Cartel fantasma alexandre figueiredo

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Cartel fantasma alexandre figueiredo

  1. 1. artciencia.com (ISSN 1646-3463) Ano I ● Número Dois ● Fevereiro-Abril 2006 CARTEL FANTASMA Alexandre Figueiredo Novembro de 1995 1
  2. 2. Cartel Fantasma Alexandre Figueiredo Capítulo 1 - Jorge?!... - Sim, sou eu... Cheguei em má altura, foi? - começou o jovem entrando na espaçosasala em que a sua prima Ana e um rapaz que ele desconhecia, estavam sentados, vendo umfilme. - Não, claro que não - respondeu a rapariga um pouco atrapalhada - chega aqui porfavor - pediu - quero apresentar-te o meu namorado, o Rui Pedro. - Ela fala muito de ti - disse o outro, estendendo-lhe a mão direita, enquanto quemantinha a esquerda sobre os ombros de Ana, acariciando-lhe suavemente o cabelocastanho ondulado. - Bom, foi um prazer conhecer-te, ... - declarou Jorge encaminhando-se para a saídada sala de estar - mas fiquem à vontade que eu vou só ao quarto buscar umas coisas e saiojá... - Vais-te já embora? - inquiriu a prima, com um brilho nos olhos castanhos que nãoenganava ninguém; ela estava ansiosa para se livrar do recém-chegado, para poder ficar denovo a sós com o companheiro. - Sim, prometi à Isabel que chegava antes das nove, e já são sete e cinco! Estive coma Rita, a Joana e a Sofia no salão de jogos e atrasei-me um pouco - concluiu, abandonandoaquela divisão e dirigindo-se ao quarto que ocupava e que ficava ao fundo do enormecorredor. Alguns minutos mais tarde, voltou a entrar na sala de estar, no intuito de se despedirda prima. - Bom fim-de-semana! - exclamou, beijando Ana na face, e apertando a mão a RuiPedro - Portem-se bem! - recomendou, sorrindo maliciosamente pegando nos dois sacos deviagem que deixara à entrada da sala, e encaminhando-se para a porta de entrada, enquantoque a rapariga e o seu namorado se voltavam a sentar muito juntinhos no confortável sofá. Por fim, saiu, fechando a porta atrás de si. Depois de cruzar o portão lançou um rápidoolhar sobre a rua deserta, iluminada apenas pelos escassos candeeiros de iluminaçãopública. Soprava uma ligeira brisa que lhe levantava os cabelos louros. Caminhoutranquilamente alguns metros no passeio, e atravessou a estrada ainda molhada emconsequência da chuva que caíra na manhã daquele dia de Dezembro, dirigindo-se ao seuautomóvel que estava estacionado do outro lado da rua. Abriu em primeiro lugar o porta-bagagens , onde colocou os dois sacos de viagem que transportava, entrando de seguida no 2
  3. 3. artciencia.com (ISSN 1646-3463) Ano I ● Número Dois ● Fevereiro-Abril 2006Rover preto. Rodou a chave na ignição e arrancou calmamente, logo que o motor começou afuncionar. Após ter percorrido alguns metros, tomou a estrada que conduzia a Coimbra... Jorge, era estudante do primeiro ano do curso de Direito da Universidade de Coimbra,e partilhava com a sua prima Ana uma habitação que pertencia aos pais da rapariga. Ele,contava com vinte anos de idade, tinha cabelos louros, e olhos azuis. Era bastante alto, efisicamente muito forte, e para além disso praticava também karaté, o que fazia qualquer umpensar duas vezes antes de o desafiar para alguma luta... Naquele momento, o jovem cruzava uma das principais avenidas da cidade deCoimbra, e que dava acesso à auto-estrada. Contudo, aguardava-o uma surpresadesagradável... - Grande merda! Só faltava mais isto! - desabafou, muito pouco satisfeito, quandoalguns metros mais adiante foi forçado a parar atrás de uma interminável fila de trânsito. Jorge aguardou serenamente até que os automóveis que estavam parados à suafrente começassem a andar. Contudo, estes permaneceram imóveis, e ele resolveu ligar oauto-rádio no intuito de se distrair. Alguns minutos mais tarde, porém, a música foiinterrompida pela voz de um locutor que anunciou: “ - Em Lisboa e Porto , o trânsito processa-se com normalidade e não existam filas... Asituação mais complicada regista-se em Coimbra nos acessos ao IP1 e à auto-estrada, ondeo embate entre dois pesados provocou um engarrafamento enorme, impedindo assim afluidez do tráfego... Também em... “ Ele, colocou uma cassete no auto-rádio e ao som da música que esta continhaesperou pacientemente que a circulação fosse restabelecida, o que aconteceu cerca dequarenta e cinco minutos mais tarde, quando por fim o veículo que se encontrava imobilizadoà sua frente retomou a marcha aumentando progressivamente de velocidade. Porém,somente alguns instantes mais tarde, o jovem estudante conseguiu entrar na via de acesso àauto-estrada, constatando que de facto haviam colidido dois veículos pesados, e que apesarde terem sido já retirados para a berma continuavam a obstruir uma boa parte da estrada,dificultando a passagem ao intenso trânsito. “ - Agora é sempre a andar! “ - pensou aliviado, quando parou na portagem para retiraro titulo que deveria apresentar à saída, e olhando para os ponteiros do seu relógio de pulso,acrescentou ainda - porra, já são oito e dez! A Isabel não vai ficar nada satisfeita! Jorge, efectuou ainda uma curta paragem na Área de Serviço de Pombal, de modo aencher o depósito de combustível do seu automóvel, retomando a viagem não muito tempodepois... Alguns instantes após ter saído da auto-estrada, já no acesso a Santarém, o telefoneque estava instalado no veículo tocou, e ele apressou-se a responder: 3
  4. 4. Cartel Fantasma Alexandre Figueiredo - Ah, és tu, Isabel!? - inquiriu quando identificou a voz da personagem que do outrolado da linha lhe falava - Não,... não me demoro muito... acabei agora mesmo de sair daportagem - explicou, fazendo uma breve pausa para escutar aquilo que a rapariga lhe dizia -Pronto, está descansada, eu estou quase aí,... depois falamos, o.k.? - concluiu, voltando apousar o auscultador do aparelho, e centrando de novo a sua a tenção na condução. Cerca de quinze minutos mais tarde, já no interior da cidade de Santarém, entrounuma rua deserta, olhando atentamente para a sua frente. Lá ao fundo, erguia-se o edifícioonde habitava com a sua irmã. O automóvel contornou o prédio de apartamentos, e nastraseiras do mesmo, dirigiu-se para uma entrada que dava acesso à cave, que serviasimultaneamente de garagem e arrecadação. Jorge, estacionou o Rover preto que conduzia, ao lado do BMW amarelo que tambémlhe pertencia, e depois de ter aberto o porta-bagagens, retirando do seu interior os dois sacosde viagem que trouxera de Coimbra, deu alguns passos para a direita, encaminhando-se parao elevador... No momento em que pousou a bagagem no chão, à entrada do seu apartamento paraabrir a porta, deu uma rápida olhadela para o seu relógio de pulso. Faltavam então cincominutos para as dez horas da noite. Rodou a chave na fechadura e entrou, fechando a portaatrás de si. - És tu, Jorge? - perguntou uma voz do interior da habitação. - Sim, Isabel, sou eu... - respondeu ele, carregando os sacos até à entrada de umespaçoso e comprido corredor - Onde estás - inquiriu ainda. - Estou na cozinha - gritou Isabel, enquanto o irmão se dirigia para aquela divisão -Nunca mais chegavas e eu já estava a ficar preocupada. Pensei que te tivesse acontecidoalguma coisa. Porque é que te atrasaste tanto?... - questionou a rapariga colocando doispratos sobre a mesa. - O trânsito em Coimbra estava infernal - justificou-se o jovem, aproximando-se dairmã puxando-lhe os longos cabelos dourados e apanhando-os, fazendo um rabo-de-cavalo,enquanto a beijava suavemente na face - Como é que te correu o dia? - Bem,... - respondeu ela, beijando-o igualmente no rosto, e olhando-o fixamenteatravés dos seus lindos e intensamente brilhantes olhos azuis - Então e a Ana, como é queestá? - Ela está óptima! - principiou ele rindo-se - Na verdade deve estar na maior. Quandoeu me vim embora ficou sozinha com o namorado, por isso, deve estar radiante. Ainda porcima eu não estou lá para atrapalhar... - concluiu com um sorriso malandro. - Já entendi,... não precisas de dizer mais nada! - disse, sorrindo, o que deu origem aque no seu rosto angelical aparecesse uma covinha muito original - Vocês homens, são todos 4
  5. 5. artciencia.com (ISSN 1646-3463) Ano I ● Número Dois ● Fevereiro-Abril 2006iguais! Bom, senta-te que o jantar está pronto - anunciou ela, pegando num tabuleiro quepousou sobre a mesa, sentando-se em seguida. - Bacalhau com Natas! - exclamou Jorge, satisfeitíssimo - És um amor!... Ambos saborearam tranquilamente aquela esplêndida refeição, enquanto relatavamum ao outro os acontecimentos mais significativos da semana que estava prestes a terminar.Após o final do jantar, os dois irmãos lavaram e secaram a louça em conjunto, sentando-sedepois ambos no confortável sofá da sala de estar, perto da lareira onde ardiam algunspedaços de lenha, que aqueciam o ambiente, tornando-o bastante mais acolhedor. Aindaligaram o televisor porém, como nenhum dos programas lhes agradou, Isabel dirigiu-se aofundo da sala e ligou a excelente aparelhagem de som, que se encontrava arrumada entre osdois pequenos sofás individuais. Ambos permaneceram naquela divisão ouvindo música, atéque no relógio de parede baterem as zero horas... - Vou-me deitar! - anunciou ele, e passando com a sua mão sobre os longos cabeloslouros da irmã - Também vens? - inquiriu por fim, pondo-se de pé. - Não,... acho que ainda vou ficar mais um pouco - respondeu a rapariga com uma vozdoce e meiga - não tenho sono, por isso, talvez vá ler um pouco... - Então não fiques levantada até muito tarde - recomendou o rapaz aproximando-sedela - Até amanhã! Dorme bem! - acrescentou, beijando-a com ternura na testa, ao que elarespondeu com um boa-noite, envolvendo com os seus braços frágeis e delicados os ombrosfortes e musculados do irmão, num gesto de apreço e amizade. Assim Jorge, abandonou aquele espaço, e encaminhou-se para o quarto de dormirque habitualmente ocupava, enquanto que Isabel se dirigiu até à magnífica estante da salade onde retirou um livro, que instantes mais tarde folheava serenamente. Contudo, não muitotempo depois os seus olhos começaram progressivamente mais pesados, e as letrasimpressas no livro desfocavam... O cansaço vencera, e a jovem adormecera profundamente,confortavelmente enroscada no acolhedor sofá de pele... - Isabel!... - chamou Jorge baixinho, quase sussurrando ao ouvido da irmã, eabanando suavemente o seu corpo adormecido - Isabel!... Que fazes tu aqui? - questionou,quando por fim ela abriu os olhos. - Isso pergunto eu, - respondeu a rapariga, afastando os cabelos que entretanto lhetinham caído sobre o rosto, e bocejando longamente - deixa-me dormir!- pediu ainda, virando-se para o outro lado. - Então,... vá lá, vai-te deitar - continuou ele pacientemente. - Mas,... mas,... onde estou eu? - interrogou-se, compreendendo finalmente que nãoestava deitada na sua cama, mas sim no sofá da sala de estar - Devo ter adormecido! -concluiu, pegando no livro que havia caído no chão. 5
  6. 6. Cartel Fantasma Alexandre Figueiredo - Eu vim beber água, e fiquei admirado quando ainda vi luz aqui - esclareceu o rapaz -Depois, quando te vi, percebi logo que te tinhas deixado dormir... Bom, vamos lá deitar-nos... - Desculpa lá,... não foi com intenção... Jorge conduziu a irmã até ao quarto dela, e em seguida regressou ao seu, deitando-sesem mais delongas. Cinco minutos, foi o tempo que Isabel demorou até se encontrar enroladano meio dos lençóis e cobertores, adormecendo quase de imediato. Em breve aquelemagnífico apartamento voltou a ficar mergulhado num silêncio quase absoluto... A manhã de Sábado surgiu bastante luminosa, com o sol a brilhar intensamente noazul do céu, aqui e ali salpicado por uma ou outra nuvem mais persistente. a temperaturaestava amena, e na rua uma fresca e agradável brisa. Passavam apenas alguns minutos dasdez e meia da manhã quando Jorge acordou, encaminhando-se em seguida para o quarto debanho. Tomou um prolongado duche, surgindo algum tempo depois com um toalhão enroladoà volta da cintura. Vestiu-se, e dirigiu--se para o quarto da irmã. Deu três pancadinhas suavesna porta e, não obtendo qualquer resposta rodou a maçaneta, entrando silenciosamente.Aproximou-se da cama onde Isabel descansava tranquilamente e ajoelhou-se no chão,observando fascinado a beleza angelical do rosto adormecido da irmã. Alguns dos compridoslouros da rapariga pendiam-lhe sobre a face, brilhando intensamente devido à incidência daluz solar que irrompia pelas frinchas da janela fechada, iluminando palidamente o quartoainda mergulhado na escuridão. Jorge não resistiu e passou suavemente a sua mão, primeiropelos cabelos, e depois pelo rosto sereno e tranquilo da jovem, o que deu origem a eladespertasse quebrando aquele momento de magia. - Olá, bom dia! - saudou a rapariga na sua voz doce e ternurenta. - Bom dia, dormiste bem? - indagou ele, beijando-a suavemente na face. - Sim, foi óptimo. Há já muito tempo que não acordava e me sentia assim,...,...tãobem! - respondeu, bocejando longamente e beijando o irmão no rosto. - Então arranja-te, e vem ter comigo à sala, o.k.? - pediu ele, com um ar muitomisterioso, e abandonando o quarto a fim de a deixar à vontade... Cerca de trinta minutos mais tarde após Jorge se ter confortavelmente sentado nosofá da sala, surgiu por fim Isabel, usando um elegante vestido preto. - Estás linda! - observou o rapaz, observando-a atentamente - Mas falta qualquercoisa,... - acrescentou, abrindo uma pequena caixinha de onde retirou um reluzente fio deouro - ... talvez um fio não ficasse mal no teu pescoço. - É tão lindo! - exclamou ela surpreendida - Lembraste-te? - perguntou, olhando paraele fixamente, através dos seus magníficos olhos azuis. - Feliz aniversário! - começou o jovem dando alguns passos na da rapariga,mostrando-lhe o seu presente - Segura os cabelos, por favor... - pediu, colocando-lhe o fio à 6
  7. 7. artciencia.com (ISSN 1646-3463) Ano I ● Número Dois ● Fevereiro-Abril 2006volta do pescoço - pronto, já está, podes largar os cabelos - anunciou ele, enquanto ela seaproximava do espelho que estava pendurado numa das paredes. - Obrigado!... És um amor!... Eu,... não tenho palavras! Desde que te conheci tens sidotão bom para mim, e eu nunca te conseguirei mostrar o quanto gosto de ti. Tu ésmaravilhoso!... Obrigado... - acrescentou, não conseguindo com a emoção evitar uma lágrimamais teimosa que lhe surgira ao canto do olho. - Bom, é quase meio-dia, por isso é melhor irmos... - anunciou ele, olhando para osponteiros do seu relógio de pulso. - Onde vamos? - perguntou Isabel, ardendo em curiosidade, e tentando descobriratravés da expressão de Jorge descobrir qual seria a sua ideia. - Já vais ver! - respondeu ele, mantendo o mesmo ar enigmático e sorridente... O jovem conduziu a irmã até à porta e saíram ambos, entrando em seguida paraelevador, que os levou até à cave do majestoso edifício. Aí, dirigiram-se ambos para o BMWM3 amarelo que estava estacionado ao lado do Rover, e entraram. Jorge, rodou a chave naignição, e aguardou que o ruído do motor em funcionamento se fizesse ouvir. Depois,engrenou a primeira velocidade, e abandonou calmamente a garagem subterrânea daqueleprédio de apartamentos... - Onde é que queres almoçar? - inquiriu o rapaz, quando cerca de vinte minutos apósterem saído de casa se encontravam numa das mais movimentadas avenidas de Almeirim. - Ali! - respondeu de pronto a jovem, apontando com o indicador direito para umaconstrução de dois pisos que se situava uns quantos metros mais à frente, na esquina docruzamento entre duas ruas. caminharam alguns metros, e entraram ambos no restaurante.Já no interior do estabelecimento, escolheram uma mesa próxima da janela, e sentaram-seaguardando que um funcionário lhes trouxesse a ementa. Cerca de meia hora mais tarde, o empregado deixou em cima da mesa duas travessacom aquilo que tinham pedido; Carne de Porco à Alentejana, acompanhada de batatas fritase amêijoas que ambos saborearam, enquanto conversavam animadamente. Terminaram arefeição bebendo um cremoso café, tendo-se ainda deliciado com uma esplêndidasobremesa, que comeram entre o prato principal e o café. Em seguida, Jorge pagou adespesa, e os dois irmãos abandonaram aquele restaurante, encaminhando-se para o BMWamarelo que ficara estacionado não muito longe daquele local. - Onde é que vamos? - perguntou Isabel, quando concluiu que o irmão não tomara aestrada que conduzia a Santarém. - Eu espero não me enganar... - principiou ele, olhando receoso para as muitasnuvens que entretanto haviam coberto o céu azul - ... a ideia, seria irmos ver o pôr-do-sol àNazaré, e jantarmos lá - esclareceu por fim, virando-se para a irmã, que sorria radiante - mas 7
  8. 8. Cartel Fantasma Alexandre Figueiredose as coisas continuarem como estão, palpita-me que o que vamos ver é uma bela chuvada. - Então queres dizer que não vamos? - questionou Isabel, olhando para ele com umaexpressão triste nos seus brilhantes olhos azuis. - Não, claro que vamos! - esclareceu ele peremptoriamente passando a palma da mãocom ternura sobre os ombros de Isabel - É evidente que vamos, quanto mais não seja paravermos as ondas do mar, que nesta altura do ano são espectaculares - acrescentou por fim,voltando a colocar a sua mão direita no volante. ... - Lindo, não é? - perguntou Jorge, virando-se para a irmã que continuava sentada aseu lado, observando as monstruosas muralhas água que se desfaziam em enormesmanchas de espuma de encontro aos rochedos que ficavam dentro do mar, não muito longedo extenso areal, que do local onde se encontravam facilmente podiam ver. - Se pelo menos parasse de chover, poderíamos sair e ver melhor - lamentou-seIsabel com uma expressão cabisbaixa. - Tem calma, - tranquilizou-a ele - temos muito tempo, ainda é tão cedo, são... -continuou o jovem fazendo uma breve pausa para consultar o seu relógio de pulso - ... seismenos um quarto, por isso. - Mas depois começa a anoitecer, e aí é que não vemos mesmo nada - replicou ela. Porém, alguns minutos mais tarde, a chuva parou de cair, e ambos puderam entãosair do automóvel, aproximando-se uma falésia, embora muito cuidadosamente, pois, opavimento estava muito escorregadio devido à chuva que caíra momentos antes, e por isso orisco de quedas era bastante grande. - Vê! - exclamou Jorge de súbito, apontando para o horizonte - ali,... - acrescentou,indicando com o dedo à irmã aquilo que vira - Afinal parece que sempre vamos ver o pôr-do-sol! - concluiu sorridente, quando lá ao longe se começavam a vislumbrar alguns raios de sol,que tentavam irromper pelas espessas e numerosas nuvens, que continuavam a cobrirameaçadoramente o céu, prometendo chuva. - É maravilhoso! - observou a rapariga, radiante - Repara,... nos sítios onde os raiosbrilham parece que existe uma espécie de nevoeiro amarelo,... é lindo... Os dois jovens, ficaram ainda por mais algum tempo a observar maravilhados aquelecenário deslumbrantemente belo, tendo ainda oportunidade de assistir ao pôr-do-sol. Porém,depois do último raio de sol ter desaparecido no horizonte, não demorou muito tempo até quesilenciosamente a noite chegasse, envolvendo tudo ao redor numa penumbra cada vez maisescura, sendo acompanhada por uma acentuada descida de temperatura... - Tenho frio! - anunciou Isabel, abotoando mais alguns botões no casaco que traziavestido. 8
  9. 9. artciencia.com (ISSN 1646-3463) Ano I ● Número Dois ● Fevereiro-Abril 2006 - Tens razão, - concordou o irmão - arrefeceu bastante... - prosseguiu, deitando umúltimo olhar para o mar, antes de conduzir a rapariga até ao automóvel em que haviamchegado até ali - Bom, vamos procurar um restaurante para jantarmos - concluiu por fim,usando o controle remoto para destrancar as portas do veículo, vestindo também ele ocasaco que trouxera consigo, entrando no interior do BMW coupé logo em seguida. Dirigiram-se para o centro daquela pitoresca vila do litoral , e depois de deixarem ocarro parado num parque de estacionamento, percorreram tranquilamente a pé algumascentenas de metros na avenida marginal. Finalmente, encontraram um restaurante com oqual simpatizaram de imediato, por causa da sua fachada tipicamente tradicional, eresolveram entrar. Sentaram-se numa mesa perto de uma das janelas, e optaram porexperimentar um prato de Caldeirada, que algum tempo depois ambos saboreavam comsatisfação, enquanto conversavam animadamente. Como sobremesa, escolheram umdelicioso Doce de Amêndoa, e terminaram aquela refeição bebendo o habitual café,abandonando o sossegado restaurante logo após Jorge ter liquidado a despesa. Em ritmo depasseio turístico percorreram calmamente em sentido contrário a avenida marginal, quenaquele momento se encontrava quase deserta, sendo apenas iluminadas pela lua, e peloscandeeiros de iluminação pública. De súbito, o ruído da rebentação das ondas na praia foiabafado por um outro; começara a chover naquele preciso instante, intensificando-se muitorapidamente. - Corre! - pediu Jorge a Isabel, que acelerou o passo, colocando-se ao seu lado - Válá, mais depressa, senão vamos ficar totalmente encharcados - insistiu o jovem. - Encharcados já nós estamos! - replicou a rapariga, sorrindo satisfeita, começando acorrer, enquanto passava as mãos pelos longos cabelos louros que estavam já bastantemolhados - É maravilhoso! - exclamou radiante, quando por fim chegaram próximo do BMWamarelo, entrando ambos rapidamente no interior do mesmo, a fim de se abrigarem da chuva,que caía em grande quantidade lá fora... - Atchiiiim! - começou o rapaz, rodando a chave na ignição, e colocando o potentemotor do automóvel em funcionamento - Porra, de certeza que me vou constipar! - lamentou-se, acrescentando ainda - Burro, porque é que não trouxeste o chapéu-de-chuva? - Deixa lá, respondeu Isabel confortando-o, enquanto passava a sua mão peloscabelos molhados do irmão - quando chegarmos a casa, tomamos um bom banho, bebemosqualquer coisa bem quente, e vamos logo deitarmo-nos, o.k.?... Aproximadamente hora e meia depois de terem deixado a pitoresca vila de Nazaré,entraram na cave do prédio em que habitavam. Jorge, estacionou o automóvel no localhabitual, e ambos subiram apressadamente até ao apartamento deles, de modo a poderemtrocar aquelas roupas molhadas que provocavam arrepios de frio em ambos. Tomaram um 9
  10. 10. Cartel Fantasma Alexandre Figueiredoprolongado e reconfortante banho, e após terem vestido os pijamas e robes de chambre,encaminharam-se para a cozinha, onde Isabel preparou um cacau bem quente, que beberamambos, acompanhando a bebida com alguns biscoitos de chocolate. - Bom, vou-me deitar - anunciou Isabel, bocejando longamente - Também vens? -inquiriu ainda, passando as mãos pelo largos e robustos ombros do irmão. - Sim, também estou cheio de sono - respondeu o rapaz, conduzindo a irmã para ocompridíssimo corredor que dava acesso aos quartos de dormir, desligando os interruptoresde luz à medida que ia passando por eles. - Obrigado, Jorge!... Foi um dia maravilhoso!... - começou Isabel, já à porta do seuquarto - És um amor... - continuou a rapariga, tentando encontrar as palavras certas paraexprimir aquilo que sentia - és,... estupendo,..., e foste a melhor coisa que me aconteceu... - Ainda bem que gostaste - respondeu ele, satisfeito por ter agradado à irmã - Boanoite, e bons sonhos! - exclamou o jovem por fim. - Para ti também! - acrescentou a irmã, beijando-o suavemente na face, e tentandoatravés daquele ternurento beijo exprimir toda a alegria e gratidão que sentia naquelemomento - Até amanhã! - concluiu ela sorrindo radiante... Jorge passou ainda a sua mão delicadamente pela pele macia do rosto dela,abraçando-a também de encontro a si, encaminhando-se depois para o seu quarto de dormir,enquanto que Isabel fechava a porta. Deitaram-se ambos quase de imediato, e não demoroumuito tempo até que estivessem os dois mergulhados num tranquilo e profundo sono.Contrastando com o ambiente calmo e silencioso que se verificava no interior daquelemagnífico apartamento, lá fora, no entanto, recomeçara a chover, com uma intensidadeapreciável, acompanhada por algumas rajadas de vento que de vez em quando se faziamsentir com alguma violência... A manhã seguinte surgiu bastante desagradável. Para além da chuva que teimara emficar, associaram-se-lhe ainda um frio intenso, e o vento forte, que já se havia feito sentirdurante a noite, mas que agora marcava a sua presença de uma forma mais vigorosa eregular. Passavam já alguns minutos do meio-dia, quando Isabel, que fora a primeira alevantar-se, se sentou no sofá de sala de estar, entretendo-se com uma revista. Não tardoumuito até que a cabeça de Jorge assomasse à entrada da porta da espaçosa divisão. - Bom dia! - cumprimentou ele. - Olá, então, dormiste bem? - inquiriu a rapariga, enquanto trocavam um beijo. - Sim, foi uma noite óptima - respondeu o jovem sentando-se ao lado da irmã, noconfortável sofá de pele - Bem, vou comer qualquer coisa, porque tenho aí uns apontamentosque a Sofia me emprestou, e tenho também que rever algumas matérias, por isso, não posso 10
  11. 11. artciencia.com (ISSN 1646-3463) Ano I ● Número Dois ● Fevereiro-Abril 2006perder muito tempo. - A que horas é que voltas para Coimbra? - indagou Isabel pousando a revista sobre apequena e elegante mesa de madeira escura que se encontrava no meio da sala. - Não sei bem, mas não é muito conveniente sair muito depois das oito, porque senãosó lá chego à uma e tal, como aconteceu na semana passada, e amanhã tenho aulas às oitoe meia... - esclareceu o rapaz, levantando-se, e encaminhando-se para o corredor - Voualmoçar, vens comigo? - pediu ainda. Os dois jovens dirigiram-se então para a cozinha. Jorge, foi ao congelador dofrigorífico, retirando de lá uma embalagem de pizza congelada, que a irmã colocou dentro doforno de micro-ondas. Alguns minutos mais tarde saboreavam ambos com prazer aquelarefeição rápida, que acompanharam com sumo de laranja. Em seguida Jorge, foi ao seuquarto de dormir, pegou nos seus livros e nuns quantos cadernos de apontamentos, e fechou-se no magnífico e espaçoso escritório da habitação, que tinha igualmente a função debiblioteca. Isabel, pelo contrário, depois de ter colocado os pratos e a restante louça de quese haviam servido ao almoço na máquina de lavar louça, regressou à sala de estar, e sentou-se num dos mapples lendo um livro e ouvindo música em simultâneo. Os dois irmãos, permaneceram totalmente absorvidos nas suas ocupações, até cercadas cinco da tarde. A essa hora Jorge, fez uma pausa nos estudos, e foi até à cozinha nointuito de lanchar. Porém, passou em primeiro lugar pela divisão, onde Isabel continuavamtotalmente absorvida pela leitura. - Queres vir lanchar? - perguntou, enquanto carinhosamente fazia um rabo-de-cavalocom os longos cabelos da irmã. - Não, agora não me apetece. Mas quando acabar sou capaz de ir trincar qualquercoisa - respondeu ela, olhando-o através dos seus expressivos e brilhantes olhos azuis - Jásó faltam quarenta páginas, por isso agora quero ficar a saber qual é o final da história -rematou, voltando a centrar a sua atenção no livro. Jorge, dirigiu-se para a cozinha, e pegou numa maçã que mastigou rapidamente,regressando logo depois ao escritório. Isabel por seu lado, continuou entretida com a leituradurante mais uns quantos minutos. Quando por fim terminou, levantou-se e foi até à cozinha.Comeu alguns biscoitos, que acompanhou com um copo de sumo de laranja. Em seguida,começou calmamente a preparar o jantar. Passavam alguns minutos das seis e meia, quando o irmão se juntou a ela nacozinha... - Queres ajuda? - perguntou aproximando-se dela, que observava atentamente ojantar que cozinhava no forno. - Não, não é preciso. Mas, se quiseres ir arrumar as tuas coisas, sempre é trabalho 11
  12. 12. Cartel Fantasma Alexandre Figueiredoque adiantas, que o jantar ainda deve levar aí uns vinte minutos. O jovem deixou a cozinha, e entrando no espaçoso corredor subiu as escadas queconduziam ao andar superior, onde se situava o seu quarto de dormir, assim como o deIsabel, e ainda um terceiro. Após ter entrado nos seus aposentos, colocou cuidadosamentealgumas roupas dentro de um dos sacos de viagem que trouxera de Coimbra, enquanto quereservou o outro para guardar os seus livros e cadernos de apontamentos. Em seguida,retornou ao piso inferior, deixando a bagagem no hall de entrada junto à porta,encaminhando-se posteriormente para a cozinha. - Queres que ponha a mesa? - ofereceu, abrindo uma gaveta pegando numa toalhaque estendeu sobre a mesa. - Sim, o jantar está pronto, por isso se não te importas... - respondeu a rapariga,enquanto abria o forno, puxando para fora um tabuleiro onde se podia observar um apetitosopeixe assado com pequeninas batatas igualmente assadas. Jorge, espalhou ainda sobre a toalha de linho branca os pratos e talheres, bem comoos guardanapos e os copos. Em seguida, sentaram-se ambos nas cadeiras, e principiaram asaborear aquela refeição preparada por Isabel. - A que horas te vais embora? - perguntou Isabel, olhando para os ponteiros do relógioque estava pendurado na parede por cima da cabeça do irmão, que indicavam passaremexactamente dezasseis minutos das sete da tarde, levando o garfo à boca. - Vamos beber café, e quando voltarmos eu deixo-te lá em baixo na entrada, e sigo -esclareceu ele, passando o guardanapo pelos lábios, e terminando a sua bebida... ... - Guia com cuidado... - recomendou Isabel, quando cerca de quarenta minutos maistarde, ambos se encontravam nos degraus que davam acesso à entrada principal do edifícioonde habitavam. - Não te preocupes, serei prudente - descansou-a ele, sorrindo, no momento em queum pingo de água caiu em cima dela - Vá, vai para dentro que está a começar a chover... - Está bem - concordou a rapariga, abraçando o irmão uma última vez, antes de esteentrar para o BMW amarelo que estava estacionado ali mesmo junto a eles - Faz boa viagem- acrescentou por fim , subindo depois apressadamente os degraus até se encontrarprotegida da chuva, que entretanto aumentara de intensidade, vendo ainda o automóvel queJorge conduzia, afastar-se rapidamente, até desaparecer totalmente, na sinistra escuridão danoite... A chuva que caía com abundância não impediu no entanto que o jovem efectuasse asua viagem. Alguns minutos depois de ter saído de Santarém, parou na portagem da auto-estrada de modo a retirar o título que aproximadamente duas horas mais tarde entregou ao 12
  13. 13. artciencia.com (ISSN 1646-3463) Ano I ● Número Dois ● Fevereiro-Abril 2006portageiro, na saída da via rápida em que circulara. Eram quase dez e meia, quando o veículo que o rapaz conduzia estacionou em frenteda casa dos pais de Ana, a prima com quem dividia a habitação. Após ter retirado do porta-bagagens as duas malas, trancou o carro, usando o comando à distância, e dirigiu-se deimediato para a porta de entrada da vivenda, entrando sem mais delongas. - Ana! - chamou, avançando às escuras pelo corredor, e constatando com algumasurpresa que não havia qualquer divisão iluminada - Ana! - insistiu o jovem, ligando ointerruptor, e atirando as chaves do BMW para cima da pequena mesa da entrada, sobre aqual se encontrava o telefone - Ana, onde estás? - chamou de novo, percorrendo todo ocomprido corredor, e concluindo por fim que não se encontrava ninguém em casa... Após ter transportado a bagagem até ao seu quarto de dormir, entrou na ampla salade estar da habitação, e sentou-se confortavelmente no sofá. Quando esticou a mão até àmesinha que se encontrava no centro daquela dependência, para agarrar no controlo remotodo televisor, reparou num pequeno envelope endereçado a si. Abriu-o, e desdobrou o papelque estava no seu interior, reconhecendo de imediato a letra da prima: “Jorge, vou passar as férias de Natal ao Brasil! Eu sei que deves ficar surpreendido, mas quem nos convidoufoi a mãe da minha madrasta. A princípio ainda hesitei, mas depois acabei por aceitar, quando o meu pai me disse que oRui Pedro também podia ir. Partirei amanhã Domingo), e só voltarei no início de Janeiro para os exames. Agora que estás sozinho em casa, vê lá o que fazes. Porta-te bem!... Mil beijinhos da tua prima: Ana” Jorge, estava de facto surpreendido. Rapidamente voltou a ler a carta, nãoacreditando naquilo que lia. - “ Não pode ser! “ - pensava, enquanto pousava a carta sobre a mesa, e pegava nocomando do televisor - “ Sortuda!... Ao Brasil hem!?... Que pinta!... “ - disse em voz alta,passando os pés por cima da pequena mesa de madeira, ao mesmo tempo que se esticavano sofá, de modo a encontrar uma posição o mais cómoda possível - “ Afinal, vendo bem ascoisas a viagem dela até tem algumas vantagens, senão vejamos; a casa é toda minhadurante três semanas, que óptimo!... “ - acrescentou ainda, sorrindo radiante. Permaneceu estendido no sofá com os pés assentes na mesa durante mais algunsmomentos. contudo, e como a programação televisiva não lhe agradava, optou por ir dormir,até porque na manhã seguinte as aulas começavam bem cedo. Assim, dirigiu-se ao seuquarto de dormir, deitando-se breves instantes depois. Ao contrário daquilo que era habitual,Jorge, demorou bastante tempo até adormecer. Porém, o cansaço acabou por vencer, equando no mostrador digital do relógio despertador, apareceram as zero horas, já o jovem 13
  14. 14. Cartel Fantasma Alexandre Figueiredoestava mergulhado num profundo e tranquilo sono... Fim do 1º Capítulo 14
  15. 15. artciencia.com (ISSN 1646-3463) Ano I ● Número Dois ● Fevereiro-Abril 2006 Capítulo 2 - “ Antena 3,... bom dia,... são sete horas!... Vamos às notícias com...” Jorge despertou, e ainda bastante ensonado esticou o braço e desligou o rádio. Emseguida, levantou-se e bocejando bastante encaminhou-se para o quarto de banho., tomandoo seu habitual prolongado duche matinal. Após se ter vestido, dirigiu-se à cozinha e bebendoum iogurte líquido, pegou nos livros, vestiu o blusão, e abriu a porta de entrada dahabitação... - “ Que frio!... “ - exclamou arrepiado - fechando a porta atrás de si, e percorrendoapressadamente a curta distância que o separava do BMW M3 coupé amarelo. Entrou no automóvel, atirando os livros para o assento do lado, e logo após ter ouvidoo ruído característico do motor em funcionamento, engrenou a primeira velocidade, earrancou bruscamente, fazendo patinar os pneus no asfalto húmido. Já em Coimbra, deixou oveículo num parque de estacionamento próximo da Universidade, cruzando os portões da suafaculdade às oito e meia em ponto. Por isso, não perdeu tempo, encaminhando-se logo paraa sala de aulas... ... - Jorge!... - chamou uma voz feminina, quando o jovem percorria tranquilamente oextenso corredor do edifício, dirigindo-se para o anfiteatro onde teria a aula seguinte. - Rita..., olá! - exclamou, virando-se para trás e reconhecendo a cara sorridente darapariga que se aproximava dele - Onde estão a Sofia e a Joana? - inquiriu surpreendido porencontrar a colega sozinha. - Só vêm para a próxima semana. Tinham uns trabalhos para fazer, e por issoresolveram ficar mais uns dias no Porto... - esclareceu a jovem beijando-o na face. - Já se resolveram a aceitar o meu convite? - perguntou ansioso - Acerca do fim-de-semana? - indagou a rapariga, fazendo uma breve pausa, eprosseguindo após um sinal afirmativo de Jorge - Elas dão-te a resposta quando voltarem,pode ser?... - Sim, claro - anuiu ele, olhando de repente para o relógio de pulso - Porra, já estouatrasado! - exclamou muito pouco satisfeito - Tenho que ir,... - anunciou, - almoças comigo? -propôs ainda. - Não posso, tenho que preparar uns apontamentos, - respondeu a colega - mas sequiseres podemos jantar juntos, podes ir lá ter..., às... oito! - sugeriu ela. - Está bem, - concordou o jovem - então até logo, ...às oito - concluiu por fim, dirigindo- 15
  16. 16. Cartel Fantasma Alexandre Figueiredose apressadamente para a porta do anfiteatro que ficava um pouco mais à frente... Duas horas e meia mais tarde o espantoso BMW amarelo parava a alguns metros dedistância da habitação que Jorge ocupava com Ana, sua prima, e que pertencia aos pais darapariga. O rapaz, pegou nos seus livros, atravessou rapidamente a estrada, e entrou emcasa, depois de ter rodado a chave na fechadura, fechando a porta logo em seguida. Atirouos livros para cima da secretária do escritório, e foi à cozinha buscar uma lata de cerveja paraacompanhar com a pizza que trouxera de Coimbra. Sentou-se descontraídamente no sofá dasala de estar, descansando as pernas sobre a pequena mesa de madeira, que para ele tinhaoutra utilidade para além da de decoração. Serenamente foi trincando as fatias da pizzabebendo também a cerveja, enquanto assistia na televisão às noticias da uma hora. Maistarde, instalou-se confortavelmente na cadeira do escritório, ligou o computador, e entreteve-se durante bastante tempo a jogar um simulador de corridas de Fórmula 1. Quandofinalmente se fartou do jogo, pegou nos cadernos de apontamentos, e após ter ido buscar oseu walkman, releu atentamente as notas que tirara das aulas daquela mesma manhã, aosom do seu grupo musical favorito. Por volta das cinco e meia da tarde, deu por fim o estudo, dirigindo-se à cozinha a fimde lanchar, sentando-se depois em frente do televisor, vendo um filme que a prima gravara nasemana anterior... Jorge, fechou a porta atrás de si, e deu alguns passou em direcção ao automóvel queestava estacionado do outro lado da rua deserta. Ao entrar no BMW M3 coupé, uma ligeirabrisa desagradável soprou, levantando-lhe os cabelos louros, e causando-lhe um pequenoarrepio. Por fim, pôs o veículo em marcha, tomando a estrada que levava a Coimbra,deixando o carro estacionado quase em frente ao prédio em que Rita dividia um apartamentocom Sofia e Joana. Cruzou serenamente a porta de entrada do edifício, e subiu as escadas,dando depois três leves pancadinhas na porta de madeira, que a colega lhe veio abrir quasede imediato, convidando-o a entrar: - Vens cedo! - observou, voltando a fechar a porta, e conduzindo o amigo para a salade estar - O jantar ainda vai demorar um pouco, por isso senta-te aqui! - convidou, apontandopara o sofá que estava encostado a uma das paredes daquele espaço um tanto ou quantoapertado. - Não obrigada, eu quero ajudar em qualquer coisa... - respondeu o jovem num tomdecidido. - Bem, se fazes tanta questão nisso,... - começou Rita, dirigindo-se para a cozinha, -...podes pôr a mesa aí mesmo - acrescentou por fim, regressando com uma toalha branca namão que entregou ao colega... ... 16
  17. 17. artciencia.com (ISSN 1646-3463) Ano I ● Número Dois ● Fevereiro-Abril 2006 - Passa-me a salada, por favor - quando ambos estavam já sentados à mesa,saboreando um delicioso prato de carne assada, acompanhada por batatas fritas. - Quando acabarmos, queres ir dar uma volta? - propôs Jorge, pousando os talheres eterminando a sua refeição - Conheci um sítio, que não fica muito longe, e é lindíssimo ànoite... - Está bem... - concordou a rapariga, limpando os seus doces e suaves lábios ao seuguardanapo, dirigindo-se posteriormente à cozinha e levando consigo os pratos que amboshaviam utilizado - ...mas antes, quero que proves isto, - anunciou ela, regressando momentosdepois, apresentando-lhe um esplêndido bolo, decorado com natas e algumas pepitas dechocolate. - É óptimo! - elogiou Jorge, provando um pouco do cremoso bolo... Alguns minutos mais tarde, os dois jovens sentaram-se no interior do automóvelamarelo que pertencia a Jorge, e que arrancou quase de seguida... - Afinal, aonde é que vamos? - inquiriu a rapariga, ardendo em curiosidade, erecebendo apenas como resposta um sorriso misterioso do companheiro, que a deixou aindamais intrigada. - Estamos quase a chegar!... - anunciou Jorge, cerca de dez minutos depois, virando-se para a atraente rapariga que seguia a seu lado - É ali à frente - concluiu por fim, quando oautomóvel que guiava acabava de descrever uma curva apertada - Vem! - acrescentou,abrindo a porta do veículo logo após este se ter imobilizado completamente. - Que lindo! - exclamou Rita, saindo igualmente do carro e aproximando-se do colega,passando o seu braço sobre os robustos ombros dele. - Repara,... - principiou Jorge, fazendo uma breve pausa, enquanto procurava aspalavras que mais adequadamente exprimissem aquilo que sentia - ...as luzes da cidade, ...orio, ...o movimento dos carros, e ...este silêncio e tranquilidade cá em cima. Não achas que éharmoniosamente belo?... - Sim, é maravilhoso,... - concordou a jovem - ...e olha as estrelas,... vê comocintilam... Aquela é a Estrela Polar, não é? - perguntou ela, apontando para um minúsculoponto de luz que brilhava ao lado de muitos outros na negra escuridão do céu... - Não sei bem, - respondeu Jorge - Quem gostava muito de observar as estrelas era omeu pai, até chegou a comprar um telescópio... - esclareceu ele, em voz baixa e deixandoescapar uma lágrima mais teimosa, sem que no entanto Rita se apercebesse. - Então, agora já não tem tempo para isso? - Não... - começou ele suspirando, enquanto outra lágrima lhe correu pela face triste -Na verdade..., o meu pai,... e a minha mãe,... morreram num acidente de carro à cerca de umano e meio... - disse por fim, limpando o rosto húmido por causa das lágrimas que acabaram 17
  18. 18. Cartel Fantasma Alexandre Figueiredopor vencer e corriam abundantemente pela face ensombrada por memórias tão dolorosascomo eram as do desaparecimento dos pais. - Desculpa se,..., eu não sabia,..., nunca pensei,..., que,... bem,... - começou arapariga, simultaneamente surpreendida e confusa, tentando, embora um pouco embaraçada,confortar o colega - Tu és sempre tão alegre e divertido, que,... a,... bem,... eu não queria,... - Não tens que pedir desculpa,... Afinal, tu não sabias de nada, por isso,... não tensculpa... - interrompeu ele com uma voz trémula, quando se apercebeu da atrapalhação deRita, passando a sua mão pelo cabelo castanho da jovem... - Como é que..., como é que os teus pais,...? - Como é que eles..., como é que foi, é isso que queres saber...? - questionou Jorge,continuando logo após um sinal afirmativo da colega - Morreram num acidente de carro... -respondeu vagamente, fazendo uma pausa, e continuando em seguida - Foi numa noite,quando vinham de Lisboa..., o meu pai não mediu bem uma ultrapassagem, e quandopercebeu que não dava, já estavam debaixo de um camião,... o carro explodiu, eles tiverammorte imediata, e o condutor do camião morreu dois dias depois no hospital... - esclareceupor fim com alguma dificuldade, enxugando as lágrimas com um lenço que a rapariga lheemprestara. - E a Isabel, como é que reagiu? - A principio,... ficou mais perturbada que eu, mas ela acabou por se recompor muitomais rapidamente que eu. Ela conseguiu aceitar os factos, e eu ainda não fui capaz deenfrentar essa situação... - respondeu Jorge, aproximando-se da beira do miradouro,observando atentamente as luzes da cidade, que brilhavam lá ao longe - Bom..., mas se nãote importas eu preferia mudar de assunto... - pediu, envolvendo com um braço os ombrosdelicados da companheira - ...falar disto ainda me é muito difícil... - concluiu por fim,sentando-se numa enorme pedra uma pouco mais recuada em relação ao precipício. - Eu compreendo... - anuiu Rita, sentando-se a seu lado - Responde-me só a umapergunta; porque é que queres ser advogado? - Para ser sincero, eu até nem gosto muito disto... - Porquê? - insistiu a companheira interrompendo-o, surpreendida com tal revelação -Se não gostas deste curso, porque razão o escolheste? - No fundo, eu não gosto da advocacia, porque acho que não é um jogo limpo. Não é averdade que está em causa, mas tudo se resume ao ganhar ou perder o caso. Não interessaque o réu seja culpado ou inocente; o que interessa para todos, é ganhar a qualquer preço,entendes? - Sim, mas continuo sem compreender; se não concordas com o sistema porque é quequeres ser advogado? - inquiriu Rita um tanto confusa. 18
  19. 19. artciencia.com (ISSN 1646-3463) Ano I ● Número Dois ● Fevereiro-Abril 2006 - Porque o maior desejo dos meus pais, era que eu me licenciasse em Direito, e umdia mais tarde ficasse eu como dono da firma de advogados que eles tinham em Lisboa... -esclareceu ele, demonstrando com a sua atitude o quanto respeitava os pais - ... por isso,jurei sobre a campa deles que iria fazer aquilo que eles sempre haviam desejado, mas quepor outro lado, iria combater o sistema com todas as armas que tivesse. - Então, qual era o curso que gostavas realmente de tirar? - perguntou Rita de novo. - Tens frio...? - interrogou Jorge, reparando que a companheira tremia - Queres irembora?... - sugeriu, despindo o blusão, e colocando-o sobre os ombros da colega. - Não..., podemos ficar mais um pouco... - Bem, eu gostava de ter podido estudar Engenharia Mecânica, ou então Informática,que foi o meu curso no secundário, mas... - Mecânica?!... - exclamou a rapariga surpreendida - Tu gostas de mecânica...? - Sim..., adoro... - respondeu ele sorrindo, e sem alterar o tom de voz - ... na verdade,até tenho um Volkswagen Carocha de 1969, que comprei num ferro-velho, e que estou arestaurar para oferecer à Isabel... Já comprei um motor de um Porsche em segunda mão, eadaptei-o para o Carocha; vai ficar com quase 3000 cm3 de cilindrada, e mais de 200 cavalosde potência. Também pedi a um amigo que tem uma grande oficina perto de Lisboa, para mereforçar a estrutura do carro, de modo a aguentar com aquele motor, e agora ando a arranjaros travões, porque quero instalar ABS, e umas jantes de alumínio com 20 ou 22 polegadas delargura. Depois, vou mandar pintá-lo de cor-de-rosa, ou então bordeaux. - Uaaaaauuu!... Nunca pela ideia me passou que fosses tão engenhoso!... - exclamouRita, não conseguindo disfarçar a simpatia e admiração que sentia pelo colega - Então, ecomo é que vai ficar; coupé ou cabriolet? - Cabrio..., aliás, quando o levei ao meu amigo em Lisboa, ele deixou-mo logodescapotável, e pronto a levar uma capota em tecido impermeável... - esclareceu Jorge,satisfeito com o interesse demonstrado pela companheira - ...mas estou a ver que tambémpercebes disto, muito bem, estou a gostar de ver!... Vem cá... - pediu ele levantando-se, edirigindo-se para o espectacular BMW M3, que estava parado alguns metros mais acima - ...quero mostrar-te uma coisa... - acrescentou, esperando que a colega chegasse junto dele -Este carro tem de série... - É um belo carro... - observou alguém, intrometendo-se na conversa - Talvez moqueiras emprestar para eu ir dar uma volta... - continuou o indivíduo do rabo-de-cavalo,aproximando-se dos dois jovens. - Não me parece... - respondeu o rapaz, sem se mostrar muito impressionado com aenorme e reluzente lâmina que acabara de surgir na mão direita do intruso, apesar de Rita terficado petrificada - Bom..., vou dar-te um conselho; pira-te daqui, imediatamente. Estou-te a 19
  20. 20. Cartel Fantasma Alexandre Figueiredoavisar!... - Ouviram...!? - recomeçou o outro, falando para os dois homens que acabavam desair de entre um arbusto - Ele está-me a avisar... - prosseguiu em tom irónico, dando algunspassos na direcção de ambos, enquanto brandia com destreza a enorme faca - ... quem teavisa, sou eu; tenham juízinho, e nada vos acontecerá..., só queremos verificar um pequenopormenor, e depois soltamo-vos... - Marco,... - chamou o indivíduo que vestia fato e gravata, usando uma gabardina porcima - ...tem calma,... não nos precipitemos... Tu,... - disse, falando para Rita, quepermanecia imóvel - ...vem cá... - Lamento desiludir-vos, mas infelizmente não me parece que ela vá a lugar algum... -respondeu de pronto Jorge, continuando muito pouco impressionado com o ambiente hostilcriado pelos três malfeitores. - Marco,... - insistiu o outro - ... trá-la cá, e se aí o nosso amigo fala-barato semanifestar trata-lhe da saúde!... - concluiu com cara de poucos amigos. - Não é preciso Dr.,... - disse o terceiro homem, falando para o do fato, que parecia sero chefe do grupo - ... não é ela... - Tens a certeza do que estás a dizer? - insistiu o outro. - Absoluta... - prosseguiu ele - não é ela, a outra miúda não tinha sardas, era maisbaixa, e o cabelo era mais escuro do que o desta... - esclareceu por fim. - Vê lá, não te precipites, o chefe não quer perder mais tempo com esta história -insistiu o homem do fato. - Eu tenho a certeza, não é ela, ...garanto-lhe Dr. - - Marco,... deixa-os,... vamos embora... - ordenou o tal Dr. ao fulano do rabo-de-cavalo. Porém, Marco não parecia estar pelos ajustes, e antes de se afastar presenteou odesprevenido Jorge com um soco na cara, que de imediato ripostou, agredindo o outro comum pontapé violentíssimo no baixo ventre, e depois com dois murros na cara, que deixaram otipo que se chamava Marco estendido no chão sangrando do nariz e dos lábios. - Toma lá filho da puta!... Para a próxima toma atenção aos conselhos que te dão -comentou o jovem, quando o outro com alguma dificuldade se começou a levantar. - Agora é que vais ver como elas te mordem!... - gritou Marco de cabeça perdida,avançando furioso para o rapaz. - Tu não aprendes!?... - ironizou Jorge - Queres levar outra vez?... - Marco!... - chamou o indivíduo que tratavam por Dr. - Vamos embora..., já... é umaordem!... - ordenou o tipo que vestia fato, num tom de voz que não deixou dúvidas ao homemdo rabo-de-cavalo. 20
  21. 21. artciencia.com (ISSN 1646-3463) Ano I ● Número Dois ● Fevereiro-Abril 2006 - Fica para a próxima,... não te esqueças da minha cara!... - ameaçou por fim, antesde se juntar aos outros dois, que desapareceram rapidamente pela colina acima. Alguns segundos depois, ouviu-se um automóvel arrancar a grande velocidade, nãomuito longe dali... - Pronto..., já se foram embora!... - observou Jorge aliviado - Estás bem? - perguntou àcolega. - Sim... - principiou ela, tentando enxugar as lágrimas que entretanto começaram acair - ... mas tenho medo..., não gostei muito das últimas palavras do gajo do rabo-de-cavalo... - Não te preocupes..., não ligues..., aqueles gajos só são duros com uma arma namão..., são uns cobardolas, jamais terão coragem de nos chatear outra vez... - comentou ojovem, tentando tranquilizar a colega, que agora tremia de medo. - Achas!?... - Tenho a certeza... - esclareceu o rapaz não deixando lugar a qualquer tipo dedúvidas - Só não entendi bem o que queriam..., ...é óbvio que se enganaram, pelo menos foio que percebi das palavras do gajo que estava com o “ fato “, devem andar atrás de alguém.É melhor prevenirmos a polícia... - Eu trato disso amanhã... - ofereceu-se Rita de imediato, já mais calma. - Está bem... - concordou o companheiro - ...mas agora, o melhor é irmos embora, jáchega de surpresas por uma noite... Jorge conduziu a colega ao magnífico BMW M3 coupé amarelo, e abriu a porta paraque ela entrasse. Depois, deu a volta ao veículo, e entrou também. Em seguida, rodou achave na ignição, engrenou a primeira velocidade, e arrancou em direcção à estrada queconduzia a Coimbra. - Queres ir dormir lá a casa? - sugeriu o rapaz, reparando que a colega estava muitonervosa. - E a Ana? - lembrou a rapariga com a voz trémula... - A Ana não está lá..., foi passar o natal ao Brasil com os pais e o namorado... Ontemquando cheguei de Santarém, já ela não estava. Deixou-me um bilhete a explicar tudo.Então..., ficas no teu apartamento, ou queres vir comigo... - insistiu ele - Se não te importares, eu preferia ir contigo... - Bom..., então vamos... Cerca de dez minutos mais tarde, o espectacular automóvel conduzido por pelo jovemestudante, parou em frente à habitação que pertencia aos pais de Ana, e que ele dividia coma prima. Depois, Jorge, conduziu Rita até à porta da casa, e após ambos entraram, fechou aporta com cuidado. Em seguida, encaminhou a colega até ao quarto de dormir que 21
  22. 22. Cartel Fantasma Alexandre Figueiredohabitualmente estava vago, e foi procurar um pijama da prima que entregou a Rita. - Estás tão tensa... - observou, reparando que a rapariga continuava a tremer - ...queres um calmante para te ajudar a dormir? - sugeriu, tentando confortá-la apertando-a deencontro ao seu peito robusto. - Sim,... se não te der muito trabalho. O jovem, dirigiu-se para a cozinha, e voltou alguns minutos mais tarde, trazendo umcopo de água, e o calmante que deixou sobre a mesa-de-cabeceira do quarto. - Se precisares de alguma coisa,... seja o que for, é só chamares, está bem? -recomendou, encaminhando-se para o corredor - Vá, vai descansar, e esquece aquilo que sepassou. Tudo não passou de um engano, foi só um grande susto... Até amanhã!... - concluiupor fim, saindo e fechando simultaneamente a porta do quarto. - Jorge!?... - chamou Rita. - Sim,... - respondeu ele de pronto abrindo de novo a porta. - Nada,... só... obrigado!... - disse, aproximando-se dele, e apanhando-o desprevenido,beijou-o com ternura nos lábios - Boa noite!... O jovem, puxou mais uma vez a porta, e afastou-se em direcção ao seu quarto dedormir, pensando surpreendido no prémio que acabara de receber. Após ter tomado umduche rápido, o rapaz vestiu o pijama, e enrolou-se confortavelmente no meio dos quentes eacolhedores cobertores, recordando confuso os acontecimentos daquela mesma noite nomiradouro; “ Quem seriam aqueles indivíduos? Quem procuravam? Porque razão perseguiamalguém? “ A única coisa que ele compreendia, é que obviamente os três malfeitores haviamconfundido Rita com a outra pessoa que por algum motivo perseguiam. Apesar de entretido com aqueles pensamentos, não demorou muito porém até queadormecesse, embora o sono fosse muito pouco tranquilo. No quarto ao lado, pelo contrário,Rita, com a ajuda do calmante rapidamente se encontrou mergulhada num tranquilo eprofundo sono, mexendo-se de quando em vez na cama... ... - Bom dia! - cumprimentou Jorge, entrando na cozinha - Já estás levantada!?... -exclamou surpreendido, apertando o cinto do roupão - São oito e meia, não me disseste quehoje não tinhas aulas de manhã? - Olá! - saudou a colega, sorrindo - Sim..., não tenho aulas, mas tenho que ir ao Porto.- prosseguiu ela bebendo um gole de café - Só hoje quando acordei é que me lembrei quetenho uma consulta no médico. - E como é que passaste a noite? Dormiste bem? Estás mais calma? - questionouJorge atenciosamente, pegando numa chávena e servindo-se igualmente de um pouco decafé. 22
  23. 23. artciencia.com (ISSN 1646-3463) Ano I ● Número Dois ● Fevereiro-Abril 2006 - Sim, graças ao calmante que me deste, dormi bem, e já me convenci que apesar dostipos de ontem serem perigosos, não nos vão chatear nunca mais. Mas ontem tinha tantomedo!... Obrigado!... Foste bestial, um verdadeiro amigo!... - Ainda bem que já estás mais calma... - observou Jorge satisfeito - Queres que te vápôr à estação para apanhares o comboio? - ofereceu-se o rapaz. - Isso era óptimo! - agradeceu Rita, terminando o pequeno-almoço - Mas antes deirmos, queria pedir-te que não dissesses a ninguém o que aconteceu ontem, porque eu nãoquero que os meus pais descubram isso..., senão há logo sarilho. - Nem mesmo à polícia? - Não, está descansado que eu vou lá apresentar queixa... Só não quero que maisalguém saiba disto... Posso contar contigo? - inquiriu, aguardando ansiosa pelo voto desilêncio do colega. - De acordo. Prometo que nada direi a ninguém... - garantiu ele, acrescentando depois- Então, dá-me um quarto de hora, enquanto vou tomar um banho e vestir-me... - pediuabandonando apressadamente a dependência onde ambos se encontravam. Alguns minutos mais tarde, Jorge entrou na sala de estar, pegou nas chaves do BMWamarelo, e conduziu Rita até à saída. Depois de fechar a porta, dirigiram-se os dois para oespectacular automóvel que estava estacionado do outro lado da estrada. Logo que se fezsentir o ruído do potente motor do veículo em funcionamento, o rapaz engrenou a primeiravelocidade, e iniciou a marcha suavemente, tomando a estrada que conduzia a Coimbra... - Voltas a que horas? - indagou, quando já no interior da cidade avistou ao longe oedifício da estação ferroviária. - Ainda não sei. Possivelmente até ficarei esta noite em casa da Joana... - respondeufalando quase em surdina, no momento em que o automóvel parou em frente da velhaconstrução - Até amanhã! - disse, despedindo-se do colega, com um beijo na face - Obrigadopela boleia, e obrigado por ontem... - concluiu por fim, fechando a porta do BMW, e dirigindo-se para a entrada da estação. - Faz boa viagem!... - respondeu Jorge, ficando por mais uns instantes a observar arapariga que se afastava. Em seguida, arrancou bruscamente, tomando o caminho de regresso a casa, ondechegou aproximadamente dez minutos mais tarde, entrando na habitação sem maisdelongas. Como era ainda muito cedo, passavam alguns minutos das nove e meia da manhã,pegou no seu walkman e sentou-se no escritório em frente do computador, entretendo-secom alguns jogos, enquanto recordava de novo os estranhos acontecimentos da noiteanterior. - “ Há aqui qualquer coisa que não bate certo!... “ - pensou, desviando 23
  24. 24. Cartel Fantasma Alexandre Figueiredomomentaneamente a sua atenção do jogo, suspeitando que a colega lhe escondia algo - “Está-me a escapar algo!... A Rita deve saber de alguma coisa!... Tenho que apertar um poucomais com ela!... “ - concluiu, voltando a centrar a sua atenção no monitor do computador, e nosimulador de futebol que estava a jogar. Aquela viagem súbita era no mínimo bizarra, e a tentativa de ocultar a situação dapolícia, ainda que velada, bem como o ocorrido na noite anterior alimentavam desobremaneira as suspeitas do jovem... ... - Good Afternoon!... - saudou amavelmente o professor de Inglês, rodando a maçanetada porta da sala de aulas - How was the week-end?... - Short... - começou um colega de Jorge que seguia mesmo atrás do altíssimoindivíduo britânico - ...as usually, it was very short!... - acrescentou depois no meio dagargalhada geral. - Sir... - principiou um outro, rindo divertido - ...this morning a little bird told me thatLiverpool have lost, ...again!... - No comments, please... - respondeu bem humorado o professor, que numa das aulasanteriores havia cometido o erro de revelar aos seus alunos ser associado daquele clubeinglês, tendo alguma dificuldade em se fazer ouvir perante a gargalhada bem-disposta quesurgiu após aquela perspicaz observação - Okay, now... please, ...enough!... - pediu - Now...,lets go to work! - disse por fim, aguardando que todos se sentassem de modo a poderprincipiar a leccionar a matéria para aquela aula... - Vou-me “ baldar “ a Direito! - anunciou Jorge, quando cerca de duas horas mais tardecruzou os portões da faculdade, acompanhado por um grupo de colegas. - Isso é que é falar! - aprovou uma rapariga, dando-lhe uma palmada amigável nascostas - Vou para o salão jogar, querem vir? - convidou ainda. - Que se lixe,... também vou - concordou um outro, acendendo o seu cigarro, eoferecendo um à jovem que os acompanhava - Estou farto daquela merda!... - disse por fimpontapeando furioso uma lata de cerveja que fora deixada no passeio. - Vamos jogar o quê, Marta? - perguntou alguém quando o grupo entrou no salão dejogos. - Snooker a quatro! - sugeriu Jorge, pegando num taco, e dirigindo-se para aesplêndida mesa que se encontrava a um canto daquele espaço de diversão. - Vamos tornar as coisas mais interessantes... - começou um dos rapazes sorrindo -...quem perder, ...paga, o.k.? - De acordo, André! - aprovou Marta, pegando também num taco - Vocês podem jogarjuntos, que eu fico com ele - disse, apontando para Jorge, que se aproximava trazendo as 24
  25. 25. artciencia.com (ISSN 1646-3463) Ano I ● Número Dois ● Fevereiro-Abril 2006bolas do jogo. - Está no papo! - comentou o outro rindo - Preparem a “ massa “, que aqui o mestrevai dar uma aula de bem jogar isto ao pessoal, ... e à borla... - anunciou, virando-se paraJorge e Marta, que permaneciam quietos a um canto da mesa... - Convencido... - principiou Marta, aproximando-se discretamente do parceiro, eperguntando-lhe em surdina - Percebes alguma coisa disto? - Talvez... - respondeu vagamente o jovem, esquivando-se à pergunta, e nãorevelando os seus verdadeiros conhecimentos acerca do jogo. Meia hora mais tarde... - Falas demais! - observou o colega de André, olhando acusadoramente para este - Tue as tuas ideias! Devias pagar isto sozinho, ...animal! - continuou, puxando da carteira muitopouco satisfeito, para pagar a despesa do jogo, uma vez que Jorge e Marta haviam levado amelhor - As miúdas não percebem nada de snooker, ...aqui o grande mestre dá bem contadeles - repetiu, imitando de uma forma irónica a voz e os gestos do parceiro. - Foi sorte de principiante! - defendeu-se o outro, lamentando-se da sua pouca sorte. - Queres repetir?... - desafiou Marta, pegando de novo no seu taco e aproximando-seda mesa, perante o olhar atento dos três rapazes. - Não... - desculpou-se o outro um tanto atrapalhado enquanto se afastava com oparceiro para pagar a despesa - Tenho que me ir embora, senão ...era já!... - E eu também! Foi fixe, mas tenho que me pirar! - anunciou Jorge, pegando nos seuslivros, e despedindo-se dos colegas, encaminhando-se depois para a saída do salão dejogos. Tranquilamente percorreu as cerca de duas centenas de metros que o separavam doparque de estacionamento em que deixara o seu BMW. Por fim, avistou o espantoso coupéamarelo, usando o controle remoto para destrancar as portas do automóvel, logo que chegoua uma distância suficientemente perto para que o pequeno aparelho funcionasseadequadamente. Já sentando ao volante do veículo, atirou os livros para o assento traseiro,arrancando bruscamente logo em seguida. Alguns minutos volvidos, o jovem encontrava-se já à entrada da habitação queocupava, a mesma que pertencia aos pais da prima com quem a dividia. Entrou, fechando aporta atrás de si deixando as chaves do BMW e os livros em cima da pequena mesa sobre aqual se encontrava também o telefone. Não demorou muito tempo até que Jorge se instalou confortavelmente no acolhedorsofá da sala de estar, saboreando umas sanduíches de pastéis de bacalhau, que ele mesmopreparara instantes antes, enquanto assistia ao noticiário na televisão. De súbito, porém,lembrou-se de ir à cozinha buscar uma bebida para acompanhar a refeição. 25
  26. 26. Cartel Fantasma Alexandre Figueiredo - “ Porra, ...já não há cerveja! “ - exclamou desiludido, quando abriu a porta dofrigorífico, e constatou que apenas restavam algumas latas de refrigerantes - “ Bom, ...lá teráde ser!... “ - pensou conformado, pegando numa lata de cola, e voltando a sentar-se emfrente ao televisor, aproveitando, como era hábito, o tampo da pequena mesa de madeiraescura que se encontrava ao centro daquela divisão... Após a refeição, esperou ainda pelo programa desportivo, que era transmitido noutrocanal, entretendo-se depois com um livro que começara a ler há bastante tempo, ouvindomúsica em simultâneo. Contudo, não demorou até que se começasse a sentir sonolento, eembora fosse ainda muito cedo, optou por ir dormir, pelo que, desligou a potenteaparelhagem sonora, dirigindo-se em seguida para o seu quarto. Assim, quando nos dígitosvermelhos do rádio relógio apareceram as zero horas, já o jovem estava mergulhado numtranquilo e profundo sono... - “ ... Antena 3, falta um minuto para as nove da manhã... Vamos entrar na próximahora com... ‘ Crazy ’ dos Aerosmith, depois ...‘ About a Girl ‘ do álbum ‘ Unplugged in NewYorq ‘ dos Nirvana, e no final da sequência..., ‘ Tudo o que te dou ‘ de Pedro Abrunhosa,...Deixem-se ficar..., esta é a Antena 3, a partir de Lisboa para todo o país...” Jorge deu meia volta na cama, e ficou mais um pouco deitado, ouvindo com atençãoos temas musicais que o locutor anunciara alguns instantes antes. A muito custo, lá seresolveu por fim a levantar, encaminhando-se apressadamente para o quarto de banho, nãosem antes ter aumentado o volume ao rádio, de modo a continuar a ouvir música, enquantose aprontava para mais um longo dia de aulas, como ele muitas vezes gostava de referir... Depois de trancar as portas do vistoso BMW M3 coupé amarelo, Jorge deu umarápida mirada aos ponteiros do seu relógio de pulso. Eram então exactamente dez e umquarto da manhã... O jovem, olhou ainda receoso para as muitas e ameaçadoras nuvens quecobriam totalmente o habitual azul do céu, atravessando em seguida a estrada ainda molhadapela chuva que caíra com persistência durante quase toda a madrugada. Por fim, cruzou aentrada da sua faculdade, dirigindo--se de imediato para o edifício principal, para se protegermelhor do intenso frio que se fazia sentir... - Hei,... então... - chamou uma voz feminina quando Jorge entrou no enorme corredorque dava acesso às salas do 2º piso - Já não ligas às colegas - insistiu a voz, quando elefinalmente se voltou para trás, deparando-se com três caras conhecidas. - Sofia!?... Joana!?... - exclamou surpreendido - Não era suposto ficarem no Porto atésegunda? - inquiriu, cumprimentando as três raparigas com um beijo na face. - Bom, resolvemos voltar mais cedo - respondeu a atraente jovem dos cabelos louros,que inicialmente o chamara, sem no entanto revelar o motivo pelo qual haviam decididoantecipar o regresso. 26
  27. 27. artciencia.com (ISSN 1646-3463) Ano I ● Número Dois ● Fevereiro-Abril 2006 - Ainda bem que voltaram mais cedo... - começou Jorge com uma expressão grave -...estou preocupado com a Rita... - Nós sabemos... - principiou a outra, olhando o colega fixamente através dos seuslindos olhos, que não tinham uma cor definida, embora se situassem algures entre o azul e overde - ...a Rita quando ontem nos visitou pôs-nos a par da história toda - esclareceu por fim. - Fico mais tranquilo, agora que sei que vocês regressaram - observou Jorge aliviado,olhando para o relógio de pulso. - Tens alguma aula agora? - indagou Rita, apercebendo-se da insistência com que ocolega olhava para o relógio. - Sim. Na verdade, já estou atrasado quase um quarto de hora, e hoje era convenientechegar a horas... - Tu..., chegares a horas..., a uma aula!? - exclamou rindo a bela e atraente jovem doscabelos louros - Estiveste a beber? - perguntou brincando. - Não! - respondeu Jorge, compreendendo que a rapariga estava a entrar com ele -Agora a sério, a aula de hoje é muito importante... Além disso, ontem dei folga ao professor,por isso... - Ó Sofia, vai chamar um médico!... - insistiu a outra, interrompendo-o de novo - Eleestá mesmo doente!... Agora até já quer ir às aulas! - prosseguiu dando-lhe uma palmadaamigável nas costas - Desde quando é que há aulas importantes? - inquiriu indignada,estendendo os braços em sinal de reprovação... - É um brincalhão este Jorge! - exclamou divertida a colega, cujos olhos de uma corindefinida tanto fascinavam o rapaz, fingindo não o levar a sério. - Bom, tenho mesmo que ir andando... - concluiu, suspirando longamente, dando doispassos na direcção do corredor. - Queres jantar connosco? - convidou ainda Rita. - Aaaaaa... - principiou, fazendo uma pausa para pensar - Hoje jantamos em minhacasa! - Vou buscá-las às sete, o.k.? - terminou, encaminhando-se apressadamente para asala de aulas, deixando as três raparigas conversando animadamente à entrada docorredor... Alguns minutos depois do meio-dia, Jorge, abandonou o recinto da faculdade,despedindo-se da colega, logo após ambos terem cruzado o enorme portão. Ela, seguiu parauma estreita e pouco movimentada travessa, enquanto que o jovem estudante continuou emfrente, descendo até uma ampla praça, que se encontrava quase deserta àquela hora. Emseguida, atravessou a estrada entrando no snack-bar, onde almoçava sempre que não tinhatempo para ir a casa, e que não ficava muito longe da sua faculdade... Optou por um hambúrguer com batatas fritas e salada, que lhe puseram à frente 27
  28. 28. Cartel Fantasma Alexandre Figueiredopoucos instantes depois, bem como a cerveja que tinha pedido para acompanhar o pratoprincipal. Para terminar, saboreou uma deliciosa sobremesa, bebendo ainda o habitual café.Por fim, pegou nos livros, pagou a despesa, saindo de imediato. Como lhe restava ainda bastante tempo antes da aula seguinte, foi caminhandotranquilamente até ao seu espectacular BMW, sentando-se descontraídamente no assento docondutor. Inclinou um pouco as costas do banco, de modo a ficar mais confortavelmenteinstalado, ligando também o potente auto-rádio que se encontrava montado na consolacentral do automóvel. Depois, fechou os olhos, ficando a ouvir a excelente música que estavaa ser transmitida pela estação de rádio que sintonizara. Contudo, alguns minutos mais tarde ojovem dormia profundamente, totalmente alheado do intenso movimento naquela rua. Desúbito, porém, um veículo que circulava próximo travou bruscamente, buzinando cominsistência. O irritante ruído da buzina, depressa chegou aos ouvidos de Jorge, que despertoude imediato, compreendendo instintivamente que se deixara dormir... - Merda!... Já estou atrasado, ...que porra!... - disse, enquanto olhava muito poucosatisfeito para o seu relógio de pulso, e pegando precipitadamente nos livros que estavamsobre o assento ali mesmo ao seu lado abriu a porta do BMW sem perder mais tempo. Depois, encaminhou-se apressadamente para a faculdade que não ficava muito longedo local em que se encontrava... ... - Uaaaaaaauuuu!!!... - exclamou Jorge surpreendido, quando Joana lhe abriu a portade entrada do apartamento que dividia com Rita e Sofia - Tu estás..., a... um... espanto! -concluiu observando boquiaberto a colega que, estava de facto deslumbrante... - Não queres entrar enquanto elas não vêm? - convidou a jovem dos cabelos louros,que naquela noite usava um lindo vestido negro, que não só realçava o sensual corpo dajovem, como também os seus magníficos cabelos. - Elas não demoram muito, pois não? - indagou Jorge, algo inquieto. - Acho que não... - principiou a rapariga - ... mas há algum problema? - Bem..., é que..., deixei o carro estacionado à balda, e estou com medo, não apareçaa bófia e se ponha a implicar. - esclareceu ele, encostando-se ao corrimão de madeira daescada - A última vez, avisaram-me que não me voltavam a perdoar uma multa deestacionamento... - acrescentou ainda. - Eu vou ver se elas ainda demoram... - anunciou Joana, desaparecendo no interior dahabitação, perante o olhar atento de Jorge. - Que corpo espectacular..., ufa!... Qual das três a melhor... - desabafou entredentes,sorrindo-se cumplicemente dos seus pensamentos mais ousados... - Vamos?... - inquiriu Joana, regressando acompanhada por Sofia e Rita que vinham 28
  29. 29. artciencia.com (ISSN 1646-3463) Ano I ● Número Dois ● Fevereiro-Abril 2006logo atrás de si. - É só um jantar garotas!... Não era preciso tanto!... - comentou, enquanto desciam osquatro as escadas que conduziam à saída daquele prédio de apartamentos - Bem..., assimsendo, ...tenho uma ideia melhor... - acrescentou, abrindo a porta da frente para que Sofia eJoana pudessem entrar para os lugares traseiros. - Em que é que estás a pensar? - inquiriu Rita ardendo em curiosidade, enquantoJorge dava a volta para entrar do outro lado. - Surpresa... - respondeu ele vagamente com um sorriso misterioso, sentando-se aovolante, e rodando a chave na ignição. Logo que o ruído do potente motor do BMW M3 coupé se fez ouvir, Jorge engrenou aprimeira velocidade, iniciando suavemente a marcha logo em seguida. Alguns instantes maistarde, circulavam numa estrada pouco movimentada em direcção ao sul... - Não sejas chato... - recomeçou Rita pela milionésima vez - ..diz lá onde vamos!... - Já não precisas de esperar muito... - respondeu o jovem pacientemente - ...estamosa chegar - concluiu, apontando para uma construção de um piso único, que se erguia umpouco mais à frente... ... - Já escolheram?... - inquiriu delicadamente o empregado daquele restauranteaproximando-se da mesa que Sofia escolhera. - Sim... - principiou Jorge, dando uma última vista de olhos pela ementa - ...queremosquatro doses de Bacalhau com Natas... - E para beber?... - prosseguiu o outro, enquanto tomava nota daquilo que o rapazpedira. - Para mim uma imperial... - respondeu o jovem, fazendo um sinal às companheiraspara que pedissem a bebida que queriam. - Pensava que os caloiros só bebiam leite!... - comentou Joana, logo que o empregadose retirou... - Ah!... Ah!... Ah!... Que piada!... - brincou Jorge, fingindo-se ofendido pela observaçãoda colega - E, em relação ao meu convite, já tomaram alguma decisão? - Bem..., nós estivemos a pensar, e... - começou Sofia, fazendo uma breve pausa,enquanto bebia um gole do sumo de laranja que o empregado havia acabado de lhe pôr àfrente. - E...?... - insistiu o companheiro, mostrando-se bastante impaciente. - Resolvemos aceitar!... - esclareceu por fim, passando os seus finos e doces lábiospelo guardanapo, terminando finalmente com aquele momento de suspense, para gáudio docolega que sorria satisfeitíssimo com a notícia - Mas... - acrescentou ainda - tem que ser 29
  30. 30. Cartel Fantasma Alexandre Figueiredoantes das férias de Natal. - Se quiserem, pode até ser já neste fim-de-semana... Que dizem?... - propôs ele,pedindo mais uma bebida ao empregado. - De acordo! - anuíram as três raparigas, após uma breve troca de olhares - Mas tensa certeza de que não há nenhum inconveniente? - indagaram, ainda hesitantes. - Absolutamente nenhum! - respondeu o colega decididamente, começando a servir-sedo esplêndido Bacalhau com Natas que o empregado acabara de trazer naquele mesmoinstante. - Só preciso de prevenir a Isabel. Mas quanto a isso, não há problema, ...amanhãtelefono-lhe. - Então, está combinado. Na sexta, vamos contigo para Santarém... ... - Vêmo-nos amanhã? - perguntou Jorge, quando o vistoso BMW amarelo parou poralguns instantes em frente ao edifício em que habitavam as três jovens. - Não queres subir só por um bocadinho? - convidou Rita, libertando o fecho do cintode segurança. - Sinto muito, mas não posso. Tenho umas tretas para ler, e uns apontamentos parareler, por isso, não dá - lamentou-se o rapaz, com tristeza, dando um murro no volante doautomóvel. - Então, vemo-nos amanhã! - concluiu a companheira, despedindo-se dele com umbeijo na face, e abrindo a porta da viatura, deixando que as duas raparigas que seguiam noassento traseiro pudessem igualmente sair. - Até amanhã! - disseram simultaneamente Sofia e Joana, que se juntaram no passeioa Rita, vendo o potente veículo desaparecer rapidamente na curva que ficava algumasdezenas de metros mais abaixo. Jorge, após uma noite bem passada na companhia das colegas com quem travaraconhecimento através da prima Ana, dirigiu-se para casa, conduzindo velozmente oespantoso BMW M3 coupé, que deixou estacionado como habitualmente em frente dahabitação que partilhava com a prima, agora de férias no Brasil. Atravessou tranquilamente aestrada, olhando fixamente para o céu estrelado, que era iluminado pela luz intensa da luacheia, que naquele momento brilhava a descoberto de umas quantas nuvens que se podiamigualmente observar. Passavam apenas alguns minutos das dez e meia da noite, quando ojovem rodou a chave na fechadura da porta de entrada da habitação, entrando logo emseguida... 30
  31. 31. artciencia.com (ISSN 1646-3463) Ano I ● Número Dois ● Fevereiro-Abril 2006 Fim do 2º Capítulo 31
  32. 32. Cartel Fantasma Alexandre Figueiredo Capítulo 3 - Olá, bom dia! - cumprimentou o jovem estudante, chegando junto dos seus colegasde turma, que aguardavam junto da entrada da sala de aula a chegada do professor deDireito. - Chamas bom dia, ...a isto!?... - exclamou uma rapariga, protestando contra o tempocinzento, húmido, desagradável e frio que se fazia sentir naquela manhã de Dezembro. - Não deviam existir aulas de manhã! - prosseguiu um outro, terminandodisfarçadamente um cigarro que acendera poucos tempo antes, visto que não era permitidofumar nos corredores da faculdade, e naquele momento aproximava-se um funcionário. - Aulas só um dia por semana, e com férias pagas treze meses por ano! - comentoude súbito alguém dando origem a uma gargalhada bem-disposta, que fez esquecer porbreves instantes aquela manhã fria e chuvosa. Em seguida, chegou o professor, cumprimentando delicadamente os seus alunos, eabrindo a porta, de modo a que todos pudessem entrar. À aula de Direito, seguiu-se uma outra de Economia, tendo existido de permeio entreambas um curto intervalo com uma duração de quinze minutos, que o jovem aproveitou pararapidamente tomar o pequeno-almoço, num simpático café, que embora minúsculo, nãodeixava de ser bastante acolhedor, e que ficava próximo, regressando depois à faculdade, afim de assistir à aula de Economia... Por volta da uma da tarde, quando finalmente terminaram as aulas daquele diasombrio, Jorge, dirigia-se apressadamente para o seu automóvel, quando foi interpeladopelas três raparigas com quem jantara na noite anterior. - Não queres ir à aula de Inglês por mim? - principiou Rita, brincando com ele,enquanto se cumprimentavam trocando alguns beijos. - Não..., ...não me parece que esteja muito interessado na tua extraordinária oferta... -declarou o jovem rindo, enquanto abria a porta do espantoso BMW M3 coupé, atirando comos livros que segurava na mão direita para cima do assento contíguo ao do condutor - Não seicomo, nem porquê, mas a verdade, é que recentemente auto-diagnostiquei-me comoextremamente alérgico a aulas, prejudicam seriamente a saúde, especialmente a minha -prosseguiu, encostando por momentos a porta para que o veículo que surgiu de frentepudesse passar sem problemas - Mas se quiserem, podemos ir beber qualquer coisa, antesde eu ir embora, que dizem?... - Se tu pagares, aceitamos, ...não é? - prontificou-se imediato Joana, trocando um 32
  33. 33. artciencia.com (ISSN 1646-3463) Ano I ● Número Dois ● Fevereiro-Abril 2006olhar cúmplice com as duas companheiras. - Pago pois!... Vamos!... - propôs ele, pegando nas chaves do automóvel para o voltara fechar. - Ela está a brincar! - explicou Sofia, apontando de imediato para o mostrador do seurelógio de pulso - Já estamos atrasadas mais de dez minutos, e faltámos às duas primeirasaulas da semana, por isso temos mesmo que ir - esclareceu por fim. - Têm a certeza?... - insistiu Jorge, desistindo logo em seguida, quando as raparigasacenaram com a cabeça, indicando que não podiam mesmo - E que tal jantarmos? - Hoje não dá... - respondeu Rita muito vagamente, escusando-se a revelar maispormenores. - Porquê? - indagou o jovem não ficando satisfeito com aquela recusa aparentementesem justificação. - Amanhã falamos... - concluiu a colega, fechando-se num enigmático sorriso, eafastando-se rapidamente com Joana e Sofia - Agora temos que ir... - acrescentou ainda,encaminhando-se depois as três para o interior do recinto da faculdade, deixando Jorge juntodo seu carro, que apesar de não ter compreendido muito bem a estranha atitude das trêsraparigas, entrou no automóvel, não dando demasiada importância ao ocorrido. - “ Provavelmente devem ter algum trabalho para fazer, e como também já estavamatrasadas... ” - pensou, rodando a chave na ignição do BMW coupé, e arrancando velozmentesem perder mais tempo, dirigindo-se para casa. Depois do almoço, o jovem resolveu telefonar à irmã, para a pôr ao corrente doconvite que fizera às colegas, e que as mesmas haviam aceite. Por isso, pegou no telefone, emarcou nas teclas correspondentes ao seu número em Santarém. Esperou alguns instantesaté que do outro lado da linha soasse a voz conhecida da irmã, que de imediato disse: - Ainda bem que telefonas... - principiou a rapariga, com uma voz trémula -...recebeste a minha mensagem? - Que mensagem!?... - inquiriu Jorge surpreendido. - Eu telefonei-te anteontem, e ontem, mas como não estavas, deixei recado nogravador de chamadas, ...não o ouviste? - insistiu ela. - Não, mas... passou-se alguma coisa? - perguntou Jorge inquieto, depreendendo pelavoz insegura da Isabel, que algo sucedera. - Sim... - recomeçou a irmã a medo - Bem, a... eu... tive um acidente com o Ford, naterça... - concluiu por fim soluçando. - O quê!?... - exclamou o rapaz, um tanto confuso pela revelação que a irmã acabarade lhe fazer - Mas..., e estás bem..., isto..., quer dizer, ...tu estás bem? - indagou preocupado- Não te aconteceu nada?... 33
  34. 34. Cartel Fantasma Alexandre Figueiredo - Não... - disse, soluçando cada vez mais, e começando também a chorar - Não..., nãome aconteceu nada..., mas o carro ficou sem o pára-choques, os vidros dos faróis, e... ospiscas ficaram partidos. Desculpa, ...está bem...? - Acalma-te... - pediu o jovem, verificando que ela ainda não recuperara do susto -escuta, ...isso não interessa. O que interessa é que estás bem... Então, ...acalma-te, ...não hárazão para isso... - prosseguiu, tentando confortar e descansar a irmã, minimizando oproblema - Então, ...como é que isso aconteceu? - Anteontem, quando ia a caminho da escola, ia a parar atrás de uns carro queestavam parados nos semáforos, ... e quando carreguei no travão o carro continuou adeslizar, ...e eu para não bater nos que estavam à minha frente, dei uma guinada no volante,e fui bater de frente num muro... - esclareceu a rapariga um pouco mais serena. - E depois, ...o que fizeste? - Depois, ...peguei no telemóvel, e telefonei aos tipos da oficina para irem lá buscar ocarro. Disse-lhes onde estava, e esperei que eles lá chegassem para me vir embora... - E eles disseram o que foi? - Sim..., foi falta de travões, ...ao que parece, uma das mangueirinhas do óleo tinhauma fuga, e o nível estava no zero. Desculpa, ...está bem? - esclareceu Isabel ainda umpouco perturbada. - Ouve, já te disse que não há problema nenhum. O que me importa, é que a ti não teaconteceu nada. Por isso, esquece esse assunto, ...já faz parte do passado, o.k.? - pediu oirmão, não se preocupando muito com o sucedido - E, a propósito, ...quando é que tedevolvem o carro? - Já cá o tenho. Vieram-no entregar hoje de manhã, e até já paguei o arranjo. Antes doalmoço fui dar uma volta com ele, e fiquei contente porque tiraram aquele baralho que eu tedisse, e tiraram aquele risco que tu fizeste na porta. - Ainda bem. Pronto, ...então podes esquecer isso duma vez por todas. Tiveste umacidente, e daí? - Sim, vou fazer como dizes... - respondeu a irmã muito mais calma - Mas, diz-me umacoisa, ...se não recebeste o meu recado, porque razão telefonaste? - Ah! É verdade, ainda bem que me lembras, que eu com esta história já me estava aesquecer!... A Rita, a Sofia, e a Joana resolveram finalmente aceitar o meu convite parapassarem o fim-de-semana connosco, e eu queria prevenir-te que elas amanhã vão comigo -explicou Jorge, esperando que a irmã não visse qualquer inconveniente em relação àqueleassunto - Não te importas, pois não? - Não, claro que não! Na verdade, ainda bem que as trazes... Estou ansiosa para asconhecer... 34
  35. 35. artciencia.com (ISSN 1646-3463) Ano I ● Número Dois ● Fevereiro-Abril 2006 - Pronto, está assente. Obrigada! - agradeceu Jorge contente pelo anuimento prontoda irmã - Bem, então posso ficar descansado que tu estás bem, ...certo? - insistiu de novo orapaz, querendo certificar-se que de facto Isabel não sofrera quaisquer danos físicos. - Sim, ...podes ficar descansado, que eu estou óptima. Só tenho uma nódoa negra nojoelho direito, e ontem doía-me um bocadinho a barriga... - respondeu a raparigaconvictamente. - E foste ao médico? - indagou o irmão - Não, ...não é necessário... Isto foi só o susto, e aquilo do carro, portanto ficatranquilo... - esclareceu ela - E, ...mudando de assunto, a que horas chegas amanhã? - Não sei bem... - Mas, ...não estás a contar chegar tão tarde como na semana passada, pois não? - Livra!... Espero bem que não!... Já me chegou uma vez, porra!... Não estou muito... -principiou, interrompendo-se logo em seguida - Olha, vou ter que desligar, está alguém atocar à campainha... Vemo-nos amanhã, está bem? Um beijinho... - concluiu, pousandorapidamente o auscultador do telefone e, precipitando-se para a porta de entrada, quandouma vez mais o ruído da campainha ecoou pelo corredor... - Boa tarde! - cumprimentou o carteiro, quando Jorge abriu finalmente a porta,recebendo das mãos do indivíduo um pequeno volume e duas cartas. - Obrigado!... - agradeceu o jovem delicadamente, voltando a entrar em casa, e dandouma vista de olhos pelo correio, constatando com alguma surpresa que a únicacorrespondência que lhe era dirigida, tinha o remetente do Rio de Janeiro, Brasil... Espantado, abriu rapidamente o envelope, desdobrando de imediato o papel que estetrazia no seu interior... De imediato reconheceu a letra de Ana... “Jorge, espero que esteja tudo bem por aí. Isto aqui é espectacular. O Rio de Janeiro é uma cidade enorme, eigualmente linda. As praias são maravilhosas, com areais longuíssimos, e águas límpidas e cristalinas. A vidanocturna é agitadíssima e as discotecas muito animadas, estão sempre cheias. Eu e o Rui estamos óptimos, e temo-nosdivertido imenso. Espero que tu estejas a aproveitar a minha ausência para fazeres o mesmo. ‘Quem disse que a vida não é bela?’ Um beijo meu e da Paula, e um abraço do meu pai, e outro do Rui. Mil beijinhos da tua prima: Ana “ Jorge, sentou-se confortavelmente na cadeira do escritório, e após ter ligado ocomputador foi observando com atenção a restante correspondência que era dirigida à prima,enquanto esperava que o jogo que escolhera entrasse, e com o qual se ocupou durante 35
  36. 36. Cartel Fantasma Alexandre Figueiredobastante tempo. Por volta das cinco e meia da tarde, o jovem entrou na cozinha, e depois debeber um copo de água, dirigiu-se para a sala de estar, levando consigo uma apetitosa maçã.Pegou no livro que começara a ler há já algumas semanas, instalando-se no acolhedor sofáde pele, trincando descontraidamente a suculenta maçã e lendo em simultâneo. A leituraocupou-o por completo até próximo das oito horas, quando por fim ficou a conhecer odesenlace da história. Nessa altura, voltou a dirigir-se para a cozinha, a fim de preparar ojantar. No congelador do frigorífico encontrou uma embalagem de lasanha, que apenas teriade aquecer no forno micro-ondas, para que esta estivesse pronta a comer. Quando por fimaquela refeição rápida ficou pronta, Jorge abriu o forno e usando uma luva para não sequeimar, pegou no prato em que espalhara a lasanha, pousando-o sobre a mesa. - Porra..., esqueci-me outra vez de comprar cerveja! - exclamou, pegando desiludidonuma lata de sumo de laranja, continuando a lamentar-se pelo seu esquecimento, sentando-se finalmente à mesa. A seguir à refeição o jovem juntou toda a louça que utilizara e arrumou-acuidadosamente no interior da máquina de lavar, onde já se encontrava também umaquantidade apreciável de louça suja. Por isso, Jorge decidiu-se a premir o botão que faziafuncionar o aparelho de modo a que este pudesse lavar tudo aquilo que ele fora acumulandoàs refeições durante vários dias. Mais tarde, voltou a sentar-se comodamente no confortávelsofá da sala de estar, descansando as pernas, como era hábito em cima da pequena eelegante mesa de madeira escura que se encontrava ao centro da dependência, enquantoesperava pelo filme que ia ser transmitido por um dos canais de televisão naquela noite... A manhã seguinte surgiu de novo escura e fria à semelhança do dia anterior, eembora não chovesse, a verdade é que o intenso nevoeiro que se formara durante a noite,tornava mais desolador um cenário que era por si só suficientemente sombrio. Por sorte,Jorge não tinha qualquer aula naquela manhã, pelo que já passavam alguns minutos domeio-dia, quando por fim ele se decidiu a sair debaixo do aconchego que lhe eraproporcionado pelos inúmeros cobertores que tinha na sua cama, dirigindo-se de imediatopara o quarto de banho a fim de tomar o seu habitual duche matinal, que tanto apreciava. Logo após terem soado as treze horas no antiquíssimo relógio da sala de estar, Jorge,terminou o almoço, e precipitando-se para a entrada da habitação, pegou apressadamentenos seus livros, saindo rapidamente, e fechando a porta atrás de si com um provocando umestrondo enorme. Depois, em passo de corrida, encaminhou-se para o espantoso BMW M3coupé, que permanecia estacionado em frente da habitação. Já no interior do automóvel,rodou a chave na ignição, arrancando de uma maneira um tanto brusca, o que provocou queos pneus do veículo tivessem deixado alguma borracha agarrada ao asfalto irregular daquelaestrada. Um pouco mais à frente, o jovem virou à direita num cruzamento, tomando o 36

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