Successfully reported this slideshow.

Huberto Rohden - Novos Rumos para a Educação

888 views

Published on

  • Be the first to comment

  • Be the first to like this

Huberto Rohden - Novos Rumos para a Educação

  1. 1. HUBERTO ROHDENNOVOS RUMOS PARA A EDUCAÇÃO UNIVERSALISMO
  2. 2. ADVERTÊNCIAA substituição da tradicional palavra latina crear pelo neologismo moderno criaré aceitável em nível de cultura primária, porque favorece a alfabetização edispensa esforço mental – mas não é aceitável em nível de cultura superior,porque deturpa o pensamento.Crear é a manifestação da Essência em forma de existência – criar é atransição de uma existência para outra existência.O Poder Infinito é o creador do Universo – um fazendeiro é criador de gado.Há entre os homens gênios creadores, embora não sejam talvez criadores.A conhecida lei de Lavoisier diz que “na natureza nada se crea e nada seaniquila, tudo se transforma”, se grafarmos “nada se crea”, esta lei está certamas se escrevermos “nada se cria”, ela resulta totalmente falsa.Por isto, preferimos a verdade e clareza do pensamento a quaisquerconvenções acadêmicas.
  3. 3. PREFÁCIO DO EDITOR PARA A QUARTA EDIÇÃONo início do primeiro capítulo deste livro, o autor faz esta corajosa afirmação:“O problema máximo da época é, sem dúvida, o da educação da infância, dajuventude – e também de adultos”.Embora esse dramático brado de alerta tenha sido proferido há quase quatrodécadas, o problema ainda não foi solucionado. Embora tenha havidosignificativos avanços, o problema da educação, em todos os seus níveis,continua aguardando solução.Este é um dos motivos que nos levaram a relançar Novos Rumos para aEducação – O caso de uma ideologia decrépita – Alvorada de uma filosofiadinâmica –, de autoria do filósofo e educador, professor Huberto Rohden. Hávários anos esgotada, a editora tem recebido cobrança editorial, por muitosdaqueles que tiveram, de uma ou de outra maneira, contato com esta poderosamensagem educacional.Atendendo a pedido de educadores, pedagogos, professores de todos osgraus, críticos e leitores, estamos relançando, em 4- edição, esta pequenaobra-prima da literatura pedagógica.A origem da obra é uma série de conferências que o autor deu em 1958, noauditório do Ministério da Educação, do Rio de Janeiro, sobre Educação eCosmocracia Mundial.Rohden não apresenta um programa de educação construído nos modelostradicionais. Seu enfoque é mais dirigido à educação individual do ser humano.Sua abordagem está centrada no conceito de autoconhecimento e auto-realização. Ele faz esta advertência: “Este livro trata de assuntos um tantoremotos e ignotos – focaliza um novo tipo de educação e um novo regimesocial. É, pois, óbvio que não se trata de um livro de leitura fácil e rápida, massim de um estudo que exige compreensão e penetração”.Novos Rumos para a Educação é obra gêmea de outro livro de Rohden –Educação do Homem Integral, escrito em 1972, e publicado, em váriasedições, por esta editora.Huberto Rohden, como filósofo e educador, com larga experiência educacionalem universidades internacionais e brasileiras, conhecia profundamente o
  4. 4. problema da educação mundial. Aliás, toda a sua obra como escritor e mestreespiritual está voltada para a educação do ser humano.No final deste livro, como texto complementar, publicamos a última entrevistapública que o professor Huberto Rohden concedeu ao jornalista José ÍtaloStelle, e posteriormente impressa na revista Visão de 9 de fevereiro de 1981,cujo assunto e título – Educação da Consciência – são altamente convergentescom a mensagem deste livro. O Editor.
  5. 5. PERSPECTIVASDurante o ano de 1958 realizei uma série de conferências, no auditório doMinistério da Educação, do Rio de Janeiro, sobre o tema “Novos Rumos para aEducação”. No ano subsequente discorri largamente, no mesmo local, sobre oproblema “Cosmocracia Mundial”. Fiz ver, nessas duas séries de elucidaçõesético-filosóficas, que o Brasil, como o mundo em geral, se acha na linhadivisória entre duas eras evolutivas de grandes consequências, e que osmentores das futuras gerações devem preparar-se devidamente para a missãode orientarem com segurança os homens de amanhã.Essa nova forma de democracia – que costumo denominar “cosmocracia” –não será o produto de uma revolução externa, mas sim de uma evoluçãointerna; não serão as armas, mas as almas que decidirão sobre os novosrumos que o Brasil e a humanidade vão tomar. Necessitamos não de uma novaciência social, mas sim de uma nova consciência individual, que projete osseus efeitos sobre o plano da sociedade.É matematicamente impossível que a sociedade seja melhor do que a somatotal dos indivíduos que a compõem, porque aquela não é senão o compostodestes componentes. É uma utopia pueril querer reformar a sociedade semregenerar os indivíduos.A nova forma de democracia que está para vir, a cosmocracia, é impossívelsem um novo conceito de educação.Mas é precisamente aqui que surge o grande problema...Como realizar essa nova educação? Será suficiente elaborar e promulgar umnovo programa educacional – feito, possivelmente, por uma comissão detécnicos nomeada ad hoc? Programa com tantos artigos e tantos parágrafos?Será suficiente dotar a sociedade de novo estatuto jurídico, social, moral?Muitos dentre nós julgam, de fato, que o mal esteja na deficiência de estatutose programas, e que, se estes fossem melhorados, teríamos um Brasil melhor,um mundo mais feliz.Longe de querermos negar a necessidade de melhores programas e técnicaseducacionais, confessamos explicitamente que disto temos urgentenecessidade... Negamos, todavia, e com toda a veemência, que isto resolva oproblema central. O melhor dos programas não funciona quando entregue a um
  6. 6. homem, ou a um grupo de homens, que não sejam internamente bons,profundamente verdadeiros, realmente “desegoficados” e genuinamentecrísticos. A sociedade será tão boa ou tão má como os melhores ou pioresindivíduos que a constituírem.Ser bom não que dizer possuir um verniz de honestidade legal ou umareputação cívica imaculada. É possível que um homem seja um cidadão 100%honesto, perante a lei, e, apesar disto, 0% bom, perante Deus e a consciência.Ser internamente mau e externamente bom são coisas perfeitamentecompatíveis em face da nossa decantada “civilização cristã ocidental”.De intimis non curat praetor, diziam os antigos romanos – com as coisasinternas não se preocupa o magistrado. Quando um funcionário público cumpreas obrigações do seu ofício, é ele considerado honesto, quer dizer, legal ejuridicamente inatacável – mas é possível que seja humanamente mau. O foroexterno não coincide, necessariamente, com o foro interno. A lei cogitadaquele – mas a educação tem que ver com este.E é aqui que se bifurcam os caminhos entre simples instrução e verdadeiraeducação.O que, hoje em dia, se chama educação é, quase sempre, mera instrução.A instrução se refere aos objetos.A educação visa o sujeito.É, certamente, necessário que o homem seja instruído – mas não é suficiente.Para ser instruído, basta colher certa soma de conhecimentos exatos sobrediversos objetos que o homem possui ou procura possuir – mas, para sereducado, é necessário que, dentro de seu próprio sujeito, realize as qualidadesque perfazem o seu verdadeiro Eu.A ciência – escreve Einstein, no seu livro Aus meinen spaeten Jahren –descobre os fatos objetivos da natureza (das was ist, aquilo que é) – mas afilosofia realiza valores dentro do próprio homem (das was sein soll, aquilo quedeve ser). O descobrimento de fatos externos torna o homem erudito – mas arealização de valores internos torna o homem bom, e o homem realmente bomé um homem feliz.Descobrir fatos fora de nós é instrução – realizar valores dentro de nós éeducação.É chegado o tempo para darmos à educação um caráter genuinamentehumano, realizando valores ou qualidades dentro do próprio homem.
  7. 7. Não basta conhecermos objetos, por mais necessário que isto seja – énecessário que realizemos valores internos, despertando potências dormentesnas profundezas da natureza humana. ***Embora, à primeira vista, essa distinção entre objetos e sujeito pareça simplesjogo de palavras, ela marca, na realidade, a linha divisória entre dois mundos,entre o mundo horizontal do ter e o mundo vertical do ser; entre aquilo que ohomem tem ou pode ter, fora de si – e aquilo que o homem é ou deve ser,dentro de si. Todos os meus cursos de Filosofia Universal e Filosofia doEvangelho, aqui em São Paulo, no Rio de Janeiro, e alhures, bem como quasetodos os meus livros giram, direta ou indiretamente, em torno dessemomentoso problema do “ser” e do “ter”, daquilo que o homem é ou deve ser, edaquilo que o homem apenas tem ou deseja ter. O homem comum só seinteressa pelo “ter”, pelas quantidades – ao passo que o homem maisavançado se entusiasma pelo “ser”, pelas qualidades. Pode-se mesmo afirmarque tanto mais educado e culto é um homem quanto mais faz prevalecer, emsua vida, o mundo qualitativo do “ser” sobre o mundo quantitativo do “ter”.O verdadeiro educador deve ser um homem altamente “realizado”; deve terrealizado em si os seus mais profundos valores humanos; só assim poderáservir de guia e mentor a outros, não tanto pelo que diz ou faz, mas sobretudopelo que é. Deve ser plenamente educado, para que possa educar.Ser educado não que dizer apenas ter bons modos sociais; quer dizer (comoinsinua a própria etimologia da palavra) que o bom educador deve terdespertado em si os verdadeiros valores da natureza humana. “Educar” vem doverbo latino educare, derivado de educere, que quer dizer “eduzir”, conduzirpara fora, ou seja, despertar no homem aqueles elementos positivos que nelese achavam dormentes, como sejam, verdade, justiça, amor benevolência,solidariedade, etc. O educador é um “edutor”, alguém que “eduz” do seueducando o que nele dormita de melhor e mais puro. Educar não é injetar,impingir, mas sim eduzir e desenvolver o que já existe na alma do educando,assim como a luz solar desperta e desenvolve na semente a planta que nelaexiste potencialmente.Mas, como poderia alguém despertar em outrem os bons elementos, se nodespertador não estivessem esses elementos, plenamente despertados?Para que alguém possa “eduzir” o que há de bom em seu educando, deve elemesmo achar-se firmemente consolidado nesse plano do bem, ao qual querelevar seu pupilo. Quem tenta “empurrar” em vez de “atrair” não é educador,não “eduz”, porque ele mesmo não está “eduzido”, fora do abismo. Só um“eduzido” pode “eduzir” os outros. Por isto, o educador deve ir na vanguarda do
  8. 8. ser bom, e não ficar na retaguarda do ser mau, tentando empurrar o seueducando para a vanguarda das alturas, onde ele mesmo não está.Em última análise, todo esse problema educacional se resume numa questãode verdade integral e de absoluta sinceridade que o educador deve ter paraconsigo mesmo; quem não é 100% aquilo que ele diz aos outros não pode sereducador; não pode “eduzir”, conduzir para fora da zona negativa do mal,porque ele mesmo não se acha fora dessa zona.Ser educador equivale a um tremendo desafio para ser integralmenteverdadeiro e honesto consigo mesmo. Quem não está disposto a aceitar essedesafio para uma veracidade integral e absoluta, não se exponha a essaperigosa e gloriosa aventura de querer educar os outros.De maneira que o problema da educação culmina, logicamente, no problemacentral da auto-realização do homem. Para que alguém seja um verdadeiroeducador não basta estudar essa psicologia periférica e superficial que vemexposta na maior parte dos nossos compêndios – é necessário que desça àpsicologia abismal de seu próprio Eu, aos mais profundos abismos da suacentralidade, entrando em contato direto com o alicerce cósmico da suanatureza humana, daquilo que ele “é”, e não apenas daquilo que ele “tem”.A educação total exige a realização do homem integral.Mas quem nos dará esses homens integrais?Não há governo no mundo que possa criar ou decretar – é necessário que oindivíduo desenvolva dentro de si mesmo esse homem integral.E isto é possível, felizmente, porque dentro de cada um de nós existe algomaior e melhor do que aquilo que existe fora de nós. O homem é muito maisaquilo que pode vir a ser e deseja ser do que aquilo que é no plano histórico dasua vida. O homem é a sua permanente e silenciosa atitude interna, e não osseus ruidosos atos externos e transitórios. O homem é a sua eternapotencialidade, e não apenas a sua atualidade temporal.Homem, procura ser no teu externo existir aquilo que és no seu interno ser!Homem, existencializa humanamente a tua divina essência – e serás ótimoeducador, por seres plenamente educado!
  9. 9. ADVERTÊNCIA E ORIENTAÇÃOEste livro trata de assuntos um tanto remotos e ignotos – focaliza um novo tipode educação e um novo regime social. É, pois, óbvio que não se trata de umlivro de leitura fácil e rápida, mas sim de um estudo que exige compreensão epenetração.Por isto, nos vimos obrigados a repetir, de modos vários, certos problemascentrais da vida, para que lentamente calem e se infiltrem na alma do leitor. Ohomem de paladar doentio exige cada dia iguarias novas e esquisitas – aopasso que ao homem de saúde normal apetecem-lhe, durante anos edecênios, os mesmos manjares cotidianos, com pouca variação, porque elecome para viver, e não vive para comer.Esperamos que os nossos leitores possuam saúde normal e não se aborreçamcom o fato de encontrarem repetidos, em diversos capítulos deste livro,pensamentos similares, cuja assimilação eficiente só é possível deste modo.Escusado é dizermos que não consideramos o conteúdo destas páginas comoa última palavra sobre o assunto nem é intenção nossa dizer algo de inédito edefinitivo. Apontamos tão-somente a direção certa, à guisa daquelas setas nasencruzilhadas dos caminhos, para que o viandante saiba em que direção deveir; se parasse diante da seta falharia o sentido da mesma.Julgamos certa a direção geral indicada, e deixamos a outros a elaboração deprogramas técnicos pormenorizados sobre o magno problema de uma novaeducação individual e de um novo regime social. Em última análise, tanto estecomo aquela dependem da evolução interna do homem – e essa evolução éalgo tão misterioso e imponderável que não pode ser, propriamente, objeto deum livro, mas sim o fruto de uma experiência interna, silenciosa e anônima.Se algum leitor achar certos capítulos deste livro traumatizantes e demolidores,convença-se de que só destruímos para construir algo melhor. Em vez de seinsurgir contra o autor, pondere, calma e serenamente, os prós e os contras, afim de conhecer a verdade – “a verdade libertadora”.
  10. 10. PRIMEIRA PARTEEDUCAÇÃO INDIVIDUAL
  11. 11. EDUCAÇÃO – PROBLEMA VITAL DA ATUALIDADEO problema máximo da época é, sem dúvida, o da educação da infância, dajuventude – e também dos adultos.É alarmante o vertiginoso aumento da criminalidade, sobretudo entre jovens de14 a 18 anos. As autoridades estão desorientadas. O povo vive num ambientede terrorismo permanente. Cogita-se introduzir na legislação brasileira a penade morte, a fim de coibir ou diminuir essa onda de delinquência. Acreditammuitos que punir o criminoso seja medida eficaz para opor um dique àperversidade dos delinquentes potenciais.Por mais necessárias que sejam certas medidas punitivas e repressivas, deordem legal e policial, é erro gravíssimo supor que essas medidas possamproduzir mudança ponderável no plano da criminalidade. Em última análise,esses expedientes legais e policiais, embora necessários, são uma repressãode sintomas externos do mal, e não uma cura da raiz interna do mesmo;atingem os efeitos, mas não a causa da criminalidade. Quem reprime apenassintomas, e não cura a raiz do mal, é charlatão, e não médico.É de candente necessidade que tratemos seriamente da cura da raiz do mal –e, nesse setor, quase nada se está fazendo.Os supostos remédios de que lançamos mão primam por sua ineficiência e seuobsoletismo. Possivelmente, esses remédios tenham sido eficazes em séculosidos, na Idade Média, no seio de uma humanidade diferente da nossa; mas, emnossos dias, são quase totalmente ineficientes, porque a nossa humanidadenão está vivendo no século XIII. Os últimos séculos modificaramprofundamente a estrutura mental e moral do homem. A humanidade saiu dasua infância, e, em grande parte, também começa a ultrapassar suaadolescência, para entrar na idade madura. O que era bom e ótimo paraséculos passados, prova-se nulo ou fraco para o século XX. É justo que umacriança cumpra cegamente a ordem de seus pais, sem compreender o porquêdessas ordens; tem de fechar os olhos e obedecer, na certeza de que seuspais sabem o que seja melhor para o verdadeiro bem do filho.De fato, a humanidade Ocidental viveu, longos séculos nesse clima de infânciamental e moral, tanto no plano civil como religioso; de olhos fechados, aceitavae acatava qualquer ordem de cima, fosse da autoridade civil, fosse da
  12. 12. hierarquia religiosa. Não culpamos esses tempos. A infância é um períodonatural e necessário para a vida de cada homem, como também dahumanidade.Mas infância não significa infantalismo. Aquela é um estado natural e sadio;este seria um fenômeno desnatural e mórbido.Com o ocaso da Idade Média e a alvorada da Renascença, a humanidadecristã do Ocidente, ou pelo menos a sua parte pensante, deixou a infância eentrou na adolescência. E não pode voltar atrás. Por outro lado, também nãopode parar nesse plano de intelectualismo, próprio da adolescência. Ninguémpode devolver às suas nascentes o Amazonas, nem ninguém pode opor-lhe umdique no seu vasto estuário. As suas massas líquidas têm de desaguar nooceano.As leis da evolução são inexoráveis. Não dependem de nós. A humanidade deontem foi boa por ignorância, a humanidade de hoje é má por inteligência – ahumanidade de amanhã tem de ser boa por sapiência.Da ignorância à sapiência vai um caminho longuíssimo, margeado deprecipícios, eriçado de empecilhos – e nós estamos trilhando este caminho.Muitos suspiram, saudosos, pelos “bons tempos” da fé medieval e acham que asolução está no regresso a essa infância da humanidade. Outros apregoam aintensificação da ciência e da técnica, por meio do intelecto, e esperammelhores dias das nossas conquistas científicas, rumo aos átomos ou rumoaos astros.Entretanto, a solução definitiva dos nossos mais dolorosos problemas não estáneste nem naquele plano. Temos de ultrapassar tanto a ignorância infantil deontem como a inteligência juvenil de hoje e entrar na zona da sapiência dohomem maduro de amanhã.Mas esse “amanhã” pode ser iniciado hoje mesmo.O infante de ontem e o adolescente de hoje são o homem maduro de amanhã.Por isto, necessitamos de novos rumos para a nossa educação, que estámarcando passo em terrenos que não correspondem às necessidades dohomem de hoje e de amanhã.
  13. 13. A FALÊNCIA DA EDUCAÇÃO LEIGA E DA EDUCAÇÃO RELIGIOSATemos no Brasil dois tipos de educação: leiga e religiosa. Ambos falharam ouestão falhando. A primeira é superficial; a segunda tem caráter póstumo.No setor da educação leiga, ou cívica, ministrada nos estabelecimentospúblicos, inculca-se ao educando a necessidade de ser honesto, de não mentir,não matar, não roubar, não defraudar, etc., porque há uma lei que proíbe taiscoisas; o transgressor será punido com cadeia ou multa. Espera-se que oeducando seja honesto e bom para não transgredir a lei civil e sofrer suassanções.Ora, quem não vê que semelhante sanção é totalmente ineficiente? Eficiente,talvez, para alguns atrasados e menos inteligentes, porém ineficiente para osmais adiantados e perspicazes. Quem comete um crime imperfeito sofrerá asconsequências legais e policiais da sua transgressão – mas quem for assazinteligente para cometer um crime perfeito, esse não corre perigo de ser presoou multado. Temos vasta literatura e numerosas películas cinematográficasque ensinam aos jovens, e aos adultos também, a arte de cometerem crimesperfeitos. Nas exibições públicas, é verdade, há censura prévia, em virtude daqual o transgressor da lei tem de acabar punido para que a lei saia triunfante esoberana. Mas os candidatos à delinquência sentem maiores simpatias pelocriminoso punido do que pelas autoridades que punem, e lamentamsecretamente que o herói não tenha sido assaz inteligente e jeitoso para burlara lei, e resolvem ser mais astutos do que os seus heróis cinematográficos,cometendo crime perfeito.Não há lei humana, por mais bem elaborada, que possa manter dentro dassuas malhas um criminoso inteligente. Pode um homem ser um cidadãolegalmente honesto, honestíssimo – e ser ao mesmo tempo uma ruína moral.Pode ser uma negação total no plano ético e , não obstante, ocupar altospostos públicos, com imaculada decência legal. Na realidade, a perfeita lisuralegal é compatível com a absoluta ausência de ética. Pode um homem ser100% “civilizado” e 0 % “educado”, porque a civilização se refere a seucomportamento legal, externo, e a educação a seu caráter moral interno. ***De resto, que é que pretende a chamada educação leiga ou cívica?
  14. 14. Pretende, antes de tudo, colocar nas mãos do educando a ferramentanecessária para vencer na vida, para conquistar posição social e econômica,para acumular a maior quantidade possível de “matéria morta”, mesmoexplorando seus semelhantes, contanto que essa exploração seja praticadadentro do âmbito da lei – e isto é possível em vasta escala. Um cidadãoperfeitamente legalizado pode ser um homem nada moralizado; como, porém,a moralização é a verdadeira educação, pode um cidadão 100% legal ser umhomem 100% amoral. A amoralidade, porém, é o prelúdio para a imoralidade,isto é, para a criminalidade.Quer dizer que a chamada educação leiga ou cívica não é educação alguma; éapenas um processo de instrução horizontal, um sistema de aparelhamentoque visa o mundo dos objetos fora do educando, e nada tem que ver com omundo do sujeito dentro dele. A verdadeira educação, porém, tem por fimplasmar o caráter do educando, torná-lo melhor como ser humano, e nãoapenas mais hábil como conquistador de objetos impessoais em torno dele.Pode a instrução adestrar o homem na velha política e diplomacia de acumular“matéria morta” ao redor de si – mas a educação ensina ao homem a nobrefilosofia de criar valores vivos dentro dele mesmo.No seu livro Aus meinem spaeten Jahren, como já mencionamos, diz o grandematemático Albert Einstein que a ciência ensina ao homem a descobrir os fatosreais da natureza objetiva (das was ist, aquilo que é), mas que a filosofia lheensina a criar valores subjetivos dentro de si mesmo (das was seira soll, aquiloque deve ser). A ciência, descobrindo fatos, torna o homem erudito, mas afilosofia, realizando valores, torna o homem bom e feliz.A instrução é científica e desenvolve a inteligência do homem – a educação ésapiente e molda a alma do homem. Nenhum homem deixa de ser mau por serinteligente, mas todo homem diminui a sua maldade na razão direta queaumenta a sua sapiência, porque sapiência é bondade e espiritualidade.O velho slogan de que “abrir uma escola é fechar uma cadeia” é peça demuseu. Está desmentido pelos fatos. Quase todos os grandes criminosos dahistória da humanidade eram homens inteligentes, alguns deles de grandeerudição – o que não os impediu de serem grandes malfeitores. Se “escola”fosse sinônimo de “educação”, nada teríamos que objetar; mas, por via deregra, não é o que acontece. Ensinar a alguém o ABC e a tabuada não é omesmo que educá-lo. A verdadeira educação opera numa dimensão totalmentediferente do plano da simples instrução. ***Até aqui devem os educadores leigos estar insatisfeitos comigo, e satisfeitos oseducadores religiosos. Infelizmente, não estou em condições de manter nessesúltimos a satisfação que até aqui experimentavam. Nos institutos educacionais
  15. 15. particulares existe a educação religiosa, orientada por esta ou aquela igreja ougrupo espiritual. Seria de esperar que pelo menos esse tipo de educação fossemais eficiente e desse a seus adeptos base mais sólida de ética individual esocial. Entretanto, as estatísticas oficiais dos países não acusam a menordiferença, quanto à criminalidade, entre os delinquentes leigos e osdelinquentes religiosos. Prova isto que a educação religiosa, ou melhoreclesiástica, não afeta a vida ética do homem, é algo justaposto à vida, comoelemento estranho e heterogêneo, e não organicamente entrelaçado com avida, como algo homogêneo à mesma. Há, naturalmente, exceções individuais,sobretudo naquelas pessoas que ultrapassaram a simples crença dogmática eentraram na zona da experiência íntima de Deus e da sua própria alma. Mas osgrupos religiosos como tais não provam que a educação religiosa, como elaestá sendo ministrada oficialmente, tenha exercido impacto ponderável sobre avida ética dos que pertencem a esses grupos.Salvo honrosas exceções, a religião organizada, em seu setor oficial, não visaà vida presente do homem, aqui na terra, mas tem que ver com uma vidafutura, em outras regiões do universo. Ela é, por assim dizer, além-nista efuturista. Ela é, visceralmente, póstuma.Os seus argumentos giram em torno do céu e inferno, palavras clássicas comque as teologias entendem determinados lugares, futuros e distantes, que ohomem só descobrirá depois da morte. Os que na terra forem bons serãopremiados no céu, e os que forem maus serão punidos no inferno.Aparentemente, deveriam esses argumentos moralizar o homem, aqui na terra,afastá-lo do mal e aproximá-lo do bem – e, de fato, assim acontecia em temposantigos. Se o homem do século XX ainda tivesse em si aquela fé ingênua dosseus antepassados do século XIII, exerceriam esses argumentos de céu einferno plena influência sobre a vida ética do homem, porque ninguém gosta desofrer, e todos querem gozar.Mas em nossos tempos, esses argumentos, um dia eficientes, são ineficientes,pelo menos para a elite pensante da humanidade. Segundo os teólogos, céu einferno são lugares que não existem na vida e no mundo presente, mas sim emoutras partes do universo e serão descobertos após a morte. Quer dizer que,na vida presente, aqui na terra, tem o homem de ser bom por causa de algoque lhe vai acontecer, daqui a 20, 40, 60, anos, em regiões ignotas e distantes,de cuja localização ninguém pode ter certeza.O apelo dos teólogos para essa sanção póstuma não exerce influência decisivasobre o homem moderno em geral. Somente os mais atrasados ou os que têmproibição de pensar livremente, ainda se impressionam com esses argumentos;os mais adiantados e emancipados não são por eles atingidos.
  16. 16. E isto por razões muito óbvias; uns não creem na existência real de céu einferno, como lugares geográficos ou astronômicos, uma vez que a ciênciaprovou, e vai provar cada vez mais, que não existe, em recanto algum docosmos, um lugar onde Deus esteja sentado em seu trono, rodeado de seusanjos e santos – nem existe, debaixo ou dentro da terra, uma fogueira onde odiabo com seus demônios e condenados estejam residindo.Outros, que talvez creiam ainda em céu e inferno, acham que é muito cedopara se preocuparem com isto. Um jovem pecador de 20 anos espera viverpelo menos mais 40 anos, e depois disto, em idade avançada, começará apensar em como evitar o inferno e entrar no céu. E isto não lhe será difícil; asteologias e igrejas lhe garantem que um ato de conversão – seja pela confissãoou extrema-unção, seja pela fé no sangue do Cristo Redentor – cancelarátodas as suas maldades pretéritas. E assim, calcula o pecador, entrará ele nocéu de Deus, depois de ter gozado aqui todos os céus dos homens; esperalograr a Deus do mesmo modo que sempre logrou os homens...As igrejas organizadas envidam ingentes esforços para manter os seus filhosdentro do seu sistema teológico medieval, proibindo-lhes qualquer liberdade depensamento, que os emanciparia da igreja. Umas exigem aceitaçãoincondicional de uma autoridade eclesiástica infalível, lugar-tenente de Deus;outros impõe a seus filhos a crença em um livro infalível, mensagem direta deDeus à humanidade. Os que, graças ao sacrifício da lógica, conseguem umasujeição incondicional a uma autoridade externa, viva ou morta, humana oupapirácea, têm a vantagem de possuir pelo menos uma norma certa para avida ética, para si e seus rebanhos.Mas esses crentes de olhos fechados vão rareando cada vez mais, ao passoque os crentes de olhos abertos (que são os sapientes) se tornam cada vezmais numerosos, graças a Deus. Infelizmente, muitos daqueles crentes deolhos fechados que não conseguem tornar-se crentes de olhos abertos,acabam por engrossar a turbamulta dos descrentes, também de olhosfechados.Não podemos construir o edifício da educação das futuras gerações sobre aareia movediça de uma teologia medieval, cujo corpo persiste, mas cuja almamorreu. Temos de dar-lhes uma educação construída sobre a rocha viva deuma filosofia racional, perfeitamente lógica, e de acordo com o estado atual daevolução humana.Céu e inferno existem, mas não como lugares, fora de nós, como veremosmais tarde. Não é necessário que rejeitemos essa fé quase duas vezesmilenar; trata-se de compreender melhor o conteúdo dessa mesma fé do que ocompreenderam os nossos antepassados.
  17. 17. O autor destas linhas crê mais firmemente na realidade do céu e inferno do quetalvez a maior parte de seus leitores. Crê, não apenas dogmática eteologicamente, mas sabe experiencialmente que há céu e há inferno, nãocomo lugares astronômicos, mas como estados da alma e atitudes daconsciência.E sobre esta profunda experiência podemos erguer o edifício sólido de umanova educação.
  18. 18. A DELINQUÊNCIA JUVENIL, FRUTO DE UMA FALSA EDUCAÇÃOConsta, pela estatística oficial, que, nos Estados Unidos, são cometidosanualmente (1958), 2.500.000 crimes que chegam ao conhecimento dasautoridades. Cada 12 segundos se comete, nesse país, um crime. Desde que oleitor iniciou a leitura deste capítulo já foram perpetrados diversos crimes, e,quando o terminar, o número atingirá a diversas centenas.Entre nós, no Brasil, também é alarmante a crescente onda de criminalidade,sobretudo entre jovens de 14 a 18 anos. O mesmo acontece em diverso outrospaíses, sobretudo aquém do Atlântico.A Suíça celebrou, há pouco, o 25- aniversário do último homicídio cometido,nesse país, por um de seus cidadãos. Entre nós nem podemos celebrar o“diário”, muito menos o “aniversário” do último crime de morte. Cada dia osjornais estão repletos de notícias de crimes de toda espécie – e o que aimprensa registra não corresponde sequer a 10% do que realmente aconteceunessas 24 horas.Também não consta que haja qualquer diferença, no tocante à delinquência,entre pessoas pertencentes a um grupo religioso e outras sem religiãodeterminada. Da mesma forma, não se pode responsabilizar esta ou aquelaforma de governo, nem esta ou aquela raça pela maior ou menor criminalidade;nem procede a recente alegação de que o fato de existir pena de morte numpaís diminua os crimes. Na Inglaterra e nos Estados Unidos há pena de morte,são povos da mesma raça – e o fato é que o coeficiente da criminalidade énotavelmente menor entre os ingleses do que entre os americanos. Forma degoverno, forma de religião, raça – nada disto é decisivo.Decisivo é um determinado espírito de educação que dê ao homem elevadaideia do valor da vida humana, e, em geral, dos deveres do indivíduo em faceda coletividade. ***Tenho diante de mim o livro Daemon-Stadt (Cidade-Demônio) do Dr. KurtGauger, médico, psiquiatra e filósofo germânico, obra em que o autor, à luz deabundantes fatos recentes, estuda o alarmante problema da criminalidadejuvenil, e até infantil, na Alemanha e em outros países, no período que seguiuàs duas guerras mundiais. Chega à conclusão de que a presente geração,
  19. 19. produto de gerações anteriores e herdeira de ideologias funestas, perdeu anoção da responsabilidade ética, porque perdeu a noção de ser parteintegrante do grande TODO, seja o TODO imediato da humanidade, seja oTODO longínquo do Universo como tal. Uma criança de 12 anos mata seu paicom um tiro de revólver; interrogada pelo motivo do crime, respondecinicamente: “Matei porque quis”. Não tem o menor remorso do seu ato, diz,porque toda pessoa tem o direito de fazer aquilo que acha interessante.Em última análise, quem perde a visão de um TODO maior de quem ele fazparte e que tem de respeitar, perde necessariamente a noção da ética, daobrigação, do dever moral, porque a noção da ética se baseia na consciênciade que eu sou parte de um TODO, e que esta parte tem certas obrigaçõesnaturais e indeclináveis para com o TODO, que tem direitos reais sobre mim.Como se vê, o problema da criminalidade afeta o problema da ética, e esteradica no problema da metafísica, a questão da íntima natureza humana. “Queé o homem? de onde vem? para onde vai? por que está aqui na terra?” – não épossível dar base sólida à ética sem responder, satisfatoriamente, a essasperguntas fundamentais da vida.Necessitamos, não só de professores eruditos para instruir os seus alunos –necessitamos, sobretudo, de mestres de caráter que, com a sua própria vida evivência, deem a seus discípulos o exemplo da dignidade do homem.No citado livro Daemon-Stadt, págs. 122-124, reproduz o Dr. Kurt Gauger aimpressionante carta de um jovem delinquente que, à sombra da penitenciária,escreve uma espécie de exame de consciência para os “homens honestos” domundo. Diz o jovem delinquente:“Por que vós sois fracos no bem, por isto nos destes o nome de fortes no mal –e com isto condenais uma geração contra a qual pecastes – porque sois fracos.Nós vos concedemos dois decênios para nos fazerdes fortes – fortes no amor,fortes na boa vontade – vós, porém, nos fizestes fortes no mal, porque soisfracos no bem.Não nos indicastes caminho algum que tivesse sentido, porque vós mesmosignorais esse caminho e vos descuidastes de procurá-lo – porque sois fracos.Vosso vacilante „não‟ assumia atitude incerta diante das coisas proibidas; nósdemos uns gritos – e vós retirastes o vosso „não‟ e dissestes „sim‟, a fim depoupardes os vossos nervos fracos. E a isto chamastes „amor‟.Porque sois fracos, por isto comprastes de nós o vosso sossego. – Quando nóséramos pequenos, nos dáveis dinheiro para irmos ao cinema ou comprarmossorvete; com isto prestastes um serviço não a nós, mas sim à vossacomodidade – porque sois fracos. Fracos no amor, fracos na paciência, fracosna esperança, fracos na fé.
  20. 20. Nós somos fortes no mau – mas as nossas almas têm apenas metade danossa idade.Nós fazemos barulho para que não tenhamos de chorar por todas aquelascoisas que deixastes de nos ensinar. Sabemos ler e contar; sabemos quantosestamos há nesta ou naquela flor, sabemos como vivem as raposas econhecemos as estrutura de um pé de capim – aprendemos a ficar quietos nosbancos de escola e apontar o dedo, a fim de contarmos coisas sobre raposas erosas silvestres – mas não nos ensinastes como enfrentarmos a vida.Estaríamos até dispostos a crer em Deus, num Deus infinitamente forte quetudo compreendesse e de nós esperasse que fôssemos bons – mas não nosmostrastes um só homem que fosse bom pelo fato de crer em Deus.Ganhastes muito dinheiro com serviços religiosos e murmurastes oraçõessegundo a velha rotina.Sr. Policial põe de parte o teu cassetete e tua pistola! Dize-nos antes o que nosinteressa saber: é verdade que amas a ordem pública a que serves? ou nãoserá que amas o direito que tens ao teu ordenado e à tua aposentadoria?Sr. Ministro! Mostra-nos se é forte como homem! quantas obras boas praticastu, como cristão, às ocultas?Será que nós não somos as caricaturas da vossa existência toda feita dementiras?Nós somos desordeiros públicos e fazemos muito barulho – vós, porém, lutaisàs ocultas, um contra o outro; estrangulai-vos comercialmente e armais intrigaspara conquistardes posições mais rendosas.Em vez de nos ameaçardes com bastões de borracha, colocai-nos face a facecom homens de verdade, que nos mostrem qual é o caminho certo, não compalavras, mas com a sua vida.Mas ai! que vós sois fracos no bem! os que são fortes no bem vão para a matavirgem e curam os negros da África – porque eles vos desprezam, assim comonós vos desprezamos. Porque vós sois fracos no bem – e nós somos fracos nomal.Mamãe, vamos rezar! porque esses homens fracos estão armados de pistolas!Como invalidar esse tremendo exame de consciência que um criminoso instituicom os „homens honestos‟ da sociedade, os que são „fracos no bem‟?Certamente não com velhas teorias papiráceas, mas com uma nova realidadevital...”
  21. 21. O FLAGELO DO PARASITISMO E SUA CURAÉ de conhecimento público, universalmente admitido e provado com inúmerosfatos que, sobretudo nos últimos cinquenta anos, o Brasil degenerou no paísclássico do funcionamento parasitário. Centenas de milhares de pessoas vivemà custa dos impostos do povo, sem prestarem ao país os serviçoscorrespondentes aos seus vencimentos. É uma clamorosa injustiça, umaroubalheira impune e, não raro, favorecida pelas autoridades públicas.Conheço pessoas que têm cinco empregos públicos bem remunerados, masnão comparecem a nenhum deles; outros se dão ao “trabalho” de “assinar oponto”, depois vão passear ou trabalhar em outra parte, e retiram, no fim domês, as importâncias correspondentes a serviços não prestados, explorando aboa-fé do povo que lhes paga com seus impostos.É só aparecer numa cidade um funcionário público de alto coturno e logoenxameiam os parasitos, parentes, amigos, afilhados, os partidários políticos,as amantes, e cada um deles é nomeado para um cargo, muitas vezesinexistente; o principal é que conste no papel, uma vez que estamos na épocada papirocracia onipotente.Esse cancro do parasitismo explorador é, hoje em dia, considerado, quaseuniversalmente, como situação normal e inevitável.Conforme o Diário de São Paulo de 22-8-1958, o presidente JuscelinoKubitschek declarou à imprensa: “Não é possível governar de uma cidade (Riode Janeiro) onde residem 220 mil dos 300 mil servidores federais do Brasiltodo. Três quartas partes desses funcionários vegetam na capital atual,atrapalhando, e nada mais, a administração central. Quem nada faz estorva.Além do mais, contou o chefe da Nação que os presidentes dos Institutos dePrevidência podem mais do que o da República. Criam cargos, nomeiam quementendem, e nem são obrigados a publicar as nomeações no Diário Oficial.Penso com os meus botões em mais de uma barbaridade do estapafúrdiocalamitoso regime, que desgraçou a nação durante quinze anos e mais cinco”.Se três quartas partes dos 300 mil funcionários federais apenas vegetam, semfazer nada, estorvando ainda a administração, então temos, só nofuncionalismo federal, 23,5 mil parasitos ou ladrões que são mensalmentepagos com os impostos do povo, cometendo assim clamorosa injustiça,durante anos e decênios.
  22. 22. E que dizer de outras categorias de funcionários que não funcionam?A ideia calamitosa de que os impostos do povo têm por finalidade precípua amanutenção de um exército de funcionários que apenas “vegetam e nadafazem”, passou a fazer parte integrante da nossa política e diplomacia pseudodemocrática. Se o povo soubesse o que se passa por detrás dos bastidores ecomo são malbaratados os dinheiros tão arduamente ganhos por ele, e setivesse meios para prevalecer contra os responsáveis por esses crimes,ensanguentaria o país com uma guerra civil...Excusado é dizer que não incluímos nessa censura os funcionários honestos ecorretos, que, felizmente, ainda existem no Brasil, embora em minoria – 25%entre os funcionários federais, segundo a declaração do Sr. JuscelinoKubitschek. Mas não é calamitoso que 75% sejam ladrões e exploradores daseconomias do povo?... ***Essa praga do parasitismo não pode ser erradicada eficientemente pornenhuma medida legislativa ou coercitiva, embora essas medidas sejamnecessárias para evitar maiores males. O grande mal está na falência dasconsciências. A desenfreada adoração do “deus-dinheiro” derrotou todas asconsiderações de ordem moral. Bom é aquilo que dá dinheiro; ótimo é aquiloque dá rios de dinheiro sem trabalho algum – é esta infeliz mentalidade quetomou conta do país.Enquanto o homem não passar por uma profunda reforma interior, as reformasexternas, embora necessárias, são precárias e ineficientes.A reforma interior, porém, supõe algo que não está em nossos códigos nem seleciona nas Faculdades de Direito. Supõe um conhecimento de si mesmo euma inexorável fidelidade a esse Eu superior e divino do homem, porque esseEU divino no homem, o seu Cristo interno, exige imperiosamente equivalênciaentre a remuneração pecuniária e o serviço prestado. Quem recebe umordenado mensal e não presta ao povo e ao país o serviço correspondente aessa importância, é ladrão, é explorador, é réu de uma injustiça, seja qual for oseu posto – presidente, governador, prefeito, juiz, senador, deputado, vereador,professor, ou simples funcionário de uma autarquia ou varredor de ruas.Mesmo no caso que o direito humano absolva esse réu, perante a justiça douniverso continua ele culpado.Ora, cada injustiça cometida é uma degradação do individuo que a comete,quer a lei humana a aprove, quer desaprove. O indivíduo que comete injustiçavai perdendo parcela do seu valor, acabando, dentro de alguns anos oudecênios, em completa falência moral, embora se tenha talvez enriquecido,materialmente, com o produto dos seus roubos. Naturalmente, se esse ladrão é
  23. 23. analfabeto em matéria de conhecimento próprio e auto-realização, seráimpossível fazer-lhe compreender o seu triste estado; se tornou milionário àcusta do suor do povo, quem lhe provará que é um desgraçado?Entretanto, essa impossibilidade de provar-lhe esse fato e colocar-lhe diantedos olhos o autêntico retrato da sua fealdade não invalida o fato dessa suafealdade.Esse homem vai acumulando dentro de si um karma cada vez maior, um débitomoral que tem de ser neutralizado, consoante a inexorável justiça daConstituição Cósmica. Mas a neutralização desse débito acumulado em 10, 20,50 anos de abusos acarretará sofrimentos inevitáveis, seja no mundo presente,seja em existências futuras. Ninguém sairá do cárcere enquanto não houverpago o último vintém, segundo as palavras do maior dos mestres dahumanidade. A Constituição Cósmica é um fato, e não uma fantasia. Ninguémpode derrubar o Himalaia com a cabeça! ninguém pode prevaricarimpunemente contra as leis eternas da verdade e da justiça!...O funcionário parasito e explorador só tem um caminho para se redimir: serconsciencioso e prestar ao povo os serviços pelos quais é pago, e restituir-lheo produto dos roubos anteriores, conforme o exemplo de um grande exploradorde que nos fala o Evangelho, Zaqueu de Jericó, que, reconhecendo o seu tristeestado, declarou ao Nazareno: “Se defraudei alguém, restituo quatro vezesmais, e, ainda por cima, dou aos pobres metade da minha fortuna”. E disse odivino Mestre a esse ex-explorador: “Hoje entrou a salvação nesta casa!” ***Os livros sacros de todos os povos apelidam de “insensato” ou “tolo” o homeminjusto e pecador – e não têm eles razão? Não é tolice e insensatez entrar emconflito com as leis eternas? onerar-se de enormes desvantagens remotas porcausa de umas pequenas vantagens imediatas? A mentira, a fraude, ainjustiça, qualquer pecado ou crime, proporcionam, quase sempre, determinadavantagem imediata, e é precisamente por causa dessa vantagem que odelinquente pratica o mal. Se o pecador, burlando a lei eterna e auferindo daícerta vantagem imediata, pudesse passar impune para sempre,definitivamente; se, depois de embolsar o fruto do seu roubo, nenhum mal lheacontecesse, nenhum sofrimento o aguardasse, por parte de um SupremoTribunal extra-humano – então – seria ótimo negócio ser mau, injusto,desonesto, explorador, ganhar muito sem trabalhar nada. Mas, queiramos ounão queiramos, o universo é um “cosmos”, um sistema de ordem e harmonia, enão um “caos” de desordem e confusão. A Constituição Cósmica do Universoexige imperiosamente a prática da Verdade, da Justiça, do Amor, daSolidariedade, da Honestidade. Pode, certamente, a criatura livre violar essalei, mas as consequências dessa infração se voltam infalivelmente contra oinfrator, em forma de sofrimento de qualquer espécie. O sofrimento é o eco
  24. 24. automático a qualquer violação da lei cósmica. E ninguém sabe quantos anos,decênios ou séculos correspondem a cada violação. O certo é que essadolorosa sanção existe – tão certo como é certo que o Universo é um Cosmos.Ora, é evidente estupidez provocar enormes sofrimentos, embora talvezremotos, para gozar de uma pequena vantagem imediata. E, por outro lado, éreal sabedoria renunciar a uma vantagem de momento e, assim, não provocarsofrimento futuros.Ninguém pode fugir à lei férrea de causa e efeito; uma vez posta a causa,segue-se o efeito com inelutável necessidade. O universo se reequilibraautomaticamente – mas esse reequilíbrio é doloroso para o delinquente. Nãoseria melhor não tentar desequilibrar o equilíbrio da justiça cósmica?O educador deve fazer ver a seu educando esse fato, o qual, admitindo ou não,continua a vigorar.Ser bom, justo, honesto, verdadeiro, é, não raro, doloroso, na vida presente,por causa do falso ambiente geral da vida humana, criado por nossapseudocivilização. Mas, em qualquer hipótese, ser bom, justo, honesto,verdadeiro, é, em última análise, ser feliz, embora essa felicidade íntima seja,por ora, circundada de sofrimentos. Fundamentalmente, ser bom é ser feliz, eser mau é ser infeliz. Podemos enganar os homens – mas ninguém podeenganar a lei eterna e sua própria consciência.Só quem aplaina a seu educando os caminhos para essa compreensão daverdade suprema é que o glorioso nome de educador.
  25. 25. BASES PARA UMA NOVA EDUCAÇÃOVerificamos que tanto a educação leiga como religiosa se revelaramineficientes para dar ao homem do presente século uma base sólida da vidaética. Ambos esses tipos educacionais apelam para motivos externos, situadosfora do homem, para darem ao seu sistema ético uma sanção eficaz. Emtempos idos, exerciam esses motivos externos – lei, polícia, céu, inferno –impacto suficiente sobre o caráter humano, e ainda em nossos dias têm elescerta eficácia sobre pessoas de pouca anatomia intelectual e espiritual. Mas,para a elite da humanidade, deixaram esses argumentos de oferecer basesuficiente à vida ética. A verdade em si é absoluta, não há dúvida, mas o modocomo o homem a apreende é relativo – e é precisamente esse relativismo emface da verdade absoluta que decide sobre a sua maior ou menor eficácia navida, porquanto “o conhecido está no cognoscente segundo o modo docognoscente”.E, com isto, enfrentamos um problema aparentemente insolúvel; vemo-noscomo que à beira de um abismo fatal.Que outro motivo poderia o homem ter para ser bom e deixar de ser mau? Senão tem que temer os castigos dos homens nem de Deus, por que não praticaro mal, quando o mal dá, quase sempre, uma vantagem imediata, ao passo quea prática do bem acarreta, não raro, desvantagens imediatas?Confessamos que a nossa situação é difícil, não por causa de si mesma, maspor causa do ambiente em que a humanidade, sobretudo a humanidade cristãdo Ocidente, vive e foi educada, há quase dois milênios. Neutralizar umaideologia multissecular – quem o ousaria tentar?... Com que substituiríamos osmotivos tradicionais, externos, que davam ao homem de ontem certasegurança e estabilidade? Se o homem deixa de sentir o impacto dos velhosargumentos, que novo argumento lhe podemos oferecer?O ponto de referência, a norma central para a nova educação deve ser algointerno, algo dentro do próprio homem. Temos de passar da transcendênciapara a imanência educacional – e é precisamente aqui que começa a grandeescuridão...Que ponto de referência, que novo centro de gravitação é esse?
  26. 26. É a dignidade, o valor intrínseco do próprio homem; o homem deve, livre eespontaneamente, evitar o mal e praticar o bem, não por causa de um punidorfora dele – humano ou divino –, mas para não ofender a sua própria pureza esantidade, para não profanar a sua nobreza e sacralidade, para nãodesvalorizar o seu grande e imenso valor humano. O homem deve ter de simesmo uma reverência e um respeito tão grande que prefira sofrer qualquerinjustiça da parte de outros a cometer uma injustiça ele mesmo – e por isto nãopor motivos de ética dualista e tradicional, mas por causa dessa misteriosametafísica e mística centralizadas no mais profundo reduto da sua próprianatureza humana.Mas, para que o homem possa ter de si tão grande ideia, deve ele ter noçãoexata e nítida da sua verdadeira natureza – e é precisamente aqui que começaa grande dificuldade! A noção que quase todos nós temos de nós mesmos, eque nos foi incutida desde a infância, é tão infeliz que, logo de início, parecefrustrar qualquer tentativa de modificação radical.Foi-nos dito, e redito, pelas mais poderosas organizações que navegam sob abandeira do cristianismo, que somos essencialmente maus, pecadores desde onascimento, mesmo desde o momento da nossa concepção.Tão profundamente arraigada na consciência cristã do Ocidente se acha essaidéia de que em pecado fomos concebidos, em pecado nascemos e pecadoressomos por nossa íntima natureza humana – que o fato de ter aparecido sobre aface da terra uma pessoa de “imaculada concepção” mereceu as honras de umdogma religioso de vasta repercussão. Dizer a um cristão ocidental quetambém ele foi concebido sem pecado, que todos os seres humanos entraramna existência puros como a luz – isto é considerado como abominável heresiae blasfêmia, porque as teologias de quase vinte séculos são contrárias a essaverdade.Outros, menos dogmáticos, estariam dispostos a aceitar essa verdade daimaculada conceição de todos os homens se, no parecer deles, semelhanteideologia não alimentasse e hipertrofiasse perigosamente o egoísmo e apresunção do homem, como eles dizem.Felizmente, temos a nosso favor o maior mestre espiritual da humanidade, queproclama explicitamente a pureza natural de todo homem, que não conhecenenhum pecado herdado, mas tão-somente pecados cometidos pelo própriohomem adulto.Quanto ao receio de que essa ideologia favoreça o orgulho do homem,veremos mais tarde de que essa ideia é filha da ilusão e de uma deplorávelfalta de conhecimento da verdadeira natureza do homem.
  27. 27. Uma coisa é certa: que nenhuma educação eficiente é possível enquanto ohomem viver na convicção de que ele é um ser essencialmente mau e que sópode ser feito bom por obra e mercê de terceiros.Pedimos ao leitor que preste atenção, muita atenção, ao tremendo ilogismoque vai neste conceito: eu sou essencialmente mau e pecador, em virtude daminha íntima natureza humana; sendo isso verdade, como poderei deixar deser mau? Só deixando de ser o que sou e tornando-me o que não sou. Devodeixar de ser verdadeiro homem – que é intrinsecamente mau – e tornar-meum ser totalmente diferente do que sou por natureza; isto é, tenho de medesnaturar a fim de poder ser bom. De maneira que o meu subsequentehomem bom, que serei, não é idêntico ao primitivo homem mau, que sou; essehomem bom não é o mesmo que foi concebido e nasceu como sendo eu; poisesse primitivo eu, essencialmente mau, deixou de existir, cedendo o lugar a umoutro eu, que é bom. Quer dizer que me tornei bom à custa de uma radicalabolição, ou total apostasia, do meu verdadeiro eu. Tive de me falsificar 100%a fim de poder ser bom, pois o meu primitivo eu era 100% mau, e 100% demaldade nunca poderá converter-se em 100% de bondade. Quer dizer queesse subsequente eu bom é um pseudo-eu, e somente graças a esse “pseudo”(palavra grega para “mentira”) é que eu sou bom; a mentira a mim mesmo mefez bom; a infidelidade à minha própria natureza humana fez com que eu metornasse um homem bom. Se eu ficasse fiel a mim mesmo, seria mau; mas,como cometi infidelidade contra mim mesmo, consegui tornar-me bom.Que admira que, em face de tão monstruosa falta de lógica e de bom senso, ohomem espiritual seja considerado por muitos como um pseudo-homem, umhomem desnatural, um homem falsificado? E que admira que muitos prefiramser “naturalmente maus” a serem “desnaturalmente bons”?Felizmente, esse ilogismo é apenas da teologia de certos cristãos, e não doEvangelho do Cristo; à luz do Evangelho pode o homem ser “naturalmentebom”, e, se não o for, é “desnaturalmente mau”. O maior mestre dahumanidade não conhece espiritualidade anti-humana nem humanidade anti-espiritual; para ele, o homem plenamente humano é plenamente espiritual,bom, divino; e, se o homem não é espiritual, bom, divino, é porque não ésuficientemente humano e natural. O “filho do homem” é o “filho de Deus”.Sobre a base estritamente unitária do Evangelho do Cristo, é possível erigir oedifício da nova educação – mas sobre a base dualista das nossa teologiaseclesiásticas não é possível construir algo de sólido. Fora da lógica não hásalvação, porque a lógica é o próprio Deus, ele, o divino “Lógos”, como diz oquarto Evangelho.Felizmente, não é verdade que o homem seja essencialmente mau. A suamaldade é periférica, a sua bondade é central. E, precisamente por serperiférica, a maldade do homem é amplamente conhecida, ao passo que a sua
  28. 28. bondade, por ser central, é ainda profundamente desconhecida. O elementobom no homem é como a energia nuclear recatada no âmago do átomo e queexige grande esforço para ser extraída e manifestada.Aliás, todos os grandes mestres espirituais da humanidade reconhecem aintrínseca bondade do homem. ***Aqui é que enfrentamos uma das mais importantes distinções da verdadeirafilosofia perene, o conceito do potencial e do atual. O homem é potencialmentebom, embora possa ser atualmente mau. A potencialidade do seu ser é a suaíntima natureza. Todo homem é muito mais aquilo que é potencialmente do queaquilo que é atualmente. Todo homem é antes a sua atitude permanente doque os seus atos intermitentes. Uma semente é potencialmente a planta quedela vai brotar, embora não seja ainda atualmente essa planta. A verdadeiranatureza de uma semente de palmeira é a palmeira que dela nascerá. A“natura” é a coisa “na(sci)tura”, isto é, aquela coisa que vai nascer.A potencialidade é, pois, a íntima natureza de um ser, a sua verdadeira naturaou natureza.A íntima natureza do homem não é o seu corpo, revelado pelos sentidos, nemé o intelecto, manifestado pelos pensamentos; a íntima natureza do homem é asua razão (alma), que se revela pela intuição espiritual, porque essa razão é asuprema potencialidade do homem, aquilo que ele é intrinsecamente, emboranão o tenha revelado ainda extrinsecamente.Sendo, pois, que a razão intuitiva, ou alma, é a própria essência do homem, eessa essência é boa, pura, divina, segue-se que a íntima natureza do homem éboa, que o homem é essencialmente bom, porque a alma humana é Deus nohomem, “o reino de Deus no homem” (Jesus), “o espírito de Deus que habitano homem” (São Paulo), “participação da natureza divina” (São Pedro), “a luzverdadeira que ilumina a todo homem que vem a este mundo” (São JoãoEvangelista), “a alma humana é crística por sua própria natureza” (Tertuliano),“a voz silenciosa” (Gandhi), “a luz interna” (os místicos).Razão, alma, consciência, espírito, voz, luz de dentro – todas essas palavrassignificam a mesma realidade, o último e mais profundo centro do homem, emtorno do qual giram todas as periferias da sua vida externa.Essa essência central do homem é idêntica à essência do próprio Universo. Aalma humana (razão, consciência) é o ponto de contato em que o microcosmoindividual se encontra com o macrocosmo universal; e a lei que rege este regetambém aquele – lei de absoluta e incondicional solidariedade.
  29. 29. Quando o homem individual permite que a mesma lei que rege o Universo foradele seja vitoriosa também no Universo dentro dele, então o homem é bom.Ser bom é sintonizar o grande Além-de-dentro pela harmonia do grande Além-de-fora. O homem bom é essencialmente um homem cósmico.O homem é bom quando estabelece e mantém perfeita sintonia entre o seumodo de ser e agir e o espírito da Constituição Cósmica, entre a suaconsciência individual e a Consciência Universal, entre a sua alma humana e aalma do Cosmos.A verdadeira ética (agir) é o reflexo fiel da mística (ser). O homem bom age deconformidade com o que ele é; é fiel a si mesmo. O homem mau age de ummodo diferente daquilo que ele é, é infiel a si mesmo, porque nunca descobriua sua natureza divina.O homem bom essencializa a sua existência. A sua essência é divina, a suaexistência é humana. Esse homem diviniza a sua humanidade. Faz a suaexistência humana à imagem e semelhança da sua essência divina.Poderá um homem desses ser egoísta? vaidoso? orgulhoso? Se o que nele háde bom e puro é da essência divina, e não da existência humana, comopoderia o homem orgulhar-se de algo que é de Deus?Orgulhar-se de elementos da existência humana é pecado.Orgulhar-se do espírito da essência divina é redenção.O pecado vem da ignorância – a redenção vem da sapiência.“Homem! conhece-te a ti mesmo – e serás bom!”“Sede perfeitos – assim como perfeito é vosso Pai que está nos céus.”
  30. 30. ENTRE LÚCIFER E LÓGOSVimos que, para iniciar novos rumos para a educação, é indispensável que oeducador tenha noção exata da natureza humana, saiba distinguir as periferiasexistenciais do educando, do centro essencial do mesmo; e, acima de tudo,requer-se que o educador, além de versado na teoria, também vivapraticamente essa verdade.Não é possível realizar uma educação eficiente sem ter uma visão unitária dohomem. O ser humano é uma unidade harmoniosa, mas que, na suasuperfície, aparece, quase sempre, desarmonizada.Quem é que estabelece divergência e infidelidade entre o interno ser e oexterno agir do homem, frustrando assim a grande obra da educação?Esta pergunta nos põe no início da grande encruzilhada, onde se bifurcam oscaminhos da velha teologia eclesiástica e da nova filosofia cósmica. Nova?Não, essa filosofia cósmica é a filosofia perene de todos os séculos e milênios,tão antiga como a própria humanidade; mas essa filosofia é privilégio de unspoucos iniciados, ao passo que a turbamulta dos profanos segue os dogmas deuma teologia dualista e dispersiva, que não permite uma educação eficiente eracional. O que a velha teologia consegue é impor-se ao homem, assim como oditador se impõe a seus súditos. A verdadeira educação, porém, não é nempode ser um regime ditatorial; e cada vez menos é possível considerar oeducando um autômato cujo único dever seja cumprir ordens emanadas deuma autoridade suprema, externa. O homem de hoje não quer apenas cumprirordens, quer saber das últimas razões por que deve fazer isto e deixar de fazeraquilo. Não quer agir em virtude de uma compulsão externa, mas sim emvirtude de uma compreensão interna.A divisão usual do homem é entre corpo e alma. A palavra corpo é tomadacomo idêntica à matéria, e sobre o vocábulo alma existem tantas sentençasquantas cabeças.É doutrina quase geral que é a alma que peca (uns chegam ao absurdo deatribuir pecabilidade até ao corpo); acham que é a alma que se torna má eantidivina, e que, se não se converter, vai ser eternamente condenada aosofrimento. E o ilogismo culmina no absurdo de que, um dia, o próprio corpo,esse corpo-matéria, ressuscitará e participará do eterno sofrimento da alma, eque Deus, esse Deus-Amor, se deliciará eternamente com os sofrimentos demilhões e milhões de filhos seus.
  31. 31. Há, nessa concepção, tantos erros quantas palavras. Excusado é dizer quesobre alicerce tão incerto não se pode erigir uma educação sólida que resistaao impacto de um pensamento racional e espiritual.A verdade é que nem o corpo nem a alma pecam. Quem peca no homem é oseu intelecto, o seu lúcifer, a sua serpente, e não a sua alma, que é o “espíritode Deus que habita no homem”.O intelecto, ou inteligência, revela-se pelo ego, ou pessoa (persona) dohomem. Esse ego-persona é o homem físico-mental-emocional.A razão ou alma manifesta-se pelo EU, que é o indivíduo ou a individualidadehumana.As palavras latinas “persona” e “indivíduo” dizem admiravelmente o quesignificam. “Persona”, em latim, quer dizer “máscara”. A “persona” (de per esonare, soar ou falar através) era a máscara que, no tempo do império romano,usavam os atores no palco e através de cuja boca aberta falavam. Por detrásdessa “persona” estava o “indivíduo”, ou seja, o homem que desempenhava opapel representado pela máscara.“Indivíduo” quer dizer “indiviso”, não-dividido, não-separado. A individualidadedo homem é aquilo que o faz um ser indivisível em si mesmo (em grego,átomos) e também indivisível ou inseparável do grande Todo, da Alma doUniverso. Por ser indivíduo, o homem é um ser estritamente uno e unitário, epor isto mesmo parte integrante do Universo.O homem não está separado do grande Todo, nem é idêntico a esse TODO,mas é dele distinto. O dualista separa o homem do grande Todo; o panteísta oidentifica com ele; mas o verdadeiro universalista (que modernamente,segundo o filosofo germânico Krause, se chama pan-en-teíta) sabe que ohomem não pode jamais estar separado do grande TODO, nem pode seridêntico a ele. A separação equivaleria a um suicídio violento, uma vez quenenhum efeito pode subsistir sem a causa-prima; a identificação seria umaespécie de suave eutanásia, em que o finito se diluiria totalmente no Infinito,nirvanizando o seu existir individual no Ser Universal. Tanto nesta comonaquela hipótese, o indivíduo humano deixaria de existir como indivíduo,aniquilando-se, ou no Nada ou no TODO.O que une o homem ao TODO é a sua essência, que é a própria essência doTODO; o que distingue o homem do TODO é a sua existência. Se o homemfosse apenas essência universal (divina) seria ele o próprio Deus, o Universal;se fosse apenas existência individual (humana), sem nenhum fundo deessência universal, seria um puríssimo Nada, o Irreal, o Vácuo, porquenenhuma existência individual tem realidade em si mesma, se não estiver unidaà essência universal. Assim, por analogia, um indivíduo vivo não seria vivo se
  32. 32. não estivesse unido à Vida Universal. A única razão por que uma existência éviva é porque participa da essência da Vida Universal.A essência universal é o Real; as existências individuais são os realizados. Oprofano e insipiente considera os objetos existentes como sendo reais, auto-reais, reais em si mesmos; mas a realidade do mundo objetivo não tem caráterautônomo, senão apenas heterônomo; os objetos não possuem realidadeabsoluta, original, senão apenas realidade relativa, derivada, assim como anossa terra possui luz emprestada pelo sol, ou assim como uma figura refletidano espelho possui realidade derivada do objeto, em sentido oposto, e se refleteno espelho. Nenhum objeto existencial é auto-real, todos são alo-reais, ourealizados.Afirmar que os objetos sejam irreais, puros nadas e simples ilusões, comoafirmam certos sistemas metafísicos, antigos e modernos, é falta de lógica; osobjetos não são reais nem irreais – são realizados, isto é, possuem umarealidade derivada, heterônoma, assim como reflexos num espelho, quedesaparecem no mesmo instante em que a coisa refletente deixa de se refletir.Donde se segue que nenhum indivíduo pode existir por um instante sequer, senão estiver unido ao Universal da essência.A inteligência humana, porém, em virtude da sua relativa imperfeição, cria ailusão de poder existir independentemente do Ser Absoluto; pode mesmodesejar essa existência autônoma, ou pseudo-autônoma, porque a inteligênciaé uma faculdade visceralmente separatista ou egocêntrica; julga possívelestabelecer um reino à parte e ser soberana autônoma nesse reino. Ainteligência é, por sua natureza, centrífuga, rebelde, dispersiva, vivendo nailusão de poder existir e agir separada da Essência Cósmica – como se umaonda do mar pudesse existir sem o mar, como se a luz colorida pudesse existirsem a luz incolor que lhe deu origem e dá continuação.A inteligência é profundamente “narcisista”, auto-adorante – e é precisamentenessa tendência “narcisista” que se baseia a ideia do pecado. Quem peca nohomem é a inteligência, revelada pelo ego, ou persona. Pecado não é possívelsem ilusão, e a ilusão nasce da ignorância. Sendo que a inteligência é semi-ignorante e semiciente, espécie de penumbra ou sem luz, é-lhe possível criar emanter essa atitude separatista, embora a separação real seja impossível semo aniquilamento. Objetivamente, todo o indivíduo está unido ao Universal; massubjetivamente pode o indivíduo sentir-se separado do Universal, que é ogrande TODO, ou Deus.Essa tendência separatista da inteligência relativamente ao TODO Universalrevela-se, cotidianamente, no pendor separatista do ego intelectual comrelação aos outros egos, seus semelhantes. Uma vez que o ego julga poderseparar-se de Deus, e até opor-se a ele, julga-se também autorizado a separar-
  33. 33. se dos homens, ou opor-se aos mesmos. Separatismo na vertical geraseparatismo na horizontal. Falta de senso místico cria falta de senso ético.Quem não se sente harmonizado com o grande TODO, não sente harmoniaentre si e as outras partes desse TODO. Perdido o senso de união com aspartes relativas, que são os outros seres humanos, e até os seres infra-humanos da natureza. A apostasia da mística vertical produz, cedo ou tarde, aapostasia da ética horizontal. Ou, na linguagem do mestre de Nazaré, quemnão ama a Deus com toda a alma, com todo o coração, com toda a mente ecom todas as forças, também não pode amar o próximo como a si mesmo,porque ninguém pode fazer o “segundo” sem fazer o “primeiro”.Por isto, é profundamente ilusório todo e qualquer sistema de educação quetente ser puramente social ou ético, prescindindo do elemento místico.A princípio, todo educador tem a impressão de que educação nada tenha quever com metafísica e mística, que parecem ser ocupação abstrata e longínqua,sem nexo real com a vida humana de cada dia. Enquanto o educador alimentaressa ilusão, não tem base real e sólida para uma educação eficiente.O educador de hoje tem de ser um filósofo, um metafísico, um místico...Para que o educador possa dizer, com segurança, 10% aos outros, deve elepossuir em si mesmo 100% de sabedoria experiencial. Tem de saber muitopara poder dizer pouco. Tem de ter em si um grande capital de reservaexperiencial (90%) para que possa pôr em circulação uma pequena parcela domesmo (10%). Só quem sabe muito, por experiência íntima, é que pode falarcom poder e autoridade, e dizer devidamente o pouco que a prudência lhepermita dizer.O que o educador diz deve ser como que um transbordamento espontâneodaquilo que ele é. O “ser” é a fonte e base do “dizer”.
  34. 34. ESSENCIALIZANDO A EXISTÊNCIAQuase todo o Ocidente vive na ideia de que filosofia tenha que ver com omundo em derredor. Há pouco, quis assistir a um congresso de filosofiareunido numa das nossas grandes capitais; mas não fui, porque verifiquei peloprograma publicado que, nesse congresso de filosofia, se trataria de tudo –menos de filosofia.A filosofia tem por objeto o homem, e não o mundo.Também a religião focaliza o homem, mas fá-lo de outro modo que a filosofia,porque manda que o homem creia numa realidade invisível, a fim de ter aexperiência da mesma após-morte; lida, pois, com argumentos póstumos.A verdadeira filosofia, porém, trata do homem total, no espaço, do homem-razão, do homem-intelecto e do homem-corpo, do homem aqui na terra e emqualquer outro ambiente do universo. O céu ou o inferno do homem podem sercriados agora e aqui mesmo, e são produtos do próprio homem, e nãocreações de Deus.Todo homem bom cria o seu céu agora e aqui, como também para sempre epor toda parte.Todo homem, como já dissemos, é bom em virtude de sua essência divina (oEU), que também se chama alma, consciência ou razão intuitiva. Mas essaessência divina da alma, essa “luz do mundo” pode ser ofuscada pelaexistência humana (o ego). Quer dizer que o homem essencialmente bom podeser existencialmente mau – como também pode ser existencialmente bom. Ogrande erro de muitos teólogos está em confundirem o homemexistencialmente mau com o homem essencialmente mau, aduzindo atépalavras de Jesus para comprovar o seu erro: “Vós, que sois maus...” O divinoMestre fala, nessa ocasião, de homens adultos que, pelo abuso da sualiberdade, se haviam feito existencialmente maus, e não de homensessencialmente maus, que ele ignora totalmente.Toda a verdadeira educação consiste em que o homem faça a sua existência àimagem e semelhança da sua essência; que essencialize a sua existência; queverticalize as suas horizontalidades; que divinize a sua humanidade; que faça oseu externo agir tão bom e puro como é o seu interno ser. Deve o homem fazera sua vivência ética tão boa como é a sua experiência mística.
  35. 35. O principal é que o homem creia em si mesmo, que seja fiel a si mesmo. Énecessário, antes de tudo, que o homem tenha a firme convicção de que hánele um elemento bom, puro, divino, sobre o qual ele possa – e pode –assentar os alicerces do seu edifício ético. Nenhum arquiteto sensato constróium edifício sobre pântano ou areia movediça.Infelizmente, repetimos, a nossa teologia ocidental nega ao educando, etambém ao educador, esse fundamento firme, porque ensina, há séculos, queo homem é essencialmente mau, pecador, negativo, antes mesmo de nascer.Confunde o ego periférico do homem com o seu EU central, cometendo omesmo erro que Tomas Hobbes e outros filósofos empíricos costumamcometer, afirmando que o homem é egoísta por natureza, e egoísta sempreserá; que ninguém o pode “desegoficar”; que todo o chamado “altruísta” nãopassa de um egoísta disfarçado, de um detestável hipócrita, e que os governostêm a única função de manter o inextirpável egoísmo dos indivíduos dentro decertos limites toleráveis, para que possa haver uma relativa paz social. Quem,como esses filósofos, identifica a íntima natureza humana com o seu egoperiférico – físico-mental-emocional – não pode, naturalmente, admitir que hajano homem algo realmente bom, puro e divino.Nós, porém, sabemos, de acordo com todos os grandes mestres dahumanidade, que o homem, na sua íntima essência é bom, uma vez que aíntima essência dele é “ a luz verdadeira que ilumina a todo homem que vem aeste mundo”, e brilha em todo ser que sai das mãos do Criador. “A luz brilhanas trevas, mas as trevas não a prenderam” – a luz da essência divina brilhaem todas as trevas das existências humanas, e também infra-humanas; masnenhuma dessa trevas das existências criadas consegue “prender”, ofuscar,extinguir a luz da essência divina que nelas está.Se o homem fosse essencialmente mau, não haveria nenhuma possibilidadede o tornar realmente bom – nem mesmo o mais divino e poderoso dosredentores o poderia redimir da sua intrínseca maldade e conferir-lhe bondadereal, porque essa “redenção” ou “conversão” equivaleria a uma verdadeira etotal destruição do próprio ser humano, substituindo a sua “essência má” poruma “essência boa”.Ora, à luz da psicologia do Ocidente, da filosofia do Oriente, e à luz do próprioEvangelho de Jesus Cristo, não há nenhuma substituição do homem mau pelohomem bom; há uma conversão do homem existencialmente mau no homemexistencialmente bom, e este processo de conversão é possível unicamentesobre a base do homem essencialmente bom; porquanto, ninguém se podetornar explicitamente o que não é implicitamente, nenhuma semente se podetornar atualmente uma palmeira se potencialmente ela não é palmeira;nenhuma semente se pode tornar atualmente viva se ela não é potencialmenteviva. A transição do estado potencial (implícito) para o estado atual (explícito)
  36. 36. não é uma transição do não-ser para o ser, mas é a transição de um estado deser imanifesto para um estado de ser manifesto; não é uma criação ex nihilo,mas uma revelação de algo, de algo que já existia encoberto, e agora passou aser descoberto. Se o homem pode tornar-se manifestamente bom é prova deque ele, antes dessa manifestação, já era ocultamente bom. Ninguém se tornao que não é!O homem existencialmente bom realiza o feito máximo da sua vida, permeandoa sua vivência humana com a sua essência divina, assim como uma luz internapermeia totalmente de si um límpido cristal colocado diante dela. Secolocarmos uma luz por detrás duma parede opaca, haverá sombra do ladooposto – é o símbolo do homem existencialmente mau que não deixoupenetrar-se pela luz da essência divina que nele está; a sua opacidade é o seugrande pecado, porque ele podia fazer com que essa opacidade profana fossetransparência sagrada. “A luz verdadeira ilumina a todo homem que vem a estemundo – e os que recebem essa luz se tornam filhos de Deus”. A luz divinaestá em todo homem, mas nem todos a “recebem”, nem todos se tornamreceptivos, nem todos fazem-na permear-na e penetrar a sua vida, e por istoficam na sombra da sua culpável maldade.Os nossos teólogos eclesiásticos negam a realidade da luz divina no homem –e isto a despeito das declarações reiteradas e explícitas do divino Mestre e dosseus grandes discípulos. “Vós sois a luz do mundo”, declara Jesus, depois dehaver afirmado “Eu sou a luz do mundo”. Declara que seus discípulos são, nasua essência, a mesma luz divina que ele é. E João Evangelista declara queessa “luz verdadeira”, do divino Lógos (o Verbo) ilumina a todo e qualquerhomem que vem a este mundo.Se não reside no homem nenhum elemento bom, não pode haver verdadeiraeducação, porque “educação”, repetimos, quer dizer “edução”. Educar é eduzir,isto é, conduzir para fora. Só se pode eduzir o que está dentro. Na opinião dosteólogos ocidentais, há indução em vez de edução; o elemento bom deve serinduzido, introduzido, injetado ou impingido ao homem, de fora para dentro,como algo externo e alheio à sua natureza, como um aditamento posterior ouuma substituição. Neste caso, o homem educado se torna bom graças a umainfidelidade a si mesmo; despoja-se do que é dele e recebe o que não é dele,porque, nessa suposição, o elemento bom não existe nele, mas vem-lhe defora, de uma fonte alheia e heterogênea. Assim, como já foi dito, a educação(ou antes, inducação) seria uma adulteração do educando; o homem falsificadoé que seria o homem bom. ***Acham os defensores do homem essencialmente mau que, se admitirmos ohomem essencialmente bom, criamos nele um complexo de orgulho ouautocomplacência, fazendo dele um enfatuado egocentrista, um pelagiano ou
  37. 37. um homem que espera redenção de si mesmo, auto-redenção, em vez de teo-redenção ou cristo-redenção.Cuidado com essa confusão de idéias!Cuidado com essa falsa lógica!Que é auto-redenção?Pode ser uma de duas coisas: ou redenção pelo EGO HUMANO, isto é, pelapersona do ego físico-mental-emocional – ou pode ser redenção do homempelo EU DIVINO nele, por seu Cristo interno, pelo espírito de Deus que nelehabita, redenção por sua alma crística. Neste último caso, auto-redenção é teo-redenção, cristo-redenção. E é precisamente nesse sentido que entendemosauto-redenção, a redenção do homem pelo elemento divino nele existente,embora em estado dormente e embrionário. Despertar no homem esseelemento divino é redimi-lo e é educá-lo. É este o único caminho certo parauma verdadeira educação: despertar, desenvolver e eduzir do homem essa luze essa força divina até que ela penetre todas as trevas do ego humano.É visceralmente falsa e funesta a psicologia e pedagogia que procuram dar aoeducando uma ideia baixa de si mesmo, um auto desprezo, na intenção de olevar à humildade e ao desejo de ser remido por Deus. Humildade não édesprezo de si mesmo. Humildade é a verdade sobre si mesmo. Redenção defora é impossível quando por dentro não existe um elemento redimível. Com omelhor adubo do mundo o calor solar mais propício não se pode fazer brotaruma semente se dentro dela não existe um princípio vital. Só se podevitalizar o que é vivo. Ninguém pode criar vida, só podemos despertar a vida jáexistente em estado de dormência.Quem não supõe bondade dormente no educando não o pode tornar bom,porque ninguém se torna explicitamente o que não é implicitamente. “Se o olhonão fosse solar”, diz Goethe, “jamais poderia contemplar o sol”. Da mesmaforma, se a alma humana não fosse crística por sua natureza, ninguém opoderia cristificar; se ela não fosse divina por natureza, jamais poderia serdivinizada; se ela não fosse espiritualmente viva, ninguém a poderia vitalizarem espírito; se a alma não tivesse dentro de si um princípio de santidade,ninguém a poderia santificar.Educar é, pois, eduzir de dentro do educando e desenvolver uma bondade, umser-bom, que nele existe, embora ainda em estado latente e embrionário.Dizer que esse despertamento da bondade dormente no ser humano favoreceo orgulho dele é não saber distinguir o ego periférico (persona, intelecto) e oEU central (indivíduo, razão) do homem. A alma não pode ser orgulhosa,egoísta, porque ela é Deus no homem; só o lúcifer do intelecto é que ésusceptível de orgulho, egoísmo e qualquer outro pecado. Quem ultrapassa o
  38. 38. seu ego personal ultrapassa a sua pecabilidade e entra na zona daimpecabilidade.“As obras que eu faço não sou eu (meu ego humano) que as faço, mas é o Pai(meu EU divino) que as faz em mim” (jesus).Quando Pedro curou aquele paralítico à porta do templo de Jerusalém, comoreferem os Atos dos Apóstolos, o povo o encarava, estupefato; o apóstolo,porém, longe de atribuir a seu ego humano esse prodígio, fez ver ao povo queo autor dessa cura era o espírito do Cristo que dele se servira como simplesveículo.Quem sente orgulho ou vanglória em face de algum ato bom prova que aindavive na ignorância de si mesmo, que ainda não é bom, mas apenas faz o bem.O maior dos ateus pode fazer o bem, apesar de não ser bom; pode fazer umbem material com o que tem, mas não um bem espiritual com o que é.É, pois, necessário que o educador conheça, antes de tudo, a si mesmo, a fimde poder contribuir para dar a seu educando a verdadeira noção do mesmo.Para ser bom educador, é necessário que o homem seja “educado”, isto é, quetenha “eduzido” de si mesmo o elemento bom que em todos existe.
  39. 39. A SABEDORIA DOS GRANDES EDUCADORESEscreve o insigne Albert Schweitzer que nossa teologia cristã criou umaespécie de soro que, uma vez injetado ao homem, o imuniza contra o espíritodo Cristo; de tão saturado de cristianismo (do “nosso” cristianismo), julgasupérfluo o Cristo.Mahatma Gandhi fez idênticas experiências com os missionários cristãos quetentavam convertê-lo ao nosso cristianismo; a todos eles respondia o grandelíder político e espiritual da Índia: “Aceito integralmente o Cristo e seuEvangelho, mas não aceito vosso cristianismo”.Sobretudo no setor educacional se verifica essa substituição do Cristo pelocristianismo, do Evangelho pela teologia.O Evangelho do Cristo, vivido em sua verdade e pureza, oferece a melhor basepara a educação. Antes de tudo, revela Jesus uma profunda reverência pelanatureza humana. Para ele, não existe criança concebida em pecado; todohomem é essencialmente bom e puro, a princípio; só mais tarde se torna maupelo abuso da sua liberdade. Não encontramos nas páginas do Evangelho umaúnica palavra de Jesus que justifique a ideia teológica do “pecado original”.Essa ideologia nasceu fora do Evangelho e foi, mais tarde, introduzida nelepelos teólogos cristãos. Já aparece nos últimos quatro séculos do AntigoTestamento, no seio da sinagoga de Israel decadente. Pelo ano 400 antes daera cristã, faleceu Malaquias, o último dos profetas de Israel, e nos quatroséculos subsequentes os sacerdotes hebreus tomaram a direção espiritual dopovo. Mas a orientação sacerdotal era visceralmente legalista; segundo eles, asalvação vinha da aceitação e aplicação de certas fórmulas rituais; era a letrada lei que salvava o homem, e não o seu espírito.Durante esse período de decadência surgiu na sinagoga a doutrina de que ohomem é mau e pecador por natureza e que só a lei o pode libertar do pecado.Foi divinizada a Lei, e, para que a Lei tivesse o máximo de prestígio e poder, foio homem reduzido ao mínimo, declarado pecador em virtude de sua próprianatureza; e assim o nadir da natureza humana elevava ao zênite a força da Lei.Mais tarde, no início da era cristã, foi a Lei substituída pelo Cristo, mas oparalelismo continuou: para que o Cristo tivesse o máximo de valor, foi o
  40. 40. homem reduzido ao mínimo do desvalor – surgiu a paradoxal ideologiateológica do “homem pecador”, a teoria do “pecado original”.Jesus não aceita essa doutrina. Para ele, o reino de Deus está dentro dohomem, e só dentro é que ele pode vir e manifestar-se na vida humana. “Oreino de Deus não vem com observâncias (externas, rituais), nem se podedizer: ei-lo aqui! ei-lo acolá! – o reino de Deus está dentro de vós”. Com estaspalavras categóricas reafirma o Nazareno a verdade antiquíssima, mas no seutemplo obliterada, de que o homem é remido pelo elemento divino que neleexiste em virtude da sua própria natureza.Bem cedo, porém, já no primeiro século, penetrou no corpo do cristianismoprimitivo o elemento judaico sobre a essencial pecaminosidade do homem, fatoque se explica pela circunstância de terem os primeiros líderes da igreja cristãvindo do judaísmo, introduzindo inconscientemente no cristianismo nascentecertas ideologias da sinagoga. A ideia da essencial maldade do homem deu aocristianismo primevo, e posterior, um colorido dualista e pessimista, influindoprofundamente no conceito do processo da redenção.Jesus, porém, não sucumbiu a essa ideologia, razão porque seincompatibilizou com os chefes da sinagoga ao ponto de o levarem à cruz.Um dia, refere o Evangelho, estavam os discípulos do Nazareno discutindosobre quem deles era o maior no reino de Deus; e cada um deles fazia valer osseus pretensos títulos e direitos a essa primazia. Ao que o Mestre chamou umacriança, colocou-a no meio dos litigantes ambiciosos e disse-lhes: “Se não vosconverterdes e tornardes como esta criança, não entrareis no reino dos céus”.É evidente que Jesus considera essa criança como habitante do reino de Deus;pois seria absurdo supor que ele propusesse um modelo impuro aos impuros.Essa criança, porém, não fora “purificada” por nenhum rito legal ousacramental, que não existia; era pura assim como nascera e fora concebida;nunca tivera impureza alguma. Exige Jesus que seus discípulos, feitos impurospor culpa própria, se tornem puros por esforço próprio, assim como aquelacriança era pura por sua própria natureza.Em outra ocasião ameaça Jesus com terrível castigo àqueles que levarem apecado um daqueles pequeninos que creem nele, porque os seus anjoscontemplam sem cessar a face do Pai dos céus. Ora, nenhuma dessascrianças hebréias “cria” em Jesus mediante ato consciente de fé; ninguém oconhecia; o Nazareno era para elas apenas um bom rabi judeu, e nada mais. O“crer” dessas crianças não era um ato, mas uma atitude interna, um modo deser em harmonia com Deus – o que prova que essas almas eram boas e puras,e não pecadoras e inimigas de Deus. Também seria absurdo supor que osanjos de Deus tanto se desvanecessem pela proteção de um bando de
  41. 41. pequenos pecadores. E como podiam os pecadores adultos levar ao pecadoessa crianças se elas já estivessem em pecado?..Por esta mesma razão também não mandou Jesus batizar crianças, e o próprioJoão só batizava adultos. O batismo de João, a que Jesus alude, só visavapecados pessoais, e não algum pecado original que os batizandos tivessemherdado de seus antepassados, como a teologia de hoje ensina.Sobre esta base positiva do Evangelho de jesus Cristo é possível erguer oedifício de uma educação sólida – ao passo que a teologia eclesiásticacorrente, quer desta, quer daquela igreja, é totalmente inapta para oferecerbase conveniente.O descalabro da nossa educação tem suas raízes em séculos anteriores. Aquino Brasil começou em 1500, mas em outras partes começou muito mais cedo,talvez em 313, quando, pelo edito de Milão, o imperador pseudo cristão,Constantino Magno, deu início à substituição do Evangelho do Cristo pelateologia dos cristãos.Se não voltarmos decididamente ao espírito crístico do Evangelho, nãoteremos base eficiente para uma nova educação. Teremos a coragem derealizar tão arrojada aventura? E teremos do nosso lado as autoridadespúblicas, que em geral, não se interessam pela qualidade do cristianismo, massim pela quantidade dos eleitores que lhes garantam poder e prestígio social epolítico?Necessitamos de um pugilo de heróis para realizar o grande ideal de uma novaeducação.
  42. 42. OS MALES DA EDUCAÇÃO ESCATOLÓGICAUma das principais razões por que a nossa educação chamada religiosa setornou eticamente ineficiente é o seu caráter escatológico, quer dizer, a falsaconcepção do homem após-morte. É sobretudo neste ponto que estamosnavegando em águas tipicamente medievais, quando bem poderíamos ter davida futura concepção menos infantil e inadequada.Um dos setores da teologia eclesiástica do Ocidente, o mais conhecido entrenós, ensina que, após a morte física do homem, vai sua alma (não ele!) paraum de dois lugares definitivos que existem no “outro mundo”: céu ou inferno; ouentão para o purgatório, lugar provisório onde a alma deve expiar os pecadosveniais, como também as penas temporais dos pecados mortais, cuja culpa epena eterna já foram canceladas antes da morte.O outro setor da teologia eclesiástica ensina o mesmo quanto a céu e inferno,negando apenas a existência de um lugar provisório de purificação.Tomando por fundo qualquer uma dessas concepções teológicas, torna-seassás difícil a tarefa da educação. O único elemento razoável que existenessas ideologias é o do purgatório – mas, por infelicidade, é precisamenteesse fator que foi abolido pelo protestantismo, e é relegado a segundo planopela teologia romana. Nenhuma dessas teologias se guia por um espírito deverdadeira e genuína “catolicidade”, palavra grega para “universalidade”.Neste particular, o espiritismo cristão deu um grande passo para frente, nãoensinando pecado herdado de terceiros, mas pecado herdado do própriopecador e cometido em existência anterior. Embora não consideremos oespiritismo como sendo simplesmente como idêntico ao cristianismo do Cristo(o qual, aliás, é inorganizável, porque toda organização é filha do egoísmo!),admitimos, contudo, que ele contribuiu e com preciosos elementos para aevolução espiritual do Evangelho do Cristo. A sua doutrina escatológica é bemmais aceitável e fornece melhor base educacional do que os dois tipos decristianismo acima mencionados. Deixando de parte a tendência sectária edogmatizante que invadiu vastas camadas do espiritismo brasileiro, achamosque esse movimento, no seu plano superior, asectário, poderá prestar notáveisserviços à cristificação do nosso tradicional cristianismo.
  43. 43. Nem a razão humana nem a revelação divina admitem a idéia de que ohomem, com a perda de seu corpo material, entre num estado definitivo. Tantoos fatos históricos milenares como também a psicologia abismal dos nossosdias provam o contrário. A evolução do homem não termina com 50, 80 ou 100anos de vida terrestre. Mesmo não admitindo a teoria da reencarnaçãomaterial, somos obrigados a aceitar que “há muitas moradas na casa do Paiceleste”, isto é, muitos estados nos quais o ser humano possa fixar morada oupermanência temporária, na sua longa jornada rumo a Deus. E como “cada umcolherá o que semeou”, é evidente que o homem colherá cada vez, naexistência subsequente, o que semeou na existência antecedente. A lei básicade “causa e efeito” (karma) abrange todos os setores do universo individual. AConstituição Cósmica não permite que o homem, após-morte, perca a sua linhade continuidade com a vida presente, que deixe de haver homogeneidade entreessa fases várias de existência única. Não há “outra vida”, há uma vida únicaem diversas fases de evolução – assim como acontece em outros setores danatureza; a vida da borboleta é essencialmente a mesma que a vida dacrisálida, da lagarta e do ovo; apenas os graus de vitalidade e as formas demanifestação dessa única vida são vários. Também a vida da planta éessencialmente idêntica à vida da semente que lhe deu origem, ou ainda dasemente produzida por essa planta.Essa lei da continuidade da vida em diversas fases é de suma importância parao problema da educação.Segundo as teologias eclesiásticas, pode um homem levar 50 anos de vida empecados e crimes, aqui na terra, e logo após a morte física estar isento detodos os efeitos dos seus atos – seja em virtude de uma absolviçãosacramental, seja em consequência de um momentâneo ato de fé no sangueredentor de Jesus.Ora, é evidente que, neste caso, não existe proporção alguma entre causa eefeito, entre a gravidade da culpa, por um lado, e a função da absolviçãosacramental ou da fé fiducial, por outro. E essa flagrante desproporção entre odébito e o seu cancelamento gera nos que adotam essas teologias um estadode indiferença ou leviandade relativamente ao verdadeiro caráter do pecado oudelito; pois, se tão fácil é a libertação do débito moral contraído, por que deixarde o contrair, quando, em geral, a criação desse débito da culpa se acha ligadaa um gozo de maior ou menor intensidade? Se posso roubar, matar, mentir,defraudar, e gozar das vantagens imediatas desses pecados, porque nãopraticar esses atos e gozar das suas vantagens, se, na fração de um minuto,poderei libertar-me, mais tarde, dos efeitos ingratos que decorrem dessascausas? Se tão fácil é o rompimento dos elos da cadeia kármica dos meus atosnegativos, porque ainda envidar ingentes esforços por evitar a criação dessacadeia, resistindo à tentação de roubar, matar, mentir, defraudar, etc. ? Não meaconselha a “lei do menor esforço” escolher o mais fácil, que, neste caso, é
  44. 44. cometer o pecado e libertar-me das suas consequências por meio de ummomentâneo ato de arrependimento posterior – tanto mais que a resistência aomal é, não raro, tão tremendamente difícil e doloroso? Porque não corrigir omal por um ato fácil de arrependimento, em vez de o prevenir por uma atitudedifícil de não-cometimento?No plano biológico, quase todas as pessoas, sobretudo aqui no Brasil, adotamessa política de corrigir os males físicos, em vez de se guiarem pela filosofia deos evitar. Todos os meios de publicidade – imprensa, rádio, televisão –apregoam sem cessar esse charlatanismo barato do corrigir em vez deprevenir. Você está com dor de cabeça? Tome um comprimido “A”. Está comazia de estômago ou má digestão? Ingira a droga “B”! Sofre de inapetência? Váa drogaria da esquina e compre o aperitivo “C”! É vítima de astenia sexual?Tome a injeção “D”!Não é esta a política doentia de suprimir sintomas que quase todo o mundopratica, em vez de seguir a filosofia sadia de prevenir as causas dos males?Infelizmente, as nossas organizações religiosas cometem o mesmocharlatanismo moral ou imoral, ensinando a seus adeptos o modo de selibertarem dos efeitos dos seus pecados, em vez de lhes mostrar comoevitarem as causas desses efeitos, o que seria cura do mal, e não apenas curade sintomas do mal.Esse caráter deletério e antimoral adere, sobretudo, à prática rotineira daconfissão sacramental. Suponhamos um jovem de 20 anos, tentado de cometerpecado de homossexualismo, ou pessoa casada tentada de adultério; pode serdificílima a resistência ao pecado. Mas, se a pessoa sabe que, depois decometido o pecado, pode libertar-se dele confessando-se rapidamente, edepois continuar a viver como se nada tivesse acontecido – quem nãoescolheria esse caminho mais fácil, em vez de criar dentro de si uma altavoltagem de resistência moral?Esse infeliz costume de dizermos aos pecadores que, depois de perdoado opecado – seja pela confissão, seja por um ato de fé –, eles se tornaram tãopuros como antes, esse costume, além de envolver grande mentira, é umdesastre psicológico e educacional. Não é verdade que, depois de um simplesato de arrependimento, o pecado seja totalmente cancelado, como se não foracometido. De cada ato mau permanecem resíduos venenosos nas profundezasda alma, facilitando novas quedas e colocando o pecador habitual numperigoso plano inclinado, onde futuras recaídas se tornam cada vez maisfáceis, e futuras resistências se tornam cada vez mais difíceis. A palavra “vício”vem de “vez” (vezo!); “vício” é uma atitude negativa, permanente, que resultoude muitas “vezes” de atos repetidos. Um jovem que cedeu 100 vezes aopecado de luxúria, e 100 vezes se confessou e arrependeu desse pecado, nãoestá puro como no princípio; está gravemente contaminado, pelo menos nas

×