O Velório I (Sobre a percepção da realidade)

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O Velório I (Sobre a percepção da realidade)

  1. 1. 1O Velório I: Sobre a Percepção da RealidadeJOÃO VICTOR SOARES SANTOSA sala era envolvida por uma carregada atmosfera enquanto o corpo de Simão eravelado. Algumas pessoas – como de costume – não aceitavam o fato de que Simão haviapartido para uma melhor, enquanto outros pareciam um pouco mais conformados e volta emeia ouviam-se algumas risadas baixinhas na porta da casa que, a partir daquele dia,nunca mais seria a mesma.Alguns amigos da família apareceram aos poucos para o velório, enquanto Jeane,mãe de Simão, desfalecia em lágrimas, acariciando os cabelos de seu filho e implorandopara que ele voltasse. Uma cena que poucos conseguiram ver sem lacrimejar. EnquantoJeane chorava, seu marido estava encostado na parede da cozinha, sem qualquercompanhia, fitando a geladeira, ele queria mais uma.O corpo havia chegado a casa por volta das 19 horas, agora o relógio marcara emtorno de 2:45. Jeane ainda não havia secado suas lágrimas ou sequer saído do lugar,continuava acariciando os cabelos de seu filho sem aceitar que era a última vez que elaestivera fazendo isso. Algumas pessoas tentavam consolar Jeane, que ignorava qualquerpalavra de conforto, afinal, a morte de seu filho não foi das mais compreensivas, diziam asmás línguas que ele havia gritado por horas antes de falecer, chegando a implorar paraque alguém o matasse. O quarto de Simão permanecera intacto desde que ele se mudouda cidade para se tratar em um médico especialista. A cidade onde ele morava nãooferecia uma estrutura adequada para as necessidades que ele possuía, mas nem umametrópole conseguiu resolver o problema de Simão. Agora ele estava no caixão esperandopara ser enterrado, onde quer que ele estivesse.Jeane parou de chorar por alguns minutos, aproveitando o tempo, uma amiga delonga data da família, que inclusive havia estudado com Jeane o ensino médio seaproximou lentamente, com feições de quem não fazia a menor ideia do que estavafazendo.– Você não quer descansar um pouco? – disse Simone, calma e lentamente.– Eu quero morrer. – a voz de Jeane mal passava por suas pregas vocais, elaestava definitivamente exausta.– Não diga isso. Há pessoas aqui que precisam de você.– Pois eu não preciso de mais ninguém.Obviamente, Jeane permanecia inconsolável, sem rumo.
  2. 2. 2– Descanse um pouco, minha amiga. Tome um banho e durma por algumas horas,ainda estaremos aqui quando você voltar.Jeane queria recusar, mas estava suficientemente cansada para sequer conseguirdeclinar o pedido com a cabeça, então se levantou lentamente e uma leve tontura a fezcambalear para o lado, fazendo com que se debruçasse nos braços de sua amiga,aproveitou o abraço que ainda não havia recebido de ninguém para secar as lágrimas queainda lhe faltavam extrair.– Eu não vou conseguir viver sem meu filho...– Vai sim, Jeane. Estamos com você nessa. Agora descanse um pouco.Jeane se deslocou até a cozinha para tomar um pouco d’água e se deparou comseu marido encostado na parede, ainda sem tirar os olhos da geladeira. Não demorou paraque Jeane percebesse no que José estava pensando.– Nem pense nisso. – disse Jeane.– Ele me pediu para fazer. – os olhos de José estavam à beira de desmoronar emlágrimas.– Não quero saber o que ele lhe pediu, não vou aceitar que você arrisque a vida demais ninguém por causa dessa merda.– Você não tem que decidir nada por mim.– Tudo bem, faça como quiser, mate mais algumas pessoas por diversão e depoisfique bêbado no velório delas.Jeane virou as costas para se dirigir ao quarto, José a segurou pelo braço e a virou,encarando-a, Jeane, por um instante, pensou estar olhando para Simão, – os dois erammuito parecidos – mas logo após olhar nos olhos de José, caiu em si. Nunca havia vistotanto remorso em apenas um olhar durante toda sua vida. Agora as lágrimas arrastavam-se flamejantes sobre a face de José e ele não as quisera controlar. Não mais.– Você acha que eu gosto disso? – José tinha agora estampado em sua face todosos seus pecados remoídos sobre sua consciência que agora pesava mais do que elepoderia aguentar.– Não sei, e não me importo.– Não adianta mais chorar por isso, ele não vai voltar!No fundo, Jeane sabia disso, mas ainda ninguém havia lhe dito. Agora era mesmouma realidade, Simão nunca mais voltaria, e ela não estava disposta a aceitar esse fato.– Me solta, José! Quero dormir um pouco...
  3. 3. 3– Tenha cuidado Jeane, você nunca sabe quando pode acordar de um sonoprofundo.Jeane não deu a mínima importância para o que José lhe falou, na verdade, sequerfez sentido. Seus passos batiam no assoalho, lentos e deprimentes, ao passar novamentepela sala onde Simão estava sendo velado, olhou em um relance um jornal que pareciavelho e datava o dia 31/12/96. Jeane então, sem pensar qualquer coisa, continuouandando e passou a sala onde ocorria o velório como se estivesse vazia, não olhou paraninguém, apenas passou, como um fantasma de carne e osso.Abriu a porta de seu quarto, que agora parecia um templo de repouso, Jeane seencontrara tão cansada naquele dia que mal conseguia andar em passos lentos semquase desabar no chão. Aos poucos, conseguia se aproximar de sua cama, seus olhos jáestavam fechando-se sozinhos, o sono parecia proporcionar um efeito retardante e a visãode Jeane começara a confundir realidade com sonho. Deitou-se. Encostou a cabeça notravesseiro e um segundo depois de fechar os olhos já caíra em sono profundo.Um sono tão profundo capaz de separar as memórias de Jeane e colidir o querestava de sua sanidade com o início de uma loucura.O sol bateu levemente em seu rosto. Os pássaros cantavam suas melodias quenaquele dia pareciam especialmente melancólicas. As árvores sopravam suas folhas deoutono que formavam uma paisagem cinematográfica de manhã perfeita e céu azul.Jeane acordou. Seus olhos estavam secos, mas ainda estavam inchados e escuros.Alguns segundos depois da inconsciência, Jeane lembrou-se de onde estava, e o quehavia acabado de acontecer. Rapidamente levantou-se da cama e já preparara os olhospara continuar a chorar a morte de seu filho, mas ao chegar à sala e vê-la vazia, pensouainda estar sonhando. Aquela cena que acabara de ver se encaixaria em uma manhãqualquer, mas não naquela manhã. Dirigiu-se novamente ao quarto para ver se estavamorta ou algo parecido, mas a única coisa que havia perdido era que seu marido estavadeitado ao seu lado todo o tempo em que ela havia dormido. “Estou sonhando, só possoestar sonhando.” Jeane não aceitava a manhã absolutamente cotidiana na qual estavavivendo naquele instante. Fitou José por alguns segundos, desmaiado na cama em sonopesado. Decidiu não acordá-lo.Tentando recapitular a noite anterior, esforçava-se para lembrar se aquele sol deoutono seria comum, tentou lembrar se no dia anterior ela vira folhas caindo pelo chão,depois refez cada passo de seu dia para saber se havia chovido, mas de nada se lembrou.Porém, Jeane tinha certeza de que alguma coisa não estava certa, além do fato de que
  4. 4. 4sua sala estava completamente vazia ao passo em que um corpo deveria estar sendovelado ali. Arrastou os olhos pela parede da sala procurando o relógio japonês que elahavia ganhado de casamento, os ponteiros marcavam exatas 7:12 da manhã, em umrelance insignificante de memória constatou que havia dormido aproximadamente 4 horascontando uns 15 minutos que se passaram após ela olhar no relógio pela última vezdurante o velório de seu filho.Uma lembrança nítida explodiu na memória de Jeane. Na noite anterior ela haviavisto um jornal que datava o mês de dezembro, logo, não poderia ser outono. Agora elatinha certeza, estava sonhando. Se deu alguns beliscos para acordar, mas doeu mais doque ela imaginara, e não acordou, nem sequer mudou de lugar ou ambiente. Tudo estavamuito real para ser um sonho, e Jeane começara a se preocupar com aquilo.A única forma de constatar o que estava acontecendo seria olhar outro jornal, umatual, daquela manhã. Sem pensar muito nas roupas que estava vestindo ou na situaçãoem que se encontrava seu cabelo, Jeane correu para fora para apanhar o jornal do dia, aocorrer pelo jardim até o portão, ela se lembrou de que poderia estar parecendo umfantasma de roupas pretas e sombra borrada, apanhou o jornal do chão da calçadarapidamente e voltou em passos rápidos para casa sem checar a data do jornal. Correupara o espelho e teve mais uma surpresa, seu cabelo estava solto e liso, e ela vestia umacamisola de dormir que até ontem ela não tinha em seu guarda-roupa. Por um momentoconsiderou a possibilidade de estar enlouquecendo, mas depois a descartou, pensando serridículo que alguma coisa desse tipo estivesse acontecendo sem que ela ao menospercebesse algo de estranho – exceto a manhã de outono em pleno verão.Lembrou-se do jornal. E por um instante desejou não ter se lembrado. A data dojornal era do dia 20/05/99. Agora estar louca não era algo tão descartável quanto haviapensado há alguns segundos, a menos que ela tivesse dormido por três anos sem se darconta. Pelo menos a manhã de outono já estava explicada. Jeane não viu outra opção senão acordar seu marido, mas um pressentimento ruim a tomou por completo por algunssegundos, depois se foi como se nunca tivesse existido. Uma estranha calmaria seestendia pelos corredores e cômodos da grande casa, Jeane até se esquecera por brevesmomentos de que seu filho havia morrido um dia antes.– Acorde! José! Acorde! – disse Jeane, estapeando levemente o braço de José paraque ele acordasse.
  5. 5. 5Aos poucos José ia despertando de um sono que parecia ter sido absolutamenterestaurador. Enquanto Jeane desesperava-se aos poucos por aparentemente estar nolugar, dia e ano errado.– O que você quer? – disse José por entre os lábios grudentos de saliva matinal.– Tem alguma coisa errada por aqui! Eu não estou entendendo nada!– O que é que está errado, Jeane?– Eu não sei! Preciso que você acorde e veja com seus próprios olhos!Já quase completamente despertado, José esfregou os olhos grudados de ramela,piscou duro por duas vezes e arregalou-os olhando para o rosto de Jeane. Parecia estarem outra órbita procurando por alguma coisa estranha que fosse motivo suficiente paraque Jeane o acordasse daquela maneira. Levantou-se e sentou na cama.– O que é que está errado? Cadê?– Vá até a sala e veja!O propósito de Jeane era que José se assustasse com a sala vazia, mas,previsivelmente, não foi o que aconteceu. José voltou irritado.– O que é que tem na sala, mulher? Está como sempre foi!– Como assim? Ontem mesmo velamos nosso filho e cadê todo mundo?José arregalou os olhos, mais do que faz quando acorda.– De que diabos você está falando? – Seu tom era o clássico tom que se usaquando estamos reagindo a um absurdo que acabamos de ouvir.A expressão de Jeane enrijeceu e permaneceu imóvel por breves – porém longos –cinco segundos. José se aproximou lentamente, sentou ao lado de sua mulher na cama ea abraçou, agora falara como se estivesse a consolando.– Não se preocupe meu amor, você vai superar isso, eu estou com você.Jeane estava há um passo de aceitar sua loucura e se jogar de um penhasco.– Como isso pode estar acontecendo? Eu não me lembro de nada! – Jeane agoratentava entender aos poucos o motivo de sua insanidade controlada.– Mas o que é que está acontecendo? Não estou entendendo.– O que fizemos ontem? Eu não me lembro, pra mim ontem foi o dia em que Simãomorreu. Meus olhos ainda estão inchados!José agora olhava para Jeane como se entendesse o que ela estava passando.– Jeane. Você chorou dormindo esta noite.– O que? – disse Jeane, surpresa por ter confundido realidade com sonho, ou vice-versa.
  6. 6. 6– Nosso filho morreu há anos, querida. Você deve ter sonhado com isso.Ao primeiro instante, a última coisa que Jeane faria naquele momento era aceitar oque José lhe dizia, e obviamente não foi o que ela fez.– Não! – falou com volume de voz mais alto que o de costume. – Eu não sonhei! Eusó posso estar sonhando agora! Eu me lembro muito bem que aquilo não foi um sonho!– Querida, eu sinto muito.Em um impulso, Jeane levantou da cama ao mesmo tempo em que lágrimascomeçaram a cair de seus olhos, virou-se já de pé para José e agora gritavadesesperadamente.– Não! Você não sente muito! Por que é que está mentindo pra mim? Que tipo debrincadeira é essa?– Acalme-se Jeane.Jeane seguiu para o lado oposto do conselho de José e agora estava mais histéricado que nunca.– Não me mande me acalmar! Não vou me acalmar! Eu quero ver meu filho agora!– Pare com isso Jeane, nosso filho já se foi! Ele não vai mais voltar!José sentiu na alma a bofetada que levou no rosto, como se Jeane estivessecansada de ouvir aquela frase.– Não me diga isso! Nunca mais repita isso! Estou cansada de você ficar medizendo coisas que eu já sei! – Jeane se retirou do quarto em meio a passos rápidos elágrimas de dor. Os olhos de José refletiam um cansaço de repetição. José levantou-sevagarosamente e discou um número no telefone, que ficava em cima do criado mudo, aolado da cama.– Alô?... O Rodrigo está?... Obrigado. – José aguardou na linha. Seus pés batiam nochão em ritmo acelerado de desespero. – Alô? Rodrigo?... Tudo péssimo, Jeane estátendo outra recaída... Será que vai funcionar?... Tudo bem, vou fazer. Tchau.José desligou o telefone e dirigiu-se até a sala rapidamente para encontrar Jeane.Levou um susto ao vê-la portando uma faca de açougueiro em mãos, aproximando-a deseu pescoço. Gritou em um impulso de desespero:– Não faça isso!Jeane olhou para trás e, em poucas frações de segundo, José correu ao seuencontro e tirou a faca de suas mãos. Jeane ajoelhou-se e chorou.– O que está acontecendo comigo, José?– Se acalme Jeane. Vou leva-la a um lugar que vai te fazer melhorar.
  7. 7. 7– Que lugar é esse? Um hospício?– Não, fique tranquila. Iremos voltar pra casa juntos, ainda hoje.José estendeu a mão para Jeane, que a pegou e levantou-se do chão. Os doiscaminharam abraçados, mais uma vez, sendo protegidos pelo sol, rumo ao cemitério.

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