Artigo "Retornados da Troika" (Jornal de Negócios)

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Carla António, investigadora do ITQB de 34 anos, é uma das portuguesas em destaque na edição de hoje da revista Weekend do Jornal de Negócios, no artigo intitulado «Os Retornados da Troika». São histórias de jovens que regressaram de livre vontade a Portugal – “um País ainda amarrado a uma intervenção externa, que reencontraram zangado, mais disposto a arriscar, metido num desaconchego”.

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Artigo "Retornados da Troika" (Jornal de Negócios)

  1. 1. OS RETORNADOS DA TROIKA MILIONÁRIOS DO CIMENTO RIBEIRO JOSÉ MANUEL FELIX ´ ´ SEXTA 16.05.14 A construção europeia é um desastre
  2. 2. Sexta-feira/16deMaiode2014/Negócios NOME: RICARDO CORREIA PROFISSÃO: ACTOR E ENCENADOR PAÍS DE EMIGRAÇÃO: INGLATERRA REGRESSO: JULHO 2013 Depois de uma temporada em Londres, sentiu esmorecer uma indignação que já “não sabe reconhecer contra quem é que se grita nas manifestações, que não sabe quem são os alvos”. 10 11 ANTÓNIO LARGUESA alarguesa@negocios.pt REPORTAGEM troika Os retornados da Pedro Elias Ouviram a família e os amigos questionarem a sua loucura porterem regressado de livre vontade a um País ainda amarrado a uma intervenção externa, que reencontraram zangado, mais disposto a arriscar, metido num desaconchego. Ei-los que voltam, “talvez não sejam uma minoria tão pequena”.
  3. 3. omasmalasdatroikacolocadasàporta deumasaída“limpa”,aemigraçãoficará para a história que se escreverá adiante comoumadasmaispesadasherançasda criseiniciadaem2008eprolongadanope- ríododeajustamentoemcurso.Enquanto osurtomigratórioteimaemcontinuaraen- grossarasfilasdosterminaisdepartidados aeroportos,opaísjácomeçouaabsorver umaminoria–queJoãoPeixoto,doObser- vatóriodaEmigraçãonotaque“talveznão sejaumaminoriatãopequena”.Sãoospri- meirosretornadosdatroika,quedecidiram delivreeespontâneavontaderecomeçaras vidasnesta“metrópole”quereencontra- ramzangadaedescrente,maisresponsável nascontasemetidanumdesaconchego.Ei- losquevoltam,numacontraversãoabusi- vadacantigausadaporManuelFreirepara retratarosquepartiramnosanos1960“buscandoasortenoutraspara- gens,noutrasaragens,entreoutrospovos”.Estesseisantigosemigrantes nãoregressaramricos,voltaramporigual“contandohistóriasládelon- ge”,todosouvindoosfamiliareseamigosaquestionaroslaivosmaisou menosprofundosdeloucuradessadecisão. OprocessoderepatriamentodeRitaRocha,35anos,acompanhouno tempoaqueleemquesediscutiuaentradadatroikaemPortugal–ochum- bodoPECIV,opedidodeajudaexterna,ademissãodeJoséSócrates,a convocaçãodeeleiçõesantecipadas,anegociaçãodoprogramaeacam- panhaeleitoralqueconduziuPassosePortasaopoder.EmMarçode2011, antecipandootérminodocursodefotografiaemCardiff,iniciouàdistân- ciaoscontactoseoenviodecurrículos.Econfirmou,aoconseguiruma vagacomoformadoranoInstitutoPortuguêsdeFotografia,adesconfian- çadeque,estudandonoestrangeiro,depois“teriamaisportasabertas”. FormadapelaAcademiaContemporâneadoEspectáculo,noPorto,par- tiuparaLondresem2004,quandoonegóciodaproduçãodeeventosar- tísticoscomeçavaafraquejareasCâmaras,porexemplo,demoravamjá novemesesapagar.Trêsanosdepois,querendoabraçarumhóbiquejá associavaaosespectáculoslondrinos,inscreveu-senocursoeempregou- -se,das17hàs23h,comorecepcionistadehotelnoPaísdeGales. “NãodesistinuncadePortugal,semprequisvoltar.Aspessoasdiziam- -me:‘tuésmaluca,istoestámuitodifícil,porqueregressas?!Masodinhei- ronãopagatudo.Queriaestarcomosmeuspais,queaminhafilhaesti- vessetambémcomosavós.Ehácoisasquenãosepagam:casajuntoda praia,estesol,osvegetaiseafrutasabemcompletamentediferente”,enu- meraajovemdaPóvoadeVarzim.Confessa“algumasorteetambémmé- rito”porque“nuncadissequenão”.Nemafazer“unsbiscatesmuitíssi- momalpagosemcasamentos,quemuitagenterejeitaria”,nema“iratodo olado”parasedaraconheceraomercadoeretomarumarededecontac- tosdiluídaemseisanosnoestrangeiro.Hojetemasuaprópriaempresa quefotografacasamentoseprodutodeclientes,comoaMatutano,além dedarformaçãoefazerfotografiadecena.Paraaemigraçãousaa“lente” daapreensão.“Osquesaemsãopessoascomcoragem,algumafinco,aque- lasdequemaisprecisávamosaqui:asquevãoàlutaequepodiamcomba- terpornós”,lamentaRitaRocha,queencontrousobretudo“maisdes- crença”aopôropéemPortugalquaseaomesmotempoqueatroika. “Noteinaspessoasalgumdesânimo,algumapreocupação.Mastam- bémquemuitasdelasagarraramoportunidades,oquesecalharnãoti- nhamfeitonoutraaltura,comumaforçamaiorpararecomeçardepois deperderemotrabalho,aseremmaispró-activoseaaproveitarosconhe- cimentosparacomeçaroutrotipodenegócios”,completaFranciscoMa- toseSilva,queregressouaPortugalemSetembrode2012,começouuma empresapequenacomamigose,antesdofinaldesseano,assumiuocar- godedirectordeexportaçãodoMontedaRavasqueira,projectovitiviní- colaalentejanocomgestãoeexploraçãodaSociedadeAgrícolaD.Diniz, ligadaháváriosanosàfamíliaJosédeMello.BaseadoemLisboa,com90% dosimportadoresdeorigemestrangeira,sãofrequentesasviagensdetra- balhoeainexistênciade“problemasdeadaptação”pelaexperiênciaacu- muladacomoestudantenaRepúblicaCheca,comoestagiárioemXangai (China)eemAngola,ondeestevetrêsanosatrabalharnodepartamento demarketingemediadaRefriango,amaiorempresadebebidasnãoal- coólicasdaquelepaísafricano. LicenciadoemGestãopelaNova,olisboetasublinhaqueavontadede serestabeleceremPortugalfoimaisfortedoqueacrisenomercadode trabalhoouaperdadasregaliasque,comoexpatriado,permitiamumes- tilodevidamaisfaustoso.“Mesmonãotendocondiçõesfinanceiraspara terumavidatãofácilcomoláfora,gerindobemodinheiroconsegue-se NOME: CARLA ANTÓNIO PROFISSÃO: CIENTISTA PAÍS DE EMIGRAÇÃO: ALEMANHA REGRESSO: MAIO 2013 Nos últimos tempos em Berlim começou a sentir a animosidade de colegas alemães, “que se viravam com atitudes estranhas, do género ‘a Alemanha não tem dinheiro para ti’”. >>> página 12 C Pedro Elias
  4. 4. Sexta-feira/16deMaiode2014/Negócios terumavidaboa.Emtermosprofissionaiscomeçamaaparecer maisoportunidades,éumaquestãodeasagarrarelutarporelas”, apontou,semmargemdearrependimento.Aos32anos,sóequa- cionariasairemdefinitivocomumapropostaeparaumpaísonde ficassebastantesanos–“nãoseriasópelaaventuradesairoutra vez”–,nãohesitandoemaconselharaexperiênciaaquemnuncaa teveerecordandooperfilaltamentequalificadodepartedosno- vosemigrantes,quetêm“mudadoaimagemdoportuguêsnoex- terior”. TOLERÂNCIA À FRUSTRAÇÃO Otemadaemigraçãoocupouodebatepolítico-partidáriopra- ticamenteduranteostrêsanosdeintervençãoexterna.Desdeos primeirosmeses,aofimdosquaisváriosmembrosdoGoverno “aconselharam”asaídadoPaís;atéaomomentorecentedoanún- ciode“saídalimpa”,queaJuventudeSocialista,atravésdosecre- tário-geral,JoãoTorres,considerou“umaViaVerdeparaaemi- graçãojovem”.Desde2008estima-sequeterãosaídopertode400 milportugueses,eumapartesignificativajánaeradatroika.Se- gundodadosdoINE,noanodopedidodoresgateabalaramquase 101milportugueses(pertode40%deformapermanente)eem 2012ototaldesaídassubiupara121mil,mantendo-seaproporção dosquedeclararamnãopretendervoltarnoespaçodeumano.Em númerosredondos:333portuguesesaemigraracadadia. “Quandooprimeiro-ministrodisseparaemigrarmosestavaa pensarnoscofresdoEstadoporqueémenosumproblema.Mas tambémnãoseperdenadaporqueocapitalhumanoestavainves- tidonoscentrosdeemprego”,ironizaCarlosRibeiro.Depoisdecin- co anos de experiência em projectos de desenvolvimento de “software”noestrangeiro,regressouacasa,emdefinitivo,noNa- talde2011,oprimeiroquetevepresentesenvenenadosdatroika debaixodopinheiro,sobretudoparaosfuncionáriospúblicos.Re- conhecendoqueháumanovageraçãoadaptadaaomercadodetra- balhoeuropeuqueestáaajudaramudaraimagemexternadePor- tugal–“chegueiaterpessoasadizer-me:‘ésoprimeiroportuguês queconheçoquenãofazprédios’”–,oengenheiroinformático,31 anos,consideraatesedoregressocomoutrasferramentaspara aplicarnopaísdeorigemcomo“umafaláciaporquepodemtrazer muitomaiscompetências,masnãotêmondeseencaixar”.Écom algumamágoaquefaladeumregressomovidopelaenergiadoamor –estácasadoháanoemeioeaprimeirafilhavainasceremJulho –,masemquetevedeassumiraderrotanoplanoprofissional.“Em Coimbratrabalheicomchefesmedíocreseemprojectosondese apostatudonaobtençãodefinanciamentoseuropeus,semqual- querrigornasuaexecução.Omaismarcantequeretirei[destafase] foiumprocessoemtribunalparatentarreaversaláriosematraso. Acriseapertoutantoemtermosfinanceirosqueavalorizaçãodo capitalhumanonãoexiste.Poucasempresasvalorizaramofacto deterestadofora,falarcincolínguasdiferentes,as‘softskills’não lhesdizemnada”,desabafa. Encaixanaperfeiçãonoperfildo“típico”portuguêsqualificado noestrangeiro,traçadonumestudorecenterealizadopelaconsul- toraHays:éjovem(metadeestáabaixodos35anos),dosexomas- culinoeemigrouhámenosdecincoanosparatrabalharnasáreas deengenharia,tecnologiasdeinformação,contabilidadeefinan- ças.Nahoradoregresso,CarlosRibeiroapercebeu-sedosefeitos doajustamentosalarialnoPaís(naNovabase,ondetrabalharaan- tes,propuseram-lheumsaláriomenoraoquerecebiaalitrêsanos antes)eemJaneirode2013decidiuabrirasuaprópriaempresa, 99%exportadora,poisprestaserviçosdeconsultoriaquaseemex- clusivoàúltimaempresaaqueesteveligadonaBélgica.“Sinto-me realizadotambémpatrioticamente.Abriraempresafoidarami- nhasegundahipóteseaoPaísparaveroqueacontece”.Daquiadois anosfaráumbalanço.Porém,reconhece,voltaraemigrar“depen- derámaisdeconseguirtirarafamíliadePortugal”doquedasua própriavontade. JáatolerânciadeCarlaAntónioesticaráatéaostrêsanosdeper- manênciaemPortugal,quefoioprazoqueestabeleceuparapoder teruma“verdadeiraopinião”sobrecomoestáacorreresteregres- so.Desistirantesdissoestáforadequestão.Tambémelaouviu,ain- daouve,muitoscolegasaquestionarestaopçãoquedeixousem- preemabertopela“vontadederegressar”.Quandolevantouvoo, em2004,deixouumPaísjáemcriseenaressacadoabandonode DurãoBarroso,querumouàpresidênciadaComissãoEuropeia. >>> página 11 12 13 REPORTAGEM NOME: FRANCISCO SILVA PROFISSÃO: GESTOR DE EXPORTAÇÃO PAÍS DE EMIGRAÇÃO: ANGOLA REGRESSO: SETEMBRO 2012 Ex-emigrante explica que, mesmo sem as condições financeiras de que dispõe um expatriado, “gerindo bem o dinheiro consegue- se ter aqui uma vida boa”. Sara Matos
  5. 5. Quandoaterrou,emMaiodoanopassado,encontrou“umPaísmui- tomaisdeprimido,aindamaisnegativo”.“Claroqueagoranãose compara:azangaécompletamentegeneralizadaeentristece-me passarporisso”,acrescentaaespecialistaemQuímicaAnalítica, ramoespectrometriademassa.Logoapósconcluirocurso,ainda nãohaviatroikanemreduçãodrásticadasbolsas,tevea“perfeita noção”dequeteriadesedeslocarparacontinuarnainvestigação científicaeabrirhorizontes.Foiseleccionadaparadoutoramento naUniversidadedeYork,noReinoUnido,ondeseapercebeuda faltadeequipamentodasuniversidadesportuguesas.Eraprema- turoregressarporque“tinhaapenasodoutoramento”etinhadese especializarmais.Mudou-seentãoparaPotsdam,àsportasdeBer- lim,parafazertrabalhodeinvestigaçãopós-doutoraleencontrar condiçõesdetopo.Nosúltimostempos,emvirtudedaimplícita “tensãopolíticaeeconómica”luso-germânica,começouasentir umcrescenteclimadeanimosidade.“Houvecolegasalemãesque seviravamparamimcomatitudesestranhas,dogénero‘aAlema- nhanãotemdinheiroparati’.Émuitodesagradávelterestassitua- çõesemambientedetrabalho”. Apósnoveanosdeinvestigaçãonoexterior,esentindo-se“mais preparadaparatransferirconhecimentoadquiridoacumuladono estrangeiro”,acientistade34anos,naturaldeCoimbra,concorreu àprimeiraediçãodoInvestigadorFCT,umconcursoquepermi- tiurecrutardoutoradoscomcontratosdecincoanosparainstitui- çõesportuguesas.Ouseja,eraumaestabilidadecontratualquenão conseguianemnaAlemanha,importanteparaseavançarnuma áreaeaoportunidadeparamatarassaudadesdePortugal.Concor- reuemMaiode2012,osresultadosdoconcursosaíramnofinaldes- seanoesóemAgostocomeçouatrabalharnoInstitutodeTecno- logiaQuímicaeBiológica(ITQB),emOeiras.“Todaagentemedis- se:‘Carla,habitua-teaosatrasos!’”.Eraoprimeiroembatecoma realidade,poisasverbassãoescassasparamontarolaboratório,os consumíveisnãochegamnodiaseguinte,osprojectosnãosãofi- nanciados,aescassezdebolsasafastouosalunosdedoutoramen- toquepodiamavançarconsigonainvestigação.“Quis-seatrairos melhores,massemoapoionecessárioémuitofrustrante.Temos deusarmuitaimaginação,sermuitotolerantesàfrustração”,sus- tentaCarlaAntónio,notandosertambémporissoqueosrespon- sáveisuniversitáriosbritânicos,porexemplo,reconhecemospor- tuguesescomo“investigadorespersistentes”. ESPAÇO E MARGEM PARA ARRISCAR JoãoPontes,29anos,tambémtinhaessereconhecimento.En- trounoateliêlogocomochefedeprojectoepreparava-separaas- sumiroutrasresponsabilidadesnumaobradegrandedimensão queoiriamprenderdemoradamenteàSuíça.Aofimdedoisanos emeiofora,voltouaPortugalemAbril.“Omeuobjectivonuncafoi ficarmuitotempofora,eramais[para]percebercomoéqueoses- critóriosdearquitecturafuncionamnoutrospaísesevercomoserá anossaformadetrabalhardaquiaalgunsanos.Éaquiqueeuque- roviver.Temmaisavercomrazõesemocionaiseculturais,deiden- tidadeaté,porquemeidentificocomaformadevidaemesintomais enraizadoaqui”,descreveodiscípulodareputadaescoladoPorto, cidadeondetrabalhoutrêsanosemoutrostantosescritóriosaté rumaràGenebraqueconheciadostemposdeErasmus.Eraaaltu- racríticatambémparamanterasconexõespessoaiseprofissionais antesdecaíremnobaúdoesquecimento.Einsiste:“Sabiaquese ficasselámaistrêsanosiaganharmais,masofactodeconseguir regressarantesdos30anos,teralgumespaçoparapodererrarees- taraexperimentarcáemPortugal,eraimportante”. Nãoestáaprocurartrabalhonumescritórioporqueossalários sãobaixoseissooimpediriadetentarconstruirumtrabalhomais independenteeconseguiroutrasoportunidades.Oobjectivoé,por- tanto,investirnumprojectopessoalcomalgunstrabalhosnoes- trangeiro,queobrigueapenasadeslocaçõespontuais.Poroutro lado,adecisãoderetornarescondeoutramotivação,queétambém um“tapetemuitogrande”enquantotentarestabeleceressabase detrabalho:ajudarospais(eaprendercomeles)nagestãodaEx- porgal,umaindústriademalhaseconfecções,sobretudoexporta- dora,instaladaemBarcelos.EstasprimeirassemanasnoMinho serviramparaseaperceberque,“deformageral,aspessoasestão muitomassacradasemoídascomestessacrifíciosporqueoPaís passou”eparasentir,aindaassim,queelas“achamqueafasemais difíciljápassoueháalgumânimoparacomeçarateralgumespa- çopararespirareparaqueaeconomiapossamelhorar”,oquedes- crevecomo“motivador”.Noutroplano,completaJoãoPontes, NOME: RITA ROCHA PROFISSÃO: FOTÓGRAFA PAÍS DE EMIGRAÇÃO: PAÍS DE GALES REGRESSO: JUNHO 2011 A jovem da Póvoa de Varzim argumenta que “há coisas que não se pagam: casa junto da praia, este sol, os vegetais e a fruta [que] sabem completamente diferente”, >>> página 14 Paulo Duarte
  6. 6. Sexta-feira/16deMaiode2014/Negócios 14 15 REPORTAGEM Com base nos dados do último recenseamento, um estudo mostrou que perto de 200 mil portugueses que tinham vivido mais de um ano no estrangeiro regressaram ao País entre 2001 e 2011. SE JÁ É DIFÍCIL CONTABILIZAR AS SAÍDAS DO PAÍS, mais difícil é controlar o fluxo dos regressos. No entanto, o membro do conselho científico do Observatório da Emigração, João Peixoto, acredita que “talvez não seja uma minoria assim tão pequena”. “A sensação que temos é que muitos desses movimentos são instáveis, de circulação, de vai-e-vem. Os próprios dados do Instituto Nacional de Estatística dizem que mais de metade das saídas são temporárias. Muito mais gente está envolvida em processos de saída e regresso do que pensamos. Mas a ordem de grandeza é impossível saber. Funcionamos muito na base das expectativas e ela é a de êxodo para sempre. O nosso pessimismo leva-nos a exagerar o fenómeno e pensar que há muita gente a sair e que ninguém volta. Há muitos a sair, claro, mas também muito mais pessoas a voltar do que pensamos”, apontou o investigador do Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG). Os inquéritos avulso realizados pelo Observatório vão mostrando uma disponibilidade “muito grande” dos emigrantes para o regresso, fazendo-o depender de encontrarem um bom emprego, com possibilidade de progressão na carreira. Ou seja, “aquele que não se cria de um dia para o outro”. Aliás, grande parte das pessoas que estão a sair de Portugal estavam empregadas, mas tinham um baixo salário ou contratos precários, saindo precisamente por essa “falta de perspectivas”. Um projecto em que João Peixoto esteve envolvido encontrou, no último recenseamento, mais de 200 mil portugueses que tinham vivido mais de um ano no exterior e que regressaram entre 2001 e 2011, em particular de países como Espanha, Reino Unido e Angola. Não se trata de emigração temporária e “dá a ideia de que estas migração são hoje muito mais instáveis do que no passado”, concluiu o professor universitário. De 2011 para cá, desde a entrada da troika, “é impossível saber” qual foi a evolução. Já do lado das saídas é o valor declarado pelo INE referente a 2012 – mais de 120 mil, entre temporários e permanentes – que passou a servir de referencial no debate público. “Os números hoje aproximam-se preocupantemente daqueles dos anos 1960. Desse ponto de vista da dimensão, temos razões para estar preocupados. (...) No pós-troika, mantendo-se as tendências, o nosso dramatismo passa a justificar-se. Se voltarmos ao antes da troika, com um padrão misto de entradas e saídas, a situação não nos obriga a ser tão dramáticos”, sublinhou o membro do Observatório. E aqui joga- se muito novamente no campo das expectativas. “Os números actuais são grandes, mas não são uma grande revolução nos dados migratórios do País. Sempre existiram saídas, durante muitos anos não nos preocupamos. No final dos anos 1980 tivemos um padrão de emigração muito severo, que não foi encarado como um grande problema porque tínhamos um grande optimismo com a entrada na União Europeia. Não foi avaliado de uma forma tão dramática como hoje e isso tem a ver com as nossas expectativas face ao futuro”. Mais: a “grande ideia” de que a maioria de saídas são de licenciados “não é verdade”. É certo que têm um peso significativo e há agora mais a sair – Portugal também forma muito mais do que no passado –, mas estão longe de ser a maioria. No Reino Unido, o país da Europa para onde se estima que vão mais portugueses altamente qualificados, “apenas” um terço tem o Ensino Superior completo. Em termos geográficos, é para o Velho Continente que dois em cada três portugueses continuam a emigrar, embora depois da grande recessão de 2008 e 2009 (que desacelerou as saídas), tenha havido uma recomposição. O caso espanhol é paradigmático: saiu do radar. Assiste-se então, também neste aspecto, ao início de uma Europa a duas velocidades, com a emergência daqueles que saíram da crise com menos debilidades e conseguiram atrair mais estrangeiros, como o Reino Unido, Alemanha, Suíça ou Holanda. Na batalha entre os que dramatizam os efeitos deste surto migratório e os que apontam as suas virtualidades, João Peixoto responde que a maior diferença está na abordagem de curto ou médio prazo, em que se colocarão questões como a sustentabilidade da Segurança Social. “As saídas não são dramáticas à priori. Todos queremos que os nossos filhos tenham uma experiência no estrangeiro. Ter uma população cosmopolita é bom e ser uma sociedade aberta, em que uns saem e outros entram, é das melhores coisas que Portugal tem. Mas, do ponto de vista das políticas públicas, há que gerir os fluxos para não serem desequilibrados”, resumiu. É que a imigração laboral afundou, não voltará ao volume do passado e na próxima expansão terá uma natureza de talento “desejavelmente diferente”. AL “Há muito mais pessoas a voltar do que pensamos” NOME: CARLOS RIBEIRO PROFISSÃO: ENGENHEIRO INFORMÁTICO PAÍS DE EMIGRAÇÃO: BÉLGICA REGRESSO: DEZEMBRO 2011 No centro da Europa chegaram-lhe a dizer que era o primeiro português que conheciam que “não faz prédios”. No regresso abriu uma empresa para “dar uma segunda hipótese ao País”.
  7. 7. “houveumdespertardeconsciênciamuitograndeparaanecessi- dadedehaverummaiorrigornagestãodascontasatodososníveis, desdeasidasaosupermercadoameterem-seemaventurascomo acompradeumcarrooudeumacasa,têmumanoçãomaiscom- pletadoqueissoexigedapartedeles”. Adesignada“fugadecérebros”éumfenómenoquedeveráman- ter-seduranteesteano.Pelomenoséissoqueindiciavaaelevada percentagem(80%)detrabalhadoresque,noestudo“GuiadoMer- cadoLaboral2014”,publicadopelaHaysemJaneiro,semostra- ramdisponíveispararumaraoestrangeiroAlargadistânciadaAmé- ricadoNorte,quesurgeemsegundolugar,aEuropacontinuaafi- gurarcomoodestinomaisdesejadoparaumaexperiênciainter- nacional.Valorizamaproximidadecultural,masnegligenciama questãolinguística,jáqueapenas19%dápreferênciaapaísesde expressãoportuguesa.Noentanto,sesãomuitososquequeremir parafora,percentualmentesãoquasetantos(71%)osemigrantes qualificadosquepretendemvoltar.Apesardeopacotesalarialea possibilidadedeparticiparemprojectosdesafiantesconstaremdo “top3”,ofactorquemaisinfluenciariaoregresso,invocadopor maisdemetadedeles,édeordememocional:“avontadedeviver emPortugal”. CONSTRUIR AQUI CAMINHO Foiprecisamentea“muitavontadedevoltar”,por“acharque tambémsepodeconstruiraquicaminho”,quedevolveuRicardo CorreiaàLusa-Atenas.Poucosdiasdepoisdeaterrar,emJulhode 2013,voltouaserconvidadoparadaraulasdeteatro,interpreta- çãoedramaturgianumcolégioeumprojectodeintervençãonuma licenciaturaemTeatroeEducação.“Parecequeiresláparaforare- frescaamemóriadaspessoas”,atestaoactoreencenador,36anos, formadoemCiênciasdaEducaçãopelaUniversidadedoMinho. Quenumaalturaemque“estavaumbocadinhosemchão”,porrei- naremasdúvidassobreasvagasparadaraulaseofinanciamento públicoàCultura,sentiua“lufadadearfresco”deumabolsada FundaçãoCalousteGulbenkianparaestudarnaconceituada“Lon- donInternationalSchoolofPerformingArts”(LISPA),quelheper- mitiuestarnacapitalbritânicanaqueleespaçodecruzamentode pessoaseculturas,numaturmacom17nacionalidadesdiferentes, einvestirtambémnaformaçãoprofissional.Estevesempreapra- zo,andouno“vai-não-vai”,acabouporregressardepoisdesaber tambémqueaCasadaEsquina,aassociaçãoculturalquelidera,re- ceberaumapoiofinanceirodaDirecção-geraldasArtes. Assuascondiçõesestãomaisendireitadasapósaemigraçãotem- porária,masnãosentequeas“coisas”melhoraram,confessaser “difícilviveràbeiradaspessoasquandoelasnãoestãobem”.Cho- raumaapatiageneralizada,umesmorecimentodopovonaforma comoestáaexpressarasuaindignaçãocomoqueseestáapassar, o“nãosaberreconhecercontraqueméquenósandamosagritar nasmanifestações,nãosaberquemsãoosalvos”.Daherançades- satemporadanoestrangeiro,queconfessajáterchegadotardena sualinhadevida,ficaramasredesdecontactoquejátrouxeramum austríacoparadarum“workshop”emCoimbraequelevaráRicar- doàterradeSchuberteStraussparaumprojectodecriação. Etambémapeça“OmeuPaíséoqueomarnãoquer”,emque registaráasfrustrações,aspiraçõeseligaçõesàpátriadedezenas dejovensportuguesesempurradosparaum“exílio”noestrangei- ro,deondenãoconseguemregressar.Apartireduranteasuapró- priaexperiênciaemLondres,oencenadorarroloutestemunhosde umdramaqueanteserainvisíveleagoracomeçaaserdosfilhose dosamigos.“Étudomuitoempírico.Querocontaraminhahistó- riaeadosoutrosqueencontreiláequenosúltimostrêsanos,de- vidoàausteridade,saíramparaestudaroutrabalhar,queremre- gressarenãotêmnadaàesperaemPortugal”.Aestreiadestees- pectáculoperformativoestáagendadaparaofinaldeSetembro, emCoimbra,numatemporadadetrêssemanas,partindodepois paraalgunsfestivaisdeteatro,porserumarealidadepróximapara cadavezmaisgente.Eatépodecabernumacirculaçãointernacio- nal,perspectivouRicardoCorreia,queencontroureflexosdesta “geraçãosacrificada”nosamigosespanhóis,italianos,gregosefran- ceses.“Aminhaterraéumagrandeestrada/quepõeapedraentre ohomemeamulher/Ohomemvendeavidaevergasobaenxada /Omeupaíséoqueomarnãoquer”,escreveuRuyBelonopoema “Morteaomeiodia”,queinspirouotítulodapeçaedescreve“um bocadinhodessaamargura”intemporaldeestarlongedecasa. >>> página 13 NOME: JOÃO PONTES PROFISSÃO: ARQUITECTO PAÍS DE EMIGRAÇÃO: SUÍÇA REGRESSO: ABRIL 2014 “Razões emocionais e culturais, de identidade até”, fizeram-no trocar um atelier de Genebra pelo trabalho independente na arquitectura e pela ajuda aos pais na gestão da empresa têxtil. Paulo Duarte

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