roteirizados, com pautas e pla-nejamento para cada edição. Além de avaliações constan-tes, como ...
– É o lado que paga – diz ele –, temos que melhorarmuito esse comprometimento. Outra coisa é que estamosmuito voltados par...
no rádio eu não faria jornalismo.         Pelo fato de alguns radiojornalistas ouvidos nestapesquisa atuarem no esporte ou...
entender um pouco mais aquele argumento sobre a sensa-ção de liberdade dos radialistas na região.         – Qual a sua ava...
plica Gilberto –, você tem que fazer o que ele quer. Tive difi-culdades no início, mas agora o dono é de Serrinha e meutra...
o foco jornalístico.         – Eu defendo que coisa boa também é notícia. Sóque a maioria só quer trabalhar com violência ...
povo. Eu sou simples e tudo é natural. Não tem isso depolemizar para ter audiência. Eu trabalho com a verdade, comsincerid...
res, os acontecimentos do dia-a-dia, a falta de segurança ediversos temas como a luta pelos direitos trabalhistas daspesso...
devem abrir o espaço para cobrar dos governantes ações,melhorias, geração de emprego e renda, qualificação no en-sino, enf...
Ela defende que as faculdades preparem os estu-dantes mais para a pesquisa do que para o mercado de tra-balho, como aconte...
– Eu sempre me exponho – novamente contestaNilton Feliz –, porque faço cobranças de ações públicas no are às vezes tenho a...
Tocando Ética        PROFISSÃO: a legislação e a prática                     “É quase impossível, mas o ideal é a liberdad...
tão por que mentir? Para que esconder que a entrevista égravada? Qual o problema disso?         Mas esse não é o único pro...
necido por escola reconhecida na forma da lei;                    ou II - diploma ou certificado correspondente às        ...
I - ressalvadas as especificidades da assesso-ria de imprensa, ouvir sempre, antes da divul-gação dos fatos, o maior númer...
IX - manter relações de respeito e solidariedade                      no ambiente de trabalho;                      X - pr...
ética profissional deve funcionar. Por isso eu nunca sofri ne-nhuma agressão nem física nem verbalmente – ele lembrou-se d...
gistro. Segundo ele, o programa ficou fora do ar por 30 dias:         – Foi um comentário infeliz que eu fiz com o Juiz de...
grama anonimamente fazer alguma denúncia:          – Recebemos também ligações com ameaças porestarmos tocando em algum as...
TERCEIRIZAÇÃO: a falsa liberdade comprada         Desde os tempos do Estado Novo que o uso dosmeios de comunicação e as es...
comprar um horário compra.         Tony Brasília, que trabalha neste sistema, afirma querealmente é assim que funciona:   ...
Livro reportagem   os radiojornalistas
Livro reportagem   os radiojornalistas
Livro reportagem   os radiojornalistas
Livro reportagem   os radiojornalistas
Livro reportagem   os radiojornalistas
Livro reportagem   os radiojornalistas
Livro reportagem   os radiojornalistas
Livro reportagem   os radiojornalistas
Livro reportagem   os radiojornalistas
Livro reportagem   os radiojornalistas
Livro reportagem   os radiojornalistas
Livro reportagem   os radiojornalistas
Livro reportagem   os radiojornalistas
Livro reportagem   os radiojornalistas
Livro reportagem   os radiojornalistas
Livro reportagem   os radiojornalistas
Livro reportagem   os radiojornalistas
Livro reportagem   os radiojornalistas
Livro reportagem   os radiojornalistas
Livro reportagem   os radiojornalistas
Livro reportagem   os radiojornalistas
Livro reportagem   os radiojornalistas
Livro reportagem   os radiojornalistas
Livro reportagem   os radiojornalistas
Livro reportagem   os radiojornalistas
Livro reportagem   os radiojornalistas
Livro reportagem   os radiojornalistas
Livro reportagem   os radiojornalistas
Livro reportagem   os radiojornalistas
Livro reportagem   os radiojornalistas
Livro reportagem   os radiojornalistas
Livro reportagem   os radiojornalistas
Livro reportagem   os radiojornalistas
Livro reportagem   os radiojornalistas
Livro reportagem   os radiojornalistas
Livro reportagem   os radiojornalistas
Livro reportagem   os radiojornalistas
Livro reportagem   os radiojornalistas
Livro reportagem   os radiojornalistas
Livro reportagem   os radiojornalistas
Livro reportagem   os radiojornalistas
Livro reportagem   os radiojornalistas
Livro reportagem   os radiojornalistas
Livro reportagem   os radiojornalistas
Livro reportagem   os radiojornalistas
Livro reportagem   os radiojornalistas
Livro reportagem   os radiojornalistas
Livro reportagem   os radiojornalistas
Livro reportagem   os radiojornalistas
Livro reportagem   os radiojornalistas
Livro reportagem   os radiojornalistas
Livro reportagem   os radiojornalistas
Livro reportagem   os radiojornalistas
Livro reportagem   os radiojornalistas
Livro reportagem   os radiojornalistas
Livro reportagem   os radiojornalistas
Livro reportagem   os radiojornalistas
Livro reportagem   os radiojornalistas
Livro reportagem   os radiojornalistas
Livro reportagem   os radiojornalistas
Livro reportagem   os radiojornalistas
Livro reportagem   os radiojornalistas
Livro reportagem   os radiojornalistas
Livro reportagem   os radiojornalistas
Livro reportagem   os radiojornalistas
Livro reportagem   os radiojornalistas
Livro reportagem   os radiojornalistas
Livro reportagem   os radiojornalistas
Livro reportagem   os radiojornalistas
Livro reportagem   os radiojornalistas
Livro reportagem   os radiojornalistas
Livro reportagem   os radiojornalistas
Livro reportagem   os radiojornalistas
Livro reportagem   os radiojornalistas
Livro reportagem   os radiojornalistas
Livro reportagem   os radiojornalistas
Livro reportagem   os radiojornalistas
Livro reportagem   os radiojornalistas
Livro reportagem   os radiojornalistas
Livro reportagem   os radiojornalistas
Livro reportagem   os radiojornalistas
Livro reportagem   os radiojornalistas
Livro reportagem   os radiojornalistas
Upcoming SlideShare
Loading in …5
×

Livro reportagem os radiojornalistas

2,094
-1

Published on

0 Comments
1 Like
Statistics
Notes
  • Be the first to comment

No Downloads
Views
Total Views
2,094
On Slideshare
0
From Embeds
0
Number of Embeds
0
Actions
Shares
0
Downloads
19
Comments
0
Likes
1
Embeds 0
No embeds

No notes for slide

Livro reportagem os radiojornalistas

  1. 1. Os radiojornalistas
  2. 2. PAULO MARCOS Os radiojornalistasO pensamento e o perfil dos produtores de notícias da Região Sisaleira da BahiaUNEB - Universidade do Estado da Bahia
  3. 3. (CC) 2009 Paulo MarcosPesquisa, textos e edição: Paulo MarcosDesing gráfico (capa e capítulos): Márcio MendesSupevisão para editoração: Kleuber CedrazEditoração: Paulo MarcosImpressão: Nossa Gráfica EditoraFormato: 14 X 21Papel: 75 g.Capa: Papel Cochê 230Orelha: Sim Ficha Catalográfica - Bibliotecário Roberto Freitas BPJCA - Biblioteca Professor José Carlos dos Anjos (UNEB) S237 Santos, Paulo Marcos Queiroz dos Os radiojornalistas: O pensamento e o perfil dos produtores de notícias da Região Sisaleira da Bahia. / Paulo Marcos Queiroz dos Santos. Conceição do Coité: o próprio, 2009. 160p. il. Jornalismo-Entrevistas. 2. Reportagens. 3. Título CDD 070.449
  4. 4. Agradecimentos Meu professor/orientador é um cara tranquilo. Elechega cedo com livros, novas ideias e um bom papo. Senta-se numa das cadeiras da biblioteca que está sempre movi-mentada. Preocupado com o andamento do trabalho faz logoaquela boa pergunta: - E aí rapaz, como vão os textos? - A semana foi muito boa. Muitas novidades - res-pondi. Quem circula pelo Departamento de Educação doCampus XIV da UNEB - Universidade do Estado da Bahia jáconhece o professor Jorge Soares, anda sorridente, dispostoa uma boa conversa, um conselho e fazer novas amizades.Durante a pesquisa se empenhou bastante no acompanha-mento semanal dos trabalhos e é parte integrante do resulta-do; Também sou grato ao antropólogo MárcioMascarenhas, pois gentilmente fez uma leitura mais atentados textos, fez boas críticas e sempre me apoiou ao longo deminha vida profissional; Ao bibliotecário Roberto Freitas que também teveimportante papel neste trabalho ao sugerir e orientar naformatação técnica; À professora Carolina Ruiz, que tanto contribuiu naelaboração do projeto de pesquisa e fez várias sugestões no
  5. 5. texto final; Ao professor Tiago Sampaio, que assim como Jorgee Carolina, também compôs à banca de avaliação e contri-buiu com o resultado deste livro; Ao professor Francisco de Assis, que ao longo dosquatro anos foi grande apoiador dos meus trabalhos; Agradeço também a kleuber Cedraz, Gilmara Portu-gal, Meire Nunes, Adalício Ramos, Maria Dalva, Bruna San-tos, Maria Queiroz (D. Lia), Del Feliz, Delma Nunes, aos ami-gos, colegas, professores e parentes pelo incentivo e cola-boração. Por fim, aos radialistas, funcionários e dirigentesdas rádios que facilitaram o acesso às informações e estarãopresentes em cada uma das páginas seguintes. Muito obrigado! “Pelo direito à palavra e apaixonado por rádio igual atodo brasileiro”, Paulo Marcos Para Odenice Queiroz dos Santos (Dene) In memorian
  6. 6. SUMÁRIOApresentação, 9Introdução, 15Livro-reportagem: perfil e retrato do radiojornalismo, 18Região: o que é isso?, 23O rádio: popular e sempre, 20Metodologia: as rádios e radialistas pesquisados, 26CAPÍTULO 1Chegada do rádio na Região Sisaleira, 29Difusora AM: a primeira rádio da região, 34Morena FM: 22 anos sem jornalismo, 35Regional AM: a menina dos olhos de Lomes, 36Sisal AM: o trono da família Rios, 38Jacuípe AM: muda de dono, mas não de objetivo, 41Rádios Comunitárias: a voz de quem só ouvia, 43Valente FM: não desiste nunca, 45Santa Luz FM: uma rádio premiada, 46Curso de Rádio e TV: a formação profissional, 49CAPÍTULO 2Fazendo jornal pelo rádio, 53Radiojornalismo: perfil e características na Região Sisaleira, 55CAPÍTULO 3Tocando ética, 69Profissão: a legislação e a prática, 71Terceirização: a falsa liberdade comprada, 79CAPÍTULO 4Os radiojornalistas sisaleiros, 83O radiojornalista poeta, 86
  7. 7. Uma mulher em movimento, 92Do sisal ao rádio: uma trajetória de sucesso, 96Deus, Ferraz e o povo!, 100O radialista professor: meio século de rádio, 106Genivaldo: seu sobrenome é criatividade, 109“O Bola de Ouro do rádio”, 113Feliz é esporte nas ondas do rádio, 120Da Capital Federal ao Sertão da Bahia, 125Filho de radialista, radialista é, 130Valdemi de Assis: do rádio para a Internet, 135Ícone do rádio comunitário no Sertão, 139CONCLUSÃO, 145Cronologia histórica apresentada no livro, 151Lista de imagens e créditos, 154Referências Bibliográficas, 155
  8. 8. APRESENTAÇÃO Este é o resultado de uma pesquisa fundamentada eplanejada para analisar o perfil e pensamento dosradiojornalistas e não apenas a confecção de um livro sobrea história de cada entrevistado. Esta é uma oportunidade,em forma de reportagem, para entender como anda oradiojornalismo neste pedaço de chão do Sertão baiano. Oprojeto surge das ideias temáticas para a pesquisa de con-clusão do meu Curso de Comunicação Social com habilita-ção em Rádio e TV no Campus XIV da Universidade do Esta-do da Bahia, mas principalmente das minhas inquietaçõessobre o radiojornalismo da região a partir das várias experi-ências que desenvolvi. Em 1997, comecei fazendo locuçãona Rádio Comunitária Barreiros FM e no Serviço de Comuni-cação “Voz da Sociedade Barreirense” do Distrito de Barreiros,em Riachão do Jacuípe-BA, onde nasci, em 1982. Depoisatuei no Projeto Comunicação Juvenil e no Programa de Co-municação do Movimento de Organização Comunitária entre2002 e 2007. Atuei também nas rádios Barreiros FM, ArcosFM, Sabiá FM, Sisal AM, Difusora AM, Regional AM e JacuípeAM, onde basicamente trabalhei com jornalismo. Durante o curso de Rádio e TV, que iniciei em 2006,identifiquei que não há estudos sobre a atuação dosradiojornalistas na Região Sisaleira da Bahia, principalmente 10
  9. 9. sobre a produção de notícias para o rádio: e este é um dosfatores importantes para entender como se dá o desenvolvi-mento da comunicação na região. O radialista é um persona-gem importante no estudo do rádio, mas ainda pouco valori-zado nas pesquisas. A proposta da pesquisa orientada pelo professor Jor-ge Soares é avaliar, através da atuação e experiência dosprofissionais, se o radiojornalismo da região possui caracte-rísticas que o diferencie da atividade de produção e divulga-ção de notícias radiofônicas que se propõe nos manuais deradiojornalismo; apresentar as características técnicas e hu-manas dos radiojornalistas das principais emissoras de rádioda região; analisar a relação dos comunicadores com a dire-ção das emissoras; identificar as principais fontes e critériosnoticiosos dos radialistas; e observar como se dá o cumpri-mento da legislação e dos tratados como Código de Ética eManual do Radialista dentro dos programas por eles produzi-dos e/ou apresentados. No primeiro capítulo Chegada do Rádio na RegiãoSisaleira, há uma breve história, o perfil e elementos do fun-cionamento de sete emissoras. São três FMs e quatro AMs:Morena FM (Serrinha), Valente FM (Valente) e Santa Luz FM(Santa Luz); Sisal AM (C. do Coité), Continental AM (Serrinha),Jacuípe AM (R. do Jacuípe) e Regional AM (Serrinha). No segundo capítulo do livro, Fazendo jornal pelorádio, mostro qual é o perfil dos programas jornalísticos daregião, através do olhar dos próprios radialistas, e as pers-pectivas a partir de análises da prática de cada um. 11
  10. 10. No terceiro capítulo, Tocando ética, levanto uma dis-cussão sobre os princípios éticos da atuação dosradiojornalistas. Faço um breve relato e análise sobre osCódigos, Leis, Manifestos e Convenções sobre o tema. Penso que um estudo sobre a atuação dos profissio-nais desta área poderá contribuir também com a formaçãode novos radialistas servindo de fonte de pesquisas e para acomunidade como meio de entender o outro lado do rádio,que é a produção. É exatamente este o enfoque do quarto eúltimo capítulo deste livro. Estão presentes os principais per-sonagens do rádio sisaleiro que atuam diretamente com ojornalismo e o jornalismo-esportivo e que sem eles não acon-teceria esta publicação. Outra reflexão me direciona para a importância daformação de profissionais da comunicação com consciênciacrítica de sua área de atuação. Acredito que é conhecendo arealidade em que se vive que o profissional poderá desenvol-ver práticas cidadãs, se engajar nos processos de consolida-ção da democracia e buscar a superação dos problemas eco-nômicos, sociais e éticos dos quais tanto padece a popula-ção da Região Sisaleira e do Brasil como um todo. Boa leitura! O autor. Conceição do Coité-Bahia, dezembro de 2009. 13
  11. 11. Introdução É hora de começar. Este é o momento de esclarecerum pouco mais sobre o que estamos debatendo. Antes deligar o microfone e entrarmos direto no ar é preciso apresen-tar o porquê de um livro-reportagem. Algumas pessoas po-dem perguntar: por que não fazer uma monografia, um vídeoou um sítio na Internet? O fato é que o livro-reportagem mechamou mais atenção, me aproximou mais do que eu sem-pre quis. E como diz Belo (2006) é mais uma experiência nafaculdade. Produzir um livro-reportagem não exige anos de re-portagem em jornalismo. Tanto que muitas escolas superio-res facultam a seus alunos essa opção de trabalho de con-clusão de curso. Bem orientada essa é uma atividade quegarante ao formando um preparo extraordinário quanto a al-guns dos principais aspectos da prática profissional, comoapuração, texto e edição. (BELO, 2006, P. 69) O livro-reportagem dá mais liberdade de pensamen-to e criatividade. Além disso, é preto no branco. Transformarnotícias, opiniões, comentários, informarções e notícias numagrande reportagem. Quando falei sobre notícia eu mesmo me perguntei: – O que é notícia? Com essa dúvida, surge o momento certo de chamarquem entende. Na faculdade a gente chama de “voz autori- 17
  12. 12. zada”, pesquisadores, especialistas, acadêmicos, seja lá oque for: é quem já tem experiência própria, já pesquisou aárea em questão. É aí que surge Nilson Lage. O escritor tem uma obraprima sobre o assunto. No livro A Reportagem: teoria e pes-quisa jornalística, ele define que: a notícia ganhou sua forma moderna, copiando o relato oral dos fatos singulares, que, desde sempre, baseou-se, não na narrativa em seqüên- cia temporal, mas na valorização do aspecto mais importante de um evento. (LAGE, 2006, P. 18) Sendo assim, vamos lá. Resolvi então, neste livro,reportar relatos orais sobre o surgimento, desenvolvimento eperspectivas do radiojornalismo na Região Sisaleira. É aí quesurge uma nova dúvida: o que é um livro-reportagem? Fuibuscar nas obras de Edivaldo Pereira Lima e Eduardo Beloas respostas para essa dificuldade. Livro-reportagem: perfil e retrato do radiojornalismo O livro-reportagem, segundo Belo (2006), tem dife-renças do jornalismo praticado atualmente nas redações daimprensa no Brasil, mas: é apenas uma reportagem, passível de empre- gar exatamente o mesmo padrão técnico e de conduta, como se fosse publicada em qualquer outro meio de informação. (BELO, 2006, P. 41) 18
  13. 13. Perfil e Retrato, estes são os modelos de livro-repor-tagem propostos no projeto da pesquisa. O primeiro, segun-do os estudos de Edivaldo Pereira Lima (1993), tem comoobjetivo evidenciar o lado humano de uma personalidadepública ou de uma personagem anônima (que por algummotivo, torna-se de interesse). Ainda segundo Lima, seme-lhante ao livro-reportagem-perfil, diferindo no objeto de análi-se: ao invés de uma figura humana, o livro-reportagem-retra-to focaliza uma região geográfica, um setor da sociedade,um segmento da atividade econômica e procura traçar o re-trato do objeto em questão (elucidando seus mecanismos defuncionamento, seus problemas, sua complexidade). Basicamente é para isto que serve o livro-reporta-gem – para estender o papel do jornalismo contemporâneo.Este produto do jornalismo ultrapassa também as concep-ções do jornalismo atual: Tem potencial para assumir posturas experimen- tais. Tem pique suficiente, se trabalhado de for- ma adequada, para fazer nascer a vanguarda de um jornalismo realmente afinado com as ten- dências mais avançadas do conhecimento hu- mano contemporâneo. (LIMA, 1993, P. 16) E neste sentido, este livro-reportagem apresenta his-tórias de vida, conceitos e experiências de profissionais queatuam no rádio sisaleiro sob o enfoque da produção de notí-cias. Logo, faz um retrato da profissão de radialismo na re-gião, mas enfocando as práticas dos profissionais envolvidosna pesquisa. 19
  14. 14. REGIÃO: o que é isso? O conceito de Região Sisaleira aqui adotado englo-ba dois Territórios Rurais de Identidade*, que foram definidospelo Governo Federal, entre 2003 e 2004: o Território do Sisal**e o Território da Bacia do Jacuípe***. Antes de nosaprofundarmos neste debate precisamos entender um pou-co mais o que aqui é denominado de região. Para isso bus-quei os conceitos de Durval Muniz de Albuquerque Júnior,que no livro A Invenção do Nordeste diz: ela [região] remete a uma visão estratégica do espaço, ao seu esquadrinhamento, ao seu re- corte e à sua análise, que produz saber. Ela é uma noção que nos envia a um espaço sob do- mínio, comandado. Ela remete, em última ins- tância, a regio (rei). Ela nos põe diante de uma política de saber, de um recorte espacial das relações de poder. Pode-se dizer que ela é um ponto de concentração de relações que procu- ram traçar uma linha divisória entre elas e o vasto campo do diagrama de forças operantes num dado espaço. (ALBUQUERQUE JÚNIOR, 2001, P. 25-26).* Para saber mais sobre o processo de revelação dos territórios de identidade na Bahiaver o livro DIAS, Wilson José Vasconcelos. Territórios de Identidade: um novo caminhopara o desenvolvimento rural sustentável na Bahia. Feira de Santana: Gráfica Modelo,2006.** Composto por Araci, Barrocas, Biritinga, Candeal, Cansanção, Conceição do Coité,Ichu, Itiúba, Lamarão, Monte Santo, Nordestina, Queimadas, Quijingue, Retirolândia,Santa Luz, Serrinha, São Domingos, Teofilândia, Tucano e Valente (GOVERNO DA BAHIA,2009). Disponível em http://www.seplan.ba.gov.br/mapa_territorios.html. Acesso em 15de Outubro 2009.*** Composto por Baixa Grande, Capela do Alto Alegre, Gavião, Ipirá, Mairí, Nova Fátima,Pé de Serra, Pintadas, Quixabeira, Riachão do Jacuípe, São José do Jacuípe, SerraPreta, Vázea da Roça e Vázea do Poço. (GOVERNO DA BAHIA, 2009). Disponível emhttp://www.seplan.ba.gov.br/mapa_territorios.html. Acesso em 15 de Outubro 2009. 20
  15. 15. A professora Vilbégina Monteiro dos Santos, que tempesquisas em andamento, sobre o Território do Sisal, apontaque: A constituição do Território do sisal se faz a par- tir de uma comunidade imaginada, na qual sua população é chamada a valorizar as caracterís- ticas do clima, vegetação e do povo sisaleiro, positivando os estigmas a eles imputados. Essa comunidade é conclamada a partilhar os valo- res de luta e resistência promovidos pela socie- dade civil, tomando posições de sujeitos na histó- ria. Ao construir e pensar essa identidade como estratégia política e cultural, esse território tem conseguido reverter suas demandas em implementação de políticas públicas que aten- dam aos interesses do lugar. (SANTOS, 2009, P. 20). Ao longo dos anos nem sempre foi esse o discursoempreendido no interior do Nordeste brasileiro como todo.Na maioria das vezes, o Território do Sisal foi tratado apenascomo um lugar pobre e atrasado. Nesta entrevista* Albuquerque Júnior disse que estefator também teve o incentivo do rádio que, ao invés de con-tribuir em debater as condições de desenvolvimento que olugar pode oferecer, acaba repetindo o discurso de”pobrezinho” criado pelas elites dominantes:* A entrevista aconteceu no dia 13 de outubro de 2009, no Centro Cultural deConceição do Coité, durante a participação do professor Durval Muniz deAlbuquerque Júnior no Seminário Diálogos Possíveis realizado pela UNEB. 21
  16. 16. P.M.: Professor, o rádio ajuda a manter esse discur-so regionalista do Nordeste? Albuquerque Jr.: O rádio em grande medida repro-duz essas mesmas falas, esses mesmos enunciados sobrea região, esse discurso da pobreza, esse discurso davitimização, esse discurso da discriminação, esse discursode que somos vítimas do Sul, somos vítimas do Estado, eesse próprio discurso da homogeneização, ou seja, tratar aregião como se ela fosse homogênea, como se ela tivesseos mesmos problemas, como se não tivesse divisões de clas-ses no seu interior, como se não tivesse uma parte da popu-lação que é rica; você fala da pobreza da região como setodo mundo fosse pobre, quer dizer você fala da miséria comose a miséria fosse uma realidade de todas as áreas e detodos os grupos sociais da região, então, o rádio veicula mui-to isso, né? Como veicula essa própria ideia da discrimina-ção, de que o Nordeste é discriminado, quer dizer esse dis-curso de vítima ele é o tempo todo reproduzido, né? P.M.: Como mudar isso a partir das universidades queacabam muitas vezes reproduzindo também este discurso? Albuquerque Jr.: Exatamente fazendo uma crítica aessas imagens, a esses discursos. Você fazer as pesquisasque mostrem justamente essa diversidade da região, essarealidade diversa, essa realidade que é em grande medidadesigual, mas que é uma realidade que está em desacordocom essas falas, com esses discursos, com esses estereóti-pos. 22
  17. 17. O rádio: popular e sempre Dia de sol na Fazenda Morrinhos. Quase às 5h30 damanhã e o rádio já está ligado. No meio do curral o vaqueiroHamilton “Grande” ouve as primeiras notícias do dia enquan-to tira leite fresquinho para o café da manhã. Na cidade tam-bém não é diferente. Logo cedo já tem gente de rádio ligado.O fazendeiro Paulo “Velho” acorda cedo. Liga o carro, depoiso rádio e segue em direção à fazenda. Embora com atençãomarginal à transmissão, tanto o vaqueiro como o fazendeiro,podem realizar atividades paralelas enquanto ouvem rádiocom certa facilidade e baixo custo. Para captar as emissões,basta um simples receptor transistorizado que pode ser ad-quirido por menos de R$ 5,00, em qualquer esquina de umacidade, onde tenha um camelô. Nessa facilidade toda teriaque ter algo para dificultar. No Brasil tanto rádio como televisão depende de ou-torga do governo federal, que tem o poder concedente*. Nocaso das rádios comunitárias um processo pode levar atédez anos, como é o caso da Santa Luz FM. Outra vantagemque o rádio tem é que, em geral, a programação volta-se aomunicípio sede da emissora e sua região. Um exemplo dissoé a Morena FM, que embora esteja em mais de 100 municípi-os, tem uma programação voltada para Serrinha e, no máxi-mo, cinco ou seis municípios vizinhos.* Constituição Federal, Capítulo V, da Comunicação Social, diz no Artigo 223,que “compete ao Poder Executivo outorgar e renovar concessão, permissão eautorização para o serviço de radiodifusão sonora e de sons e imagens, observa-do o princípio da complementaridade dos sistemas privado, público e estatal”. 23
  18. 18. O advento das redes de rádio via satélite altera umpouco esta realidade. As grandes cadeias de emissora têmsede, na maioria dos casos, em São Paulo, com casos isola-dos em Belo Horizonte, Porto Alegre e Rio de Janeiro. Na região, a Rádio 96.5 FM, de Riachão do Jacuípe,repete a programação de rede com uma emissora de Salva-dor, que começa a desenvolver a experiência na Bahia; asdemais emissoras geram seus próprios programas. A versatilidade e agilidade do rádio fazem acontecertransmissões diversas ao vivo, dependendo, geralmente, deuma linha telefônica fixa ou móvel. Essa facilidade concedeao rádio a capacidade de noticiar rapidamente o fato, poden-do narrá-lo em paralelo à sua ocorrência e com baixo custo.O radialista Milton Jung (2005; P. 62) defende que é precisoentender o rádio como uma linguagem. Devido à suaabrangência e pelas características que possui, o discursoradiofônico deve ser: claro, preciso, conciso e usar com omáximo de propriedade o repertório de seu público prioritário.“Ser simples, claro e objetivo é usar linguagem coloquial, semvulgaridade. É falar e escrever de forma que o ouvinte enten-da de imediato”, explica Jung. Nos seus mais de 90 anos no Brasil, o veículo é omeio de comunicação mais popular que existe. Ao longo dahistória revelou talentos para a TV, foi palanque eleitoral eajudou a vender música. Neste sentido, a figura do radialistatem um papel estratégico. – O que me deixa triste – desabafa o radialistaGenivaldo Silva –, é ver que em nossa região esse veículo 24
  19. 19. não se expande, não valoriza o profissional e tão pouco ofe-rece a ele as dignas condições de exercer esta função tãoprestigiada pela nossa gente. – O trabalho do comunicador é super importante –explica o radialista Tony Brasília –, temos que parar de olharele como alguém que só está ali para ganhar dinheiro. É al-guém que também ajuda as pessoas. Agora o que precisamesmo são os radialistas se valorizarem, se unirem. Se osindicato chegar aqui vai fechar as portas porque está tudoirregular. Falta união, um exemplo é que no dia do radialistaninguém nem lembrou. – Para ser um bom comunicador – comentei comele –, é preciso também saber usar os recursos de redação ede sonoplastia, cuidar e usar bem a voz, além de desenvol-ver e respeitar as regras para a elaboração de textos e aprodução de programas. Não existem estudos sobre audiência, mas em pou-co tempo de convívio na região é possível notar a popularida-de do veículo como meio de comunicação de massa. Mesmocom problemas enfrentados pelos radialistas ou mesmo pe-las rádios, mesmo com a influência política no conteúdo dasemissoras, o que se percebe facilmente é que o sertanejonão vive sem rádio, seja na fazenda onde mora o vaqueiro oumesmo na cidade em que vive o fazendeiro. Com este deba-te sobre o radiojornalismo acredito que será possível contri-buir para a construção de conhecimento na academia e nascomunidades dos Territórios do Sisal e Bacia do Jacuípe. 25
  20. 20. Metodologia: as rádios e radialistas pesquisados Nesta pesquisa busquei entrevistar radialistas queatuam na atividade de produção do rádio nos setores de dire-ção, criação, interpretação e locução. Todos os radialistasforam entrevistados, especificamente com o objetivo de con-tarem suas histórias e opinarem sobre o desenvolvimento daprofissão de radiojornalista na região. Os perfilados são:Aluízio Farias, Cival Anjos, Edisvânio Nascimento, GenivaldoSilva, Gilberto Oliveira, José Ferraz, José Ribeiro, Nilton Fe-liz, Tony Brasília, Tony Sampaio, Valdemi de Assis e Vilmarade Assis*. Os entrevistados receberam contatos antes pes-soalmente ou por telefone para entender a proposta do pro-jeto e marcar o dia da conversa “em profundidade”. Dos 14 radialistas previstos apenas dois não foramentrevistados: o primeiro foi presidente e fundador da RádioComunitária Barreiros FM, Manoel Missias, que atua na co-municação no Distrito de Barreiros, no município de Riachãodo Jacuípe, desde a década de 1980, com o Serviço de Alto-falante A Voz da Sociedade Barreirense, onde tive meu pri-meiro contato com o microfone; e o segundo foi o radialistaTony Sena, que é comunicador da Rádio Jacuípe AM. Tony jáestá no ramo desde 1987 e atualmente apresenta o Notíciasda Hora, informativo no qual também fui produtor e apresen-tador, em 2008, na mesma emissora. O noticiário tem dura-ção de dois a cinco minutos e vai ao ar a cada hora dentro daprogramação. As entrevistas foram canceladas por incompa-tibilidade de agenda de ambos os lados. 26
  21. 21. Os Territórios do Sisal e da Bacia do Jacuípe, quedemarcam o foco deste trabalho, possuem outras emissorascomerciais e comunitárias, que ficaram de fora por não per-tencerem ao recorte de municípios priorizados para a pesqui-sa (Conceição do Coité, Riachão, Serrinha, Valente e SantaLuz). Neste locais além de existirem estudantes do Curso deRádio e TV, as emissoras de rádio possuem estrutura e his-tórico de radiojornalismo reconhecidos pela comunidade amais de 10 anos.* A presença de apenas uma mulher neste time de radialista mostra quanto àprofissão é centrada nos homens. São poucas as mulheres âncoras de noticiári-os e com experiência em radiojornalismo nestas emissoras. No decorrer da pes-quisa conheci outras três mulheres que estão iniciando em comentários, reporta-gens e apresentações de noticiários. 27
  22. 22. Chegada do rádio na Região Sisaleira No Sertão da Bahia, o pequeno rádio de pilhas colo-ridas é usado constantemente para ouvir o principal veículode comunicação de massa com produção local, que vencedistâncias e aproxima as pessoas. Quase um milhão de habitantes estão espalhados emmais de 30 municípios dos Territórios do Sisal e da Bacia doJacuípe e são alvo de pelo menos vinte emissoras de rádiosentre comerciais, educativas e comunitárias. Na maioria dasvezes, as rádios pertencem e são chefiadas por grupos polí-ticos, que também comandam as Prefeituras, Câmaras deVereadores e as poucas empresas que existem. – Eles só querem as rádios para fins políticos, nin-guém pode negar isso – informa o radialista Nilton Feliz queatua no rádio desde o final dos anos 90. – Aqui em Serrinha mesmo – conta o radialista JoséFerraz –, todas as rádios são políticas. No sentido específico da palavra, Ferraz quer dizerque as rádios são formas de poder com forte influência naadministração das cidades e diz que os donos estão filiadosa algum partido ou tem relação direta com os dirigentespartidários e os gestores públicos: – É complicado – analisa Ferraz –, se você falar mal 31
  23. 23. de um que é aliado a Lomes ele lhe tira do ar. Ou então, lhechama e lhe fala “não vai falar nada porque esse cara é alia-do da gente”. Por mais que o cara erre, o cara desvia dinhei-ro público, é usurpador de dinheiro público e você não podefalar. O ouvinte é quem fica sem ter a informação. A mesmacoisa é na rádio de Plínio. Lá você não pode falar da sobrinhadele que é vereadora. É tudo assim. O radialista José Ferraz também não esquece as pro-postas que recebeu para retornar para a Continental. – Quando eu já estava na Jacuípe a diretoria daContinental tornou a me convidar com um salário melhor eeu não aceitei porque lá é trabalho teleguiado e aqui [naJacuípe] não, tem dois nomes que eu não posso falar, masZevaldo não interfere no meu programa, concluiu Ferraz. – Todas as rádios são lideradas por políticos – afir-ma José Ribeiro, que tem 30 anos de rádio –, o Grupo Lomes,o Grupo da Universal, enfim todas as emissoras estão subor-dinadas a administrações de políticos ou igrejas. Se você nãofaz aquilo que o patrão quer... e dentro da moralidade vocêtem mais é que fazer, porque se não fizer vai para o olho darua e tem muita gente esperando você sair para entrar e fa-zer o trabalho que você não quis fazer. Na história do rádio o envolvimento político e as con-trovérsias estão desde o início. No Brasil, a primeira emisso-ra de rádio data de 1919, que é a Rádio Clube de Recife, emPernambuco. Mas, os pesquisadores registram que a primei-ra operação de rádio no país foi no Rio de Janeiro, em 7 desetembro de 1922, para transmitir o discurso do Presidente 32
  24. 24. Epitácio Pessoa, durante a comemoração do centenário daIndependência do Brasil e que somente em 20 de abril doano seguinte, o Brasil conhecia “oficialmente” a sua primeiraemissora: a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, fundada porEdgard Roquete Pinto e Henry Morize. Enquanto aquiengatinhavam as primeiras tentativas para transmissão derádio, nos EUA, no final de 1922, os americanos contavamcom 382 emissoras. No início eram emissoras coletivas,elitizadas e chamadas de “sociedade” ou de rádio “clube”. Osouvintes mantinham as emissoras com mensalidades, poisnão havia os reclames, que só surgiram a partir de 1932 atra-vés de Decreto de Getúlio Vargas – o presidente brasileiroque melhor soube utilizar o rádio para pretensões políticas. Aentrada da publicidade também marcou na mudança de com-portamento das emissoras, como registra Gisela Ortriwano: Com o advento da publicidade, as emissoras tra- taram de se organizar como empresas para dis- putar o mercado. A competição teve, original- mente, três facetas: desenvolvimento técnico, status da emissora e sua popularidade. A preo- cupação educativa foi sendo deixada de lado e, em seu lugar, começaram a se impor os inte- resses mercantis. (ORTRIWANO, 1985, P. 15) De acordo com o IBGE, em 1937, o Brasil tinha 59emissoras de rádio transmitindo óperas, músicas e textos ins-trutivos. Destas, 55 eram particulares e 04 dos governos fe-deral e estaduais. 33
  25. 25. DIFUSORA AM: a primeira rádio da região A primeira emissora da Região Sisaleira surgiu qua-se 50 anos depois da primeira transmissão de rádio no Bra-sil. A Rádio Difusora AM de Serrinha entrou no ar em 1969* eseus fundadores, segundo narram integrantes da emissora,foram José Barradas Neto, Plínio Carneiro, Luiz Viana Neto,dentre outros. Quem primeiro assumiu a função de radialistada emissora foi José Malta e, em 1983, o sindicalista CarlosMiranda Lima** assumiu os destinos administrativos da rádiopor 20 anos. – Eu vim para Serrinha na década de 1970 – lembraAluízio Farias – porque era a única cidade da região que ti-nha rádio. Eu trabalhava como funcionário de uma cerveja-ria, onde atuei até 1998, e nos finais de semana fazia jogospela Difusora.* Neste ano já existiam 31 emissoras de rádio na Bahia e 959 no Brasil, segundodados do IBGE. Disponível em <http://www.ibge.gov.br/seculoxx/arquivos_xls/palavra_chave/cultura/radiodifusao.shtm>. Situação Cultural de 1969, apud Ser-viço de Estatística da Educação e Cultura. Tabela extraída de: Anuário estatísticodo Brasil 1969. Rio de Janeiro: IBGE, v. 30, 1969. Acesso em 13 de outubro de2009.** Carlos Miranda postou o seguinte comentário no site www.paulomarcos.com.“Sempre que falar sobre início dos trabalhos radiofônicos na Região Sisaleiranão deve esquecer que a Rádio Difusora de Serrinha, a ZYC 36 em 1330 KHZ éa DECANA, sempre deu oportunidade a todos com o seu espírito liberal por mimimplantado, fomos a primeira a transmitir ao vivo de várias cidades. Tudo come-çou em 1969”. Disponível em http://softwarelivre.org/paulomarcos/blog/livro-mos-trara-o-lado-de-dentro-do-radio-na-regiao-sisaleira. 34
  26. 26. Da decadência vivida nos últimos anos da adminis-tração de Miranda, a primeira rádio da região se transformouem Continental AM. Foi em 23 de abril de 2004 que aconte-ceu sua re-inauguração. Além de ganhar nova diretoria, tam-bém passou para novo endereço com equipamentos moder-nos e outra programação. Daí em diante também com trans-missão ao vivo na Internet. – A “morte” da Rádio Difusora – comentou CivalAnjos –, e o surgimento da Continental foi um marco na valo-rização do profissional. Foi essa nova rádio que ajudou a mu-dar um pouco a postura das emissoras na região com acontratação de profissionais. MORENA FM: 22 anos sem radiojornalismo Na Praça Luiz Nogueira, em Serrinha, é fácil encon-trar um parque infantil, onde meninos e meninas brincam;árvores históricas, que sombreiam os jardins enfeitados deesculturas e flores; no mesmo lugar é fácil de visualizar – detodos os ângulos – o prédio do Grupo Lomes de Radiodifu-são. O portão eletrônico está fechado. Antes quem che-gava entrava sem se identificar, subia a escada de madeiraque leva ao primeiro andar, onde ficam os estúdios de duasemissoras de rádio. Neste dia depois de me identificar tiveacesso pela terceira vez naquele mês ao estúdio da segundarádio de Serrinha, fundada em 1986, por Antônio Lomes doNascimento. Denominada no Ministério das Comunicações 35
  27. 27. como Serrinha FM, opera em 97.9 Mhz no ar 24 horas e ébasicamente musical. Com o slogan “A dona do primeiro lu-gar” a emissora é a mais potente da região e recebe muitascríticas por oferecer uma programação pouco variada, commuita propaganda e apenas músicas de “mercado”. – O pessoal da Morena não sabe o que é músicanão – diz José Ribeiro, que coordena o programa jornalísticoda rádio e é um dos entrevistados desta pesquisa. Diversidade musical não é mesmo o forte da emisso-ra, mas é disso que sobrevive. O único programa de notíciasda Morena FM é o “Pauta Livre”, que está no ar desde o iníciode abril de 2008, das 12 às 13 horas de segunda a sexta-feira. O programa demonstra de fato que é um espaço livresem grandes produções, ou seja, vai acontecendo tudo aovivo e na base dos comentários, porém sem participaçãopopular. O proprietário impõe seu poder de influência usandoo veículo para expressar suas preferências políticas, assimcomo faz com mais ênfase na Regional AM, a terceira emis-sora de Serrinha. REGIONAL AM: a menina dos olhos de Lomes Foi também em 1986, quando Antônio Carlos Maga-lhães era Ministro das Comunicações, que o Grupo Lomesde Radiodifusão conseguiu outra outorga de funcionamentode rádio. A Rádio Regional AM 790 Khz é uma emissora bempopular com programação basicamente informativa, mas tam- 36
  28. 28. bém com programas de entretenimento. O estúdio é bem climatizado, ainda no estilo antigocom cabine de locução separada da mesa de áudio. Segun-do informações da própria emissora, sua abrangência podechegar a mais de 120 municípios da Bahia e Sergipe. O pro-prietário Antônio Lomes é um empresário da radiodifusão comvárias emissoras de rádio AM e FM espalhadas na Bahia eem outros Estado*, mas prefere esta emissora para falar to-dos os dias por telefone. Ele tem fortes vinculações políticascom partidos de Serrinha e usa a rádio para expor sua posi-ção que acaba sendo também a visão dos comunicadores.Lomes foi Superintendente de Desporto do Estado da Bahia(Sudesb) e diretor da Empresa de Produtos Farmacêuticosda Bahia (Bahiafarma) em governos do PFL, atual DEM. Atra-vés do rádio, e em especial da Regional, Lomes mantém con-tato direto com a população serrinhense e expõe suas opini-ões políticas. Mesmo com todo aparato de rádios, em 2008,perdeu a eleição municipal. A esposa do empresário foicandidata a re-eleição para o cargo de prefeita, mas foi der-rotada.* Ver estudo do FNDC que aponta a existência de 65 emissoras na Bahia perten-centes a políticos em exercício ou seus parentes com base em um levantamentofeito por Katherine Funke [DRT 2266/BA], para reportagem publicada no jornal ATarde, de Salvador, em 26/12/2005. Foram considerados os levantamentos feitospor Venício de Lima [UnB], para deputados federais, e James Görgen [FNDC],para senadores. Disponível em http://www.fndc.org.br/arquivos/Politicos-emisso-ras-BA.pdf . Acessado em 03 de novembro de 2009. 37
  29. 29. SISAL AM: o trono da família Rios “O símbolo de maior riqueza da nossa região” este éum dos primeiros slogans da Rádio Sisal, que foi gravadonuma antiga vinheta na voz de Lucival Lopes um de seusmaiores comunicadores. Depois de se destacar na emissora,Lucival com sua voz grave, foi para Feira de Santana, ondecomanda programas jornalísticos de grande repercussão. A Sisal não vive mais na “Era de Ouro” dos anos 90,porém está no ar diariamente já com sistema digitalizado epode ser sintonizada em 900 Khz AM em aproximadamente30 municípios do Sertão baiano e pelo sítio que mantém naInternet. Situada na Rua Wercelêncio Calixto da Mota, 81, nocentro da cidade de Conceição do Coité, ganhou o nome em20 de dezembro de 1986, durante sua inauguração numahomenagem dos proprietários ao Sisal, a planta que por dé-cadas foi a principal base econômica da região. Segundo a diretoria da rádio, os primeiros documen-tos da iniciativa datam de março de 1979 e os seus fundado-res foram Tiago Ferreira de Carvalho – segundo o sítio Do-nos da Mídia* também é proprietário de outra emissora emEuclides da Cunha –; Gilberto Mota, Roberto Pinto Lopes eEdvaldo de Carvalho Santiago. Em maio de 1982, ingressa-ram os sócios Hamilton Rios de Araújo e João Carvalho.* Ver site http://www.donosdamidia.com - Acesso em 10 de outubro de 2009. 38
  30. 30. Por falta de capital suficiente para adquirir os equipa-mentos os sócios resolveram, em dezembro de 1985,transformá-la em sociedade anônima composta por 31 acio-nistas. Hamilton Rios de Araújo tem grande poder de decisãona emissora. HR, como o chamam na rádio, tornou-se a mai-or liderança política de Coité da década de 1970, se manten-do no poder até os dias de hoje, porém em decadência polí-tica. – Seus interesses sempre se refletiram no perfil ena programação da rádio –, relata Valdemi de Assis, que porquase 20 anos foi o principal radiojornalista da emissora. A Sisal tem uma programação direcionada ao pú-blico rural e não arrisca colocar ouvinte no ar dentro do jorna-lismo como acontece em outras rádios. Mantém no ar o Jor-nal da Sisal pela manhã e o programa Sisal Esportes e Notí-cias ao meio dia, que se constituem nos espaços de maiordedicação ao radiojornalismo. No final de semana, a rádiotransmite jogos de futebol amador e se mantém, desde 1992,como referência neste setor na região. – Em vez de fiscalizar se estamos seguindo a linhada rádio eles deveriam corrigir e ajudar a gente. Seria bompara a Rádio e para a gente também –, reclama Nilton Feliz,que coordena o esporte na rádio. – Você fala também em termos de corrigir para me-lhorar a qualidade dos programas? –, pergunto. – Exato. E também assim, aqui na Sisal, hoje não,mas antes já teve momento de ninguém da direção ouvir e arádio sair do ar e o locutor continuar fazendo o programa sem 39
  31. 31. saber – concluiu Nilton Feliz. Com a nova estrutura talvez isso não aconteça mais.A Sisal comemorou seus 23 anos de cara nova. Foram inves-tidos mais de R$ 200 mil em equipamentos de última gera-ção para operação e transmissão, além de novos estúdiosclimatizados, com paredes coloridas e quadros bonitos. Ainda é preciso ir mais fundo numa pesquisa queaponte a Rádio Sisal e as demais não apenas como um bra-ço direito das prefeituras ou dos gestores públicos, mas quepossa investigar como de fato o rádio contribui na manuten-ção de cargos públicos, por exemplo, eleições e derrotas devereadores, prefeitos e deputados da região. O comunicador Valdemi de Assis sabe bem o que éisso. Ele foi vereador e radialista ao mesmo tempo na déca-da de 1980. Em 2006, candidatou-se a deputado contra avontade do grupo político que comanda a Sisal e foi expulso: – O rádio aqui é usado também como forma de ma-nutenção do poder político – explica Valdemi –, por influenci-ar diretamente na opinião pública. É através dele que asmensagens dos políticos chegam diariamente ao povo sejano período eleitoral ou fora dele. Por seus proprietários man-terem ligações diretas com os partidos acabam fornecendoas emissoras como instrumento de manipulação da opiniãopública a partir do fechamento que há na programação. Nãopode ter a participação do povo. Só se for para elogiar eles. 40
  32. 32. JACUÍPE AM: muda de dono, mas não muda de ob-jetivo A emissora é comercial e é propriedade do ex-prefei-to de Serrinha Josevaldo Lima, que deixou o cargo em 2004,ano que adquiriu a rádio e disputou a re-eleição (sem suces-so) assim como na eleição seguinte, em 2006, quando dispu-tou a eleição de deputado. O radialista José Ferraz, que trabalha na rádio hámais de dois anos, sustenta que a emissora ajudou na últimaeleição do prefeito de Serrinha, em 2008, quando o filho dopolítico disputou a eleição como vice-prefeito na chapa deOsni Cardoso: – A rádio foi multada em R$ 22 mil na política passa-da – exemplifica Ferraz –, a coligação de Tânia entrou naJustiça alegando que estávamos beneficiando Osni do PT erealmente ele foi eleito com o apoio da rádio Jacuípe porqueaqui todas as rádios eram contra ele. Antes a emissora já era comandada por político. Opresidente anterior era ex-prefeito de Riachão do Jacuípe,Valfredo Matos, que faleceu logo após o final do segundomandato, em janeiro de 2005. A mudança de propriedadenão mudou a concepção, utilidade e nem mesmo o conteúdodo veículo. Hoje, melhor equipada, ainda sofre as mesmas difi-culdades de emissoras comunitárias, como a falta de investi-mento financeiro. Seus radialistas dizem que são reconheci-dos pela população, mas pouco valorizados profissionalmente 41
  33. 33. como na maioria das rádios. Na maior parte do tempo a rádioestá a serviço dos governos ou dos políticos que estão forada estrutura administrativa dos municípios. Serve como apên-dice das campanhas políticas e é usada para garimpar votose prestígio*. Percebe-se também que a emissora presta rele-vante serviço para a comunidade e é o principal meio de co-municação do lugar. Outro momento marcante na emissora foi o atentadocontra o radialista Gilberto Oliveira, em 1999, que foi espan-cado no meio da rua por pessoas até hoje não identificadas.O radialista disse que não tem suspeita e prefere não ligar ofato à questão política: – Existem aqueles radialistas que ficam subordina-do a políticos – denuncia Gilberto –, chantageando, receben-do propina pra divulgar isso ou aquilo ou não divulgar•c e eudesafio no meu caso. Tem gente até que me chama de boboque eu levanto muita gente, mas eu não quero nada dos ou-tros. Não faço isso. Tenho minha consciência tranquila. Situada na Rua Padre Argemiro Guimarães, 32, nocentro de Riachão, a Rádio Jacuípe foi criada em 1987 e,segundo dados do sítio do Ministério das Comunicações, osprimeiros sócios-proprietários foram José Aloir Carneiro Ara-újo e Valfredo Carneiro de Matos.* Para saber mais sobre este comportamento da emissora ver SILVA, Gladston.Riachão Recente. Riachão do Jacuípe: Clip Gráfica e Editora, 2003. 42
  34. 34. A ideia deste e outros estudos que precisam ser fei-tos é trazer para o debate problemas antigos e ao mesmotempo bem atuais envolvendo o rádio na região: controle po-lítico partidário sobre o conteúdo; falta de planejamento es-tratégico; pouco financiamento para produção; ausência dequalificação profissional; dentre outras questões que interfe-rem diretamente no radiojornalismo como, por exemplo, osurgimento das rádios comunitárias que pode ser considera-do um divisor de águas na comunicação. RÁDIOS COMUNITÁRIAS: a voz de quem só ouvia A implantação das rádios comunitárias no final dadécada de 1990 foi uma das maiores transformações no se-tor e que gerou duas significantes situações: primeiro a pró-pria população passou a produzir o rádio com seus conheci-mentos e necessidades de pautas; segundo é que as rádioscomerciais sentiram-se ameaçadas por perceber que a po-pulação estava ouvindo e aceitando cada vez mais as novasemissoras, como explica Edisvânio Nascimento da RádioComunitária Santa Luz FM e diretor da Abraço Sisal - Associ-ação de Rádio e TV Comunitárias do Território do Sisal: – Você pode apontar alguma característica doradiojornalismo proposto pelas rádios comunitárias? – Sim. – respondeu Edisvânio –, fazemos ocontraponto aos veículos de massa. Eles trabalham para aten-der a interesses particulares e nós não. Buscamos o compro-misso com a sociedade. Não fazemos sensacionalismo com 43
  35. 35. a notícia nem com a miséria do povo. A associação das rádios comunitárias foi criada, em2004, para manter o movimento articulado em torno das ques-tões de democratização da comunicação na região, princi-palmente visando atender os interesses das emissoras co-munitárias*. Uma pesquisa que tive o prazer de ser colaborador,em 2005, intitulada Rádios Comunitárias da Região Sisaleirada Bahia: memória, conjuntura e perspectivas**, e realizadapelo professor Doutor Antônio Dias Nascimento, mostra opapel do rádio como um meio eficaz de fazer valer os anseiosde justiça e de melhores condições de vida e trabalho paraas populações que são agregadas e organizadas pelos movi-mentos sociais locais, em torno das emissoras comunitárias.Por isso resolvi investir também nesta pesquisa em duasemissoras comunitárias que mais se destacam nestes muni-cípios que fiz o recorte. – A gente dá nossa opinião também – diz TonySampaio da Rádio Valente FM –, mas sempre deixa o cami-nho aberto para a interpretação do ouvinte, inclusive recebemos* Rádios que compõem a Abraço Sisal: Água Fria FM, Barreiros FM, Estrela FMde Retirolândia; Cultura FM de Araci, Cruzeiro FM de Tucano; Independente FMde Ichú; Nordestina FM; Santa Luz FM; Valente FM, São Domingos FM, Juá FMde Juazeirinho - Conceição do Coité, Quijingue FM, Mairí FM, Contorno FM deCapim Grosso e Quixabeira FM.** NASCIMENTO, A. D. Rádios Comunitárias da Região Sisaleira da Bahia: Me-mória, conjuntura e perspectivas. Relatório de Pesquisa. MOC/UNICEF, Salva-dor - Bahia, 2005. Disponível em www.moc.org.br. Acesso em 10 de Agosto de2009. 44
  36. 36. mos ligações contrárias a nossas colocações, mas sempreprocuramos ouvir o máximo de opiniões. E nunca esquece-mos os fatos de um dia para o outro, se for preciso voltamosao tema anterior, refazemos matérias, fazemos novas entre-vistas. Em relação às emissoras AM, além de transmitiremem FM com melhor qualidade, as novas rádios, ainda prome-tem uma programação diversificada com prioridade para osassuntos da própria comunidade, a prestação de serviço, anotícia e a cultura local. VALENTE FM: não desiste nunca Fundada em fevereiro de 1998, a Rádio Valente FMfoi uma das primeiras comunitárias da Região Sisaleira e porisso sempre foi referência dentro do movimento de radiodifu-são comunitária. A emissora já teve características de umatransmissão regionalizada podendo ser sintonizada em vári-os municípios como Serrinha, Conceição do Coité, Santa Luz,Riachão do Jacuípe, dentre outros. Na época da inaugura-ção a rádio chegou a alcançar um raio de quase 100 km, comboa qualidade. Hoje atua apenas no município de Valentecom um transmissor de 25 Kws e em 104.9 Mhz. O jornalismo na Valente FM começou em abril de 1998e foi planejado para ter notícias locais, regionais, estaduais enacionais, mas principalmente locais. Enquanto o processode outorga era travado no Ministério das Comunicações, aAnatel - Agência Nacional das Telecomunicações e a Polícia 45
  37. 37. Federal cuidavam de calar a rádio. – O jornalismo da emissora foi se tornando maiscrítico e fiscalizador, virando cada vez mais alvo da repres-são. Por diversas vezes a rádio foi lacrada e teve equipa-mentos confiscados –, denuncia Tony Sampaio. Quando foi criada, o país vivia um grande movimentopela democratização da comunicação com a aprovação daLei 9.612/1998 que institui a modalidade de rádio comunitá-ria. Algumas entidades da sociedade civil, como a APAEB -Associação de Desenvolvimento Sustentável e Solidário daRegião Sisaleira, as igrejas e o Sindicato de TrabalhadoresRurais de Valente discutiam esse projeto desde meados dosanos 90. A Valente FM somente conseguiu a outorga depoisde quase cinco anos de luta. Dirigentes da emissora foramprocessados por operarem sem a autorização e até hoje,mesmo depois que a rádio obteve a outorga, os processosnão foram extintos. SANTA LUZ FM: uma rádio premiada A Santa Luz FM opera 24 horas modulando em 104.9Mhz e é uma emissora referência na radiodifusão comunitá-ria no Brasil. A rádio tem uma associação comunitária que égerenciada pela própria comunidade através de seus repre-sentantes, que são jovens comunicadores, dirigentes de en-tidades sociais de bairros e de classes e estudantes. As deci-sões da rádio são tomadas através de reuniões com os mem- 46
  38. 38. bros da diretoria, locutores e entidades que compõem o Con-selho Comunitário e que garantem uma atuação apartidáriada emissora. – O negativo que me marcou – relata Edisvânio Nas-cimento –, foi ter participado de uma capacitação do UNICEFdurante três dias, em Salvador, e quando cheguei aqui, emSanta Luz, a Polícia Federal já estava me esperando na por-ta do ônibus pra me pegar. Então, essa pra mim desabou... –na fala uma pausa, emoção e choro. – Você ter trabalhado numa perspectiva de constru-ção cidadã – tentando refazer a voz, ele continua –, buscaraprendizado para incentivar a sociedade do que nossas cri-anças precisam e você chegar e ser tratado como bandidofoi isso que eu senti. Ser obrigado a sentar num carro depolícia com armas aos seus pés é muita humilhação. A Santa Luz FM, ao longo de dez anos, quando aPolícia Federal deixava, apresentou um conjunto de reporta-gens que contribuíram para a discussão de políticas públicasdirigidas à população infanto-juvenil na Região Sisaleira e,assim, se tornou referência no assunto. A prática da rádiodemonstra, através das escutas que realizei que atua comresponsabilidade social enquanto formadora de opinião econtribui para a construção de novos valores, buscando umamudança de comportamento em seu público no que diz res-peito aos direitos e deveres da população; e estimula a parti-cipação de adolescentes e jovens em sua programação. Desde dezembro de 2008, a Santa Luz FM está noar com outorga – depois de dez anos de luta – e sem inter- 47
  39. 39. rupções. Agora também disponível na Internet através de seublogue: santaluzfm.blogspot.com. O maior problema enfrentado pelas rádios ValenteFM e Santa Luz FM foi a burocracia para a liberação da ou-torga, que levou a estas e ainda leva outras emissoras a fun-cionarem sem concessão. Sobre essa questão de rádio fun-cionar sem autorização são diversas as opiniões: – A Região do Sisal tem que criar um sindicato –defende José Ferraz –, para combater rádio pirata que dáprejuízo as rádios comerciais e também para combater osradialistas clandestinos, todo mundo hoje é locutor. – Elas estão ocupando um espaço – sinalizou NiltonFeliz –, que as comerciais estão deixando por questões polí-ticas. A Sisal comandou a região por uma década e meia eagora as comunitárias por terem baixo custo e serem maisabertas para a comunidade conseguiram atrair ouvintes eanunciantes•... a rádio aqui [Sisal] tem que investir em qua-lidade para superar isso. As rádios criadas pelos movimentos comunitários emvários municípios apesar de muitas vezes passarem pelosmesmos problemas das emissoras comerciais no tocante acontrole político ou mesmo não desempenharem o papel so-cial do rádio, tiveram e têm o papel de aproximar as pessoasdo veículo e ao mesmo tempo oferecer o acesso ao direitohumano de se comunicarem via a mídia. É também um espa-ço onde surgem novos comunicadores, que depois de algu-ma experiência migram para outras emissoras. 48
  40. 40. CURSO DE RÁDIO E TV: a formação profissional Jota Sampaio, Paulo Catu, Rodrigo Carneiro, Marce-lo Felipe e eu eramos inseparáveis na faculdade. Juntos, em2008, criamos o Na Cangaia. O projeto de comunicação viarádio e Internet serviu como experiência para integração dosestudantes de Rádio e TV e cinco emissoras de rádios co-munitárias* da região. – Foi via o Programa Na Cangaia – informou JotaSampaio –, que trocamos ideias, reportagens e diversos pro-dutos radiofônicos como músicas, vinhetas, spots, rádio-no-velas, dentre outros. – O Na Cangaia também foi bacana porque tivemosum espaço de experimentação do que estávamos discutindono curso – comentei. – Foi um período onde ousamos, criamos e recria-mos personagens – lembrou Sampaio –, como Dona Zumira,Val Queiroz e tantos outros que estão registrados em nossamemória. Sem esquecer dos músicos regionais que passa-ram pelo programa como Dó Nascimento, A Banda No Name,Caé, Chaonda, Ninho Santana e muito mais. O curso que surgiu, em 2006, pretende formar profis-sionais conscientes da realidade em que vivem e aptos adominarem as linguagens audiovisuais.* Os primeiros quatro programas foram apresentados ao vivo na Rádio EducativaSabiá. A emissora pertence à Fundação Bailon Lopes Carneiro e está no ar des-de 2005. A rádio apenas toca músicas através e uma programação automáticade computado. Durante mais de um ano vários estudantes do curso se dedica-ram voluntariamente à produção de notícias na emissora. 49
  41. 41. A proposta de implantação da graduação surgiu nomovimento de radiodifusão comunitária, em 2004, na criaçãodo Plano de Comunicação do Território do Sisal, como apon-ta Giovandro Ferreira e Gislene Moreira: A chegada de um curso de comunicação no Ter- ritório do Sisal foi reflexo da efervescência des- te sistema comunicativo, principalmente, no que se refere à mobilização da sociedade organiza- da local e seu amplo aparato comunicacional comunitário. Sua instalação pode ser conside- rada como o primeiro produto efetivo do Plano de Comunicação do CODES, o qual contribuiu decisivamente para o re-direcionamento da atu- ação acadêmica no território, viabilizando inclu- sive destinação orçamentária para o início de seu funcionamento. (FERREIRA e MOREIRA, 2008, P. 10) Com o curso, jovens e experientes comunicadoresde diversas cidades da Bahia obtiveram a profissionalização,realizaram laboratórios de pesquisas na área de comunica-ção e iniciaram a construção de um novo processo de comu-nicação no já desenvolvido e habitado Sertão baiano. Quasea totalidade dos formandos da primeira turma do curso é dosmunicípios de Conceição do Coité, Riachão do Jacuípe,Serrinha e Valente. O Departamento de Educação do Campus XIV con-ta com professores – mestres e doutores – com formação,principalmente, em Língua Portuguesa, Literatura, Linguística,História, Jornalismo e Rádio e TV aptos a ministrarem as dis-ciplinas que envolvem Domínio das Linguagens; Domínio dos 50
  42. 42. Fundamentos da Comunicação; Domínio da Formação Só-cio-Cultural e Humanística; e Domínio da Formação Especí-fica. A proposta do currículo é que o radialista formado sejavoltado à percepção, à interpretação e à recriação da realida-de social, cultural e com ambientes naturais, através de some imagem. Além disso, tenha condições de desenvolver asatividades de criação, produção, formação, direção e progra-mação requeridas para as elaborações audiovisuais. Com o término da formação da primeira turma já sãomuitos os ensinamentos e desafios para os alunos e profes-sores envolvidos na proposta pedagógica. A estrutura de todoo curso foi aprimorada ao longo dos semestres, a partir doenvolvimento dos estudantes e da chegada de cada novoprofessor selecionado pela instituição. A matriz curricular emexperimentação ainda deve passar por adaptações à reali-dade, os estudantes não conseguiram implantar um movi-mento estudantil pró-ativo e as pesquisas de campo aindaprecisam ser melhor exploradas para contribuir com o de-senvolvimento do radiojornalismo na região. 51
  43. 43. Fazendo jornal pelo rádio Radiojornalismo: perfil e características na RegiãoSisaleira “O ouvinte da região gosta de um trabalho bem feito, bem mastigado, bem explicado e nem sem- pre isso acontece” O depoimento é de Genivaldo Silva, um dos rema-nescentes da Agência Calila e hoje apresentador do Jornalda Sisal. A declaração mostra que é dia de debate no rádio.Pensadores e experientes radialistas vão conversar agorasobre o radiojornalismo na Região Sisaleira. Para chegar nestemomento passamos pela Era de Ouro do Rádio – década de1940 –, quando surgiu o Jornal Falado, que deu origem aoque chamamos atualmente de radiojornalismo. Dentre os for-matos, que estão presentes neste gênero, o de maior desta-que, neste livro, é o “Jornal de Rádio”, que é um modelo de-senvolvido em todas as rádios pesquisadas. São programasdiários com duração média de 60 minutos, quadros fixos comoesporte, política, polícia, tempo, dentre outros. Barbosa Filho(2003; P. 89) explica que o gênero jornalístico ”é o instrumen-to de que dispõe o rádio para atualizar seu público por meioda divulgação, do acompanhamento e da análise dos fatos”. Edisvânio Nascimento é um jovem atualizado e aten-to às discussões sobre a comunicação. Ele é sempre otimis- 55
  44. 44. ta e gosta de desafios: – Não existe jornalismo imparcial – contesta o radi-alista –, existe jornalismo sério, que trabalha com transpa-rência e busca envolver a sociedade, por exemplo, não faze-mos perseguição a ninguém. Atendemos as necessidadesdo povo. – E o que é notícia prioritária na Santa Luz FM? –pergunto. – A notícia prioritária pra nós é a que aponta pers-pectivas para a sociedade, que realmente vai gerar frutos etem relevância para a sociedade. – Você tem um exemplo? – Se tiver um assassinato – diz ele –, e uma reuniãode professores é claro que a reunião pra nós precisa de umdestaque maior. Geralmente os programas jornalísticos das emisso-ras sisaleiras são apresentados por homens que usam doestereótipo da masculinidade para falar forte, fazer comentá-rios duros e bater na mesa assim como o Varella da RádioSociedade da Bahia. – Quando eu comecei no rádio – denuncia Vilmarade Assis –, era muito preconceito com a presença da mulherneste ambiente. Sofri muito com isso. Vilmara é uma das poucas mulheres presente há maisde 10 anos no radiojornalismo da região – média dos entre-vistados deste debate. De 1992 a 2007, Vilmara de Assis tra-balhou na produção de programas jornalísticos da AgênciaCalila. Do surgimento até 2006 os programas eram apresen- 56
  45. 45. tados na Rádio Sisal AM e depois durante dois anos na Rá-dio Regional. O maior sucesso do grupo que terceirizou oshorários destas rádios foi o Jornal das Oito, um noticiário quese destacava por estar presente nos principais acontecimen-tos políticos, sociais e econômicos da região: – Tudo aconteceu naturalmente – informou Valdemide Assis, que é irmão de Vilmara –, não teve planejamentonão. A gente ia fazendo, gostando e fazendo de novo. A co-bertura policial mesmo eu fui criando um estilo próprio quevirou referência. – O jornalismo produzido pela Equipe da AgênciaCalila – comemora Vilmara –, era sempre de primeira e comboa produção. Não tinha essa de ir para o ar sem planejar.Para mim o fim do programa Jornal das Oito foi um divisor deáguas no jornalismo da região. O veterano Aluízio Farias aponta para a necessidadede planejamento para os programas de notícias da região: – Nós temos bons radialistas, mas está faltandomais profissionalismo. As pessoas fazem programas de umahora só com manchetes e comentários, sem redigir nada. – Eu não trabalho com pautas – salienta José Ribei-ro –, eu não faço o programa lendo nada, aquele negóciopreestabelecido. Eu conheço muita gente que teve uma edu-cação milhões de vezes melhor que a minha e quando chegaaqui na Regional se treme todinho diante de mim e não temcondições de ter um raciocínio rápido sem ler nada. Ao contrário do que diz Ribeiro, um elemento emdestaque da Rádio Valente FM é a estrutura proposta no jor- 57
  46. 46. nalismo. Os programas são roteirizados, com pautas e pla-nejamento para cada edição. Além de avaliações constan-tes, como narra Tony Sampaio: – Não existe esse negócio de experiência fazer jor-nalismo, não há mágica•c você tem que ter informação•cvocê tem que trabalhar com responsabilidade e não deve fi-car fazendo julgamentos. Tony explica que no dia-a-dia faz contato com as fon-tes, busca a notícia com responsabilidade e tem a certeza doque vai trabalhar sem prejudicar terceiros, sem inventar ouestar a serviço de políticos. Para ele a falta de planejamentodos programas é coisa de radialista preguiçoso ou a fim demanipular. – Claro que um experiente terá melhor possibilidadede fazer um comentário, por exemplo – reconhece Sampaio–, mas é preciso trabalhar bem, ouvir os diversos lados paraconseguir, inclusive, formar uma opinião. Para o radiojornalismo de uma emissora funcionarbem, Maria Elisa Porchat, no Manual de Radiojornalismo daJovem Pan (1993; P. 47), diz que é preciso ter reuniões depauta em vários momentos do dia. Segundo ela, as reuniõessão responsáveis, em grande parte, pelo desempenho positi-vo da Rádio Jovem Pan. •”As matérias já feitas são comen-tadas, considerando-se a conveniência de prosseguir comos assuntos”, defende Porchat. O radialista Edisvânio Nascimento volta a argumen-tar que o radiojornalismo na Região Sisaleira é comprometi-do com um lado só: 58
  47. 47. – É o lado que paga – diz ele –, temos que melhorarmuito esse comprometimento. Outra coisa é que estamosmuito voltados para as fontes ditas oficiais como os registrosdos livros de ocorrência da polícia. Já Nilton Feliz entende que depende muito do radia-lista e das circunstâncias: – Por não concordar com algumas situações eu meexponho muito – argumenta Nilton –, pago um preço por issoe sou perseguido, às vezes punido, ameaçado... na verdadeeu não tenho paz, mas é meu estilo, né? De coragem, naverdade. Claro que a gente sabe de nossas limitações porvárias circunstâncias. Quebro alguns tabus. Muita gente temmedo de falar de assuntos que envolvem polícia, que é umcaso muito complicado. É meu estilo de coragem. José Ribeiro também contra argumenta a visão deEdisvânio: – Eu não sou um sujeito dado a abrir espaço paraque as pessoas digam o que é que eu tenho que fazer –explica Ribeiro –, aqui na Rádio Regional, por exemplo, já fuidemitido cinco vezes. Estou aqui a mais de vinte anos e souo segundo mais velho daqui (...) Fui demitido por não concor-dar com algumas situações, comentários, por alguém quererimpor. – E você é feliz fazendo radiojornalismo? – pergun-to. – Não – responde Ribeiro –, você tem que ter doiscorações... eu já cheguei a tomar remédio controlado paraconseguir desempenhar minha função. Se eu começasse hoje 59
  48. 48. no rádio eu não faria jornalismo. Pelo fato de alguns radiojornalistas ouvidos nestapesquisa atuarem no esporte ou também no esporte, talvezseja mais fácil argumentar a ideia de liberdade como explicao comunicador Tony Brasília: – A diferença é que no esporte você é mais livre e nojornalismo não, você tem que se policiar (...) pessoas quesão seus parceiros, seus amigos, com uma “criticazinha” fi-cam seus inimigos. A ausência de uma produção qualificada pode serexplicada pela falta de recursos para investir em boas repor-tagens. Nilton Feliz informou que os repórteres e comentaris-tas de seu programa esportivo, por exemplo, na maioria dasvezes são voluntários e nem sempre estão disponíveis paradebates, reportagens especiais e divulgar outros esportes,além do futebol. Segundo Tony Sampaio, a Valente FM é referênciana troca de notícias com diversas rádios de Coité, Feira deSantana e outras cidades. Para ele um diferencial da emis-sora é apostar no ouvinte: – Existe um perfil criado por vocês aqui em Valente? – Temos um perfil do radiojornalismo que é desde oinício da rádio ... eu não sei se foi copiado de outro lugar, masé diferente dos outros da região porque é uma programaçãoaberta para a participação da população e sempre traz temasimportantes para o debate. O Rádio Comunidade hoje é umareferência nisso. Volto a falar com o radialista Nilton Feliz para tentar 60
  49. 49. entender um pouco mais aquele argumento sobre a sensa-ção de liberdade dos radialistas na região. – Qual a sua avaliação sobre a relação dos dirigen-tes da rádio e os radiojornalistas? – Péssima – responde Nilton demonstrando infelici-dade –, eles impõem, eles querem que você siga uma linhaque não é a sua e nós somos forçados a obedecer. Ou obe-dece ou cai fora. Então isso não é bom. Para o rádio isso épéssimo. E talvez as rádios comunitárias, que eu apoio eadmiro também, estão surgindo e crescendo por isso, por-que elas têm essa liberdade (...) o certo é falar, mas ... elesnão vão deixar que digam as verdades que precisam ser di-tas contra políticos do seu grupo. Isso parece ser uma unanimidade mesmo. TonySampaio defende que as rádios comunitárias crescem maisrápido pela liberdade de contestar, por ouvir mais opiniões etalvez por não ter o xerife, o dono: – Você fazer um programa com prazer e sem pres-são é muito bom – comemora Tony –, aqui [na Valente FM]não há pressão de não poder ou ter que falar de político a oub ... sem maquiagem, sem tapeação ... todas as comerciaisnão, mas a maioria é ligada a político e os radialistas não têmessa liberdade. Em Riachão do Jacuípe a situação para Gilberto Oli-veira melhorou nos últimos anos: – Como é a pressão política da direção da rádio noconteúdo do programa? – Quando a rádio é direcionada a um político – ex- 61
  50. 50. plica Gilberto –, você tem que fazer o que ele quer. Tive difi-culdades no início, mas agora o dono é de Serrinha e meutrabalho direcionado a Riachão. No início a minha ideia defazer algo independente era complicada. – E a receita qual é? – pergunto. – No Jornal da Manhã eu procuro sempre fazer comindependência e sem lado político. Falar para todos. Semprede forma transparente e imparcialidade. Todos os partidosfalam. Agora eu sempre procuro falar a eles que lá não é olugar de tratar de assuntos pessoais. – argumentou GilbertoOliveira. Em Serrinha, pergunto a José Ribeiro: – Por que você está insatisfeito com o que vive nodia-a-dia? – O rádio de Serrinha é provinciano. Meu irmão, ojornalista Valdomiro Silva, costuma dizer o seguinte: “você éfim de carreira”, porque ele encara o rádio de Serrinha assimmuito tendencioso; e é realmente – afirmou –, eu não enten-do o radiojornalismo de Serrinha bem feito, mas pode melho-rar. Para Tony Brasília a perseguição nem sempre é dedentro da rádio: – No rádio de Serrinha todo dia tem um político pre-ocupado em processar radialista. Agora mesmo na Câmaratem um político dizendo que vai fazer um dossiê sobre minhavida. O rádio é a quarta força e é político. E a gente enfrentaos políticos porque a gente é o olho do cidadão. A melhor saída, segundo Vilmara de Assis, é mudar 62
  51. 51. o foco jornalístico. – Eu defendo que coisa boa também é notícia. Sóque a maioria só quer trabalhar com violência e política, 80%do que você ouve nos programas jornalísticos na região épolítica. Isso é muito ruim. O problema no pensamento de Aluízio Farias está nopróprio radialista: – Como assim no radialista? – Pergunto. – Uma mistura conturbada – comentou ele –, o ra-dialista acaba transformando a notícia em atrito entre os po-líticos e isso é muito ruim, mas a relação com as diretoriasdas rádios eu tenho tirado isso de letra. Nunca fui chamado aatenção por nenhum dono de rádio ou mesmo nunca tevenenhum que chegou pra mim pra dizer o que falar ou nãofalar. Eles conhecem meu conceito e conhecem minha ma-neira. O debate até aqui centrou-se em pelo menos duasquestões que estão intrinsecamente ligadas: as rádios co-merciais de Serrinha, Coité e Riachão são concentradas nasmãos de políticos; e as experiências das rádios comunitáriasValente FM e Santa Luz levam a crer que, sem o envolvimentode políticos na gestão da emissora, o debate é ampliado nasredações e nos programas. Mas este argumento de Aluízioaponta para o que disseram Gilberto Oliveira, Nilton Feliz eJosé Ribeiro: a profundidade, o foco e a narrativa do jornalis-mo nas rádios também dependem do profissional: – Como você pode explicar isso Gilberto? – Eu não crio polêmicas para chamar audiência do 63
  52. 52. povo. Eu sou simples e tudo é natural. Não tem isso depolemizar para ter audiência. Eu trabalho com a verdade, comsinceridade, com respeito a todos. – provoca o radialista. Na Continental Tony Brasília atua por outra lógica: – A notícia para o programa é aquela que causaimpacto de positivo ou negativo. Você não consegue manteraudiência só com coisas boas. Se você fala que ummotoqueiro atropelou e levou a criança para o hospital aspessoas vão dizer “não fez mais que a obrigação”, mas seele fugir e você disser isso... é isso que vai dar audiência –ele continua acreditando que o velho grito e tapa na mesapara chamar a atenção é o que aumenta a audiência –, aspessoas querem ouvir as coisas ruins. Deveria ser diferente,mas só coisa boa as pessoas não querem. – É esse o retorno das pessoas que ouvem o seuprograma? –, insisto. – Em Serrinha não tem pauta – relata Brasília –,aqui não tem padrão, ao contrário da capital. Se eu faço apauta antecipadamente o povo não quer isso e muda tudo. Opovo liga e dita as regras do programa querendo ridicularizaro prefeito, o vereador... o povo liga para trazer problemas. Acada 100 ligações 99 é de coisa ruim. Sobre a definição de notícia pergunto a Tony Sampaiose o Jornal Rádio Comunidade da Valente FM, tem algumaprioridade e ele responde: – Principalmente aquelas informações que possamcausar um senso crítico nas pessoas – diz ele com facilidade–, as coisas boas que acontecem, as reclamações popula- 64
  53. 53. res, os acontecimentos do dia-a-dia, a falta de segurança ediversos temas como a luta pelos direitos trabalhistas daspessoas da comunidade. A rádio Valente FM aparentemente sempre separa ojoio do trigo. Tony contou que se um radialista prestar servi-ços em campanhas eleitorais tem que se afastar da emissoradurante todo o período: – Eu mesmo me afastei para trabalhar numa cidadevizinha e depois passei um tempo fora da rádio, demorou umpouco para voltar porque depende sempre de uma avaliaçãosobre o meu comportamento no trabalho que fiz. Isso sem-pre acontece aqui e está correto. Vilmara de Assis acredita que o envolvimento políticopartidário dos donos das emissoras impede as rádios de fa-zerem um jornalismo mais plural e muitas pautas de interes-se público ficam de fora dos programas. E outro problemaque ela já passou ao longo de seus 17 anos de profissão éque essa relação dos proprietários com a política tambémexpõe o radialista. – Que tipo de exposição? - pergunto a Vilmara. – Antigamente a minha voz ia também para os car-ros de som das campanhas políticas do dono da rádio – con-ta Vilmara com ar de arrependimento –, e hoje não faço issomais –, argumenta demonstrando alívio. Cival Anjos entende que o contraponto não é apre-sentado pelos radialistas por falta de formação profissional: – Os radialistas precisam entender que, por exem-plo, em vez de ficar cobrando que a polícia mate bandidos 65
  54. 54. devem abrir o espaço para cobrar dos governantes ações,melhorias, geração de emprego e renda, qualificação no en-sino, enfim, a saída para a situação de violência, devemosexaltar o que é bom para também dar o exemplo. – E o que impede que isso aconteça? – Falta qualificação – acredita Cival –, sem qualifi-cação diminui essa possibilidade de atuação. Eu penso quepra mim é fácil dizer isso depois de cursar uma faculdade eter participado do movimento social, que me deram esta pos-sibilidade de visualizar isso. Para entender este comportamento da imprensa fizuma entrevista* com a professora e pesquisadora da USP -Universidade do Estado de São Paulo, Cremilda Medina, numseminário sobre jornalismo cultural. Ela disse que o jornalistatem o hábito de procurar uma causa só para tudo, “mas nãoé por aí”, alertou. Ela defende que é preciso entrar num pro-cesso chamado de multicausalidade, ou seja, não buscarapenas uma causa para os problemas. – Essa visão de um jornalismo centrado em buscade um culpado é algo que se concentra mais no interior? – Não, é geral – respondeu Medina –, É uma ques-tão que a gente precisa se debruçar. – Como é possível mudar este comportamento? – Só existe uma forma de enfrentar esse problemaque é criar laboratório de pesquisa – afirmou Medina.* Entrevista realizada durante a II Conferência Estadual de Cultura, realizada de26 a 28 de outubro de 2007, em Feira de Santana. 66
  55. 55. Ela defende que as faculdades preparem os estu-dantes mais para a pesquisa do que para o mercado de tra-balho, como acontece hoje em dia. Essa talvez seja uma hi-pótese interessante para se abordar quando o jornalismocomunitário revela-se mais pretensioso e muitas vezes apre-senta melhores resultados. Organizações comunitárias como a Abraço Sisal e oMOC - Movimento de Organização Comunitária na RegiãoSisaleira investem na capacitação dos comunicadores dasrádios comunitárias visando um jornalismo que pesquise arealidade local antes de qualquer julgamento, avaliação eoutras condutas assumidas pelo jornalismo no dia-a-dia. Na comparação entre o jornalismo das rádios comu-nitárias e o das comerciais foram encontrados diversos pon-tos que são extremos, mas dentro do próprio setor das co-mercias, lideradas por políticos, não há um mesmo perfil. EmConceição do Coité, por exemplo, a Sisal AM tem um perfilde rádio que apenas promove os políticos de seu grupo epouco ataca os adversários, na maioria das vezes os ignora,ao contrário das rádios de Serrinha. Cival Anjos pensa que aRádio Sisal não é concentrada na política porque a emissoraé ligada a administração pública local e, portanto, faz um jor-nalismo sem polêmicas. Pensamento que é corroborado porJosé Ferraz, da Rádio Jacuípe: – Coité é diferente de Serrinha porque lá só temuma rádio e só fala o que o prefeito quer. Então isso dificultae a rádio fica ludibriando o povo. Aqui [em Serrinha] tem três,é diferente. 67
  56. 56. – Eu sempre me exponho – novamente contestaNilton Feliz –, porque faço cobranças de ações públicas no are às vezes tenho atritos com algumas prefeituras que inclusi-ve nos patrocinam, como a de Coité. Como o debate sobre o tema deve continuar em ou-tros programas, livros e pesquisas eu resolvi ouvir a opiniãode Cival Anjos para concluir esta etapa e abrir o microfonepara novas discussões: – Só sei que a forma de fazer rádio na região temque ser passada a limpo de verdade, como dizia aqui o nomede um programa da Continental – afirmou o radialista. 68
  57. 57. Tocando Ética PROFISSÃO: a legislação e a prática “É quase impossível, mas o ideal é a liberdade. Que todos pudessem falar. É um sonho… tem que surgir uma rádio que ofereça isso”. A denúncia do radialista Valdemi de Assis refere-seaos proprietários das emissoras, que na maioria das vezescolocam seus interesses diante do bem comum. Para o radi-alista isso se reproduz em todas as emissoras: – Aqui na região não tem como você cumprir a legis-lação – comenta Valdemi –, você faz o que determina o pa-trão. Acúmulo de função, muitas horas no ar, pouca estrutu-ra, não pode falar o que realmente tem que falar. O cumprimento do Código de Ética do Jornalismo nãoestá presente de forma explícita no rádio da Região Sisaleira.É possível ouvir constantemente radiojornalistas fazendo deconta que está ao vivo num determinado local, quando defato está no estúdio e solta uma gravação. Isso é feito paraconquistar prestígio e dizer que é “boca quente”, mas no rá-dio, que é um veículo íntimo, deve prevalecer a verdade paraconseguir conquistar o ouvinte. Quem quer ouvir aquele oueste conteúdo não desliga o rádio porque não é ao vivo. En- 71
  58. 58. tão por que mentir? Para que esconder que a entrevista égravada? Qual o problema disso? Mas esse não é o único problema. Ao longo dos meusestudos fui entendendo que o comunicador deveria tomarcomo base para suas ações pelo menos os seguintes docu-mentos: Código de Ética dos Radialistas, Código de Éticados Jornalistas e a Declaração Universal dos Direitos Huma-nos, que completou 61 anos em 2009, além, é claro, da Cons-tituição Federal de 1988, que é a Carta Magna de todos osbrasileiros. Muitos dos radialistas que entrevistei nunca le-ram nada sobre o assunto. Alguns que, por exemplo, já leramo Código dizem que é impraticável. A Lei dos Radialistas foi criada na década de 1970, eestá valendo desde 16 de dezembro de 1978 com o número6.615. Nesta legislação, admite-se como radialistas aquelesque comprovem a atuação no rádio anterior a esta data. Erao chamado “direito adquirido”. Depois de 1978, somente po-dem trabalhar como profissionais em empresas de radiodifu-são quem tiver a carteira da DRT, que é o Registro na Dele-gacia Regional do Trabalho. Em 1979, surge o Código, com o Decreto 84.134, de30 de outubro 1979, que trata de regulamentar as funções esetores de atuação do profissional de rádio. Diz o Código: Art. 7 - Para registro do Radialista é necessária a apresentação de: I - diploma de curso superi- or, quando existente, para as funções em que se desdobram as atividades de Radialista, for- 72
  59. 59. necido por escola reconhecida na forma da lei; ou II - diploma ou certificado correspondente às habilitações profissionais ou básicas de segun- do grau, quando existente, para as funções em que se desdobram as atividades de Radialista, fornecido por escola reconhecida na forma da lei ou III - atestado de capacitação profissional. (Código do Radialista, 1979) Alguns radialistas concordam com a obrigatoriedadeda DRT, mas nem sempre do diploma de nível superior. É ocaso do Radialista Gilberto Oliveira: – Toda formação é boa – acredita Oliveira –, masnão adianta você ir para a faculdade fazer um curso e dizerque agora vai narrar futebol. Tudo é dom. Com a criação do Curso de Rádio e TV na UNEB, emConceição do Coité, muitos radialistas discursam preocupa-dos com os formandos. Entendem que simplesmente chegarcom o diploma na mão não significa ser um radialista. Acomunicadora Vilmara de Assis defende a necessidade dafaculdade de comunicação para quem quer trabalhar no rá-dio, mas faz um alerta: – Agora um detalhe, a gente respeita muito quemestá chegando e essas pessoas devem respeitar a gente tam-bém, pois a experiência é válida – aconselha Vilmara. Um dos princípios fundamentais do jornalismo pre-sente no Código é “ouvir sempre, antes da divulgação dosfatos, o maior número de pessoas e instituições envolvidasem uma cobertura”. O Artigo 12 do Código de Ética dos Jor-nalistas define que o profissional deve: 73
  60. 60. I - ressalvadas as especificidades da assesso-ria de imprensa, ouvir sempre, antes da divul-gação dos fatos, o maior número de pessoas einstituições envolvidas em uma coberturajornalística, principalmente aquelas que são ob-jeto de acusações não suficientemente demons-tradas ou verificadas;II - buscar provas que fundamentem as infor-mações de interesse público;III - tratar com respeito todas as pessoas men-cionadas nas informações que divulgar;IV - informar claramente à sociedade quandosuas matérias tiverem caráter publicitário oudecorrerem de patrocínios ou promoções;V - rejeitar alterações nas imagens captadas quedeturpem a realidade, sempre informando aopúblico o eventual uso de recursos defotomontagem, edição de imagem,reconstituição de áudio ou quaisquer outrasmanipulações;VI - promover a retificação das informações quese revelem falsas ou inexatas e defender o di-reito de resposta às pessoas ou organizaçõesenvolvidas ou mencionadas em matérias de suaautoria ou por cuja publicação foi o responsá-vel;VII - defender a soberania nacional em seus as-pectos político, econômico, social e cultural;VIII - preservar a língua e a cultura do Brasil,respeitando a diversidade e as identidades cul-turais; 74
  61. 61. IX - manter relações de respeito e solidariedade no ambiente de trabalho; X - prestar solidariedade aos colegas que so- frem perseguição ou agressão em conseqüên- cia de sua atividade profissional. (FENAJ, Códi- go de Ética dos Jornalistas, 2007) – Da forma que eu aprendo eu procuro colocar emprática – explica Cival Anjos –, mas essa questão de ética naprática quase não funciona aqui na região. – E o que pode ser feito para mudar esta realidade?– pergunto. – Nós deveríamos fazer nossa própria censura edefinir que algumas coisas não deveriam ir ao ar, devería-mos ler e cumprir os manuais e código de ética; principal-mente os radialistas mais velhos que não ligam pra isso. – Tem outra coisa – alerta Aluízio Farias –, nada depiadinha no ar. Não coloco informações que a pessoa mepede segredo no ar e tem muita coisa no rádio que não deve-ria ir ao ar e não deve ir para o rádio a desavença familiar queestá escrita nos registros da polícia, por exemplo, isso euvejo muita gente fazendo e não deveria ser colocado no ar dejeito nenhum. Não vai resolver nada. – Os processos que muitos enfrentam referem-sediretamente com ao descumprimento do Código de Ética? -pergunto a Farias. – Sim – respondeu demonstrando experiência noassunto –, ética tem que existir em todos os sentidos. E a 75
  62. 62. ética profissional deve funcionar. Por isso eu nunca sofri ne-nhuma agressão nem física nem verbalmente – ele lembrou-se de um amigo que criticava seu estilo moderado de ser norádio –, sempre me comportei bem em rádio e eu tinha umcompanheiro que dizia que eu gostava muito de ensebar, ouseja, defender as pessoas. Mas é melhor defender do queridicularizar. E lá na frente quando se precisar fazer uma crí-tica você faz. Gilberto Oliveira também entrou no debate: – Não tenho problema nenhum na justiça e pensoque isso é por causa da responsabilidade. Procuro semprecumprir as leis. Faço rádio com responsabilidade. De volta a Serrinha, é hora de ouvir o experiente JoséRibeiro que tem 30 anos de rádio. – Zé como se dá a prática dos princípios éticos nosseus programas? – pergunto. – Eu nunca respondi a nenhum processo por terfeito qualquer coisa que vá de encontro à ética ou que dizrespeito a minha vida profissional ou que está escrito na Leide Imprensa. – E como você se comporta? – Eu sempre me pautei pela seriedade, embora eubrinque muito no rádio, mas quando é pra falar sério eu falomesmo. Nunca fui ao Fórum pra responder processo e possoser o maior mentiroso de Serrinha e da Bahia, mas sou inca-paz de mentir nos microfones. Depois disso Ribeiro lembrou-se que, em 2000,descumpriu a Lei Eleitoral ao divulgar uma pesquisa sem re- 76
  63. 63. gistro. Segundo ele, o programa ficou fora do ar por 30 dias: – Foi um comentário infeliz que eu fiz com o Juiz deSerrinha. Ele veio na emissora, pediu para falar, explicou tudoaos ouvintes e mandou suspender imediatamente eu e o pro-grama por 30 dias. Por pouco não tirou a rádio também. Ele também se envolveu noutra polêmica, em 2009,quando o vereador Jorge Gonçalves (PT) lhe denunciou portentativa de extorsão. José Ribeiro esclareceu que tudo nãopassou de um mal entendido: – É o caso do vereador Jorge foi que ... eu ofereci aele um espaço para um comercial na Rádio Regional e elenão quis. No outro dia fiz um comentário sobre outro assuntotambém na rádio e ele não entendeu e deu uma polêmica,mas isso nós já esclarecemos. Segundo ele, muitos confundem também o seu tra-balho na internet com o trabalho no rádio. “Para aparecer nomeu blogue tem que pagar mesmo porque tem um custo praisso”, comunicou. – Aqui no interior ética funciona assim – comentouTony Brasília –, se você for aliado o cara lhe trata bem e vice-versa. Se você não for aliado por mais que você o trate bem,ele não quer saber se você tem ética ou se você não tem, elequer é mandar ver. E se você suportar segura como a genteestá segurando até hoje. Na Rádio Valente FM o princípio da ética é um dosmais fundamentais da emissora, segundo informou TonySampaio. O âncora do jornalismo disse que já recebeu pres-são para divulgar nomes de pessoas que foram ao seu pro- 77
  64. 64. grama anonimamente fazer alguma denúncia: – Recebemos também ligações com ameaças porestarmos tocando em algum assunto que alguém não queria,mas nunca abrimos mão desse dever de proteger nossasfontes e a maior agressão que sofremos aqui foi mesmo daPolícia Federal. – A formação influencia no comportamento do radi-alista? – perguntei. – Não sou formado em jornalismo, mas aprendi emmuitos cursos que fiz como se comportar no radiojornalismo– informou Tony Sampaio – , aprendi que não devo me apro-veitar da notícia pra fazer autopromoção, sensacionalismo,mexer com vida pessoal das pessoas, misturar o trabalho norádio com as conversas na rua e aqui estamos sempre cum-prindo os princípios éticos do jornalismo com base nessascapacitações. Agora eu tenho vontade de fazer o curso derádio. Independente de ser rádio comunitária o tratamentodesta questão de ética e prática deve ser levado à risca. Sercomunitária como a Valente FM não nos dá garantia de emis-sora ética. A mesma coisa se a rádio for comandada por po-lítico ou não. Ser político e dono de rádio não significa ter umjornalismo antiético. Para a maioria dos entrevistados a ques-tão também é individual de cada profissional e não dependeapenas da formação de nível superior. Outra questão quetem ligação direta com o cumprimento das leis e tratados daprofissão é a terceirização de horários no rádio. 78
  65. 65. TERCEIRIZAÇÃO: a falsa liberdade comprada Desde os tempos do Estado Novo que o uso dosmeios de comunicação e as estratégias de quem não tinhaos veículos a seu favor são feitos na base da compra de es-paço publicitário ou mesmo com a criação de meios alterna-tivos. Segundo Skidmore (1982) Vargas também enfrentavaos meios de comunicação de massas com caminhões equi-pados com alto-falantes e volantes impressos. Na RegiãoSisaleira os políticos financiam horários e pagam matérias: ese aproveitam dos radialistas que precisam de grana para“pagar a rádio”. Isso mesmo. Rádio não paga a ninguém.Quem quiser ser radialista tem que pagar a rádio: – Para sobreviver no rádio aqui na região tem quefazer jabá – abre o jogo José Ferraz, que disse não ter línguapresa –, eu nunca gostei porque perde a credibilidade, mastem radialista aqui que quando o prefeito não paga ele bateno ar. Eu trabalho na rádio e sou servidor público pra sobrevi-ver porque notícia paga é ruim, isso é péssimo no rádio. Em2004, uma revista e um jornal disseram que Zevaldo ganha-va a eleição e ele perdeu. Não posso dizer que foi matériapaga, mas dá pra desconfiar. Ferraz criticou a postura das emissoras que em nomedo dinheiro aceitam qualquer pessoa fazer programa: – Tem gente que pensa que Jornalismo e Radialismoé a mesma coisa. Com esse negócio de queda do diplomatodo mundo quer ser radialista. Esse negócio de horárioterceirizado é ruim. Tem rádio aí que todo mundo que quiser 79
  66. 66. comprar um horário compra. Tony Brasília, que trabalha neste sistema, afirma querealmente é assim que funciona: – O programa terceirizado é ruim porque você ficaescravo para pagar a rádio e tem um custo muito alto, inclusi-ve a sua liberdade de expressão. Você depende de políticos,o comércio não banca isso sozinho. Às vezes quer dar ape-nas uma ajuda. Nos seus quase 50 anos de rádio como “colabora-dor”, como ele mesmo diz, Aluízio Farias verifica que aterceirização do rádio faz com que haja um desempenho maiorde seus profissionais: – E foi uma forma que as rádios encontraram paradiminuir os gastos – considera Farias –, mas eu não sou afavor. Radiojornalista não tem que vender comerciais, masacredito que o jabá também foi quem ajudou nesse processoda terceirização. Uma coisa é a gratificação que tem desde oinício do rádio. Mas esse esquema de jabá antigamente nãotinha. Eu condeno essa prática. Também na Regional, onde atua Aluízio Farias, háopiniões divergentes. – Esse negócio de jabá foram os donos de rádioque criaram. Eu não vejo esse negócio de jabá. Quando umouvinte ou um comerciante lhe dá uma ajuda é problema dolocutor ... Já me chamaram de “jabazeiro”, descontaram domeu salário, mas eu já desafiei a encontrarem alguma coisacontra mim - comenta José Ribeiro. Sobre a terceirização ele disse que já quis terceirizar, 80

×