Your SlideShare is downloading. ×
Cartel fantasma alexandre figueiredo
Upcoming SlideShare
Loading in...5
×

Thanks for flagging this SlideShare!

Oops! An error has occurred.

×
Saving this for later? Get the SlideShare app to save on your phone or tablet. Read anywhere, anytime – even offline.
Text the download link to your phone
Standard text messaging rates apply

Cartel fantasma alexandre figueiredo

1,653
views

Published on


0 Comments
1 Like
Statistics
Notes
  • Be the first to comment

No Downloads
Views
Total Views
1,653
On Slideshare
0
From Embeds
0
Number of Embeds
0
Actions
Shares
0
Downloads
13
Comments
0
Likes
1
Embeds 0
No embeds

Report content
Flagged as inappropriate Flag as inappropriate
Flag as inappropriate

Select your reason for flagging this presentation as inappropriate.

Cancel
No notes for slide

Transcript

  • 1. artciencia.com (ISSN 1646-3463) Ano I ● Número Dois ● Fevereiro-Abril 2006 CARTEL FANTASMA Alexandre Figueiredo Novembro de 1995 1
  • 2. Cartel Fantasma Alexandre Figueiredo Capítulo 1 - Jorge?!... - Sim, sou eu... Cheguei em má altura, foi? - começou o jovem entrando na espaçosasala em que a sua prima Ana e um rapaz que ele desconhecia, estavam sentados, vendo umfilme. - Não, claro que não - respondeu a rapariga um pouco atrapalhada - chega aqui porfavor - pediu - quero apresentar-te o meu namorado, o Rui Pedro. - Ela fala muito de ti - disse o outro, estendendo-lhe a mão direita, enquanto quemantinha a esquerda sobre os ombros de Ana, acariciando-lhe suavemente o cabelocastanho ondulado. - Bom, foi um prazer conhecer-te, ... - declarou Jorge encaminhando-se para a saídada sala de estar - mas fiquem à vontade que eu vou só ao quarto buscar umas coisas e saiojá... - Vais-te já embora? - inquiriu a prima, com um brilho nos olhos castanhos que nãoenganava ninguém; ela estava ansiosa para se livrar do recém-chegado, para poder ficar denovo a sós com o companheiro. - Sim, prometi à Isabel que chegava antes das nove, e já são sete e cinco! Estive coma Rita, a Joana e a Sofia no salão de jogos e atrasei-me um pouco - concluiu, abandonandoaquela divisão e dirigindo-se ao quarto que ocupava e que ficava ao fundo do enormecorredor. Alguns minutos mais tarde, voltou a entrar na sala de estar, no intuito de se despedirda prima. - Bom fim-de-semana! - exclamou, beijando Ana na face, e apertando a mão a RuiPedro - Portem-se bem! - recomendou, sorrindo maliciosamente pegando nos dois sacos deviagem que deixara à entrada da sala, e encaminhando-se para a porta de entrada, enquantoque a rapariga e o seu namorado se voltavam a sentar muito juntinhos no confortável sofá. Por fim, saiu, fechando a porta atrás de si. Depois de cruzar o portão lançou um rápidoolhar sobre a rua deserta, iluminada apenas pelos escassos candeeiros de iluminaçãopública. Soprava uma ligeira brisa que lhe levantava os cabelos louros. Caminhoutranquilamente alguns metros no passeio, e atravessou a estrada ainda molhada emconsequência da chuva que caíra na manhã daquele dia de Dezembro, dirigindo-se ao seuautomóvel que estava estacionado do outro lado da rua. Abriu em primeiro lugar o porta-bagagens , onde colocou os dois sacos de viagem que transportava, entrando de seguida no 2
  • 3. artciencia.com (ISSN 1646-3463) Ano I ● Número Dois ● Fevereiro-Abril 2006Rover preto. Rodou a chave na ignição e arrancou calmamente, logo que o motor começou afuncionar. Após ter percorrido alguns metros, tomou a estrada que conduzia a Coimbra... Jorge, era estudante do primeiro ano do curso de Direito da Universidade de Coimbra,e partilhava com a sua prima Ana uma habitação que pertencia aos pais da rapariga. Ele,contava com vinte anos de idade, tinha cabelos louros, e olhos azuis. Era bastante alto, efisicamente muito forte, e para além disso praticava também karaté, o que fazia qualquer umpensar duas vezes antes de o desafiar para alguma luta... Naquele momento, o jovem cruzava uma das principais avenidas da cidade deCoimbra, e que dava acesso à auto-estrada. Contudo, aguardava-o uma surpresadesagradável... - Grande merda! Só faltava mais isto! - desabafou, muito pouco satisfeito, quandoalguns metros mais adiante foi forçado a parar atrás de uma interminável fila de trânsito. Jorge aguardou serenamente até que os automóveis que estavam parados à suafrente começassem a andar. Contudo, estes permaneceram imóveis, e ele resolveu ligar oauto-rádio no intuito de se distrair. Alguns minutos mais tarde, porém, a música foiinterrompida pela voz de um locutor que anunciou: “ - Em Lisboa e Porto , o trânsito processa-se com normalidade e não existam filas... Asituação mais complicada regista-se em Coimbra nos acessos ao IP1 e à auto-estrada, ondeo embate entre dois pesados provocou um engarrafamento enorme, impedindo assim afluidez do tráfego... Também em... “ Ele, colocou uma cassete no auto-rádio e ao som da música que esta continhaesperou pacientemente que a circulação fosse restabelecida, o que aconteceu cerca dequarenta e cinco minutos mais tarde, quando por fim o veículo que se encontrava imobilizadoà sua frente retomou a marcha aumentando progressivamente de velocidade. Porém,somente alguns instantes mais tarde, o jovem estudante conseguiu entrar na via de acesso àauto-estrada, constatando que de facto haviam colidido dois veículos pesados, e que apesarde terem sido já retirados para a berma continuavam a obstruir uma boa parte da estrada,dificultando a passagem ao intenso trânsito. “ - Agora é sempre a andar! “ - pensou aliviado, quando parou na portagem para retiraro titulo que deveria apresentar à saída, e olhando para os ponteiros do seu relógio de pulso,acrescentou ainda - porra, já são oito e dez! A Isabel não vai ficar nada satisfeita! Jorge, efectuou ainda uma curta paragem na Área de Serviço de Pombal, de modo aencher o depósito de combustível do seu automóvel, retomando a viagem não muito tempodepois... Alguns instantes após ter saído da auto-estrada, já no acesso a Santarém, o telefoneque estava instalado no veículo tocou, e ele apressou-se a responder: 3
  • 4. Cartel Fantasma Alexandre Figueiredo - Ah, és tu, Isabel!? - inquiriu quando identificou a voz da personagem que do outrolado da linha lhe falava - Não,... não me demoro muito... acabei agora mesmo de sair daportagem - explicou, fazendo uma breve pausa para escutar aquilo que a rapariga lhe dizia -Pronto, está descansada, eu estou quase aí,... depois falamos, o.k.? - concluiu, voltando apousar o auscultador do aparelho, e centrando de novo a sua a tenção na condução. Cerca de quinze minutos mais tarde, já no interior da cidade de Santarém, entrounuma rua deserta, olhando atentamente para a sua frente. Lá ao fundo, erguia-se o edifícioonde habitava com a sua irmã. O automóvel contornou o prédio de apartamentos, e nastraseiras do mesmo, dirigiu-se para uma entrada que dava acesso à cave, que serviasimultaneamente de garagem e arrecadação. Jorge, estacionou o Rover preto que conduzia, ao lado do BMW amarelo que tambémlhe pertencia, e depois de ter aberto o porta-bagagens, retirando do seu interior os dois sacosde viagem que trouxera de Coimbra, deu alguns passos para a direita, encaminhando-se parao elevador... No momento em que pousou a bagagem no chão, à entrada do seu apartamento paraabrir a porta, deu uma rápida olhadela para o seu relógio de pulso. Faltavam então cincominutos para as dez horas da noite. Rodou a chave na fechadura e entrou, fechando a portaatrás de si. - És tu, Jorge? - perguntou uma voz do interior da habitação. - Sim, Isabel, sou eu... - respondeu ele, carregando os sacos até à entrada de umespaçoso e comprido corredor - Onde estás - inquiriu ainda. - Estou na cozinha - gritou Isabel, enquanto o irmão se dirigia para aquela divisão -Nunca mais chegavas e eu já estava a ficar preocupada. Pensei que te tivesse acontecidoalguma coisa. Porque é que te atrasaste tanto?... - questionou a rapariga colocando doispratos sobre a mesa. - O trânsito em Coimbra estava infernal - justificou-se o jovem, aproximando-se dairmã puxando-lhe os longos cabelos dourados e apanhando-os, fazendo um rabo-de-cavalo,enquanto a beijava suavemente na face - Como é que te correu o dia? - Bem,... - respondeu ela, beijando-o igualmente no rosto, e olhando-o fixamenteatravés dos seus lindos e intensamente brilhantes olhos azuis - Então e a Ana, como é queestá? - Ela está óptima! - principiou ele rindo-se - Na verdade deve estar na maior. Quandoeu me vim embora ficou sozinha com o namorado, por isso, deve estar radiante. Ainda porcima eu não estou lá para atrapalhar... - concluiu com um sorriso malandro. - Já entendi,... não precisas de dizer mais nada! - disse, sorrindo, o que deu origem aque no seu rosto angelical aparecesse uma covinha muito original - Vocês homens, são todos 4
  • 5. artciencia.com (ISSN 1646-3463) Ano I ● Número Dois ● Fevereiro-Abril 2006iguais! Bom, senta-te que o jantar está pronto - anunciou ela, pegando num tabuleiro quepousou sobre a mesa, sentando-se em seguida. - Bacalhau com Natas! - exclamou Jorge, satisfeitíssimo - És um amor!... Ambos saborearam tranquilamente aquela esplêndida refeição, enquanto relatavamum ao outro os acontecimentos mais significativos da semana que estava prestes a terminar.Após o final do jantar, os dois irmãos lavaram e secaram a louça em conjunto, sentando-sedepois ambos no confortável sofá da sala de estar, perto da lareira onde ardiam algunspedaços de lenha, que aqueciam o ambiente, tornando-o bastante mais acolhedor. Aindaligaram o televisor porém, como nenhum dos programas lhes agradou, Isabel dirigiu-se aofundo da sala e ligou a excelente aparelhagem de som, que se encontrava arrumada entre osdois pequenos sofás individuais. Ambos permaneceram naquela divisão ouvindo música, atéque no relógio de parede baterem as zero horas... - Vou-me deitar! - anunciou ele, e passando com a sua mão sobre os longos cabeloslouros da irmã - Também vens? - inquiriu por fim, pondo-se de pé. - Não,... acho que ainda vou ficar mais um pouco - respondeu a rapariga com uma vozdoce e meiga - não tenho sono, por isso, talvez vá ler um pouco... - Então não fiques levantada até muito tarde - recomendou o rapaz aproximando-sedela - Até amanhã! Dorme bem! - acrescentou, beijando-a com ternura na testa, ao que elarespondeu com um boa-noite, envolvendo com os seus braços frágeis e delicados os ombrosfortes e musculados do irmão, num gesto de apreço e amizade. Assim Jorge, abandonou aquele espaço, e encaminhou-se para o quarto de dormirque habitualmente ocupava, enquanto que Isabel se dirigiu até à magnífica estante da salade onde retirou um livro, que instantes mais tarde folheava serenamente. Contudo, não muitotempo depois os seus olhos começaram progressivamente mais pesados, e as letrasimpressas no livro desfocavam... O cansaço vencera, e a jovem adormecera profundamente,confortavelmente enroscada no acolhedor sofá de pele... - Isabel!... - chamou Jorge baixinho, quase sussurrando ao ouvido da irmã, eabanando suavemente o seu corpo adormecido - Isabel!... Que fazes tu aqui? - questionou,quando por fim ela abriu os olhos. - Isso pergunto eu, - respondeu a rapariga, afastando os cabelos que entretanto lhetinham caído sobre o rosto, e bocejando longamente - deixa-me dormir!- pediu ainda, virando-se para o outro lado. - Então,... vá lá, vai-te deitar - continuou ele pacientemente. - Mas,... mas,... onde estou eu? - interrogou-se, compreendendo finalmente que nãoestava deitada na sua cama, mas sim no sofá da sala de estar - Devo ter adormecido! -concluiu, pegando no livro que havia caído no chão. 5
  • 6. Cartel Fantasma Alexandre Figueiredo - Eu vim beber água, e fiquei admirado quando ainda vi luz aqui - esclareceu o rapaz -Depois, quando te vi, percebi logo que te tinhas deixado dormir... Bom, vamos lá deitar-nos... - Desculpa lá,... não foi com intenção... Jorge conduziu a irmã até ao quarto dela, e em seguida regressou ao seu, deitando-sesem mais delongas. Cinco minutos, foi o tempo que Isabel demorou até se encontrar enroladano meio dos lençóis e cobertores, adormecendo quase de imediato. Em breve aquelemagnífico apartamento voltou a ficar mergulhado num silêncio quase absoluto... A manhã de Sábado surgiu bastante luminosa, com o sol a brilhar intensamente noazul do céu, aqui e ali salpicado por uma ou outra nuvem mais persistente. a temperaturaestava amena, e na rua uma fresca e agradável brisa. Passavam apenas alguns minutos dasdez e meia da manhã quando Jorge acordou, encaminhando-se em seguida para o quarto debanho. Tomou um prolongado duche, surgindo algum tempo depois com um toalhão enroladoà volta da cintura. Vestiu-se, e dirigiu--se para o quarto da irmã. Deu três pancadinhas suavesna porta e, não obtendo qualquer resposta rodou a maçaneta, entrando silenciosamente.Aproximou-se da cama onde Isabel descansava tranquilamente e ajoelhou-se no chão,observando fascinado a beleza angelical do rosto adormecido da irmã. Alguns dos compridoslouros da rapariga pendiam-lhe sobre a face, brilhando intensamente devido à incidência daluz solar que irrompia pelas frinchas da janela fechada, iluminando palidamente o quartoainda mergulhado na escuridão. Jorge não resistiu e passou suavemente a sua mão, primeiropelos cabelos, e depois pelo rosto sereno e tranquilo da jovem, o que deu origem a eladespertasse quebrando aquele momento de magia. - Olá, bom dia! - saudou a rapariga na sua voz doce e ternurenta. - Bom dia, dormiste bem? - indagou ele, beijando-a suavemente na face. - Sim, foi óptimo. Há já muito tempo que não acordava e me sentia assim,...,...tãobem! - respondeu, bocejando longamente e beijando o irmão no rosto. - Então arranja-te, e vem ter comigo à sala, o.k.? - pediu ele, com um ar muitomisterioso, e abandonando o quarto a fim de a deixar à vontade... Cerca de trinta minutos mais tarde após Jorge se ter confortavelmente sentado nosofá da sala, surgiu por fim Isabel, usando um elegante vestido preto. - Estás linda! - observou o rapaz, observando-a atentamente - Mas falta qualquercoisa,... - acrescentou, abrindo uma pequena caixinha de onde retirou um reluzente fio deouro - ... talvez um fio não ficasse mal no teu pescoço. - É tão lindo! - exclamou ela surpreendida - Lembraste-te? - perguntou, olhando paraele fixamente, através dos seus magníficos olhos azuis. - Feliz aniversário! - começou o jovem dando alguns passos na da rapariga,mostrando-lhe o seu presente - Segura os cabelos, por favor... - pediu, colocando-lhe o fio à 6
  • 7. artciencia.com (ISSN 1646-3463) Ano I ● Número Dois ● Fevereiro-Abril 2006volta do pescoço - pronto, já está, podes largar os cabelos - anunciou ele, enquanto ela seaproximava do espelho que estava pendurado numa das paredes. - Obrigado!... És um amor!... Eu,... não tenho palavras! Desde que te conheci tens sidotão bom para mim, e eu nunca te conseguirei mostrar o quanto gosto de ti. Tu ésmaravilhoso!... Obrigado... - acrescentou, não conseguindo com a emoção evitar uma lágrimamais teimosa que lhe surgira ao canto do olho. - Bom, é quase meio-dia, por isso é melhor irmos... - anunciou ele, olhando para osponteiros do seu relógio de pulso. - Onde vamos? - perguntou Isabel, ardendo em curiosidade, e tentando descobriratravés da expressão de Jorge descobrir qual seria a sua ideia. - Já vais ver! - respondeu ele, mantendo o mesmo ar enigmático e sorridente... O jovem conduziu a irmã até à porta e saíram ambos, entrando em seguida paraelevador, que os levou até à cave do majestoso edifício. Aí, dirigiram-se ambos para o BMWM3 amarelo que estava estacionado ao lado do Rover, e entraram. Jorge, rodou a chave naignição, e aguardou que o ruído do motor em funcionamento se fizesse ouvir. Depois,engrenou a primeira velocidade, e abandonou calmamente a garagem subterrânea daqueleprédio de apartamentos... - Onde é que queres almoçar? - inquiriu o rapaz, quando cerca de vinte minutos apósterem saído de casa se encontravam numa das mais movimentadas avenidas de Almeirim. - Ali! - respondeu de pronto a jovem, apontando com o indicador direito para umaconstrução de dois pisos que se situava uns quantos metros mais à frente, na esquina docruzamento entre duas ruas. caminharam alguns metros, e entraram ambos no restaurante.Já no interior do estabelecimento, escolheram uma mesa próxima da janela, e sentaram-seaguardando que um funcionário lhes trouxesse a ementa. Cerca de meia hora mais tarde, o empregado deixou em cima da mesa duas travessacom aquilo que tinham pedido; Carne de Porco à Alentejana, acompanhada de batatas fritase amêijoas que ambos saborearam, enquanto conversavam animadamente. Terminaram arefeição bebendo um cremoso café, tendo-se ainda deliciado com uma esplêndidasobremesa, que comeram entre o prato principal e o café. Em seguida, Jorge pagou adespesa, e os dois irmãos abandonaram aquele restaurante, encaminhando-se para o BMWamarelo que ficara estacionado não muito longe daquele local. - Onde é que vamos? - perguntou Isabel, quando concluiu que o irmão não tomara aestrada que conduzia a Santarém. - Eu espero não me enganar... - principiou ele, olhando receoso para as muitasnuvens que entretanto haviam coberto o céu azul - ... a ideia, seria irmos ver o pôr-do-sol àNazaré, e jantarmos lá - esclareceu por fim, virando-se para a irmã, que sorria radiante - mas 7
  • 8. Cartel Fantasma Alexandre Figueiredose as coisas continuarem como estão, palpita-me que o que vamos ver é uma bela chuvada. - Então queres dizer que não vamos? - questionou Isabel, olhando para ele com umaexpressão triste nos seus brilhantes olhos azuis. - Não, claro que vamos! - esclareceu ele peremptoriamente passando a palma da mãocom ternura sobre os ombros de Isabel - É evidente que vamos, quanto mais não seja paravermos as ondas do mar, que nesta altura do ano são espectaculares - acrescentou por fim,voltando a colocar a sua mão direita no volante. ... - Lindo, não é? - perguntou Jorge, virando-se para a irmã que continuava sentada aseu lado, observando as monstruosas muralhas água que se desfaziam em enormesmanchas de espuma de encontro aos rochedos que ficavam dentro do mar, não muito longedo extenso areal, que do local onde se encontravam facilmente podiam ver. - Se pelo menos parasse de chover, poderíamos sair e ver melhor - lamentou-seIsabel com uma expressão cabisbaixa. - Tem calma, - tranquilizou-a ele - temos muito tempo, ainda é tão cedo, são... -continuou o jovem fazendo uma breve pausa para consultar o seu relógio de pulso - ... seismenos um quarto, por isso. - Mas depois começa a anoitecer, e aí é que não vemos mesmo nada - replicou ela. Porém, alguns minutos mais tarde, a chuva parou de cair, e ambos puderam entãosair do automóvel, aproximando-se uma falésia, embora muito cuidadosamente, pois, opavimento estava muito escorregadio devido à chuva que caíra momentos antes, e por isso orisco de quedas era bastante grande. - Vê! - exclamou Jorge de súbito, apontando para o horizonte - ali,... - acrescentou,indicando com o dedo à irmã aquilo que vira - Afinal parece que sempre vamos ver o pôr-do-sol! - concluiu sorridente, quando lá ao longe se começavam a vislumbrar alguns raios de sol,que tentavam irromper pelas espessas e numerosas nuvens, que continuavam a cobrirameaçadoramente o céu, prometendo chuva. - É maravilhoso! - observou a rapariga, radiante - Repara,... nos sítios onde os raiosbrilham parece que existe uma espécie de nevoeiro amarelo,... é lindo... Os dois jovens, ficaram ainda por mais algum tempo a observar maravilhados aquelecenário deslumbrantemente belo, tendo ainda oportunidade de assistir ao pôr-do-sol. Porém,depois do último raio de sol ter desaparecido no horizonte, não demorou muito tempo até quesilenciosamente a noite chegasse, envolvendo tudo ao redor numa penumbra cada vez maisescura, sendo acompanhada por uma acentuada descida de temperatura... - Tenho frio! - anunciou Isabel, abotoando mais alguns botões no casaco que traziavestido. 8
  • 9. artciencia.com (ISSN 1646-3463) Ano I ● Número Dois ● Fevereiro-Abril 2006 - Tens razão, - concordou o irmão - arrefeceu bastante... - prosseguiu, deitando umúltimo olhar para o mar, antes de conduzir a rapariga até ao automóvel em que haviamchegado até ali - Bom, vamos procurar um restaurante para jantarmos - concluiu por fim,usando o controle remoto para destrancar as portas do veículo, vestindo também ele ocasaco que trouxera consigo, entrando no interior do BMW coupé logo em seguida. Dirigiram-se para o centro daquela pitoresca vila do litoral , e depois de deixarem ocarro parado num parque de estacionamento, percorreram tranquilamente a pé algumascentenas de metros na avenida marginal. Finalmente, encontraram um restaurante com oqual simpatizaram de imediato, por causa da sua fachada tipicamente tradicional, eresolveram entrar. Sentaram-se numa mesa perto de uma das janelas, e optaram porexperimentar um prato de Caldeirada, que algum tempo depois ambos saboreavam comsatisfação, enquanto conversavam animadamente. Como sobremesa, escolheram umdelicioso Doce de Amêndoa, e terminaram aquela refeição bebendo o habitual café,abandonando o sossegado restaurante logo após Jorge ter liquidado a despesa. Em ritmo depasseio turístico percorreram calmamente em sentido contrário a avenida marginal, quenaquele momento se encontrava quase deserta, sendo apenas iluminadas pela lua, e peloscandeeiros de iluminação pública. De súbito, o ruído da rebentação das ondas na praia foiabafado por um outro; começara a chover naquele preciso instante, intensificando-se muitorapidamente. - Corre! - pediu Jorge a Isabel, que acelerou o passo, colocando-se ao seu lado - Válá, mais depressa, senão vamos ficar totalmente encharcados - insistiu o jovem. - Encharcados já nós estamos! - replicou a rapariga, sorrindo satisfeita, começando acorrer, enquanto passava as mãos pelos longos cabelos louros que estavam já bastantemolhados - É maravilhoso! - exclamou radiante, quando por fim chegaram próximo do BMWamarelo, entrando ambos rapidamente no interior do mesmo, a fim de se abrigarem da chuva,que caía em grande quantidade lá fora... - Atchiiiim! - começou o rapaz, rodando a chave na ignição, e colocando o potentemotor do automóvel em funcionamento - Porra, de certeza que me vou constipar! - lamentou-se, acrescentando ainda - Burro, porque é que não trouxeste o chapéu-de-chuva? - Deixa lá, respondeu Isabel confortando-o, enquanto passava a sua mão peloscabelos molhados do irmão - quando chegarmos a casa, tomamos um bom banho, bebemosqualquer coisa bem quente, e vamos logo deitarmo-nos, o.k.?... Aproximadamente hora e meia depois de terem deixado a pitoresca vila de Nazaré,entraram na cave do prédio em que habitavam. Jorge, estacionou o automóvel no localhabitual, e ambos subiram apressadamente até ao apartamento deles, de modo a poderemtrocar aquelas roupas molhadas que provocavam arrepios de frio em ambos. Tomaram um 9
  • 10. Cartel Fantasma Alexandre Figueiredoprolongado e reconfortante banho, e após terem vestido os pijamas e robes de chambre,encaminharam-se para a cozinha, onde Isabel preparou um cacau bem quente, que beberamambos, acompanhando a bebida com alguns biscoitos de chocolate. - Bom, vou-me deitar - anunciou Isabel, bocejando longamente - Também vens? -inquiriu ainda, passando as mãos pelo largos e robustos ombros do irmão. - Sim, também estou cheio de sono - respondeu o rapaz, conduzindo a irmã para ocompridíssimo corredor que dava acesso aos quartos de dormir, desligando os interruptoresde luz à medida que ia passando por eles. - Obrigado, Jorge!... Foi um dia maravilhoso!... - começou Isabel, já à porta do seuquarto - És um amor... - continuou a rapariga, tentando encontrar as palavras certas paraexprimir aquilo que sentia - és,... estupendo,..., e foste a melhor coisa que me aconteceu... - Ainda bem que gostaste - respondeu ele, satisfeito por ter agradado à irmã - Boanoite, e bons sonhos! - exclamou o jovem por fim. - Para ti também! - acrescentou a irmã, beijando-o suavemente na face, e tentandoatravés daquele ternurento beijo exprimir toda a alegria e gratidão que sentia naquelemomento - Até amanhã! - concluiu ela sorrindo radiante... Jorge passou ainda a sua mão delicadamente pela pele macia do rosto dela,abraçando-a também de encontro a si, encaminhando-se depois para o seu quarto de dormir,enquanto que Isabel fechava a porta. Deitaram-se ambos quase de imediato, e não demoroumuito tempo até que estivessem os dois mergulhados num tranquilo e profundo sono.Contrastando com o ambiente calmo e silencioso que se verificava no interior daquelemagnífico apartamento, lá fora, no entanto, recomeçara a chover, com uma intensidadeapreciável, acompanhada por algumas rajadas de vento que de vez em quando se faziamsentir com alguma violência... A manhã seguinte surgiu bastante desagradável. Para além da chuva que teimara emficar, associaram-se-lhe ainda um frio intenso, e o vento forte, que já se havia feito sentirdurante a noite, mas que agora marcava a sua presença de uma forma mais vigorosa eregular. Passavam já alguns minutos do meio-dia, quando Isabel, que fora a primeira alevantar-se, se sentou no sofá de sala de estar, entretendo-se com uma revista. Não tardoumuito até que a cabeça de Jorge assomasse à entrada da porta da espaçosa divisão. - Bom dia! - cumprimentou ele. - Olá, então, dormiste bem? - inquiriu a rapariga, enquanto trocavam um beijo. - Sim, foi uma noite óptima - respondeu o jovem sentando-se ao lado da irmã, noconfortável sofá de pele - Bem, vou comer qualquer coisa, porque tenho aí uns apontamentosque a Sofia me emprestou, e tenho também que rever algumas matérias, por isso, não posso 10
  • 11. artciencia.com (ISSN 1646-3463) Ano I ● Número Dois ● Fevereiro-Abril 2006perder muito tempo. - A que horas é que voltas para Coimbra? - indagou Isabel pousando a revista sobre apequena e elegante mesa de madeira escura que se encontrava no meio da sala. - Não sei bem, mas não é muito conveniente sair muito depois das oito, porque senãosó lá chego à uma e tal, como aconteceu na semana passada, e amanhã tenho aulas às oitoe meia... - esclareceu o rapaz, levantando-se, e encaminhando-se para o corredor - Voualmoçar, vens comigo? - pediu ainda. Os dois jovens dirigiram-se então para a cozinha. Jorge, foi ao congelador dofrigorífico, retirando de lá uma embalagem de pizza congelada, que a irmã colocou dentro doforno de micro-ondas. Alguns minutos mais tarde saboreavam ambos com prazer aquelarefeição rápida, que acompanharam com sumo de laranja. Em seguida Jorge, foi ao seuquarto de dormir, pegou nos seus livros e nuns quantos cadernos de apontamentos, e fechou-se no magnífico e espaçoso escritório da habitação, que tinha igualmente a função debiblioteca. Isabel, pelo contrário, depois de ter colocado os pratos e a restante louça de quese haviam servido ao almoço na máquina de lavar louça, regressou à sala de estar, e sentou-se num dos mapples lendo um livro e ouvindo música em simultâneo. Os dois irmãos, permaneceram totalmente absorvidos nas suas ocupações, até cercadas cinco da tarde. A essa hora Jorge, fez uma pausa nos estudos, e foi até à cozinha nointuito de lanchar. Porém, passou em primeiro lugar pela divisão, onde Isabel continuavamtotalmente absorvida pela leitura. - Queres vir lanchar? - perguntou, enquanto carinhosamente fazia um rabo-de-cavalocom os longos cabelos da irmã. - Não, agora não me apetece. Mas quando acabar sou capaz de ir trincar qualquercoisa - respondeu ela, olhando-o através dos seus expressivos e brilhantes olhos azuis - Jásó faltam quarenta páginas, por isso agora quero ficar a saber qual é o final da história -rematou, voltando a centrar a sua atenção no livro. Jorge, dirigiu-se para a cozinha, e pegou numa maçã que mastigou rapidamente,regressando logo depois ao escritório. Isabel por seu lado, continuou entretida com a leituradurante mais uns quantos minutos. Quando por fim terminou, levantou-se e foi até à cozinha.Comeu alguns biscoitos, que acompanhou com um copo de sumo de laranja. Em seguida,começou calmamente a preparar o jantar. Passavam alguns minutos das seis e meia, quando o irmão se juntou a ela nacozinha... - Queres ajuda? - perguntou aproximando-se dela, que observava atentamente ojantar que cozinhava no forno. - Não, não é preciso. Mas, se quiseres ir arrumar as tuas coisas, sempre é trabalho 11
  • 12. Cartel Fantasma Alexandre Figueiredoque adiantas, que o jantar ainda deve levar aí uns vinte minutos. O jovem deixou a cozinha, e entrando no espaçoso corredor subiu as escadas queconduziam ao andar superior, onde se situava o seu quarto de dormir, assim como o deIsabel, e ainda um terceiro. Após ter entrado nos seus aposentos, colocou cuidadosamentealgumas roupas dentro de um dos sacos de viagem que trouxera de Coimbra, enquanto quereservou o outro para guardar os seus livros e cadernos de apontamentos. Em seguida,retornou ao piso inferior, deixando a bagagem no hall de entrada junto à porta,encaminhando-se posteriormente para a cozinha. - Queres que ponha a mesa? - ofereceu, abrindo uma gaveta pegando numa toalhaque estendeu sobre a mesa. - Sim, o jantar está pronto, por isso se não te importas... - respondeu a rapariga,enquanto abria o forno, puxando para fora um tabuleiro onde se podia observar um apetitosopeixe assado com pequeninas batatas igualmente assadas. Jorge, espalhou ainda sobre a toalha de linho branca os pratos e talheres, bem comoos guardanapos e os copos. Em seguida, sentaram-se ambos nas cadeiras, e principiaram asaborear aquela refeição preparada por Isabel. - A que horas te vais embora? - perguntou Isabel, olhando para os ponteiros do relógioque estava pendurado na parede por cima da cabeça do irmão, que indicavam passaremexactamente dezasseis minutos das sete da tarde, levando o garfo à boca. - Vamos beber café, e quando voltarmos eu deixo-te lá em baixo na entrada, e sigo -esclareceu ele, passando o guardanapo pelos lábios, e terminando a sua bebida... ... - Guia com cuidado... - recomendou Isabel, quando cerca de quarenta minutos maistarde, ambos se encontravam nos degraus que davam acesso à entrada principal do edifícioonde habitavam. - Não te preocupes, serei prudente - descansou-a ele, sorrindo, no momento em queum pingo de água caiu em cima dela - Vá, vai para dentro que está a começar a chover... - Está bem - concordou a rapariga, abraçando o irmão uma última vez, antes de esteentrar para o BMW amarelo que estava estacionado ali mesmo junto a eles - Faz boa viagem- acrescentou por fim , subindo depois apressadamente os degraus até se encontrarprotegida da chuva, que entretanto aumentara de intensidade, vendo ainda o automóvel queJorge conduzia, afastar-se rapidamente, até desaparecer totalmente, na sinistra escuridão danoite... A chuva que caía com abundância não impediu no entanto que o jovem efectuasse asua viagem. Alguns minutos depois de ter saído de Santarém, parou na portagem da auto-estrada de modo a retirar o título que aproximadamente duas horas mais tarde entregou ao 12
  • 13. artciencia.com (ISSN 1646-3463) Ano I ● Número Dois ● Fevereiro-Abril 2006portageiro, na saída da via rápida em que circulara. Eram quase dez e meia, quando o veículo que o rapaz conduzia estacionou em frenteda casa dos pais de Ana, a prima com quem dividia a habitação. Após ter retirado do porta-bagagens as duas malas, trancou o carro, usando o comando à distância, e dirigiu-se deimediato para a porta de entrada da vivenda, entrando sem mais delongas. - Ana! - chamou, avançando às escuras pelo corredor, e constatando com algumasurpresa que não havia qualquer divisão iluminada - Ana! - insistiu o jovem, ligando ointerruptor, e atirando as chaves do BMW para cima da pequena mesa da entrada, sobre aqual se encontrava o telefone - Ana, onde estás? - chamou de novo, percorrendo todo ocomprido corredor, e concluindo por fim que não se encontrava ninguém em casa... Após ter transportado a bagagem até ao seu quarto de dormir, entrou na ampla salade estar da habitação, e sentou-se confortavelmente no sofá. Quando esticou a mão até àmesinha que se encontrava no centro daquela dependência, para agarrar no controlo remotodo televisor, reparou num pequeno envelope endereçado a si. Abriu-o, e desdobrou o papelque estava no seu interior, reconhecendo de imediato a letra da prima: “Jorge, vou passar as férias de Natal ao Brasil! Eu sei que deves ficar surpreendido, mas quem nos convidoufoi a mãe da minha madrasta. A princípio ainda hesitei, mas depois acabei por aceitar, quando o meu pai me disse que oRui Pedro também podia ir. Partirei amanhã Domingo), e só voltarei no início de Janeiro para os exames. Agora que estás sozinho em casa, vê lá o que fazes. Porta-te bem!... Mil beijinhos da tua prima: Ana” Jorge, estava de facto surpreendido. Rapidamente voltou a ler a carta, nãoacreditando naquilo que lia. - “ Não pode ser! “ - pensava, enquanto pousava a carta sobre a mesa, e pegava nocomando do televisor - “ Sortuda!... Ao Brasil hem!?... Que pinta!... “ - disse em voz alta,passando os pés por cima da pequena mesa de madeira, ao mesmo tempo que se esticavano sofá, de modo a encontrar uma posição o mais cómoda possível - “ Afinal, vendo bem ascoisas a viagem dela até tem algumas vantagens, senão vejamos; a casa é toda minhadurante três semanas, que óptimo!... “ - acrescentou ainda, sorrindo radiante. Permaneceu estendido no sofá com os pés assentes na mesa durante mais algunsmomentos. contudo, e como a programação televisiva não lhe agradava, optou por ir dormir,até porque na manhã seguinte as aulas começavam bem cedo. Assim, dirigiu-se ao seuquarto de dormir, deitando-se breves instantes depois. Ao contrário daquilo que era habitual,Jorge, demorou bastante tempo até adormecer. Porém, o cansaço acabou por vencer, equando no mostrador digital do relógio despertador, apareceram as zero horas, já o jovem 13
  • 14. Cartel Fantasma Alexandre Figueiredoestava mergulhado num profundo e tranquilo sono... Fim do 1º Capítulo 14
  • 15. artciencia.com (ISSN 1646-3463) Ano I ● Número Dois ● Fevereiro-Abril 2006 Capítulo 2 - “ Antena 3,... bom dia,... são sete horas!... Vamos às notícias com...” Jorge despertou, e ainda bastante ensonado esticou o braço e desligou o rádio. Emseguida, levantou-se e bocejando bastante encaminhou-se para o quarto de banho., tomandoo seu habitual prolongado duche matinal. Após se ter vestido, dirigiu-se à cozinha e bebendoum iogurte líquido, pegou nos livros, vestiu o blusão, e abriu a porta de entrada dahabitação... - “ Que frio!... “ - exclamou arrepiado - fechando a porta atrás de si, e percorrendoapressadamente a curta distância que o separava do BMW M3 coupé amarelo. Entrou no automóvel, atirando os livros para o assento do lado, e logo após ter ouvidoo ruído característico do motor em funcionamento, engrenou a primeira velocidade, earrancou bruscamente, fazendo patinar os pneus no asfalto húmido. Já em Coimbra, deixou oveículo num parque de estacionamento próximo da Universidade, cruzando os portões da suafaculdade às oito e meia em ponto. Por isso, não perdeu tempo, encaminhando-se logo paraa sala de aulas... ... - Jorge!... - chamou uma voz feminina, quando o jovem percorria tranquilamente oextenso corredor do edifício, dirigindo-se para o anfiteatro onde teria a aula seguinte. - Rita..., olá! - exclamou, virando-se para trás e reconhecendo a cara sorridente darapariga que se aproximava dele - Onde estão a Sofia e a Joana? - inquiriu surpreendido porencontrar a colega sozinha. - Só vêm para a próxima semana. Tinham uns trabalhos para fazer, e por issoresolveram ficar mais uns dias no Porto... - esclareceu a jovem beijando-o na face. - Já se resolveram a aceitar o meu convite? - perguntou ansioso - Acerca do fim-de-semana? - indagou a rapariga, fazendo uma breve pausa, eprosseguindo após um sinal afirmativo de Jorge - Elas dão-te a resposta quando voltarem,pode ser?... - Sim, claro - anuiu ele, olhando de repente para o relógio de pulso - Porra, já estouatrasado! - exclamou muito pouco satisfeito - Tenho que ir,... - anunciou, - almoças comigo? -propôs ainda. - Não posso, tenho que preparar uns apontamentos, - respondeu a colega - mas sequiseres podemos jantar juntos, podes ir lá ter..., às... oito! - sugeriu ela. - Está bem, - concordou o jovem - então até logo, ...às oito - concluiu por fim, dirigindo- 15
  • 16. Cartel Fantasma Alexandre Figueiredose apressadamente para a porta do anfiteatro que ficava um pouco mais à frente... Duas horas e meia mais tarde o espantoso BMW amarelo parava a alguns metros dedistância da habitação que Jorge ocupava com Ana, sua prima, e que pertencia aos pais darapariga. O rapaz, pegou nos seus livros, atravessou rapidamente a estrada, e entrou emcasa, depois de ter rodado a chave na fechadura, fechando a porta logo em seguida. Atirouos livros para cima da secretária do escritório, e foi à cozinha buscar uma lata de cerveja paraacompanhar com a pizza que trouxera de Coimbra. Sentou-se descontraídamente no sofá dasala de estar, descansando as pernas sobre a pequena mesa de madeira, que para ele tinhaoutra utilidade para além da de decoração. Serenamente foi trincando as fatias da pizzabebendo também a cerveja, enquanto assistia na televisão às noticias da uma hora. Maistarde, instalou-se confortavelmente na cadeira do escritório, ligou o computador, e entreteve-se durante bastante tempo a jogar um simulador de corridas de Fórmula 1. Quandofinalmente se fartou do jogo, pegou nos cadernos de apontamentos, e após ter ido buscar oseu walkman, releu atentamente as notas que tirara das aulas daquela mesma manhã, aosom do seu grupo musical favorito. Por volta das cinco e meia da tarde, deu por fim o estudo, dirigindo-se à cozinha a fimde lanchar, sentando-se depois em frente do televisor, vendo um filme que a prima gravara nasemana anterior... Jorge, fechou a porta atrás de si, e deu alguns passou em direcção ao automóvel queestava estacionado do outro lado da rua deserta. Ao entrar no BMW M3 coupé, uma ligeirabrisa desagradável soprou, levantando-lhe os cabelos louros, e causando-lhe um pequenoarrepio. Por fim, pôs o veículo em marcha, tomando a estrada que levava a Coimbra,deixando o carro estacionado quase em frente ao prédio em que Rita dividia um apartamentocom Sofia e Joana. Cruzou serenamente a porta de entrada do edifício, e subiu as escadas,dando depois três leves pancadinhas na porta de madeira, que a colega lhe veio abrir quasede imediato, convidando-o a entrar: - Vens cedo! - observou, voltando a fechar a porta, e conduzindo o amigo para a salade estar - O jantar ainda vai demorar um pouco, por isso senta-te aqui! - convidou, apontandopara o sofá que estava encostado a uma das paredes daquele espaço um tanto ou quantoapertado. - Não obrigada, eu quero ajudar em qualquer coisa... - respondeu o jovem num tomdecidido. - Bem, se fazes tanta questão nisso,... - começou Rita, dirigindo-se para a cozinha, -...podes pôr a mesa aí mesmo - acrescentou por fim, regressando com uma toalha branca namão que entregou ao colega... ... 16
  • 17. artciencia.com (ISSN 1646-3463) Ano I ● Número Dois ● Fevereiro-Abril 2006 - Passa-me a salada, por favor - quando ambos estavam já sentados à mesa,saboreando um delicioso prato de carne assada, acompanhada por batatas fritas. - Quando acabarmos, queres ir dar uma volta? - propôs Jorge, pousando os talheres eterminando a sua refeição - Conheci um sítio, que não fica muito longe, e é lindíssimo ànoite... - Está bem... - concordou a rapariga, limpando os seus doces e suaves lábios ao seuguardanapo, dirigindo-se posteriormente à cozinha e levando consigo os pratos que amboshaviam utilizado - ...mas antes, quero que proves isto, - anunciou ela, regressando momentosdepois, apresentando-lhe um esplêndido bolo, decorado com natas e algumas pepitas dechocolate. - É óptimo! - elogiou Jorge, provando um pouco do cremoso bolo... Alguns minutos mais tarde, os dois jovens sentaram-se no interior do automóvelamarelo que pertencia a Jorge, e que arrancou quase de seguida... - Afinal, aonde é que vamos? - inquiriu a rapariga, ardendo em curiosidade, erecebendo apenas como resposta um sorriso misterioso do companheiro, que a deixou aindamais intrigada. - Estamos quase a chegar!... - anunciou Jorge, cerca de dez minutos depois, virando-se para a atraente rapariga que seguia a seu lado - É ali à frente - concluiu por fim, quando oautomóvel que guiava acabava de descrever uma curva apertada - Vem! - acrescentou,abrindo a porta do veículo logo após este se ter imobilizado completamente. - Que lindo! - exclamou Rita, saindo igualmente do carro e aproximando-se do colega,passando o seu braço sobre os robustos ombros dele. - Repara,... - principiou Jorge, fazendo uma breve pausa, enquanto procurava aspalavras que mais adequadamente exprimissem aquilo que sentia - ...as luzes da cidade, ...orio, ...o movimento dos carros, e ...este silêncio e tranquilidade cá em cima. Não achas que éharmoniosamente belo?... - Sim, é maravilhoso,... - concordou a jovem - ...e olha as estrelas,... vê comocintilam... Aquela é a Estrela Polar, não é? - perguntou ela, apontando para um minúsculoponto de luz que brilhava ao lado de muitos outros na negra escuridão do céu... - Não sei bem, - respondeu Jorge - Quem gostava muito de observar as estrelas era omeu pai, até chegou a comprar um telescópio... - esclareceu ele, em voz baixa e deixandoescapar uma lágrima mais teimosa, sem que no entanto Rita se apercebesse. - Então, agora já não tem tempo para isso? - Não... - começou ele suspirando, enquanto outra lágrima lhe correu pela face triste -Na verdade..., o meu pai,... e a minha mãe,... morreram num acidente de carro à cerca de umano e meio... - disse por fim, limpando o rosto húmido por causa das lágrimas que acabaram 17
  • 18. Cartel Fantasma Alexandre Figueiredopor vencer e corriam abundantemente pela face ensombrada por memórias tão dolorosascomo eram as do desaparecimento dos pais. - Desculpa se,..., eu não sabia,..., nunca pensei,..., que,... bem,... - começou arapariga, simultaneamente surpreendida e confusa, tentando, embora um pouco embaraçada,confortar o colega - Tu és sempre tão alegre e divertido, que,... a,... bem,... eu não queria,... - Não tens que pedir desculpa,... Afinal, tu não sabias de nada, por isso,... não tensculpa... - interrompeu ele com uma voz trémula, quando se apercebeu da atrapalhação deRita, passando a sua mão pelo cabelo castanho da jovem... - Como é que..., como é que os teus pais,...? - Como é que eles..., como é que foi, é isso que queres saber...? - questionou Jorge,continuando logo após um sinal afirmativo da colega - Morreram num acidente de carro... -respondeu vagamente, fazendo uma pausa, e continuando em seguida - Foi numa noite,quando vinham de Lisboa..., o meu pai não mediu bem uma ultrapassagem, e quandopercebeu que não dava, já estavam debaixo de um camião,... o carro explodiu, eles tiverammorte imediata, e o condutor do camião morreu dois dias depois no hospital... - esclareceupor fim com alguma dificuldade, enxugando as lágrimas com um lenço que a rapariga lheemprestara. - E a Isabel, como é que reagiu? - A principio,... ficou mais perturbada que eu, mas ela acabou por se recompor muitomais rapidamente que eu. Ela conseguiu aceitar os factos, e eu ainda não fui capaz deenfrentar essa situação... - respondeu Jorge, aproximando-se da beira do miradouro,observando atentamente as luzes da cidade, que brilhavam lá ao longe - Bom..., mas se nãote importas eu preferia mudar de assunto... - pediu, envolvendo com um braço os ombrosdelicados da companheira - ...falar disto ainda me é muito difícil... - concluiu por fim,sentando-se numa enorme pedra uma pouco mais recuada em relação ao precipício. - Eu compreendo... - anuiu Rita, sentando-se a seu lado - Responde-me só a umapergunta; porque é que queres ser advogado? - Para ser sincero, eu até nem gosto muito disto... - Porquê? - insistiu a companheira interrompendo-o, surpreendida com tal revelação -Se não gostas deste curso, porque razão o escolheste? - No fundo, eu não gosto da advocacia, porque acho que não é um jogo limpo. Não é averdade que está em causa, mas tudo se resume ao ganhar ou perder o caso. Não interessaque o réu seja culpado ou inocente; o que interessa para todos, é ganhar a qualquer preço,entendes? - Sim, mas continuo sem compreender; se não concordas com o sistema porque é quequeres ser advogado? - inquiriu Rita um tanto confusa. 18
  • 19. artciencia.com (ISSN 1646-3463) Ano I ● Número Dois ● Fevereiro-Abril 2006 - Porque o maior desejo dos meus pais, era que eu me licenciasse em Direito, e umdia mais tarde ficasse eu como dono da firma de advogados que eles tinham em Lisboa... -esclareceu ele, demonstrando com a sua atitude o quanto respeitava os pais - ... por isso,jurei sobre a campa deles que iria fazer aquilo que eles sempre haviam desejado, mas quepor outro lado, iria combater o sistema com todas as armas que tivesse. - Então, qual era o curso que gostavas realmente de tirar? - perguntou Rita de novo. - Tens frio...? - interrogou Jorge, reparando que a companheira tremia - Queres irembora?... - sugeriu, despindo o blusão, e colocando-o sobre os ombros da colega. - Não..., podemos ficar mais um pouco... - Bem, eu gostava de ter podido estudar Engenharia Mecânica, ou então Informática,que foi o meu curso no secundário, mas... - Mecânica?!... - exclamou a rapariga surpreendida - Tu gostas de mecânica...? - Sim..., adoro... - respondeu ele sorrindo, e sem alterar o tom de voz - ... na verdade,até tenho um Volkswagen Carocha de 1969, que comprei num ferro-velho, e que estou arestaurar para oferecer à Isabel... Já comprei um motor de um Porsche em segunda mão, eadaptei-o para o Carocha; vai ficar com quase 3000 cm3 de cilindrada, e mais de 200 cavalosde potência. Também pedi a um amigo que tem uma grande oficina perto de Lisboa, para mereforçar a estrutura do carro, de modo a aguentar com aquele motor, e agora ando a arranjaros travões, porque quero instalar ABS, e umas jantes de alumínio com 20 ou 22 polegadas delargura. Depois, vou mandar pintá-lo de cor-de-rosa, ou então bordeaux. - Uaaaaauuu!... Nunca pela ideia me passou que fosses tão engenhoso!... - exclamouRita, não conseguindo disfarçar a simpatia e admiração que sentia pelo colega - Então, ecomo é que vai ficar; coupé ou cabriolet? - Cabrio..., aliás, quando o levei ao meu amigo em Lisboa, ele deixou-mo logodescapotável, e pronto a levar uma capota em tecido impermeável... - esclareceu Jorge,satisfeito com o interesse demonstrado pela companheira - ...mas estou a ver que tambémpercebes disto, muito bem, estou a gostar de ver!... Vem cá... - pediu ele levantando-se, edirigindo-se para o espectacular BMW M3, que estava parado alguns metros mais acima - ...quero mostrar-te uma coisa... - acrescentou, esperando que a colega chegasse junto dele -Este carro tem de série... - É um belo carro... - observou alguém, intrometendo-se na conversa - Talvez moqueiras emprestar para eu ir dar uma volta... - continuou o indivíduo do rabo-de-cavalo,aproximando-se dos dois jovens. - Não me parece... - respondeu o rapaz, sem se mostrar muito impressionado com aenorme e reluzente lâmina que acabara de surgir na mão direita do intruso, apesar de Rita terficado petrificada - Bom..., vou dar-te um conselho; pira-te daqui, imediatamente. Estou-te a 19
  • 20. Cartel Fantasma Alexandre Figueiredoavisar!... - Ouviram...!? - recomeçou o outro, falando para os dois homens que acabavam desair de entre um arbusto - Ele está-me a avisar... - prosseguiu em tom irónico, dando algunspassos na direcção de ambos, enquanto brandia com destreza a enorme faca - ... quem teavisa, sou eu; tenham juízinho, e nada vos acontecerá..., só queremos verificar um pequenopormenor, e depois soltamo-vos... - Marco,... - chamou o indivíduo que vestia fato e gravata, usando uma gabardina porcima - ...tem calma,... não nos precipitemos... Tu,... - disse, falando para Rita, quepermanecia imóvel - ...vem cá... - Lamento desiludir-vos, mas infelizmente não me parece que ela vá a lugar algum... -respondeu de pronto Jorge, continuando muito pouco impressionado com o ambiente hostilcriado pelos três malfeitores. - Marco,... - insistiu o outro - ... trá-la cá, e se aí o nosso amigo fala-barato semanifestar trata-lhe da saúde!... - concluiu com cara de poucos amigos. - Não é preciso Dr.,... - disse o terceiro homem, falando para o do fato, que parecia sero chefe do grupo - ... não é ela... - Tens a certeza do que estás a dizer? - insistiu o outro. - Absoluta... - prosseguiu ele - não é ela, a outra miúda não tinha sardas, era maisbaixa, e o cabelo era mais escuro do que o desta... - esclareceu por fim. - Vê lá, não te precipites, o chefe não quer perder mais tempo com esta história -insistiu o homem do fato. - Eu tenho a certeza, não é ela, ...garanto-lhe Dr. - - Marco,... deixa-os,... vamos embora... - ordenou o tal Dr. ao fulano do rabo-de-cavalo. Porém, Marco não parecia estar pelos ajustes, e antes de se afastar presenteou odesprevenido Jorge com um soco na cara, que de imediato ripostou, agredindo o outro comum pontapé violentíssimo no baixo ventre, e depois com dois murros na cara, que deixaram otipo que se chamava Marco estendido no chão sangrando do nariz e dos lábios. - Toma lá filho da puta!... Para a próxima toma atenção aos conselhos que te dão -comentou o jovem, quando o outro com alguma dificuldade se começou a levantar. - Agora é que vais ver como elas te mordem!... - gritou Marco de cabeça perdida,avançando furioso para o rapaz. - Tu não aprendes!?... - ironizou Jorge - Queres levar outra vez?... - Marco!... - chamou o indivíduo que tratavam por Dr. - Vamos embora..., já... é umaordem!... - ordenou o tipo que vestia fato, num tom de voz que não deixou dúvidas ao homemdo rabo-de-cavalo. 20
  • 21. artciencia.com (ISSN 1646-3463) Ano I ● Número Dois ● Fevereiro-Abril 2006 - Fica para a próxima,... não te esqueças da minha cara!... - ameaçou por fim, antesde se juntar aos outros dois, que desapareceram rapidamente pela colina acima. Alguns segundos depois, ouviu-se um automóvel arrancar a grande velocidade, nãomuito longe dali... - Pronto..., já se foram embora!... - observou Jorge aliviado - Estás bem? - perguntou àcolega. - Sim... - principiou ela, tentando enxugar as lágrimas que entretanto começaram acair - ... mas tenho medo..., não gostei muito das últimas palavras do gajo do rabo-de-cavalo... - Não te preocupes..., não ligues..., aqueles gajos só são duros com uma arma namão..., são uns cobardolas, jamais terão coragem de nos chatear outra vez... - comentou ojovem, tentando tranquilizar a colega, que agora tremia de medo. - Achas!?... - Tenho a certeza... - esclareceu o rapaz não deixando lugar a qualquer tipo dedúvidas - Só não entendi bem o que queriam..., ...é óbvio que se enganaram, pelo menos foio que percebi das palavras do gajo que estava com o “ fato “, devem andar atrás de alguém.É melhor prevenirmos a polícia... - Eu trato disso amanhã... - ofereceu-se Rita de imediato, já mais calma. - Está bem... - concordou o companheiro - ...mas agora, o melhor é irmos embora, jáchega de surpresas por uma noite... Jorge conduziu a colega ao magnífico BMW M3 coupé amarelo, e abriu a porta paraque ela entrasse. Depois, deu a volta ao veículo, e entrou também. Em seguida, rodou achave na ignição, engrenou a primeira velocidade, e arrancou em direcção à estrada queconduzia a Coimbra. - Queres ir dormir lá a casa? - sugeriu o rapaz, reparando que a colega estava muitonervosa. - E a Ana? - lembrou a rapariga com a voz trémula... - A Ana não está lá..., foi passar o natal ao Brasil com os pais e o namorado... Ontemquando cheguei de Santarém, já ela não estava. Deixou-me um bilhete a explicar tudo.Então..., ficas no teu apartamento, ou queres vir comigo... - insistiu ele - Se não te importares, eu preferia ir contigo... - Bom..., então vamos... Cerca de dez minutos mais tarde, o espectacular automóvel conduzido por pelo jovemestudante, parou em frente à habitação que pertencia aos pais de Ana, e que ele dividia coma prima. Depois, Jorge, conduziu Rita até à porta da casa, e após ambos entraram, fechou aporta com cuidado. Em seguida, encaminhou a colega até ao quarto de dormir que 21
  • 22. Cartel Fantasma Alexandre Figueiredohabitualmente estava vago, e foi procurar um pijama da prima que entregou a Rita. - Estás tão tensa... - observou, reparando que a rapariga continuava a tremer - ...queres um calmante para te ajudar a dormir? - sugeriu, tentando confortá-la apertando-a deencontro ao seu peito robusto. - Sim,... se não te der muito trabalho. O jovem, dirigiu-se para a cozinha, e voltou alguns minutos mais tarde, trazendo umcopo de água, e o calmante que deixou sobre a mesa-de-cabeceira do quarto. - Se precisares de alguma coisa,... seja o que for, é só chamares, está bem? -recomendou, encaminhando-se para o corredor - Vá, vai descansar, e esquece aquilo que sepassou. Tudo não passou de um engano, foi só um grande susto... Até amanhã!... - concluiupor fim, saindo e fechando simultaneamente a porta do quarto. - Jorge!?... - chamou Rita. - Sim,... - respondeu ele de pronto abrindo de novo a porta. - Nada,... só... obrigado!... - disse, aproximando-se dele, e apanhando-o desprevenido,beijou-o com ternura nos lábios - Boa noite!... O jovem, puxou mais uma vez a porta, e afastou-se em direcção ao seu quarto dedormir, pensando surpreendido no prémio que acabara de receber. Após ter tomado umduche rápido, o rapaz vestiu o pijama, e enrolou-se confortavelmente no meio dos quentes eacolhedores cobertores, recordando confuso os acontecimentos daquela mesma noite nomiradouro; “ Quem seriam aqueles indivíduos? Quem procuravam? Porque razão perseguiamalguém? “ A única coisa que ele compreendia, é que obviamente os três malfeitores haviamconfundido Rita com a outra pessoa que por algum motivo perseguiam. Apesar de entretido com aqueles pensamentos, não demorou muito porém até queadormecesse, embora o sono fosse muito pouco tranquilo. No quarto ao lado, pelo contrário,Rita, com a ajuda do calmante rapidamente se encontrou mergulhada num tranquilo eprofundo sono, mexendo-se de quando em vez na cama... ... - Bom dia! - cumprimentou Jorge, entrando na cozinha - Já estás levantada!?... -exclamou surpreendido, apertando o cinto do roupão - São oito e meia, não me disseste quehoje não tinhas aulas de manhã? - Olá! - saudou a colega, sorrindo - Sim..., não tenho aulas, mas tenho que ir ao Porto.- prosseguiu ela bebendo um gole de café - Só hoje quando acordei é que me lembrei quetenho uma consulta no médico. - E como é que passaste a noite? Dormiste bem? Estás mais calma? - questionouJorge atenciosamente, pegando numa chávena e servindo-se igualmente de um pouco decafé. 22
  • 23. artciencia.com (ISSN 1646-3463) Ano I ● Número Dois ● Fevereiro-Abril 2006 - Sim, graças ao calmante que me deste, dormi bem, e já me convenci que apesar dostipos de ontem serem perigosos, não nos vão chatear nunca mais. Mas ontem tinha tantomedo!... Obrigado!... Foste bestial, um verdadeiro amigo!... - Ainda bem que já estás mais calma... - observou Jorge satisfeito - Queres que te vápôr à estação para apanhares o comboio? - ofereceu-se o rapaz. - Isso era óptimo! - agradeceu Rita, terminando o pequeno-almoço - Mas antes deirmos, queria pedir-te que não dissesses a ninguém o que aconteceu ontem, porque eu nãoquero que os meus pais descubram isso..., senão há logo sarilho. - Nem mesmo à polícia? - Não, está descansado que eu vou lá apresentar queixa... Só não quero que maisalguém saiba disto... Posso contar contigo? - inquiriu, aguardando ansiosa pelo voto desilêncio do colega. - De acordo. Prometo que nada direi a ninguém... - garantiu ele, acrescentando depois- Então, dá-me um quarto de hora, enquanto vou tomar um banho e vestir-me... - pediuabandonando apressadamente a dependência onde ambos se encontravam. Alguns minutos mais tarde, Jorge entrou na sala de estar, pegou nas chaves do BMWamarelo, e conduziu Rita até à saída. Depois de fechar a porta, dirigiram-se os dois para oespectacular automóvel que estava estacionado do outro lado da estrada. Logo que se fezsentir o ruído do potente motor do veículo em funcionamento, o rapaz engrenou a primeiravelocidade, e iniciou a marcha suavemente, tomando a estrada que conduzia a Coimbra... - Voltas a que horas? - indagou, quando já no interior da cidade avistou ao longe oedifício da estação ferroviária. - Ainda não sei. Possivelmente até ficarei esta noite em casa da Joana... - respondeufalando quase em surdina, no momento em que o automóvel parou em frente da velhaconstrução - Até amanhã! - disse, despedindo-se do colega, com um beijo na face - Obrigadopela boleia, e obrigado por ontem... - concluiu por fim, fechando a porta do BMW, e dirigindo-se para a entrada da estação. - Faz boa viagem!... - respondeu Jorge, ficando por mais uns instantes a observar arapariga que se afastava. Em seguida, arrancou bruscamente, tomando o caminho de regresso a casa, ondechegou aproximadamente dez minutos mais tarde, entrando na habitação sem maisdelongas. Como era ainda muito cedo, passavam alguns minutos das nove e meia da manhã,pegou no seu walkman e sentou-se no escritório em frente do computador, entretendo-secom alguns jogos, enquanto recordava de novo os estranhos acontecimentos da noiteanterior. - “ Há aqui qualquer coisa que não bate certo!... “ - pensou, desviando 23
  • 24. Cartel Fantasma Alexandre Figueiredomomentaneamente a sua atenção do jogo, suspeitando que a colega lhe escondia algo - “Está-me a escapar algo!... A Rita deve saber de alguma coisa!... Tenho que apertar um poucomais com ela!... “ - concluiu, voltando a centrar a sua atenção no monitor do computador, e nosimulador de futebol que estava a jogar. Aquela viagem súbita era no mínimo bizarra, e a tentativa de ocultar a situação dapolícia, ainda que velada, bem como o ocorrido na noite anterior alimentavam desobremaneira as suspeitas do jovem... ... - Good Afternoon!... - saudou amavelmente o professor de Inglês, rodando a maçanetada porta da sala de aulas - How was the week-end?... - Short... - começou um colega de Jorge que seguia mesmo atrás do altíssimoindivíduo britânico - ...as usually, it was very short!... - acrescentou depois no meio dagargalhada geral. - Sir... - principiou um outro, rindo divertido - ...this morning a little bird told me thatLiverpool have lost, ...again!... - No comments, please... - respondeu bem humorado o professor, que numa das aulasanteriores havia cometido o erro de revelar aos seus alunos ser associado daquele clubeinglês, tendo alguma dificuldade em se fazer ouvir perante a gargalhada bem-disposta quesurgiu após aquela perspicaz observação - Okay, now... please, ...enough!... - pediu - Now...,lets go to work! - disse por fim, aguardando que todos se sentassem de modo a poderprincipiar a leccionar a matéria para aquela aula... - Vou-me “ baldar “ a Direito! - anunciou Jorge, quando cerca de duas horas mais tardecruzou os portões da faculdade, acompanhado por um grupo de colegas. - Isso é que é falar! - aprovou uma rapariga, dando-lhe uma palmada amigável nascostas - Vou para o salão jogar, querem vir? - convidou ainda. - Que se lixe,... também vou - concordou um outro, acendendo o seu cigarro, eoferecendo um à jovem que os acompanhava - Estou farto daquela merda!... - disse por fimpontapeando furioso uma lata de cerveja que fora deixada no passeio. - Vamos jogar o quê, Marta? - perguntou alguém quando o grupo entrou no salão dejogos. - Snooker a quatro! - sugeriu Jorge, pegando num taco, e dirigindo-se para aesplêndida mesa que se encontrava a um canto daquele espaço de diversão. - Vamos tornar as coisas mais interessantes... - começou um dos rapazes sorrindo -...quem perder, ...paga, o.k.? - De acordo, André! - aprovou Marta, pegando também num taco - Vocês podem jogarjuntos, que eu fico com ele - disse, apontando para Jorge, que se aproximava trazendo as 24
  • 25. artciencia.com (ISSN 1646-3463) Ano I ● Número Dois ● Fevereiro-Abril 2006bolas do jogo. - Está no papo! - comentou o outro rindo - Preparem a “ massa “, que aqui o mestrevai dar uma aula de bem jogar isto ao pessoal, ... e à borla... - anunciou, virando-se paraJorge e Marta, que permaneciam quietos a um canto da mesa... - Convencido... - principiou Marta, aproximando-se discretamente do parceiro, eperguntando-lhe em surdina - Percebes alguma coisa disto? - Talvez... - respondeu vagamente o jovem, esquivando-se à pergunta, e nãorevelando os seus verdadeiros conhecimentos acerca do jogo. Meia hora mais tarde... - Falas demais! - observou o colega de André, olhando acusadoramente para este - Tue as tuas ideias! Devias pagar isto sozinho, ...animal! - continuou, puxando da carteira muitopouco satisfeito, para pagar a despesa do jogo, uma vez que Jorge e Marta haviam levado amelhor - As miúdas não percebem nada de snooker, ...aqui o grande mestre dá bem contadeles - repetiu, imitando de uma forma irónica a voz e os gestos do parceiro. - Foi sorte de principiante! - defendeu-se o outro, lamentando-se da sua pouca sorte. - Queres repetir?... - desafiou Marta, pegando de novo no seu taco e aproximando-seda mesa, perante o olhar atento dos três rapazes. - Não... - desculpou-se o outro um tanto atrapalhado enquanto se afastava com oparceiro para pagar a despesa - Tenho que me ir embora, senão ...era já!... - E eu também! Foi fixe, mas tenho que me pirar! - anunciou Jorge, pegando nos seuslivros, e despedindo-se dos colegas, encaminhando-se depois para a saída do salão dejogos. Tranquilamente percorreu as cerca de duas centenas de metros que o separavam doparque de estacionamento em que deixara o seu BMW. Por fim, avistou o espantoso coupéamarelo, usando o controle remoto para destrancar as portas do automóvel, logo que chegoua uma distância suficientemente perto para que o pequeno aparelho funcionasseadequadamente. Já sentando ao volante do veículo, atirou os livros para o assento traseiro,arrancando bruscamente logo em seguida. Alguns minutos volvidos, o jovem encontrava-se já à entrada da habitação queocupava, a mesma que pertencia aos pais da prima com quem a dividia. Entrou, fechando aporta atrás de si deixando as chaves do BMW e os livros em cima da pequena mesa sobre aqual se encontrava também o telefone. Não demorou muito tempo até que Jorge se instalou confortavelmente no acolhedorsofá da sala de estar, saboreando umas sanduíches de pastéis de bacalhau, que ele mesmopreparara instantes antes, enquanto assistia ao noticiário na televisão. De súbito, porém,lembrou-se de ir à cozinha buscar uma bebida para acompanhar a refeição. 25
  • 26. Cartel Fantasma Alexandre Figueiredo - “ Porra, ...já não há cerveja! “ - exclamou desiludido, quando abriu a porta dofrigorífico, e constatou que apenas restavam algumas latas de refrigerantes - “ Bom, ...lá teráde ser!... “ - pensou conformado, pegando numa lata de cola, e voltando a sentar-se emfrente ao televisor, aproveitando, como era hábito, o tampo da pequena mesa de madeiraescura que se encontrava ao centro daquela divisão... Após a refeição, esperou ainda pelo programa desportivo, que era transmitido noutrocanal, entretendo-se depois com um livro que começara a ler há bastante tempo, ouvindomúsica em simultâneo. Contudo, não demorou até que se começasse a sentir sonolento, eembora fosse ainda muito cedo, optou por ir dormir, pelo que, desligou a potenteaparelhagem sonora, dirigindo-se em seguida para o seu quarto. Assim, quando nos dígitosvermelhos do rádio relógio apareceram as zero horas, já o jovem estava mergulhado numtranquilo e profundo sono... - “ ... Antena 3, falta um minuto para as nove da manhã... Vamos entrar na próximahora com... ‘ Crazy ’ dos Aerosmith, depois ...‘ About a Girl ‘ do álbum ‘ Unplugged in NewYorq ‘ dos Nirvana, e no final da sequência..., ‘ Tudo o que te dou ‘ de Pedro Abrunhosa,...Deixem-se ficar..., esta é a Antena 3, a partir de Lisboa para todo o país...” Jorge deu meia volta na cama, e ficou mais um pouco deitado, ouvindo com atençãoos temas musicais que o locutor anunciara alguns instantes antes. A muito custo, lá seresolveu por fim a levantar, encaminhando-se apressadamente para o quarto de banho, nãosem antes ter aumentado o volume ao rádio, de modo a continuar a ouvir música, enquantose aprontava para mais um longo dia de aulas, como ele muitas vezes gostava de referir... Depois de trancar as portas do vistoso BMW M3 coupé amarelo, Jorge deu umarápida mirada aos ponteiros do seu relógio de pulso. Eram então exactamente dez e umquarto da manhã... O jovem, olhou ainda receoso para as muitas e ameaçadoras nuvens quecobriam totalmente o habitual azul do céu, atravessando em seguida a estrada ainda molhadapela chuva que caíra com persistência durante quase toda a madrugada. Por fim, cruzou aentrada da sua faculdade, dirigindo--se de imediato para o edifício principal, para se protegermelhor do intenso frio que se fazia sentir... - Hei,... então... - chamou uma voz feminina quando Jorge entrou no enorme corredorque dava acesso às salas do 2º piso - Já não ligas às colegas - insistiu a voz, quando elefinalmente se voltou para trás, deparando-se com três caras conhecidas. - Sofia!?... Joana!?... - exclamou surpreendido - Não era suposto ficarem no Porto atésegunda? - inquiriu, cumprimentando as três raparigas com um beijo na face. - Bom, resolvemos voltar mais cedo - respondeu a atraente jovem dos cabelos louros,que inicialmente o chamara, sem no entanto revelar o motivo pelo qual haviam decididoantecipar o regresso. 26
  • 27. artciencia.com (ISSN 1646-3463) Ano I ● Número Dois ● Fevereiro-Abril 2006 - Ainda bem que voltaram mais cedo... - começou Jorge com uma expressão grave -...estou preocupado com a Rita... - Nós sabemos... - principiou a outra, olhando o colega fixamente através dos seuslindos olhos, que não tinham uma cor definida, embora se situassem algures entre o azul e overde - ...a Rita quando ontem nos visitou pôs-nos a par da história toda - esclareceu por fim. - Fico mais tranquilo, agora que sei que vocês regressaram - observou Jorge aliviado,olhando para o relógio de pulso. - Tens alguma aula agora? - indagou Rita, apercebendo-se da insistência com que ocolega olhava para o relógio. - Sim. Na verdade, já estou atrasado quase um quarto de hora, e hoje era convenientechegar a horas... - Tu..., chegares a horas..., a uma aula!? - exclamou rindo a bela e atraente jovem doscabelos louros - Estiveste a beber? - perguntou brincando. - Não! - respondeu Jorge, compreendendo que a rapariga estava a entrar com ele -Agora a sério, a aula de hoje é muito importante... Além disso, ontem dei folga ao professor,por isso... - Ó Sofia, vai chamar um médico!... - insistiu a outra, interrompendo-o de novo - Eleestá mesmo doente!... Agora até já quer ir às aulas! - prosseguiu dando-lhe uma palmadaamigável nas costas - Desde quando é que há aulas importantes? - inquiriu indignada,estendendo os braços em sinal de reprovação... - É um brincalhão este Jorge! - exclamou divertida a colega, cujos olhos de uma corindefinida tanto fascinavam o rapaz, fingindo não o levar a sério. - Bom, tenho mesmo que ir andando... - concluiu, suspirando longamente, dando doispassos na direcção do corredor. - Queres jantar connosco? - convidou ainda Rita. - Aaaaaa... - principiou, fazendo uma pausa para pensar - Hoje jantamos em minhacasa! - Vou buscá-las às sete, o.k.? - terminou, encaminhando-se apressadamente para asala de aulas, deixando as três raparigas conversando animadamente à entrada docorredor... Alguns minutos depois do meio-dia, Jorge, abandonou o recinto da faculdade,despedindo-se da colega, logo após ambos terem cruzado o enorme portão. Ela, seguiu parauma estreita e pouco movimentada travessa, enquanto que o jovem estudante continuou emfrente, descendo até uma ampla praça, que se encontrava quase deserta àquela hora. Emseguida, atravessou a estrada entrando no snack-bar, onde almoçava sempre que não tinhatempo para ir a casa, e que não ficava muito longe da sua faculdade... Optou por um hambúrguer com batatas fritas e salada, que lhe puseram à frente 27
  • 28. Cartel Fantasma Alexandre Figueiredopoucos instantes depois, bem como a cerveja que tinha pedido para acompanhar o pratoprincipal. Para terminar, saboreou uma deliciosa sobremesa, bebendo ainda o habitual café.Por fim, pegou nos livros, pagou a despesa, saindo de imediato. Como lhe restava ainda bastante tempo antes da aula seguinte, foi caminhandotranquilamente até ao seu espectacular BMW, sentando-se descontraídamente no assento docondutor. Inclinou um pouco as costas do banco, de modo a ficar mais confortavelmenteinstalado, ligando também o potente auto-rádio que se encontrava montado na consolacentral do automóvel. Depois, fechou os olhos, ficando a ouvir a excelente música que estavaa ser transmitida pela estação de rádio que sintonizara. Contudo, alguns minutos mais tarde ojovem dormia profundamente, totalmente alheado do intenso movimento naquela rua. Desúbito, porém, um veículo que circulava próximo travou bruscamente, buzinando cominsistência. O irritante ruído da buzina, depressa chegou aos ouvidos de Jorge, que despertoude imediato, compreendendo instintivamente que se deixara dormir... - Merda!... Já estou atrasado, ...que porra!... - disse, enquanto olhava muito poucosatisfeito para o seu relógio de pulso, e pegando precipitadamente nos livros que estavamsobre o assento ali mesmo ao seu lado abriu a porta do BMW sem perder mais tempo. Depois, encaminhou-se apressadamente para a faculdade que não ficava muito longedo local em que se encontrava... ... - Uaaaaaaauuuu!!!... - exclamou Jorge surpreendido, quando Joana lhe abriu a portade entrada do apartamento que dividia com Rita e Sofia - Tu estás..., a... um... espanto! -concluiu observando boquiaberto a colega que, estava de facto deslumbrante... - Não queres entrar enquanto elas não vêm? - convidou a jovem dos cabelos louros,que naquela noite usava um lindo vestido negro, que não só realçava o sensual corpo dajovem, como também os seus magníficos cabelos. - Elas não demoram muito, pois não? - indagou Jorge, algo inquieto. - Acho que não... - principiou a rapariga - ... mas há algum problema? - Bem..., é que..., deixei o carro estacionado à balda, e estou com medo, não apareçaa bófia e se ponha a implicar. - esclareceu ele, encostando-se ao corrimão de madeira daescada - A última vez, avisaram-me que não me voltavam a perdoar uma multa deestacionamento... - acrescentou ainda. - Eu vou ver se elas ainda demoram... - anunciou Joana, desaparecendo no interior dahabitação, perante o olhar atento de Jorge. - Que corpo espectacular..., ufa!... Qual das três a melhor... - desabafou entredentes,sorrindo-se cumplicemente dos seus pensamentos mais ousados... - Vamos?... - inquiriu Joana, regressando acompanhada por Sofia e Rita que vinham 28
  • 29. artciencia.com (ISSN 1646-3463) Ano I ● Número Dois ● Fevereiro-Abril 2006logo atrás de si. - É só um jantar garotas!... Não era preciso tanto!... - comentou, enquanto desciam osquatro as escadas que conduziam à saída daquele prédio de apartamentos - Bem..., assimsendo, ...tenho uma ideia melhor... - acrescentou, abrindo a porta da frente para que Sofia eJoana pudessem entrar para os lugares traseiros. - Em que é que estás a pensar? - inquiriu Rita ardendo em curiosidade, enquantoJorge dava a volta para entrar do outro lado. - Surpresa... - respondeu ele vagamente com um sorriso misterioso, sentando-se aovolante, e rodando a chave na ignição. Logo que o ruído do potente motor do BMW M3 coupé se fez ouvir, Jorge engrenou aprimeira velocidade, iniciando suavemente a marcha logo em seguida. Alguns instantes maistarde, circulavam numa estrada pouco movimentada em direcção ao sul... - Não sejas chato... - recomeçou Rita pela milionésima vez - ..diz lá onde vamos!... - Já não precisas de esperar muito... - respondeu o jovem pacientemente - ...estamosa chegar - concluiu, apontando para uma construção de um piso único, que se erguia umpouco mais à frente... ... - Já escolheram?... - inquiriu delicadamente o empregado daquele restauranteaproximando-se da mesa que Sofia escolhera. - Sim... - principiou Jorge, dando uma última vista de olhos pela ementa - ...queremosquatro doses de Bacalhau com Natas... - E para beber?... - prosseguiu o outro, enquanto tomava nota daquilo que o rapazpedira. - Para mim uma imperial... - respondeu o jovem, fazendo um sinal às companheiraspara que pedissem a bebida que queriam. - Pensava que os caloiros só bebiam leite!... - comentou Joana, logo que o empregadose retirou... - Ah!... Ah!... Ah!... Que piada!... - brincou Jorge, fingindo-se ofendido pela observaçãoda colega - E, em relação ao meu convite, já tomaram alguma decisão? - Bem..., nós estivemos a pensar, e... - começou Sofia, fazendo uma breve pausa,enquanto bebia um gole do sumo de laranja que o empregado havia acabado de lhe pôr àfrente. - E...?... - insistiu o companheiro, mostrando-se bastante impaciente. - Resolvemos aceitar!... - esclareceu por fim, passando os seus finos e doces lábiospelo guardanapo, terminando finalmente com aquele momento de suspense, para gáudio docolega que sorria satisfeitíssimo com a notícia - Mas... - acrescentou ainda - tem que ser 29
  • 30. Cartel Fantasma Alexandre Figueiredoantes das férias de Natal. - Se quiserem, pode até ser já neste fim-de-semana... Que dizem?... - propôs ele,pedindo mais uma bebida ao empregado. - De acordo! - anuíram as três raparigas, após uma breve troca de olhares - Mas tensa certeza de que não há nenhum inconveniente? - indagaram, ainda hesitantes. - Absolutamente nenhum! - respondeu o colega decididamente, começando a servir-sedo esplêndido Bacalhau com Natas que o empregado acabara de trazer naquele mesmoinstante. - Só preciso de prevenir a Isabel. Mas quanto a isso, não há problema, ...amanhãtelefono-lhe. - Então, está combinado. Na sexta, vamos contigo para Santarém... ... - Vêmo-nos amanhã? - perguntou Jorge, quando o vistoso BMW amarelo parou poralguns instantes em frente ao edifício em que habitavam as três jovens. - Não queres subir só por um bocadinho? - convidou Rita, libertando o fecho do cintode segurança. - Sinto muito, mas não posso. Tenho umas tretas para ler, e uns apontamentos parareler, por isso, não dá - lamentou-se o rapaz, com tristeza, dando um murro no volante doautomóvel. - Então, vemo-nos amanhã! - concluiu a companheira, despedindo-se dele com umbeijo na face, e abrindo a porta da viatura, deixando que as duas raparigas que seguiam noassento traseiro pudessem igualmente sair. - Até amanhã! - disseram simultaneamente Sofia e Joana, que se juntaram no passeioa Rita, vendo o potente veículo desaparecer rapidamente na curva que ficava algumasdezenas de metros mais abaixo. Jorge, após uma noite bem passada na companhia das colegas com quem travaraconhecimento através da prima Ana, dirigiu-se para casa, conduzindo velozmente oespantoso BMW M3 coupé, que deixou estacionado como habitualmente em frente dahabitação que partilhava com a prima, agora de férias no Brasil. Atravessou tranquilamente aestrada, olhando fixamente para o céu estrelado, que era iluminado pela luz intensa da luacheia, que naquele momento brilhava a descoberto de umas quantas nuvens que se podiamigualmente observar. Passavam apenas alguns minutos das dez e meia da noite, quando ojovem rodou a chave na fechadura da porta de entrada da habitação, entrando logo emseguida... 30
  • 31. artciencia.com (ISSN 1646-3463) Ano I ● Número Dois ● Fevereiro-Abril 2006 Fim do 2º Capítulo 31
  • 32. Cartel Fantasma Alexandre Figueiredo Capítulo 3 - Olá, bom dia! - cumprimentou o jovem estudante, chegando junto dos seus colegasde turma, que aguardavam junto da entrada da sala de aula a chegada do professor deDireito. - Chamas bom dia, ...a isto!?... - exclamou uma rapariga, protestando contra o tempocinzento, húmido, desagradável e frio que se fazia sentir naquela manhã de Dezembro. - Não deviam existir aulas de manhã! - prosseguiu um outro, terminandodisfarçadamente um cigarro que acendera poucos tempo antes, visto que não era permitidofumar nos corredores da faculdade, e naquele momento aproximava-se um funcionário. - Aulas só um dia por semana, e com férias pagas treze meses por ano! - comentoude súbito alguém dando origem a uma gargalhada bem-disposta, que fez esquecer porbreves instantes aquela manhã fria e chuvosa. Em seguida, chegou o professor, cumprimentando delicadamente os seus alunos, eabrindo a porta, de modo a que todos pudessem entrar. À aula de Direito, seguiu-se uma outra de Economia, tendo existido de permeio entreambas um curto intervalo com uma duração de quinze minutos, que o jovem aproveitou pararapidamente tomar o pequeno-almoço, num simpático café, que embora minúsculo, nãodeixava de ser bastante acolhedor, e que ficava próximo, regressando depois à faculdade, afim de assistir à aula de Economia... Por volta da uma da tarde, quando finalmente terminaram as aulas daquele diasombrio, Jorge, dirigia-se apressadamente para o seu automóvel, quando foi interpeladopelas três raparigas com quem jantara na noite anterior. - Não queres ir à aula de Inglês por mim? - principiou Rita, brincando com ele,enquanto se cumprimentavam trocando alguns beijos. - Não..., ...não me parece que esteja muito interessado na tua extraordinária oferta... -declarou o jovem rindo, enquanto abria a porta do espantoso BMW M3 coupé, atirando comos livros que segurava na mão direita para cima do assento contíguo ao do condutor - Não seicomo, nem porquê, mas a verdade, é que recentemente auto-diagnostiquei-me comoextremamente alérgico a aulas, prejudicam seriamente a saúde, especialmente a minha -prosseguiu, encostando por momentos a porta para que o veículo que surgiu de frentepudesse passar sem problemas - Mas se quiserem, podemos ir beber qualquer coisa, antesde eu ir embora, que dizem?... - Se tu pagares, aceitamos, ...não é? - prontificou-se imediato Joana, trocando um 32
  • 33. artciencia.com (ISSN 1646-3463) Ano I ● Número Dois ● Fevereiro-Abril 2006olhar cúmplice com as duas companheiras. - Pago pois!... Vamos!... - propôs ele, pegando nas chaves do automóvel para o voltara fechar. - Ela está a brincar! - explicou Sofia, apontando de imediato para o mostrador do seurelógio de pulso - Já estamos atrasadas mais de dez minutos, e faltámos às duas primeirasaulas da semana, por isso temos mesmo que ir - esclareceu por fim. - Têm a certeza?... - insistiu Jorge, desistindo logo em seguida, quando as raparigasacenaram com a cabeça, indicando que não podiam mesmo - E que tal jantarmos? - Hoje não dá... - respondeu Rita muito vagamente, escusando-se a revelar maispormenores. - Porquê? - indagou o jovem não ficando satisfeito com aquela recusa aparentementesem justificação. - Amanhã falamos... - concluiu a colega, fechando-se num enigmático sorriso, eafastando-se rapidamente com Joana e Sofia - Agora temos que ir... - acrescentou ainda,encaminhando-se depois as três para o interior do recinto da faculdade, deixando Jorge juntodo seu carro, que apesar de não ter compreendido muito bem a estranha atitude das trêsraparigas, entrou no automóvel, não dando demasiada importância ao ocorrido. - “ Provavelmente devem ter algum trabalho para fazer, e como também já estavamatrasadas... ” - pensou, rodando a chave na ignição do BMW coupé, e arrancando velozmentesem perder mais tempo, dirigindo-se para casa. Depois do almoço, o jovem resolveu telefonar à irmã, para a pôr ao corrente doconvite que fizera às colegas, e que as mesmas haviam aceite. Por isso, pegou no telefone, emarcou nas teclas correspondentes ao seu número em Santarém. Esperou alguns instantesaté que do outro lado da linha soasse a voz conhecida da irmã, que de imediato disse: - Ainda bem que telefonas... - principiou a rapariga, com uma voz trémula -...recebeste a minha mensagem? - Que mensagem!?... - inquiriu Jorge surpreendido. - Eu telefonei-te anteontem, e ontem, mas como não estavas, deixei recado nogravador de chamadas, ...não o ouviste? - insistiu ela. - Não, mas... passou-se alguma coisa? - perguntou Jorge inquieto, depreendendo pelavoz insegura da Isabel, que algo sucedera. - Sim... - recomeçou a irmã a medo - Bem, a... eu... tive um acidente com o Ford, naterça... - concluiu por fim soluçando. - O quê!?... - exclamou o rapaz, um tanto confuso pela revelação que a irmã acabarade lhe fazer - Mas..., e estás bem..., isto..., quer dizer, ...tu estás bem? - indagou preocupado- Não te aconteceu nada?... 33
  • 34. Cartel Fantasma Alexandre Figueiredo - Não... - disse, soluçando cada vez mais, e começando também a chorar - Não..., nãome aconteceu nada..., mas o carro ficou sem o pára-choques, os vidros dos faróis, e... ospiscas ficaram partidos. Desculpa, ...está bem...? - Acalma-te... - pediu o jovem, verificando que ela ainda não recuperara do susto -escuta, ...isso não interessa. O que interessa é que estás bem... Então, ...acalma-te, ...não hárazão para isso... - prosseguiu, tentando confortar e descansar a irmã, minimizando oproblema - Então, ...como é que isso aconteceu? - Anteontem, quando ia a caminho da escola, ia a parar atrás de uns carro queestavam parados nos semáforos, ... e quando carreguei no travão o carro continuou adeslizar, ...e eu para não bater nos que estavam à minha frente, dei uma guinada no volante,e fui bater de frente num muro... - esclareceu a rapariga um pouco mais serena. - E depois, ...o que fizeste? - Depois, ...peguei no telemóvel, e telefonei aos tipos da oficina para irem lá buscar ocarro. Disse-lhes onde estava, e esperei que eles lá chegassem para me vir embora... - E eles disseram o que foi? - Sim..., foi falta de travões, ...ao que parece, uma das mangueirinhas do óleo tinhauma fuga, e o nível estava no zero. Desculpa, ...está bem? - esclareceu Isabel ainda umpouco perturbada. - Ouve, já te disse que não há problema nenhum. O que me importa, é que a ti não teaconteceu nada. Por isso, esquece esse assunto, ...já faz parte do passado, o.k.? - pediu oirmão, não se preocupando muito com o sucedido - E, a propósito, ...quando é que tedevolvem o carro? - Já cá o tenho. Vieram-no entregar hoje de manhã, e até já paguei o arranjo. Antes doalmoço fui dar uma volta com ele, e fiquei contente porque tiraram aquele baralho que eu tedisse, e tiraram aquele risco que tu fizeste na porta. - Ainda bem. Pronto, ...então podes esquecer isso duma vez por todas. Tiveste umacidente, e daí? - Sim, vou fazer como dizes... - respondeu a irmã muito mais calma - Mas, diz-me umacoisa, ...se não recebeste o meu recado, porque razão telefonaste? - Ah! É verdade, ainda bem que me lembras, que eu com esta história já me estava aesquecer!... A Rita, a Sofia, e a Joana resolveram finalmente aceitar o meu convite parapassarem o fim-de-semana connosco, e eu queria prevenir-te que elas amanhã vão comigo -explicou Jorge, esperando que a irmã não visse qualquer inconveniente em relação àqueleassunto - Não te importas, pois não? - Não, claro que não! Na verdade, ainda bem que as trazes... Estou ansiosa para asconhecer... 34
  • 35. artciencia.com (ISSN 1646-3463) Ano I ● Número Dois ● Fevereiro-Abril 2006 - Pronto, está assente. Obrigada! - agradeceu Jorge contente pelo anuimento prontoda irmã - Bem, então posso ficar descansado que tu estás bem, ...certo? - insistiu de novo orapaz, querendo certificar-se que de facto Isabel não sofrera quaisquer danos físicos. - Sim, ...podes ficar descansado, que eu estou óptima. Só tenho uma nódoa negra nojoelho direito, e ontem doía-me um bocadinho a barriga... - respondeu a raparigaconvictamente. - E foste ao médico? - indagou o irmão - Não, ...não é necessário... Isto foi só o susto, e aquilo do carro, portanto ficatranquilo... - esclareceu ela - E, ...mudando de assunto, a que horas chegas amanhã? - Não sei bem... - Mas, ...não estás a contar chegar tão tarde como na semana passada, pois não? - Livra!... Espero bem que não!... Já me chegou uma vez, porra!... Não estou muito... -principiou, interrompendo-se logo em seguida - Olha, vou ter que desligar, está alguém atocar à campainha... Vemo-nos amanhã, está bem? Um beijinho... - concluiu, pousandorapidamente o auscultador do telefone e, precipitando-se para a porta de entrada, quandouma vez mais o ruído da campainha ecoou pelo corredor... - Boa tarde! - cumprimentou o carteiro, quando Jorge abriu finalmente a porta,recebendo das mãos do indivíduo um pequeno volume e duas cartas. - Obrigado!... - agradeceu o jovem delicadamente, voltando a entrar em casa, e dandouma vista de olhos pelo correio, constatando com alguma surpresa que a únicacorrespondência que lhe era dirigida, tinha o remetente do Rio de Janeiro, Brasil... Espantado, abriu rapidamente o envelope, desdobrando de imediato o papel que estetrazia no seu interior... De imediato reconheceu a letra de Ana... “Jorge, espero que esteja tudo bem por aí. Isto aqui é espectacular. O Rio de Janeiro é uma cidade enorme, eigualmente linda. As praias são maravilhosas, com areais longuíssimos, e águas límpidas e cristalinas. A vidanocturna é agitadíssima e as discotecas muito animadas, estão sempre cheias. Eu e o Rui estamos óptimos, e temo-nosdivertido imenso. Espero que tu estejas a aproveitar a minha ausência para fazeres o mesmo. ‘Quem disse que a vida não é bela?’ Um beijo meu e da Paula, e um abraço do meu pai, e outro do Rui. Mil beijinhos da tua prima: Ana “ Jorge, sentou-se confortavelmente na cadeira do escritório, e após ter ligado ocomputador foi observando com atenção a restante correspondência que era dirigida à prima,enquanto esperava que o jogo que escolhera entrasse, e com o qual se ocupou durante 35
  • 36. Cartel Fantasma Alexandre Figueiredobastante tempo. Por volta das cinco e meia da tarde, o jovem entrou na cozinha, e depois debeber um copo de água, dirigiu-se para a sala de estar, levando consigo uma apetitosa maçã.Pegou no livro que começara a ler há já algumas semanas, instalando-se no acolhedor sofáde pele, trincando descontraidamente a suculenta maçã e lendo em simultâneo. A leituraocupou-o por completo até próximo das oito horas, quando por fim ficou a conhecer odesenlace da história. Nessa altura, voltou a dirigir-se para a cozinha, a fim de preparar ojantar. No congelador do frigorífico encontrou uma embalagem de lasanha, que apenas teriade aquecer no forno micro-ondas, para que esta estivesse pronta a comer. Quando por fimaquela refeição rápida ficou pronta, Jorge abriu o forno e usando uma luva para não sequeimar, pegou no prato em que espalhara a lasanha, pousando-o sobre a mesa. - Porra..., esqueci-me outra vez de comprar cerveja! - exclamou, pegando desiludidonuma lata de sumo de laranja, continuando a lamentar-se pelo seu esquecimento, sentando-se finalmente à mesa. A seguir à refeição o jovem juntou toda a louça que utilizara e arrumou-acuidadosamente no interior da máquina de lavar, onde já se encontrava também umaquantidade apreciável de louça suja. Por isso, Jorge decidiu-se a premir o botão que faziafuncionar o aparelho de modo a que este pudesse lavar tudo aquilo que ele fora acumulandoàs refeições durante vários dias. Mais tarde, voltou a sentar-se comodamente no confortávelsofá da sala de estar, descansando as pernas, como era hábito em cima da pequena eelegante mesa de madeira escura que se encontrava ao centro da dependência, enquantoesperava pelo filme que ia ser transmitido por um dos canais de televisão naquela noite... A manhã seguinte surgiu de novo escura e fria à semelhança do dia anterior, eembora não chovesse, a verdade é que o intenso nevoeiro que se formara durante a noite,tornava mais desolador um cenário que era por si só suficientemente sombrio. Por sorte,Jorge não tinha qualquer aula naquela manhã, pelo que já passavam alguns minutos domeio-dia, quando por fim ele se decidiu a sair debaixo do aconchego que lhe eraproporcionado pelos inúmeros cobertores que tinha na sua cama, dirigindo-se de imediatopara o quarto de banho a fim de tomar o seu habitual duche matinal, que tanto apreciava. Logo após terem soado as treze horas no antiquíssimo relógio da sala de estar, Jorge,terminou o almoço, e precipitando-se para a entrada da habitação, pegou apressadamentenos seus livros, saindo rapidamente, e fechando a porta atrás de si com um provocando umestrondo enorme. Depois, em passo de corrida, encaminhou-se para o espantoso BMW M3coupé, que permanecia estacionado em frente da habitação. Já no interior do automóvel,rodou a chave na ignição, arrancando de uma maneira um tanto brusca, o que provocou queos pneus do veículo tivessem deixado alguma borracha agarrada ao asfalto irregular daquelaestrada. Um pouco mais à frente, o jovem virou à direita num cruzamento, tomando o 36
  • 37. artciencia.com (ISSN 1646-3463) Ano I ● Número Dois ● Fevereiro-Abril 2006caminho que conduzia a Coimbra... - Jorge!... Jorge!... - gritou uma voz ao longe, no momento em que ele cruzava osportões da faculdade - Estamos aqui!... - anunciou a voz, quando finalmente o jovem se viroupara trás, reconhecendo surpreendido as três colegas que ocupavam uma mesa naesplanada daquele pequeno café que ficava próximo da faculdade. - Queres beber alguma coisa? - inquiriu Rita, convidando-o a sentar-se, logo que elechegou junto delas, após ter atravessado a estrada. - Pode ser um café... - pediu o jovem, quando o empregado se aproximou da mesaque ocupavam - Então, está tudo bem? - Sim... - principiou Sofia, trincando mais um pedaço do cremoso bolo que tinha numpequeno prato mesmo à sua frente - Queríamos saber a que horas nos vais buscar? - Bem, ...eu saio às ...seis e meia - começou ele, fazendo uma curta pausa parapensar - ...portanto, ...estejam prontas às sete menos um quarto - concluiu, abrindo umasaqueta de açúcar, e despejando o seu conteúdo no interior da chávena de café que oempregado acabara de pousar sobre a mesa. - Avisaste a Isabel? - inquiriu Joana, prosseguindo após um aceno afirmativo docolega - Ela não se importa? - Não, claro que não! Na verdade, ela até ficou bastante contente com a notícia, e aomesmo tempo, também um pouco mais animada... - esclareceu Jorge, terminandorapidamente o seu café, e dando a entender que algo sucedera com a irmã. - Passa-se alguma coisa? - indagou Rita curiosa, depreendendo pelas palavras docompanheiro que tinha acontecido qualquer coisa com Isabel. - Ela teve um acidente com o nosso Ford Escort RS Cosworth, na terça... - respondeuvagamente o jovem, pegando nos seus livros - Mas felizmente, segundo ela me disse foi sóum grande susto. Ela está óptima, e o carro também não deve ter sofrido muito, uma vez quetambém já está arranjado - acrescentou por fim, resumindo aquilo que a irmã lhe dissera navéspera pelo telefone, e levantando-se da cadeira - Bem, eu tenho que ir embora, que jáestou demasiado atrasado... - Tu tinhas aulas agora!?... - perguntou Joana, olhando-o surpreendida, através dosseus magníficos olhos azuis - Então pira-te que nós pagamos isso!... - ordenou, após maisum sinal afirmativo do rapaz, que puxava da carteira para pagar a despesa. - Está bem! - concordou ele, voltando a guardar a carteira no bolso traseiro dos jeansenquanto se despedia das três raparigas - Então até logo, ...às sete menos um quarto! -disse, afastando-se apressadamente logo em seguida... ... - Bom fim-de-semana, pá!... 37
  • 38. Cartel Fantasma Alexandre Figueiredo - Obrigado! Para ti também! - agradeceu Jorge, retribuindo as palavras simpáticas docolega, enquanto abria a porta do BMW amarelo, entrando de imediato no elegantedesportivo... Quando já estava próximo do prédio no qual as três colegas dividiam um apartamentoo rapaz, lembrou-se de súbito da bagagem que preparara na noite anterior para levar noregresso a Santarém, e da qual se esquecera por completo, quando já de tarde saíraprecipitadamente de casa. Daí, que tenha feito meia volta, e resolvido ir primeiro à casa quepartilhava com a prima buscar os dois sacos de viagem que estavam no hall de entrada,mesmo junto à porta. Jorge, pegou nos dois volumes, e sem perder mais tempo, dirigiu-seapressadamente para o automóvel cujo motor nem se dera ao trabalho de desligar,arrancando bruscamente, tomando o caminho de volta a Coimbra. Cerca de dez minutosmais tarde, voltou a sair apressadamente do BMW M3 coupé que conduzia, dirigindo-se paraa entrada do edifício onde habitavam as três raparigas. Subiu os degraus da escada dois adois, e não demorou muito até que chegasse ao segundo andar, carregando duas vezes nobotão da campainha correspondente ao apartamento do lado direito. Poucos segundosvolvidos, a porta abriu-se, aparecendo a cabeça de Rita. - Estão prontas? - inquiriu o rapaz, avançando para o interior da habitação,observando umas quantas malas de viagem que se encontravam logo ali à entrada, nomomento em que Sofia e Joana surgiram trazendo às costas uma pequena mochila cada -Podemos ir? - Onde estiveste? - indagou rispidamente a atraente rapariga dos cabelos lourosfingindo-se zangada - Estás quase meia hora atrasado!... - Também não é tanto assim... - defendeu-se ele, olhando para o seu relógio de pulso- ...são só vinte minutos... Então, estão prontas? - Sim, só temos que levar estas malas para baixo... Importas-te? - pediu Rita, olhandopara ele e apontando simultaneamente para os quatro volumes que estavam cuidadosamentedispostos mesmo ali à sua frente - Não, claro que não! - respondeu Jorge, pegando cavalheirescamente em duas dasmalas, e dirigindo-se para o patamar exterior - Trazem tudo?... - Sim, está tudo aqui, e é só a Joana fechar a porta que vamos já... - replicou Sofia,agarrando numa mala, enquanto que Rita pegava na última, e Joana tirava do bolso ummolhe chaves a fim de fechar a porta de entrada. Os quatro jovens, desceram tranquilamente os vários lanços de degraus, atéchegarem à saída do edifício. Depois Jorge, abriu o espaçoso porta-bagagens do BMWcoupé, e juntou aos dois sacos de desporto que fora buscar a casa, os quatro volumespertencentes às colegas. Em seguida, deu a volta ao automóvel, entrando também ele no 38
  • 39. artciencia.com (ISSN 1646-3463) Ano I ● Número Dois ● Fevereiro-Abril 2006interior do veículo, ocupando o lugar do condutor. Por fim, iniciou cautelosamente a marcha,dirigindo-se a velocidade moderada para a via de acesso à auto-estrada, por força do intensotráfego que se registava àquela hora. Eram sete e meia da tarde, quando o BMW amarelo parou na portagem da via rápida.Jorge abriu o vidro, e esticando o braço esquerdo retirou o título que devia entregar à saída. - Segura nisto, por favor... - pediu a Rita, que seguia a seu lado, entregando-lhe opedaço de papel, e arrancando sem perder mais tempo. - Queres que eu guarde? - sugeriu a colega, colocando o tiket no bolso dos seusjeans... - Sim, se não te importas. E é melhor pores o cinto... - aconselhou, reparando que Ritanão fazia uso do cinto de segurança. Enquanto que nos lugares da frente Rita e Jorge conversavam animadamente, láatrás, Sofia e Joana permaneciam aparentemente silenciosas, escutando com atenção odesenrolar da conversa entre os dois primeiros... - Trouxeste aquilo? - indagou a dada altura Sofia, falando ao ouvido da colega queseguia ao seu lado. - Que disseste...? - perguntou a outra talvez um pouco mais alto do que devia,recebendo por isso uma cotovelada. - Cala-te que eles podem ouvir!... - ordenou-lhe de imediato a rapariga furiosa,suspirando de alívio, uma vez que nem Jorge, nem Rita se aperceberam da suspeita troca depalavras em surdina, que se desenrolava no assento traseiro - Eu perguntei se não teesqueceste de trazer “ aquilo “... - Fica descansada que está tudo aqui dentro... - esclareceu Joana falando baixinho, eapontando para a mochila que estava junto aos seus pés. - Se a Rita alguma vez te perguntar por isto, tu não sabes de nada... - recomendou ,sussurrando-lhe ao ouvido - Se ela descobre o que vamos fazer, ...estamos fritas... - Não te preocupes... - principiou a sedutora jovem dos cabelos louros - ...olha bempara ela, está completamente caídinha por ele... - E ele por ela... - observou Sofia com perspicácia, trocando um olhar cúmplice com aamiga. - ...Então, ...não dizem nada? - indagou de súbito Jorge, levantando um pouco a voz,falando para Sofia e Joana, que continuavam entretidas, conversando em surdina - Joana!?...Sofia!?... - chamou ele observando-as pelo espelho retrovisor. - Diz, ...o que é?... - respondeu Joana, levantando a cabeça um tanto comprometida. - Eu e a Rita estávamos a combinar darmos um passeio amanhã ou no Domingo paravocês ficarem a conhecer um pouco do Ribatejo, ...o que acham? 39
  • 40. Cartel Fantasma Alexandre Figueiredo - Óptima ideia!... - concordaram ambas prontamente. - Gostávamos imenso! - acrescentou Sofia. ... - Vou ter que parar ali à frente em Pombal para meter gasolina... - anunciou Jorge,quando passavam a grande velocidade por uma placa que indicava a distância a que seencontravam da Área de Serviço mais próxima. Alguns instantes mais tarde o BMW amarelo desviou-se da auto-estrada, entrando navia de acesso ao posto de abastecimento. Após o veículo se ter imobilizado surgiu ogasolineiro ao qual o rapaz entregou a chave que abria o depósito de combustível doautomóvel... Minutos depois, quando já rodavam de novo na auto-estrada, foram surpreendidos poralguns pingos de água que à medida que o tempo passou foram aumentandoprogressivamente, até que a dada altura chovia quase diluvianamente. Por volta das oito emeia, passavam ao lado de Leiria, e mais tarde próximo de Fátima, onde os esperava umasurpresa desagradável; à chuva que caía torrencialmente, juntou-se-lhe também um nevoeiromuito intenso o que obrigou Jorge a reduzir ainda mais a velocidade por força das difíceiscondições de visibilidade. - Se isto continua assim até Santarém, não chegamos lá hoje!... - observou o jovem,mostrando-se bastante desagradado com o mau tempo. - Ainda falta muito? - indagou Rita lá de trás, que aquando da paragem na Área deServiço de Pombal havia trocado de lugar com Joana. - Um pouco, ...mais ou menos cinquenta quilómetros, e se apanhamos nevoeiro aqui,o mais certo é termos que o aguentar até Torres Novas. Talvez... - E falta muito para Torres Novas? - interrompeu Sofia. - Cerca de vinte quilómetros... - esclareceu Jorge, guiando com perícia naquelascondições tão adversas... ... - É naquele prédio lá ao fundo... - disse o rapaz, respondendo à pergunta de Joana,apontando também para a enorme construção que fora erguida no final da rua em quecirculavam - Vamos entrar pela garagem subterrânea... - prosseguiu, contornando o edifício,enquanto procurava simultaneamente no tablier do veículo o controlo-remoto que fazia abrir oportão que dava acesso à cave do prédio. Jorge deixou o BMW coupé estacionado não muito longe do elevador, e logo que abriua porta do automóvel, repetiu o gesto com o comando à distância, para que o portão fechassede novo. Ainda antes de sair do interior do espantoso coupé amarelo, puxou a alavanca quese encontrava ao lado do assento do condutor para que se abrisse o porta-bagagens, 40
  • 41. artciencia.com (ISSN 1646-3463) Ano I ● Número Dois ● Fevereiro-Abril 2006puxando depois para fora todas as malas, que pousou com cuidado no chão, transportando-as logo em seguida para o elevador. Após todos terem entrado, Rita premiu o botão no qualestava inscrito o numero nove, e o elevador iniciou lentamente a ascensão... - Isabel!... Onde estás? - gritou Jorge, pousando a bagagem no chão do hall deentrada do apartamento, fazendo um sinal às colegas para que fizessem o mesmo. - Estou aqui, ...na sala, ...eu vou já!... - respondeu uma voz feminina do interior dahabitação - Olá!... - cumprimentou a rapariga surgindo de súbito à entrada do corredor,dirigindo-se a Jorge, e abraçando-o com ternura - Por fim chegaste, já começava a ficarpreocupada... - Havia nevoeiro na Serra D’Aire... - esclareceu o jovem - Bom, mas isso nãointeressa... Olha, estas são as colegas de quem te falei: esta é a Rita, a Sofia, e aquela é aJoana - disse, apontando respectivamente para cada uma delas à medida que iapronunciando os seus nomes - E esta, é a Isabel, a minha irmã - acrescentou, apertandocontra si o corpo frágil e delicado da irmã. - Pára... - protestou ela, rindo-se divertida - Está quieto, ...estás a fazer-me cócegas,...pára, ...por favor...!... Isabel conseguiu por fim libertar-se dos braços fortes que a envolviam, ecumprimentando delicadamente as colegas do irmão, convidou-as para a enorme eacolhedora sala de estar, onde na lareira ardia um agradável fogo que aquecia e tornava maisagradável aquele espaço. - Que bela casa! - observou Joana, sentando-se no confortável sofá de pele em frenteda lareira. Isabel não respondeu ao comentário da lindíssima rapariga dos cabelos louros,limitando-se a sorrir, e anunciando que ia ver se o jantar já estava pronto saiu,encaminhando-se para a cozinha. No entanto as visitas insistiram em ajudar, e juntasesticaram uma toalha de linho branco sobre a mesa da sala de jantar, distribuindo depoiscinco pratos, e igual número de copos, talheres e guardanapos. - Isto está óptimo! - observou Rita, saboreando mais um pouco do suculento assadoque Isabel preparara para a refeição - Batatas assadas com carne de... ...de quê...? -indagou, virando-se na direcção da irmã de Jorge que ocupava um dos topos da mesa. - É cabrito assado... - Cabrito, ...hem, acho que nunca tinha provado. - Gosto mais de javali... - interrompeu Jorge bebendo um gole de sumo de laranja. - Javali!?... - exclamou surpreendida Sofia. - Sim, tem uma carne muito saborosa e compacta, muito diferente daquilo a queestamos habituados - explicou o anfitrião, ajudando a irmã a recolher os pratos, depois de 41
  • 42. Cartel Fantasma Alexandre Figueiredotodos terem terminado. Isabel pegou na louça que havia sido utilizada durante a refeição, e desapareceu nocorredor em direcção à cozinha. O irmão acompanhou-a, regressando pouco tempo depois,trazendo um prato, sobre o qual se podia observar um apetitoso bolo gelado. atrás dele surgiuIsabel com taças e talheres para todos. - Espero que gostem disto... - principiou a rapariga, cortando a deliciosa sobremesaem fatias - porque foi tudo o que consegui encontrar. hoje saí muito tarde, e já não tive tempopara fazer nada. - acrescentou ainda, entregando uma taça a Rita, que agradeceu sorrindo... Depois de terem terminado a refeição, Jorge propôs que fossem beber um café àpastelaria que ficava ali próximo. Porém, Sofia lembrou que já passavam alguns minutos dasonze horas, pelo que os cinco jovens optaram por se sentarem nos confortáveis sofás da salade estar, em frente da acolhedora lareira, vendo o filme que Isabel alugara no clube de vídeo,nessa mesma tarde. Quando por volta da uma hora da manhã o filme terminou, Joana sugeriu que fossemdormir, o que agradou a todos, pelo que foram buscar as malas que haviam deixado no hallde entrada. Depois, Jorge distribuiu pelas três visitas os quartos que estavam vagos,entregando a cada uma das colegas a respectiva bagagem. - Aquela porta ali..., é da casa de banho privativa - indicou a Rita, que ficara com oúltimo quarto - Boa noite e até amanhã!... - acrescentou ainda. - Então, ...até amanhã!... - respondeu a jovem, empurrando a porta até esta ficar presano trinco. Após Rita, Sofia e Joana terem sido instaladas, Jorge e Isabel subiram tranquilamenteos degraus que conduziam aos seus quartos. Já no piso superior, depois de se abraçaremcom ternura, trocaram um beijo na face, e despediram-se com um “ Boa Noite! “. Por fim, Jorge entrou no seu quarto, e fechando a porta dirigiu-se para o seu quarto debanho privativo, regressando poucos minutos volvidos já preparado para dormir. Por isso,enrolou-se confortavelmente nos lençóis, desligando o pequeno candeeiro da mesinha decabeceira em seguida. não tardou muito até que os cinco jovens dormissem profundamente eaquele magnífico apartamento estivesse mergulhado num silêncio quase absoluto... A meio da noite, porém, a tranquilidade reinante foi subitamente interrompida... A dadaaltura, o ruído de uma porta a ranger fez-se ouvir... Alguém circulava pela casa... Um vultosinistro foi sucessivamente abrindo as portas de todos os quartos de dormir, espreitando parao seu interior, procurando talvez certificar-se de que todos os ocupantes da casa dormiam.Depois, movendo-se silenciosamente a misteriosa personagem dirigiu-se para a sala... Semfazer barulho, abriu várias gavetas da enorme estante, afastou alguns livros, voltando aarrumar tudo cuidadosamente... De súbito, ouviu-se novo ruído; desta vez a madeira a 42
  • 43. artciencia.com (ISSN 1646-3463) Ano I ● Número Dois ● Fevereiro-Abril 2006estalar, precedida de uns quantos passos que pareciam vir da escada e se aproximavamdepressa... O intruso, agindo quase por instinto ocultou-se rapidamente atrás de um dosmapples, arrastando consigo o cinzeiro de metal que caiu com estrondo sobre o chão... Deimediato a sala ficou iluminada, e um segundo indivíduo penetrou no seu interior... Era Jorge,que olhava surpreendido para todos os lados, pegando confuso no pequeno objecto de metal,e voltando a colocá-lo sobre a elegante mesa de madeira que servia de objecto de decoraçãoàquela divisão. Antes de sair, deu ainda uma última vista de olhos sobre a sala, e nãoencontrando nada fora do comum, desligou o interruptor, e afastou-se tomando a direcção dacozinha... Aí, tomou um copo de água fresca, e regressou ao seu quarto... Entretanto, o que se passara com a misteriosa personagem que se refugiaraprecipitadamente atrás de um dos sofás individuais quando escutara os primeiros ruídos...?Aparentemente nada, pois permanecia ajoelhada no mesmo local em que se esconderamomentos antes... Logo que pressentiu que Jorge fechara a porta do seu quarto, o vultovoltou a movimentar-se, e erguendo-se, continuou a sua estranha busca... Depois da sala deestar, dirigiu-se ao escritório, revistando todas as gavetas da secretária sobre a qual seencontrava um computador pessoal. Na segunda, encontrou um rolo de fita-adesiva, que tiroupara fora, cortando duas tiras que colou no estranho objecto que segurava na mão esquerda.Em seguida, abriu a última gaveta da secretária, , e tirando-a para fora, colou sob o seufundo o bizarro volume... Por fim, voltou a colocar a gaveta no seu devido lugar, pegandotambém no rolo de fita-adesiva... Porém, logo a seguir ouviu-se novo ruído... Alguém acabarade entrar na cozinha. Aquela misteriosa personagem arrumou a fita no seu lugar, e semhesitar abandonou o escritório, fechando cuidadosamente a porta, e indo discretamenteespreitar quem estaria a pé àquela hora; era Isabel, que encostada a u armário trincavadescontraidamente uma maçã. Esta, viu uma sombra em movimento, e intrigada correu parafora da cozinha... O indivíduo, quando pela atitude de Isabel suspeitou que a sua presençafora detectada, esgueirou-se rápida e silenciosamente para o escuro corredor,desaparecendo em seguida, pelo que, quando Isabel chegou à entrada do mesmo e nãovislumbrou nada de anormal, acabou tranquilamente de saborear o fruto, regressando depoisao seu quarto... Eram então cinco e meia da madrugada, e aquele apartamento voltou a ficarmergulhado num silêncio quase absoluto... ... - Naquele armário encontras melhor que isso... - principiou Jorge, entrando na cozinhaainda em roupão, e encontrando Sofia que já pronta tirava pacientemente a pele a um kiwi. - Caramba, assustaste-me!... - exclamou a colega que não se apercebera da presençado rapaz, dando um salto e deixando cair o fruto. - Olá, ...bom dia! - cumprimentou o jovem - Desculpa, não quis assustar-te... - 43
  • 44. Cartel Fantasma Alexandre Figueiredoprosseguiu - ... mas deve haver para aí bolachas e biscoitos, por isso serve-te à vontadeenquanto eu vou tomar um duche. Jorge terminou a frase, e sorrindo afastou-se tranquilamente em direcção ao seuquarto de dormir. Quando alguns minutos mais tarde o jovem reentrou na cozinha, Sofia já lánão se encontrava. Tirou uma porção de biscoitos de chocolate do interior do pacote que acolega deixara sobre a mesa, e resolveu procurá-la. Tentou em primeiro lugar na sala deestar, mas um ruído vindo do escritório chamou-lhe a atenção, pelo que para lá seencaminhou sem grandes pressas. pela nesga da porta entreaberta, avistou a rapariga, queparecia entretida com um jogo de computador. - Não sabia que gostavas destas coisas!... - Tu..., ...outra vez!... Já é a segunda vez hoje... Queres matar-me de susto? - acusou,fingindo-se indignada. - Tenho aí jogos melhores que esse! - principiou Jorge, puxando uma cadeira, esentando-se ao lado de Sofia. - Também queres jogar? Os dois passaram um pedaço divertido, competindo um contra o outro num simuladorde corridas de automóveis. Algum tempo depois, a porta do escritório voltou a abrir-se, eapareceu a cara de Joana, que rindo foi perguntando: - Posso juntar-me à festa? - Podes, ou melhor, até me podes substituir, enquanto eu vou acordar a minha irmã.Temos que aproveitar hoje, uma vez que não está a chover, para darmos o tal passeio peloRibatejo... - esclareceu, cedendo o seu lugar à recém-chegada, e saindo em seguida. Após Jorge ter fechado a porta, e os seus passos terem deixado de se ouvir, Sofiaperguntou com uma expressão pouco inocente. - Já te livraste daquilo? - Sim... - respondeu a outra, e baixando a voz, prosseguiu cumplicemente quase emsurdina - ...mas quase fui apanhada por duas vezes. Quando estava na sala à procura de umesconderijo para aquilo, apareceu o Jorge, que não me descobriu por pouco... Depois,quando tinha acabado de esconder os negativ... - Chiiiiuuuuuuu!!!... Cuidado, - avisou Sofia - ...não fales nisso, ...pode apareceralguém! Então e depois, ...que aconteceu...? - indagou por fim. - Quando eu acabei, ouvi um barulho na cozinha; ...era a Isabel. Como ela estavadistraída, aproveitei a altura para me pôr ao fresco, ...mas ela deve ter-me topado, porqueveio atrás de mim... - E apanhou-te? - Não, quando chegou à entrada do corredor, e não viu ninguém, desistiu, e voltou 44
  • 45. artciencia.com (ISSN 1646-3463) Ano I ● Número Dois ● Fevereiro-Abril 2006para a cozinha... - E aonde é que os escondeste? - Estão aqui... - respondeu a atraente jovem dos cabelos louros, abrindo a últimagaveta da secretária sobre a qual estava o computador, e mostrando à companheira ondeestava escondido o objecto de que tanto se queriam ver livres... - Guarda isso, porra!... - ordenou Sofia rispidamente - E não digas nada à Rita, estábem? - insistiu ainda. - T’ ás louca! - replicou a outra, voltando a colocar a gaveta no seu lugar - Se eladescobrisse, dava cabo de nós!... Estava então desvendado o enigma acerca da misteriosa personagem que durante amadrugada anterior vagueara pelo apartamento. Fora Joana, que errara pela habitação natentativa de esconder o volume que acabara de mostrar à sua cúmplice. esta situação era nomínimo bizarra; porque teriam as duas raparigas teriam escolhido a casa de Jorge e Isabelpara ocultarem tão suspeito objecto, e porque razão insistiam em não dar a conhecer o factoà companheira e amiga, Rita. Entretanto, e enquanto se desenrolava tão comprometedora conversa, o anfitrião foradespertar a irmã. Porém , após ter entrado no quarto dela, o jovem compreendeu que Isabeljá se levantara, e estaria provavelmente naquele momento debaixo do chuveiro, pois de ondeestava o rapaz ouvia nitidamente o som da agua a cair na superfície da banheira. Por isso,Jorge saiu, e desceu os degraus que conduziam ao piso inferior. Depois encaminhou-se parao quarto em Rita ficara instalada, e bateu levemente três vezes, chamando em simultâneopela jovem. Não obtendo qualquer resposta, rodou a maçaneta, e entrou, deixando a portaentreaberta. Sem ruído, aproximou-se da cama, e ajoelhou-se junto da mesinha de cabeceira,contemplando o rosto adormecido da colega. Alguns dos longos cabelos castanhos pendiam-lhe sob a face tranquila, iluminadapelos escassos raios de luz que conseguiam timidamente penetrar pelas frinchas da janela. Orapaz passou-lhe as mãos pelos cabelos, beijando-a com ternura no rosto, e pronunciando oseu nome em seguida: - Rita!... - chamou com voz doce, quase sussurrando - Rita!... Acorda!... - insistiu,abanando suavemente o corpo sensual e franzino da rapariga. Por fim ela abriu os seus magníficos olhos castanhos, fitando-o com um olhar puro esingelo. - Madrugaste, hem!?... - observou, bocejando longamente - Que se passa? - Como está bom tempo, eu pensei que poderíamos dar hoje aquele passeio,conforme tínhamos combinado ontem. - esclareceu ele, beijando-lhe suavemente a pelesuave do rosto - Então, ...que dizes? 45
  • 46. Cartel Fantasma Alexandre Figueiredo - É uma óptima ideia! - concordou a colega - Que horas são? - Dez e meia - respondeu Jorge, consultando os ponteiros do seu relógio de pulso - Válá, levanta-te e arranja-te para não perdermos mais tempo. - Está bem, eu vou só tomar um duche num instante, e já lá vou ter, o.k.? - anunciou,levantando-se, e passando a sua mão com ternura pelos cabelos louros do companheiro. - Não te demores!... Depois Rita, dirigiu-se apressadamente para o quarto de banho, fechando suavementea porta. Ainda Jorge não tivera tempo de se levantar, quando a porta de abriu de novo: - Não vale espreitar, ouviste? - avisou ela gravemente, falando para o anfitrião quepermanecia serenamente sentado na cama desarrumada, desaparecendo novamente nointerior do quarto de banho logo em seguida... ... - Que paisagem espectacular! - comentou Joana, chegando-se à beira da espessamuralha que se erguia sobre a vasta extensão de planícies verdejantes que se estendiam àsua frente por vários quilómetros, e que a rapariga contemplava maravilhada. - Com umavista assim, não era muito difícil a quem estivesse no aqui castelo avistar qualquer inimigoque se aproximasse. - Sim, é verdade... - concordou Isabel, que estava mesmo ao lado da colega do irmão. - Em que ano tomou D. Afonso Henriques este castelo? - perguntou Sofia. - Não sei bem... - principiou a irmão de Jorge hesitando um pouco - ...talvez...., talvezo Jorge saiba!... - disse, vendo o rapaz aproximar-se, acompanhado por Rita. - Bem, é melhor irmos embora, ou não conseguiremos ver tudo - propôs ele chegandojunto das três raparigas - Que dizem? - Talvez seja boa ideia... - aprovou Joana. - Onde é que vamos a seguir? - indagou Rita. ~- Ainda vos queria mostrar o Museu de S.João de Alporão, e a Igreja de Marvilaantes do almoço... De tarde, podíamos ir a Tomar, se vocês quiserem. Se no fim ainda sobrartempo, depois logo vemos. - anunciou o jovem. - Então, ...estamos à espera de quê? - inquiriu Sofia, tomando a iniciativa e dando umpasso em frente. Os cinco jovens encaminharam-se tranquilamente em direcção ao distinto Rover 620preto, deixando para trás as Portas do Sol. Isabel ocupou o assento do condutor, tendo a seulado Joana, enquanto que o irmão dividia o assento traseiro com Rita e Sofia... À uma e meia da tarde, , já depois de terem visitado o Museu de S. João de Alporão, ea Igreja de Nossa Senhora de Marvila, entraram num restaurante típico que ficava no centrohistórico da cidade de Santarém. Escolheram uma mesa não muito longe da entrada, e por 46
  • 47. artciencia.com (ISSN 1646-3463) Ano I ● Número Dois ● Fevereiro-Abril 2006fim sentaram-se, aguardando pacientemente que um dos indivíduos de casaca preta quecirculavam entre as várias mesas lhes trouxesse e ementa. Jorge e a irmã escolheram “Bacalhau com Natas”, enquanto que as três colegas do rapaz optaram por provar a “ Carnede Porco à Alentejana “. Para a sobremesa, decidiram-se pelo “ Doce de Amêndoa ”,seguindo o conselho do empregado de mesa, que o recomendava vivamente. A refeiçãoterminou com o habitual e quase inevitável café. Após aquele esplêndido almoço puseram-se a caminho de Tomar, a fim de visitaremalguns dos inúmeros locais de interesse turístico da cidade... - Onde é que vamos agora? - perguntou Isabel ao irmão a dada altura. - Podemos começar pelo Convento de Cristo, que fica já ali naquele monte - sugeriuJorge, apontando para uma elevação que se via a curta distância do sitio onde seencontravam. - Não é lá que fica aquela janela muito famosa, ...a janela... do..., do..., do..., -principiou Rita, tentando recordar-se do nome da célebre obra de arte, que apareciafrequentemente nos livros de História. - Do Capitólio!... - ajudou Sofia. - Capítulo... - corrigiu o colega, rindo-se divertido da confusão da rapariga. - Janela do Capítulo!... - repetiu ela - è isso mesmo, falámos dela muitas vezesquando estudámos o Manuelino em História no secundário. - concluiu com um sorrisotriunfante. Aquele grupo bem-disposto chegara a Tomar pouco tempo antes. Apesar dasugestão de Jorge, acabaram por passear primeiro por alguns dos muitos jardins da cidade.Sofia ficou encantada com a tarambola que girava lentamente ao sabor das águas tranquilasdo Nabão. Rita e Joana, por sua vez ficaram bastante impressionadas com as pinturas queforam encontrar na Igreja Matriz, de onde acabavam de sair naquele momento... Jorge, que entretanto trocara de lugar com a irmã, ocupou o lugar do condutor dolindíssimo Rover negro, iniciando suavemente a marcha, poucos instantes após terengrenado a primeira velocidade, e libertado igualmente a alavanca do travão de mão doautomóvel. Não tardou muito, apenas uns quantos minutos, até que se encontrassem todos àentrada do imponente monumento. Uma vez dentro do Convento de Cristo, observaramatentamente não só a famosa Janela do Capítulo, como também as belas pinturas e osriquíssimos azulejos, e ainda as curiosas e antiquíssimas ruínas que foram descobertas noespaço envolvente do majestoso monumento de estilo Manuelino, que outrora pertenceu aosTemplários e posteriormente à Ordem de Cristo. Após deixarem o Convento de Cristo, Jorge propôs que fossem lanchar, e semesperar pela resposta das companheiras entrou decididamente na primeira pastelaria que 47
  • 48. Cartel Fantasma Alexandre Figueiredoencontrou, ocupando de imediato uma mesa... - Isto não é nada bom para a “ linha “ ! - observou Sofia a dada altura, saboreandogulosamente mais um pouco do seu cremoso bolo - Supostamente eu estou a fazer dieta!... -acrescentou ainda despreocupadamente. - Eu também!... - respondeu o colega, prontamente, acabando de comer a deliciosafatia de torta com chantilly - Traga-me outra, por favor!... - pediu quando a simpáticaempregada passou pela mesa onde se tinham instalado. - Realmente nota-se!... - observou a irmã com um ar de reprovação - Não tens mesmoemenda!... Guloso!... As quatro raparigas esperam pacientemente até que ele terminasse a sua bebida,saindo depois todos juntos. Já à saída, Jorge sugeriu que visitassem a Sinagoga da cidade.Aquele templo de culto hebraico, adquiriu particular importância uma vez que é o único dogénero em Portugal, pelo que o rapaz, argumentando que seria uma pena não o visitarem,voltou para trás em busca do monumento... Faltavam escassos minutos para as seis da tarde quando deixaram Tomar. A caminhode Santarém, passaram ainda por Torres Novas no intuito de irem ao Castelo da cidade, evisitarem o Museu Municipal Carlos Reis. Contudo, não tiveram sorte, uma vez que amboshaviam encerrado pouco tempo antes; às três horas. Por isso, foi com alguma tristeza queentraram de novo no elegante automóvel negro, e iniciaram a viagem de regresso aSantarém... Ainda não eram sete da tarde, quando Jorge estacionou o Rover 620i na garagemsubterrânea do imponente edifício em que o jovem habitava com a irmã. Na rua, os últimosraios de sol há muito que haviam já descido no horizonte, dando lugar à escuridão da noite. - Foi uma pena não termos chegado a tempo de vermos o museu e o castelo emTorres Novas... - lamentou-se Isabel à entrada do apartamento, esperando que o irmãoabrisse a porta. - Não faz mal... - retorquiu de pronto Rita - ...fica para a próxima. - Afinal o que interessa é que ficamos a conhecer um bocadinho de uma regiãodiferente, e que não imaginávamos que fosse tão bonita... - Em todo o caso, poderemos sempre combinar outro fim-de-semana, ou talvez atéuma semana inteira! - disse Jorge, abrindo finalmente a porta de entrada. - E porque não...? Até é uma boa ideia!... - concordou a irmã de pronto, encantadacom a ideia de poder receber de novo as três companheiras, com quem tanto simpatizara... Sem perderem mais tempo dirigiram-se todos rapidamente para a cozinha, a fim deprepararem o jantar. Como haviam almoçado bem, Sofia propôs que jantassem qualquercoisa mais leve, e que sobretudo não desse muito trabalho a confeccionar, pois o serão no 48
  • 49. artciencia.com (ISSN 1646-3463) Ano I ● Número Dois ● Fevereiro-Abril 2006mínimo prometia. Na televisão ia ser transmitido o desafio de futebol entre o Benfica e oSporting, e uma vez que os dois clubes seguiam empatados no primeiro lugar daclassificação, o interesse era redobrado, pelo que, nenhum dos cinco jovens, como grandesadmiradores que eram daquele desporto, queria perder o encontro por nada. Por isso,optaram por grelhar uns hambúrgueres, que acompanharam com um suculenta salada dealface e outros vegetais. Jorge, pegou ainda nalgumas laranjas, que transformou numfresquissímo sumo natural, com a ajuda do espremedor de citrinos. Por fim, dividiram o querestava do enorme saco de biscoitos de chocolate, e voltaram a guardar tudo, arrumandotambém a louça suja na máquina de lavar-louça. Às oito e vinte, instalaram-se todos nos cómodos sofás de couro castanho da sala deestar, aguardando com grande expectativa pelo início do derby, que principiaria dez minutosmais tarde. Não tardou muito até que estivessem os cinco com os olhos pregados notelevisor. O ambiente não poderia der melhor no que diz respeito às cores clubísticas, haviade tudo um pouco; os anfitriões eram ambos sócios do Benfica, e enquanto que Joana torciapelo Sporting, Rita e Sofia mantinham-se um pouco mais distanciadas da disputa. A primeiragostava do Boavista, enquanto que a simpatia da segunda recaía no F.C. Porto. - Não tens vergonha!?... - principiou Jorge com um ar de troça, fingindo-se indignadoao mesmo tempo, falando na direcção de Joana - Nasceste e cresceste no Porto, quando nãoestás em aulas é no Porto que vives, e és sportinguista? Poderias pelo menos ter feito comoelas; - continuou, fazendo uma breve pausa, e apontando para Sofia e Rita - mal por mal, épreferível apoiar os clubes da terra. Mas tu, ...sem comentários!... - Não sabia que tinhas nascido em Lisboa!... - respondeu prontamente a colega namesma moeda. - Um igual: estão empatados!... - exclamou Isabel divertida servindo de árbitro nadiscussão - Vamos ao segundo assalto!... O despique estava ao rubro, e as duas raparigas que até então se tinham mantido emsilêncio, resolveram também entrar na disputa. Por isso, quando alguém propôs queapostassem a dinheiro, para tentarem adivinhar o resultado do jogo, todos alinharam deimediato, e em breve cinco notas de mil escudos apareceram em cima da pequenina mesa demadeira que se encontrava no centro da sala de estar. O par que torcia pelo Benfica,apostava numa vitória das suas cores; Joana, pelo contrário, afirmava que seria o Sporting avencer o derby. Rita e Sofia que se mantinham neutrais, sempre iam dizendo que o ideal paraos clubes dos seus corações seria que perdessem ambos. Porém, e como tal não erapossível Sofia apostava num empate a zero, enquanto que a amiga dizia que tinha acabadode ter uma visão, na qual previra que o resultado seria um empate, mas a dois golos. Entretanto, o desafio principiara, e de imediato se fez silêncio, apenas interrompido 49
  • 50. Cartel Fantasma Alexandre Figueiredoaqui e ali pelas poucas palavras do comentador da televisão, ou pelo ruído da assistênciaquando se manifestava com maior vivacidade... E, quarenta e cinco minutos após o início,chegou o intervalo com o resultado ainda sem alteração para desespero de Jorge e Isabel,que pareciam ser os mais insatisfeitos... - Eu bem vos falei da minha visão! Tenho a impressão que talvez não fosse má ideiacomeçar a apostar mais vezes com estes nabos! - dizia Rita, após o final do jogo, recolhendoas cinco notas de mil escudos que se encontravam sobre a mesinha da sala de estar. A jovem não cabia em si de contente; tinha acertado em cheio no resultado do derby.Apesar da primeira parte ter sido nula em golos, o segundo tempo trouxe quatro; dois paracada lado, exactamente aquilo que a rapariga previra aproximadamente duas horas antes, epor isso, os cinco mil escudos da aposta foram direitinhos para a sua carteira. - Já sabes, ...para a semana és tu a pagar os lanches!... - avisou Jorge brincando,embora tivesse conseguido manter um ar sério - Nem vale a pena discutires... - acrescentouainda, não deixando que a colega tivesse oportunidade de ripostar. - Está bem, ...de acordo!... - anuiu ela, levantando-se enquanto anunciava - Hoje foium dia um bocadinho cansativo, e eu estou a ficar com sono. Vou-me deitar! - concluiu,encaminhando-se para a entrada do corredor... ... A manhã de Domingo, à semelhança do dia anterior surgiu igualmente radiosa, com osol a brilhar intensamente sob o esplendoroso azul do céu, aqui e ali salpicado por algumasnuvens mais persistentes. Porém, a temperatura não estava tão amena, e a brisa quesoprava de norte tornava-se por vezes muito desagradável. Apesar de na véspera ter sido o último a deitar-se, uma vez que após o jogo aindaficou levantado para ver o filme que ia começar de madrugada, Jorge foi naquela manhã oprimeiro a levantar-se, alguns minutos antes de baterem as dez horas. - “ Nada melhor que um belo duche para começar bem o dia!... “ - pensou, correndoapressadamente para o quarto de banho privativo. Não demorou muito tempo, até que o jovem entrasse na cozinha a fim de tomar o seupequeno-almoço. Não começara ainda a saborear os seus cereais, quando foi surpreendidopor Rita que surgiu à entrada da divisão usando ainda um roupão por cima da camisa denoite: - A pé tão cedo!?... - exclamou admirada - Vais sair...? - indagou curiosa,aproximando-se do colega e beijando-o com carinho na face. Sim..., tenho umas coisas para fazer... Queres vir?... - convidou ele. - Se não te importares de esperar um pouco enquanto me vou vestir, ...aceito! - Não, claro que não me importo, ...temos muito tempo!... 50
  • 51. artciencia.com (ISSN 1646-3463) Ano I ● Número Dois ● Fevereiro-Abril 2006 Depois de ter terminado o seu pequeno-almoço, Jorge foi sentar-se na sala de estarfolheando distraidamente as páginas de uma revista que ficara esquecida em cima daminúscula mesinha de madeira escura, enquanto aguardava pela rapariga. Rita voltou algunsminutos mais tarde, e em seguida saíram ambos. - Onde vamos? - inquiriu a atraente companheira entrando no elevador. - Já vais ver... - respondeu o colega com um sorriso enigmático, ao mesmo tempo quecarregava no botão do painel que correspondia ao piso subterrâneo. Já na garagem imensa do imponente edifício Jorge conduziu a jovem em direcção aoespectacular Ford Escort RS Cosworth que estava estacionado não muito longe do poço doelevador. - Então?... Anda daí, ...entra! - pediu, vendo que Rita parecia hesitar, sentando-se aovolante do automóvel. Rita acedeu ao convite do colega entrando finalmente no interior do espantosoveículo. Jorge engrenou a primeira velocidade, e o carro dirigiu-se muito devagar para a saídado prédio de apartamentos, tomando depois o caminho que conduzia aos arredores deSantarém. Poucos quilómetros mais à frente o automóvel vermelho desviou-se da estrada emque circulava, e parou junto de uma construção que a julgar pelo aspecto exterior não seriamuito recente. Jorge tirou do bolso do seu casaco um molhe de chaves e saiu do carro,fazendo um sinal à companheira para que fizesse o mesmo. Rita seguiu-o de perto, emboranão compreendesse porque razão o colega a trouxera até àquele lugar deserto e sinistro quemesmo à luz do dia lhe causava arrepios. - Que sitio é este? - perguntou a rapariga, um pouco intimidada pelo aspecto um tantodesolador daquele local. - Antigamente isto tudo servia de armazém a uma grande cadeia de supermercados,mas um dos sócios enganou os outros, e fugiu para o Brasil com todo o dinheiro da empresa.Depois foi declarada falência, e desde então que ninguém cá vem ... - Então o que estamos aqui a fazer? Não achas que deveríamos ir embora? - sugeriuRita ansiosa por sair daquele cenário pouco tranquilizador. - Tem calma... - descansou-a ele, mostrando-lhe as chaves que tinha na mãoavançando para um porta lateral. - Isto é teu? - Bem... - principiou o jovem hesitando - ...sim e ...não. Na verdade, o dono é o pai daAna, mas na prática é como se fosse meu, porque o meu tio nunca cá veio. A empresa devia-lhe muito dinheiro, e quando foi declarada a falência o meu tio exigiu aquilo que lhe deviam.Como não lhe queriam pagar, ele processou-os e como a firma estava falida acabaram porlhe entregar este armazém e mais um escritório em Lisboa - concluiu, abrindo a porta e 51
  • 52. Cartel Fantasma Alexandre Figueiredodeixando que a colega entrasse em primeiro lugar. Já no interior do espaçoso armazém, Jorge conduziu a acompanhante para próximode um volume que Rita não conseguiu identificar por este se encontrar protegido debaixo deuma capa de tecido grosseiro bastante suja. Depois de ter solto as pontas de tecido queestavam presas ao objecto, o jovem começou cuidadosamente a enrolar a capa, deixandofinalmente à vista um automóvel, provavelmente de colecção, cujo restauro não estava aindatotalmente concluído. - Então, que tal, o que achas? - indagou Jorge, apontando com orgulho para o veículo. Uaaaaaauuuuuu!!!... - exclamou a rapariga, surpreendida - Parabéns, está umespectáculo! Foste tu que fizeste tudo? - Não, ...por exemplo a capota e as alterações na estrutura foram feitas em Lisboa porum amigo meu que tem uma oficina, o motor comprei-o em segunda mão, mas de resto eexcepto a pintura e os travões que mandei instalar, fui eu quem fez. - principiou o jovem,tentando recordar-se de alguns pormenores - Aos fins de semana, ou quando tinha tempolivre, vinha para aqui trabalhar no carro. Quando o comprei estava um miséria, comecei por odesmontar todo, quase peça por peça para fazer um inventário de tudo o que iria precisar,depois foi só percorrer lojas de acessórios de automóveis, sucatas, etc. e arranjar as peçasque precisavam de ser substituídas, embora não tenha sido fácil, porque algumas partesdemorei vários meses até encontrar exactamente aquilo que queria. - Mas valeu a pena, ou não? - Claro que sim. É recompensa suficiente olhar para o carro agora, e lembrar-me decomo ele estava quando mo vieram aqui trazer, nem sequer andava, e estava a desfazer-seem ferrugem, para além das amolgadelas, riscos na pintura, os farolins partidos, estavamesmo muito mal cuidado. - Já vi alguns Carochas lindos, e muito bem artilhados, mas este é de longe o maisbonito, e a pintura em azul metalizado ficou impecável - observou Rita, que ficara de factomaravilhada com o aspecto do gracioso automóvel. - É verdade, ...modéstia à parte, mas ficou um espanto! Espero que a Isabel gostetanto como tu... - findou, voltando a colocar cuidadosamente a capa sobre o veículo - Anda,quero mostrar-te uma coisa, mas tens que me prometer que não falas disto a ninguém, nemmesmo à Joana e à Sofia. - De acordo, mas o que é? - concordou Rita, deixando-se guiar pelo companheiro atéuma porta de madeira um tanto inestética, e toscamente acabada. Jorge pegou de novo no molhe de chaves que trazia consigo, e abriu o cadeado quecerrava a porta. Em seguida, entrou, recomendando à colega que esperasse um poucoenquanto através do tacto procurava o interruptor da electricidade. Finalmente aquele recanto 52
  • 53. artciencia.com (ISSN 1646-3463) Ano I ● Número Dois ● Fevereiro-Abril 2006mais obscuro iluminou-se deixando à vista um patamar, e um buraco no chão que dariapossivelmente acesso a uma cave através da escada de ferro que a rapariga vislumbrava dolocal onde se encontrava... - Tem cuidado, porque os degraus são um bocado falsos... - avisou o rapaz, descendocom uma agilidade notável, ajudando-a também depois na descida. - Mas o que é isto? - indagou Rita, olhando incrédula à sua volta. - Isto é o meu santuário, a minha paixão. Facas, catanas, espadas, sabres, estiletes,punhais, em suma, tudo aquilo que tiver lâminas é uma loucura para mim. Tudo o que aquivês fez parte da minha colecção privada, ...mas lembra-te, ...ninguém pode saber daexistência deste material - pediu, fazendo uma expressão grave, e acrescentando depois -...tu és a primeira pessoa que aqui trago. Nem mesmo a Isabel sabe da existência destelugar, portanto é muito importante para mim que continue secreto. - Está descansado, podes contar comigo - garantiu Rita, fazendo igualmente umaexpressão séria, porém orgulhosa por o colega ter decidido partilhar consigo a sua secretapaixão. Mas, tens aqui uma colecção impressionante! Como é que conseguiste reunir tantacoisa? - inquiriu Rita, pegando num punhal cravejado de pedras multicores que estavaexposto mesmo à sua frente - São verdadeiras? - indagou. - São... - respondeu o jovem acenando com a cabeça em sinal afirmativo - Essepunhal é a jóia da coroa da minha colecção. Para além de ter sido o primeiro, é o maisvalioso. Foi-me oferecido pelo meu pai no dia em que fiz doze anos - explicou, nãoconseguindo disfarçar uma certa emoção na voz quando se referiu ao progenitor - ...é umaherança de família. Eu limitei-me a acrescentar alguns exemplares. Depois fui-me virandopara outro tipo de objectos, que ia comprando em feiras de coleccionismo, a coleccionadoresparticulares, até chegar a isto que vês. - É impressionante, mas porque razão manténs verdadeiras obras de arte neste lugartão escondido, tão poeirento. É uma pena, peças tão lindas como estas estarem-se aqui aestragar. Já pensaste em fazer uma exposição? - Não quero... - Mas porquê, que mal é que tinha? - Mesmo que eu te pudesse explicar tu não compreenderias. Há coisas no meupassa... - principiou, interrompendo-se logo em seguida, e mudando imediatamente deassunto - Já viste as horas. É quase uma da tarde, temos que ir!... - concluiu, após terconsultado o seu relógio de pulso. Rita compreendeu de imediato que o colega deixara escapar qualquer coisa que nãoqueria, e por isso preferiu não insistir, deixando-se guiar de novo ao piso superior, e depoisaté ao magnífico Ford Escort Rs Cosworth que permanecia imóvel junto da cerca metálica 53
  • 54. Cartel Fantasma Alexandre Figueiredoque delimitava a área envolvente do armazém e impedia simultaneamente a aproximação deestranhos... ... - Onde é que estiveram? - inquiriu Sofia com cara de poucos amigos, quando amboscruzaram a porta de entrada do apartamento pertencente ao jovem. - Não achas que estás a querer saber de mais? - replicou Rita, sem se atrapalhar porum segundo. - Então não querem lá ver que convidei um membro da Inquisição para minha casa -acrescentou Jorge, concluindo o raciocínio da cúmplice - Queres mesmo saber onde fomos? - Sim, ...aliás, não quero, ...exijo! - prosseguiu a colega conseguindo manter-se séria. - Tens a certeza? - insistiu Jorge - Certeza absoluta! - respondeu Sofia convictamente. - Desiste... - aconselhou Isabel - ...quando ele começa com essa conversa ninguémlhe arranca nada! Mais vale irmos almoçar - sugeriu, encaminhando-se para a cozinha. - É isso mesmo... - aprovou o rapaz, seguindo a irmã - ... o que é que temos para oalmoço? - perguntou. - Já vais ver! Por agora, podes ir levando para a casa de jantar aquilo que for preciso,e lembra-te que temos visitas, ...não faças o mesmo do costume. Jorge ainda tentou protestar. Porém Isabel lembrou-lhe um jantar de há poucassemanas. Ele calou-se de imediato, e um pouco embaraçado pegou na tolha de linho que airmã lhe entregou, saindo em direcção à sala de jantar. O jovem voltou volvidos apenasalguns instantes, ajudando depois Rita e Joana a levarem pratos, talheres, e copos, queespalharam cuidadosamente sobre a distinta mesa de madeira exótica. Quase em seguidaentraram Isabel e Sofia, trazendo uma travessa cada, finamente decoradas com rodelas detomate e ovo cozido, folhas de alface, e cobertas por uma razoável camada de maionese, quepousaram delicadamente em cima da mesa. - Então o que é que vamos fazer esta tarde? - indagou Jorge, insistindo para que ascolegas e a irmã se servissem em primeiro lugar. - Podíamos ir ao cinema... - sugeriu Isabel, fazendo uma pausa enquanto ingeria umgole do seu sumo de maçã - ...li no jornal que estreia hoje um filme espectacular na sessãodas quatro, por isso talvez pudéssemos ir. - Está combinado! - decidiu Joana - E como até nem é muito tarde, dá tempo parajantarmos descansados e voltarmos cedo, porque amanhã há aulas logo de manhã... 54
  • 55. artciencia.com (ISSN 1646-3463) Ano I ● Número Dois ● Fevereiro-Abril 2006 Fim do 3º Capítulo 55
  • 56. Cartel Fantasma Alexandre Figueiredo Capítulo 4 - “ ...Antena 3, são sete horas da manhã. Vamos às notícias com Car... “ Jorge acordou de imediato e esticou a mão para desligar o despertador. Em seguidalevantou-se e foi até à janela. Ao longe no horizonte surgiam os primeiros raios de luz de maisuma fria manhã de Dezembro. - Segunda-feira!... - suspirou, falando de si para si - ...detesto as segundas-feiras!... -lamentou-se bocejando longamente. Antes de se dirigir para o quarto de banho optou por ir desfazer as malas, e arrumaras roupas que trouxera na véspera de Santarém, visto que na noite anterior quando chegaranão atirara toda a bagagem para cima do brilhante soalho do hall de entrada, e lá a deixaraaté àquele momento. Essa tarefa ocupou-o durante aproximadamente vinte minutos. Por fim,entrou então no quarto de banho repetindo uma vez mais o seu habitual duche matinal,vestindo-se logo depois. Antes ainda de sair, passou pela divisão onde habitualmente seencontrava o computador, e pegou nos livros que se encontravam sobre a secretária. Depois,dirigiu-se até à cozinha e bebeu apressadamente um iogurte liquido, e finalmente saiu,fechando a porta de entrada atrás de si. Atravessou a rua pouco movimentada àquela hora damanhã, e entrou no seu carro que ficara estacionado mesmo em frente. Rodou a chave naignição, e arrancou como sempre o fazia, bruscamente, tomando a estrada que conduzia aCoimbra no cruzamento que ficava umas dezenas de metros mais à frente. O dia estava um pouco frio, e algumas nuvens cinzentas pairavam sob o céu azulameaçando chuva. O sol, já há alguns minutos que surgira no horizonte, sendo por vezesocultado pelas sinistras nuvens que vagarosamente passavam. Quando cruzava os portões da faculdade, Jorge foi surpreendido pelas colegas quesurgiram nas suas costas tentando discretamente surripiar-lhe a carteira que comohabitualmente o jovem trazia no bolso traseiro dos jeans. Porém, Joana tocou-lhesuavemente no braço, o suficiente para que de imediato o jovem lhe agarrasseinstintivamente a mão: - Vocês!?... - exclamou incrédulo, libertando a rapariga. - Tens que ter mais cuidado com a carteira... - avisou a atraente colega dos cabeloslouros rindo divertida, devolvendo-lhe o objecto de pele que segundos antes quaseconseguira furtar com êxito. - Estou a ver que sim. Com vocês por perto ninguém está seguro. Mas, ...olá! Bom dia!- cumprimentou, beijando uma a uma as três companheiras. 56
  • 57. artciencia.com (ISSN 1646-3463) Ano I ● Número Dois ● Fevereiro-Abril 2006 - Então, estás melhor? - indagou Rita passando-lhe a mão pela testa - Ontem estavasmesmo em baixo. - Já está tudo bem... - principiou Jorge sorrindo aliviado - Depois de ter chegado acasa tomei um comprimido, e enfiei-me logo na cama, nem arrumei nada, ficou a tralha todaespalhada à entrada. Hoje de manhã felizmente acordei bem disposto, e sem febre. - Queres ir almoçar connosco lá a casa? - convidou a colega. - Está bem, porque não. Eu tenho aulas até à uma menos um quarto... - disse fazendouma curta pausa para consultar o seu horário - ...é isso mesmo! - confirmou, voltando aguardar o papel na carteira - Por isso, o mais tardar estou lá à uma! - Então está combinado, à uma estaremos à tua espera. E não te atrases... - avisouSofia com uma expressão grave. - Estejam descansadas, serei pontual... - disse sorrindo - ...prometo! - Se fores tão pontual como estás a ser agora... - gracejou Joana, exibindo omostrador do seu discreto relógio de pulso. - Mal parecia ao professor era se eu chegasse a horas, ...podia ficar ofendido! -interrompeu o jovem despedindo-se apressadamente das três raparigas, e afastando-se compassos rápidos na direcção do edifício da sua faculdade. Quando chegou junto da porta da sala onde ia ter a primeira aula do dia, que àSegunda-feira era Inglês, estavam ainda a entrar os últimos colegas... - “ Afinal até nem cheguei muito atrasado! “ - comentou com os seus botões sorrindo-se. À aula de Inglês segui-se uma outra de Direito, que começou por volta das dez e meiada manhã. O professor tinha adoecido, e estaria ausente durante algum tempo, pelo que aaula seria assegurada por um substituto. A dada altura um dos alunos lançou uma questãorelacionada com a custódia dos filhos do casal nos casos de divórcio, o que gerou deimediato uma acesa discussão entre todos, e que acabou por se arrastar pelo restante tempoda aula, sempre com o professor a esclarecer prontamente as dúvidas que iam surgindo... Passavam pouco mais de quarenta minutos depois do meio dia quando Jorgeabandonou o recinto da faculdade, encaminhando-se para o vistoso Ford Escort RSCosworth, que alguns segundos depois arrancava velozmente do parque de estacionamento,parando poucos minutos mais tarde em frente do nº23 da rua em que fora construído anosantes o prédio em que as três colegas dividiam um apartamento. Subiu apressadamente osvários lanços de degraus, e quando por fim se encontrou em frente à porta de entrada do 2ºdireito, premiu o botão da campainha. Não teve que esperar muito tempo até que diante delea porta se abrisse, surgindo Joana, que de imediato o convidou a entrar. 57
  • 58. Cartel Fantasma Alexandre Figueiredo - Como vês, fui pontual!... - disse, apontando para o relógio de pulso, no momento emque cruzava a entrada - Não sabia que tinham visitas... - observou tranquilamente ao deparar-se com o indivíduo que vestia de negro e segurava Rita mantendo-lhe uma arma de fogoapontada à nuca... - Não somos propriamente convidados... - respondeu um outro trazendo Sofia,igualmente armado com um revólver, usando os cabelos compridos apanhados - Ainda telembras de mim? - indagou com um sorriso pouco tranquilizador - Eu disse-te que nosvoltaríamos a encontrar, não disse? - Realmente eu tinha a impressão que já te tinha visto o focinho algures. Agoralembrei-me; tu és aquele durão do rabo-de-cavalo que me quis bater há uns dias! - respondeude pronto, mostrando-se muito pouco incomodado com os dois intrusos. - Marco! Marco! - avisou um terceiro sujeito que vestia fato completo e gravata,surgindo subitamente do interior da habitação, impedindo que o outro agredisse Jorge -Vamos ter calma. Primeiro vamos resolver aquilo que nos trouxe aqui, depois terás a tuaoportunidade de tratares da saúde aí ao nosso amigo comediante. E voltando ao nossoassunto... - continuou, virando-se para as três raparigas - é a vossa última oportunidade. Sese portarem bem, e nos derem aquilo que pretendemos, isto não passará de um interessantepasseio turístico! - concluiu com à-vontade. - Mas, ... mas afinal que merda vem a ser esta? - perguntou Jorge com cara depoucos amigos - O que é que querem estes gajos? - insistiu, falando para as colegas. - Elas têm algo que nos pertence... - explicou o indivíduo do rabo-de-cavalo - ...e nósqueremo-lo. Se nos derem aquilo que pretendemos, tudo se resolverá a bem, caso contrárioas coisas poderão ficar bastante desagradáveis... - ameaçou com um sorriso amarelo. - Nós já revistamos a casa toda... - principiou o homem do fato - ...e não encontrámosnada. Por acaso não nos quererão indicar um local onde não tenhamos verificado bem? -sugeriu, mantendo uma postura incrivelmente calma. Porém, as três raparigas mantiveram-se em silêncio, olhando cumplicemente umaspara as outras, perante a surpresa de Jorge, que embora não se mostrasse muito enervado,estava no entanto bastante surpreendido. Que teriam feito Sofia, Rita e Joana? Que queriamdelas os três perigosos malfeitores? - Têm a certeza que não querem acrescentar nada...? - repetiu o outro, fazendo umapausa esperando que alguém falasse - Receio, que assim sendo tenhamos que vos levarconnosco. - Então isso quer dizer que já não vamos almoçar!?... - perguntou Jorge pondo um arinocente, permanecendo sereníssimo, falando para as companheiras, que esboçaram umsorriso muito tímido. 58
  • 59. artciencia.com (ISSN 1646-3463) Ano I ● Número Dois ● Fevereiro-Abril 2006 - Tu aí, ...ó espertinho, ...vamos a calar, ...antes que te arrependas! - ordenourispidamente aquele a quem tratavam por Marco. - Bem, eis o que vai o que vai acontecer... - principiou aquele que parecia ser o líderdo grupo - vocês quatro vão-se portar bem, e vêem connosco fazer uma viagem, e quemsabe até umas curtas férias para visitarem uma pessoa muito, muito importante. Por isso,juízinho... - recomendou, e pegando num revólver continuou - Eu não quero ter que usar isto,...mas se for preciso, ...vocês sabem o que eu quero dizer. E agora, ponham-se em fila,vamos sair - acrescentou, friamente guardando a pistola. Eles obedeceram de pronto, e enquanto que o perverso homem que usava fato egravata se colocou à frente, os outros dois ficaram na retaguarda, imediatamente atrás deRita. Jorge, embora calmo, estava perplexo com aquela situação, visto que continuava semcompreender qual a ligação das colegas aos três indivíduos. Porém o jovem não estavadisposto a obedecer e a deixar-se levar fosse onde fosse sem que antes esgotasse todas ashipóteses de fuga. Por isso, logo que o primeiro abriu a porta, pôs em prática a primeira ideiaque lhe surgira: - Têm a certeza que isto não é para os “apanhados”...? - perguntou, tentando atravésda ironia provocar os três sujeitos, enquanto representava, olhando para todos os lados àprocura de uma pretensa câmara de filmar - Onde é que está a câmara, mas onde é quevocês meus malandros esconderam a porra da câmara, está muito bem escondida... O trio não parecia estar contudo para brincadeiras, porque de imediato rodearamJorge, falando num tom que não deixava grandes dúvidas: - Ouve com atenção meu merdas, porque não vamos voltar a repetir; ...ou estásquietinho, ou levas uma ameixa aqui mesmo, lembra-te que depres... Porém, não chegaram a acabar, pois o jovem com um exímio golpe de karatéderrubou de imediato dois dos comparsas, atirando-se de imediato ao outro mesmo antesdeste ter tido tempo de sacar da sua arma, agredindo-o com vários socos violentíssimos atéque ele caiu desamparado no chão... - Cuidado!... Atrás de ti... - gritou Joana, vendo que os dois primeiros acabavam de seerguer. Jorge com mais um pontapé certeiro derrubou o primeiro, socando depois o segundo... - Vamos embora, aproveitem enquanto eles estão no chão - disse - Rápido porra!... -insistiu chegando junto do sujeito que voltava a levantar-se, e sovando-o de novo até este cairpor terra. Depois pegou nas pistolas dos malfeitores e atirou-as para bem longe, juntando-se àscolegas que desciam as escadas a correr. 59
  • 60. Cartel Fantasma Alexandre Figueiredo - Outro!... - exclamou Jorge, quando viu aparecer um quarto homem que avançavapara eles de arma em punho vindo do exterior do edifício - Vão para o carro e esperem pormim - pediu, atirando as chaves na direcção de Sofia, enquanto que atacava decididamente operigoso desconhecido. Primeiro desarmou-o com mais um pontapé, e em seguida já com o revólver em seupoder, usou-o para agredir o indivíduo na nuca, aproveitando depois para fugir. Quando o seuopositor se começou a levantar surgiram os comparsas ainda cambaleando. Porém, noexterior já o Ford vermelho arrancava bruscamente, deixando atrás de si dois rastros deborracha marcados no pavimento. O bando de malfeitores vendo que era inútil disparar,precipitaram-se para o interior de dois Mercedes negros, e foram em perseguição dos quatrojovens... - Afinal, o que é que estes gajos querem? - perguntou Jorge olhado muito poucosatisfeito para Rita que ocupava o assento ao seu lado. - Querem que nós lhes entreguemos umas fotografias que tirámos nas férias... -principiou a colega a medo. - E porque é que essas fotografias são tão importantes? - Não sabemos ao certo, mas desconfiamos que foi alguém que pode ter ficado poracaso numa das fotografias. - Então e ...onde é que vocês as esconderam? - A... - Sofia hesitou antes de responder, trocando um olhar cúmplice com Joana, noentanto, e perante a insistência de Jorge acabou por revelar com voz sumida - ...estão em...estão... em Santarém, no teu apartamento... - O quê!?... Estão onde!?... Repete lá... - respondeu Jorge não ficando muito agradadocom aquilo que acabava de ouvir. - Jorge, olha, eles já vêm aí atrás! - preveniu Joana - Vamos à polícia... - decidiu o rapaz, observando através do retrovisor o Mercedesque seguia mesmo colado à sua retaguarda... - Não... - implorou Rita - ...à polícia não, não pode ser, eles têm grande poder ládentro. Ouve... - continuou com um ar preocupado mas sincero - ...a nossa única chance éfugirmos e escondermo-nos por uns tempos. Por favor confia em mim... logo que estivermosa salvo eu prometo contar-te a história toda. - De acordo... - anuiu Jorge, virando inesperadamente num cruzamento quaseperdendo o controlo do veículo - ...farei como me pedem. Agora, ponham os cintos porquevão ser precisos, e não façam barulho - pediu, efectuando uma ultrapassagem mesmo nolimite, evitando no último instante o veículo que circulava em sentido contrário. 60
  • 61. artciencia.com (ISSN 1646-3463) Ano I ● Número Dois ● Fevereiro-Abril 2006 O automóvel cruzava as ruas de Coimbra a uma velocidade alucinante, sempreperseguido de perto pelos dois Mercedes pretos que não descolavam. Jorge pensou aindaem tentar fugir na auto-estrada, porém acabou por desistir da ideia pois receou que os carrosdos malfeitores fossem mais velozes que o seu, pelo que a melhor solução seria sair dacidade, e tentar despistá-los numa estrada sinuosa... Os pneumáticos do Ford Escort RS Cosworth chiavam em cada curva de uma formaassustadora. Também, o caso não era para menos, pois o ponteiro do velocímetro rarasvezes fora abaixo dos 120 Km/h, e nem mesmo nas curvas o jovem abrandava, seguindomuito para além dos limites do próprio veículo, sem que no entanto tenha perdido por umavez que fosse o controle do mesmo. As colegas apesar de espantadas e completamentesurpreendidas pela perícia do amigo, seguiam amedrontadas, receando o pior a cadamanobra mais arriscada que o audaz rapaz efectuava. Contudo, mantinham-se em silêncio,respeitando o pedido do companheiro. Era absolutamente necessário que Jorge nãoperdesse a concentração, pois àquela velocidade qualquer distracção poderia revelar-se fatal.Apesar do automóvel seguir bastante para lá dos limites, a distância que conseguira ganharaos perseguidores resumia-se em algumas escassas dezenas de metros, o que eramanifestamente insuficiente para as pretensões do jovem. Por isso, ele carregou ainda maisfundo no pedal do acelerador, numa tentativa desesperada de ganhar terreno, e apesar denão estar muito calor, já era visível o suor que lhe corria abundantemente pelo rosto.Subitamente, e logo após uma curva sem visibilidade surgiu-lhes pela frente um veículopesado... Em sentido contrário, e não muito distante circulava outro que se aproximavarapidamente... Jorge não hesitou, e num acto quase suicida ultrapassou o camião, quaseembatendo no outro, cujo condutor buzinou fortemente protestando contra a ousada manobrado jovem. Atrás do camião com quem acabavam de se cruzar surgia uma coluna compostapor vários ligeiros, e logo a seguir aparecia mais uma sucessão de perigosas curvas econtracurvas. Os dois automóveis de cor negra ficaram retidos atrás do pesado, o queprovocou uma considerável perda de tempo, que favoreceu em muito os quatro fugitivos, quejuntaram alguns segundos às escassas dezenas de metros que já haviam conquistado... Quando aproximadamente cinco quilómetros mais à frente apareceu uma pequenapovoação, Jorge olhou uma vez para os espelhos, depois uma segunda vez, até que por fimpediu: - Vejam lá se eles já lá vêm. - Não consigo ver nada - respondeu Joana, voltando-se de pronto para trás. - Então vamos aproveitar, e escondemo-nos já aqui... - anunciou o colega, procurandoum cruzamento, ou um local onde se pudessem ocultar, embora sem reduzir a velocidade - 61
  • 62. Cartel Fantasma Alexandre Figueiredo...depois é só esperar que eles passem, e fazermos o caminho de volta a Coimbra - concluiuserenamente. De súbito vislumbrou um cruzamento que aparecia à esquerda. De imediato carregouno pedal do travão, tentando contudo não deixar marcas da borrachas dos pneus nopavimento, e torceu o volante, iniciando em seguida a íngreme subida. Por fim ocultou oautomóvel nas traseiras de um casebre em ruínas. - Não saiam daqui! - pediu, libertando o fecho do cinto de segurança, ao mesmotempo que abria precipitadamente a porta - Eu volto já... - concluiu, correndo apressadamentepara a zona de onde calculava poder ver a estrada principal. Com efeito, e apesar de escondido atrás dos ramos de uma frondosa figueira, Jorgepodia facilmente observar a faixa de asfalto que passava uns metros mais abaixo. Ainda nãotivera tempo para se dissimular totalmente, quando a grande velocidade apareceu o primeirodos dois Mercedes... Logo a seguir, a curta distância surgiu o segundo... Para alívio do jovem,ambos passaram bastante depressa por aquele cruzamento, prosseguindo a marcha semsuspeitarem que acabavam de ser enganados... As três raparigas esperavam ansiosamente no interior do admirável veículo vermelhovivo, quando de súbito viram aparecer o colega que corria velozmente: - Por agora, estamos safos! - anunciou sorridente, enquanto limpava o suor que lhecorria abundantemente pela face - Vamos voltar para minha casa, para pensarmos comcalma naquilo que vamos fazer a seguir. Jorge, rodou a chave na ignição, e logo que o ruído do potente motor do sensacionalFord Escort RS Cosworth se fez ouvir engrenou a primeira velocidade, e arrancou sem perdermais tempo. Em seguida, desceu a encosta da pequena colina, voltando a apanhar a estradaem que circulara momentos antes, porém agora em sentido contrário... Passavam alguns minutos das três da tarde, quando o vistoso automóvel parou emfrente da vivenda que o jovem partilhava com a prima Ana algures nos arredores da cidadede Coimbra. - Achas que aqui estamos seguros? - indagou Rita - Penso que sim, pelo menos por agora. Mas por via das dúvidas, vou levar o carro lápara trás para o quintal - decidiu, pegando no molhe de chaves que guardava no bolso dosjeans, e saindo para abrir o portão que dava acesso às traseiras da habitação. - Vamos lá conversar então... - principiou Jorge, esperando que Joana entrasse, efechando a porta de entrada, rodando também cautelosamente a chave na fechadura -...quero que me contem essa história tintim por tintim. - Tudo começou quando... 62
  • 63. artciencia.com (ISSN 1646-3463) Ano I ● Número Dois ● Fevereiro-Abril 2006 - Venham, ...vamos para a cozinha - interrompeu o colega, dirigindo-se para essadivisão - ...estou a morrer de fome. Deve haver qualquer coisa no frigorífico para podermosalmoçar. E vocês devem-me um almoço, ... não pensem que se escapam! - acrescentou,tentando pôr as três raparigas à vontade. - Tudo aconteceu em Setembro, - recomeçou Sofia - quando a Rita nos convidou parapassarmos as férias com ela em casa de uns tios na Costa da Caparica. Quando numa tardepasseávamos numa praia deserta, muito pequenina, que quase não tinha areia, era tudo sórocha, vimos um iate enorme e espectacular ancorado a poucos metros da costa, eresolvemos fotografá-lo. Na praia, estavam uns tipos com metralhadoras à espera que o boteque acabara de ser lançado à água chegasse a terra. Achámos aquilo muito estranho, ecomo estávamos escondidas atrás de umas rochas eu peguei na máquina e fotografeitambém. Só que, um dos tipos que tinha ficado no iate deve ter visto o reflexo da objectiva, eatravés dum rádio deu o alarme para terra, porque logo a seguir o bote voltou para trás, e osfulanos que estavam na praia, começaram a vasculhar tudo. Conseguimos esconder-nosnuma pequena saliência entre dois rochedos e usamos uns ramos secos de palmeira queajudaram ao disfarce. Eles andaram muito perto de nós, um deles, aquele gajo do rabo decavalo até atirou um cigarro para cima da Joana. - É verdade, - confirmou a jovem dos cabelos louros, abrindo a porta do forno micro-ondas e retirando do interior do mesmo uma pizza já cozinhada que colocou sobre a mesa -...quase que nos apanhavam, porque aquilo caiu-me mesmo em cima da perna, e eu era aúnica que estava em fato de banho. Ainda tenho a marca da queimadura, na altura quase quegritei, não fosse a Rita a tirá-la de cima de mim, tenho a impressão que teria deitado tudo aperder - acrescentou. - Depois eles começaram a discutir entre eles sempre em espanhol. A dada alturahouve um que disse que já lá não devia estar ninguém, e logo a seguir apareceu o tipo dofato, aquele que eles tratam por Dr. que começou a ralhar com eles, mas em português. - E o que é que ele disse? - indagou o atento ouvinte, cortando mais uma fatia daapetitosa pizza - Conseguiram ouvir alguma coisa? - Sim, mas é melhor ser a Joana a contar porque era ela quem estava mais perto e porisso ouviu melhor do que nós... - Ele disse que era vital não nos deixarem escapar, porque nós poderíamos terfotografado o senhor Escobar, e que essas fotos poderiam por em causa toda a operação, eque por isso jamais poderiam ser encontradas. Como os outros lhe disseram que nós jádevíamos ter conseguido fugir, porque já tinham procurado em todo o lado e não tinhamencontrado ninguém, o tal homem do fato disse que ia de imediato para Lisboa falar com umtal de Dr. Álvaro de Matos, e que esse outro, com os conhecimentos e as influências que 63
  • 64. Cartel Fantasma Alexandre Figueiredotinha na polícia arranjaria uma forma de nos descobrir, ou mesmo se nós levássemos asfotografias à polícia ele ficaria a saber, e então que não seria difícil arrumar a questão, comoele mesmo disse. - Nós ficámos tão assustadas que mesmo depois de eles terem ido embora estivemospor mais de duas horas no mesmo sítio sem nos mexermos com medo que eles tivessem ládeixado alguém para nos apanharem... acrescentou Rita. - E, ...como eles não nos apanharam nessa altura, pensámos que tinhamos escapado,e que eles tivessem desistido do assunto - rematou Joana. - Até à semana passada... - comentou Rita - ...naquele dia em nós fomos passear ànoite e que eles apareceram recomeçou o pesadelo. Por isso é que eu fui na Quarta ao Porto,e foi também por essa razão que elas voltaram mais cedo - revelou a rapariga apontandopara as duas companheiras. - Por isso, como medida de precaução resolvemos esconder os negativos e asfotografias num local seguro - ajudou Sofia - O teu convite para irmos no fim-de-semana a tuacasa era a nossa melhor chance de podermos estar mais ou menos descansadas, porque seeles querem tanto as fotografias, não nos podem fazer mal enquanto não as tiverem. - Assim, resolvemos esconder os negativos no teu apartamento, sem a Rita saberporque quando lhe falámos na nossa ideia ela disse logo que se o fizéssemos que te diria, emantivemos as fotos na nossa casa - esclareceu Sofia. - Não está mal visto, não senhor... - aprovou Jorge - foi muito bem pensado! - felicitouo rapaz, que fora totalmente apanhado de surpresa pela audácia das três companheiras. - Percebes agora porque é que eu não quis ir à polícia da outra vez, e porque razão tedissemos à bocado que não lhes podíamos falar neste caso? - prosseguiu Rita, terminando asua bebida. - O mistério, é saber como é que eles nos descobriram... - Não é mistério nenhum... - interrompeu de pronto o colega. - Não é!?... Então, nós não deixámos vestígios, não fomos à polícia, não contámosesta história a ninguém... - É verdade, tu és a primeira pessoa a quem contámos isto, - ajudou Joana - e paraalém disso, o mais importante é que nenhum dos homens nos viu... - Pois, é aí que está o engano... - voltou Jorge a interromper - ...eles viram uma devocês. Como não sei, mas de alguma forma eles devem ter visto a Rita, e foi por essa razãoque nos atacaram a semana passada no Miradouro - explicou o jovem olhando para Rita -Lembras-te que houve um deles que disse: “ Podemos ir embora, não é esta! “ e afirmou quetinha a certeza, por isso deve ter-te visto bem. Tivemos sorte porque ele confundiu-se e nãofoi capaz de te reconhecer, caso contrário ter-nos-iam apanhado logo. 64
  • 65. artciencia.com (ISSN 1646-3463) Ano I ● Número Dois ● Fevereiro-Abril 2006 - Então e o que é que pudemos fazer agora? - perguntou Sofia - Só temos uma solução, ...desaparecer, ...mas desaparecer por completo e semdeixar rasto durante algum tempo, pelo menos até termos a certeza de que eles desistiram denos procurar. - E como é que vamos saber quando eles desistirem? - Não se preocupem, eu também tenho as minhas fontes, e os meus conhecimentos...- tranquilizou-as Jorge, sem no entanto querer abrir o jogo. - E como é que vamos desaparecer, de modo a que eles não descubram - inquiriuJoana não totalmente convencida pelas palavras do colega. - Tenho cá umas ideias, depois vêem... - respondeu o anfitrião vagamente,escusando-se novamente a revelar mais pormenores. - Mas vamos ter que sair daqui, não é? - insistiu Joana - Sim, tem mesmo que ser. Não vai tardar muito até que eles descubram quem sou eonde moro, e ...esperem lá... a Isabel também pode correr perigo - disse, precipitando-se parao telefone e marcando o número correspondente ao seu apartamento em Santarém. - Isabel? - chamou, quando segundos depois, do outro lado da linha alguém levantouo auscultador, reconhecendo de imediato a voz da irmã - Ouve... quero que tomes muitaatenção àquilo que te vou dizer, e que faças o que te peço... - Passa-se alguma coisa? - indagou a jovem, compreendendo que algo de anormal sepassava com Jorge - Tu estás bem? - insistiu. - Por favor, faz aquilo que te peço, e não faças perguntas... - pediu - Separa algumasroupas, pega no BMW, e sai de casa já! Não voltes enquanto eu não te disser para o fazeres.Toma atenção ao telefone do carro, que eu depois ligo para te dar mais instruções. Mas porfavor, não me ligues, nem para casa, nem para o carro, percebeste, aconteça o queacontecer não me telefones, o.k.? - Sim, compreendi. Mas diz-me o que se passa. Há algum problema? - perguntou denovo Isabel. - Sim, ...há, e... bem grande. Mas por enquanto está tudo bem, por isso faz o que tepeço, e não te preocupes. É muito importante que faças tudo o que te disse. Olha, eu agoravou desligar, depois voltamos a falar... - disse por fim, pousando o auscultador em seguida. - Ó Jorge, se nós vamos desaparecer, também vamos precisar das nossas roupas.Temos de ir a casa buscar tudo... - lembrou Joana logo que o colega se virou para elas. - Sim, ...têm razão. Esse pormenor não me tinha ocorrido... - começou com um arpensativo - E se eles estão a vigiar a casa? - continuou apreensivo. 65
  • 66. Cartel Fantasma Alexandre Figueiredo - Já não devem estar. Afinal, devem pensar que nós a esta hora já vamos longe, edevem estar a reunir esforços para nos localizarem, por isso acho que não devem perdertempo a vigiarem o prédio - replicou Sofia. - Hum, não sei... - duvidou Jorge - aquilo que dizes não é mal visto. Por outro lado,eles também se podem lembrar disso. - Mas nós precisamos das nossas roupas! - pediu Rita - Para além disso, asfotografias estão lá em casa... - Mas não estavam em minha casa? - indagou Jorge confuso. - Não, só os negativos... - esclareceu Joana. - Está bem, vamos lá, embora eu continue a achar que é muito arriscado. Por via dasdúvidas, só vai uma comigo - decidiu ele - É mais seguro assim, ...e vamos esperar quecomece a anoitecer - Então vou eu! - ofereceu-se Rita prontamente... ... - Traz todos os agasalhos, e as roupas mais quentes que aí tiverem - pediu o jovem,ficando à entrada do apartamento para evitar surpresas, enquanto que Rita tentava no meiode toda a desarrumação reunir os mais quentes agasalhos das três. - Calçado, também? - perguntou a colega lá de dentro. - Sim, - respondeu ele dirigindo-se à janela do patamar daquele andar, tentandocertificar-se que estavam em segurança e que ninguém vigiava os seus movimentos. Dez minutos mais tarde... - Trazes tudo? - inquiriu Jorge, olhando para os três sacos de viagem que Ritaamontoara à entrada da habitação, mais a mochila que segurava. - Sim... - respondeu, e fazendo uma pausa para pensar, prosseguiu concluindo -Roupas e agasalhos, sapatos e botas, escovas de cabelo, etc.. Está tudo, podemos irembora. - E as fotografias? - indagou o companheiro - Não as trouxe, deixei-as no mesmo sítio. Se eles não as encontraram até agora,acho que é preferível deixá-las onde estão. - Sim, é uma óptima ideia - aprovou o jovem - Cachecóis e luvas, trouxeste? - Não, ...é preciso? - perguntou ela, voltando a entrar no apartamento a um sinalafirmativo do jovem, e regressando instantes depois, trazendo mais uma mochila. - Vamos embora - disse o rapaz, pegando decididamente nas três malas. Já no exterior atiraram tudo para dentro do porta-bagagens do desportivo vermelho eentraram ambos no automóvel que arrancou logo em seguida. Durante a viagem de regresso, 66
  • 67. artciencia.com (ISSN 1646-3463) Ano I ● Número Dois ● Fevereiro-Abril 2006várias foram as vezes que Jorge olhou para os retrovisores, e a companheira notando ainsistência com que o jovem repetia aquele gesto não se conteve, e perguntou: - Somos seguidos? - Não, penso que não. Mas... com tipos como estes nunca se sabe, por isso o melhoré não facilitar nem um pouquinho. Por fim, o automóvel estacionou de novo em frente da habitação que pertencia aospais da prima Ana, agora de férias no Brasil, entrando os dois logo depois. - Esperem aqui que eu vou só buscar umas roupas para levar - pediu ele,desaparecendo no extenso corredor, e voltando alguns minutos mais tarde carregando doissacos de desporto - Pronto, estou despachado, vamos embora! Jorge deixou que as colegas saíssem em primeiro lugar, saindo ele por últimocertificando-se que a porta ficara bem trancada. Depois, juntou-se às companheiras, e emgrupo atravessaram a estrada, encaminhando-se para o automóvel estacionado quaseparalelamente à habitação. Os dois sacos que o rapaz transportava foram igualmentearrumados no porta-bagagens do veículo, e por fim entraram todos. No momento em queJorge se preparava para fazer trabalhar o potente motor do Ford vermelho, apareceu desúbito um carro em sentido contrário, que efectuou um pião, barrando-lhes o caminho... - Merda!... São aqueles filhos da puta outra vez!... - exclamou o jovem reconhecendode imediato um dos dois Mercedes pretos aos quais se conseguira escapar nessa mesmatarde - Devem-nos ter seguido desde vossa casa!... - concluiu, e sem se atrapalhar por uminstante, engrenou a marcha-atrás - Segurem-se bem que isto agora vai ser a doer! - avisou,libertando o travão de mão, e acelerando a fundo. Imediatamente o automóvel respondeu percorrendo umas boas dezenas de metrosandando ao contrário. Em seguida, Jorge puxou decididamente o travão de estacionamento,e deu uma volta completa ao volante. O magnífico Ford fizera meio pião. Sem perder umsegundo que fosse, o condutor libertou de novo o travão, engrenou a primeira velocidade, earrancou bruscamente. Porém, de frente apareceu o segundo Mercedes, que se imobilizoumesmo à frente deles. Jorge, puxou mais uma vez a alavanca do travão de estacionamento,recuou, repetiu a manobra do pião, e com uma destreza e frieza notáveis avançou a grandevelocidade na direcção do primeiro automóvel. Depois, meio no passeio, meio na estradapassou miraculosamente entre o obstáculo e o muro de uma das habitações vizinhas,afastando-se velozmente. Contudo, ainda os perseguidores não tinham desaparecido nosretrovisores, quando se ouviu um estrondo, e o espectacular Ford descontrolou-se quaseembatendo num poste de iluminação, antes de efectuar vários piões, até que se imobilizoupor completo. 67
  • 68. Cartel Fantasma Alexandre Figueiredo - Os cabrões atiraram-me aos pneus. Agora é que não há mais nada a fazer, estamosperdidos - lamentou-se ele, embora não totalmente rendido - Só temos uma hipótese... -principiou - ...talvez nem tudo esteja perdido. Façam aquilo que eu vos pedir sem fazeremperguntas, e sobretudo deixem-me ser eu a falar, entendido? - pediu, falando muito depressa,e quase em surdina, pois os perigosos malfeitores acercavam-se do veículo. Do lado de fora, houve um cano de metralhadora que bateu suave eprovocadoramente no vidro... - É outra vez aquele cabrão do rabo de cavalo... Filho da puta, começo a perder apaciência com ele... O outro, com a arma fez sinal para que todos saíssem do carro... - Então, senhor Jorge de Melo, parece que nos voltamos a encontrar, não é - observoucom um sorriso muito pouco tranquilizador - Não te julguei tão ingénuo - observou, retirandoum aparelho minúsculo que estava escondido no pára-choques traseiro do Ford... - Voltar aoapartamento foi estúpido - concluiu, atirando o objecto na direcção do rapaz. - Um sinalizador! - exclamou Jorge - Assim podiam seguir-nos sem que eu vos visse... - A aula acabou... - anunciou o outro, mudando imediatamente de expressão - Queroas fotografias, e quero-as já! - ordenou, num tom de voz que não deixava grandes dúvidas. - Nem penses... - respondeu Jorge tranquilamente, sem se mostrar muitoimpressionado com a má-disposição do indivíduo do rabo-de-cavalo - As fotografias já estãoem segurança, com uma pessoa da minha total confiança e que tem as instruções para astornar públicas logo que eu falhe um contacto. - Vais dizer-me onde elas estão, e já! - insistiu o homem com maus modos. - Só podes estar a delirar... - replicou Jorge friamente, enervando ainda mais o sujeito. Marco fez um sinal para que um dos seus cúmplices agarrasse Sofia, e encostando-lhe o cano de um revólver à nuca ameaçou: - Ou me dás as fotografias, ou quem paga são elas. Não queres ver os lindos miolosdelas espalhados pelo chão, pois não? - Não queres começar antes por esta? - sugeriu Jorge empurrando Rita de encontroao seu interlocutor com um à-vontade no mínimo provocante - Ou porque não esta? -continuou, apontando na direcção de Joana, que olhava para ele incrédula - Ou eu? E porquenão todos? Afinal o que são umas fotografias comparadas com... - Estás a fazer bluff... - Porque não tentas descobrir? Porém, devo-te avisar que cada um de nós tem queconfirmar com uma senha que só o próprio conhece que está bem. Só assim as fotos nãoserão reveladas. 68
  • 69. artciencia.com (ISSN 1646-3463) Ano I ● Número Dois ● Fevereiro-Abril 2006 - Não brinques comigo... - voltou a ameaçar o homem a quem os outros chamavamMarco - Vou começar a contar, e não chego aos três... Um!... Dois!... - Marco! - chamou a sinistra personagem do fato saindo do interior de um dosautomóveis - Pára com isso imediatamente! - ordenou rispidamente. - Mas, ...mas, Dr. a nossa missão é... - Cala-te imediatamente! Aqui quem dá ordens sou eu... - disse, falando num tom devoz que não permitia discussão - O que é que queres em troca das fotografias? - perguntoufalando para Jorge. - Não falo com lacaios... - principiou o jovem estudante - Só faço acordos com o outrogajo, ...o chefão! - O chefe sou eu, e quero as fotografias, se no-las entregares, bem como aosnegativos soltar-te-emos a ti e a elas, e não vos perseguiremos mais. Caso contrário ascoisas poderão ficar bastante feias para o teu lado... - avisou - Então, como é que é? - Já te disse que não falo com lacaios. Eu quero falar é com o tal gajo de quem tufalaste hoje de manhã, ... o tal que é uma pessoa muito importante... - Mas meu caro amigo, essa pessoa foi uma invenção minha para vos convencer aentregarem-me aquilo que pretendo. - Deixa-te de merdas, e leva-me ao estrangeiro, ...ao Escobar. - Mas deve haver algum engano, desconheço a pessoa a quem te estás a referir -retorquiu o Dr., tentando ludibriar o rapaz, que no entanto não parecia totalmente convencido,e muito menos disposto a ceder. - Já te disse, que quero falar é com o argentino, colombiano, ou lá o que ele é. Eu sófalo com o Escobar, aquele que aparece nas fotografias, e que não quer ser encontrado -arriscou o jovem - E escusam de fazer ameaças, ou nos levam a esse gajo, ou nada feito... -terminou decididamente. - Está bem - concordou o outro, concluindo que não tinha alternativa - Marco... -chamou - ...traz as algemas, e distribui-os pelos carros. - Mas Dr., os dois carros não chegam para tanta gente... - Então, levamos também o dele - respondeu, apontado para o Ford vermelho -mudem a roda. Não temos tempo a perder. - Ninguém a não ser eu toca nesse carro... - ameaçou Jorge - ...e elas vão comigo nomeu carro. - Não creio, meu amigo. Vamos fazer assim: tu vais guiar realmente o teu carro, ...evais-te portar bem, porque ali aquela moça vai comigo - disse apontando para Rita - e aqui oMarco vai-te fazer companhia para garantir que tu desta vez não te enganas no caminho. Já 69
  • 70. Cartel Fantasma Alexandre Figueiredoandei um dia inteiro atrás de ti, por isso não estou disposto a perder mais tempo. E emrelação a ela, vai no meu carro para eu ter a certeza que tu vais ser um menino bonito... - Nem pensem... - Acalma-te rapaz - insistiu o sujeito do fato - ...não me parece que estejas emcondições de fazer exigências, portanto é como eu digo. E não te atrevas a pôr-nos à prova,lembra-te que nós também temos os nossos trunfos... - acrescentou puxando Rita pelo braçodireito. - Vais-te arrepender, eu ainda te hei-de lixar, cabrão! - insultou Jorge. - Bem, ...cuidadinho com a linguagem - avisou, virando-se depois para Marco - Vocêsvão no meio, e tu vais sentar-te ao lado dele para mais facilmente o poderes controlar, e temmuita atenção, o.k.? - findou o Dr., dirigindo-se com Rita para o mais próximo dos doisMercedes pretos. - Então e as algemas? - lembrou Marco. - Não são precisas. Era preciso ele ser muito estúpido para tentar alguma coisa com amiúda ali. - Entrem vocês, ...já! - ordenou Marco, logo que o homem que fora encarregado detrocar a roda do automóvel terminou a sua tarefa, falando para Sofia e Joana, queobedeceram de pronto - Agora vou entrar eu, ...e depois tu, entendeste? Jorge acenou com a cabeça em sinal afirmativo, e aguardou em silêncio que omalfeitor ocupasse o seu lugar, para que também ele pudesse entrar. - Podes ir-te embora “ Rosé “ - disse ao homem que de arma em punho vigiavaatentamente todos os movimentos de Jorge - E tu, estás a ver isto? - perguntou, apontadopara o seu revólver - Espero que para teu bem não seja necessário servir-me dela... - “ Rosé “!?... - repetiu o rapaz, vendo o outro afastar-se em direcção ao Mercedesmais próximo - O gajo é espanhol? - indagou curioso. - Não tens nada com isso! - respondeu o carcereiro com os maus modos e a antipatiahabituais - E agora silêncio. Põe o motor a trabalhar, e segue aquele carro... - ordenou, nomomento em que eram ultrapassados pelo primeiro veículo. Jorge obedeceu em silêncio, e colocou-se entre os dois luxuosos automóveis negros.Dirigiram-se primeiramente para Coimbra, e já no interior da cidade tomaram o caminho queconduzia à auto-estrada. À entrada da via rápida o jovem compreendeu que viajavam parasul, porém não fez comentários. Também no assento traseiro as duas raparigas não ousaramcontrariar a ordem de Marco, permanecendo mudas... - Para onde vamos? - inquiriu Jorge alguns quilómetros mais à frente. - Cala-te e guia! - foi a resposta rude que obteve do captor. 70
  • 71. artciencia.com (ISSN 1646-3463) Ano I ● Número Dois ● Fevereiro-Abril 2006 - Preciso de saber... - insistiu o condutor, acrescentando depois - ...é que o carro nãotem muita gasolina, e estamos a chegar a uma bomba - informou avistando a placa indicativada distância a que se encontravam da Área de Serviço, seguida da distância até à próxima. - A seguir a esta, onde é que há outra? - Não sei bem... - principiou o jovem - ...mas sei que perto de Santarém existe uma! -esclareceu, sem desviar os olhos da estrada. - A gasolina chega até lá? - questionou a dura personagem do rabo-de-cavalo,olhando fixamente para o ponteiro indicador do depósito de combustível, enquanto aguardavapor uma resposta do condutor que pensativo, acenou a cabeça em sinal afirmativo - Entãocontinua, paramos lá! - decidiu friamente... ... - Posso pôr música? - pediu Jorge, quando o perigoso sujeito voltou a arrumar otelefone móvel no compartimento do porta-luvas, depois de ter estado a conversar com oscomparsas, a fim de os prevenir para a paragem que iram efectuar. - Eu ponho, - anunciou, baixando a cabeça - ...mas se tentas alguma coisa és umhomem morto - ameaçou rispidamente - Onde é que isto se liga? - perguntou ainda. Jorge com a mão direita tacteou o painel do auto-rádio, e quando se apercebeu que ooutro estava distraído, não hesitou, e segurando-o pelos cabelos compridos, fez com que anuca do perigoso malfeitor fosse embater com bastante violência no tablier do Ford. Emseguida, apanhou a arma que Marco deixara cair, e agrediu-o várias vezes com o punho dapistola até que este tombou para o lado, desmaiado. Tudo isto se desenrolou em apenasalguns segundos, no entanto o suficiente para que os papéis se invertessem. - Tu és completamente louco! - exclamou Sofia, com uma expressão apreensiva - Oque é que vai acontecer quando eles chegarem às bombas de gasolina, e virem que tu lhetrataste da saúde. - Não se preocupem... - principiou o jovem - Eu ouvi a conversa dele ao telefone... esei o que tenho a fazer. Mas não há tempo a perder. Vou já telefonar à Isabel para vos virbuscar... - decidiu Jorge, falando para as duas companheiras que seguiam no assentotraseiro, a cada momento mais surpreendidas pela imensidão de recursos, e facilidade deimprovisação do amigo. - Mas onde é que vamos ficar? - indagou Joana, não conseguindo esconder as suasinquietações. - Na Área de Serviço, é claro! - respondeu ele, procurando no corpo inerte do agoraseu prisioneiro as mesmas algemas que o outro exibira em Coimbra, ao mesmo tempo queguiava - Dois pares! - observou - Que sorte! - concluiu sorrindo com satisfação, guardando osobjectos metálicos num pequeno compartimento que integrava a consola central do tablier. 71
  • 72. Cartel Fantasma Alexandre Figueiredo - Que vais fazer com isso? - Prendê-lo... não posso correr riscos, ou ele avisa os outros, e então é que estarámesmo tudo perdido - explicou gravemente - Agora escutem: - prosseguiu - A Isabel há-devir-vos buscar, ela saberá como vos esconder num sítio seguro, e não se esqueçam de levaros negativos convosco. Estamos a chegar... - anunciou o rapaz, desviando-se da via rápida eentrando na zona do posto de reabastecimento, continuando a circular entre os doisautomóveis negros, que seguiram em frente, imobilizado-se algumas dezenas de metros maisà frente. - Atenção, logo que eu parar, vocês só têm três ou quatro minutos no máximo parafugir. Eu vou deixar a porta deste lado e a mala aberta, para ser mais fácil. Sejam rápidas ediscretas - pediu. Jorge parou o espectacular Ford desportivo mesmo ao lado de uma das bombas, eabriu a porta, saindo em seguida. Todos os seus movimentos eram atentamente seguidos acurta distância a partir dos dois Mercedes. O jovem dirigiu-se para a bomba mais próxima epegou na pistola, introduzindo-a no bocal do depósito de combustível do seu veículo... Nointerior, Sofia e Joana permaneciam sentadas, aguardando desesperadamente por umaoportunidade para se esgueirarem. Entretanto, o rapaz atestou o depósito, sempre debaixodo olhar do bando de malfeitores que aguardava mais à frente, e dirigiu-se para o edifício doposto a fim de pagar o combustível que metera. Esta operação não demorou mais que doisminutos. Já no caminho de regresso constatou desapontado que as colegas não tinham aindaconseguido fugir. Porém, acabara de parar um camião enorme entre o Ford Escort RSCosworth e os dois luxuosos automóveis que impedia que os seus movimentos pudessem serobservados pelos captores. - “ É agora ou nunca! “ - pensou, correndo velozmente na direcção do seu carro -Saiam! - pediu - Rápido, não podemos perder mais tempo - disse, dirigindo-se ao porta-bagagens do Ford, e tirando para fora toda a bagagem que pertencia às companheiras. - Então e tu? - indagou Joana, com uma expressão apreensiva. - Eu vou atrás deles... - respondeu - Não vou deixar a Rita sozinha! Eu sei cuidar demim, está descansada! - tranquilizou-a, sentando-se apressadamente ao volante, enquantose servia das algemas para amarrar o perigoso patife que jazia desmaiado e sem sentidos noassento contíguo ao seu. - Por favor, tem cuidado! - recomendou Sofia partilhando da preocupação da amiga. Primeiro prendeu os pulsos de Marco passando-os por detrás das costas do assento,prendendo-lhe depois as pernas à estrutura metálica do banco, e por fim amordaçou o outroservindo-se para tal do lenço que tirara do bolso do seu casaco. Em seguida, ligou o motor, eseguiu devagarinho, para junto dos dois Mercedes, que permaneciam imobilizados noexactamente no mesmo lugar. Estes, quando o viram aproximar-se, iniciaram a marcha, 72
  • 73. artciencia.com (ISSN 1646-3463) Ano I ● Número Dois ● Fevereiro-Abril 2006formando de novo a coluna que ali chegara, com o desportivo vermelho a circular outra vezentre os dois carros alemães. - “ Por agora, está tudo bem! “ - pensou aliviado, regressando à via rápida, enquantoprocurava no compartimento do porta-luvas o mesmo telefone móvel de que Marco se serviramomentos antes. Logo que o encontrou, e sempre sem desviar os olhos da estrada foi marcando onúmero do telemóvel que estava instalado no BMW amarelo, que lhe pertencia igualmente.Do outro lado Isabel atendeu de imediato: - Isabel, sou eu!... - O que é que se está a passar, para quê tudo isto? - inquiriu a irmã um tanto confusa,e muito pouco satisfeita. - Primeiro escuta-me... - pediu - Quero que vás às bombas de gasolina da auto-estrada, aí em Santarém e que apanhes a Sofia e a Joana que já lá estão à tua espera.Depois quero que as leves a casa para elas irem buscar uma coisa muito importante que ládeixaram, e depois vão todas para a casa de férias, e deixem-se lá ficar até eu lá chegar.Posso contar contigo? - Claro que podes, mas por favor explica-me o que se passa. O que é que me estás aesconder? Estás em perigo? - Está tudo bem, não te preocupes. - mentiu Jorge - Mas agora não posso falar... -continuou vagamente, escusando-se a revelar mais pormenores que pudessem assustar airmã - Tudo o que te posso dizer é que andam uns tipos atrás delas por causa dumasfotografias, e apanharam a Rita... Compreendeste tudo? - questionou o rapaz. - Sim, vou buscá-las à área de serviço, e depois levo-as para a Serra da Estrela, éisso? - É isso mesmo. Mas não te esqueças de passar por casa, é muito importante, edeixem-se estar em lá em casa até eu aí chegar... Eu agora vou desligar. Vai buscá-las já,que elas põem-te ao corrente da história. E aconteça o que acontecer deixem-se ficar naserra, e sobretudo, não me telefones, por favor, não telefones - recomendou Jorge uma vezmais, despedindo-se da irmã, e voltando a guardar o telefone portátil no porta-luvas. Tanto à frente, como atrás, ninguém nos dois elegantes automóveis pretos parecia ternotado nada de anormal. A fuga das duas jovens não teria, pelo menos aparentemente, sidodetectada. - “ Tanto melhor! Assim a Isabel tem tempo suficiente... “ - pensou aliviado,recostando-se descontraídamente no confortável assento de desenho desportivo,continuando absolutamente compenetrado na condução. 73
  • 74. Cartel Fantasma Alexandre Figueiredo A viagem continuou por auto-estrada durante bastante tempo. Sempre alinhados emfila, separados por escassos metros, os três veículos continuaram seguindo a direcção deLisboa. Antes porém de entrarem na cidade, e embora continuassem numa via rápida,tomaram o caminho que conduzia ao sul. Na altura em que rolavam por cima do “tabuleiro” daPonte Sobre o Tejo, igualmente conhecida por Ponte 25 de Abril, o passageiro que seguia aolado do jovem parecia dar sinais de ter começado a recuperar a consciência. Por fim, ergueu-se com bastante dificuldade no assento desportivo do Ford vermelho, abrindo os olhos efitando o condutor com dureza. Em seguida, olhou para o banco traseiro, e constatandofurioso que as duas raparigas haviam fugido soltou alguns grunhidos imperceptíveis porcausa da mordaça. - Ah! Sim, ...elas... - principiou Jorge, tranquilamente, sem se mostrar demasiadopreocupado com a expressão ameaçadora do seu prisioneiro - ...bem, elas não estavam aapreciar o passeio, e por isso tiveram que sair mais cedo... - continuou sorrindo, enervando ooutro que em vão tentava libertar-se - ...sabes, tu não foste nada simpático! Assim nuncaconseguirás apanhar nenhuma!... - concluiu, sem que Marco deixasse de se contorcer, nãoconseguindo fazer grandes progressos, embora continuasse a emitir os mesmos ruídosestranhos, tentando a todo o custo falar, mas que a mordaça abafava, tornando-osincompreensíveis - É música que tu queres? Não há problema... - disse, premindo a tecla quefazia com que o auto-rádio funcionasse - Vês, já temos música! Se pedires com delicadeza... Marco não parecia porém disposto a calar-se, e muito menos no que diz respeito aomanter-se quieto, movendo-se continuamente no assento dianteiro do sensacional automóvel,não desistindo de dar safanões no banco, na ânsia de se libertar. - Importas-te de te calares... - pediu Jorge fitando-o por momentos - E pára quietoporque não vais conseguir libertar-te. Por isso, o melhor será estares quietinho, e apreciaresa música, ou voltarei a usar isto... - ameaçou o jovem com mau-humor, mostrandoprontamente a arma de fogo de que se apropriara. O outro, compreendendo que os seus esforços na tentativa de se libertar eram inúteis,e perante a ameaça do captor que tinha um ar de quem não parecia disposto a brincadeiras,calou-se de imediato, e recostou-se no confortável assento, não voltando a esboçar o maisleve sinal de se pretender movimentar. - Assim está melhor! - observou Jorge, prosseguindo viagem, sempre de permeioentre os dois carros de fabrico estrangeiro - Ainda falta muito? - inquiriu, voltando a dirigir-seao prisioneiro, que se limitou a acenar negativamente com a cabeça... 74
  • 75. artciencia.com (ISSN 1646-3463) Ano I ● Número Dois ● Fevereiro-Abril 2006 Fim do 4º Capítulo 75
  • 76. Cartel Fantasma Alexandre Figueiredo Capítulo 5 - É aqui? - interrogou Jorge, quando cerca de uma hora após terem atravessado aponte sobre o rio Tejo, o primeiro Mercedes estacou junto a um enorme portão, cercado porum muro elevadíssimo... Marco não respondeu, limitando-se a confirmar com um aceno de cabeça que haviamchegado ao destino. Por fim, o portão abriu-se lentamente... O automóvel que estava imobilizado à frentedo admirável Ford vermelho avançou muito devagar, seguindo o trilho do asfalto que algunsmetros mais à frente fazia uma ligeira curva, começando também a subir. Só no fim decontornar a curva é que o jovem conseguiu enfim avistar a sumptuosa mansão que se erguiaà sua frente, por causa das frondosas árvores que cresciam em grande número, rodeandopor completo a grandiosa habitação. Mesmo assim, e apesar de ser noite, o rapaz conseguiudistinguir claramente os contornos da construção. Era uma moradia de dois pisos,provavelmente com águas-furtadas, pois podiam-se observar várias janelas separadas emintervalos regulares que saíam do telhado. A forma desta seria aparentemente rectangular,muito próxima no entanto da quadrangular, e tinha uma entrada riquíssima, com umacobertura que era sustentada por seis enorme colunas possivelmente em pedra, e quelembrava a Jorge as entradas das antigas domvs romanas. Finalmente o automóvel queseguia na dianteira imobilizou-se, mesmo ao lado da entrada principal da mansão. O jovemparou logo atrás, ficando de imediato trancado entre os dois luxuosos Mercedes negros. Emseguida, o espectacular Ford vermelho foi rapidamente cercado por vários sujeitos munidosde armas de fogo que se distribuíram estrategicamente em redor da viatura. Sem perder osangue frio, Jorge pegou na pistola que tirara ao prisioneiro, e apontou-lha à nuca... - Trá-los cá para fora Marco! - ordenou o Dr. - Vamos fazer uma troca... - gritou o destemido rapaz abrindo a porta do veículo - Ovosso homem pela Rita! - continuou, deixando que os bandidos vissem claramente que Marcofora feito prisioneiro - Quero-a aqui já! A um sinal da pérfida personagem do fato, “Rosé” dirigiu-se ao primeiro automóvel dafila, e pediu à jovem que saísse, aprisionando-a logo que ela saiu. Depois, puxou habilmentede uma enorme faca e passou-a à volta do pescoço da atraente rapariga. - Larga isso, e solta-o ...imediatamente - ordenou impaciente o Dr. - Será que estásmesmo disposto a arriscar a vida dela? - prosseguiu com uma expressão de dúvida - Então,desistes ou não? 76
  • 77. artciencia.com (ISSN 1646-3463) Ano I ● Número Dois ● Fevereiro-Abril 2006 Jorge hesitava... Não queria de forma alguma colocar a vida da colega em risco, alémdisso ainda tinha um trunfo na manga. Desse modo, decidiu render-se. Contudo, antes quetivesse tempo para o fazer, a colossal porta da mansão foi aberta, surgindo à entrada umhomem alto, forte, de cabelo já grisalho, sentado numa cadeira de rodas, que conduzido porum sujeito que vestia de negro avançou decididamente para o Dr., acompanhado de perto porvários seguranças. - Que se passa? Porque razão não os levam para dentro? - Ele apanhou o Marco! - esclareceu o outro. O recém-chegado ouviu atentamente as palavras do seu subalterno, e sem responderpediu com um sinal que o levassem para perto do Ford vermelho. Depois, pausadamente, fezcom que as rodas da cadeira onde estava sentado deslizassem muito devagar, aproximando-se ainda mais da viatura. - Como podes ver estou desarmado... - disse serenamente, levantando ambas asmãos e fitando Jorge nos olhos - Não tens hipóteses. Rende-te, estás cercado... - Nem penses... - Eu sou um homem honrado... - insistiu o sujeito - Se te entregares, nada teacontecerá, tens a minha palavra. Mas se continuares a resistir as coisas poderão ficar muitofeias, especialmente para a tua linda amiga... - terminou, aguardando que o jovem tomasseuma decisão - Sê sensato... - recomendou ainda mantendo-se imóvel no assento. Jorge reconheceu que os seus recursos se tinham esgotado. Estava completamentecercado, e isolado. O seu único trunfo era Marco. Ainda para mais, “Rosé” mantinha a facasob a garganta de Rita. A melhor atitude a tomar seria entregar-se sem resistir mais,pensava, olhando uma última vez para a colega, enquanto entregava a pistola do prisioneirodo rabo-de-cavalo ao desconhecido. Depois, foi puxado violentamente para fora do automóvele algemado de imediato. Entretanto do outro lado do carro vários homens ocupavam-se datarefa de libertar Marco, que de pronto correu para Jorge tentando agredi-lo. - Marco, ...pára imediatamente! - repreendeu com autoridade a altiva personagem -Eu dei a minha palavra, ...e vou cumpri-la... - acrescentou. - Mas este filho da puta, soltou as outras duas miúdas... - Ele fez o quê? - perguntou irado o indivíduo estrangeiro, apanhado totalmentedesprevenido com a revelação de Marco - Como foi isso possível se o Fontes ainda há vinteminutos me telefonou a dizer que tudo corria bem!?... - Mas Enrique o Dr. não sabia de nada... - principiou, enquanto alguns dos segurançasrevistavam o Ford Escort RS Cosworth - Tivemos que parar para meter gasolina, e estecabrão deu-me um soco, bateu-me com a arma, eu devo ter desmaiado, e ele aproveitou paraas soltar. 77
  • 78. Cartel Fantasma Alexandre Figueiredo - Não está cá mais ninguém, só duas malas de viagem - informou um cúmplice. - Mas como? - perguntou-se Fontes, acercando-se de Jorge com cara de poucosamigos - Nós só deixámos de o ver por alguns segundos porque meteu-se um camião nomeio, mas ele apareceu logo, é impossível que tenha tido tempo... - Como é que foi possível duas miúdas terem fugido mesmo nas vossas barbas,...quando já as tinham apanhado!?... - interrogou Enrique, levantado a voz pela primeira vez,gritando irritadíssimo - Vocês são umas bestas!... - acrescentou furioso, dando um murroviolento no braço da cadeira de rodas na qual continuava instalado. - Mas Enrique... - Não quero desculpas... Quero resultados!... - interrompeu furioso, pouco disposto aescutar as justificações que o Dr. lhe queria transmitir - Ando eu a pagar-vos uma fortuna, evocês só fazem merda... Imbecis!... Idiotas!... Incompetentes!... - insultou cada vez maisagastado e exaltado. - Ele deve saber onde elas estão! - lembrou Marco, aproveitando uma pausa do amo,apontando colérico para Jorge, que permanecia imóvel vigiado atentamente por diversoshomens que vestiam de negro. - Tragam-nos para dentro... - decidiu Enrique recuperando o sangue-frio - Temos queas encontrar rapidamente! É absolutamente necessário apoderamo-nos dessas fotografias... -acrescentou apreensivo, fazendo um sinal ao homem que conduzia a cadeira de rodas paraque o levasse de novo para o interior da moradia. Jorge e Rita seguiram-no sem oferecerem resistência, e embora sempre sob apertadavigilância conseguiram trocar discretamente algumas curtas palavras: - Estás bem? Não te fizeram mal? - indagou o jovem quando penetraram no amplo hallde entrada da deslumbrante habitação. - Não, ...só me ameaçaram... - respondeu vagamente, e quase em surdina - E tu,...como estás? Porém, ela foi empurrada mais para a frente, pelo que não tiveram oportunidade dedizer mais nada. Instantes mais tarde estavam ambos sentados lado a lado numa divisão queservia simultaneamente de escritório e biblioteca sumptuosamente decorada e mobilada, napresença do enigmático indivíduo que convencera o rapaz dos cabelos louros a entregar-se. - Permitam que me apresente... - disse, falando pausadamente enquanto fumava umcharuto, oferecendo um a Jorge, que educadamente recusou - ...o meu nome é EnriqueEscobar, e tanto para a polícia boliviana, como para a Interpol, ou até mesmo para a DEA, euestou morto... - continuou, sorridente - Há alguns meses atrás eu simulei a minha morte, ...umtrágico acidente de automóvel nos Estados Unidos, e com muitas testemunhas, ...comoconvém. Só que não era eu que ia no carro, e por sorte a minha ficha dentária coincidia com 78
  • 79. artciencia.com (ISSN 1646-3463) Ano I ● Número Dois ● Fevereiro-Abril 2006os dentes do infeliz agente da DEA que tão voluntariosamente tomou o meu lugar.Coincidências... - observou com uma expressão mordaz - Depois, foi tão somente sair dopaís, e encontrar um lugar agradável onde tranquilamente pudesse gozar a minha reforma... - E Portugal era o paraíso...? - antecipou-se Jorge com perspicácia. - Brilhante dedução meu jovem... - disse, fazendo uma pausa, prosseguindo depois -Portugal era o país ideal, tem muito sol, leis favoráveis, e é um país onde tendo os amigoscertos, e desde que eles estejam contentes, tudo se arranja. Para além disso eu vivi muitosanos cá, conheço os costumes a língua, e é cá que tenho, ...digamos que... bem... a minhaorganização estende-se por toda a Europa, mas é aqui em Portugal que eu tenho conseguidomaiores lucros no meu negócio. Como naturalmente já devem ter compreendido eu dedico-me ao comércio de... - Comércio, hem... - interrompeu Rita, não conseguindo conter a sua indignação -Chama comércio a isso que faz, destruir as vidas de milhares de pessoas... - Sim, - recomeçou o anfitrião delicadamente, não se ofendendo com o comentário dajovem - ...é um comércio limpo, ainda que ilegal, reconheço. No entanto, eu vendo e aspessoas compram. Eu não obrigo ninguém a tomar drogas, eles procuram, pagam o meupreço e eu vendo, livremente, e sem qualquer tipo de pressões... Além disso, também otabaco e o álcool matam e destroem milhares de vidas todos os anos, provocam igualdependência, e ninguém parece condenar isso; os narcóticos e os estupefacientes não sãomais perigosos do que a bebida e os cigarros, e em público quem mais os condena é quemem privado mais os procura, ou até obtém altos dividendos à sua custa... - disse com umaexpressão sincera - Mas, ...mudando de assunto, vamos ao que realmente interessa. Vistoque fui descoberto por vós, já não é para mim seguro permanecer em Portugal, e por issoterei que procurar um paraíso alternativo. Contudo, eu não me quero ir embora sem ter acerteza absoluta de que ninguém poderá provar que eu estou vivo, e como devemcompreender, depois de todo o trabalho que tive a encenar a minha morte, é para mim muitoimportante que essas fotografias que vocês conseguiram, ...desapareçam. - E se nós não estivermos dispostos a colaborar? - interpelou Jorge, sempre com umafrieza a toda a prova. - Por certo que vão colaborar. Eu estou disposto a entrar num acordo convosco. Asfotografias, e respectivos negativos em troca da vossa liberdade. Com vêem, é simples,vocês dão aquilo que eu pretendo, e eu libertar-vos-ei. Porém, existe uma condição: queroque me digas onde é que as nossas duas amigas que tu ajudaste a fugir estão escondidas.Então, temos acordo? - questionou Enrique, pedindo uma bebida a um dos segurançaspresentes. 79
  • 80. Cartel Fantasma Alexandre Figueiredo - Não me parece mal... - começou Jorge, fingindo analisar a proposta do interlocutor -No entanto, não sei porquê, mas não confio muito... - disse, duvidando da amabilidade dooutro. - Tens a minha palavra... Enrique Escobar é um homem honrado - garantiu,principiando a saborear a sua bebida - Então, vais dizer-me onde é que elas estão? - Não... - respondeu Jorge provocadoramente. - Não abuses da minha paciência. Eu sou um pessoa tolerante, mas... - Chefe, dê-me meia-hora a sós com ele... - pediu Marco interrompendo o amo - ...euarranco-lhe a verdade a murro. - Chega Marco... - retorquiu Enrique olhando duramente para o seu segurança - Eu deia minha palavra!... Mais uma vez te pergunto onde é que escondeste as duas moças - insistiude novo o sujeito sul-americano, virando-se outra vez para o jovem estudante quepermanecia tranquilamente sentado na poltrona continuamente vigiado pelos sinistroshomens que vestiam de negro. - A verdade é que não sei... - repetiu Jorge confiante. - Quanto vale para ti a vida da tua linda companheira? - indagou Escobar, mostrando-se um tanto impaciente com a persistência do seu prisioneiro - Já te disse que não sei... - Parece que não compreendeste a minha mensagem. Ou começas a colaborar, ouentão vais vê-la morrer, ...devagarinho - ameaçou colérico - Não me menosprezes pela minhadeficiência, já outros o fizeram, e arrependeram-se... - Eu não sei de facto onde é que elas estão. Tudo o que te posso dizer, é que asdeixei realmente nas bombas da auto-estrada em Santarém. Depois, telefonei à minha irmã, epedi-lhe que as fosse lá buscar, alugasse um carro, e que desaparecesse pelo menosdurante duas semanas... - revelou por fim Jorge, perante a surpresa do inquisidor - A minhairmã é uma rapariga cheia de recursos, e principalmente de amigos. Se ela fizer aquilo quelhe pedi resta-vos esperar que ela apareça, pois com os conhecimentos dela jamais aencontrarás, a não ser que ela o queira - acrescentou ainda com um ar triunfante. - Se isso é verdade, tenho que reconhecer que por agora levas uma vantagemimportante no nosso joguinho, mas conforme te disse, eu também tenho os meus recursos, eainda não joguei todos os meus trunfos... - replicou sem se mostrar demasiado impressionadopor mais este contratempo - E quanto a vocês... - prosseguiu falando mansamente para osseus subordinados - ...são umas bestas!... Uns incompetentes!... Como é possível que umtipo sozinho possa pôr em causa a toda a minha organização, e meses e meses detrabalho!... - gritou visivelmente irado, dando um murro violento sobre a secretária de madeiraexótica - O que é que têm a dizer acerca disto? 80
  • 81. artciencia.com (ISSN 1646-3463) Ano I ● Número Dois ● Fevereiro-Abril 2006 Contudo, ninguém ousou responder, e fez-se um silêncio quase absoluto na sala,unicamente interrompido pelo próprio anfitrião que continuou ordenando: - Vão procurá-las! E não se atrevam a voltar de mãos a abanar. Eu quero sair do paíso mais breve possível, e tenho que ter as fotografias! Saiam! - exigiu agastado. Os perigosos sujeitos que vestiam de negro abandonaram de pronto a divisão nãoousando contrariar a ordem dada por Enrique. Na ampla sala, ficou apenas o líder daorganização, os dois prisioneiros, o Dr. Fontes, Marco, e ainda o tal que todos tratavam por“Rosé”. - Bem, até que aqueles inúteis me consigam trazer outras moças, vocês serão meusconvidados nesta casa - anunciou amavelmente o anfitrião, começando outro charuto. - Haverá alguma hipótese de nós recusarmos o seu amável convite? - indagou ojovem com ironia. - Não me parece, ...e se o fizerem eu insistirei energicamente para que fiquem. Sãomeus hóspedes até conseguirmos recuperar as nossas fotos... - Ah, bem me parecia - redarguiu Jorge mordazmente - Já agora, não causaria muitotranstorno, e já que somos visitas, tirarem-nos as algemas? - Tirem-lhas - solicitou o altivo sujeito boliviano, falando para os dois seguranças quehaviam permanecido no escritório - Bem, ...já passa bastante da meia-noite, e depois de umdia tão agitado e atribulado decerto que os meus hóspedes estarão exaustos... - Sim, de facto - admitiu o rapaz bocejando longamente - Perdão... - desculpou-se. - Uma vez que assim é, - decidiu Enrique - instala-os a ambos no quarto do sótão, ecertifica-te que a porta fica bem fechada, para que os nossos amigos não possam serimportunados - recomendou friamente a “Rosé” - Ah, ...desculpem, ...que falta de educação aminha. Não se importam de ficar no mesmo quarto? - Não, claro que não, de modo algum... - respondeu Jorge aliviado - “ Pelo menosvamos ficar juntos! “ - pensava, enquanto acrescentava - ...não queremos abusar da suahospitalidade... “Rosé” solicitou a Marco que o acompanhasse, e os dois levaram Rita e Jorge para omagnificente hall de entrada, fazendo-os subir uma escada em madeira exótica ricamenteesculpida; uma verdadeira obra de arte pensava o rapaz. Ao chegaram ao primeiro andarficaram em frente de um extenso corredor para o qual foram encaminhados pelos doisperigosos sujeitos que seguiam atrás, sempre de arma em punho. Enquanto cruzavam opassadouro, Jorge ia olhando de relance para as inúmeras pinturas penduradas nas paredesem intervalos mais ou menos regulares, provavelmente bastante valiosas supôs. No final docorredor voltaram a subir um segundo lanço de escadas, este bastante mais simples queaquele que partia do piso térreo, encontrando-se de novo num corredor igualmente comprido. 81
  • 82. Cartel Fantasma Alexandre FigueiredoPor fim, “Rosé” abriu uma porta, fazendo-lhes sinal para que entrassem. Indicou-lhes ondeera o quarto de banho, e em seguida, já de saída preveniu: - Estão a ver aquilo ali...? - disse apontando para uma câmara de vigilância instaladapor cima da entrada para o quarto de banho - Aquilo permite-nos ver tudo o que fizerem aquidentro. Se tentarem fugir nós vemos, se taparem a objectiva, nós estaremos logo aí, e dolado de fora vai estar sempre um guarda. Por isso é inútil tentarem fugir. - Ali no roupeiro têm tudo aquilo de que precisam... - informou Marco com a rudezahabitual, aproximando-se sorridente de Jorge - E tu, ...tem cuidado. Quando eu te apanhar,...nem queiras saber, entendeste? Dá-me só um pretexto, ...cabrão!... - findou, agredindoJorge com um soco certeiro que o deixou estendido no chão, saindo de imediato. Rita, acercou-se do companheiro de pronto, ajudando-o a erguer-se, enquanto que dolado de fora chegava o ruído da chave rodando na fechadura. - Está fechada! - concluiu o jovem tentando forçar a porta - Nada feito, é muito forte... -acrescentou, começando cuidadosamente a afastar móveis, virando quadros, espreitandodebaixo da cama... - Que procuras? - inquiriu a colega chegando junto dele. - Microfones... - esclareceu o rapaz - ...quero saber se para além de observados nãoestamos também a ser escutados. - disse, prosseguindo a sua busca - Bem, parece-me queestá limpo, podemos falar à vontade, não há microfones escondidos, e a câmara só captaimagens. - E agora, que vamos fazer? Tenho medo... - principiou Rita receosa, falandosumidamente. - Tem calma... - redarguiu Jorge, abraçando-a com ternura, na tentativa de acalmar ainquieta e dócil jovem - Temos o tempo a nosso favor. Em duas semanas por certo queconseguiremos arranjar uma forma de escapar... - tranquilizou-a falando com confiança. - Mas aquele tipo nojento do rabo-de-cavalo, ...tenho tanto medo do que ele te possafazer... - Está descansada, não te preocupes. Enquanto for o estrangeiro a mandar... - Mas eu ainda confio menos nesse fulano! - interrompeu Rita quase soluçando -Assim que ele tiver as fotografias, por certo que se vai livrar de nós. E tu não devias confiarnele nem um bocadinho. Ele serve-se da sua deficiência para manipular as pessoas. E tuestás a cair no jogo dele, ele é muito mais perverso do que parece. Aquela cadeira de rodas éuma arma que joga a seu favor - acrescentou Rita, muito nervosa. - E quem te disse que eu confio nele? - Se desconfias dele, porque razão lhe disseste que elas vão aparecer daqui a duassemanas? 82
  • 83. artciencia.com (ISSN 1646-3463) Ano I ● Número Dois ● Fevereiro-Abril 2006 - Tu acreditaste nisso...!? Fui assim tão convincente!?... - exclamou surpreendido -Bem, se te enganei a ti, talvez também o paralítico de merda tenha engolido a história... -acabou, deitando-se radiante em cima de uma das camas. - Estavas a mentir!?... - exclamou atónita, já bastante mais calma. - Claro que sim! - respondeu Jorge sorridente - Mas, cuidado... - avisou baixando avoz e continuando quase sussurrando - não podemos facilitar, e embora eu não tenhaconseguido encontrar microfones, não quer dizer que eles não existam. - Então tu sabes onde elas estão escondidas? - perguntou Rita, sentando-se na outracama. - Vem cá... - pediu, fazendo uma pausa enquanto esperava que a companheira seaproximasse - Elas estão escondidas numa casa que tenho na Serra da Estrela... - E a Isabel...? - Está com elas. Por isso, não te apoquentes. Elas estão em segurança. A casa éisolada, e ninguém, a não ser a Isabel sabe que sou eu dono. Se não tivéssemos sidoapanhados era para lá que iríamos todos... - revelou, falando muito baixinho ao ouvido darapariga. - E, ...a história das duas semanas? - É tudo treta. Foi uma bela história, que nos acabou de dar duas semanas paraelaborarmos um plano de fuga... - continuou, falando quase em surdina. - Só que há a câmara, os seguranças, e lembra-te que estamos num sótão fechados àchave... - retorquiu a jovem - Detalhes... - minimizou Jorge, parecendo extremamente seguro de si, e igualmenteconfiante - ...facilmente ultrapassáveis - acrescentou, sempre com a mesma frieza - Hámuitas coisas sobre mim que tu não sabes... - disse, vagamente. - Queres falar sobre isso? - sugeriu Rita mostrando-se bastante interessada nopassado do companheiro. - É uma longa história que um dia te contarei, ...prometo. Por agora tudo o que teposso dizer é que, há três quatro anos atrás, quando eu era mais novo, afastei-me docaminho de Deus, e fiz muitas coisas reprováveis. A menos grave, foram as drogas;...consumi de tudo, desde haxixe a heroína, LSD, cocaína, etc... Bem, mas isso felizmente jápertence ao passado. Agora vamos mas é dormir que eu estou mortinho de sono - terminou,mudando rapidamente de assunto. Vou-me trocar - assentou Rita, compreendendo que o colega não estava aindapreparado para lhe revelar todos os pormenores sobre a sua vida, enquanto se dirigia para oquarto de banho com um pijama debaixo do braço esquerdo. 83
  • 84. Cartel Fantasma Alexandre Figueiredo A rapariga voltou apenas volvidos alguns minutos, e em seguida também Jorge entrouna acolhedora dependência a fim de vestir o pijama que a esbelta jovem lhe entregara. Enfim,enrolaram-se ambos no meio dos lençóis, procurando a melhor posição para repousarem. - Jorge!? - chamou a rapariga baixinho. - Sim...? - Posso ir dormir contigo? - arriscou a medo. - Claro que podes... - anuiu o companheiro, chegando-se mais para a sua direita. - És bestial... - elogiou Rita, passando-se para a cama contígua à sua, acomodando-se entre os vários cobertores - Até amanhã!... - disse, envolvendo o rapaz nos seus braços aomesmo tempo que o beijava apaixonadamente nos lábios, que recuou surpreso - Desculpa,...fiz mal? - Não, ...gostei muito, ...só que apanhaste-me desprevenido, não estava nada àespera... - explicou Jorge algo confuso. - A sério que não ficaste zangado? - Juro. E para ser sincero adoraria repetir, mas não à frente da câmara, porque ficosempre um pouco embaraçado. - Ainda bem... - redarguiu aliviada - Só te queria dizer mais uma coisa: - Podes falar. - Queria dizer-te que gosto muito de ti, que tens sido um amigo espectacular, e pedir-te desculpa por te termos envolvido em toda esta trapalhada... - Esquece isso... Embora estejamos prisioneiros, nada está ainda perdido... -descansou-a Jorge, com a sua habitual serenidade - Vais ver, daqui a uns dias estaremostodos juntos outra vez. Vá, agora dorme... - Boa noite! - desejou Rita, voltando-se para o outro lado, deixando que Jorgepassasse os seus fortes braços em torno do seu corpo frágil e delicado... Depois de um dia tão extenuante, recheado de inúmeras emoções e peripécias,estavam ambos exaustos, pelo que não demorou muito até que dormissem profundamente,sempre vigiados através da câmara de segurança instalada numa das paredes do quarto. Repousando tranquilamente no último piso da soberba mansão, os dois jovens nãosuspeitavam da conversa que se desenrolava no mesmo escritório onde haviam estadopouco tempo antes. - Mas Enrique, escuta.... - És uma besta Fontes!... - insultou com arrogância o sujeito boliviano - Eu não querodesculpas, ...quero resultados. Vocês falharam porque foram incompetentes. Como épossível que um miúdo de vinte anos vos consiga iludir. Isso só aconteceu porque vocês o 84
  • 85. artciencia.com (ISSN 1646-3463) Ano I ● Número Dois ● Fevereiro-Abril 2006subestimaram - continuou não muito contente - Temos que conseguir essas fotografias a todoo custo, e depois livramo-nos deles... - Ele sabe de certeza onde as outras duas estão escondidas! - interrompeu o Dr. - Eupodia.... - Eu também sei disso... - revelou Escobar. - Então porque não me deixou arrancar-lhe a verdade a murro? - indagou Marco algoconfundido pelas palavras do amo. - Não valeria o esforço... - limitou-se a responder o perigoso traficante com a friezahabitual - Eu tenho uma ideia melhor... - prosseguiu com serenidade, acendendo mais umcharuto - Será o nosso amigo a levar-nos até às outras duas miúdas e às fotografias! - Não estou compreendendo... - declarou “Rosé” pensativo. - Para vencermos o inimigo teremos que aprender a pensar como ele, e se necessáriodeixarmos que seja ele a jogar primeiro. Lembras-te disto? - indagou Enrique falando para oseu segurança. - Foi o “pátron” quem me disse isso uma vez há muitos anos atrás, quando aorganização do Ramirez andava a tentar dar cabo de nós... - Exactamente “Rosé”, e com este gajo teremos que deixar que seja ele a jogarprimeiro... - Como...? - Vamos convidá-lo a fugir, e deixamos que ele nos leve até às outras duas... - Ou três... - lembrou o Dr. - Não sabemos se a irmã dele está realmente com elas! - Mas como é que estás a pensar fazer isso Enrique? - Não te preocupes, Marco. A seu tempo verás, - respondeu vagamente o líder, comum sorriso enigmático - ... amanhã jogaremos a nossa primeira cartada, e depois é só esperarque o peixe morda no anzol - acrescentou não querendo revelar mais pormenores - Estoumuito cansado. Leva-me para os meu aposentos, “ Rosé” - pediu por fim aguardando que osseus homens o ajudassem a instalar-se na cadeira de rodas que estava mesmo ao lado dapoltrona em que se encontrava naquele momento. ... Entretanto, o que sucedera com Sofia e Joana, que Jorge deixara no posto deabastecimento da auto-estrada em Santarém? Depois de o jovem ter abandonado o local, as duas raparigas sempre protegidas pelocamião que acabara de chegar, viram o colega afastar-se, e depois voltar a rodar entre osdois Mercedes negros, enquanto aguardavam que Isabel aparecesse. 85
  • 86. Cartel Fantasma Alexandre Figueiredo - Ele conseguiu! - exclamou Sofia radiante - Aqueles idiotas caíram mais uma vez! -concluiu, vendo os três automóveis regressarem à via rápida. - Tenho fome... - anunciou Joana - Vamos comer qualquer coisa? - sugeriu, pegandona carteira... - Eu também estou mortinha de fome, afinal só almoçámos, e já passa das nove -observou consultando o seu relógio de pulso - ...mas mesmo assim, ...não sei... - hesitou -Não achas que era melhor ficarmos por aqui não vá a Isabel demorar pouco tempo a chegar?- lembrou a companheira. - Tens razão... - concordou Joana - Eu vou lá, e compro qualquer coisa para as duas -decidiu a jovem, encaminhando-se para o pequeno café que existia no local, voltando algunsminutos mais tarde, trazendo duas latas de Coca-cola, um pacote de batatas fritas, e doischocolates. - Anda, vamos sentar-nos ali - sugeriu Sofia, apontando para um pequeno jardim umpouco mais afastado, onde se podiam ver vários bancos de madeira. - Achas que vai correr tudo bem com a Rita e com o Jorge? - perguntou a colega,pousando os sacos de viagem na chão, e instalando-se igualmente no assento de madeirapintada de verde. - Não sei... - principiou a outra - ...mas os outros gajos até se passam quandodescobrirem que ele arrumou aquele nojento do rabo-de-cavalo, e que nós fugimos... - É disso que eu tenho medo... Já pensaste se eles se resolvem vingar neles dois? -notou Joana, trincando com um olhar apreensivo mais uns pedaços de batata frita. - Já me tinha ocorrido, mas não te preocupes, o Jorge é um tipo às direitas... -contrapôs Sofia, terminando a sua bebida, ao mesmo tempo que rasgava o papel queenvolvia o seu chocolate - Ele sabe o que faz. Viste como ele guiou o carro hoje à tardequando fugimos de Coimbra? - É verdade, lá atrás eu estava completamente acagaçada, já reparaste se nosdespistássemos àquela velocidade. Eu consegui ver o velocímetro duas ou três vezes, ereparei que ele deu curvas a cento e sessenta, e até mais!... - prosseguiu não conseguindoconter a admiração pelo rapaz que havia conhecido na faculdade poucos meses antes - Acada curva que ele dava, eu já nos via esborrachados numa árvore ou noutro gajo que viessede frente, mas ele controlou o carro sempre com uma perícia como eu nunca tinha visto, nemo meu irmão consegue guiar assim. - E a ultrapassagem ao camião? - Aquilo foi de cortar a respiração!... - reconheceu Sofia, reunindo as duas latas derefrigerante, bem como as restantes embalagens daquilo que haviam consumido, e deitandotudo no caixote do lixo que estava a poucos metros de distância. 86
  • 87. artciencia.com (ISSN 1646-3463) Ano I ● Número Dois ● Fevereiro-Abril 2006 - É verdade, eu nunca pensei que conseguíssemos, naquele momento eu paralisei porcompleto... - Então e eu... - replicou a colega, não chegando a terminar o seu raciocínio, poisJoana interrompeu-a: - Olha ali... - começou - ...aquele BMW, não será a Isabel? - Parece, mas não tenho a certeza. Vamos esperar que alguém saia, ou então que ocarro se aproxime mais - sugeriu Sofia, observando o veículo com atenção. Porém, segundos depois o espantoso coupé amarelo debaixo da cobertura dasbombas de combustível, e a porta abriu-se, saindo de pronto uma personagem familiar que asduas fugitivas reconheceram de pronto. Desse modo, pegaram ambas nas malas de viagemque Jorge lhes deixara, e correram velozmente na direcção do elegante desportivo, enquantoque a recém-chegada aproveitava para encher também depósito de gasolina. - Vá, entrem! - pediu Isabel, abrindo o porta bagagens, e arrumando tudo no seuinterior - Entrem que eu vou só pagar a gasolina, e depois já falamos - assentou a rapariga,correndo apressadamente para o edifício que se erguia mesmo na sua frente, regressandovolvidos escassos segundos. - Agora que ninguém nos pode ouvir, quero que me contem o que se está a passar,tintim por tintim! - pediu a irmã de Jorge, entrando no carro, e fechando a porta com estrondo- Grande porra!... - exclamou - ...agora para sairmos da auto-estrada temos que ir atéAveiras... - lamentou-se, no momento em que o BMW coupé voltava a rolar velozmente na viarápida - Afinal, que história é essa das fotografias, e porque razão andam esses gajos atrásde vocês? - O que se passa, é o seguinte... - começou Sofia, contando a Isabel toda a história,sempre ajudada por Joana que ia lembrando os pormenores que a companheira esquecia. Isabel continuou a conduzir com perícia o magnífico automóvel, enquanto que as duasraparigas prosseguiam com o seu relato. Pouco tempo depois, Joana avistou uma placa queindicava a distância para a saída de Aveiras de Cima, avisando de pronto a irmã de Jorge queabandonou a auto-estrada, voltando a entrar logo em seguida, porém no sentido inverso.Instantes mais tarde, Sofia terminava a sua narração, enquanto Isabel recapitulava tudoresumidamente para se assegurar que tinha compreendido bem toda aquela bizarra situação: - Então, estão a dizer-me que anda um estrangeiro qualquer atrás de vocês por causade umas fotografias, e que os conseguiu apanhar a todos. Só que o meu irmão foi às trombasa um, ajudou-vos a fugir e quer que eu vos esconda, enquanto ele vai buscar a Rita? É isso,não é? - Sim, é isso mesmo - confirmou Sofia, que seguia no assento contíguo ao da irmã docolega. 87
  • 88. Cartel Fantasma Alexandre Figueiredo - Se ele quer que eu vos esconda, será o que faremos... - assentou Isabel, carregandono botão que fazia descer o vidro, quando chegaram à saída da auto-estrada - ...eu vou levar-vos para um sitio seguro! - anunciou, entregando uma nota de mil escudos ao portageiro. - Eu tenho medo, é que os outros fulanos se resolvam vingar no teu irmão e na Ritapor causa da nossa fuga... - lembrou Joana, quando o automóvel amarelo arrancou de novojá depois de ter parado na portagem. - Eu também estou um pouco preocupada... - revelou Isabel - ...mas não há razãopara isso. Eu conheço o Jorge, e sei do que ele é capaz. Ele é muito inteligente, e tem algunstrunfos que a maioria das pessoas desconhecem. Quase que aposto, que ele vai jogar com avossa fuga para arranjar o tempo suficiente até pensar numa maneira de escapar... - Mas estes tipos são muito perigosos... - advertiu Sofia - ...eles têm muito poder, eamigos influentes no governo, na polícia, etc. - acabou com uma expressão cabisbaixa - OJorge pode correr grande perigo, e a Rita também... - Há coisas no passado do Jorge, que mesmo eu desconheço... - Que espécie de coisas...? - indagou curiosa a atraente rapariga dos cabelos louros,enfiando a cabeça entre os dois assentos dianteiros do BMW. - Tudo o que te posso dizer, é que ele consegue ser tão Macgyver quanto o original, esem ser o Houdini, já fez milagres do género... - acrescentou vagamente. - Que queres dizer com isso do Macgyver, e do Houdini? - insistiu Joana, cada vezmais interessada nas proezas do colega. - Não te posso dizer mais do que aquilo que disse... - concluiu, fechando-se emseguida num sorriso enigmático, e escusando-se a revelar mais pormenores. - Então agora para onde é que vamos? - indagou Sofia, mudando o rumo da conversa. - Para já vamos a Santarém, o Jorge pediu-me para vos levar ao nosso apartamento,buscar qualquer coisa muito importante que vocês lá deixaram. - É verdade, os negativos estão lá!... - confessou inocentemente a jovem dos cabeloslouros. - O quê!?... Os negativos estão onde!?... - perguntou Isabel assombrada, sendoapanhada desprevenida pela revelação de Joana - Bem, estão de parabéns... - reconheceurindo divertida - Quem iria pensar que vocês tinham sido cuidadosas a esse ponto. Foiinteligente... - observou a irmã de Jorge largando o volante por segundos, e dando umapalmada amigável nas pernas de Sofia. - Isso já o teu irmão nos disse! - confidenciou a jovem que seguia a seu lado - Esperoque não fiques muito aborrecida, mas quando percebemos que eles estavam a chegar muitoperto resolvemos jogar pelo seguro. Quem é que se ia lembrar que os negativos estavam no 88
  • 89. artciencia.com (ISSN 1646-3463) Ano I ● Número Dois ● Fevereiro-Abril 2006vosso apartamento, se nem vocês mesmos sabiam - explicou Sofia com um ar triunfal,continuando depois - Ficaste chateada...? - Nem um pouquinho! - respondeu Isabel com sinceridade, anunciando depois -Chegámos!... O admirável BMW M3 coupé amarelo parou em frente da entrada principal domajestoso prédio, pelo que, ao contrário daquilo que era habitual não entraram no edifíciopelo piso subterrâneo, subindo apressadamente os degraus que conduziam ao interior doprédio. Passavam então escassos segundos das dez horas da noite. Em seguida, dirigiram-se rapidamente em direcção ao elevador... - Onde é que...? - indagou Isabel procurando na sua bolsa as chaves da porta, quandoficaram em frente da entrada do apartamento. - Estão no escritório... - declarou Joana, enquanto Isabel rodava a chave nafechadura. Sofia e Joana deixaram-se conduzir por Isabel até ao escritório. Em seguida, Joana,aproximou-se da secretária sobre a qual estava instalado um completo equipamentoinformático, e puxou para fora a mesma gaveta onde poucos dias antes tinha escondido oscomprometedores negativos. - Aqui estão! - exclamou triunfante, entregando o pequeno volume a Isabel, ao mesmotempo que voltava a colocar a gaveta no último espaço da secretária. - Os meus parabéns! - felicitou a irmã de Jorge - Só mesmo por sorte é que alguémconseguiria descobrir isso! Vê se falta alguma coisa... - pediu ainda. - Não..., está aqui tudo - assegurou a jovem, depois de ter aberto o envelope, everificado cuidadosamente o conteúdo do mesmo. - Então vamos embora... - decidiu Isabel - ...não temos mais nada a fazer aqui!Querem comer alguma coisa, ou beber...? - indagou a rapariga - ... a viagem ainda é longa -preveniu depois. - Não, ...trincámos qualquer coisa enquanto estivemos na Área de Serviço à tuaespera, por isso agora não temos fome, - recusou Sofia delicadamente - ...mas obrigada! - Vamos... - pediu Isabel, escoltando as duas companheiras em direcção à saída -...pode ser perigoso permanecermos aqui por mais tempo, além de que ainda temos muitosquilómetros pela frente. Depois de ter rodado a chave na fechadura da porta de entrada do apartamento,Isabel guardou a mesma no bolso dos jeans juntando-se de pronto a Sofia e Joana que jáesperavam no interior do elevador. Já no piso térreo do imponente edifício, saíram dirigindo-se apressadamente ao BMW M3 coupé que havia ficado estacionado mesmo em frente doprédio. Joana deixou que Sofia entrasse em primeiro lugar ocupando ela em seguida o 89
  • 90. Cartel Fantasma Alexandre Figueiredoassento contíguo àquele em que se sentara Isabel. Sem mais delongas, a jovem pôr opotente motor o automóvel amarelo em funcionamento, arrancando de imediato, e da mesmaforma que o irmão o costumava fazer; bruscamente... ... - Afinal para onde é que nós vamos? - indagou a dada altura Joana, algum tempodepois de terem deixado Santarém, quando teve a certeza que se dirigiam algures para ointerior. - Vamos para a Serra da Estrela... - esclareceu a companheira desviando pormomentos o olhar da estrada - ...vamos para casa dos avós do Jorge... - Do Jorge e teus, não é? - O quê...? - Os avós do Jorge também são teus, não é? - Não, por acaso até nem são... - revelou a rapariga, deixando as outras duascompletamente mudas de espanto... Compreendendo que deixara as duas jovens sem fala, Isabel apressou-se a explicar: - Os pais do Jorge não são os meus verdadeiros pais, nem tão pouco o Jorge é meuirmão... - Não!?... - exclamaram ambas ao mesmo tempo, cada vez mais confusas - Entãocomo é que... - inquiriu Sofia, recompondo-se mais rapidamente que a colega, embora semconseguir articular uma questão. - Queres saber como é que eu vivo com o Jorge, e porque é que ele me trata por irmã,não é? - indagou Isabel, adivinhando os pensamentos da rapariga, e prosseguindo após umsinal afirmativo de ambas - É uma longa história, que começou nas urgências do Hospital deS. José... - Conta, conta... - pediu Joana. - Eu nasci em Lisboa... - principiou a jovem, fazendo uma pausa para melhor organizaras ideias, e continuando quase de seguida - ... mais ou menos na zona de Chelas, e vivianuma barraca. Sempre fomos pobres, o meu pai estava constantemente desempregado, e aminha mãe ganhava muito pouco. Desde sempre que o meu pai bebia muito, batia-me a mime à minha mãe, e ela de vez em quando fugia, e estava vários dias sem aparecer em casa, àsvezes até semanas. Só que de há alguns anos atrás, eles começaram a mudar, passaram abeber os dois, brigavam cada vez mais vezes, e começaram a roubar e a drogar-se. Só que oaquilo que conseguiam com o roubo deixou de chegar para a droga, como estavam os doisdesempregados, o dinheiro mal chegava para comermos, quanto mais para sustentar osvícios deles. Então, obrigaram-me a roubar também. A princípio, foi só isso, mas depois, 90
  • 91. artciencia.com (ISSN 1646-3463) Ano I ● Número Dois ● Fevereiro-Abril 2006começaram a obrigar-me a fazer-lhes certos serviços, até que a dada altura vendiam o meucorpo a quem mais pagasse... - O que queres dizer com isso...? - Exactamente aquilo que disse, Sofia. Para além de me obrigarem a roubar, e do meupai ocasionalmente violar-me, chegou a um ponto em que fizeram de mim uma puta queservia unicamente para pagar os malditos vícios daqueles dois marginais. Tanto podia ser umqualquer desconhecido, como o próprio gajo que lhes fornecia a merda do pó, ou até mesmoos amigos deles. Era preciso é que pagassem..., e de preferência ...bem, para logo a seguirpoderem ir fumar mais um charro, mandar mais um chuto, ou até mesmo cheirar um pózinho!- concluiu Isabel por fim, não conseguindo esconder a sua revolta, bem como todo o ódio quesentia para com os progenitores - Os meus pais são uns miseráveis, umas pessoasdesprezíveis, de quem não tenho saudades nenhumas, ou remorsos por aquilo que lhesaconteceu... - E nunca tentaste fugir, ...ou ir à polícia? - perguntou Sofia que seguia no assentotraseiro. - Nunca tive coragem para fugir, e a polícia nunca se interessou, pelo menos até umanoite... - E o que é que aconteceu nessa noite...? - insistiu Joana. - Houve uma noite em que eu cheguei a casa com menos dinheiro que o habitual, elesjá deviam ter bebido bastante, e bateram-me. Depois só me lembro de ter acordado nohospital cheia de dores. Os médicos desconfiaram que eu tinha sido vítima de maus tratos, econtactaram o tribunal de menores, porque eu ainda não tinha sequer 17 anos. Fizeram umainvestigação, e eu embora estivesse cheia de medo que os meus pais me voltassem a bater,acabei por contar tudo. A Sra. Melo, a mãe do Jorge foi escolhida para me representar, econseguiu que os meus pais fossem ambos condenados por aquilo que me fizeram; o meupai apanhou 28 anos, e a minha mãe 16. - Foi bem feita para aqueles dois pulhas! - observou Joana não se conseguindoconter. - Os filhos da mãe tiveram o que mereciam... - retorquiu Sofia, não conseguindoesconder a sua satisfação pelo destino cruel que havia sido reservado aos velhacosindivíduos - ...desculpa, falei sem pensar... - acrescentou de imediato, apercebendo-se queIsabel poderia de algum modo ficar ofendida. - Está descansada, no que diz respeito àqueles dois nada me ofende, nem nada mefaz ter pena deles... - Assim é que é!... - apoiou de novo a lindíssima rapariga dos cabelos louros. 91
  • 92. Cartel Fantasma Alexandre Figueiredo - Depois de concluído o processo tinham que arranjar uma família que me acolhesse,porque eu não tinha familiares que quisessem tomar conta de mim. Então, a Sra. Melo,responsabilizou-se por mim, enquanto não me arranjassem um lar definitivo, e convidou-me air morar com eles. Alguns meses mais tarde, e a pedido do Jorge os pais dele, acabaram portratar da papelada necessária para que eu fosse adoptada por eles, mas... Isabel fez uma pausa, as últimas palavras havia-a-as dito com a voz alterada pelaemoção. Por qualquer razão era-lhe difícil falar do assunto, e ela não conseguira disfarçar. - O que tu queres dizer, é que eles tiveram aquele trágico acidente antes de as coisasse resolverem em concreto, não é? - questionou Joana - O Jorge contou à Rita, e ela contou-nos... - revelou a rapariga reparando que a companheira fora apanhada de surpresa pelo seucomentário. - Sim, é isso mesmo. Depois, o Jorge atravessou uma crise emocional muito longa eprofunda. Desistiu de estudar, fechava-se em casa, e recusava-se a sair, passava os dias abeber, e não queria ver ninguém. Até ele conseguir aceitar a morte dos pais foram uns mesesmuito difíceis. Mas o Jorge acabou por conseguir ultrapassar a situação, e hoje embora nãoesteja ainda completamente recuperado, porque por vezes ainda lhe é muito penoso falar noassunto, mas pelo menos parece ter aceite as coisas, e tenta lidar com elas o melhorpossível. Durante esse tempo, eu nunca o abandonei, e tentei ajudá-lo em tudo o que pude.Quando eu precisara, não só os pais, como ele foram impecáveis comigo, por isso senti-mena obrigação de o apoiar naquele momento tão terrível. - Então é por isso que te trata por irmã? - Com a morte dos pais dele, o Jorge não poderia à luz da lei ser o meu tutor. Porém,conseguiu-se de certa forma contornar a lei, uma vez que eu entretanto tinha feito os 18 anos,e então aí, o Jorge exigiu que eu passasse a viver com ele, e ocupasse o lugar da irmã queele sempre desejou, mas que nunca teve. E assim foi... - O Jorge realmente é um tipo impecável; sincero, directo e frontal, simpático, alegre ebem-disposto, inteligente, etc, etc, etc... - enumerou Joana num tom elogioso. - Estás a esquecer um qualidade muito importante: acima de tudo, é um borracho! -replicou Sofia satisfeita - Mas vocês não têm nada um com o outro, isto é, não andam...? -indagou depois. - Não, claro que não! - respondeu Isabel de pronto - Nós gostamos apenas muito umdo outro, tal como dois irmãos, partilhamos tudo, entre nós não há segredos, mas nãonamoramos! - esclareceu em seguida, acrescentando ainda - Está descansada, que não sereieu a intrometer-me entre o meu irmão e a Rita... - Como é que soubeste? - inquiriu Joana assombrada - Ele disse-te? 92
  • 93. artciencia.com (ISSN 1646-3463) Ano I ● Número Dois ● Fevereiro-Abril 2006 - Nem era preciso. Mesmo antes de eu conhecer a Rita já sabia. Via-se nos olhos delequando falava dela, e embora o Jorge nunca tenha dito nada, o fim de semana que vocêspassaram lá em casa confirmou todas as minhas suspeitas!... - concluiu a jovem com umsorriso maroto. - Bolas que tu não deixas escapar nada! - observou Sofia rindo divertida - E, mudandode assunto, falta muito para chegarmos? - Não... - principiou Isabel pensativa - ...embora eu não tenha vindo com atenção àsplacas, devemos estar a poucos quilómetros da Covilhã. Logo a seguir começa a estradapara a Torre, e a casa fica a cerca de quinze, vinte minutos do centro da cidade... Com efeito, aproximadamente quarenta minutos mais tarde, o exuberante coupéamarelo, depois de ser ter desviado algumas centenas de metros da estrada principal,estacou junto a um enorme portão de ferro, ladeado por um muro exageradamente altoerguido em pedra de granito. Isabel precipitou-se para fora do automóvel, dirigindo-seapressadamente para o enorme portão. Em seguida, usou uma chave que tirara do bolso dosjeans, abrindo o portão. Sem perder tempo, voltou a entrar no automóvel, deixando-oestacionado debaixo de um espaçoso alpendre que fora construído precisamente para essefim. - Brrrrrrrrr!... Bolas, que frio!... - queixou-se Joana abrindo a porta do automóvel -Uaaaaauuu!... Que casa... - Tiraste-me as palavras da boca! - interrompeu Sofia - Sempre sonhei ter uma casaassim num sítio como este. Tudo aqui é tão belo, tão silencioso, tão harmonioso, tão perfeito. - Tens razão... - concordou Isabel - ...eu e o Jorge vimos aqui sempre que podemos. Olugar é encantador. O Jorge adora isto aqui em cima. Às vezes, senta-se em frente à lareira,e fica horas seguidas a ver nevar, parece hipnotizado... - foi dizendo, ao mesmo tempo queabria o porta-bagagens do BMW - Vá, dêem-me aqui uma ajuda com as malas, que eu estoua ficar gelada! - pediu, pousando a última mala no chão e fazendo accionar o fechocentralizado do veículo, através do respectivo controlo remoto. De pronto, as duas raparigas auxiliaram a irmã de Jorge a transportar as três malas deviagem até à entrada da soberba habitação. - Olha que engraçado... - observou Joana enquanto esperava que Isabel abrisse aporta - ...uma sineta! Hoje em dia já não se vêem muitas... - Esta casa é muito antiga... - explicou Isabel, deixando que as duas companheirasentrassem em primeiro lugar - ...tem quase trezentos anos. Segundo dizia o Sr. Melo, outrorapertenceu a um fidalgo. Quando o avô do Jorge a comprou estava completamenteabandonada e praticamente em ruínas, mas ele restaurou-a totalmente, e já depois de ele terfalecido os pais do Jorge fizeram o mesmo, por isso por dentro tem todas as comodidades 93
  • 94. Cartel Fantasma Alexandre Figueiredomodernas! Até temos parabólica, e ligação à Internet!... - terminou, pousando as malas nochão, e voltando a sair em passo de corrida. - Onde vais? - inquiriu Joana seguindo-a de perto. - Não te preocupes, vou só fechar o portão! A rapariga entrou de novo no interior da habitação, deixando a porta entreaberta paraquando Isabel regressasse, e foi juntar-se à colega que entretanto desaparecera no extensocorredor que se seguia ao hall de entrada, em busca da cozinha. - Joana!? Sofia!?... Onde estão? - chamou a anfitriã, orientando-se pelas luzes acesasao mesmo tempo que avançava pelo interior da habitação. - Estamos na cozinha... - respondeu a voz de Sofia não muito longe - Espero que nãote importes... - começou a jovem, logo que a companheira cruzou a entrada - ...mas com ofrio que está pensámos em beber qualquer coisa quente antes de nos irmos deitar, só quenão conseguimos encontrar o café... - Está aqui!... - mostrou Isabel, abrindo uma das portas do armário que envolvia todo operímetro da dependência, exibindo uma embalagem de café para máquina - Serve?... - Perfeitamente... Bem, vamos lá fazer isto, porque eu estou mesmo a precisar dedormir um bocado. Bolas, estou mesmo estafada... - Safa, foi um dia mesmo cansativo! - concordou a rapariga dos cabelos louros. - E pelo que me contaram igualmente agitado... - comentou Isabel, distribuindo trêschávenas de café em cima da mesa. - Sim, é verdade. Espero é que o teu irmão e a Rita estejam bem... - lembrou Sofiacom uma expressão algo apreensiva, puxando de uma cadeira e sentando-se - Tenho muitomedo do que aqueles gajos lhes possam fazer, eles estão desesperados, e querem asfotografias a qualquer preço!... - Eu também não estou muito tranquila... - revelou a anfitriã, procurando um pacote debolachas no armário - ...mas estou confiante que o Jorge arranjará uma solução! Hão-de verse tenho ou não razão! O Jorge tem sempre um trunfo na manga, e neste caso, tem pelomenos dois: vocês e as fotografias!... - Tens razão, enquanto os outros gajos não nos apanharem e não tiverem asfotografias, eles estarão em segurança... - Também acho que sim... - admitiu Joana, estendendo a sua caneca a Isabel que aencheu com o café que acabara de fazer. - Temos é que tomar algumas precauções... - principiou a colega - ...não devemos sairdaqui, nem telefonar a ninguém porque se eles têm tantas influências podem muito bem teros telefones dos nossos pais sob escuta, enfim, temos que nos fingir de mortas! 94
  • 95. artciencia.com (ISSN 1646-3463) Ano I ● Número Dois ● Fevereiro-Abril 2006 - Vamos ser duas mortas-vivas! - acrescentou a companheira sorrindo divertida com aideia. - Terminem lá isso, para eu vos levar aos vossos quartos... - pediu Isabel, pousando asua chávena em cima da mesa - Estou a precisar de uma bela noite bem dormida. Amanhã,depois de termos descansado algumas horas, e com a cabeça fresca, será mais fácilpensarmos em alguma coisa. Agora não tenho cabeça para nada! Safa, estou mesmoestafada!... - concluiu com um suspiro profundo, bocejando longamente logo em seguida, aoque Sofia e Joana corresponderam de imediato, imitando-a. - Bolas que isto pega-se! - observou a esbelta morena rindo. - E de que maneira, ...é pior que um vírus!... - concordou a segunda juntando a suacaneca já vazia à da irmã do colega. As duas raparigas terminaram rapidamente o seu café, e depois de pegaram nasmalas de viagem, acompanharam Isabel até às escadas que conduziam ao piso superior. Jáno andar de cima, Sofia e Joana encontraram-se num amplo hall, decorado com requinte. Aanfitriã deteve-se em frente de uma porta, que abriu instantes depois. - Aqui é o quarto de banho, mas qualquer um dos quartos tem uma casa de banhoprivativa, a diferença é que nos outros só podem tomar duche, e este tem uma banheiraenorme... - informou, voltando a fechar a porta logo após Sofia e Joana terem dado umarápida espreitadela - Neste quarto podes ficar tu... - continuou apontando para a jovem doscabelos louros, rodando a maçaneta, e empurrando a porta simultaneamente - Têm pijamas?- interrogou - Se for preciso eu empresto... - ofereceu ainda. As duas companheiras trocaram um olhar, e encolheram os ombros, respondendo quenão sabiam, uma vez que fora Rita a preparar a bagagem para todas. Porém, Joana abriu asua mala, encontrando de pronto dois dos pijamas que habitualmente usava. Logo depois, Isabel indicou a Sofia qual o quarto em que poderia ficar, mostrando-lhetambém onde poderia encontrar cobertores no caso de ter frio, ou até mesmo um roupão paraquando tomasse banho. Por fim, a rapariga completamente extenuada recolheu ao quarto de dormir quehabitualmente ocupava, e após um reconfortante e um tanto prolongado duche enrolou-seconfortavelmente no meio dos lençóis, adormecendo quase em seguida. Nos outros doisquartos, também Sofia e Joana, se deixaram vencer facilmente pelo cansaço... Lá fora, a temperatura descera ainda mais, e em breve da sinistra escuridão do céucarregado de nuvens começaram abundantemente a cair finos farrapos alvos, quesilenciosamente foram salpicando toda a zona envolvente, dando origem a que com oavançar da madrugada se fosse formando um espesso manto branco... 95
  • 96. Cartel Fantasma Alexandre Figueiredo Fim do 5º Capítulo 96
  • 97. artciencia.com (ISSN 1646-3463) Ano I ● Número Dois ● Fevereiro-Abril 2006 Capítulo 6 O dia seguinte amanheceu quente e soalheiro. Porém, ao longe podiam avistar-sealgumas nuvens negras que ameaçavam cobrir todo o azul do céu. Em breve, o céu ficaratotalmente encoberto, escurecendo bastante. Rita e Jorge repousavam tranquilamente, encarcerados no último piso da faustosamansão que pertencia ao vil Enrique Escobar, e sempre observados com atenção através dacamera de vigilância instalada no interior do quarto. A dada altura, num dos raros momentos em que os raios solares conseguiramirromper através da espessa camada de nuvens, Rita foi despertada por um desses feixesluminosos que incidiu em cheio no seu rosto ainda adormecido, despertando-a de imediato. Aprincipio, a jovem sentiu-se um tanto confusa, pois ao abrir os olhos deparou-se com umquarto estranho, não reconhecendo nada daquilo que a rodeava. Contudo, não demoroumuito até se recordar dos últimos acontecimentos da noite anterior, concluindo que, tal comoJorge que a seu lado dormia profundamente, continuava prisioneira do poderoso malfeitor sul-americano. Rita levantou-se, vestiu o roupão e aproximou-se de uma das janelas do amplo quarto,abrindo-a de par em par. Depois, olhou ao seu redor, contemplando maravilhada a magnificapaisagem que se estendia à sua frente por vários quilómetros. Porém, no exterior corria umabrisa fresca, que de quando em vez se tornava bastante desagradável, pelo que a jovemvoltou a fechar ambas as portadas da janela. Em seguida, escolheu uma toillete do armárioque servia de roupeiro, e dirigiu-se ao quarto de banho a fim de se arranjar. Voltou não muitotempo mais tarde, usando um sensual vestido negro, que realçava de sobremaneira aelegância do seu corpo. A jovem preparava-se para acordar o colega que continuavasossegadamente a dormir, quando de súbito ouviu alguns passos do lado de fora da portaque lentamente se aproximavam. Então, o ruído deixou de se ouvir, e alguém bateu ao deleve, perguntando em seguida: - Posso entrar? - Quem está aí? - indagou a rapariga. - Sou apenas eu, o “Rosé”! - respondeu a voz - Vou entrar... - avisou ainda, fazendorodar a chave na fechadura, empurrando depois a porta - A señorita está uma brasa... -observou com simpatia, olhando por momentos fixamente para Rita. - Obrigado “Rosé”!... - respondeu a jovem, ficando um tanto embaraçada com ogalanteio do carcereiro. 97
  • 98. Cartel Fantasma Alexandre Figueiredo - O patrón manda dizer que o almoço será servido á uma hora em ponto. Como jápassam alguns minutos do meio-dia, eu aconselhava a señorita a acordar o seucompanheiro... - disse, apontando para o rapaz que permanecia enrolado nos inúmeroscobertores - ...porque o señor Enrique não tolera atrasos. - Assim farei... - respondeu Rita na sua voz meiga e doce - obrigado “Rosé”! -agradeceu, tentando imitar o sotaque espanhol, do segurança de Escobar. O captor abandonou o aposento, voltando a trancar a porta, enquanto que a raparigase decidiu ir despertar o colega, a quem a visita do outro indivíduo não teria incomodado, poisnão havia mexido um só músculo. Começou por lhe acariciar o cabelo, ao mesmo tempo queenrolava caracóis louros entre os dedos, até que o beijou docemente na face, repetindomeigamente o seu nome: - Jorge!... Jorge..., ...acorda ...seu dorminhoco! Então, ...vais passar o dia na cama? Por fim Jorge abriu os seus olhos azuis, fitando-a longamente. Depois, agarrou-a comos seus braços fortes, e puxou-a decididamente para o seu lado, abraçando-a de imediato.Rita tentou em vão libertar-se... - Estás linda! - observou o companheiro com um brilho especial nos olhos,aproximando os seus lábios dos dela, e beijando-a apaixonadamente. - E a câmara? - volveu a rapariga, libertando-se por um segundo. - Estou-me nas tintas para a câmara!... - respondeu despreocupadamente, retomandoo beijo. - Por favor pára! - pediu Rita, afastando o colega de novo. - Porquê, não gostaste!?... - indagou Jorge, algo surpreendido pela recusa dacompanheira. - Não, ...não é isso, ...é ...que ...hoje sou eu que estou com vergonha - confessou Ritabastante embaraçada, corando muito - Por favor, não fiques chateado... - Está bem... - compreendeu Jorge - Então vou tomar um duche e vestir-me! - disse,escolhendo algumas roupas do guarda-vestidos, e encaminhando-se para o quarto de banho. Faltavam cerca de cinco minutos para a uma da tarde, quando Jorge já pronto voltoupara junto da colega, usando umas calças negras, e uma camisola de gola subida, de igualcor. Por cima, vestia uma casaco bordeaux de corte elegante : - Uaaaaauuu!... Que chique! - observou a rapariga, observando atentamente o distintoconjunto do companheiro. - Gostas!? - perguntou sorridente - O teu vestido também não te fica nada mal, ...estásuma brasa! - acrescentou, retribuindo o cumprimento, no momento em que alguém do lado defora da porta rodava a chave na fechadura, entrando logo a seguir; ...era Marco: 98
  • 99. artciencia.com (ISSN 1646-3463) Ano I ● Número Dois ● Fevereiro-Abril 2006 - Venham! - ordenou - o señor está à vossa espera!... - concluiu, com os habituaismaus modos. Os dois jovens obedeceram-lhe de imediato, e saíram do quarto de dormir, semprevigiados de perto pelo perigoso malfeitor, que seguia atrás de ambos. Este, conduziu-os peloinfindável corredor até às escadas, e depois de novo por um extenso corredor, até chegaremàs sumptuosas escadas que ligavam o rés-do-chão ao piso superior. Chegados ao hall deentrada, foram encaminhados para uma porta aberta de par em par, e que dava acesso ásala de jantar. Ao fundo da longa mesa, e no topo da mesma, estava o anfitrião, instalado nasua cadeira de rodas. Logo que os viu entrar, fez-lhes sinal para que se sentassem num doslugares vagos, cumprimentando-os com o cinismo próprio da situação: - Boa tarde! - principiou sorridente - Como estão os meus hóspedes? Estão beminstalados? Têm sido bem tratados? - inquiriu, com falsa delicadeza, fingindo-se empenhadono bem-estar dos seus prisioneiros. - Boa tarde, passou bem? - respondeu Jorge educadamente - Sim, agradecemos oseu amável convite, e a sua extraordinária hospitalidade... - findou com descaramento e umà-vontade notáveis. - Penso que já conhecem todos... - prosseguiu Escobar não parecendo minimamenteafectado pelos comentários do rapaz - Este é o Dr. Fontes o meu advogado e representanteem Portugal, o Marco, o “Rosé”, e aquela moça bonita... - disse, apontando na direcção deuma rapariga bastante atraente que ocupava o lugar mesmo em frente de Jorge que acumprimentou com um sorriso - ...é a Claudia. Tal como vocês, também é minha convidada,só que está á espera que o pai se decida a reconsiderar uma proposta bastante aliciante queeu lhe fiz... - concluiu, escusando-se a revelar mais pormenores, embora deixasse implícitoque a jovem fora raptada de modo a pressionar o pai em relação a algo. - A sua generosidade é inigualável... Certamente na hora da verdade, Deus não seesquecerá de si!... - observou Jorge mordazmente, o que provocou que as duas raparigas atéentão quase imóveis deixassem escapar um sorriso tímido. - Em breve eu terei todos os meus assuntos devidamente tratados, e logo que issoaconteça vocês serão postos em liberdade, enquanto eu discretamente escolherei outro localpara gozar a minha reforma... Ibiza, talvez até o Hawai, ou quem sabe, um país nórdico,Suécia, Finlândia, Noruega, e há sempre a possibilidade de poder comprar uma ilhazinhajeitosa... - lembrou - Para isso, só faltam mesmo alguns detalhes, e claro está as minhasfotografias que a tua irmã e as vossas colegas têm na sua posse, mas que não tardarão aentregar-me. É tudo uma questão de oportunidades... - frisou, com uma expressão de quemaparentava estar totalmente seguro do que dizia. 99
  • 100. Cartel Fantasma Alexandre Figueiredo - Por acaso não tem piscina? - perguntou Jorge com uma expressão enigmática,perante o olhar de interrogação de Enrique e seus comparsas. - Fica nas traseiras da casa... - informou o anfitrião, terminando a apetitosa sopa delegumes - ...mas receio não ter conseguido acompanhar o teu raciocínio. - Concerteza não me vai recusar uns mergulhos quando chegar o Verão? - prosseguiuo jovem sem adiantar mais - Aqui o Fontes vai fazer com que isso não seja necessário - replicou o outroadivinhando-lhe o pensamento - A seu tempo verás que tenho razão; provavelmente no Natalaté já estarás junto da tua irmã, e eu bem longe deste país! - revelou o estrangeiro semhesitar. - Não duvido das suas capacidades, ...já das deles!... - retorquiu o rapaz com ar detroça, olhando na direcção dos capangas do traficante sul-americano. - Então, não provas a lagosta? - observou Escobar, mudando rapidamente o assuntoda conversa, e falando com um ar de reprovação para a desconhecida Cláudia, reparandoque ela havia recusado o requintado prato que o indivíduo de casaca preta foi distribuindo portodos os que se sentavam à mesa - Olha que está uma delícia! - insistiu, provando um pouco. - O problema não é da lagosta, mas sim da companhia! - respondeu a outra comdesdém, o que lhe valeu um sorriso de aprovação de Jorge. De súbito, fez-se silêncio, e até final da refeição ninguém mais falou. Aos sucessivossinais do anfitrião o seu empregado ia servindo as iguarias que faziam parte da refeição.Após a lagosta, foi servido um suculento assado, e depois uma deliciosa sobremesa. Por fim,e como habitualmente, o inevitável café. Depois de ter pousado a sua chávena no respectivopires, Enrique puxou do seu charuto, e com um sinal pediu a Marco que o levasse para forada dependência. Antes porém, preferiu algumas palavras, dirigindo-se aos três prisioneiros: - Se quiserem passar a tarde a passear pelo jardins da minha propriedade, poderãofazê-lo à vontade, desde que respeitem as ordens que lhes sejam dadas - convidou, falandopausadamente e com delicadeza - Peçam a algum dos meus homens que vos levem até láfora - acrescentou, desaparecendo no hall de entrada da faustosa mansão. Os dois jovens aceitaram com agrado sugestão do infame captor, e Cláudia ofereceu-se para lhes fazer companhia. Alguns minutos mais tarde, estavam os três confortavelmenteinstalados nas cómodas cadeiras de jardim ao redor de uma mesa que pertencia ao mesmoconjunto, conversando animadamente, sempre sob o olhar atento dos seguranças do vilEnrique Escobar... - Afinal o que é que estás aqui a fazer? - indagou Rita curiosa. - Como devem percebido pela conversa daquele canalha, ele raptou-me para poderchantagear o meu pai... - principiou a esbelta rapariga dos cabelos louros. 100
  • 101. artciencia.com (ISSN 1646-3463) Ano I ● Número Dois ● Fevereiro-Abril 2006 - Mas que interesse pode ter em te raptar? - interrompeu Jorge - Dinheiro...? Nãoacredito, ele deve ser riquíssimo... - O meu pai, é dono de uma das maiores empresas de importação e exportação dearte em Portugal, e faz negócio com centenas de outros comerciantes de arte, um pouco portodo o mundo. - revelou a jovem - O ordinário do Fontes era o advogado da firma, só que háalgum tempo atrás o meu pai descobriu o que ele andava a fazer, e despediu-o... - Então o tipo andava a servir-se do negócio do teu pai como cobertura para asoperações dele de tráfico de droga, certo? - antecipou-se Rita, prevendo o que Cláudia iadizer a seguir. - Certíssimo!... - confirmou a outra - Ele foi despedido, mas ameaçou o meu pai que sedenunciasse o caso eu seria morta. Depois disto desapareceu, e nós nunca mais o vimos. Sóque há algumas semanas atrás foi ao escritório chantagear o meu pai; ou ele colaborava comeles, e dava cobertura às operações, ou nunca mais me via... Suponho que não é muito difíciladivinharem qual foi a resposta do meu pai - acabou a rapariga com um olhar de raivacontida. - Há quanto tempo te trouxeram para aqui? - Fez ontem uma semana. - E o teu pai ainda não fez nada para te libertar? - indagou Rita surpreendida. - Sabes, eu e o meu pai nunca tivemos uma relação muito pacífica, mas desde que elecasou com aquela fulana, as coisas pioraram bastante, agora mal nos vemos, e raramentenos falamos. - Então e a tua mãe? - A minha mãe, eu..., ...eu não quero falar dela... - respondeu friamente, deixandotransparecer que também não nutria grande afecto pela mãe. - E ainda não tentaste fugir daqui? - questionou Jorge, mudando o rumo da conversa,apercebendo-se que o tema dos pais irritava a rapariga. - Não tenho feito outra coisa, senão pensar numa maneira de escapar, mas até agora,de todas as vezes que tentei, o melhor que consegui foi chegar ao portão... Não há hipóteses,eles vêem tudo através das câmaras. Ainda nós não chegámos ao chão já eles lá estão ànossa espera...- respondeu, mostrando-se algo desalentada pelos sucessivos insucessos - Jáme convenci que é impossível sair daqui... - Impossível não é palavra que conste do meu vocabulário... - interrompeu o audazrapaz - acredito que não seja propriamente fácil, mas nada é impossível, é tudo uma questãode se saber jogar a cartada certa, no momento oportuno - concluiu, fechando-se no seuhabitual sorriso enigmático, sem revelar mais pormenores. 101
  • 102. Cartel Fantasma Alexandre Figueiredo - Estás a pensar fugir? - inquiriu Cláudia, mostrando-se de súbito muito interessada noassunto, fitando-o fixamente nos olhos. - Claro que sim! - Então e as câmaras? - São apenas mais um obstáculo! - respondeu o Jorge com segurança, não semostrando demasiado preocupado abstendo-se no entanto de revelar mais pormenores, elevantando-se anunciou - Vou dar uma volta... - disse - tive umas ideias que preciso pensarmelhor. As duas raparigas ainda se ofereceram para o acompanhar, porém o jovem paragrande surpresa de Rita recusou decididamente, e afastou-se logo em seguida sem maispalavras. Jorge acabara de ter uma ideia, que podia ser o ponto de partida para a fuga.Contudo, precisava de reflectir tranquilamente sobre ela, de modo a elaborar um planoinfalível. Cláudia dissera que de todas as vezes que tentara fugir, tinha sido semprealcançada pouco tempo depois. Mas a bela rapariga dissera mais, algo que de repente deuuma grande esperança a Jorge; as câmaras... As câmaras eram o maior obstáculo, porémpoderiam tornar-se também no melhor dos aliados... O rapaz ia compondo os seuspensamentos, enquanto caminhava tranquilamente sobre a verdejante relva da extensapropriedade. - " Se a câmara do quarto transmitisse as imagens que eles querem ver, só seaperceberiam da nossa fuga quando já estivéssemos bem longe... " - idealizava, passeandopróximo do portão pelo qual entrara na noite anterior - "Agora só preciso de fabricar asimagens certas, e bye... bye!..." - concluiu com um sorriso triunfante - " Hum, ...tal comoeu suspeitava, ...deve ser comandado a partir da casa!... " - comentou, aproveitando a suaproximidade ao portão para fazer uma inspecção detalhada, fingindo observar algo do lado delá, sempre vigiado a curta distância por um capanga do indivíduo estrangeiro. Em seguida, o jovem afastou-se do elevado muro que delimitava a área da fabulosamansão, prosseguindo a sua caminhada aparentemente inocente ao redor da propriedade,sentando-se por fim debaixo de um semi-despido plátano colorido de um tom de amarelomuito próximo do castanho. Depois, serviu-se do volumoso tronco da árvore como apoio paraas costas, ao mesmo tempo que o sol mais uma vez era ocultado pelas inúmeras nuvens quecobriam quase por completo o azul do céu. Porém, não demorou muito tempo até que seerguesse de novo, resolvendo ir procurar o seu automóvel, embora sem grandes resultados,pelo que foi forçado a pedir a um dos homens de negro que a curta distância vigiavam osseus passos que lhe indicasse onde fora guardado o soberbo Ford Escort Rs Cosworth. Ooutro prontificou-se de imediato a acompanhá-lo, levando-o até um espaçoso telheiro 102
  • 103. artciencia.com (ISSN 1646-3463) Ano I ● Número Dois ● Fevereiro-Abril 2006concebido para no seu interior poder albergar um número apreciável de viaturas, emboranaquele momento apenas se encontrassem ocupados cinco lugares; os dois luxuososMercedes já bem conhecidos de Jorge; uma limusine que mais parecia tirada dos filmesamericanos; um maravilhoso Ferrari cabriolet, e por último o seu Ford Escort RS Cosworth. Ojovem examinou cuidadosamente o seu automóvel, concluindo aliviado que tudo estava emordem, aproximando-se depois do esplêndido desportivo vermelho: - Que belo carro! Um dia hei-de ter um assim! - observou, abrindo a porta para melhorpoder observar o interior do fantástico automóvel. - Já chega! Fora daqui! - ordenou o outro mostrando-se repentinamente muitonervoso, apontando-lhe a arma. - Está bem! Está bem, ...eu saio! - Só estava a ver como era por dentro... - concluiu,afastando-se obedientemente do local. Em seguida, retomou o seu passeio, caminhando pensativamente pela calçada dapropriedade. A dada altura, desviou-se do caminho que seguia, aproximando-se da mesmaárvore onde minutos antes estivera a descansar, sentando-se de novo. - " É isso mesmo!... - disse entredentes com um sorriso de orelha a orelha - Umatelevisão, um vídeo, um bocado de sorte, ...e estamos safos! Ah! Ah! Ah! Sou um génio! -terminou, rindo, abrindo os braços em sinal de contentamento. Porém, entretido que estava a pensar na melhor forma de convencer Enrique a dar-lheaquilo que pretendia, nem sequer se apercebeu da aproximação das duas raparigas: - Ah, ...então é aqui que tu estás! - observou Cláudia sentando-se a seu lado. Jorge que não tinha dado conta da aproximação das duas companheiras, não estavaa contar ser surpreendido daquela forma, pelo que apanhou um valente susto. - Então que já voltavas, hem? - comentou Rita com uma expressão de reprovação,sentando-se também a seu lado, ao mesmo tempo que passava o seu braço pelos ombros docolega. - Desculpem, entretive-me a passear, fui ver o meu carro, e nunca mais me lembreique vos tinha deixado sozinhas. Por acaso até tinha acabado de me sentar aqui... - Então génio, diz lá porque é que estás tão contente? - indagou Cláudia. - Já arranjei maneira de sairmos daqui! Tudo o que precisamos é de um pouco desorte, e da colaboração do nosso amigo Enrique... - Se estás a contar com isso, ...esquece - informou a bela jovem dos cabelos louros -Jamais ele te dará seja o que for! - Não percebeste... - retorquiu o rapaz - ...ele vai colaborar, ...só que ainda não sabe! -acabou rindo. - Qual é afinal o teu plano? - insistiu Cláudia... 103
  • 104. Cartel Fantasma Alexandre Figueiredo - É simples. Tudo o que temos que fazer é usar as câmaras a nosso favor... - Desculpem... - interrompeu Rita, - ... o lanche não é agora às quatro e meia? - É verdade... - confirmou Cláudia - ... olha está ali um gajo a fazer-nos sinal parairmos para dentro, deve estar a chamar-nos para o lanche. - supôs a rapariga - Vamos? - Vai andando, que nós vamos já... - respondeu Rita abraçando Jorge, e deitando-seno chão, beijou-o com ternura, enquanto a companheira se afastava apressadamente emdirecção à imponente mansão. - Não pares! - pediu Jorge quando Rita pôs fim aquele momento de paixão. - Não é que não tivesse vontade, mas agora foi só foi uma manobra de diversão! -revelou a rapariga, não permitindo que ele se levantasse. - Mas porquê? - Foi a única maneira que encontrei de podermos falar a sós, sem a víbora ouvir... - Quem? - A Cláudia! Temos que ter muito cuidado, há qualquer coisa na história dela que nãobate certo... - Mas o quê? - Não sei, é só um pressentimento de que ela não é tão inocente quanto quer fazercrer, por isso tive que desviar a conversa, porque tu parecias um papagaio. - Se não tens a certeza não deves acusá-la de nada. Quando fugirmos, tambémtencionas deixá-la aqui com este bando de criminosos? - perguntou Jorge indignado. - Não, não é isso, só não precisamos é de lhe dizer tudo, pelo menos até termos acerteza de que lado é que ela está. E, quando fugirmos, logo se vê, mas até lá peço-te quelhe digas o menos possível. - Está bem... - concordou o rapaz - mas acho que estás a ser paranóica - observouerguendo a cabeça, e avistando Cláudia ao longe - Vamos, ela está a chamar-nos - disse porfim, ajudando Rita a levantar-se, e de mãos dadas caminharam romanticamente como umparzinho de namorados em direcção à soberba mansão... Instantes depois, encontravam-se já confortavelmente sentados nas cómodascadeiras do salão de chá, apenas acompanhados à mesa por Cláudia e "Rosé". - Onde estão todos? - indagou Jorge surpreendido, falando na direcção do segurançade Escobar. - O senõr saiu com o Dr. Fontes e o Marco. Apenas voltarão ao jantar - respondeu ooutro, escusando-se a dar mais informações. - Olha lá..., ó "Rosé", ... se eu quiser ver televisão, ou até mesmo uns filmes de vídeoà noite depois de ir para o quarto como é que eu devo fazer? - questionou Jorge. 104
  • 105. artciencia.com (ISSN 1646-3463) Ano I ● Número Dois ● Fevereiro-Abril 2006 - Como o quarto não tem nem uma coisa nem outra, só mesmo pedindo ao señor, etalvez ele consinta nisso. - E achas que ele permitirá? - perguntou ainda o prisioneiro. - Não sei - foi a resposta obtida - mas se quiser, eu poderei interceder por si junto dopatrón - ofereceu-se o outro prontamente. - Seria óptimo "Rosé" - agradeceu Jorge - Não compreendo como é que sendo tu tãodiferente, continuas misturado com esta gente. - Desculpe-me, ...mas vou ter que sair - anunciou este bastante comprometido, nãochegando sequer a terminar a fatia de torta que acabara de partir. Após a precipitada saída de "Rosé", os três jovens ficaram de novo a sós no amplosalão, e logo Cláudia voltou a tocar no assunto do plano de fuga: - Há bocado não acabaste de explicar a tua ideia - principiou - ...afinal como é queestás a pensar contornar as câmaras? - A seu tempo verás... - respondeu o rapaz prudentemente, seguindo o conselho deRita - ...até porque não tenho a certeza se resulta ou não, ainda tenho que limar algumasarestas, e por isso não vos quero dar falsas esperanças. - respondeu vagamente - Bem, masmudando de assunto, sabes onde é que se pode ver um bom filme aqui? - perguntou àesbelta companheira dos cabelos louros. - Boa ideia - aprovou a rapariga - ...vamos para a sala. Normalmente é o que faço. - E não há problema? - lembrou Rita - Não, até ao jantar podemos andar por onde quisermos. Todo o interior da casa estávigiado por câmaras, e há seguranças por todo o lado, por isso é melhor aproveitarmosenquanto podemos, porque a seguir ao jantar fecham-nos nos quartos. - Então vamos... - decidiu o rapaz. Dirigiram-se então para a sala de estar que Cláudia indicara, e acomodaram-se nossofás do aposento, enquanto Jorge escolheu uma cassete que de imediato colocou noaparelho de vídeo. Permaneceram nesse espaço sem serem incomodados até próximo dasoito horas, altura em que o sujeito do rabo-de-cavalo abriu a porta da sala, informando que ojantar seria servido de imediato. Assim, os três jovens foram encaminhados para a mesmasala onde havia decorrido o almoço, onde o anfitrião, sentado na sua cadeira de rodas, já osaguardava, com um outro convidado que nunca tinham visto. - Ah, estão aí! - principiou com a habitual fria delicadeza - Creio que ainda nãoconhecem o Dr. Álvaro de Matos... - disse, apresentando o desconhecido - ...é ele que me vaiajudar a encontrar as tua irmã e as tuas colegas. - Muito prazer... - cumprimentou Jorge com educação, antes de ocupar o seu lugar àmesa - ...mas permita-me que lhe diga, está a perder o seu tempo! A Patrícia jamais se 105
  • 106. Cartel Fantasma Alexandre Figueiredodeixará apanhar... - acrescentou pleno de confiança, trocando um olhar cúmplice com Rita,que de imediato compreendeu a mensagem: Jorge estava a dar aos captores uma pista falsa. - Muito em breve verás como estás enganado - respondeu o outro secamente,mostrando igual à-vontade. Para além do anfitrião, dos três prisioneiros, e do Dr. Álvaro de Matos, estavam aindapresentes, o Dr. Fontes, Marco e "Rosé". Este último teria já por certo discutido o pedido deJorge com o patrão, pois foi mesmo Enrique quem mencionou esse assunto: - Soube que queres uma televisão e um vídeo no teu quarto, posso saber para quêtambém o vídeo, não será a televisão suficiente? - Não, porque à noite a televisão raramente transmite programas com interesse, ecomo eu estou habituado a deitar-me bastante tarde, e adoro filmes, pensei nessa soluçãopara nos distrairmos. - Está bem, de acordo. Amanhã mesmo o "Rosé" tratará de vos instalar os aparelhosno quarto - aprovou o anfitrião, após trocar alguns olhares com a personagem que seencontrava a seu lado - Agora experimentem os bifes que estão uma delícia - sugeriu - Poracaso já provaram disto, ou não? - Mas que porra é esta, peixe, outra vez! - reclamou Cláudia não escondendo o seudescontentamento. - Minha querida, são bifes de atum grelhados, é óptimo, devias provar, e o Pablocozinha-os divinalmente - retorquiu Enrique permanecendo inalterável. - Estou-me nas tintas para estas mariquices; lagostas, camarão, bifes de atum,caviar... - enumerou com ar de troça, podes enfiá-los todos, ...onde tu bem sabes! - terminouem tom desafiador, atirando ainda ao chão o prato que o mordomo acabara de lhe colocar nafrente. - A verdade, minha menina, - recomeçou o estrangeiro dominando a sua fúria - ...éque começo a ficar cansado destas cenas às refeições - prosseguiu aborrecido, embora semlevantar a voz - Marco, acompanha a nossa amiga até ao seu quarto, por favor. O outro obedeceu contrariado, agarrando a atraente jovem dos cabelos louros peloseu braço direito, e conduzindo-a para fora da sala. Cláudia ainda se tentou libertar, noentanto Marco pouco disposto a brincadeiras, torceu-lhe o braço atrás das costas, e a jovemdeixou de resistir. - Solta-me!... Larga-me!... Filho da puta!... - insultou a rapariga perante a indiferençado segurança - Eu mato-te... Estás a ouvir... dou cabo de ti!... Cabrão!... Instantes depois a voz de Claudia deixou de se ouvir, e o silêncio apenas foiinterrompido por Jorge, que perguntou na direcção do anfitrião: - Que vão fazer com ela? 106
  • 107. artciencia.com (ISSN 1646-3463) Ano I ● Número Dois ● Fevereiro-Abril 2006 - Está descansado, não lhe faremos mal... - informou Enrique calmamente - ...se elase portar bem - acrescentou em seguida, tentando deixar claro que a sua paciência tinhalimites. O sujeito do rabo-de-cavalo voltou volvidos poucos minutos, ocupando de novo o seulugar, e depois daquele episódio ninguém mais ousou falar durante o tempo que aindademorou a refeição. Finda a mesma, "Rosé", e Marco levantaram-se de pronto, fazendo sinala Jorge e Rita para que os acompanhassem... Assim que passaram a porta de entrada do último piso da casa de habitação, Marcoavançou alguns metros, abrindo a porta do mesmo quarto que os dois jovens haviamocupado na noite anterior, empurrando-os depois para o seu interior: - Bons sonhos! - disse, com um sorriso amarelo. - Tchauu! Bons sonhos para ti também, Marco... - respondeu Jorge com cortesia, aomesmo tempo que Rita se despedia com um provocador piscar de olho, que o outro fez porignorar. Logo que os passos dos dois capangas de Enrique Escobar deixaram de se ouvir,Jorge escapou-se sorrateiramente para debaixo da câmara de vigilância, ficando coberto peloângulo morto da mesma. Em seguida, puxou a cadeira que se encontrava a seu lado, subindopara cima dela... - Então, depois daquilo que se passou ao jantar ainda estás convencida de que aCláudia está com eles? - perguntou, enquanto observava minuciosamente o sistema devigilância. - Fiquei com a certeza absoluta. Reparaste nos sinais que ela fez ao tal gajo novo e aoEnrique quando lhes disseste que a tua irmã se chamava Patrícia?... - Estás a ser paranóica... - replicou Jorge. - E tu cego... - retorquiu a rapariga - Só espero que quando perceberes não sejademasiado tarde... - acrescentou com um ar muito sério - Mas mudemos de assunto; afinal oque estás para aí a fazer? - Espera um pouco... - pediu, remexendo nos fios que saíam da parte de trás dacâmara - ...só preciso de ver mais uma coisa... Pronto!... - exclamou, saltando da cima dacadeira com um sorriso no rosto - ...Vai ser mais fácil do que eu pensava! - Que estás para aí a dizer? - indagou a colega sem compreender o significado daúltima expressão do companheiro. Jorge porém, não respondeu, e avançou decididamente na sua direcção... - Não estragues tudo... - pediu, deitando-a suavemente sobre o leito da cama -...vamos apenas distraí-los - findou, deitando-se a seu lado, e encostando os seus lábios aosdela, envolvendo com os seus braços fortes o corpo frágil e delicado da jovem. 107
  • 108. Cartel Fantasma Alexandre Figueiredo - Por favor pára... - implorou Rita, tentando em vão afastar o colega. - Está descansada, não faremos nada enquanto não te sentires preparada, isto éapenas uma manobra de diversão... - sossegou Jorge, acariciando a face da companheiraque deixou de resistir - Já sei como vamos sair daqui! - disse, segredando-lhe ao ouvido - Vaiser o sistema de vigilância a dar-nos cobertura! - Como? - questionou Rita, puxando Jorge para cima de si, e beijando-o com ternura. - Vamos interferir no sistema de vigilância... - principiou, falando em surdina, aomesmo tempo que apertava o tronco da rapariga contra o seu - ...fabricamos umas imagens,e depois só teremos que as pôr no ar na altura certa, e enquanto eles vêem um filme, nóspiramo-nos nas calmas! - acrescentou depois. - Tens a certeza que resulta? - questionou Rita não parecendo totalmente convencida,afagando-lhe o cabelo. - Acho que sim... - recomeçou Jorge, esticando-se ao comprido na espaçosa cama, epuxando a companheira para o seu lado - ...a câmara é fixa, não tem zoom, e mesmo asligações não são muito difíceis de violar. - E onde é que entra a televisão e o vídeo? - inquiriu a jovem, deixando que o colegapassasse o seu braço por detrás dos seus ombros, ficando a servir-lhe de apoio para acabeça. - A televisão não tem utilidade nenhuma, só serve para justificar o vídeo. Nós sóprecisamos do vídeo e de uma cassete... - Então a televisão, é só para disfarçar, porque eles iam desconfiar se pedisses só ovídeo, certo? - deduziu a atraente estudante. - Certíssimo!... - continuou Jorge - Nós vamos interferir no sistema de vigilância duasvezes; a primeira para gravarmos uma noite de sono, ou seja vamos gravar aquilo que elesestão a ver, e depois na noite a seguir cortamos a ligação da câmara, e pomos no sistema asimagens da gravação. Como a câmara é fixa, eles só podem descobrir que nós estamos afugir se entrarem no quarto, ou se os guardas que estiverem lá fora nos apanharem. - Brilhante! - exclamou Rita, saltando para cima do colega, e beijando-oapaixonadamente - Mereces!... - disse, interrompendo por breves instantes aquele momentoíntimo para tomar fôlego - Agora nem uma palavra à Cláudia, ...promete! - Mas ela vai connosco! - replicou Jorge, não deixando lugar a discussão. - Está bem, mas não precisa de saber de nada... - concordou a companheira comrelutância - ...e só lhe dizemos mesmo quando já estivermos a fugir para ela não ter tempo deavisar os amigos, ...vá, ...jura! - Juro... - garantiu o rapaz levantando a mão direita, fazendo também uma expressãomuito séria - ...mas ainda acho que estás enganada. 108
  • 109. artciencia.com (ISSN 1646-3463) Ano I ● Número Dois ● Fevereiro-Abril 2006 - Caíste no jogo dela que nem um patinho! - retorquiu a atraente rapariga, insistindomais uma vez nas suas desconfianças - Ela vai-nos trair, ...espera, e verás! - Estás a ser injusta... - Desculpa... - redimiu-se ela, apercebendo-se que o seu último comentário magoara ocolega - ...não vale a pena zangarmo-nos por causa disso! - concluiu, acariciando-lhe o rosto. - Vá, deixa-te disso, ...eu não fiquei chateado... - sorriu Jorge, tentando desvalorizaraquele mal-entendido - Ainda é muito cedo, ...queres jogar alguma coisa? - Que tal Batalha Naval?- sugeriu Rita - Temos papel e canetas... - De acordo! - aprovou o rapaz, indo buscar o material necessário - Eu fico daquelelado... - disse, entregando uma caneta e um bloco de apontamentos à colega, sentando-sedepois na cama do lado. - O que é que apostamos? - E se for..., - principiou Jorge pensativo - ...um jantar? - propôs. - Está no papo! Começaram ambos por espalhar os seus "navios" de maneira a que o rival não ospudesse descobrir facilmente. Rita deixou que fosse o companheiro a começar, jogando elalogo a seguir. O jogo prolongou-se por mais de uma hora, pois os dois jovens ao mesmo tempo quetentavam através de palpites descobrir a localização dos barcos do adversário, iam contandoanedotas, pelo que ambos passaram um pedaço bem animado. Porém, quando já nãorestavam muitas hipóteses Rita arriscou: - H7...! - Bem, ...haaaa, ...huuumm, ... - balbuciou Jorge adiando uma resposta - Tiro, ...ebarco ao fundo! - acrescentou desconsolado. - Ganhei!... Há! Há! - exclamou radiante - Já estou a imaginar onde será o nossojantar: ...um belo restaurante à beira-mar, ou porque não um jantarzinho romântico à luz davela num sítio bem sossegado... - Combinado!... - decidiu Jorge de pronto - Conheço um restaurante francês que é omáximo!... E não vale a pena dizeres que não... - continuou, reparando que dissera aquilo porbrincadeira - Está decidido! - Depois se vê... - replicou Rita, bocejando longamente - Vou-me deitar! - anunciou,colocando a mão à frente da boca para esconder o segundo bocejo. - Também estou a ficar com sono... - declarou o companheiro, espreguiçando-se emcima da cama - Queres ir trocar-te primeiro? A jovem acenou com a cabeça em sinal afirmativo, e pegou na camisa de noite queestava arrumada no guarda-vestidos, encaminhando-se em seguida para o quarto de banho. 109
  • 110. Cartel Fantasma Alexandre FigueiredoRita regressou poucos minutos após ter entrado, indo acordar o companheiro que entretantoadormecera tranquilamente deitado sobre o confortável colchão da cama. Em seguida,também o rapaz se dirigiu para a mesma dependência a fim de se trocar. Demorouigualmente não muito tempo, voltando para junto da colega, que já se refugiara entre oslençóis da cama: - Fica comigo... - pediu, notando que ele se aproximava da cama contígua. - Está bem! - anuiu Jorge, juntando-se à jovem debaixo dos vários agasalhos. Por fim, trocaram um ternurento beijo na face, e muito aconchegadinhos preparam-separa dormir... Lá fora, a temperatura descera bastante, e para além do intenso nevoeiro queentretanto se formara, ao longe ouviam-se os primeiros trovões de um temporal queameaçava perturbar o tranquilo repouso dos dois prisioneiros... Fim do 6º Capítulo 110
  • 111. artciencia.com (ISSN 1646-3463) Ano I ● Número Dois ● Fevereiro-Abril 2006 Capítulo 7 A manhã seguinte surgiu bastante tristonha... Apesar de ser ainda Outono, aquele diade Quarta-feira anunciava uma chegada antecipada do Inverno. Na verdade, desde que o diarompera a chuva não deixara ainda de cair, e o vento assobiava vigorosamente de encontroàs robustas paredes da velha mansão. Também a espessa camada de nevoeiro que durantea noite se formara, teimara em ficar, pelo que o cenário em redor da faustosa habitação eraquase irreal, mais parecendo tirado do guião de um filme de suspense. Jorge, foi o primeiro a acordar naquela escura e sombria manhã de Dezembro. Noentanto, tendo-se deparado com aquela situação muito pouco convidativa, deu meia volta,aconchegou-se ainda mais entre os lençóis, e voltou a adormecer não muito tempo depois.Antes porém, olhou por instantes para colega que a seu lado repousava tranquilamente. Porfim, as pálpebras fecharam-se lentamente... ... - Señor!... Señor!... - chamou uma voz conhecida, abanando o corpo inerte do rapaz -Señor, ...acorde! - insistiu a voz. - Que se passa? - inquiriu Jorge despertando estremunhado, abrindo então os olhos, eidentificando a personagem que o acordara - Que queres "Rosé" ? - indagou, bocejando aomesmo tempo. - Vim acordá-lo a si e à señorita, pois já passa do meio-dia... - Meio-dia!? - interrompeu o jovem surpreso - Mas o meu relógio só tem dez e meia... -contrapôs, observando os ponteiros do seu relógio de pulso que continuava em cima damesinha de cabeceira - Porra! Está parado! - disse, verificando que o ponteiro que marcavaos segundos estava imóvel. - Se quiser, eu mesmo posso providenciar uma pilha nova... - ofereceu o prestávelindivíduo sul-americano. - Obrigado... - respondeu Jorge, entregando-lhe o relógio. - Tenho também aqui aquilo que me pediu ontem... - recomeçou "Rosé", apontandopara o televisor e o videogravador que deixara à entrada do quarto. - Deixa ficar, que eu mesmo monto logo à noite... - agradeceu o prisioneiro falandodelicadamente, enquanto o outro se encaminhava para o exterior. - Voltarei à uma hora... - informou, saindo e fechando a porta atrás de si, fazendorodar a chave na fechadura logo depois. 111
  • 112. Cartel Fantasma Alexandre Figueiredo Por fim, Jorge saiu debaixo dos lençóis, não sem antes contudo observar acompanheira, que docilmente a dormia a seu lado. Em seguida, escolheu umas roupas doguarda-vestidos, e correu em direcção ao quarto de banho. Regressou volvidosaproximadamente vinte minutos, usando uns jeans azul desbotado e uma camisola de golaalta negra. Depois, constatando que Rita ainda não acordara, decidiu-se por despertá-la: - Rita... - chamou baixinho ao ouvido da jovem, não obtendo no entanto qualquerresposta - Rita... - repetiu, afastando os cabelos que lhe pendiam sobre o rosto - Acorda... -pediu, passando ao mão ao de leve pela pele suave da colega, ao mesmo que a beijava comternura na face. A rapariga deu enfim sinais de vida, primeiro mexendo-se entre os cobertores, eabrindo os olhos logo a seguir. - Bom dia! - disse, saudando o companheiro com um carinhoso beijo nos lábios - Quehoras são? - indagou, espreguiçando-se repetidamente. - Preguiçosa... - comentou Jorge, enquanto procurava o relógio da jovem - Faltamvinte e cinco minutos para a uma da tarde... - anunciou, voltando a arrumar o relógiocuidadosamente em cima da mesinha de cabeceira - ...vamos, é melhor ires arranjar-te, o"Rosé" disse que voltava antes da uma. - Ele esteve aqui? - Sim, veio trazer a televisão e o vídeo... - esclareceu o rapaz, apontando para os doisaparelhos que o segurança de Enrique Escobar havia deixado à entrada do quarto - Vá, vai-te vestir, que eu vou ver o que consigo fazer com aquilo. Rita resolveu-se finalmente a sair debaixo do aconchego da cama ainda quente,saltando descalça para o chão. - Brrrrrrr!... Que frio!... - exclamou arrepiada, escolhendo à pressa uma toillete doguarda-roupa, antes de se precipitar em direcção ao quarto de banho. Jorge entretanto, examinou cuidadosamente os dois volumes, tentando certificar-se seporventura em algum dos dois tivesse sido colocado algum dispositivo de escuta, concluindoaliviado que tudo parecia estar em ordem. Deste modo, ocupou-se de imediato de arranjar omelhor local para instalar ambos os aparelhos, de forma a que ficassem o mais próximopossível da câmara de vigilância, escolhendo para isso uma enorme peça de mobiliário, comcerca de um metro e meio de altura, e aproximadamente dois e meio de largura. - "É já aqui!" - decidiu prontamente, transportando a televisão para cima da colossalcómoda, à qual juntou depois o videogravador, terminando a operação ligando todos oscabos entre os dois aparelhos. Em seguida, deu uma rápida vista de olhos pelo painel de botões do vídeo. Procuravauma função em particular: 112
  • 113. artciencia.com (ISSN 1646-3463) Ano I ● Número Dois ● Fevereiro-Abril 2006 - Esplêndido! - exclamou felicíssimo - LP! - disse, referindo-se à tecla que indicava afunção de Long Play, que permitia que o tempo normal de gravação/reprodução de umacassete fosse duplicado. Este pormenor, iria permitir um importante ganho de tempo aquando da fuga, casoesta se concretizasse. No preciso momento em que Jorge terminava a sua tarefa, ouviram-sepassos do lado de fora da porta, seguindo-se duas pancadas na porta. - Podes entrar "Rosé"... - respondeu o jovem, deduzindo que se tratava de novo doindivíduo estrangeiro. Porém, não foi "Rosé" quem assomou à entrada do quarto quando a porta se abriu.Era Marco, que nos seus habituais maus modos foi dizendo: - Vamos!... O señor Enrique está à vossa espera para almoçar... - informourispidamente. - Espera um pouco, por favor. - pediu Jorge com delicadeza - A Rita ainda não estádespachada. - concluiu. - Nesse caso, ...eu vou apressá-la! - disse, avançando decididamente em direcção aoquarto de banho, sendo no entanto impedido pelo prisioneiro que o puxou firmeza, nãopermitindo que o outro levasse avante os seus intentos. - Nem penses... - avisou ainda. - Ou me largas já, ou desta vez parto-te os cornos!... - ameaçou furioso, mostrandoque não estava disposto a brincadeiras, ao mesmo tempo que tentava libertar-se. - Não sejas estúpido, espera um pouco. Ela deve estar a sair... - repetiu o jovem, semlevantar a voz, soltando Marco, que de imediato fez menção de o agredir, chegando mesmo aatingi-lo com uma cotovelada, embora não muito violenta. - Ninguém me dá ordens, entendeste? - disse, encaminhando-se de novo para oquarto de banho, sendo de novo puxado por Jorge - Desta vez é que é! Vou acabar com a tuaraça, ...filho da puta! - gritou, totalmente fora de si. - Não te admito que insultes a memória da minha mãe... - respondeu o rapaz,agredindo o outro com um soco na cara, que o deixou agarrado ao nariz. - Eu mato-te, ...cabrão! - Anda cá, ...vá! - desafiou o prisioneiro - Ou não és homem suficiente... - duvidouJorge, fazendo com que Marco perdesse a cabeça por completo. O perigoso sujeito do rabo-de-cavalo, puxou de uma enorme faca que guardava nointerior do blusão de cabedal preto, manejando-a com destreza, tentando atingir o indefesojovem, que se desviava com uma elasticidade impressionante dos golpes do atacante. Nessemesmo momento, abriu-se a porta do quarto de banho. Era Rita, que alertada pelos gritosque ouvia do exterior, resolveu ir ver o que se passava. Ao deparar-se com aquele cenário de 113
  • 114. Cartel Fantasma Alexandre Figueiredoviolência, não conseguiu conter um grito de terror, enquanto o companheiro se desviava demais uma investida do temerário malfeitor. - Rita! Volta para dentro, ...já!... - ordenou o destemido colega, logo que se apercebeuda presença da rapariga - Faz o que te digo, ...volta para dentro! - repetiu, num tom de vozque não deixava lugar para qualquer discussão. Rita obedeceu aterrorizada, voltando a fechar-se no quarto de banho, enquanto Marcomais uma vez brandia a enorme faca. Porém Jorge, aproveitando-se de um deslize do rival,conseguiu com um exímio pontapé acrobata, fazer com que a faca saltasse da mão direita deMarco para o outro lado da cama. Em seguida, aplicou-lhe uma série de rudes golpes dekaraté, concluindo com um duro pontapé, que fez com que Marco saísse do quarto, indoesbarrar violentamente com "Rosé" e o Dr. Fontes que se aprestavam para entrar,estatelando-se todos três sobre a alcatifa do corredor. - Que se passa aqui? - inquiriu o Dr. num tom autoritário. - Foi este filho da puta... - principiou Marco furioso. - Vê lá como falas... - ameaçou Jorge, recolhendo do chão a faca com que o sujeito dorabo-de-cavalo o atacara - Já te fui aos cornos uma vez... - prosseguiu, sendo prontamenteinterrompido pelo Dr. Fontes. - Parem com isso, ...imediatamente, ...ouviram? - gritou irado, no mesmo tomautoritário que usara instantes antes - Dá cá isso! - ordenou a Jorge, referindo-se à enormefaca que o jovem segurava na mão esquerda, no preciso momento em que Rita saía doquarto de banho, constatando aliviada que aparentemente o companheiro se encontrava bem- Viste o que aconteceu? - indagou de novo o Dr. Fontes, mostrando-se bastante irritado comtoda aquela situação. - Não sei de nada... - respondeu a rapariga com sinceridade - ...eu estava-me a vestir,quando ouvi uma grande gritaria, vim ver o que se passava, e só vi aquele tipo... - disse aomesmo tampo que apontava para Marco - ...com uma faca na mão. Depois o Jorge mandou-me voltar a entrar, e a partir daí não vi mais nada. - Eu vou fingir que nada aconteceu. - recomeçou o Dr. Fontes visivelmente agastado -Seria muito aborrecido que o Enrique tomasse conhecimento da vossa gracinha. Mas esperoque esta palhaçada não se volte a repetir, ...ouviram bem? - concluiu com cara de poucosamigos - Vamos almoçar! - acrescentou ainda. Posto isto, dirigiram-se todos em silêncio para a sumptuosa sala de jantar, ondeEnrique já algo impaciente os aguardava, sentado como habitualmente na sua cadeira derodas. - Porque se atrasaram tanto? - indagou pouco satisfeito. 114
  • 115. artciencia.com (ISSN 1646-3463) Ano I ● Número Dois ● Fevereiro-Abril 2006 - A moça atrasou-se um pouco a arranjar-se... - esclareceu o Dr. Fontes, enquantoJorge e Marco trocavam um olhar azedo, que felizmente ninguém percebeu. - Ha... - limitou-se a dizer o anfitrião, fazendo um sinal ao mordomo para quecomeçasse a servir a sopa, que constava de um fino creme de legumes com espargos. Cláudia desta vez não ousou reclamar da comida que era servida, mantendo-se emsilêncio como todos os restantes presentes. O prato seguinte era constituído por escalopesde vitela panados, acompanhados por esparregado de espinafres, e arroz branco. Foi por fimEnrique quem quebrou o silêncio: - Vou ter que me ausentar durante alguns dias... - principiou, dirigindo-se aos trêsprisioneiros que o olharam com uma expressão interrogativa - ...espero que sejam sensatos,e não arranjem problemas aos meus homens. Seria muito desagradável que algum de vocêstivesse um qualquer acidente... - prosseguiu, deixando bem claro que deixara ordens precisasaos seus capangas, no intuito de prevenir alguma tentativa de fuga dos reclusos. - Decerto que não causaremos o mínimo transtorno aos seus soldadinhos... - começouJorge com insolência - ...afinal, estas férias têm sido de tal forma reconfortantes, que paraquê estragá-las com pormenores tão fúteis... - Óptimo... Como disse, seria mesmo muito aborrecido, que algo sucedesse comalgum de vós... - insistiu o anfitrião, ao mesmo tempo que com um sinal autorizava omordomo a servir a sobremesa. - Vai em negócios? - questionou de novo o jovem estudante, provando um pouco dodoce de ananás que o indivíduo da casaca preta acabara de lhe colocar na frente. - É apenas uma reunião para discutir orçamentos, e planear estratégias a adoptarfuturamente... - O negócio da "coca" vai de vento em poupa... - observou Rita com desdém - ...secalhar até tem um departamento que se ocupa da lavagem de dinheiro... - Para além de muito bonita, és também uma moça muito inteligente... - Vindo de si, esse elogio soa a insulto... - respondeu Rita de pronto, não deixandosequer que Enrique terminasse a frase. - Agora não é a melhor altura, no entanto, quando eu voltar, terei imenso prazer emdiscutir este assunto contigo. Estou certo, que depois de conversarmos a tua opinião serádiferente. - O senhor deve estar a delirar... - respondeu a sensual prisioneira com convicção. - Gostaria de ficar mais um pouco, no entanto o meu avião espera-me... - anunciou,bebendo o seu café de num só gole. 115
  • 116. Cartel Fantasma Alexandre Figueiredo - Boa viagem!... - desejou Cláudia, em tom de ironia observando o vil malfeitor serconduzido por Marco para fora do imponente salão, acompanhados de perto pelo Dr. Fontes,e por "Rosé". Um a um, também os três jovens terminaram o seu café, abandonando igualmente aampla dependência. Em seguida, após terem chegado à conclusão que naquele dia não iriaser possível passar a tarde nos jardins da mansão, encaminharam-se algo desapontadospara a sala de estar. Durante um bom pedaço, entretiveram-se conversando animadamente,no entanto, algum tempo depois, Jorge optou por ir procurar um livro para se ocupar,deixando as duas raparigas distraídas com um filme. Deste modo, o jovem começou por explorar o piso térreo no intuito de encontrar abiblioteca, espreitando para o interior de todas as portas que lhe surgiam na frente. - Será aqui? - interrogou-se, parando defronte uma entrada, depois de ter jáexaminado uma boa parte das divisões daquele piso - És o maior! - exclamou, explorando ointerior da sala pela frincha da porta entreaberta, concluindo sorridente que acabara de acharaquilo que procurava. Em seguida, penetrou no amplo espaço, ricamente decorado e mobilado, fechando aporta atrás de si com todos os cuidados. À sua volta, uma descomunal estante ocultava porcompleto as paredes da biblioteca, totalmente recheada das mais diversas obras literárias. Aofundo, duas enormes janelas forneciam ao espaço uma ténue iluminação, por causa da poucaluz proveniente do exterior. A curta distância podia-se observar uma sumptuosa secretária emmadeira exótica, e logo por cima desta, fixa na parede, encontrava-se uma câmara devigilância. Jorge percebeu enfim que se encontrava na mesma divisão onde Enrique Escobarse apresentara aos dois prisioneiros escassos dois dias antes. Sobre a imponente secretáriaencontrava-se um excelente equipamento informático, que de imediato prendeu a atenção doaudaz rapaz. Jorge instalou-se na luxuosa e agradável cadeira, ligando o computador semmais delongas. Primeiro decidiu listar todos os ficheiros contidos no disco duro... - Hm! Interessante... Será que... - disse, falando para os seus botões - Com umbocadinho de sorte, ...quem sabe? Ao executar o comando que listava os ficheiros da unidade fixa do computadorpessoal, o jovem deparou-se com alguns programas que não conhecia. À atracção inicial pelamáquina, juntou-se a curiosidade de saber até que ponto poderia o vil Enrique Escobar terarmazenadas no disco rígido daquele PC informações importantes das suas actividadesilícitas, de que o jovem se pudesse posteriormente servir em caso de necessidade. Osconhecimentos informáticos de Jorge eram bastantes vastos, pelo que não demorou muito alocalizar alguns ficheiros que ele suspeitava estarem relacionados com os negócios menosclaros do anfitrião. De súbito, porém ouviram-se vozes junto da porta do escritório... Alguém 116
  • 117. artciencia.com (ISSN 1646-3463) Ano I ● Número Dois ● Fevereiro-Abril 2006acabara de passar mesmo em frente da entrada da sala, sem suspeitar sequer do ousadointruso, que sem perder o sangue-frio, continuou a sua tarefa logo que as vozes se afastaram.Contudo, quando o rapaz se aprestava para pesquisar os segredos do perigoso malfeitor,surgiu-lhe uma dificuldade adicional: - Merda!... Esta porra está codificada... Gaita!... Gaita!... Gaita!... - exclamoudesanimado, não se dando no entanto por vencido - Pensa... Pensa... Pensa... Vou demorardemasiado tempo para tentar descobrir a password, ...além de que é muito perigoso... Pensa,porra... pensa... - repetiu, procurando uma solução que lhe permitisse aceder àquelainformação, que se poderia revelar muito importante... - Internet... é isso mesmo! - exclamou -Não, ...não pode ser... podiam descobrir o rasto... - concluiu, tentando ser o mais prudentepossível - Uma disquete, ... preciso duma disquete... - disse, procurando precipitadamentenas gavetas da impressionante secretária - Ora aqui está..., que sorte! - prosseguiu,introduzindo o disco flexível, na ranhura do computador. Por fim, digitou no teclado os dados necessários para que os ficheiros que pretendiafossem copiados para a disquete, e a máquina iniciou a operação. No exterior, mais uma vezse ouviram vozes que se aproximavam. Em seguida, os passos estacaram próximo daentrada do escritório, e alguém mexeu na maçaneta... Nesse mesmo instante, o computadorterminou a tarefa, e Jorge com o coração aos pulos escondeu o precioso disco sob acamisola de gola alta que vestira nessa manhã, desligando o aparelho sem tomar asprecauções recomendáveis, pois se o fizesse corria um risco ainda maior de ser apanhadocom a "boca na botija". - "Vou ser caçado!" - pensou alvoraçado, quando enfim a porta foi aberta. - Que fazes aqui!?... - inquiriu asperamente o Dr. Fontes fitando-o surpreendido. - Estou a ler!... - respondeu o intruso mostrando o livro que segundos antes tirara aoacaso da enorme estante. - Não sabes que não podes entrar aqui? - indagou rispidamente a irritantepersonagem. - Não sou adivinho... - retorquiu com descaramento o prisioneiro. - E estás a gostar da história? - insistiu o perverso indivíduo, apontando para o livro,tentando aquilatar-se se de facto o estudante falava verdade. - É bastante interessante... - prosseguiu o jovem sem se atrapalhar, lendo ospensamentos ao inquisidor - Quer que lhe conte a história? - acrescentou com uma talconfiança que deixou o outro sem argumentos. - Não, não é necessário... - redarguiu o recém-chegado, observando discretamente asecretária, tentando certificar-se que o atrevido recluso não tivera acesso a nada que 117
  • 118. Cartel Fantasma Alexandre Figueiredopudesse comprometer ainda mais a organização - Agora sai! - ordenou por fim, num tom maissereno. Jorge obedeceu de pronto, dirigido-se sem demora para a saída, dando graças pelasorte que tivera ao pegar justamente num livro que tinha lido fazia algum tempo. Antes de tertempo para alcançar a porta, o Dr. Fontes perguntou: - Que vieste cá fazer? - Andava à procura de um bom livro com que me pudesse entreter - esclareceu oestudante com sinceridade - Há quanto tempo cá estavas? - Não sei ao certo... - respondeu de novo o jovem, fazendo uma pausa para pensar -... mas devia ser para aí há uma hora, talvez... - E ninguém te veio avisar que não podias estar aqui? - insistiu o pouco escrupulosoadvogado. - Absolutamente ninguém. - Muito bem, ... podes sair. Mas não voltes a repetir a gracinha! - avisou o Dr. Fontes,puxando do isqueiro para acender o charuto que acabara de tirar do bolso do casaco,murmurando qualquer coisa que o arrojado rapaz não conseguiu compreender. Jorge saiu por fim do escritório, dando um suspiro de alívio, e fechando a porta atrásde si. Conseguira safar-se com relativa facilidade duma situação algo comprometedora, eigualmente arriscada. Um segundo mais poderia ter deitado tudo a perder. Se tivesse sidoapanhado, por certo ele próprio e Rita ficariam em maus lençóis. Em seguida, resolveu irprocurar as duas raparigas, que provavelmente continuariam na sala de estar. - De volta tão cedo? - observou a sensual companheira dos cabelos louros - Nãoencontraste nada que te interessasse, ou mudaste de ideias? - Mudei de ideias... - respondeu o rapaz, seguindo o conselho de Rita, e nãoadiantando muito mais, acomodando-se depois entre as duas jovens no acolhedor sofáassistindo ao final do filme. ... Faltavam apenas dois minutos para as oito horas, quando um segurança quedesconheciam entrou na divisão onde haviam passado a tarde, informando que o jantar seriaservido de imediato. Os três prisioneiros acompanharam a sinistra personagem, que osconduziu até à sumptuosa sala de jantar, ocupando em seguida os lugares habituais. Nessemesmo instante também o Dr. Fontes entrou naquela dependência. Antes porém de sesentar, dirigiu-se a Jorge, que ficou lívido: - Tens aqui o teu relógio! - disse, entregando-lhe o elegante adereço - Há bocado nãome lembrei de to dar... - justificou-se ainda. 118
  • 119. artciencia.com (ISSN 1646-3463) Ano I ● Número Dois ● Fevereiro-Abril 2006 - Qual era o problema? - indagou o prisioneiro, recobrando o sangue-frio. - Era a pilha que estava fraca... - revelou o outro, regressando ao seu lugar, sentado-se por fim, ao mesmo tempo que autorizava o mordomo a servir a sopa. Para aquela refeição, encontravam-se apenas presentes os três jovens, o perversoadvogado de Enrique, e ainda o mesmo segurança que os escoltara até àquela dependência,vigiava atentamente os movimentos dos prisioneiros, especialmente os de Jorge. Após seterem sentado à mesa, ninguém mais falou, pelo que o silêncio apenas foi quebrado pelomordomo ao recolher os pratos usados para a sopa. Em seguida, o indivíduo da casaca pretapousou com primor defronte os quatro presentes um prato refinadamente apresentado doqual constavam filetes de bacalhau fresco, acompanhados por uma boa quantidade delegumes; cenouras minúsculas, couve roxa, brócolos, ervilhas, etc.. Cláudia voltou a torcer onariz, não muito contente com aquilo que via. Porém, ao contrário daquilo que fizera na noiteanterior, desta vez optou por nada dizer. - Então, não comes? - indagou Fontes, falando pela primeira vez desde que sesentara à mesa, reparando que ela mais uma vez não fazia tenção de provar a comida. - Não muito obrigado... - respondeu a rapariga, com indiferença, optando porexperimentar o sumo de laranja. - Tu lá sabes... - limitou-se a dizer, abanando a cabeça em sinal de reprovação. Depois de todos terem terminado o prato principal, o mordomo recolheu a louça suja,arrumando-a com cuidado no carrinho que trouxera consigo para servir a refeição. Emseguida, distribuiu com esmero uma requintada sobremesa, confeccionada à base de frutossecos; nozes, amêndoas, passas, avelãs, pinhões, envolvidos depois em natas e bolachassemi-geladas. Por fim, o habitual café, pôs fim ao opulento repasto. - Ei, Miguel... - principiou o detestável advogado, terminado o seu descafeínado -...assim que os nossos amigos terminarem acompanha-os até aos respectivos quartos. - Si señor! - anuiu o segurança, ao mesmo tempo que o Dr. abandonavaapressadamente a magnificente sala de jantar. ... - Para que queres isso? - indagou Rita, logo que os passos do segurança que davapelo nome de Miguel deixaram de se ouvir nas proximidades da porta, apontando para acassete de vídeo que o companheiro trouxera consigo. - Precisamos dela... - respondeu o rapaz vagamente dirigindo-se ao quarto de banho. - Onde vais? - Espera um pouco... - pediu, desaparecendo por breves instantes, regressando logodepois, trazendo um rolo de adesivo e uma tesoura. 119
  • 120. Cartel Fantasma Alexandre Figueiredo - Que estás a fazer? - insistiu a colega, observando intrigada o colega tirar umadisquete que tinha guardada sob a roupa que trazia vestida. Posteriormente, o colega cortou duas tiras da fita adesiva, com as quais envolveu odisco flexível, colando-o cuidadosamente na parte inferior do fundo da enorme cómoda sobrea qual estavam a televisão e o vídeo. - O que é isso? - repetiu Rita impaciente com tantos segredos. - Não sei ao certo... - principiou Jorge com sinceridade - Esta tarde estive no escritório,e encontrei um computador. Andei a espiolhar no disco rígido, e encontrei alguns ficheirosque suspeito conterem informações importantes sobre as actividades do nosso amigoparalítico. Como estava com medo de ser apanhado, e porque os ficheiros estão codificados,resolvi copiar tudo para uma disquete. Mesmo assim foi à justa, mais um segundo e o filho daputa do Fontes tinha-me caçado... - E que vais fazer com isso? - Guardamo-la bem escondida, e quando fugirmos levamo-la connosco. Estouconvencido que com um bocadinho de paciência consigo decifrar o código - disse, olhando aoseu redor - Agora precisamos de nos concentrar na fuga. Para a primeira fase do nosso planoé indispensável que arranjemos uma ficha eléctrica. - Para quê? - Vou provocar uma falha de energia. - É mesmo necessário? - Sim, porque quando mexer nos cabos do sistema de vigilância, eles vão notarinterferências na imagem, e podem desconfiar - explicou Jorge, tentando em vão encontrar oacessório que pretendia - Por isso, mais vale jogar pelo seguro. - Porque não usamos a ficha de um dos candeeiros da mesa de cabeceira? - sugeriu acompanheira tentando ajudar. - Não pode ser... porque eles estão a vigiar-nos, e iam ver pela câmara... - Mas nós podemos resolver isso facilmente... - retorquiu Rita, puxando-oenergicamente para o raio de alcance do sistema de vigilância. - Que estás a fazer? - perguntou surpreendido, enquanto a companheira lhe despia acamisola de gola alta, atirando-a de encontro à câmara, ao mesmo tempo que o beijavameigamente nos lábios. - Porra! Não resultou... - lamentou-se, constatando com uma pontinha de desilusãoque a camisola de Jorge não acertara no alvo. - Deixa-me tentar! - pediu o jovem, ajudando a colega a despir o seu pulóver,enquanto mais uma vez trocavam um carinhoso beijo, atirando depois ao acaso a peça devestuário, que voltou a não acertar na câmara. 120
  • 121. artciencia.com (ISSN 1646-3463) Ano I ● Número Dois ● Fevereiro-Abril 2006 - Também falhaste! - exclamou - Por este andar acabamos nus e não conseguimosnada! - concluiu rindo divertida - Temos que os despistar, senão começam a desconfiar... -preveniu a rapariga, segredando-lhe ao ouvido - Tira-me a camisa, e lança-a para perto dascamas... - Tás louca!?... - Não te preocupes, ainda fico com o soutien... Jorge obedeceu sem protestar, arremessando a camisa da colega propositadamentepara longe da câmara, de modo a afastar as suspeitas dos carcereiros. Depois auxiliou Rita,que em vão se esforçava para lhe tirar a t-shirt, uma vez que se mantinham abraçados,beijando-se de quando em vez, agindo sempre o mais naturalmente possível. Rita conseguiupor fim deixar o companheiro em tronco nu, mantendo nas suas mãos a camisola de mangascurtas, preferindo esperar alguns segundos para efectuar o lançamento com mais precisão. - Espera! - pediu Jorge, procurando evitar sem sucesso que Rita consumasse oarremesso da t-shirt, uma vez que a rapariga se encontrava de costas para o alvo - Nãoacredito!... - Acertei!? - inquiriu ela. - Em cheio... - completou Jorge, observando incrédulo a camisola branca quepermanecia pendurada na objectiva da câmara de vídeo, impedindo deste modo que oscaptores pudessem o que se passava naquela dependência - Mas, ...não há tempo aperder... - acrescentou, libertando-se da rapariga, e precipitando-se em direcção ao candeeiroque estava colocado sobre a mesa de cabeceira mais afastada da porta. Sem demora, puxou a ficha que ligava o candeeiro à tomada de electricidade,cortando logo depois o fio com uma faca que tirou da meia da perna direita... - Onde é que arranjaste isso? - questionou Rita, não querendo acreditar no que via. - Palmei-a ao jantar! - Como é que conseguiste sem que ninguém percebesse? - Prometo que um dia te explico... - disse não revelando mais pormenores, efechando-se no seu habitual sorriso enigmático. - Ouço qualquer coisa!... Vem aí gente! - alertou a companheira alarmada pelospassos que se aproximavam rapidamente. - Depressa, tira as calças! - pediu o companheiro raciocinando quaseinstantaneamente. - Hã!? - Despe as calças e atira-as para o chão... - repetiu Jorge quase em surdina, perante asurpresa da colega, enquanto tratava de ocultar as comprometedoras provas. 121
  • 122. Cartel Fantasma Alexandre Figueiredo A rapariga obedeceu prontamente, confiando plenamente no companheiro, que quaseem desespero escondeu todos os utensílios mesmo por detrás da pesada cómoda sobre aqual se encontravam o vídeo e a televisão. Rita, semi-desnuda, aguardava junto da camamais próxima da entrada da divisão que o jovem lhe explicasse o que pretendia... Ele porém,nem sequer falou, descalçando-se precipitadamente, deitando-se enfim por cima do corpofranzino da sensual rapariga... Nesse mesmo momento, a porta do quarto abriu-se... - Hum! Parece que temos festa! - observou Fontes, penetrando no amplo espaço, edirigindo-se aos dois jovens, que se separaram de pronto, enquanto se aparentavam algocomprometidos - Vejo que estão a aproveitar, para se conhecerem melhor... Seus marotos... -continuou a detestável personagem, ironizando a situação. - Que querem daqui!? - perguntou o prisioneiro, fingindo-se surpreendido e indignadocom a violação da sua privacidade, apanhando furioso do chão a sua camisola e entregando-a a Rita para que ela se cobrisse. - Desculpem a interrupção, ...mas nós temos que ver tudo o que fazem... - explicou oinfame indivíduo, com um sorriso de malícia - A manobra da t-shirt não vale... - disse comsarcasmo destapando a lente da câmara - Parece-me que isto te pertence... - continuou,entregando seguidamente a peça de vestuário ao prisioneiro. - Podiam pelo menos ter batido antes de entrarem... - protestou Rita, nada satisfeitacom a intromissão dos recém-chegados. - E perdíamos a oportunidade de te ver quase nua? - comentou o cúmplice queacompanhava o Dr. Fontes - Deixa-me dizer-te, tens um corpo formidá... O atrevido sujeito não teve tempo sequer de terminar a frase. Rita, com um sococerteiro rebentou-lhe o lábio inferior, e deixou-o agarrado ao queixo, perante o olharestupefacto de Fontes e Jorge. - Puta... - insultou o outro furioso. - Queres outro? - desafiou a rapariga, não parecendo muito disposta a tolerar aquelegénero de comentários. - Cala-te Miguel! - ordenou o insuportável advogado - Tiveste aquilo que merecias,vamos embora...! - acrescentou, encaminhando-se em direcção ao exterior - Espero ter sidobem claro, ...não repitam a gracinha, ...fiz-me entender? - concluiu por fim, saindo para ocorredor. Os dois prisioneiros limitaram-se a acenar com a cabeça em sinal afirmativo, vendo opar de intrusos desaparecer do outro lado da porta. Depois, ficaram muito atentos ao ruídodos passos que rapidamente deixaram de se ouvir, tentando deste modo assegurarem-se queestavam de novo completamente sós. 122
  • 123. artciencia.com (ISSN 1646-3463) Ano I ● Número Dois ● Fevereiro-Abril 2006 - Onde é que aprendeste a bater daquela maneira? - questionou o jovem, aindasurpreso pela reacção da sedutora companheira - Será que temos aqui uma BarbieRambo...? - brincou, enfiando a t-shirt sobre o robusto e musculado tronco. - Eu também tenho alguns segredos... - respondeu a jovem, imitando a expressãomisteriosa que Jorge fizera minutos antes - Diz a verdade, ...representamos bem, hem? -observou depois, mudando de assunto, voltando a vestir os jeans azul desbotado. - Parecíamos duas vedetas de Hollywood!... - exclamou o rapaz, rindo-se divertido doseu último comentário - Bem, ...mas vamos ao trabalho! - findou, reunindo de novo osobjectos que ocultara atrás do aparelho de televisão - O primeiro passo, é deixarmos a casaás escuras... - explicou, juntando os dois fios condutores que saíam da ficha eléctrica quesubtraíra ao pequeno candeeiro, de modo a que estes provocassem um curto-circuito nainstalação de energia da mansão. Em seguida, o engenhoso jovem, isolou a ligação, servindo-se do adesivo quesurripiara da malinha de primeiros socorros que encontrara no armário do quarto de banho...Mais tarde, com uma frieza impressionante, pediu a Rita que se afastasse, introduzindo apreciosa ficha na tomada de electricidade... Depois tudo aconteceu muito rapidamente;primeiro ouviu-se um estouro vindo da instalação eléctrica, que soltou igualmente algumasfaíscas, e de imediato a enorme divisão ficou mergulhada na mais completa obscuridade... - Bonzai!... - exclamou o rapaz com um ar triunfal, revolvendo os seus bolsos - Não temexas, ...é só um segundo! - pediu à colega, acendendo enfim a minúscula lâmpada dalanterna que tinha no seu porta-chaves. - E agora? - questionou Rita, juntando-se ao companheiro, que examinavaatentamente os fios que partiam da traseira da câmara de vigilância - Queres ajuda com aluz? - ofereceu. Jorge agradeceu, e acenando que sim, entregou o simpático objecto à rapariga, queatentamente seguia os seus gestos. - Basicamente, aquilo que temos que fazer, é um shunt, ...estás a compreender? -indagou, enquanto descarnava o cabo que ligava o aparelho de televisão ao videogravador. - Para ser sincera isso é chinês... - É simples. Fazes de conta que tens por exemplo duas estradas... - começou pordizer, fazendo uma pausa para que Rita pudesse seguir o seu raciocínio - ...para as ligaresuma à outra o que é que fazes? - Um cruzamento? - arriscou a companheira. - Exactamente! É o mesmo que estamos aqui a fazer... - explicou Jorge, acabandotambém de abrir dois pequenos furos no cabo da câmara - ...a seguir, só tens que juntarmalha com malha, e o condutor com o condutor, e já está! - concluiu, enrolando 123
  • 124. Cartel Fantasma Alexandre Figueiredocuidadosamente os finíssimos fios de cobre uns nos outros - Depois, é sempre convenienteisolares muito bem as ligações que acabaste de fazer, e certificares-te de que não hácontacto algum entre as malhas e os condutores - acrescentou ainda, enquanto enrolavapequenas tiras do mesmo adesivo que pedira emprestado do estojo de primeiros-socorros. - E porque é que foi preciso desligar a luz? - questionou Rita algo confusa. - Porque se não tivéssemos desligado a luz, quando mexi naqueles fiozinhos, elesteriam notado um montão de interferências, e iam desconfiar... - resumiu Jorge, totalmenteseguro daquilo que dizia. - És um génio! - elogiou a sedutora companheira, premiando-o com um meigo beijo natesta. - Agora, vai-te trocar... - pediu ele, reunindo os utensílios operação que acabara deexecutar, e escondendo-os cautelosamente por debaixo do pesado guarda-vestidos - Espera,leva isto... - disse, entregando o rolo de adesivo a Rita - ...guarda-o na mala de primeiros-socorros. - Já não vais precisar? - Não..., ou melhor, se calhar até vou - respondeu, procurando às apalpadelas avideocassete que trouxera consigo para o quarto - Afinal, preciso mesmo. É só umbocadinho... - acrescentou, verificando que o selo que permitia a gravação fora retirado -...para tapar este buraco - terminou, ao mesmo tempo que apontava para um pequeno orifíciona cassete, que à ténue luz da lanterna do porta-chaves mal se vislumbrava. Rita entrou enfim no quarto de banho, regressando poucos minutos mais tarde. Jorgerecomendara-lhe que não se demorasse, pois seria demasiado arriscado prolongarem asabotagem por muito mais tempo. Ele receava que os captores acabassem por se aperceberda situação, o que os deixaria a ambos numa posição algo delicada. Embora enquanto a fichapermanecesse na tomada, não existisse o perigo de serem vigiados através da câmara, umavez que sempre que a energia fosse ligada, ocorria um novo curto-circuito, e por conseguintea corrente eléctrica voltava a ser interrompida, no entanto impunha-se prudência... - Prepara-te, que eu vou tirar a ficha... - avisou, regressando ao quarto de dormir, jádepois de ter trocado de indumentária - Ai... porra! - gritou soltando um uivo de dor. - Que se passa? Estás bem? - instou a companheira aflita - Não foi nada... - disse, desviando arrastando algo no soalho de madeira - ...bati como joelho na porcaria da cadeira - revelou finalmente. De súbito, o quarto iluminou-se, e o impassível prisioneiro introduziu a cassete noaparelho de vídeo, pegou no controlo remoto do mesmo, e sorrateiramente levou o acessóriopara a cama. Antes porém, desligou o interruptor, deitando-se na mesma cama que Ritaescolhera. 124
  • 125. artciencia.com (ISSN 1646-3463) Ano I ● Número Dois ● Fevereiro-Abril 2006 - A partir de agora mexe-te o menos possível, e não fales... - pediu, carregandodiscretamente na tecla que correspondia à função de gravação - Pronto, já está... - confirmou,consultando o display do comando... Fim do 7º Capítulo 125
  • 126. Cartel Fantasma Alexandre Figueiredo Capítulo 8 - Jorge!... Jorge!... Acorda por favor! - pediu Rita, sacudindo o corpo do companheiro,que a seu lado dormia tranquilamente - Jorge!... - insistiu de novo, com uma voz doce -Acorda, ...já passa das onze e meia! - Hum! Hum! Deixa-me dormir! - protestou ele, virando-se para o outro lado. - Não pode ser, ...e se entra alguém... - continuou ela pacientemente - Vá, tens que irdesligar os cabos... - acrescentou ainda, abanando uma vez mais o corpo do rapaz. Jorge abriu enfim os seus olhos azuis, fitando o rosto angelical da sensual colega.Depois, aproximou os seus lábios dos dela, e beijou-a com afecto. - Estás linda como nunca!... - disse, com uma voz rouca, afastando os cabelos quependiam sobre a face da rapariga, não conseguindo conter dois longos bocejos. - Não digas tolices... - retorquiu Rita, algo embaraçada pelo galanteio - É melhorrecolheres o fio, não vá alguém entrar de surpresa - avisou. O jovem estudante de Direito, resolveu-se por fim sair debaixo dos cobertores,primeiro saltando descalço para o chão gélido, e depois precipitando-se para a entrada doquarto de banho. - Porra, ...está um frio do caneco! - exclamou, posicionando-se mesmo por debaixo dacâmara de segurança - Age como se eu não estivesse aqui... - pediu, agachando-se ao ladodo guarda-vestidos, que por sorte também ficava fora do alcance do aparelho de vigilância,procurando a faca que pedira emprestada no jantar da última noite. Em seguida, puxou ainda a ficha que igualmente na véspera subtraíra ao pequenocandeeiro da mesa de cabeceira, introduzindo-a prontamente na tomada de energia que seencontrava mesmo a seu lado. De novo, em apenas escassos segundos, ouviu-se um fracoestouro, soltaram-se algumas faíscas, e mais uma vez a instalação eléctrica da velha mansãofora sabotada pelo audacioso prisioneiro. - Cortaste a luz outra vez!? - indagou Rita assombrada, apercebendo-se da acção docompanheiro - Tás louco? - É só por alguns minutos... - replicou Jorge com uma expressão insolente - ...precisode tirar o adesivo, desligar o cabo do vídeo, e consertar o da câmara para que não se vejaque fio violado - explicou, metendo mãos à obra. ... - Venham! - ordenou um segurança que ambos desconheciam, entrando de surpresana ampla dependência. 126
  • 127. artciencia.com (ISSN 1646-3463) Ano I ● Número Dois ● Fevereiro-Abril 2006 Os dois cativos obedeceram prontamente, deixando que o mal-encarado indivíduo osconduzisse para fora do quarto, e depois até ao piso térreo. Eram treze horas em ponto,quando ambos se sentaram defronte a majestosa mesa de madeira exótica da sala de jantar.Quase simultaneamente entrou Cláudia, acompanhada pelo mesmo segurança que Rita tinhasovado na noite anterior. Para além dos três jovens e dos dois seguranças, ninguém mais seencontrava na sala. - O nosso amigo Fontes não almoça connosco? - indagou Jorge, quando o mordomoprincipiou a servir a sopa. - Mas que tipos sociáveis... - notou Cláudia, concluindo que nenhum dos doiscarcereiros parecia disposto a responder. Ambos os indivíduos mantiveram a mesma expressão dura, ignorando os comentáriosdos jovens, enquanto que o sujeito da casaca negra aguardava tranquilamente junto da portade entrada para poder servir o prato seguinte. A atenção de Jorge prendeu-se por algunssegundos naquele homem. Aparentava cinquenta e muitos anos, tinha cabelo grisalho, ebarba igualmente grisalha. Por debaixo do vestuário escuro engomado com rigor,apresentava-se uma personagem fria e rígida, fiel aos princípios e valores. A sua expressãofria e distante dava-lhe uma aparência algo severa e até mesmo sinistra. Ali, imóvel, quaseencostado à parede mais parecia uma estátua sem vida. A dada altura, o mordomo mexeu-se, e aproximando-se da mesa, recolheu os pratos num gesto rigoroso e seguro repetidoinúmeras vezes. Em seguida, sempre com o mesmo primor colocou na frente de cada um dospresentes um prato de salmão grelhado acompanhado por batatas cozidas e maionese,apresentado com o requinte habitual. Durante o tempo que ainda durou a refeição ninguémfalou, a logo após terem bebido o cremoso café expresso que mais uma vez lhes foi servidopela altiva personagem, os três jovens abandonaram rapidamente a ampla sala de jantar. Ao contrário do dia anterior, naquela tarde optaram pelo jardim, uma vez que apesardo céu estar coberto de ameaçadoras nuvens não chovia. Cláudia propôs que dessem umpasseio pelo jardim para ajudar a passar o tempo, sugestão que foi de pronto aceite pelosdois companheiros... ... - Duas e dez! - observou Jorge, consultando os ponteiros fosforescentes dos seurelógio de pulso que se encontrava em cima da mesa de cabeceira - Está na hora doespectáculo! - pensou, abanando suavemente o corpo adormecido da colega - Rita!... -chamou ao ouvido sussurrando - Rita!... - insistiu não obtendo qualquer resposta. A rapariga porém nem reagiu, continuando sossegadamente ali mesmo a seu lado,pelo que o jovem decidiu pôr em prática o plano de fuga que se ocupara a aperfeiçoardurante as últimas horas... 127
  • 128. Cartel Fantasma Alexandre Figueiredo Jorge definira anteriormente que a primeira tarefa seria sabotar uma vez mais ainstalação eléctrica da velha mansão. Para essa operação recorreu de novo à ficha detomada que já utilizara na véspera, e que discretamente trouxera consigo para a cama,quando escassas horas antes se deitara junto com Rita. Usando de todas as precauções, oaudaz estudante de Direito pegou na preciosa ferramenta, e disfarçadamente introduziu-a natomada de energia, que quase simultaneamente soltou as já conhecidas faíscas seguidas deum pequeno estrondo que deixou a enorme habitação às escuras... Não havia tempo a perder... Em primeiro lugar era necessário ir resgatar Cláudia aoquarto contíguo àquele em que se encontravam. No entanto Rita poderia arranjar-seenquanto ele se encarregava dessa missão. Jorge optou por acordar a companheira antesmesmo de se preocupar com a tarefa de ir buscar Cláudia. - Rita, ...acorda! - pediu, abanando suavemente o corpo adormecido da colega -Rita!... - chamou, falando um pouco mais alto, ao mesmo tempo que com a sua mão direitalhe tapava a boca, não fosse a rapariga assustar-se e como consequência deitar tudo aperder - Rita, ...tem calma, sou só eu... - disse-lhe em surdina, quando por fim ela abriu osolhos fitando-o quase em pânico. - Está na hora? - indagou mais calma, logo que Jorge lhe destapou a boca. - Sim, temos que aproveitar agora, porque até o tempo parece jogar a nosso favor... -principiou, fazendo uma breve pausa - ...ouviste? - inquiriu, prosseguindo depois - É umtemporal dos feios, e ao que parece aproxima-se desta zona! - concluiu, esfregando as mãosde contentamento. - Já trataste da electricidade? - Sim... - respondeu o companheiro acenando com a cabeça em sinal afirmativo -...mas não podemos perder tempo. Veste qualquer coisa prática enquanto eu vou num pulobuscar a Cláudia... - Não vais mesmo desistir dessa ideia suicida de levares a víbora connosco? - indagoucom uma expressão de reprovação. - Não... - retorquiu Jorge com convicção, preparando-se para abrir a janela. - Nesse caso não vou permitir que estragues tudo... - principiou com dureza -...escolhe, ou me levas a mim, ... ou a ela! - findou, friamente. - Estás a ser injusta e egoísta... - argumentou o rapaz tentando chamá-la à razão -Afinal que tens tu contra ela? - Nada, a não ser que ela está a jogar dos dois lados... Por isso escolhe, ...ela, ...oueu! - Estás a agir como uma criancinha mimada! Afinal de que lado estás? - Do teu, grande burro. Estás tão cego que nem consegues ver isso! 128
  • 129. artciencia.com (ISSN 1646-3463) Ano I ● Número Dois ● Fevereiro-Abril 2006 - Não vou permitir que os teus ciúmes mesquinhos e parvos impeçam a Cláudia de irconnosco... - disse em tom acusador e severo - Espero que quando eu voltar pares com essaparvoíce... - concluiu abrindo a janela e saltando para cima do telhado escorregadio. - Muito bem, será como queres! - replicou Rita furiosa entredentes, observando ocolega desaparecer do lado de fora da janela de águas-furtadas. Jorge parecia um gato em cima das telhas cada vez mais encharcadas, pois naquelemomento chovia já a cântaros. Movendo-se com uma agilidade impressionante o jovemrapidamente chegou junto da janela do quarto onde Cláudia se encontrava enclausurada. Emseguida, tentou sem êxito forçar as portadas de madeira da janela. De súbito um raio quecaíra perto assustou-o quase o fazendo perder o equilíbrio. - Porra, foi por pouco! - exclamou, recobrando o sangue-frio, concentrando de novo asua atenção na enorme janela. Porém, nem precisou de se esforçar muito, aproveitando o contínuo ribombar dostrovões para abafar o ruído que provocou quando rebentou a fechadura. Sem perder tempo,acercou-se rapidamente da cama onde a prisioneira repousava. - Cláudia! - chamou, tapando-lhe igualmente a boca - Sou eu, o Jorge - disse, peranteo espanto da rapariga, que de imediato abriu os olhos. - Tás louco!? - indagou perplexa, logo que o intruso a libertou - Eles vêem-nos atravésdas câmaras!... - avisou ainda, fitando-o incrédula. - Não te preocupes. Tenho tudo controlado... - tranquilizou-a o imperturbávelcompanheiro - Enfia qualquer coisa rapidamente, enquanto eu trato de arranjar a cama -pediu, procurando algo que pudesse simular o cabelo louro da jovem. Com os vários cobertores que encontrou no roupeiro Jorge moldou um volume que noescuro, e pela distância a que se encontrava a câmara de vigilância por certo facilmenteiludiria os seguranças de Enrique. Em seguida, pegou na toalha de banho que encontrounoutra gaveta, e com destreza embrulhou-a entre os lençóis, deixando propositadamente umaponta sobre a almofada, de modo a dar a ideia que se tratava da cabeça da prisioneira. - Estou pronta... - anunciou Cláudia regressando do quarto de banho. - Descalça os ténis! - recomendou Jorge - O telhado está muito escorregadio... -complementou, reparando que a rapariga não compreendera a razão do pedido. O estudante de Direito subiu primeiro para o parapeito da janela, equilibrando-se nastelhas encharcadas, ajudando depois a companheira. - Vai devagar... - pediu, ficando para trás, tentando fechar as portadas da janela, demodo a que estas não ficassem a bater, alertando assim os carcereiros. Instantes mais tarde, o rapaz juntou-se a Cláudia e a Rita que também já arranjada oesperava com uma expressão carrancuda. Jorge no entanto nada disse, aproximando-se do 129
  • 130. Cartel Fantasma Alexandre Figueiredolocal onde se encontrava fixa a câmara de vigilância. Em seguida, subiu para o assento dacadeira, puxou da lanterna do seu porta-chaves, e com uma perícia invejável sabotou osistema de segurança, reunindo o fio de ligação do circuito de vigilância, com o cabo queemitia o sinal do videogravador. Por fim, pegou na cassete de vídeo, introduzindo-a naranhura do aparelho destinada a esse efeito. - Que estás a fazer? - indagou Cláudia, observando com atenção os movimentos dorapaz. - Lembras-te de te ter dito que as câmaras podiam ser o nosso melhor aliado para darcobertura à fuga. É apenas uma questão de as pormos a trabalhar para nós - foi dizendo,perante o ar de reprovação da colega de estudos - Rita, ...tira a ficha, por favor - pediu,premindo de pronto a tecla de reprodução - Agora esperem um pouco enquanto eu vistoqualquer coisa - rematou, desaparecendo no interior do quarto de banho... - Tens a certeza que queres sair agora? - indagou Cláudia, contemplando a chuva quecaía copiosamente. - É agora ou nunca - decidiu o jovem, sentando-se sobre o parapeito da janela - Tuvens primeiro - acrescentou ainda, falando para Rita, ao mesmo tempo que a ajudava a subir- Agora tu, Cláudia. Após ter ajudado ambas a subir para o telhado, Jorge conduziu-as cautelosamente atéao local onde ele calculava estarem fixos os apoios da hera, e que iriam utilizar como apoiona descida. O destemido rapaz tomou de novo a iniciativa, acercando-se perigosamente dolimite das telhas, deixando-se depois escorregar nos últimos centímetros do beirado,apoiando-se por fim na estrutura que segurava a hera ao redor da habitação. Mais uma vezauxiliou Rita, amparando igualmente Cláudia, deixando depois que as duas raparigasdescessem na frente. A colega chegou ao chão sem problemas, no entanto, Cláudia não tevetanta sorte, pois já bastante próximo do solo escorregou, e caiu desamparada sobre a relvaencharcada, soltando um grito de dor. Jorge que se encontrava logo atrás ainda tentousegurá-la, embora sem sucesso, terminado depois a descida em grande velocidade. - Magoaste-te? - indagou, chegando junto da enferma. - Não sei, mas acho que parti o pé!... Dói-me imenso! - declarou, com uma expressãode angústia. - Deixa-me ver... - pediu o jovem, examinando o tornozelo magoado - Parece-me queestá apenas torcido - anunciou aliviado - não é grave... - completou, despindo rapidamente oseu blusão, e a t-shirt que rasgou em tiras com as quais envolveu o pé da rapariga, voltandoa calçar-lhe o sapato de desporto após ter terminado a tarefa. - Aproxima-se alguém! - avisou Rita entredentes, avistando dois vultos que pareciamdirigir-se para aquele local. 130
  • 131. artciencia.com (ISSN 1646-3463) Ano I ● Número Dois ● Fevereiro-Abril 2006 - Para baixo do arbusto, ...depressa - ordenou, sem perder o sangue-frio, ajudando ascompanheiras a esconderem-se. - Onde vais? - indagou Cláudia vendo que ele não se lhes juntava. - Silêncio! - pediu, subindo a uma árvore ali mesmo ao lado. De cima do ramo sobre o qual se encontrava sentado, Jorge podia facilmente observaros movimentos do duo de malfeitores que rapidamente se acercavam daquele local. Os doishomens pararam mesmo em frente do arbusto onde as duas raparigas se tinham escondido.O estudante, com o calculismo e frieza habituais, atirou-se em voo sobre os intrusos,deitando-os por terra. Primeiro puxou a pistola de um, agredindo-o depois com a coronha daarma, deixando-o estendido inconsciente no chão, a sangrar da cabeça. Em poucossegundos, Jorge, com um par de duros e exímios golpes de karaté dominou o segundosegurança, deixando-o igualmente sem sentidos deitado sobre a relva molhada. Chovia cada vez com mais intensidade, e a tempestade que o rapaz previra dirigir-separa aquele local parecia estar no auge. Os trovões ribombavam incessantemente no silêncioda noite, e os relâmpagos iluminavam o céu escuro quase sem interrupção. O jovem, pegouno seu blusão completamente encharcado, enfiando-o por cima do tronco nu. Em seguida,aproximou-se do arbusto onde as duas raparigas permaneciam abrigadas. - Podem sair, ...já passou o perigo - disse, ajudando Cláudia a levantar-se, eagarrando-a ao colo. - Não é preciso isso... - protestou a companheira, rindo divertida da situação. - Não há tempo a perder! - argumentou Jorge - Se estes dois vieram cá fora, é porquedevem desconfiar de algo, e por isso não tardarão aí mais uns quantos... - advertiu ainda -Segue-me sempre o mais agachada possível... - pediu depois, falando para Rita, que pelasua cara de poucos amigos continuava amuada. Jorge, fez por ignorar a expressão da colega, começando a correr velozmente,levando Cláudia ao colo, e fazendo sinal à rapariga para que o seguisse. O pequeno grupo defugitivos seguiu sempre por entre as inúmeras árvores do jardim da propriedade, algunsinstantes mais tarde encontravam-se albergados debaixo do amplo telheiro que servia deguarida às diversas viaturas de Enrique, bem como ao Ford Escort Rs Cosworth doprisioneiro. - Dêem-me só um segundo... - pediu, aproximando-se do Mercedes negro estacionadomesmo ao lado do seu desportivo. O impassível sujeito, com uma tranquilidade impressionante, abriu o capôt doautomóvel, voltando a fechá-lo depois de lhe ter subtraído uma peça, e alguns cabos. Emseguida, repetiu a mesma operação, primeiro com o segundo Mercedes, e segundos depoiscom o espantoso Ferrari vermelho. 131
  • 132. Cartel Fantasma Alexandre Figueiredo - Jorge, ...depressa vêm aí cinco gajos! - gritou Rita quase em pânico, antes mesmodo jovem ter tido tempo para concluir a operação, apontando para o grupo de indivíduos quecorria naquela direcção com lanternas numa mão, e as metralhadoras na outra. - Só um segundo... - pediu ele, olhando rapidamente para o local que a colega lheapontava, e concluindo que ainda teria tempo para concluir a sabotagem - Já está! -exclamou por fim, precipitando-se para o interior do carro, quando o grupo de malfeitoresestava já bastante próximo - Baixem-se! - gritou, ao mesmo tempo que os primeiros tirosdisparados pelos homens atingiram a carroçaria do veículo. Sem perder o sangue-frio, o jovem colocou o motor em funcionamento, arrancandoainda mais bruscamente do que era hábito, dando depois uma guinada no volante quandoseguia já a uma velocidade considerável, na direcção dos perigosos atiradores, que quasepor milagre se conseguiram desviar do veloz automóvel. Jorge seguiu depois pelo estreitocaminho que conduzia ao portão da propriedade, ao mesmo tempo que os cinco segurançastentavam em corrida perseguir o Ford vermelho. - Agarrem-se bem! - gritou uma vez mais Jorge, quando o pesado portão lhes surgiupela frente. O estudante de Direito, sem hesitar carregou ainda mais no pedal do acelerador,embatendo estrondosamente no portão, que no mesmo instante se abriu de par em parsaltando dos eixos, sendo mesmo arrastado pelo carro durante algumas dezenas de metros. - És completamente louco! - repreendeu-o Cláudia, quando o rapaz entrava em slidenoutra estrada - Tu és um perigo! - observou por fim. - Ai é!? Então repara... - disse rindo, ao mesmo tampo que sem avisar puxou o travãode mão e virou o volante para a esquerda. Com o asfalto completamente encharcado, de imediato a potente viatura entrou empião, ficando virado em sentido contrário. Rapidamente, Jorge engrenou a marcha-atrás,repetindo a mesma manobra que fizera segundos antes, voltando a colocar o carro nadirecção inicial, prosseguindo a marcha. - Tu és mesmo doido! - continuou a rapariga, abanando a cabeça em sinal dereprovação - E se eles viessem atrás de nós? - Não vêm... - respondeu Rita secamente, abrindo a boca pela primeira vez desde quehaviam escapado aos captores - ...pelo menos de carro! - concluiu, mostrando os cabos e aspeças que o colega surripiara aos carros de Enrique, deixando igualmente escapar um tímidosorriso. - És um génio, pensas em tudo! - elogiou Cláudia, dando-lhe uma palmada amigávelnas costas - Mas fizeste um belo trabalho, não haja dúvida, o pára-brisas está todo estalado,espelhos nem vê-los, e a frente deve estar toda amassada. 132
  • 133. artciencia.com (ISSN 1646-3463) Ano I ● Número Dois ● Fevereiro-Abril 2006 - Azar... - limitou-se a responder o jovem, não dando a menor importância aosestragos... Passavam poucos minutos das três e meia da manhã, quando o automóvel vermelhopassou a grande velocidade sobre o tabuleiro da Ponte 25 de Abril, seguindo para Este emdirecção à auto-estrada do norte. Jorge, começava a sentir arrepios de frio, e as roupasencharcadas só acentuavam o desconforto. A seu lado, Rita parecia ter cedido ao cansaço, eadormecera. O mesmo teria certamente sucedido com Cláudia, enroscada no assentotraseiro pois há já um bom pedaço que se mantinha em silêncio... ... - Ei, meninas, ...acordem! - pediu Jorge, desligando o potente motor do Ford Escort RsCosworth - Vá lá, não sejam preguiçosas... - prosseguiu, abrindo também a porta doautomóvel. Primeiro Cláudia, depois Rita, as duas raparigas deram sinais de vida. Somente aocabo de algumas tentativas o jovem conseguiu despertar ambas. - Onde estamos? - indagou ainda ensonada a companheira dos cabelos louros,desconhecendo em absoluto o local onde se encontravam. - Estamos em Santarém... - revelou enfim o estudante, ajudando a enferma a sair doveículo - Ainda temos umas duas ou três horas de viagem, por isso achei boa ideia pararmosaqui. Tomamos um duche, vestimos roupas secas, descansamos um bocadinho, e depoisseguimos - concluiu. - Esplêndida ideia! - aprovou a jovem de pronto. Jorge pegou em Cláudia, transportando-a ao colo até ao elevador. Em seguida, os trêsfugitivos aguardaram até que o elevador os levasse até ao nono andar. Por fim o anfitriãoempurrou a porta de entrada do seu luxuoso apartamento, auxiliando mais uma vez acompanheira a deslocar-se. - É aqui que vives? - indagou algo surpreendida, ao que o jovem correspondeu comum sinal afirmativo - Que bela casa... - observou, enquanto se deixava conduzir até um dosquartos de dormir. - Podes ficar já aqui. - decidiu Jorge, pousando-a sobre a cama - Depois de trocaresde roupa eu vejo melhor o teu pé - declarou o rapaz, apontando para o tornozelo inchado,encaminhando-se em seguida para a saída - Se precisares de alguma coisa, é só chamares -acrescentou ainda, fechando por fim a porta. De imediato o anfitrião foi em busca da colega que permanecia na entrada doapartamento com uma expressão carrancuda. - Ainda estás chateada comigo? - indagou aproximando-se dela, e abraçando-a comternura. 133
  • 134. Cartel Fantasma Alexandre Figueiredo Rita não parecia porém na disposição a perdoar a traição do companheiro, afastando-o energicamente. Perante nova investida do estudante, a rapariga presenteou-o com umaviolenta estalada na face que o deixou atónito. - A resposta parece-me óbvia... - gracejou Jorge, em tom de brincadeira. - És um canalha... - insultou Rita, tentando agredi-lo de novo - Porque não voltas parajunto daquela cabra? - sugeriu furiosa. - Então Rita, acalma-te... - pediu Jorge, tentando chamá-la à razão - ...assim nãoresolves nada. Estás muito tensa... Um duche vai ajudar-te a aclarar as ideias... - aconselhouo anfitrião, abraçando-a de novo. - Larga-me, não quero nada contigo, ...és um filho da puta! - gritou a raparigaempurrando o companheiro - Vai lá ver o pézinho da víbora que eu viro-me sozinha, nãopreciso de ti para nada, ...traidor! - findou, correndo para o quarto de dormir contíguo àqueleem que se encontrava Cláudia. Jorge optou por deixar a colega sozinha. Apenas ao cabo de alguns segundos serecompôs, dirigindo-se perplexo para os seus aposentos que ficavam no piso superior,tentando em vão descobrir uma explicação para a atitude agressiva da colega. Emboracompreendendo que Rita pudesse estar algo ressentida com consigo, Jorge ficou algomagoado com as últimas palavras proferidas pela colega, pois não conseguiu encontrar umajustificação para aquele comportamento. Após um rápido duche e depois de ter trocado de roupa, o rapaz retornou ao pisoinferior do apartamento, parando junto à porta do mesmo quarto onde Rita se refugiara apósa acesa discussão entre ambos. A rapariga estaria por certo no duche, pois Jorge conseguiaescutar o som de água corrente vindo do quarto de banho. O anfitrião encaminhou-se entãopara o quarto contíguo, observando através da frincha da porta entreaberta, a atraentecompanheira dos cabelos louros que acabava de se sentar sobre a descomunal cama,trazendo um toalhão de banho enrolado à volta do seu corpo sensual. - Posso? - perguntou, abrindo totalmente a porta, penetrando na dependência apósum sinal afirmativo da rapariga - Como está o pé? - indagou depois, chegando junto dela. - Dói-me bastante... - confessou Cláudia, deixando que o jovem lhe examinasse otornozelo. - Está um pouco inchado, mas não deve ser nada de grave. Continuo a achar que estáapenas torcido... - disse, repetindo o diagnóstico anterior - Se dentro de dois dias aindativeres dores, então levo-te ao hospital - prosseguiu apalpando cuidadosamente a zonamagoada... - Ai! - queixou-se a enferma - Essa doeu! 134
  • 135. artciencia.com (ISSN 1646-3463) Ano I ● Número Dois ● Fevereiro-Abril 2006 - É melhor por uma ligadura... - decidiu Jorge, encontrando uma na gaveta da cómoda,que depois foi enrolando à volta do pé da rapariga. - Também és enfermeiro? - Não, mas como pratico karaté aprendi a avaliar, algumas lesões que por vezesacontecem connosco, luxações, rupturas, torções, ou às vezes mesmo fracturas. Para tratarentorses, na maior parte dos casos basta ligar o pé e pôr um pouco de gelo - Pronto, já está.Agora não deves andar, nem mesmo apoiar-te nesse pé - terminou, calçando uma meia dealgodão por cima da ligadura. - És um amor - agradeceu Cláudia premiando-o com um beijo na face. - Escolhe qualquer coisa do armário para vestires, enquanto eu vou fazer um caféquente - anunciou o anfitrião dirigindo-se para o corredor. Jorge preparava-se para colocar água a aquecer quando Rita entrou na divisão,envergando igualmente roupas secas. Algo envergonhada a colega sentou-se numa cadeira,mantendo-se em silêncio. Jorge, embora ainda um pouco magoado com as palavras que arapariga proferira minutos antes optou por não mencionar o assunto, pousando a cafeteira aescaldar sobre a mesa. - Bebe um café... - sugeriu, passando-lhe uma chávena. - Obrigado... - respondeu Rita timidamente, deitando duas colheres de café solúvel nacaneca, juntando depois uma porção de água quente, ao mesmo tempo que a cabeça deCláudia assomou à entrada da cozinha. O anfitrião dividiu com as duas raparigas um saco de biscoitos de canela, que os trêsacompanharam com a reconfortante bebida. - É melhor irmos - decidiu Jorge consultando os ponteiros do seu relógio de pulso -São quase quatro e meia, e ainda teremos entre duas e três horas de viagem - completouainda, arrumando cuidadosamente a loiça no interior da máquina de lavar... Poucos minutos depois, e após ter ainda escolhido alguns agasalhos e outras peçasde vestuário que arrumou dentro de um saco de desporto, já na garagem subterrânea doedifício de apartamentos o jovem instalou ambas companheiras no Rover preto. Em seguidaaproximou-se do seu Ford Escort Rs Cosworth examinando com atenção os consideráveisestragos na viatura. - Que merda! - suspirou não muito satisfeito - Mesmo assim não é tão mau como euesperava... - acrescentou também, pensando em voz alta. Por fim, juntou-se às duas raparigas, rodando a chave na ignição, e conduzindo comserenidade o veículo para o exterior da garagem... ... 135
  • 136. Cartel Fantasma Alexandre Figueiredo - Não façam barulho... - pediu Jorge, fechando a porta do automóvel com mil cuidados- Não quero que elas acordem, porque senão nunca mais me deixam dormir! - concluiubocejando repetidas vezes. - És um sortudo... - observou Cláudia caminhando apoiada no jovem até ao alpendreda habitação - Que sítio magnífico! - Já nem consigo enfiar... - riu-se o anfitrião, ignorando o comentário da rapariga, aomesmo tempo que tentava sem sucesso enfiar a chave na fechadura - Porra que está umbriol do caraças! - murmurou entredentes, tiritando por causa do intenso frio que se faziasentir. O estudante conseguiu enfim abrir a porta de entrada da habitação, deixando que asduas companheiras entrassem em primeiro lugar, e trancando-a depois atrás de si... Passavam dez minutos das sete da manhã, quando o jovem estudante de Direito seenrolou finalmente nos acolhedores lençóis da sua cama. Embora completamente extenuado,Jorge demorou ainda algum tempo até adormecer, recordando por instantes osacontecimentos vividos nessa mesma noite. Ao cabo de dez minutos no entanto, todosdormiam profundamente. ... - Isabel! Isabel! - chamou alguém, abanando o corpo da rapariga. - Deixa-me dormir... - pediu ela com voz rouca. - Vá lá, não sejas preguiçosa, acho que tenho boas notícias... - insistiu a personagemcom grande ansiedade. - Que queres, ...Sofia? - indagou Isabel, abrindo por fim os seus olhos azuis, e fitandoa rapariga que a despertara. - Vem ver uma coisa... - pediu, quase arrancando a outra da cama, conduzindo-a até àsala da estar - ...chega aqui à janela... - continuou com uma expressão misteriosa. - Então nevou, e depois, ...qual é a novidade... - disse a anfitriã, contemplando atravésda janela o manto branco que cobria tudo ao redor. - Não é isso palerma - interrompeu Sofia - Olha ali... - prosseguiu apontando nadirecção do BMW coupé em que tinham chegado até ali - ...aquele Rover preto, não é do teuirmão? - indagou por fim. - Achas que...? - sugeriu Isabel, não terminando a frase e correndo até ao quarto dedormir do rapaz. Em seguida, abriu a porta com cuidado, constatando felicíssima que Jorge seencontrava tranquilamente deitado na sua cama. - Então? - indagou Sofia chegando junto a ela. - Dorme que nem um bebé... 136
  • 137. artciencia.com (ISSN 1646-3463) Ano I ● Número Dois ● Fevereiro-Abril 2006 - Espera, ...onde vais? - indagou a recém chegada, puxando Isabel não permitindoque ela entrasse no quarto - Ele deve ter chegado muito tarde, e por certo está cansado, ...émelhor deixarmo-lo dormir até lhe apetecer. - Tens razão - concordou - Será que ele conseguiu libertar a Rita? - perguntou-seainda. - Só há uma maneira de saber... - sugeriu a companheira. As duas raparigas desceram então as escadas evitando fazer barulho, parando ambasjunto porta da primeira dependência. - Então? - Não sei, mas aquela não é a Rita!... - afirmou Isabel, espreitando pela frincha daporta entreaberta, deixando que Sofia pudesse também observar o vulto que estava deitadona cama. - Que estão a fazer!? - indagou Joana, chagando sorrateiramente junto delas. - O meu irmão já voltou... - Ai sim...? - fez a recém-chegada. - Ele ainda está a dormir, e por isso não o quisemos acordar... - principiou Sofia - Masestávamos curiosas se ele tinha conseguido libertar a Rita... - E então resolvemos pesquisar... - confessou Isabel. - Só que aquela moça que ali está não é a Rita... - completou a colega dos cabeloscastanhos, deixando que Joana espreitasse também para o interior da dependência. - Tens razão - concordou a recém chegada - Mas se não é a Rita quem será? E ondeestá a Rita? - Pode estar no quarto ao lado do teu... - sugeriu a irmã de Jorge, seguindo as outrasduas... - Despacha-te! - pediu Sofia, agachando-se junto da colega, que cautelosamente abriaa porta, tentando apressá-la - Então, é ela? - indagou, logo que a primeira se voltou para trás. - Apesar de estar um bocado escuro parece-me que sim, mas... - Afinal é ela ou não? - indagou - Deixa-me ver - disse espreitando igualmente para ointerior divisão - É a Rita... - confirmou depois. - Nesse caso resta-nos saber quem é a outra fulana. - Tenho a leve impressão que para isso ainda vais ter de esperar, ...um bom bocado -gracejou Joana. - Parece-me que tens razão - confirmou Sofia, voltando a fechar a porta do quartoonde Rita repousava. - Então, é melhor irmo-nos arranjar - sugeriu Isabel, afastando-se das duascompanheiras em direcção ao piso superior. 137
  • 138. Cartel Fantasma Alexandre Figueiredo Segundos mais tarde, a rapariga voltou a entrar nos seus aposentos. Logo apóspegou numa enorme toalha de banho, entrando no quarto de banho, e fechando a porta atrásde si. Isabel demorou-se cerca de vinte e cinco minutos, regressando com o mesmo toalhãoenrolado à volta do corpo. De súbito, o seu olhar fixou-se num pedaço de papel depositadosobre a mesinha de cabeceira com o seu nome inscrito. Ela reconheceu de pronto a letra doirmão, desdobrando a folha de caderno sem mais delongas, lendo rapidamente as escassaslinhas que Jorge lhe dirigira: "Isabel, cheguei esta madrugada, já passava das sete da manhã. Consegui libertar a Rita, e também trouxeuma rapariga chamada Cláudia que estava prisioneira dos bandidos. Estamos todos bem, mas muito cansados. Peço-teque nos deixem dormir à vontade. Um beijo. Jorge. " Isabel, escolheu finalmente uma toillette, vestindo-se logo depois. Em seguida, foiprocurar as duas companheiras... - Olhem o que eu achei na minha mesa de cabeceira... - começou, entrando nacozinha. No entanto, Sofia e Joana encontravam-se acompanhadas por uma personagem queela não conhecia, embora tenha deduzido que se tratasse da rapariga que Jorge tinhalibertado das garras dos vis captores. - Esta é a Cláudia! - apresentou Joana. - Olá, eu sou a Isabel... - disse a recém chegada cumprimentando Cláudia com umaperto de mão. - Ela estava a contar-nos como conseguiram fugir - explicou Sofia - ...mas continua -pediu ainda. - Deves ter muito orgulho no teu irmão, ...ele é um génio! - principiou a outra elogiandoJorge, ao que Isabel correspondeu com um sorriso. - Continua... - insistiu Joana. - Bem, ... então, depois de eu ter torcido o pé, ele rasgou a camisola, e ligou-me otornozelo. Entretanto, apareceram dois fulanos, e o Jorge em três tempos tratou-lhes dasaúde. A seguir, agarrou-me ao colo, e corremos até ao telheiro onde estavam os carros. Aseguir, enquanto eu e a Rita entrávamos para o Ford, ele sabotou todos os outros carros, atéum Ferrari. Mas de repente, apareceram cinco gajos a correr. Nessa altura, o Jorge entrou nocarro e arrancou. Foi quando eles começaram aos tiros. Mas o Jorge nem hesitou e passoupor eles sem abrandar, aliás até os tentou atropelar. Por fim, ... à saída... o teu irmão écompletamente doido... - fez a jovem abanando a cabeça na direcção de Isabel, enquanto 138
  • 139. artciencia.com (ISSN 1646-3463) Ano I ● Número Dois ● Fevereiro-Abril 2006bebia um gole de café - ...bem, ...à saída, levou o portão na frente. Deu cá um tratamento aocarro... E depois, a loucura maior foi que logo ali ainda se meteu a fazer piõezinhos. Então,antes de virmos para aqui passamos também por Santarém. Tomamos um duche, vestimosroupas secas, bebemos um café quente, e viemos embora. Como o outro carro ficou umbocado mal tratado, ele resolveu trazer este. - Conta lá à Isabel como é que fugiram dos quartos! - pediu Sofia. - Não sei bem, mas o teu irmão criou um estratagema para sabotar a luz da mansão, econseguiu também interferir no sistema de segurança da casa... - Os gajos tinham câmaras para vigiarem tudo aquilo que eles faziam - explicou Joana. - Como eu estava a dizer, o Jorge arranjou maneira de quando fugisse eles ficarem aver imagens dele e da Rita a dormir, ele é um génio... - Parece-me que começo agora a compreender aquela história do Macgyver e doHoudini! - observou Joana falando para a anfitriã. - Quem!? - indagou Cláudia, não compreendendo absolutamente nada. - A Isabel disse-nos no dia em que nós fomos apanhadas, depois do Jorge nos terlibertado, que ele conseguia ser tão bom ou melhor que o Macgyver, e que sem ser o Houdinijá fez milagres do género. - O Jorge tem um período na sua vida em que andou muito afastado de Deus -confidenciou Isabel - Nessa altura ele conseguiu proezas dignas de um super herói. - Não queres contar-nos - pediu Cláudia, ficando subitamente bastante interessadanos feitos do jovem. - Lamento, mas não posso. O Jorge não sabe sequer que eu tenho conhecimentodesse assunto, pois foi a mãe dele quem me contou... - revelou a rapariga - ...mas felizmenteele conseguiu emendar-se a tempo, e hoje isso já pertence ao passado. No entanto, o meuirmão, fez muitas coisas das quais por certo não se orgulhará, a não ser no aspecto de querealmente conseguiu feitos incríveis. - Quem é que conseguiu feitos incríveis? - indagou Jorge, entrando de surpresa nadivisão. - Tu! - apressou-se a responder Isabel, indo abraçar o "irmão" - A Cláudia estava acontar-nos as tuas proezas... - Segundo nos contou a Cláudia, andaste a fazer de Macgyver, e saíste-te tão bemquanto o original... - Ela é uma exagerada... - principiou - ...mas modéstia à parte, até nem foi muitodifícil... - revelou Jorge, cumprimentando ambas as colegas com um beijo - Para ser sincero,estive a pensar, e acho mesmo que foi tudo demasiado fácil... - observou, fitando Cláudia nosolhos - ...começo a desconfiar se não quiseram que fugíssemos. Só não consigo 139
  • 140. Cartel Fantasma Alexandre Figueiredocompreender porquê. Que te parece? - perguntou finalmente, dirigindo-se para acompanheira de fuga. - Talvez tenhas razão... - concordou a rapariga - Embora tenhas conseguido enganaras câmaras, e isso é uma grande vantagem... - acrescentou ainda. - Estás a ser paranóico... - tranquilizou-o Isabel - Está tudo bem, e isso é queinteressa. - És capaz de ter razão... - admitiu Jorge, apesar de não parecer totalmenteconvencido - Bem, uma vez que já não é preciso apresentar-vos, vou tomar um duche! -anunciou, fazendo menção de abandonar a cozinha - Ah, já me esquecia... - disse, voltandoatrás - ... como está o teu pé? - questionou, falando de novo para Cláudia. - Bastante melhor... - respondeu a jovem, deixando que o rapaz pudesse examinar otornozelo magoado - ... hoje até já quase nem tenho dores - acrescentou depois. - Como te disse ontem, é apenas uma pequena entorse, o inchaço já desapareceu, emais dois ou três dias já podes andar normalmente - concluiu ele, dirigindo-se por fim parafora da dependência. Antes porém de regressar aos seus aposentos, Jorge resolveu ir despertar Rita. Umavez diante da porta, deu algumas pancadas suaves na madeira, não obtendo no entantoqualquer resposta. Em seguida, entrou silenciosamente no quarto, ajoelhando-se ao lado dacama. - Rita, estás acordada? - inquiriu aproximando-se um pouco mais da colega - Rita! -chamou, passando-lhe a mão pela pele suave do rosto - Rita, acorda! - insistiu beijando-atambém na face. - Deixa-me dormir - resmungou ela, tentando afastá-lo. - Vá lá, não sejas chata, levanta-te - continuou Jorge, não desistindo dos seus intentos- Não tens vergonha? Um dia tão lindo lá fora e tu na cama, ...anda, toma um duche, e veste-te enquanto eu vou fazer o mesmo. - Tenho sono, não chateeis! - Eu já venho... - disse, dirigindo-se para o exterior da divisão - ...e quando voltar,quero-te pronta, senão... - avisou em tom de brincadeira, fechando a porta atrás de si. Tinham decorrido aproximadamente vinte minutos desde que o jovem estudante deDireito abandonara o quarto de dormir onde se encontrava Rita. Quando regressou,encontrou a colega ainda deitada, confortavelmente enroscada entre os inúmeros cobertoresque lhe serviam de aconchego. Com efeito, após Jorge ter fechado a porta do quarto, Ritavirara-se para o outro lado, e adormecera de novo. 140
  • 141. artciencia.com (ISSN 1646-3463) Ano I ● Número Dois ● Fevereiro-Abril 2006 - Se não te levantas a bem, eu trato de te convencer... - disse fingindo-se duro,tentando mais uma vez despertar a rapariga - Então, decides-te ou não - continuou, quandoela abriu os olhos. - Tu!? Outra vez!? Deixa-me em paz, quero dormir! - refilou Rita, escondendo acabeça debaixo dos lençóis. - Não, desta vez só saio daqui quando te levantares - argumentou o anfitrião,envolvendo o corpo da colega mesmo por cima dos cobertores - Olha que eu recorro àtortura! - ameaçou fazendo uma expressão séria. - Não serias capaz... - Não me tentes... - retorquiu Jorge, beijando-a com ternura nos lábios. Rita não se ficou correspondendo ao gesto de afecto do companheiro, trocando umcarinhoso beijo. - Tortura-me outra vez! - pediu Rita, recobrando o fôlego, apertando o tronco do rapazde encontro ao seu - Amo-te! - acrescentou igualmente, retomando o apaixonado beijo. - Também te amo... - retribuiu Jorge, deixando-se conduzir pela atmosfera palpitantedaquele momento de paixão... - Rita, já estás levanta... Mas... - principiou Joana entrando de surpresa no quarto -Não interrompi nada, pois não? - indagou a rapariga com ar de troça, perante o embaraço dosdois jovens que de imediato se separaram. - Ah, não, ...não interrompes nada, nós estávamos só a... - balbuciou Rita, nãoconseguindo encontrar desculpa alguma. - Eu sei, estavam a fazer exercícios de respiração boca a boca... - observoumordazmente a intrusa, rindo divertida pelo flagrante que dera nos colegas. - Mas vinhas a quê? - inquiriu Jorge recuperando o discernimento. - A tua irmã pediu-me para acordar a Rita, ...mas parece-me que já não é necessário! - Concordo plenamente! - correspondeu o rapaz, rebatendo o comentário pouco purode Joana. - Nesse caso, estou a mais... - concluiu ela, encaminhando-se para o exterior - ...atéjá! - acrescentou, dobrando a porta. - Espera! Eu vou contigo... - ofereceu-se Jorge, acompanhando a atraente colega, aomesmo tempo que piscava o olho a Rita. Jorge seguiu Joana até à cozinha, onde Isabel, Sofia e Cláudia se ocupavam doalmoço. Enquanto a irmã cortava as batatas já descascadas em pequenos cubos, Cláudiadesfiava cuidadosamente algumas postas de bacalhau previamente demolhadas. - Então, que temos para o almoço? - indagou o rapaz, entrando na divisão, eespreitando o conteúdo do tacho que cozinhava sobre o fogão, sob o olhar atento de Sofia. 141
  • 142. Cartel Fantasma Alexandre Figueiredo - Este é ao contrário... - antecipou-se Joana - ...primeiro come a sobremesa, e depoisé que pergunta pela ementa... - findou, perante o olhar de interrogação das companheiras, àexcepção de Jorge que corou de imediato. - Que se passa? - questionou Sofia, observando atentamente o colega - Sentes-tebem Jorge? Estás tão vermelho... - Ele está bem, não se preocupem... - atalhou Joana entrando com ele uma vez mais,recebendo por isso um olhar fulminante do rapaz - ...é só falta de fôlego! - acrescentou emseguida, ignorando os repetidos gestos do colega. As restantes raparigas não puderam deixar de rir com a insolência de Joana, ecompreenderam de imediato a mensagem, trocando entre si olhares de troça. - Posso ajudar em alguma coisa? - ofereceu Jorge, cada vez mais comprometido,tentando a todo o custo mudar o assunto da conversa. - Podes ir pôr a mesa, se não te importares... - sugeriu Isabel, para alívio do "irmão"que viu naquele pedido uma oportunidade para se escapar a um ambiente pouco confortável,sem ser forçado a uma retirada estratégica. ... - Estava divinal! - aplaudiu Jorge, engolindo com prazer o último pedaço do apetitosoBacalhau com Natas, que a irmã confeccionara junto com Cláudia e as suas colegas deestudos - Passamos directamente ao café, ou há alguma sobremesa? - perguntou ainda. - A Sofia ontem fez uma salada de frutas, serve? - declarou Isabel. - Perfeitamente! - aprovou o anfitrião - Deixa, que eu vou buscar... - disse, recolhendorapidamente a louça suja, e desaparecendo da sala de jantar em direcção à cozinha. O anfitrião regressou volvidos alguns instantes, trazendo consigo um recipiente devidro no qual fora preparada a sobremesa, que posou sobre a mesa. Em seguida, distribuiutambém as taças e respectivas colheres pelas cinco companheiras, servindo-assucessivamente com todo o requinte, tentando imitar os gestos que observara no mordomode Enrique Escobar. - Oh!... Bravo Ambrósio!... - agradeceu Joana, tentando meter-se com ele mais umavez. - Não tem de quê, ...senhora! - gracejou o rapaz, correspondendo ao comentário dacolega. Sempre bastante animados, terminaram a sobremesa, bebendo o café que Jorge maisuma vez voluntariosamente se ofereceu para fazer. Por fim, dividiram pelos seis as tarefas delevantar a mesa e arrumar a loiça na máquina de lavar. Em seguida instalaram-se na sala de estar, vendo televisão e contando uns aos outrosas aventuras vividas nos últimos dias. Primeiro, Jorge relatou à irmã, e às duas colegas todas 142
  • 143. artciencia.com (ISSN 1646-3463) Ano I ● Número Dois ● Fevereiro-Abril 2006as peripécias da estadia, ainda que curta, na luxuosa mansão de que era proprietário o vilEnrique Escobar. Rita e Cláudia escutavam com atenção, interrompendo-o de quando em vezpara acrescentarem algum pormenor que o rapaz esquecera. Após o jovem ter terminado asua narração, foi a vez de Sofia e Joana contarem resumidamente todos os acontecimentosdesde o momento em que Jorge as deixara na Área de Serviço da auto-estrada emSantarém. Isabel encarregou-se depois de explicar o que tinham feito desde que ali haviamchegado. - Já levaste as nossas convidadas à Torre? - perguntou Jorge à irmã quando estaconcluiu o seu relato, ao que a rapariga correspondeu com um sinal afirmativo. - Estivemos lá ontem de tarde... - explicou Joana - Porque não vão vocês? - lembrou,ainda. - É uma excelente sugestão - concordou o rapaz, ao mesmo tempo que nas suascostas a colega fazia sinais a Cláudia, pedindo-lhe para que não fosse - Queres ir? -questionou o anfitrião. - Adorava... - principiou a rapariga - ...mas com o pé assim, talvez não seja boa ideia.Fica para outra vez!... - acrescentou depois, fingindo-se desapontada. - E tu Rita, queres vir comigo - instou, com um brilho especial nos olhos. - Vai... - aconselhou Sofia - ...tu sempre quiseste ver neve! Ora aí tens a tuaoportunidade. - Está bem! - aceitou a jovem, juntando-se ao colega, que procurava no armário daentrada as botas que habitualmente usava quando nevava. - Ora cá estão elas! - exclamou sorridente, calçando-as num instante - Nós não nosdemoramos nada! - disse, conduzindo depois a acompanhante para o pátio coberto de neve. - Obrigado por não teres aceite... - agradeceu Joana, falando para Cláudia logo queJorge fechou a porta de entrada - Assim os pombinhos podem estar à vontade! - concluiurindo. - Era por isso que te estavas a meter com o meu irmão á hora de almoço? - indagouIsabel, acomodando-se no chão mesmo em frente da lareira. - Havias de ter visto aquilo que eu vi... - confidenciou, relatando minuciosamente àscompanheiras o flagrante que dera nos colegas na manhã desse mesmo dia... ... Entretanto, nesse mesmo momento, Jorge e Rita instalavam-se nos assentos doRover 620i preto. Em seguida, com grande tranquilidade, o jovem rodou a chave na ignição, elibertou a alavanca do travão de estacionamento antes de engrenar a marcha-atrás. Depois,com igual serenidade manobrou o automóvel para fora do telheiro. Quando se preparava paraarrancar em direcção ao portão, o motor do veículo soluçou e deixou de se ouvir. 143
  • 144. Cartel Fantasma Alexandre Figueiredo - Azelha! - riu-se Rita, percebendo pela expressão do colega que a asneira foracometida por si. - É o motor que ainda está frio! - justificou-se o rapaz, carregando duas vezes o pedaldo acelerador até ao fundo, iniciando a marcha logo após, conduzindo a viatura até á estradaprincipal que passava a curta distância dali. Por fim, Jorge tomou o caminho que conduzia até ao cume da Serra da Estrela, cujolugar era conhecido por Torre, por nele ter sido erguido uma torre artificial com nove metrosde altura, que somados aos mil novecentos e noventa e um da Serra perfaziam um total dedois mil metros exactos de altitude. A viagem não demorou mais que quinze minutos, apesarmesmo do piso se encontrar um tanto escorregadio, por causa da neve que se acumularasobre o asfalto. Por fim, Jorge estacionou o seu estupendo Rover negro, junto a um grupo deoutros carros. - Que grande confusão! - observou Rita, libertando o fecho do cinto de segurança, aomesmo tempo que contemplava a multidão que circulava em torno das cerca de três dezenasde barracas dispostas ao acaso. - Hoje é feriado, depois mete-se o fim-de-semana, e o pessoal aproveita para cá daruma saltada... - explicou Jorge, saindo do automóvel - ...eu faço isto muitas vezes, dá-me nacabeça, e venho com a Isabel passar o fim-de-semana à Serra - acrescentou também - Bem,podemos começar por dar uma voltinha pelas barracas, que te parece? - indagou. Rita aceitou de bom grado a sugestão do companheiro, acenando com a cabeça emsinal afirmativo. Os dois jovens deram então as mãos, e o apaixonado par misturou-se napequena multidão de turistas, percorrendo também uma a uma as várias tendas de venda derecordações e produtos tradicionais da região. - Prove menina... - convidou uma vendedora, quando os dois se aproximaram da suabarraca - ...este é o verdadeiro Queijo da Serra, não é daquelas imitações sem qualidade quevendem aí nos supermercados - disse, cortando com destreza uma fatia de amostra queofereceu a Rita. - É excelente! - aprovou a rapariga deliciada - Queres um pouco? - perguntou aocompanheiro, dividindo com ele a pequena fatia. - Dos melhores que tenho saboreado... - observou Jorge, igualmente agradado com opaladar do nobre queijo - Arranje-me um, ...por favor! - pediu, puxando prontamente dacarteira. O jovem esperou serenamente enquanto a vendedora pesou e embrulhoucuidadosamente o artigo solicitado. Em seguida, Jorge pagou o queijo, afastando-se com Ritaem direcção à tenda seguinte, que ao invés da primeira exibia uma variedade apreciável deenchidos dependurados numa trave de madeira. A disposição dos artigos, bem como a 144
  • 145. artciencia.com (ISSN 1646-3463) Ano I ● Número Dois ● Fevereiro-Abril 2006decoração da própria barraca, ainda que bastante simples, tentava recriar um ambientesemelhante ao dum fumeiro tradicional. Jorge começou por examinar atentamente algunschouriços, virando-os, e revirando-os várias vezes, enquanto o comerciante atendia um outrocasal. - Vejo que o senhor é entendido... - observou o indivíduo, com um sorriso franco,quando finalmente lhes deu atenção - Acertei? - Mais ou menos... - redarguiu o rapaz rindo - ...o meu avô vivia aqui perto, e quandoeu era miúdo ensinou-me alguns truques... - explicou Jorge, escolhendo três chouriçosdaqueles que examinara anteriormente. - Se me permite... - principiou o vendedor, escolhendo um exemplar doutro grupo -...estes são a minha especialidade, têm um paladar divinal... - disse, exibindo o chouriço - ...éum pouco mais caro, mas afianço-lhe, ...é uma categoria de chouriço, não encontra maisnenhum aqui na zona com esta qualidade! - Aceito a sua sugestão - consentiu o estudante - E, que mais especialidades é quetem? - indagou. - Tenho estas morcelas, que são excelentes, sou eu mesmo que as faço, com carneda melhor qualidade, e depois, tenho ainda umas farinheiras que o senhor não encontra emlugar algum. Só eu faço farinheira desta maneira... - disse com orgulho. - Adoro morcelas, quanto às farinheiras não sou lá muito adepto, não gosto dafarinha... - declarou o rapaz. - Isso, é porque ainda não provou as minhas! - exclamou o comerciante - As minhasnão são umas farinheiras quaisquer, são feitas com muita carne, vinho, mas o segredo estámesmo na quantidade, e no tipo de farinha que lhes meto. Eu asso-lhe uma, ...então, quediz? - Não é necessário, ...confio em si - respondeu ele, examinando o enchido que ohomem lhe passara para as mãos. - Apalpe, vai ver que quase não encontra farinhas - garantiu o indivíduo. - De facto, tem razão - concordou Jorge - Sendo assim, pese-me quatro chouriços dostais que me mostrou, três farinheiras, e três morcelas - decidiu por fim o rapaz - Queres levarmais alguma coisa? - perguntou à companheira. - Que tal um naco de presunto... - sugeriu Rita, pegando num enorme pedaço. - Acrescente mais isto... - pediu rapaz sem hesitar, entregando o artigo aocomerciante. ... 145
  • 146. Cartel Fantasma Alexandre Figueiredo Já depois de terem comprado também uma apreciável porção de nozes e figos secos,o parzinho de namorados parou defronte de uma barraca de artesanato, que comerciavasobretudo artigos manufacturados em pele. - Gostas? - questionou Jorge, mostrando à companheira um par de luvas castanhasem pele de carneiro. - São tão fofinhas... - respondeu Rita, enfiando uma na mão esquerda - ...Uaaauuu, eque quentinhas! - Escusas de as tirar... - principiou o rapaz, procurando outro par igual - Essas sãopara ti, e estas para mim! - decidiu, voltando a puxar da sua carteira - Quanto é que eu devo?- perguntou ainda para ao homem já de idade avançada que sentado numa cadeira demadeira unia habilmente dois pedaços de pele. - És um amor - agradeceu a rapariga, premiando-o com um meigo beijo nos lábios -Anda ali ver uma coisa... - pediu, quase arrastando o companheiro que guardava ainda otroco que recebera das mãos do artesão. Rita conduziu o colega em direcção a uma tenda que ficava quase ao lado. Àsemelhança do espaço que haviam visitado antes, também ali se comerciavam artigosmanufacturados em pele, e que haviam lhe haviam despertado a atenção. - Que te parece, ...gostas? - indagou ao colega, exibindo um conjunto de carteira,porta-chaves, e porta-moedas. - Adoro... - apreciou o jovem, examinando minuciosamente as três peças queconstituíam o conjunto. - Nesse caso, ...levo! - decidiu a companheira abrindo a sua carteira - Agora é a minhavez de te oferecer algo... - acrescentou ainda, entregando duas notas ao comerciante. Jorge guardou cuidadosamente o presente de Rita juntando-o às compras que haviamrealizado até ao momento. Em seguida, deram de novo as mãos, circulando tranquilamenteentre os inúmeros parzinhos de namorados, que como eles haviam escolhido aquela mesmatarde para um descontraído passeio na Serra completamente vestida de branco. De quandoem vez, os dois jovens trocavam um ou outro gesto de maior afecto, sempre rodeados poruma pequena multidão de turistas. - Queres alugar uns esquis para experimentares, ou preferes ir dar uma voltinha a pé?- questionou Jorge, parando junto da última barraca daquele mercado improvisado. - Em que é que estás a pensar? - A minha ideia é fazer algum tempo para vermos o pôr do sol, que aqui de cima éespectacular! - explicou, colocando a mão direita sobre os ombros da companheira. - Então, talvez seja melhor darmos um passeio a pé, ...não te quero deixar ficar mal! -respondeu Rita rindo, não muito segura das suas capacidades de esquiadora - Fica para 146
  • 147. artciencia.com (ISSN 1646-3463) Ano I ● Número Dois ● Fevereiro-Abril 2006outra vez... - adiantou ainda, passando também a sua mão esquerda à volta das costas docolega. Os dois jovens dirigiram-se então ao vistoso Rover negro, deixando os sacos dascompras que haviam efectuado cuidadosamente arrumados no espaçoso porta-bagagens doautomóvel. Em seguida, deram de novo as mãos, caminhando descontraidamente sobre aespessa camada de neve, optando por se afastarem um pouco dos olhares indiscretos daspessoas que se encontravam concentradas sobretudo em torno das diversas tendas que elestinham já visitado. A dada altura porém, quando passavam mesmo ao lado de uma áreacompletamente gelada, Jorge com astúcia deu um empurrão subtil à companheira, que deimediato se estatelou no gelo escorregadio. - Isto não fica assim! - gritou, tentando levantar-se, mas caindo de novo - Vais pagá-las!... - Aaaahhhh!... Aaaaaaaahhhhhh!... Aaaaaaahhhhh!... - ria Jorge, dando uma sonoragargalhada de cada vez que a companheira escorregava no chão congelado -Aaaaaaahhhhh!... Isto é de morrer a rir! - dizia, já quase com as lágrimas nos olhos de tãohilariante que era a cena. - Se te apanho nem sei que te faça... - ameaçou Rita, estatelando-se uma vez mais. - Queres que te vá buscar? - ofereceu-se o jovem voluntariosamente. - Não, eu consigo amanhar-me sozinha... - recusou convictamente - ...mas não deixesque te apanhe, senão... - É tudo uma questão de equilíbrio! - explicou Jorge, não conseguindo parar de rir,vendo Rita dar mais uma queda - Não me digas que não és capaz... - continuou dando largasà sua felicidade. - Está bem, ganhaste, ...mas tira-me daqui, por favor - pediu a rapariga cedendofinalmente, deixando-se ficar sentada no chão gélido. - Está bem, mas tens que me prometer, que não tentas nada... - contrapôs o colega,insolentemente. - De acordo, ...prometo! - anuiu a companheira. Jorge dispôs-se enfim a auxiliar a rapariga, saltando com destreza para aquelepequeno lago gelado, e caminhando cautelosamente sobre o gelo escorregadio, resgatouRita transportando-a depois ao colo para a margem da poça congelada por causa das baixastemperaturas. - Engordaste, desde a última vez que te peguei ao colo!... - queixou-se o jovemsorrindo com descaramento, pousando-a por fim em terra firme - Porra, já não tenho idadepara estas coisas! - disse depois, fingindo-se cansado. 147
  • 148. Cartel Fantasma Alexandre Figueiredo Rita porém não perdeu tempo a consumar a sua vingança. No mesmo momento emque o colega a libertou, agarrou numa porção de neve, moldando uma bola, que atirou à carado camarada. - Então, ...isso não vale, ...tu prometeste! - protestou Jorge, desviando-se por um trizdoutra porção de neve arremessada pela rapariga. - Fiz figas, ...sabes o que é, ...não sabes? - questionou com sarcasmo, enquantomodelava mais uma mão-cheia de gelo, apontando de novo à cara do colega. - Se é guerra que queres... - começou Jorge enfiando as mãos na espessa camadaalva - ...então é o que vais ter! - exclamou, correndo atrás da parceira, tentando enfiar-lhe aneve pelas costas abaixo. - Está quieto, ...pára! Jorge, por favor páraaaaaaaaa!... - pediu Rita, soltando um gritoagudo quando os pequenos pedacinhos de gelo entraram em contacto com a sua pele -Desta vez não há perdão, ...tens que ser severamente castigado! - declarou fazendo umaexpressão muito zangada, puxando compulsivamente o companheiro de encontro a si, ebeijando-o com doçura. - Castiga-me mais! - exigiu Jorge, risonho - Sê má, ...maquiavélica, ...não tenhaspiedade!... - continuou, parecendo cada vez mais agradado... ... - Vamos para baixo? - sugeriu Jorge, subindo o fecho do o seu blusão impermeável. - Está bem... - concordou a acompanhante, contemplando encantada um último raiode sol que desaparecia no horizonte distante - Jorge... - começou a jovem, deixando-seconduzir até ao distinto Rover. - Sim... - Bem... - recomeçou Rita ainda a medo - queria agradecer-te esta tarde maravilhosa... - Não tens que agradecer, isto não foi nada... - interrompeu o colega - ...sabes bemque te adoro, e sou capaz de tudo para que a minha coisa linda esteja feliz! - declarou orapaz com um brilho especial nos olhos azuis. - Deixa-me acabar por favor... - pediu a rapariga - Eu..., bem, ...eu quero pedir-tedesculpas por ontem à noite. Estava com ciúmes por estares a dar mais atenção à lambisgóiado que a mim... - Não tem importância... - desvalorizou Jorge - Já estavas perdoada, não precisavas... - Mas eu ontem fui egoísta e disse coisas sem pensar, fui muito injusta contigo, e seestiveres magoado comigo eu compreendo... - Não te rales, ...eu entendo, ...estavas de cabeça perdida. Ás vezes também meacontece, por isso sei como é... E além do mais eu também tenho culpa, porque deixei que 148
  • 149. artciencia.com (ISSN 1646-3463) Ano I ● Número Dois ● Fevereiro-Abril 2006pensasses que estava a dar mais importância à Cláudia... - retorquiu o colega, perdoando-ade pronto - Vamos pôr uma pedra sobre o assunto, ...está bem? - acrescentou por fim. Rita acenou com a cabeça em sinal de anuência, esperando que Jorge destrancasseas portas do sublime Rover para depois entrarem em simultâneo. Logo que o ruído do motordo automóvel se fez ouvir, o jovem iniciou vagarosamente a marcha, apanhando algunsmetros mais à frente a estrada que conduzia ao sopé da Serra. Passavam poucos minutos das seis e meia da tarde quando o Rover negro cruzoulentamente os portões da casa que servia de refúgio aos seis fugitivos procurados pelaorganização de Enrique Escobar. A noite caíra fazia algum tempo, envolvendo tudo ao redornuma sinistra escuridão. Jorge estacionou cuidadosamente a viatura, indo depois a correrfechar o portão. Em seguida voltou para junto da colega, auxiliando-a com os diversos sacosdas compras que haviam trazido do passeio dessa tarde. Enfim, encaminharam-se ambos demão dada para a entrada da habitação, abrigando-se debaixo do pequeno alpendre enquantoo anfitrião procurava a sua chave. Tal não foi no entanto necessário, pois volvidos apenasalguns instantes Sofia veio abrir-lhes a porta, tornando a fechá-la logo que os dois entraram. - A Torre devia estar o máximo! - começou a rapariga metendo-se com o recém-chegado parzinho. - Na verdade, ...um espanto! - retorquiu Jorge, fingindo-se desentendido - Aliás,fartámo-nos de fazer compras... - acrescentou ainda. - Trouxemos um queijo, um naco de presunto, quatro chouriços, três morcelasenormes, três farinheiras, nozes, e figos... - enumerou Rita, à medida que tirava tudo paracima da pequena mesa de centro da sala de estar. - Então, estão à espera de quê!? - questionou o anfitrião indignado - Vá, podemoscomeçar pelo queijo e pelo presunto... - Será possível que já tenhas fome outra vez! - repreendeu a irmã com uma expressãode reprovação. - Claro, estava a pensar que alinhavam todas numa espécie de lanche ajantarado.Provávamos o queijo e o presunto como aperitivos, e depois assávamos os enchidos nabrasa.... - explicou, fitando as companheiras - ...e para terminar, nada melhor que unsfigozinhos recheados com nozes. - Tenho que admitir, ...é uma excelente ideia! - aprovou Joana - Sofia, ...dás-me umaajuda? A rapariga concordou de pronto, acompanhando a colega em direcção à cozinha.Isabel, foi procurar a grelha que habitualmente usavam sempre que faziam grelhados nalareira. Jorge por seu lado ocupou-se de atiçar o lume de modo a conseguir brasas maisrapidamente. 149
  • 150. Cartel Fantasma Alexandre Figueiredo - Traz essa mesa para aqui, por favor - pediu, falando para Cláudia ao mesmo tempoque apontava para a elegante mesa decorativa que se encontrava no centro da dependência- Rita, tu podias ficar aqui a olhar pelas brasas, enquanto eu vou procurar uma mesadesmontável que nós temos e que serve perfeitamente para aquilo que queremos. - Está bem! - concordou a colega, aceitando a tenaz que o companheiro lhe entregou. ... - Estou cheia, não consigo comer mais nada! - queixou-se Isabel, engolindo a muitocusto um último pedaço de farinheira. - Eu também já não sou capaz de engolir mais nada - reforçou Cláudia igualmentesatisfeita. - Então e este chouriço, vai ficar aqui? - indagou Jorge fingindo-se desapontado. - Podes comê-lo à vontade, que eu cá, não quero mais nada... - Nesse caso... - agradeceu o rapaz, cortando o enchido em grossas rodelas - ...nãopodemos deixar esta maravilha aqui, ...pode estragar-se!... - findou rindo. - Não tens emenda... - repreendeu Isabel, observando o irmão devorar o chouriço numabrir e fechar de olhos - ...és sempre o mesmo glutão! - E agora, para terminar, nada melhor que umas rodelas de ananás para queimar asgorduras. - Eu não quero... - E eu se comer mais alguma coisa rebento... - Eu adorava, mas não consigo comer mesmo mais nada. - Então, não há ananás para ninguém... - decidiu Isabel prontamente - ...ouviste? -questionou, falando para o irmão que parecia não estar muito convencido - Não hádiscussão!... - concluiu depois. - Pronto, pronto, não se fala mais nisso... - aceitou Jorge - E que tal se fôssemos láabaixo à Covilhã... - sugeriu ele - podíamos ir à discoteca fazer a digestão, ou então, a um barespectacular que abriu há pouco tempo, que dizem? - Talvez não seja boa ideia expormo-nos demasiado - lembrou Cláudia - o tal Álvarode Matos pode ter usado os conhecimentos dele, e quem sabe se não distribuiriam fotosnossas à policia, ou podem ter mesmo gajos à nossa procura. - Ela é capaz de ter razão - corroborou Isabel - se eles têm assim tantas influências, émelhor termos cuidado, e não arriscarmos. - Não me tinha lembrado disso... - concordou Jorge - Sendo assim, que vamos fazer?Alguma sugestão? - indagou, fitando as cinco raparigas que se mantiveram em silêncio -Não? Bem, nesse caso proponho um joguito de "soneca"? - De quê? 150
  • 151. artciencia.com (ISSN 1646-3463) Ano I ● Número Dois ● Fevereiro-Abril 2006 - Sueca... - corrigiu Isabel - ...ele é sempre assim, não liguem. - Escolham os pares enquanto eu vou procurar um baralho - anunciou o estudante dedireito, levantando-se com uma agilidade admirável e deixando a sala por alguns instantes,regressando poucos segundos depois com dois baralhos de cartas... - Estão ambos viciados,mas não faz mal porque só eu é que sei... - disse com um sorriso malandro - Escolhe um... -pediu, estendendo ambos a Joana. Fim do 8º Capítulo 151
  • 152. Cartel Fantasma Alexandre Figueiredo Capítulo 9 - Levanta-te!... - Não me chateiem, deixem-me dormir! - resmungou Jorge, acordando sobressaltadopor alguém que o pontapeou duas vezes. - Levanta-te! Imediatamente! - insistiu a voz masculina num tom autoritário - Não mefaças perder a paciência - prosseguiu a voz asperamente. - Que porra! Será que não se pode... - principiou o jovem irritadíssimo, abrindo osolhos ao mesmo tempo - Tu!?... - exclamou reconhecendo surpreendido o indivíduo que odespertara - Não!... Não, ...não pode ser! Tu outra vez!? Isto não está a acontecer... - disseele - é apenas um pesadelo! - concluiu o rapaz beliscando-se. - Não, sou mesmo eu, - recomeçou a personagem - ...em carne e osso, queres ver? -indagou, agredindo Jorge com soco violento no ventre. - Filho da puta! - insultou o rapaz - Tás fodido! - gritou, levantando-se subitamente, eagredindo o homem com dois socos violentos que o deixaram estendido na chão. De imediato, dois outros intrusos se acercaram dele, tentando dominá-lo. No entanto,o bravo jovem esquivou-se agilmente a ambos, e pegou no candeeiro da mesa de cabeceiraque arremessou com toda a força acertando em cheio na cabeça do primeiro agressor,presenteando o segundo com uma série de exímios pontapés de karaté. - Alto! - ordenou outra voz com autoridade, entrando de súbito nos aposentos - Maisum gesto e a tua namorada vai ter com os antepassados! - ameaçou, apontando uma pistolaà nuca de Rita - Estão à espera de quê, ...agarrem-no! - gritou o recém chegado aos doishomens que se levantavam - Marco, chega-lhe! - Com todo o prazer doutor! Marco Abelardo não perdeu tempo a cumprir a ordem do líder, socando violentamenteo indefeso estudante. Primeiro acertou-lhe com alguns murros na cara, agredindo-o depois noventre, e concluindo com dois pontapés certeiros que fizeram o rapaz soltar-se dos doissujeitos que o agarravam, indo estatelar-se no chão. - Levanta-te! - exigiu o estrangeiro, pontapeando-o mais uma vez - Ouviste? Mandei-televantar! Queres apanhar mais? - questionou com presunção. Jorge porém não respondeu, conseguindo a muito custo erguer-se, sangrandobastante do nariz e da boca, e queixando-se também da barriga. À distancia Rita conseguiuobservar ainda que o companheiro tinha igualmente um inchaço no sobrolho direito, e umaferida no ombro do mesmo lado. 152
  • 153. artciencia.com (ISSN 1646-3463) Ano I ● Número Dois ● Fevereiro-Abril 2006 - Veste-te! - ordenou o detestável segurança de Enrique Escobar - E não te armes emengraçadinho, ou limpo-te o sebo aqui mesmo, ...fiz-me entender? - perguntou outra vez,parecendo bastante à-vontade - Lava a tromba imbecil, não queremos que sujes os estofosdo carro - acrescentou ainda. O rapaz acenou com a cabeça em sinal afirmativo, dirigindo-se a coxear da pernaesquerda para o quarto de banho dos seus aposentos, regressando poucos instantes maistarde. Nessa altura, já Rita e o pouco escrupuloso advogado tinham desaparecido. MarcoAbelardo e os dois seguranças que o acompanhavam continuavam na dependência,encostados a um canto, mantendo-se alerta a todos os gestos do prisioneiro, não fosse estetentar algum truque. - Vamos a despachar, não temos a noite toda! - refilou Marco, exigindo a Jorge que seapressasse. Logo que o rapaz enfiou o seu blusão de cabedal negro, foi empurrado com mausmodos para fora do quarto, sendo depois conduzido à sala de estar. Para além das cincocompanheiras, e dos sujeitos que o vigiavam, encontravam-se ainda presentes "Rosé",Fontes, o Dr. Álvaro de Matos, e alguns seguranças que o rapaz conhecia da sua estadia namansão do poderoso Enrique Escobar. - Boa noite, caro jovem... - começou por cumprimentar o Dr. Álvaro de Matos -...pareces um tanto inferiorizado, espero que não seja nada de grave - continuou com falsacortesia. - Vai-te foder! - retorquiu Jorge com atrevimento, sendo prontamente presenteado comuma dolorosa pancada nas costas dada com o cabo de uma metralhadora. - Conforme podes ver, a minha profecia bateu certo - principiou com presunção -Decerto que estás recordado da nossa interessante troca de ideias no dia em que fomosapresentados? - lembrou a altiva personagem com vaidade - Bem, mas não é por isso queestamos aqui, não é verdade? Tudo o que pretendemos é um pouco de colaboração, emtroca da vossa liberdade, então, ...que dizes? - propôs o impassível sujeito. - Vai levar no cú!... - Resposta errada! - limitou-se a dizer o outro sem alterar o tom de voz, fazendo umsinal a Fontes. O comparsa correspondeu com um sinal afirmativo, puxando Rita pelos cabelos para ocentro da divisão. Em seguida, rasgou as roupas que cobriam o tronco da rapariga, deixando-a apenas em soutien. Depois, dois dos seguranças que o acompanhavam desapertaram osjeans que a rapariga envergava descendo-os até meio das pernas. - Eu mato-vos, filhos da puta! - gritou Jorge, agredindo com um soco violentíssimo ohomem que o vigiava, fazendo menção de avançar sobre Fontes. 153
  • 154. Cartel Fantasma Alexandre Figueiredo - Quieto! - ordenou Marco, encostando um revólver à nuca de Isabel - Para trás,imediatamente! - exigiu, colocando o dedo sobre o gatilho. Jorge obedeceu, sendo de pronto agarrado e algemado. Mesmo assim o jovem nãodeixou de se debater, quase arrastando os dois seguranças que lhe prendiam os braços nadirecção do perverso advogado. - Se lhe tocas, juro que te mato! - gritou furioso, esperneando com todas as suasforças - Ouviste, mato-te! - Podes começar Fontes! - pediu o Dr. Álvaro de Matos, acendendo tranquilamente umcharuto. O outro pegou no chicote que um dos capangas lhe entregou, fazendo-o estalar comforça nas costas frágeis de Rita que não conseguiu conter um grito de dor. Em seguida,Fontes repetiu o mesmo gesto, uma, duas, três vezes, perante a fúria de Jorge que mesmopreso e algemado conseguiu arrastar os dois indivíduos que o seguravam até muito próximodo cobarde advogado, agredindo-o com um feroz pontapé na cara que o deitou por terra. Ritapermanecia quieta, escondendo a cara húmida por causa das lágrimas que corriam a quatro equatro entre as mãos trémulas. - Juro que vos fodo a todos! - ameaçou o rapaz, quase conseguindo libertar-se porduas vezes - limpo-vos o sarampo a todos! - Já pudeste ver que não estamos para brincadeiras, por isso é melhor acalmares-te -sugeriu o Dr. Álvaro de Matos com frieza, fumando descansadamente o seu charuto - Olhaque é ela quem sofre as consequências... - Vai à merda! - gritou Isabel do local onde se encontrava, recebendo com prémio pelainsolência algumas bofetadas fortes, que a atiraram ao chão. - Onde estão as fotografias? - perguntou a execrável personagem falando para Jorgeque entretanto parecia mais prudente. - Não lhe dês nada - suplicou Isabel, agarrada à face esquerda. - Façam-na calar - ordenou o outro. Assim, a rapariga foi de novo agredida, recebendo desta vez dois pontapés que adeixaram no chão contorcendo-se com dores. - O próximo filho da puta que tocar na minha irmã há-de se haver comigo. Esmurro-vos a tromba a todos!... - ameaçou Jorge, enfurecendo-se de novo. - Talvez seja melhor moderares a tua linguagem - aconselhou o sinistro Dr. Álvaro deMatos, falando com à-vontade - Podes continuar Fontes, pelo menos até o nosso amigorecuperar da amnésia. O detestável advogado ergueu de novo o chicote, fazendo menção de bater em Rita. - Não lhes dês nada! - implorou a rapariga, tapando a cara com as mãos. 154
  • 155. artciencia.com (ISSN 1646-3463) Ano I ● Número Dois ● Fevereiro-Abril 2006 - Espera! - pediu Jorge - Eu digo-te onde estão a merda das fotografias - disse enfim. A um sinal do Dr. Álvaro de Matos, Fontes baixou o chicote. Contudo, os doiscapangas que seguravam os braços de Rita mantiveram-na na mesma posição para qualquereventualidade. - As fotos estão no meu apartamento em Santarém... - revelou o jovem parecendo dar-se por vencido. - Lembra-te meu menino, eu não nasci ontem... - principiou o outro não se deixandoenganar - Foste muito inteligente quando me deste uma pista falsa acerca do nome da tuairmã, mas não me tomes por um totó... - continuou falando com clareza - O teu apartamentojá foi revistado. As fotografias não estão lá. - revelou com a mesma frieza de sempre - Queresevitar o sofrimento da tua linda namorada, ou preferes que o Fontes continue? - Não lhe dês as fotografias, eles matam-nos na mesma... - implorou Rita, fitando ocolega. - Então, decides-te ou não? - insistiu a maquiavélica personagem. - Está bem... - suspirou Jorge reconhecendo que nada mais havia a fazer - Eu voubuscá-las. - Vai com ele Marco, e assegura-te que o nosso amigo não faz disparates. Jorge deixou a ampla sala, encaminhando-se em direcção ao lanço de degraus queconduzia à cave. Apesar do prisioneiro se encontrar algemado, Marco optou por guardar umacautelosa distância, vigiando atentamente todos os movimentos do jovem. Já no piso inferioro traiçoeiro sujeito do rabo de cavalo seguiu Jorge até uma espécie de escritório,aproximando-se depois dele. - Estão nesse envelope... - disse Jorge, indicando com a cabeça um sobrescritobranco que se encontrava por debaixo do teclado do computador. - E as chapas, onde estão? - inquiriu o outro com rudeza. - Abre a segunda gaveta - pediu o prisioneiro - Estão dentro desse livro... - disse porfim, quando o carcereiro puxou a gaveta. Marco Abelardo folheou o livro que o jovem indicara, encontrando finalmente osmalfadados negativos, que cuidadosamente guardou no bolso interior do seu blusão. - Vamos embora, e nada de gracinhas... - avisou ainda, empurrando Jorge emdirecção às escadas. Jorge obedeceu em silêncio, começando a subir lentamente os degraus queconduziam ao piso térreo da habitação. Em seguida, voltou a entrar na ampla sala de estaronde se encontravam todos. - Então? - questionou o Dr. Álvaro de Matos quando ambos penetraram na sala. 155
  • 156. Cartel Fantasma Alexandre Figueiredo - Tenho aqui tudo! - exclamou Marco com um sorriso de orelha a orelha quecontrastava com a desilusão estampada no rosto das cinco raparigas. - Deixa ver! - pediu Fontes, recebendo das mãos de Marco o precioso envelope,examinando rapidamente o conteúdo do sobrescrito - Veja aqui doutor, se estas fotoscaíssem nas mãos erradas o Enrique estaria em maus lençóis. - De facto... - concordou o outro - nestas três especialmente reconhece-seperfeitamente. - Felizmente que lhes deitamos as mãos a tempo, o Enrique vai ficar satisfeito - dissecom um ar vitorioso. - Não percamos mais tempo. Vistam qualquer coisa a essa miúda, e algemem-nos atodos... - ordenou uma vez mais o insuportável Dr. Álvaro de Matos, dirigindo-se a Marco -Vá, vamos embora, rápido! - acrescentou ainda. - Com todo o prazer... - cumpriu o malvado capanga. Em poucos minutos, todas as raparigas foram algemadas. Antes porém deaprisionarem as mãos de Rita, os horríveis carcereiros permitiram que esta se compusesse,entregando-lhe uma camisola de lã grossa, e deixando que ela voltasse a subir os jeans. Porfim, também os pulsos da rapariga foram envolvidos por um par de algemas. - Ah, quase me esquecia... - recomeçou o odioso advogado - Decerto que não teimportas que levemos os teus carros emprestados? - Vai-te foder! - foi a resposta dada por Jorge, que como habitualmente foi premiadocom dois socos pela impertinência. - Deduzo que isso seja um "sim"! - sorriu-se o outro bastante satisfeito. Enfim, os seis prisioneiros foram empurrados até à porta de entrada. O audaz rapaz,não parecendo disposto a entregar-se sem lutar, aproveitou um momento de distracção dosseguranças que o vigiavam para lançar a confusão. Primeiro empurrou energicamente todosquantos seguiam à sua frente, que se estatelaram no chão, usando depois o pé direito parafechar a porta aos perseguidores. Logo a seguir, correu velozmente, tentando mais uma vezescapar-se. - Acerta-lhe com um tranquilizante... - ordenou Fontes a Marco que a seu lado selevantava precipitadamente - ...o Enrique disse que os queria vivos! - explicou em seguida. O outro assim fez, e o fugitivo foi prontamente atingido pelo projéctil caindodesamparado no chão coberto de neve. - Jorge! Jorge! - gritou Isabel em pânico, quando a porta se abriu, temendo pela vidado irmão, que alguns metros à frente jazia deitado sem reacção no chão gelado. 156
  • 157. artciencia.com (ISSN 1646-3463) Ano I ● Número Dois ● Fevereiro-Abril 2006 - Bom trabalho! - elogiou o pérfido advogado, enaltecendo a pontaria o comparsa -Não se preocupem... - continuou a detestável personagem falando para Isabel que estavainconsolável - ...ele não está morto, ...ainda! - findou com um sorriso de maldade. - Filho da puta! - insultou a rapariga desvairada - Eu mato-te! - gritou ela de cabeçaperdida tentando agredir o outro sujeito. - Está calada! - ordenou o outro perdendo a paciência, e esbofeteando-a com força - Oteu irmão está apenas a dormir, atingimo-lo com um tranquilizante... - explicou, com desdém -Vai dormir até amanhã de manhã! - acrescentou depois. - Por que esperam? - questionou Marco algo irritado - Vão buscá-lo... - disse para osdois homens que se encontravam a seu lado. - Vamos embora, não percamos mais tempo... - concluiu o Dr. Álvaro de Matos - estesputos já nos deram trabalho de sobra - concluiu secamente, entrando para o primeiro dos doisMercedes negros que acabara de parar junto à entrada da habitação... ... - Jorge!?... Ei, ...venham, ...ele já está acordado, ...depressa! - chamou Rita - Estásbem? - perguntou, fazendo-lhe uma festa carinhosa na face, no momento em que as trêsraparigas se acercavam de ambos. - Que se passa...? Onde estamos...? - questionou o rapaz algo desorientado - Quemerda é esta, porque razão estou algemado? - Tem calma... - pediu Isabel tentando serená-lo - Por favor, fala comigo... Como tesentes? Estás bem? - indagou depois. - Mais ou menos, ...tenho uma dor de cabeça horrível, estou muito cansado e cheio desono, e a merda das algemas magoam-me!... - queixou-se - Mas respondam-me, ondeestamos, e porque é que estou algemado? - Estamos em casa do Escobar... - revelou enfim Sofia - Não te lembras, de ontem ànoite? - Lembro-me que lhes entreguei as fotografias, e que fugi quando estávamos a serlevados para os carros, ...ou será que sonhei? - interrogou-se ainda bastante confuso. - Não, ...não sonhaste, foi real! - esclareceu Joana. - E não te lembras de mais nada...? - inquiriu Rita, ajudando-o o sentar-se. - Não sei bem... - começou ele, fazendo uma pausa, tentando recordar osacontecimentos da última madrugada - ...lembro-me, ... lembro-me de ir a correr, ...de repentesenti-me muito cansado e com muito sono. As pernas não me obedeciam, parecia que o meucorpo não era realmente meu, ...e depois, bem, ...comecei a ver tudo enevoado. Devo terdesmaiado, porque antes de perder os sentidos ouvi umas vozes, mas não consegui perceber 157
  • 158. Cartel Fantasma Alexandre Figueiredoo que diziam, mas acho que antes disso caí!? Será, é que não me consigo mesmo lembrarcom exactidão. - Sim, foi isso mesmo - ajudou Isabel - Tu empurraste toda a gente, fechaste a porta,largaste a correr. - Mas entretanto, aquele tipo nojento do rabo de cavalo acertou-te com umtranquilizante, e tu caíste - completou Sofia - Havias de ter visto a Isabel, estava convencidaque tu tinhas morrido, e quase comeu o Fontes vivo! - acrescentou rindo. - Esses dois filhos da puta!... - exclamou furioso - Não descanso enquanto não limparo sebo aos dois - prosseguiu furioso - Só não consegui ainda perceber foi como é que elesnos conseguiram descobrir. Ao mesmo tempo que o rapaz se interrogava acerca do modo como haviam sidolocalizados, as quatro raparigas enrugaram a testa trocando entre elas um olhar poucoinocente, que no entanto não passou despercebido a Jorge, compreendendo de imediato quealgo se passava. - Que sabem vocês acerca disto? - indagou - Não vale a pena esconderem-me nada,eu vi como vocês olharam umas para as outras quando eu toquei no assunto - insistiu - Foi aCláudia, não foi? - arriscou. - Achamos que sim, embora não tenhamos a certeza... - explicou Rita - Não ouvimosnada a esse respeito, e desde que nos fecharam aqui, ainda não apareceu ninguém. - Fui um burro! Caí que nem um patinho no jogo daquela ordinária! - suspirou furiosoconsigo mesmo - E agora estamos nesta situação, e tudo por culpa da minha teimosia... Seeu te tivesse dado ouvidos... - concluiu tentando conter a revolta que sentia naquele momento- Desculpa... - lamentou-se ainda o rapaz, tentando compensar a companheira - Já estavas perdoado... - tranquilizou-o Rita - ...não precisavas. - Não te preocupes, afinal ela também nos enganou a nós - acrescentou Joana. - Mas não se apoquentem, talvez nem tudo esteja perdido... - revelou Jorge, sorrindode novo - ...eu ainda não joguei todas as cartas... - Que dizes, ...tens um plano? - questionou a irmã. - Não, mas tenho um trunfo que, ... - E que trunfo é esse? - interrompeu o Dr. Álvaro de Matos entrando de surpresa nasala, acompanhado pelo Dr. Fontes, "Rosé", Cláudia, e outros três seguranças. Por fim, surgiram Enrique Escobar, e Marco que empurrava a cadeira de rodas doamo. - Então, que trunfo guardas tu? - insistiu a personagem. - Julgavas-te então muito esperto... - provocou o jovem estudante com ironia - Ésoutra besta como todos os outros, - continuou com enorme serenidade - o único aqui que 158
  • 159. artciencia.com (ISSN 1646-3463) Ano I ● Número Dois ● Fevereiro-Abril 2006merece algum crédito é o teu chefe. Pensavas então, que me tinhas vencido, ...imbecil.Precisas de muito mais... - Diz-me meu caro amigo... - começou o anfitrião metendo-se na conversa - ...qual éentão o teu trunfo? - Achas mesmo que eu vos entregava as fotografias sem ter feito cópias delas...? - Mas isso não te serve de nada, com todos aqui, basta-nos eliminar-vos, para que asfotografias deixem de ser ameaça. - Na verdade, tens razão... - Quem é afinal o imbecil? - questionou o outro esfregando as mãos decontentamento. - Contudo, o trunfo a que me referia não é esse... - recomeçou Jorge, absolutamentetranquilo - Lembras-te de me teres apanhado uma vez no escritório? - indagou o jovem,falando para Fontes. - Sim, e daí...? - Gostavas de saber o que lá estive a fazer? - perguntou o prisioneiro, prolongando osuspense - Estive a brincar com o vosso computador, e achei bastante interessante oconteúdo de todos aqueles ficheiros codificados, que por acaso, tive o cuidado de copiar parauma disquete, que por sua vez enviei a alguém de confiança, que se encarregará de a fazerchegar à polícia. - Ele está a fazer bluff!... - contrapôs Cláudia. - És uma putéfia! - insultou Isabel, tentando agredir a infame traidora. - Tem calma Isabel... - pediu o irmão - ela não sabe o que está a dizer... - prosseguiucom enorme à-vontade. - Fontes, é verdade o que o miúdo está a dizer? - questionou Enrique de sobrolhofranzido. - Eu de facto apanhei-o no escritório... - respondeu o outro algo comprometido - Naaltura não desconfiei, uma vez que ele me disse que estava a ler. Mas se a Cláudia disse queele está a fazer bluff, devemos acreditar na palavra dela. - Bluff uma ova! - recomeçou Jorge - A Rita desconfiou dela logo no primeiro dia, porisso eu tomei muito cuidado... - continuou com enorme segurança - Porque razão é que eunão lhe disse quando iríamos fugir? - Foste descuidada... - repreendeu-a Enrique - Quanto a si doutor, - disse ainda,dirigindo-se ao Dr. Álvaro de Matos - ...trate de encontrar essa disquete quanto antes - findou,atirando o charuto para o chão. - Que fazemos com eles? - inquiriu o execrável advogado, falando para o amo. - Marco... - chamou o outro, fazendo um gesto com a cabeça. 159
  • 160. Cartel Fantasma Alexandre Figueiredo De súbito, deu-se uma cena bizarra. Correspondendo à sinalética de Enrique, Marcoapontou uma arma à nuca de "Rosé", que recuou surpreendido. - Que quer isto dizer? - perguntou incrédulo - Enrique, que se passa? - insistiu. - Desiludiste-me muito "Rosé"... - respondeu o anfitrião mostrando-se desapontado -Sabes que não suporto a traição... - Mas, ...Enrique, sabes bem que jamais te trairia, és como um pai para mim... -defendeu-se o segurança em pânico. - Tens razão, depois de tudo o que fiz por ti nunca pensei que me vendesses por unsmíseros... Quanto é que foi? Dois milhões? Três? - perguntou. - Enrique, estás enganado! - gritou "Rosé" alarmado - Não sei de que estás a falar...Peço-te Enrique! - suplicou o estrangeiro - Estou inocente! - Não percamos mais tempo... - decidiu o anfitrião com frieza - Marco, amarra-o comos outros e vai buscar a bomba - ordenou, fazendo sinal a um dos capangas para que olevasse dali. - Enrique! Enrique! - gritou "Rosé", tentando apelar ao amo que se afastavaimperturbável - Enrique, espera! Tem piedade! Eu estou inocente! Enrique! - Cala-te! - exigiu Fontes, brindando-o com um soco no baixo ventre. - Doutor, por favor, estou inocente, fui incriminado! - continuou o sujeito. - Desiste "Rosé", eles são todos da mesma laia... - suspirou Rita comovida. "Rosé" porém, não parecia disposto a ceder, continuando a clamar pela sua inocência.Contudo, nenhum dos ex-comparsas ousou interceder por ele, receando possíveisrepresálias. Em seguida, uma a uma, as quatro raparigas foram aprisionadas com resistentescordas. Depois de lhe terem sido tiradas as algemas, também Jorge foi amarrado primeironos pulsos e logo após também nos tornozelos. - Agora prendam-nos aos pilares - ordenou o irritante Marco, acabando de laçar ascordas em torno dos pulsos e dos tornozelos de "Rosé" - Isso mesmo, costas com costas... -aprovou, aproximando-se de Cláudia, e abraçando-a - Vamos chéri? - Que mau gosto!... - observou Rita não se contendo. - Vou despedir-me do nosso amigo... - respondeu Cláudia, chegando perto de Jorge, ebeijando-o carinhosamente na face. - És uma putéfia de segunda! - censurou Jorge, tentando esquivar-se da inimiga - Nãome toques, cabra!... - Estúpido! - retribuiu ela, aplicando-lhe duas sonoras bofetadas. - Eras como um irmão mais velho... - disse Marco, agachando-se junto de "Rosé" -estou muito desapontado contigo, não tenho palavras... - concluiu cuspindo com altivez nacara do ex-companheiro, que optou por se manter em silêncio - Quanto a ti, meu merdas... - 160
  • 161. artciencia.com (ISSN 1646-3463) Ano I ● Número Dois ● Fevereiro-Abril 2006recomeçou, presenteando Jorge com um par de pontapés nas pernas - ...primeiro ninguémchama puta à minha noiva... - continuou sovando-o sem misericórdia. - Mas ela não passa disso mesmo... - retorquiu o rapaz com um ar provocador -...havias de ter visto como ela gemeu quando a comi... A insolência custou-lhe mais alguns duros golpes, que o deixaram a sangrar da boca.Foi enfim a insuportável Cláudia, quem afastou o noivo do prisioneiro, acompanhando-odepois em direcção à porta. - Adeus! - disse, despedindo-se com um beijo - Gozem bem estes momentos,...porque serão os últimos - acrescentou, desaparecendo junto com Marco no corredor dolado de fora. - Não estejas tão certa disso!... - replicou Jorge entredentes. Um a um, também os seguranças do vil traficante de droga foram abandonando adependência. O último, ligou o interruptor que fazia accionar o detonador do engenhoexplosivo, saindo depois. Por fim, a porta fechou-se com um estrondo, e do lado de fora umachave rodou na fechadura, trancando-a. Instantes mais tarde ouviu-se claramente o ruído depassos que se afastavam rapidamente, depois, nada..., apenas o silêncio. - "Rosé", quanto tempo temos? - perguntou Jorge, que se encontrava de costas para odetonador. - Menos de vinte minutos... - revelou o outro algo conformado. - Jorge faz qualquer coisa! - pediu Sofia alarmada - Só tu nos podes salvar. - Não vale a pena entrarmos em pânico... - tranquilizou-a o colega - Preciso que meajudem, e não que me enervem - continuou falando com clareza - Se têm ideias partilhem-nas connosco, senão calem-se! - ordenou, um tanto bruscamente - "Rosé", de que ladoestás? - inquiriu depois. - Do seu señor! - redarguiu o outro decididamente. - Óptimo! Nesse caso, quero que te tentes levantar ao mesmo tempo que eu... - pediu,tentando a todo o custo erguer-se - Está quase! - disse, empenhando-se ao máximo. - Conseguimos!... - exclamou o parceiro ofegante. - Agora temos que nos tentar soltar das cordas que nos prendem ao poste - explicouJorge, esforçando-se por se libertar da corda que o amarrava pela cintura. - Não sou capaz... - queixou-se "Rosé" - ...as cordas estão muito apertadas. Nãovamos conseguir. - Tens razão... - concordou o jovem - ...não há nada a fazer, temos que pensar noutrasolução - completou ainda algo desalentado. 161
  • 162. Cartel Fantasma Alexandre Figueiredo - Tive uma ideia! - exclamou subitamente o ex-capanga de Enrique - Talvez resulte... -disse, esticando as pernas, e tentando puxar o charuto que o amo deitara para o chão algumtempo antes. - Que estás a fazer "Rosé"? - indagou Jorge, algo inquieto por desconhecer em que seocupava o parceiro - Que disseste? - insistiu, sendo incapaz de descodificar os sons que oindivíduo emitiu - Esta não é a altura ideal para te pores com brincadeiras! - disse,começando a perder a paciência. - Faça força na corda! - pediu o sujeito - Mais! - repetiu "Rosé" - Está quase! - disse,encorajando o companheiro - Vai partir... - continuou, sentindo que a amarra começava aceder - Já está! - concluiu enfim vitorioso. - Como conseguiste? - questionou Jorge erguendo-se, ao mesmo tempo que afastavapara longe os restos da corda. - Usei o resto do charuto que o Enrique deitou fora... - declarou a personagem commodéstia - Temos que ser rápidos... - avisou - ...restam-nos pouco mais de dez minutos! - O.k., não percamos tempo. Vira-te de costas para mim - pediu o jovem - Vou tentarlibertar-te as mãos... - explicou depois... - Não está a dar... Assim não vamos conseguir - verificou "Rosé" ao cabo de algunsminutos - Continuo sem conseguir mexer as mãos... - completou logo após. - Tens razão... - concordou Jorge algo desalentado - Assim não dá... - Estamos perdidos!... - disse Joana - Vamos morrer todos... - continuou assustada. - Cala-te, não sejas parva... - repreendeu-a Sofia com severidade - O Jorge há-depensar em alguma coisa. - Tenham calma, ainda não estamos vencidos... - redarguiu Jorge, tentando transmitiràs companheiras a tranquilidade que estava longe de sentir - Se perdemos a cabeça agora éo fim, portanto, calma... - continuou serenamente. - Alguém tem um canivete? - questionou "Rosé", fitando desalentado as quatroraparigas que responderam negativamente. - Só temos uma solução... - recomeçou o estudante olhando pensativo ao redor dasala - "Rosé", qual é a espessura daquela porta? - Não é muito grossa, mas se está a pensar arrombá-la, ...esqueça, amarrados nuncaconseguiremos... - respondeu o outro. - Mas se nos conseguirmos libertar... - sugeriu, avançando decidido para um móvelque se encontrava ao fundo da dependência. Em seguida, o inventivo rapaz deitou-se de costas no chão, posicionando-se depoismais próximo do móvel. Sem perder tempo, acertou com violência nas portadas envidraçadasda magnifica peça de mobiliário, despedaçando os vidros que se estilhaçaram no chão. Por 162
  • 163. artciencia.com (ISSN 1646-3463) Ano I ● Número Dois ● Fevereiro-Abril 2006fim, sentou-se no chão de madeira, recolhendo cuidadosamente um pedaço de vidro,servindo-se deste para cortar as cordas que lhe prendiam os pulsos. - O señor é um génio - aprovou "Rosé" com admiração, não perdendo tempo em imitá-lo. Após alguns momentos de intenso esforço, o jovem conseguiu enfim libertar-se dascordas que lhe envolviam os pulsos, perante o olhar atento das companheiras, que nãoparavam de o incentivar. Em poucos segundos Jorge desembaraçou-se habilmente dasamarras que lhe prendiam as pernas. A seu lado "Rosé", parecia sair-se igualmente bem,pois já se encontrava a desatar o último nó da corda que Marco lhe havia enrolado à volta dostornozelos. - Liberta as raparigas, que eu abro a porta!... - pediu, logo que o parceiro se ergueu,correndo precipitadamente para a porta - Quanto tempo temos? - Três minutos e meio... - respondeu o outro, virando-se para trás por um instante,enquanto se ocupava de soltar Sofia. O rapaz deu um primeiro encontrão à porta. Esta porém não cedeu, mantendo-sefirmemente encaixada nas dobradiças. Jorge nem pensou duas vezes, tomando balanço paraum novo embate. Após o choque a madeira pareceu enfim vacilar, abrindo algumas brechas.Sem perder tempo, Jorge encetou nova tentativa para arrombar a porta, recuando primeiroalguns passos, investindo depois em grande estilo sobre a teimosa madeira. Desta vez, ojovem foi bem sucedido, fazendo com que a porta saltasse fora do aro, ficando apoiada numaúnica dobradiça que resistiu à violência da colisão. - Vão! - ordenou "Rosé", falando na direcção de Sofia e Joana que havia libertado emprimeiro lugar - Rápido, ...e afastem-se o mais possível da casa! - disse enquanto desatavaas cordas que prendiam Rita. - Dois minutos! - informou Jorge, ajudando o parceiro a libertar a colega - Eu solto aIsabel! Agora, vão! - exigiu com firmeza. O coração de Isabel palpitava desordenadamente. Apesar no nervosismo a rapariganada disse, receando atrapalhar o irmão. Jorge pelo contrário, apesar da forte tensãoconseguiu manter o habitual discernimento que o caracterizava em situações difíceis,libertando Isabel num ápice. - Cinquenta e três segundos! - exclamou ajudando-a a levantar-se - Vamos! Os dois correram velozmente pelo estreito corredor, chegando rapidamente ao lançode degraus que conduzia ao piso térreo da luxuosa habitação, subindo-os dois a dois.Contudo, e com a precipitação da fuga, Isabel apoiou mal o pé direito, caindo desamparadasobre o cruel chão. 163
  • 164. Cartel Fantasma Alexandre Figueiredo - Aaaiiiiiii!... - gritou, contorcendo-se com dores - Torci o pé, não consigo andar. Foge,deixa-me aqui, mas salva-te... - pediu emocionada. - Não digas tolices! - repreendeu-a o irmão pegando-lhe prontamente ao colo, subindorapidamente os restantes degraus. Em seguida, correu o mais depressa que conseguiu, transportando Isabel nos seusbraços ao longo doutro corredor que parecia interminável. Enfim, chegou ao sumptuoso hallde entrada da casa... No preciso instante em que alcançava a porta de entrada, suou umbarulho aterrador, ao mesmo tempo que uma força desconhecida os impelia violentamentepara o exterior da mansão... De súbito, apenas silêncio, e uma nuvem de poeira que envolvia tudo ao redor dahabitação... - Onde estão eles? - perguntou Rita inquieta, não conseguindo vislumbrar nada paraalém do pó que cercava a construção - Será que não escaparam a tempo... - pensou,aterrorizada com tal ideia, começando a choramingar. - Tenho a certeza que estão bem! - tranquilizou-a "Rosé" - Venha, vamos procurá-los -acrescentou ainda. Assim, correram ambos em direcção à entrada principal do edifício, buscando pelosdois últimos companheiros. - Señorita, olhe! - exclamou "Rosé" radiante - Estão ali! - completou, apontando paraos corpos dos dois jovens que estavam deitados sobre a espessa camada de relva do jardim. - Jorge! Isabel! Estão bem? - questionou a rapariga chegando junto deles. Jorge e Isabel, tranquilamente abraçados riam sem parar, cobertos de pó e com asroupas em desalinho. - Uaaauuuuu! Que pedrada! - principiou o rapaz sem deixar de rir - A isto é que euchamo adrenalina pura! - continuou excitadíssimo. - Oh! Que bom... Ainda bem que estão bem! - exclamou Rita aliviada, chorando defelicidade - Por momentos pensei que não tivessem saído a tempo... - Atrasámo-nos porque eu torci um pé, e o Jorge teve que me trazer ao colo - explicouIsabel levantando-se. - Que se passa... - indagou Jorge, enxugando o rosto da namorada - Estiveste achorar? - Pensei que te tinha perdido... - respondeu a rapariga algo envergonhada. - Então, também não é caso para isso... Pronto, já passou - tranquilizou-a ocompanheiro, não se importando com os presentes, e beijando-a apaixonadamente noslábios. 164
  • 165. artciencia.com (ISSN 1646-3463) Ano I ● Número Dois ● Fevereiro-Abril 2006 - Meninos... Então, que vem a ser isto! - censurou Sofia juntando-se ao grupo - Estãotodos bem? - questionou depois, deixando-se cair exausta sobre o manto verde do jardim. - Nós fartámo-nos de esperar... - principiou Joana - ...e como ouvimos a explosão enão apareceu ninguém, resolvemos vir ter convosco - explicou por fim. - E agora "Rosé", que fazemos? - inquiriu Jorge ajudando Rita a erguer-se... ... - "Rosé", tens a certeza que é este o local? - indagou Jorge, observando através dosbinóculos o monte deserto - Não se vê ninguém... - Certeza absoluta... - respondeu o outro - ...Eu e o Marco estudámos vários sítios, echegámos à conclusão que esta baía seria o melhor lugar para fazer o Enrique sair do paísem segurança. Eles estão aí, ...tenho a certeza - assegurou o companheiro, espreitando entrea folhagem dos arbustos. - Mas poderiam mudar de planos... - sugeriu o rapaz, entregando os binóculos aoestrangeiro. - Eles nunca fariam isso, seria demasiado arriscado... - garantiu "Rosé" - Veja... -pediu o ex-segurança de Enrique passando de novo os binóculos para as mãos de Jorge -Olhe só quem apareceu no cimo do monte... - É outra vez aquele filho da puta! - exclamou o rapaz, reconhecendo de pronto afigura de Marco - O que é que ele está a fazer? - interrogou-se observando atentamente osmovimentos da detestável personagem. - Baixe os binóculos! Rápido! - ordenou "Rosé" de súbito, arrancando energicamente oobjecto das mãos do estudante - Ele assim vê-nos... - explicou - ...estamos contra o sol, e aslentes reflectem a luz... - acrescentou depois. - Não me parece que nos tenha topado... - disse Jorge, seguindo os passos de Marcoque parecia voltar para de onde quer que tivesse surgido - Que estava ele a fazer? - Reconhecimento... - Será que dali ele conseguia ver os carros? - Não, as ruínas são demasiado altas, e tapam-lhe o campo de visão... - explicou"Rosé" - Não se preocupe, as señoritas estão em segurança - garantiu ainda. - Talvez não tenha sido boa ideia deixar que viessem connosco... - lamentou-se Jorge,algo inquieto. - Eu também achei isso, mas a sua irmã... 165
  • 166. Cartel Fantasma Alexandre Figueiredo - É verdade... - concordou Jorge - ...a Isabel é uma miúda muito teimosa, mas talvezseja por isso que consegue sempre aquilo que quer - sorriu-se o rapaz - Espero que elastenham conseguido convencer a polícia a aparecer, senão nada feito... - Estou certo que a sua irmã teve êxito!... - afiançou "Rosé" sorrindo muito segurodaquilo que dizia. - Espera!... - alertou Jorge alvoraçado - Onde é que vão aqueles gajos? - Algo se passa... - afirmou o companheiro, afastando alguns ramos para poder ter ummaior campo visual - Viu onde é que se enfiaram? - perguntou o estrangeiro, perdendo os ex-parceiros de vista. - Não, desapareceram sem deixar rasto... - concluiu Jorge, olhando em todas asdirecções. - Errado... - respondeu uma voz conhecida, afastando a folhagem dos arbustos -Estamos mesmo aqui!... - Não pode ser... - protestou o rapaz virando-se para trás incrédulo - Tu!? Outra vez... -acrescentou, reconhecendo Marco. - Venham! - ordenou com os habituais maus modos - Rápido! - insistiu, pontapeando"Rosé" que não parecia muito disposto em fazer-lhe a vontade. - Hijo de puta! Cabron! - vociferou o outro furioso. Os dois intrusos, foram então empurrados até à face oculta da pequena elevação. Jádo outro lado, uns quantos seguranças vigiavam atentamente a estrada que passavapróximo. Ao invés, mais ao fundo, Enrique e Cláudia observavam tranquilamente o mar. - Mierda!... - exclamou "Rosé" subitamente - Elas foram descobertas! - observoudesalentado, apontando para o grupo que acabava de dobrar o alto da colina. - Que lindo... - notou o desprezível sujeito do rabo-de-cavalo com à-vontade - ...umareunião de família! - Gaita! Isto está a complicar-se... - desabafou Jorge com o companheiro. - Desculpa a minha teimosia... - lamentou Isabel baixando humildemente a cabeça,esgueirando-se para junto do irmão - A polícia vem a caminho... - acrescentou entredentes,piscando o olho direito. - Enrique!... - chamou Marco - Enrique! - insistiu, chegando junto do líder - Olha quemnos veio visitar. O outro virou-se então para trás, fitando surpreendido o recém chegado grupo deprisioneiros. Em seguida trocou algumas palavras com o vassalo, certamente pedindo-lheexplicações. Os dois sujeitos conversaram ainda por mais alguns instantes, parecendodiscutir o que fazer dos intrusos. Por fim, Enrique fez um gesto para Marco que se apressou aconduzir o amo até ao local onde se encontrava o destemido grupo. 166
  • 167. artciencia.com (ISSN 1646-3463) Ano I ● Número Dois ● Fevereiro-Abril 2006 - Confesso que a tua persistência me começa a irritar seriamente - principiou com umaexpressão carrancuda - ...mas a tua sorte está prestes a terminar! - Poupa-me... - retorquiu Jorge com um ar insolente - ...esses discursos de gangsterde segunda já eu conheço dos filmes americanos! - Não abuses da minha paciência, fedelho... - ameaçou o malfeitor começando aperder a calma. - Não passas de um velho, ainda por cima paralítico... - continuou o rapaz insistindoem provocar o opositor - ...e a tua organização, ou melhor, desorganização mete água portodos os lados... - Talvez tenhas razão... - admitiu Enrique cabisbaixo, conseguindo controlar a sua ira -...na verdade, devo estar a amolecer, pois de contrário, há já muito que tinhas ido ter com osanjinhos!... - redarguiu o vil personagem com frieza - De facto, subestimei-te, ...demasiado,mas isso não acontecerá mais, verás como desta vez falo a sério... - Não tenhas tanta certeza disso... - argumentou "Rosé" serenamente, metendo-se naconversa. - Diz-me espertalhão... - teimou o perverso bandido - ...como pensas escapar desta? -questionou ainda com vaidade. Depois de estacionarem o automóvel, - Não tardarás muito a descobrir... - Não é muito boa ideia confiares nesse traidor... - prosseguiu Enrique Escobarreferindo-se ao seu ex-segurança - Talvez queiras saber como foi que descobrimos ondeestavas depois da tua brilhante fuga... - sugeriu o detestável sujeito com ironia - Foi graças aum brilhante plano aí do teu amigo "Rosé", que se lembrou de colocar um emissor no teurelógio... - Tretas... - vociferou Rita interrompendo o estrangeiro - Não acredito numa só palavrado que estás a dizer. - Porque não lhe perguntas... - Ele diz a verdade... - confirmou "Rosé" cabisbaixo, perante a expressão de desilusãoestampada no rosto dos cinco prisioneiros. - Enrique! - chamou Cláudia, descendo do alto da falésia - O barco vem aí... - dissedepois. - Óptimo!... - exclamou o outro com satisfação - Já não falta muito... - Señor! Señor! - interrompeu um dos seus homens descendo velozmente a pequenaelevação, correndo na direcção do amo - A polícia vem aí! - gritou ofegante. 167
  • 168. Cartel Fantasma Alexandre Figueiredo - O quê!? - exclamou Enrique surpreendido, ficando de súbito muito nervoso - Tens acerteza? - perguntou ainda. - Absoluta... - garantiu o indivíduo - E quase parece um exército... - acrescentou emseguida. - Filho da puta!... - berrou Cláudia, acertando com duas bofetadas em Jorge que sorriade felicidade - Que fazemos? - indagou, de cabeça perdida. - Traz esse para aqui! - exigiu Escobar apontando para Jorge - Dá-me essa pistola... -disse para Marco - Eu ainda não perdi! - concluiu, virando-se furioso para o jovem. No cume da pequena elevação, surgiram enfim os primeiros agentes da políciaportuguesa, de armas bem erguidas. Eram seguramente mais de trinta elementos, quecorriam velozmente na direcção do grupo de malfeitores. Porém, quando se encontravam já apoucos metros de distância, pararam, acedendo à ameaça de Enrique. - Se dão mais um passo, rebentou-lhe os miolos - ameaçou, apontando a arma queMarco lhe havia entregue instantes antes à nuca de Jorge. - Você não tem hipóteses, está completamente cercado - argumentou o comandantedas forças policiais - Entregue as armas imediatamente, e garantimos que será tratado comjustiça. - Não, nem pensar. Larguem as armas, e em troca liberto os miúdos, quando estiverem segurança. - Nada feito... - recomeçou o agente - Ordeno-lhe que se entregue de imediato, ouseremos obrigados a abrir fogo. - Desafio-o a fazê-lo - retorquiu Enrique sem perder o sangue-frio - Porém, se o fizereles vão começar a comer chumbo - avisou ainda. - Se resistir, só tem a perder - Pensa que estou a brincar? - questionou, encostando a pistola à cabeça de Jorge -Tem trinta segundos para decidir, ou me deixa partir, ou aqui o fedelho vai juntar-se aosantepassados... - findou, com cara de poucos amigos - Aconselho-o a não me pôr à prova... -acrescentou depois, algo impaciente. - Então, decidem-se ou não? - inquiriu Cláudia com autoridade - Será preciso tratar dasaúde ao nosso herói para compreenderem que não estamos a brincar? - Se não se entregarem imediatamente, abriremos fogo... - informou o comandante dapolícia. - Se é assim que querem... - redarguiu a rapariga pegando numa pistola - ...não énada de pessoal... - continuou, apontando a arma com frieza a Jorge - ...talvez se não fossestão teimoso pudéssemos ter tido qualquer coisa... 168
  • 169. artciencia.com (ISSN 1646-3463) Ano I ● Número Dois ● Fevereiro-Abril 2006 - Tem calma Cláudia... - ordenou Enrique desviando-lhe o braço - Não nosprecipitemos, se os matarmos agora eles atiram, é melhor negociarmos... - Cala-te, velho tonto, não sabes o que dizes... - respondeu a jovem desafiando o amo- Quem dá ordens sou eu... - Silêncio! - exigiu Enrique, erguendo-se miraculosamente da cadeira de rodas em quese encontrava sentado, e esbofeteando Cláudia - Não tolerarei outra brincadeira do género -advertiu com cara de poucos amigos. - Mas tu não és paralítico? - perguntou-se Jorge incrédulo. - Uma bela encenação, ...não? - questionou Enrique satisfeito pelo efeito causado -Agora nós menina... - prosseguiu, dirigindo-se severamente a Cláudia - O facto de seresminha sobrinha não te dá o privilégio de me desautorizares. Para teu bem, espero que nãorepitas a graça... - Ele é teu tio!? - perguntou o prisioneiro seguindo atentamente o desenrolar dodiálogo. - Esta organização é tanto minha como tua... - retorquiu a rapariga revoltada - ...sem aajuda do meu pai, jamais terias conseguido dar aquele golpe sozinho! - Não faças com que eu perca a calma... - preveniu Enrique, parecendo ter atingido olimite da sua paciência - Não passas de uma fedelha, por isso põe-te no teu lugar... - O meu pai não chegou onde chegou a negociar... - lembrou Cláudia teimosamente -...se for preciso eliminamo-los a todos... - Cala-te imediatamente! - ordenou Enrique, perdendo as estribeiras, agredindo ajovem com duas violentas bofetadas que a deitaram por terra - Quem manda sou eu! Se eudigo que negociamos, então negociamos... - Não Enrique, desta vez não... - retorquiu a destemida rapariga, apontando ao amo apistola que segurava na mão direita - Chegou a hora de reclamar aquilo que por direito mepertence... - prosseguiu totalmente fora de si preparando-se para disparar sobre o tio. - Tem calma Cláudia... - argumentou Enrique temendo pela vida - ...não faças nada deque te venhas a arrepender... - continuou algo transtornado - ...eu e o teu pai demos juntos ogolpe do século... - acrescentou com a voz trémula - ...roubámos um bilião de dólares aogoverno do México, e conseguimos enganar toda a gente - revelou enfim, com um ar triunfal -Isso não significa nada para ti? - Miguel Ângel Valdez, considere-se preso pelo crime de desvio de fundos do estadomexicano! - pronunciou Marco, apontando a sua arma à cabeça de Enrique - Alto! - gritouMarco aos companheiros - Polícia do México, ninguém se mexe! - ordenou com autoridade. - Chui, ...tu!? - indagou Jorge, cada vez mais confuso - Há qualquer coisa neste filmeque está ao contrário - observou com perspicácia - Não estás enganado? 169
  • 170. Cartel Fantasma Alexandre Figueiredo - Não, sou mesmo agente da polícia federal mexicana... - garantiu o outro rindo, - Hácinco anos que actuo como agente infiltrado na organização do nosso amigo EnriqueEscobar, que não é mais do que a reencarnação de Miguel Ângel Valdez, um ministromexicano, que ficou famoso por ter conseguido roubar um bilião e cem milhões de dólares aoestado mexicano, há quinze anos atrás. Há seis anos descobri-lhe a pista, e desde entãotenho tentado reunir provas da ligação entre Enrique Escobar e Miguel Ângel Valdez. Hojeconsegui a única que me faltava para o poder prender, a confissão do próprio... - concluiuMarco radiante. - Filho da puta! Como pudeste fazer-me isto! Traidor! - vociferou Cláudia desesperada,disparando contra o agente - Morre traidor! Morre! - berrou completamente descontrolada. Marco caiu desamparado no chão, ferido no ombro direito, em consequência dodisparo efectuado pela rapariga. Cláudia, apercebendo-se que não atingira Marcomortalmente, empunhou de novo a arma, tentando desta feita vingar-se do astuto agente.Jorge porém, conseguiu com um pontapé providencial desviar o braço da jovem, que poresse motivo falhou a pontaria. De súbito, ouviram-se dois disparos. Marco, mesmo ferido noombro direito, empunhou corajosamente a sua arma alvejando-a com uma bala certeira nopeito. A sedutora rapariga desequilibrou-se perigosamente em direcção ao enorme precipício."Rosé" ainda tentou socorrê-la, contudo chegou demasiado tarde, não conseguindo evitar aqueda de Cláudia. Jorge, Enrique, e dois outros seguranças, que de imediato se acercaramdo alto penhasco tiveram tempo apenas para ver o corpo da jovem ser rapidamente engolidopelas bravas ondas. - Não te devias ter metido fedelho... - gritou Enrique perdendo o controle - Agora vaispagá... Porém não terminou, pois no mesmo momento em que empunhou o seu revólver, foiatingido na perna esquerda por um disparo efectuado pelo comandante da políciaportuguesa, que havia aproveitado a confusão gerada em torno da revelação de Marco paradominar a maior parte dos homens do vil malfeitor. - Alto! - ordenou - Ninguém se mexe! - ordenou - Considerem-se todos detidos! ... Oito meses mais tarde... - Chegámos a pensar que se tinham perdido!... - exclamou Isabel, abrindo a porta dahabitação. 170
  • 171. artciencia.com (ISSN 1646-3463) Ano I ● Número Dois ● Fevereiro-Abril 2006 - Fui eu que pedi ao Jorge para ficarmos mais um pouco... - explicou Rita com umbrilho especial nos olhos - ...queria ver o pôr-do-sol com ele! É tão lindo... - acrescentouradiante. - Pois, pois, essa história já nós conhecemos... - retorquiu Sofia sorrindo - ...já ontemderam a mesma desculpa, "É tão lindo, que não resistimos a ficar mais um pouco!" - lembrou,imitando com uma expressão trocista a voz da colega. - Mas tu não imaginas... - defendeu-se ela - Só nós dois, sem ninguém num raio dequilómetros, é magnífico... - Venham mas é comer que eu estou cheia de fome... - refilou Joana do interior dacasa - Essa história já eu estou cansada de ouvir! - O que é o jantar? - questionou Jorge, tentando através do olfacto descobrir aresposta. - Ainda pensámos oferecer-te o jantar lá em baixo na Covilhã... - principiou Sofia. - Mas depois decidimos fazê-lo nós próprias... - continuou Joana, mantendo osuspense. - Bon apetit! - concluiu Isabel colocando sobre a mesa uma enorme travessa onde sepodia observar um convidativo Bacalhau com Natas. - Mas que óptima ideia... - aprovou o jovem, premiando cada uma das raparigas comum beijo de agradecimento. - Ah, é verdade... - interrompeu Isabel - O Marco e o "Rosé" telefonaram! - Ai sim!? - Sim... - confirmou ela - ...queriam enviar-te os parabéns pelo teu aniversário, ederam-me também o teu presente via telefone... - disse, fazendo uma breve pausa,continuando depois - O Enrique, ou melhor o senhor ministro Miguel Ângel Valdez foicondenado a cinco penas de prisão perpétua, e os todos os outros camaradas, apanharampelo menos vinte anos cada. O único que ficou em liberdade foi o "Rosé", porque colaboroucom a investigação, e contribuiu decisivamente para a conclusão do processo - revelou arapariga. - Óptimo! - exclamou Jorge radiante, não conseguindo conter a sua satisfação -Brindemos a isso - acrescentou, enchendo uma por uma as taças das companheiras. - À tua! - disseram em coro as quatro raparigas. - À nossa... - emendou ele prontamente - ...para que nos momentos menos bons nostenhamos uns aos outros! - À nossa... - completaram as convivas. - Toma... - disse Isabel, entregando ao irmão um envelope que lhe era destinado -...vieram levá-la à cerca de meia-hora. 171
  • 172. Cartel Fantasma Alexandre Figueiredo - Estranho, de quem será... - interrogou-se o aniversariante, abrindo cuidadosamenteo envelope - ...não tem qualquer remetente! - Queres que eu leia? - ofereceu-se Rita. - Está bem, pode ser... - concordou o namorado entregando-lhe o sobrescrito jáaberto, de onde ela retirou uma folha dobrada em quatro partes. - É uma carta bastante curta... - anunciou ela, observando o papel - ...tem apenascinco linhas... - Despacha-te - protestou Joana - Vá lá, quero jantar... - Ora cá vai, prestem atenção: "Espero que estejam todos bem, porque eu também estou, apesar de poderem pensar o contrário. Aproveito esta oportunidade para te desejar um óptimo aniversário, e porque não, um feliz dia para todos. Mil beijos Da vossa grande amiga: Cláudia. P.S. - Tenham cuidado convosco, pois nos dias que correm ninguém está seguro.” - Não pode ser ela... - Não é possível... - Filha da puta... - Afinal a cabra sobreviveu... FIM 172

×