Masculinidades - Mariana Ghetler

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Masculinidades - Mariana Ghetler

  1. 1. Introdução No Brasil, é importante perceber que são poucos os estudos sobre amasculinidade, como ela é construída individualmente, suas características primordiais,e onde elas se manifestam no dia a dia. Pensando numa frase de Maciel Jr. (2006), “Muito além do sexo, os homens nãonascem homens, tornam-se homens” (p. 9) é importante relembrar que a mesma coisaque Simone de Beauvoir afirma para as mulheres, vale também para os homens: amasculinidade mantém-se em constante movimento e isso não apenas diferencia umamulher de um homem, mas um homem de outro. Além disso, não é a característicafísica que miraculosamente dá ao homem biológico, ou ao homem transexual (por maisque as bases biológicas da transexualidade estejam sendo ainda confirmadas) suamasculinidade: ela é construída, muito além do que o biológico apresenta oupotencializa. É relevante também ressaltar que a masculinidade hegemônica perpassa asmasculinidades subordinadas: cada indivíduo constrói-se a partir de uma história devida durante o desenrolar de seu ciclo vital, dos acontecimentos sócio-econômicos ehistóricos e da cultura inserida em determinado espaço geográfico. Segundo Connelll (apud Maciel Jr.,2006) “masculinidade hegemônica pode ser definida como a configuração de uma prática de gênero que incorpora a resposta aceita ao problema de legitimidade do patriarcado, que garante (ou que se ocupa em garantir) a posição dominante dos homens e a subordinação das mulheres” (p. 55) Portanto, a masculinidade hegemônica refere-se a uma dinâmica cultural pelaqual um grupo exige e sustenta uma posição de poder na vida social. Ela constrói-se narelação com outras masculinidades e feminilidades, submetendo-as e dissimulando-as.Há masculinidades dominantes, ou seja, consideradas hierarquicamente superiores, eoutras cúmplices, subordinadas ou marginalizadas, que são transformadas em duvidosase desprezíveis. A masculinidade hegemônica refere-se ao homem “normal, verdadeiro”, viril naaparência e nas atitudes, não efeminado, ativo e dominante. Segundo Connell (1995) asoutras masculinidades todas, como a gay e a transexual, por exemplo, sãomasculinidades subordinadas. 1
  2. 2. De acordo com Maciel Jr. (2006) a “masculinidade hegemônica é um modelodificilmente alcançado por todos os homens, embora tenha ascendência sobre os demaismodelos” (p.60). Oliveira (2004) afirma que a masculinidade “(...) destacou-se como valor básico sobre o qual a sociedade burguesa construiu sua auto-imagem. Os “desviantes” forneciam o modelo às avessas, “contratipo” que figurava a antinorma, o antiparadigma do homem burguês.”(p.78) Esta pesquisa se propõe a investigar como a masculinidade é construída porhomens transexuais, homo e heterossexuais, para que se possa refletir sobre como amasculinidade hegemônica permeia os ideais e o imaginário social. A compreensão dasarticulações e negociações entre a masculinidade hegemônica e as subordinadas aolongo da história dos participantes permitirão uma reflexão sobre as comunalidades ediferenças entre eles. Podemos evidenciar que a relação entre masculinidade e homoafetividade muitasvezes é deixada em detrimento da não-relação entre sexualidade e gênero, que muitasvezes é abordada na literatura queer, como é o caso de Sullivan (2003) ou Jagose(1996).Porém é algo que devemos nos deter de modo a comprovar ou modificar taisafirmações, de modo a entender melhor como esta relação (se é que ela existe) ocorre. A partir de pesquisas anteriores (Carvalho, Lopes e Ghetler, 2008; Bento, 2006)verificou-se também que o tema da transexualidade é muito pouco abordado pelaPsicologia. Faltam principalmente conhecimentos acerca dos homens transexuais(pessoas com o sexo feminino e gênero masculino), que são menos evidenciáveisdevido à dificuldade da cirurgia de transgenitalização (pelo risco que ela traz de umprocesso de necrose do neo-falo, e pelo preço). De acordo com Saadeh (2004) elestambém são minoria se comparados às mulheres transexuais (pessoas com o sexobiológico masculino e gênero feminino), numa proporção que varia mundialmente de1:1 a 1:4. Para entendermos do que se trata o trabalho, é preciso explicar alguns conceitoschave que irão nortear a pesquisa. A transexualidade de acordo com Bento (2008) é a “Dimensão identitária localizada no gênero, e se caracteriza pelos conflitos potenciais com as normas de gênero à medida que as pessoas que a vivem reivindicam o 2
  3. 3. reconhecimento social e legal do gênero diferente ao informado pelo sexo, independentemente da cirurgia de transegenitalização” (p. 144). Ou seja, é um fenômeno que se origina da dissonância entre o sexo biológico e aidentidade de gênero de um indivíduo situado em determinada sociedade em um dadomomento histórico e situação geográfica. Por esta razão diferencia-se do travesti, que deacordo com Kulick (2008), as travestis “consideram sinal de psicose o caso de homensque pretendem ser mulheres” (p.102), ou seja, por mais que mudem sua aparência parauma que denuncia traços das normas de gênero oposto ao sexo, não sentem-se emdiscrepância com seu sexo biológico. Também se diferenciam dos homossexuais, pois,como Rubin (1989) afirma, sexualidade e gênero são âmbitos completamente diferentese se a escolha de um indivíduo é homoerótica não significa necessariamente que suascaracterísticas de gênero irão se alterar. Essas confusões entre travestis, gays etransexuais sempre foram muito comuns, pois como cita Bento (2006) apenas nasdécadas de 60 e 70 eles foram diferenciados pela Ciência e muitas dúvidas e preconceitoainda se mantêm. O fenômeno da transexualidade é bastante incomum na sociedade ocidental, econsiderado pela medicina como expressão de gênero não pertencente à normalidade.Por isso pode ser encontrado inclusive no DSM-IV pelo termo de transtorno deidentidade de gênero e transexualismo, no CID-10. É importante perceber que háintersecções entre a Psicologia e a Medicina na busca de compreensão do fenômenotransexual. Grande parte dos psicólogos referem-se ainda ao fenômeno com o termotransexualismo, e chamam os indivíduos com esta característica de transexuaismasculinos, quando o sexo biológico é masculino e vice-versa, dando maior ênfase aocorpo biológico e não ao gênero. No entanto, se formos observar o fenômeno transexual com as/os próprias/ostransexuais e alguns psicólogos com quem se entrou em contato, percebe-se que nãonecessariamente os próprios transexuais vão se auto-denominar desta forma. Aliás,preferem ser chamados pelo gênero que assumem, minimizando a importância dopróprio corpo. Foi por este motivo que neste trabalho foi utilizada a denominaçãohomem transexual, para respeitar os colaboradores da pesquisa e percebê-los comorealmente são ou como querem se tornar. 3
  4. 4. É também importante salientar que, como Bento (2008) afirma, nãonecessariamente estes indivíduos vão ter desconforto com seu próprio corpo; existemtransexuais que preferem não fazer a cirurgia de re-designação sexual como podemosperceber de P. (Carvalho, Lopes e Ghetler, 2008), uma mulher transexual com a qualentrou-se em contato para pesquisas anteriores, que afirma que, por não ser mais tãojovem, e pelo fato de que é algo muito íntimo com que não deixa ninguém ter contato,não mudaria em seu corpo. Porém o nome é algo extremamente importante para ela,pois só dessa forma ela pode exercer sua profissão. Sendo que obteve muitos feitos coma identidade masculina, dos quais é muito orgulhosa, na arquitetura, só pode recobrá-losapós sua alteração de nome. Outro caso é de E., que logo ao falar com seu psicólogo, no começo da transição,avisou-o de que não faria a cirurgia, pois não sentia isso como necessidade e nãopercebia sua genitália como parte integrante de um gênero específico ou não. Oito anosdepois, é uma mulher em aparência que vive com seu marido e filhos (filhos seus comoutra esposa) e continua sem ter feito a cirurgia. Considera-se mulher como qualqueroutra. Preferiu-se, portanto, utilizar a denominação de Bento (2008) de transexualidadepor ser mais generalista e, assim, não descartarmos sujeitos que fogem às regrasdiagnósticas, mesmo que a característica fundamental da transexualidade, aincongruência de sexo e gênero e o possível sofrimento a respeito das normas sociaisassociadas ao sexo biológico também se encontre nos manuais diagnósticos. É crucial pensar na homoafetividade aqui como sendo apenas o fato de alguémde um gênero específico sentir-se atraído emocionalmente por alguém do mesmo gêneroque o seu, visto que existem variações sobre o que a homoafetividade significaenquanto sexualidade, gênero, e o efetuar deste desejo ou não. Desta forma, nasentrevistas, foi respeitado o critério dos entrevistados, de modo a perceber da formamais concreta o que isto significa para eles. É importante também diferenciar sexo e gênero, pois em grande parte da história,acreditou-se que os dois necessariamente andavam de mãos dadas e isso não é completamenteverdadeiro. O sexo de um indivíduo é atribuído pelas bases biológicas cientificamente formuladas.Isso implica atualmente nos caracteres sexuais presentes, sendo eles primários (gônadas, órgãossexuais tais como pênis, útero e caracteres genéticos) e secundários (protusão de mamas, 4
  5. 5. localização de depósitos de gordura, localização de pêlos, densidade óssea, diferença dequantidade de hormônios sexuais tais como progesterona, testosterona, estrógeno, entre outros). Já gênero é uma denominação criada nos entremeios dos movimentos feministas paradesignar, de acordo com de Barbieri (1990) “el sexo socialmente construído” e “En otras palabras: los sistemas de género/sexo son los conjuntos de prácticas, símbolos, representaciones, normas y valores sociales que las sociedades elaboran a partir de la diferencia sexual anátomo-fisiológica y que dan sentido a la satisfacción de los impulsos sexuales, a la reproducción de las especie humana y en general al relacionamiento entre las 1 personas”. (p.100) Com essa frase, entende-se que gênero é o sexo socialmente construído: refere-se arelações de poder (homem-homem; mulher-mulher; homem-mulher) que se inscrevem numdeterminado momento histórico e espaço geográfico. Articula-se com outras desigualdadescomo as raciais, étnicas, geracionais, de nível sócio-econômico, etc, como se refere Connelll(2000) ao dizer que essa bimodalidade é construída socialmente, mantendo-se apenas pelasrelações de poder, que são veiculadas por práticas e discursos nem sempre coincidentes.Beauvoir (apud Bento, 2006) completa: “em verdade, basta passear de olhos abertos para comprovar que a humanidade se reparte em duas categorias de indivíduos, cujas roupas, rostos, corpos, sorrisos, atitudes, interesses, ocupações são manifestadamente diferentes”(p. 71) De acordo com Scott (1986), o gênero é uma forma primária de dar significado às relaçõesde poder. Só se dá na relação, ou seja, não há a feminilidade sem a masculinidade, além de quenão há subordinado sem o subordinador, e vice-versa. É de forma dinâmica que se dão asrelações de gênero e subseqüentemente os papéis de gênero. Rubin (1989), afirma que sexualidade e gênero são âmbitos separados, ou seja, asexualidade é um âmbito completamente diferente e deve ser analisada independente dacategoria de gênero. Isso contribui muito para entendermos, por exemplo, o caso de um1 “Em outras palavras: os sistemas de gênero/sexo são os conjuntos de práticas, símbolos, representações,normas e valores sociais que as sociedades elaboram a partir da diferença sexual anatomo-fisiológica eque dão sentido à satisfação dos impulsos sexuais, à reprodução da espécie humana e em geral para orelacionamento entres as pessoas” 5
  6. 6. transexual que possui uma escolha homo-afetiva ( ou seja, deseja pessoas com o mesmo gêneroidentitário que o seu). Mais recentemente surge Judith Butler (1993) que afirma veementemente que aconstrução de gênero na ótica feminista acompanhou o sexo biológico para fazer uma leituracrítica da situação da opressão feminina, e isso na verdade foi inclusive moldado numaconstrução já autorizada socialmente, e tão imperceptível quanto a própria linguagem. Comocomenta em seu livro “Bodies that Matter: on the discursive limits of ‘sex’ “: “It seemed to many, I think, that in order for feminism to proceed as a critical practice, it must ground itself in the sexed specificity of the female body. Even as the category of sex is always reinscribed as gender, that sex must still be presumed as the irreducible point of departure for the various cultural constructions it has come to bear. And this presumption of the material irreducibility of sex has seemed to ground and to authorize feminist epistemologies and ethics, as well as gendered analyses of various kinds. In an effort to displace the terms of this debate how and why “materiality” has become a sign of irreducibility, that is, how is it that materiality of sex is understood as that which only bears cultural constructions and, therefore, cannot be a construction?” (1993, p. 28)2 E assim, pode-se perceber que gênero, assim como todos os constructos subjetivos, éformulado socialmente. Na transexualidade isso é importantíssimo, pois o gênero nãoacompanha o corpo e a vivência transexual é então possível e não patológica, pois não se fundano corpo e sim na experiência descrita por Bento (2008) como “experiência identitáriacaracterizada pelo conflito com as normas de gênero”(p. 15). Mas então o que seriam estasnormas de gênero, que delimitam possibilidades de ser e estar não apenas de transexuais, mas dequalquer ser humano? À feminilidade foram atribuídas tradicionalmente características como a sensibilidade ea emoção aflorada, a fragilidade (“em uma mulher não se bate nem com uma rosa”), a falta oudéficit de uma razão lógica, uma beleza construída através de valores que mudam com a “moda”(hoje, é ter cabelos compridos, repicados, soltos e lisos; na Idade Média era tê-los sempre presos2“ Parece para muitos, eu acho, que para o feminismo continuar sendo uma prática crítica, ele precisou sefirmar na especificidade sexuada do corpo feminino. Mesmo a categoria de sexo sempre ter sido inscritacomo gênero, aquele sexo ainda precisa ser o ponto irredutível de partida de várias construções culturaiscom as quais teve de lidar. E essa presunção da irredutibilidade material do sexo parece ter dado chão eautorizado as epistemologias e éticas feministas, assim como análises de gênero de vários tipos. Em umesforço para retirar os termos deste debate de como e por que a “materialidade” chegou a ser um sinal deirredutibilidade, isso é, como a materialidade do sexo é entendida como aquela que só se dá comconstruções culturais e, portanto não pode ser uma construção?” 6
  7. 7. em coque ou debaixo de panos e chapéus, e de preferência, com cachos; hoje é importante ovalor da magreza e da proeminência de seios e glúteos; nas sociedades feudais era importante aopulência, para significar riqueza). Segundo Bandeira (1999) “ser mulher, ter um corpo de mulher em nossa sociedade significa responder a uma série de apelos que o ideário da cultura estabeleceu – ter um corpo dócil, desejante, harmonioso, uma sexualidade sadia, e, ao mesmo tempo, estar inserida num sistema pautado pela subordinação, submetido às práticas sexuais normativas (procriação)” (p. 191). A Psicanálise, como outras abordagens em Psicologia, pode ser considerada comoexemplo de difusor deste valor, como indicam a resolução bem sucedida do complexo de Édipoe da fase genital da mulher. Freud deu à mulher permissão ao orgasmo, embora apenas aovaginal. Segundo Hime(2004), “As diferenças de gênero têm raízes históricas em formas e estruturas de relacionamento segundo as quais os homens têm maior status que as mulheres. No passado elas dependiam dos homens para definir suas identidades e organizar sua vida e era esperado que fossem subservientes e atentas a eles. Os homens eram considerados a autoridade legítima na casa e era esperado que mantivessem sua posição, que dessem proteção a seus dependentes e evitassem a vulnerabilidade emocional. Embora os ideais de relacionamento tenham mudado, muitos estereótipos de gênero persistem. Influenciam nosso comportamento, principalmente quando ficam invisíveis”(p. 11). Assim como maior status, eles devem também ter maior controle emocional, já que aexpressividade seria característica das mulheres: tornar-se homem implica, ainda nos dias dehoje, em diferenciar-se das mulheres e dos gays. “Homem não chora” é um ditado popular querevela a imagem de homem presente no imaginário social: o dono da razão, da frieza e dadureza, capaz de controle e domínio. Além disso, seu corpo também é regulamentado. Devem ser brutos, resistentes eesculpidos para qualquer combate que tiverem, seja nas grandes empresas, com ternos, 7
  8. 8. gravata e ombros largos, ou com músculos para a batalha física de uma guerra, contraoponentes que não lhes darão trégua. A masculinidade então é percebida como oposta ecomplementar à feminilidade: o masculino é viril, contém a força, dá grande valor àpenetração, é demonstrativo (no sentido que só existe ao demonstrar-se em relações), seutiliza sempre da razão, acredita num poder centralizado (falo), situa-se no mundopúblico, preza a individualidade, a produção, a atividade e a agressividade. São estesvalores que, de acordo com Maciel Jr (2006) vão servir como modelos do que oshomens devem ser e como devem se relacionar, sejam eles homens transexuais ouhomens biológicos: o gênero revela-se nas práticas e nos discursos, e manifesta-se porexemplo na relação do indivíduo consigo, com pessoas do mesmo ou do outro sexo,com os filhos, com a família, com a sociedade e suas normas, regras e valores, navivência da sexualidade, etc. A partir desta rápida contextualização que buscou oferecer uma compreensão ainda quesintética do âmbito no qual está inserido o problema de pesquisa, apresenta-se a seguir oobjetivo e a justificativa.Objetivo: O objetivo deste estudo é compreender como são construídas e expressas asmasculinidades de homens homo, hetero e transexuais, utilizando-se o conceito degênero. Este permite uma forma plural de pensar, o que será valioso para que se possarefletir sobre as articulações entre a masculinidade hegemônica e as subordinadas. Será dada atenção às intersecções entre o aspecto biológico, o pessoal e o socialna construção da subjetividade, priorizando-se um olhar atento à complexidade do temaabordado.Justificativa Pretende-se com esse trabalho não apenas contribuir para ampliar oconhecimento relativo às relações de gênero e à sexualidade, mas também gerarinformações que possam embasar intervenções psicológicas que visem a promoção desaúde, a prevenção de dificuldades pessoais e relacionais e a psicoterapia. Os homens transexuais muitas vezes não têm acesso a informações acerca de suacondição e das complexidades que a envolvem, vivenciando dor e sofrimento numa 8
  9. 9. sociedade a que não sentem pertencer e que não os aceita nem como homens, nem comomulheres. Grande parte das pesquisas realizadas com homens diz respeito à área médica emuitas vezes não revelam sensibilidade às suas questões psíquicas. Esta pesquisapretende dar voz aos participantes homo, hetero e transexuais, possibilitando maiorcompreensão sobre as intersecções entre sexo e gênero nas diferentes formas deexpressão da masculinidade. Sendo o psicólogo um agente ideológico, esta é uma oportunidade para que aaluna-pesquisadora reflita sobre a atuação psicológica nos vários âmbitos (clínica,pesquisa, institucional, hospitalar, educação, etc) a fim de desenvolver a atenção e umolhar crítico à interferência dos valores e ideologias no “fazer Ciência”. Dessa maneirapoderá contribuir para dar visibilidade às desigualdades de gênero, concorrendo paratransformações no âmbito da subjetividade, assim como no social mais amplo. Desta forma, nos deteremos no primeiro capítulo no histórico sobre amasculinidade, de modo a entender como ela se moldou ao longo dos anos para setornar hoje o que vemos em nosso cotidiano. Neste capítulo foi feito uma revisãobibliográfica sobre a masculinidade em vários contextos históricos e alguns culturais,como a Idade Média na cultura japonesa e árabe, também formadoras da visão atual damasculinidade brasileira. No segundo capítulo, iremos trabalhar com as relações em que a masculinidadese mostra, de modo a destrinchá-la enquanto característica relacional. São relaçõescomo o homem e sua sexualidade ou seu trabalho os refúgios da masculinidadeindividual e coletiva ao mesmo tempo, e pretende-se neste capítulo explorar estacaracterística masculina de modo sintético na bibliografia disponível. O terceiro capítulo trará à luz o método com o qual esta pesquisa foi produzida,explicitando como foram as entrevistas, a forma de análise escolhida e o quanto estapesquisa se preocupa com a ética e a não-maleficência às pessoas envolvidas napesquisa. O quarto capítulo traça uma análise individual de oito dos vinte e trêsentrevistados da pesquisa, delineando os resultados desta em relação à bibliografia. No capítulo da discussão, juntamos dados de todas as entrevistas para entãotentarmos perceber como tem se desenvolvido a masculinidade atual, observando tantoa literatura quanto a realidade apresentada pelos entrevistados. 9
  10. 10. Finalmente, no sexto capítulo, trazemos as conclusões percebidas durante apesquisa, e desta forma a encerramos, tentando então perceber de que forma estapesquisa pode auxiliar na captação de uma masculinidade atual e brasileira. 10
  11. 11. Capítulo I - Histórico Se pensarmos em uma perspectiva histórica e dialética, os homens tiveramvárias maneiras de expressar sua masculinidade durante a história da humanidade, e issoretroage nos ideais formados para este grupo populacional hoje em dia. De acordo comOliveira (2004) é importante pensarmos dessa forma, pois cada época possuiu um idealpara a masculinidade que permanece em resquícios no ideal seguinte, como uma marcad’água em um novo desenho. Este autor explica que este valor social, que é chamado demasculinidade, só pode ocorrer devido a complexas elaborações culturais, e tambémnão pode ser visto apenas como um recorte, pois isso simplificaria todo um processoextenso que é o destrinchar de um valor social. Iremos, para tanto, desvendar os valores sociais de momentos históricosespecíficos, desde a Idade Antiga, passando pela Grécia e Roma, até chegarmos acaracterísticas das masculinidades contemporâneas, de forma a contextualizar cada idealde masculinidade vigente e perceber no que as masculinidades atuais se pautam. É importante afirmar que a história, até há muito pouco tempo atrás, era escritapor homens e para homens, pois como afirma Beauvoir (1949), eles estiveram “nopoder” por muito tempo, no controle do conhecimento e do mundo público, assim comodas vias escritas e faladas das eras passadas. Como afirma Guggenbühl (1997) “Se nos voltarmos para a história, descobriremos dúzias de exemplos da grandiosidade masculina, de homens que trouxeram lágrimas e sofrimento a milhares ou pior, mataram milhares. Napoleão Bonaparte mandou incontáveis soldados aos portões de Moscou, onde congelaram até a morte pelas suas fantasias imperialistas. Foi este mesmo Napoleão que disse de si mesmo ‘Meu nome viverá tanto quanto o nome de Deus’. Hernán Cortez (1485-1547), comandando quatro mil soldados, destruiu o totêmico império Asteca de uma vez por todas para a glória do rei espanhol Charles. Com seus sonhos de banhos de ouro, ele entregou à morte esta cultura antiga. (...) A grandiosidade masculina nos faz lembrar de homens que impuseram suas vontades ao mundo, que colocaram a todos suas ambições por poder, e que perseveraram na imutabilidade de suas próprias idéias.(...) A grandiosidade masculina é onerosa”(p. 104). E realmente é difícil ao ler nos livros de História conhecer o outro lado; e osoutros seres humanos que estavam na terra também naqueles períodos sublinhados 11
  12. 12. como importantes à história da humanidade? Até chamar a humanidade de “os homens”nos faz esquecer que somos extremamente preconceituosos quanto às outras formas dehumanidade, como as mulheres, travestis, transexuais, etc. A partir disso, Welzer-Lang (2004) comenta que o androcentrismo, ou seja,centrar o homem como o mais importante em detrimento de outras formas de gênero, éalgo mal notado na sociedade, mas deve ser considerado quando pesquisamos gênero deforma a sermos menos parciais. Para que possamos desconstruir e analisar o masculinoé imprescindível que não excluamos as mulheres dos estudos, dando atenção especial àsrelações em que estas também se situam. Scott (1990) afirma que ao pensarmos em uma história permeada pelosexcluídos além dos hegemônicos, até o modo como a escrevemos deve ser diferente,pois o valor dado a certas características que antes eram deixadas de lado como asubjetividade e o mundo privado, a sexualidade e os relacionamentos amorosos, osdiferentes modos de vida e as pluralidades de vínculos deverão vir à tona, além do podere do mundo público, além das guerras feitas por homens sedentos de riquezas. Devehaver a preocupação de se estudar não apenas as mulheres (no início do feminismo,estudava-se apenas as mulheres, e os excluídos em geral), mas toda a gama de sereshumanos, como a autora reforça abaixo: “Só podemos escrever a história desse processo se reconhecermos que “homem” e “mulher” são ao mesmo tempo categorias vazias e transbordantes; vazias porque elas não têm nenhum significado definitivo e transcendente; transbordantes porque, mesmo quando parecem fixadas, elas contêm ainda dentro delas definições alternativas negadas ou reprimidas”(p. 9) Em grande parte da história não se fala além da heteronormatividade. Umhomossexual no poder, imagine... Só em conto de fadas queer (aludindo aos estudosqueer, que comentaremos mais adiante), ou polêmicas da papa/papisa Giliberta (mito ounão, é preciso comentar). Tentaremos aqui então sermos os mais imparciais possíveis,de forma a relembrar como a masculinidade foi se moldando através das épocas e comoa história ocorreu para todos os envolvidos. I.1. Grécia Na Grécia Antiga, durante seu apogeu entre os séculos VII e III a.C., situa-se omomento pioneiro da valorização da razão e da força física. Algumas cidades gregas 12
  13. 13. foram cruciais para entendermos a masculinidade neste momento histórico. Atenas, porexemplo, com a política, teatros e comunas tinha a fervilhar o pensar, o ser culto, oconhecimento. É importante salientar que estes homens não tinham como valorprimordial a heteronormatividade, de forma que quem não fosse homossexual3 ou nomínimo tivesse relações com homens, era mal visto pela sociedade. Era inclusive oúnico modo de Paidéia (educação) o relacionamento entre um homem mais velho,erestes (o amante) com um jovem de 12 a 18 anos, o eromano (o amado), já que amulher não ensinava, e o pai, o qual devia estar incumbido desta tarefa, não o fazia porestar envolvido com a vida social. O eromano deveria ser sempre passivo, aquele quereceberia o conhecimento e presentes do erestes, além deste papel em relações sexuais,segundo Corino (2006). Além disso, o autor afirma que estes eromanos, logo quechegassem a uma certa idade, deveriam se desligar de seus erestes, apenas mantendouma relação de amizade com os mesmos, para então desposar uma mulher e ter filhos. Outros valores incorporados nessa época eram a busca pela liberdade (afinal osescravos mal humanos eram) a valorização do corpo (a deficiência física era vista comodefeito, problema, incapacidade). É importante ressaltar que nessa época é bem forte adiferenciação entre homens e mulheres, com características excludentes umas dasoutras. Ora, quem era homem não haveria de ser mulher nunca, certo? Isso por que amulher na época era vista como ser inferior ao homem, incapaz do amor e da amizade, edeficiente por não ter o órgão genital masculino, além de incapaz mental e fisicamente,servindo apenas para a procriação e o cuidado dos filhos até os 6 anos de idade. O cuidado dos filhos pelas mães até esta idade também era realizado em Esparta,grande valorizadora da força física, da guerra, competitividade e da imposição de poder.Esparta era controlada por mulheres, pois os homens se mantinham guerreando durantegrande parte dos seus 35 anos de vida. A homossexualidade também era comum durantea guerra (era a homossexualidade viril, como citada também bem mais tarde noHagakure, manual japonês dos samurais, do qual falaremos posteriormente), mas afamília como a percebemos hoje (mãe, pai, filhos) era também comum, de modo arevelar uma relação entre homens e mulheres menos restrita à reprodução; entretanto,3 Quando se fala em homossexualidade em outras épocas que não a moderna, se quer dizer terpreferência por relacionamentos amorosos ou sexuais de pessoas do mesmo gênero, mas a conotação eos significados de nossa época não podem ser generalizados àquela época de que se fala. 13
  14. 14. não deixava de ser excludente, pois elas não tinham a possibilidade de ir para a guerra, etambém carregavam aproximadamente o mesmo estereótipo das atenienses. I.2. Roma Roma teve como característica primordial suas conquistas bélicas, veiculandomarcadamente um ideal de masculinidade parecido com o dos espartanos. Com adiferença que, pelo fato de que a política em Roma se baseava no Panis et Circensis4, osgladiadores e os ideais em relação à sociedade e o entretenimento muito puderaminfluenciar o atual ideal de masculinidade hegemônica. Para isso, é preciso entender o Gládio. Os gladiadores eram ex-escravos queeram colocados para lutar entre si, com animais, em bigas, etc, onde o mais forte, aqueleque matava todos os outros, permaneceria lutando. A desistência era então algodesonroso, pior que a morte, pois seria como desistir da própria vida, acima da luta.Estes casos eram julgados pela platéia, que a tudo assistia nas arenas, e o César, quetinha o poder de definir se aquele que estava lá iria morrer ou viver. Já o gladiador quese encontrava em posição superior, podendo matar seu oponente, se quisesse pormisericórdia não fazê-lo sair-se-ia bem, pois de qualquer forma, a honra era sua, e nãotomar a vida significaria ter alguém grato para sempre. Também são da Roma antiga os primeiros relatos de pessoas que se travestiame/ou ocupavam funções sociais de pessoas do sexo oposto. Segundo Saadeh(2004) Filo,um filósofo judeu, é o primeiro a relatar a existência destes no século I d.C.,comentando que alguns homens passavam a se vestir como mulheres, eliminavam suascaracterísticas secundárias masculinas e podiam extirpar os testículos e até mesmo opênis, de modo a viver como mulheres. Saadeh também comenta sobre Manilus eJuvenal a respeito dos poemas que estes autores faziam a respeito do ódio que tinhamquando um destes que trocavam as funções sociais de um gênero para outro eramcolocados no sexo de nascença. Segundo este autor, vários imperadores romanostravestiam-se e isso era algo considerado comum na época. No final do império romano, impérios bárbaros invadiram as cidades, e isso foimuito importante, pois grande parte destes era composto por povos nórdicos, que4 Um sistema no qual a população das grandes cidades era inativa devido à grande quantidade depessoas que era absorvida pelo império romano através das guerras e era preciso entretê-los (Circensis)assim como fornecer comida (Panis) para que não houvesse revoltas. 14
  15. 15. valorizavam as mulheres muito mais que o império romano. Estas mulheres guerreavamjunto com os homens, tinham papéis sociais significativos e eram muito mais bemquistas que as mulheres romanas. As culturas nórdicas em grande parte valorizavam amulher pelo fato de que esta poderia gerar vida e portanto, estava muito mais ligada àterra e às divindades que os homens, e isso influenciou em parte a idade média, comono significado da caça às bruxas, e na dicotomia Eva-Maria da qual se falará maistarde. I.3. Idade Média O medievalismo, ou idade média, foi marcada veementemente pela formação dehierarquias entre as masculinidades, assim como um aumento na imposição de poder.Várias características consideradas fundamentais para a masculinidade moderna foramcunhadas nessa época, e portanto nos prolongaremos mais neste momento histórico. Os feudos funcionavam de acordo com a fé cristã, o que significava que amulher teria a função reprodutora, deveria ser dócil e recatada, uma esposa fiel, e deacordo com sua casta, deveria mais ou menos favores (inclusive sexuais) ao dono dofeudo. Ao homem, então, era atribuída a função política, como guerreiro ou nobre dacorte (obviamente dependendo de sua classe social), a de chefe da casa em umahierarquia que privilegia mais os homens do que qualquer mulher( mesmo a esposa),pregavam ou lutavam pelo clero, portanto sendo ousados para conquistar o que lhes eradevido. Quanto às relações amorosas, é também dentro do medievalismo que surge oamor cortês, diferente daquele referenciado à Deus (o amor cristão); o amor torna-sesingularizado, e a Dama substitui Deus. O homem entoava hinos de amor à sua amada,intocável e incrivelmente bela, enquanto estava em combate, o que traz o caráter deservidão para com o outro, desde que este fosse puro, sem sexo, idealizado. Éimportante perceber nesse momento a transformação da mulher, também dicotômica: há“aquela que é pura” e também “aquela é devassa”, como é comentado através dadicotomia Eva-Maria em Carvalho, Lopes e Ghetler (2008): esse padrão vai semanifestar no modo como o homem irá se relacionar com as mesmas. “Se ela é pura,será uma boa esposa e terá filhos saudáveis”, “se ela for uma devassa, me divertireibastante com ela, mas não passará disso”. 15
  16. 16. Diferente do que ocorria na Grécia Antiga, a homossexualidade era vista comoqualquer desvio da heteronormatividade, como bruxaria, o mal personificado e atuado, eportanto, não era um ideal a se seguir. Porém, nas guerras, o companheirismo e aamizade tornaram-se valores estimados pois, não podendo voltar para casa, os amigosguerreiros eram os únicos confidentes. Aliás, o cavaleiro medieval cristão, segundoZamboni(2005), era um exemplo de conduta masculina a ser observado, pois a retidão efé inabalável eram imprescindíveis para os valores morais da época. Então, ao detentorda força e da ousadia, nada mais sensato do que incumbir-lhe tal fardo, o dedesempenhar o papel de exemplo. Mesmo as dores da batalha eram vistas comopositivas, pois se agüentasse (sem reclamar) a dor e o sofrimento, teria um lugar ao céu. Um curioso detalhe histórico descrito por Saadeh(2004) é que no século IX, umpapa (há controvérsias, pois a Igreja nega), João VIII, teria sido na realidade do sexofeminino, e teria morrido dando à luz, coisa que até hoje não se tem certeza pelaomissão destas informações. Seu nome de batismo era Giliberta, e teria sido papa pordois anos, sete meses e quatro dias. Uma característica também muito útil para nossa reflexão aqui são os duelos.Neste aspecto do medievalismo que acaba inclusive invadindo o renascimento e até a emergência da futura classe burguesa da Revolução Industrial, a honra era prezada de tal forma, que algo que a sujasse seria tão vil que teria de resultar em morte; do desonrado ou daquele que desonrou. A coragem, o “sangue frio”, o poder nele implicado, a dignidade eram postos à prova em um duelo. O próprio “por à prova” se tornou instituído, assim como o precisar provar às pessoas ao seu redor que sua honra não está manchada. Além disso, marcas deixadas no corpo por um duelo como cicatrizes, amputações, etc. eram vistas quase como troféus, simbolizando Figura 1 – Armadura Infantil no Musée de l’Armée, Paris, França dignidade e eram como um atestado de que este homem era destemido, não tinha fugido 16
  17. 17. ao combate. Como também pode se perceber nas armaduras (foto) utilizadas na época, ocorpo devia ter certas características específicas, como os ombros largos, narizcomprido, peitoral definido e uma postura altiva, inspirando literalmente ares denobreza; também podemos evidenciar que o exemplo a ser seguido é o homem que tudoagüenta, que não deixa transparecer nada, nem deixa que nada o atinja. Parece começardaí o hino de todos os pais aos filhos: “homem não chora!”. I.4. O Hagakure: Livro de prescrições para os Samurais; um olhar sobre oOriente Este livreto escrito por Yamamoto Tsunemoto em 1710 representa desde oséculo XI até o XIX, a época dos samurais no Japão. Escolheu-se este país paracontribuir à nossa revisão pois ele traz à tona o homem da Idade Média oriental, vistoque o Japão disseminou sua cultura ao oriente, desde a Rainha Himiko, quando noSéculo III D.C. fazia contatos com a China, até hoje em dia em períodos globalizados, oquanto a cultura revela e nos afeta com os Mangás, a comida típica, até o modo de ser eestar no mundo. Por estarmos interessados neste estudo sobre o modo como os homensexpressaram sua masculinidade, e como os guerreiros samurais são o expoente dessasociedade na era feudal, é importante comentar alguns trechos de suas prescrições paraentendermos qual era este ideal (afinal, o Hagakure foi escrito por um homem, parahomens). O Hagakure explicita em vários momentos como os homens devem se portar,andar, falar, expressar sua sexualidade, como sua honra era mantida, como eradestituída, os rituais de sepukku e harakiri (suicídios rituais diferentes no caso de umahonra irrestituível), etc. Alguns destes dados são: “Todos nós desejamos viver. E na maioria das vezes, construímos nossa lógica de acordo com o que gostamos. Mas não atingir nosso objetivo e continuar a viver é covardia” (p. 28) Podemos perceber que aqui, a vida de nada vale se o homem não se doa a suatarefa, é prático e objetivo. A subjetividade portanto não é importante. 17
  18. 18. “É de mau gosto bocejar na frente dos outros. Esfregar a mão na testa pode impedir um bocejo repentino. (...) O mesmo ocorre com o espirro, que ridiculariza a pessoa...” (p. 34) Aqui vemos a valorização que se dá às boas maneiras, da educação e discrição. “Existe uma maneira de um samurai criar seu filho. Desde sua infância ele deve ser encorajado à bravura, e deve-se evitar assustá-lo ou provocá-lo com trivialidades. Se uma criança for afetada pela covardia, isso permanecerá como uma cicatriz para toda a vida. (...) Uma mãe ama sua criança incondicionalmente, e será parcial a ela quando o pai repreendê-la. Se a mãe se tornar uma aliada para a criança, existirá a discórdia entre a criança e o pai. Devido à superficialidade de sua mente, uma mulher vê a criança como seu ponto de apoio na velhice” ( p. 56) Aqui vê-se o valor da bravura e da imparcialidade masculina, em detrimento damente feminina, considerada superficial. Em outras passagens fala-se a respeito da homossexualidade, que deve serdiscreta, porém é permitida desde que os dois estejam dentro do relacionamento afetivo,e estejam dispostos a passar a vida juntos. A morte é um valor cultuado, desde que seja honrosa. Dessa forma, ela é aindamelhor que a vida, pois a vida sem a honra é algo do que se envergonhar, e pelo qual éinsuportável passar. As pessoas cometem erros, mas eles não devem ser desvios de suaprópria índole, muito menos se deve abandonar ensinamentos de um mestre. O mestre étão importante quanto a própria vida destes indivíduos, pelo qual se deve viver e morrer.O valor da hierarquia então é salientado em vários momentos do livro, demonstrandoalto grau de importância desta característica na expressão da masculinidade. É importante ressaltarmos que este é apenas um recorte da expressão damasculinidade do Japão observada em um livro importante até hoje na cultura japonesa,e não um estudo detalhado a respeito do tema, no qual não nos deteremos mais por serapenas mais uma das facetas observadas neste trabalho. I.5. O Jardim Perfumado do Xeque Nefzaui: manual erótico; Amasculinidade sob a ótica Árabe 18
  19. 19. Como é sabido, a cultura árabe muito influenciou e influencia a cultura nacional,devido à ocupação árabe de Portugal durante a Idade Média, o que incluiu nos valoressociais da mesma várias informações, saberes e modos de ser e estar representados erepetidos até a presente data não apenas neste país, mas também em outras ex-colônias.O manual estudado, assim como o Hagakure, é um manual escrito de homens parahomens de modo a ensinar a estes como se comportar e não ser daqueles que “merecemcensura”. O Jardim perfumado foi escrito pelo Xeque Omar Ibn Muhammad Nefzaui noséculo XVI e tem como intuito auxiliar homens a se portar em sua sexualidade, e comolidar com as mulheres. É importante mais uma vez ressaltar que este é apenas umrecorte da cultura árabe, e portanto, não uma análise detalhada sobre a mesma, pois é denosso interesse perceber tal cultura, e não nos aprofundarmos nela por ser apenas maisuma das facetas do trabalho. Logo no primeiro capítulo, o Xeque faz uma análise dos homens dignos delouvor: seu pênis deve ser “avantajado e de comprimento amplo”(p. 29), pois a mulhersó se apaixonaria pelo homem através do coito. Seu corpo deve conter as seguintescaracterísticas: “tórax largo e a parte posterior do corpo bem fornida, bem como sabercontrolar sua emissão e ter ereções prontamente.”(p. 29) ; deve usar odores perfumadospara atrair e inebriar a mulher. Deve ser belo aos olhos delas e ter proporções coerentesem seu corpo. Sinceridade e verdade são valores presentes também neste homem ideal,além de generosidade, coragem e modéstia. Ele deve, sempre que puder, seduzir mulheres belas e “dignas de louvor”, ouseja, aquelas que tem curvas arredondadas, cabelos e íris bem negros, rosto oval, lábiose língua bem vermelhos, entre outras características. Mulheres valorizadas só falam ouriem em poucos momentos, não deixam a casa, não têm amigas, não são falsas, não têmsegredos, e só são devotas a um marido, ao passo de que o homem pode ter quantasmulheres conseguir, mesmo que elas sejam comprometidas com outro homem. O homem digno de desprezo é aquele “deformado, que tenha aspecto grosseiro, e cujo membro seja curto, fino e flácido, é desprezível aos olhos das mulheres.” (p. 83) “Desprezível também é o homem que é falso no que diz, não cumpre o que promete, que mente sempre que 19
  20. 20. fala, e que esconde da mulher tudo o que faz, exceto os adultérios que comete.” (p.84) Percebe-se também ao longo do texto um enorme desprezo por mulheres quesejam independentes ou que possuam sentimentos externalizados. Em compensação, ohomem tem maior liberdade para ser quem é, e deve procurar mulheres que estejam emconformidade com seus traços de personalidade. As mulheres são em essência más etraiçoeiras, características tais que devem ser percebidas e domadas pelos homens. Este livro traz uma visão, aos nossos olhos contemporâneos, machista epreconceituosa a respeito das mulheres, porém muito nos faz pensar a respeito do idealde masculinidade atual: o homem hoje também deve ser viril, conquistador e não deveconfiar nas mulheres. As mulheres devem ser bonitas, porém não muito mais do queisso; também são vistas como perigosas (dicotomia Eva-Maria presente em nossacultura), e devem ser tratadas com cautela. Devem sempre ser conquistadas, enquantoque o homem deve ter atributos físicos e morais para atrair as mulheres. I.6. Idade Moderna No Iluminismo, fim da “era das trevas”, temos como valor primordial oconhecimento. À ciência ficam a cargo as prescrições, os corpos, os pensamentos, etc. Aburguesia vitoriana também modifica muito os pensamentos a respeito da sexualidade,colocando-a em grilhões muito mais rígidos do que antes do século XVII. SegundoFoucault(1988), antes deste período “ainda vigorava uma certa franqueza. As práticas não procuravam o segredo; as palavras eram ditas sem reticência excessiva e, as coisas, sem demasiado disfarce; tinha-se como o ilícito, uma tolerante familiaridade. Eram frouxos os códigos da grosseria, da obscenidade, da decência, se comparados os do século XIX. Gestos diretos, discursos sem vergonha, transgressões visíveis, anatomias mostradas e facilmente misturadas (...); os corpos “pavoneavam.””(p. 9) O mesmo autor comenta que existem várias razões para tal mudança; umapossibilidade seria a incompatibilidade do uso da energia para os prazeres e para otrabalho, agora muito necessária devido à Revolução Industrial. Outra possibilidade,agora muito mais relevante, seria o uso deste artifício de repressão para um enormepoder sobre o que o ser humano pode ou não fazer. 20
  21. 21. “Se o sexo é reprimido, isto é, fadado à proibição, à inexistência e ao mutismo, o simples fato de falar dele e de sua repressão possui como que um ar de transgressão deliberada. Quem emprega essa linguagem coloca-se, até certo ponto, fora do alcance do poder; desordena a lei; antecipa, por menos que seja, a liberdade futura. Daí esta solenidade com que se fala, hoje em dia, do sexo” (p. 12) Bento(2006) também afirma que é nesta época que é criado o bissexismo, ouseja, ao invés da mulher ser vista como um homem defeituoso, como em muitas culturasse acreditava, ela então é vista como diferente, outro sexo. Como Beauvoir(1949)afirmou, um segundo sexo, necessariamente inferior (primeiramente afirmado pelaIgreja, depois então pela Ciência). Beauvoir comenta que como haveria um sentimento de “medo” do que a mulherpode significar, é mais fácil classificá-la de fêmea, coisa que seria um insulto aohomem, pois isto o encerraria ao seu sexo. A ciência, de acordo com a autora seria uminstrumento de controle, mais um artifício para a dominação das mulheres, o homem“projetando na mulher todas as fêmeas de uma vez. Ele a faz uma única fêmea.” (p. 35).Isso seria uma redução da mulher ao animal, não dando a ela chance de demonstrar suaspróprias características enquanto mulher humana, senhora de seus próprios rumos,como deveria ser, segundo a autora. Beauvoir, como outras feministas que a seguiriam,modificaram o modo da humanidade pensar a respeito da mulher e do homem; porém, equanto ao meio do caminho, a/o transexual, o/a travesti, o/a homossexual e todos osoutros meios de caminho? É no século XIX que os primeiros textos médicos a respeito de sexualidade egênero (na época, essa diferenciação não existia) começam a surgir com maior ênfaseem um conhecimento que se afastasse da moral vitoriana de acordo com Saadeh(2004).Este autor também afirma que o livro Psychopathia Sexualis, publicado em 1886 porRichard Von Krafft-Ebing é o primeiro livro a classificar a sexualidade do modo comoconhecemos hoje. Foucault(1988) vai afirmar que a nosologia, a classificação da sexualidade vaiajudar no controle da mesma, reduzindo as pessoas que tinham estas características aapenas estas mesmas, de modo a catalogar, porém não analisar ou perceber suasvivências. De qualquer modo, o conhecimento produzido por Krafft-Ebing e por muitosoutros que o seguiram ajudou de forma crucial a pensarmos a respeito destas várias 21
  22. 22. características, antes levadas ao esquecimento ou à fogueira devido à Idade Média, eque agora são vistas com maior naturalidade e percebidas como potencialidadeshumanas, não como desvios segundo vários autores que estudam gênero. Alguns autoresque pensam desta forma são Bento(2006), Bruns(2004), Dorais(1988), Connell(2005),entre outros. A burguesia traz valores como firmeza, repressão de sentimentos, e na literaturaisso se expressa no período do realismo e do naturalismo. Um exemplo disto é opersonagem Albino do livro “O Cortiço” de Aloísio de Azevedo. Esta obra marca naliteratura a entrada do cientificismo e do Darwinismo Social, trazendo à tona uma visãode homem marcada pela imutabilidade de caráter associada à classe social a que estepertencia. Ora, se sou de uma classe social menos privilegiada, necessariamente meucaráter também terá menos virtudes. Este personagem, assim como outros, na sociedadeda época, era visto como fora da normalidade. O trecho que se segue deste livro faz aprimeira apresentação de Albino, um homem afeminado que gostava de travestir-se demulher no carnaval. “Fechava a fila das primeiras lavadeiras, o Albino, um sujeito afeminado e fraco, cor de espargo cozido e com um cabelinho castanho, deslavado e pobre, que lhe caía, numa só linha, até ao pescocinho mole e fino. Era lavadeiro e vivia sempre entre as mulheres, com quem já estava tão familiarizado que elas o tratavam como a uma pessoa do mesmo sexo; em presença dele falavam de coisas que não exporiam na presença de outro homem; faziam-no até confidente dos seus amores e de suas infidelidades, com uma franqueza que não o revoltava, nem comovia. (...) não arredava os pezinhos do cortiço, a não ser nos dias de carnaval, em que ia, vestido de dançarina, passear à tarde pelas ruas e à noite dançar nos bailes dos teatros. Tinha verdadeira paixão por este divertimento; ajuntava dinheiro durante o ano para gastar todo com a mascarada. E ninguém o encontrava, domingo ou de dia de semana, lavando ou descansando, que não estivesse com a sua calça branca engomada, a sua camisa limpa, um lenço ao pescoço, e, amarrado à cinta, um avental que lhe caía sobre as pernas como uma saia.” (p. 40) 22
  23. 23. Obviamente, de acordo com José de Alencar, ele haveria de viver no cortiçodevido às suas características. O mundo só haveria de vê-lo no carnaval, onde tudo épermitido, desde que motivo de chacota. Albino era um homem afeminado, e compretexto de que isto era biológico, imutável, haveria de ter também característicasmorais condizentes. Isso acompanhou o homem atual no sentido em que qualquer queseja sua “falha” quanto à masculinidade ideal, ele necessariamente será subordinado,visto como imoral, doente, (até o DSM-IV em parte, onde a homossexualidade éretirada dos manuais diagnósticos, porém não as vivencias da travestilidade ou atransexualidade, consideradas como os indivíduos mais comprometidos sexualmente doespectro citado desde o livro de Ebbing em 1886) ou marginal. O exemplo de José de Alencar em “O Cortiço” traz também imagens sobre amasculinidade ideal a ser seguida pela burguesia letrada da época: o homem deve serculto, buscar ser algo melhor na vida, obter posses sempre que possível, ter um corpo ecomportamento másculo, ocupar profissões ditas masculinas, ser branco eheterossexual. E isso é apenas um espelhamento brasileiro da cultura vigente da época,que trazia a ciência em primeiro plano, como nos dias de hoje, dando suporte ejustificativas às representações de feminilidade e masculinidade. Quem deve construireste conhecimento científico? O homem. Quem deve passá-lo adiante através dacultura? A mulher. A fêmea humana tem grandes obrigações desde o começo do século XX até apresente data: reproduzir o conhecimento. É a ela que é dado o papel de educadora dascrianças, cuidadora, portadora das emoções e do 6o sentido... Uma sensibilidade que sóela pode ter. E ao homem, seu oposto: produzir conhecimento. Ser forte, cheio de razão,nunca chorar (ao menos não ser visto chorando). Até os anos 50 do século XX, ohomem era alocado no espaço público, a mulher, no privado. O homem, o self-made-man. A mulher, a rainha do lar. Cada um com seu papel. E quem não tem papel, nasociedade não está. Minorias homossexuais, transexuais e travestis eram resumidos aoslivros de patologias e às ruas sujas e estreitas do esquecimento. O binarismo do gêneroinvalida completamente outras possibilidades de ser e estar no mundo que não sejamessas duas, homem e mulher. Ser homem, identificar-me com o masculino e gostar demulheres. Ser mulher, identificar-me com o feminino e gostar de um homem. E osentremeios? 23
  24. 24. Além dos estudos psicopatológicos, surgiram nos anos 80 e 90 os estudosQueer5. Estes foram empreendidos por autores como Judith Butler, Lauren Berlant,Michael Warner, e tinham como objetivo primordial desatar as categorias gênero, sexo esexualidade, com o interesse de observá-las de forma separada, desfazendo o ideal daheteronormatividade6 que guiava os estudos psicopatológicos. Inicialmente, a teoriaQueer se ocupou de comportamentos homoafetivos, porém logo se fez presente nocampo das transgeneridades, do cross-dressing, dos trânsitos de gênero, de sexo e desexualidade, pondo à prova até os termos “homem”e “mulher”. Os estudos queerrevolucionaram o modo de olhar para como se forma a identidade de alguém nosâmbitos citados acima, e influenciaram áreas do conhecimento diversas, como asciências psi, as ciências sociais, a história, o direito, e várias outras, mudando o foco dasdesigualdades entre os gêneros, como fazia o feminismo, para as vivências de pessoas. I.7. Atualmente: A Masculinidade em Questão Na época atual vigora a Pós Modernidade7. Não chegamos aos carros voadores,mas alcançamos uma sociedade em que os veículos motorizados são utilizados até parair à esquina. O consumo desenfreado é característica marcante nas relações e aquelesque não possuem meios de comprar o que querem quando querem, são jogados àmargem. Tudo pode ser consumido, desde máquinas de lavar até os “Identikits” comocita Oliveira(2004): “Se há problemas, ótimo, nós temos a solução! O mercado não tarda a oferecer seus préstimos. Quereis identidade? Oferecemos várias possibilidades em cores, diferentes tamanhos e para todos os bolsos. Identikits são oferecidos “sob medida”, atendendo a todas as diferentes individualidades, isto é, “personalizados”. Você pode ser uma mulher moderna, liberada, desembaraçada, ou então5 Queer pode ter vários sentidos na língua inglesa, entre eles, alegria e homossexualidade. Muitas vezes,esta palavra é empregada no sentido pejorativo, mas o intuito dos Queer Studies é exatamente utilizar otermo e tornar seu sentido como algo positivo, a ser admirado.6 Heteronormatividade significa segundo Maciel Jr.(2006), Heteronormatividade se refere a umaideologia que promove uma perspectiva convencional das relações de gênero e da heterossexualidade, euma visão tradicionalista da família, como a maneira correta das pessoas viverem.7 A pós modernidade, ou “modernidade líquida” segundo Bauman(1991), é o período logo após a quedado Muro de Berlim em 1991 que tem como principais características a ambivalência de valores sociais, asociedade individualista, capitalista, onde não há tempo suficiente para o estabelecimento de novosvalores pois estes “se dissolvem”, como afirma o autor, tão rápido quanto foram criados. Segundo Rossi(s/d), “na cultura pós-moderna, tudo é muita coisa, sempre é muito tempo; nada deve durar demais e cadaindivíduo é, por si só, autosuficiente, um conjunto já bem saturado de dilemas e insatisfações”(p. 5) 24
  25. 25. uma dona-de-casa responsável, ponderada, amável, ou ainda uma jovem romântica, antenada, sensível, e isso só para começar. Para os homens, temos o identikit magnata impiedoso, autoconfiante, empreendedor; ou o jovem intelectual, estudioso, doutorando, talentoso; ou ainda o pai responsável, educado, charmoso, mas ao invés de ser o pai responsável, temos o solteiro bom partido, atlético, sexy, macho de físico exuberante. Se não gostar de nenhum desses, pode-se fazer uma bricolage self-service, onde o cliente escolhe duas características de cada um e ele próprio compõe seu identikit.”(p. 133) A cultura tornou-se tão representada pelos meios de consumo que ela não sóajuda a vender mais, mas modifica em alguns anos a bagagem cultural de cada um. Nãoapenas as culturas são múltiplas, mas também fluidas, mutantes, o que traz ao homemcontemporâneo angústia e falta de identidade fixa, que lhe dê segurança. O mercado de trabalho é composto por homens e mulheres, ambos grandesusuários da tecnologia e julgados por sua performance e competência, mas as mulheresainda ganham menos que os homens, são tratadas como potenciais mães (como afirmaBeauvoir(1949), encerradas em seu sexo biológico), e passíveis de “mudançashormonais”, a TPM, sempre que reivindicam algo melhor, ou brigam por algum motivo,seja sobre o controle remoto da TV, seja por melhores condições de vida. E claro, quemnão cabe na definição homem ou mulher de forma bem dicotômica, não é nemconsiderado como parte da sociedade (isso afinal não mudou, transgêneros em geralcontinuam marginalizados e encerrados à escória da humanidade e aos livros dedegenerações mentais e físicas). Outra característica crucial de nossa sociedade é o individualismo: é difícil oenvolvimento amoroso ou afetuoso com algo ou alguém. E por não nos apegarmos,participamos de uma sociedade onde os valores são supérfluos, as relações superficiais,e o amor, algo que desperta medo, por mais que este seja ainda celebrado como ideal. Ofeminismo trouxe vários efeitos importantes para revermos as questões relativas àdesigualdade de gênero, a sexualidade, comportamentos masculinos e femininos. Mas amudança é individual e ainda não reverteu para uma sociedade mais igualitária ou justapara todos. Os direitos são usufruídos individualmente e os deveres são cobrados dessaforma também, então, nossa sociedade continua favorecendo uns e desfavorecendooutros de acordo com os critérios que poucos dela decidem. 25
  26. 26. Bauman(2007) comenta que nossa sociedade passou de estado “sólido” ao“líquido”, ou seja, “uma condição em que as organizações sociais (estruturas que limitam as escolhas individuais, instituições que asseguram a repetição de rotinas, padrões de comportamento aceitável) não podem mais manter sua forma por muito tempo (nem se espera que o façam), pois se decompõem e se dissolvem mais rápido que o tempo que leva para moldá-las e, uma vez reorganizadas, para que se estabeleçam.” (p. 7) Em alguns anos na história do ser humano houve tantas mudanças que malconseguimos nos adaptar psicologicamente a todas estas novas demandas, as quaiscontinuam muitas vezes permeadas pelos padrões antigos de modo imperceptível,presentes em como nos comportamos, e como refletimos sobre o mundo. A masculinidade então é percebida também nos dias de hoje como oposta ecomplementar à feminilidade: o masculino é viril, contém a força, dá grande valor àpenetração e à intrusão, é demonstrativo (no sentido que só existe ao demonstrar-se emrelações), se utiliza sempre da razão, acredita num poder centralizado (falo), situa-se nomundo público, possui iniciativa, preza a individualidade, a produção, a atividade e aagressividade. São estes valores que, de acordo com Maciel Jr. (2006) vão servir comomodelos do que os homens devem ser e como devem se relacionar, sejam eles homenstransexuais ou homens biológicos: o Gênero revela-se nas práticas e nos discursos, emanifesta-se por exemplo na relação do indivíduo consigo, com pessoas do mesmo oudo outro sexo, com os filhos, com a família, com a sociedade e suas normas, regras evalores, na vivência da sexualidade, etc. O homem deve mostrar ao espelho e ao mundoque é homem. Mas de que isso vale atualmente? Pode-se dizer por meio de Dorais(1988) que o homem cavou para si mesmo suacova; isso porque espera de si e dos outros o ideal de masculinidade, enquanto sóencontra masculinidades subordinadas, inclusive a sua própria: o homem não devechorar, mas sente e tem vontade quando passa por uma situação impactante em suavida; o homem tem que ser viril, mas não consegue ser potente o tempo inteiro emqualquer fase de sua vida. Ele deve ser o provedor, mas como se não consegue emprego,e sua mulher sim, ou se ganha menos que sua mulher? E nas relações amorosas, o 26
  27. 27. homem não pode se envolver? Tantos questionamentos devem deixar os homensconfusos... (nota da pesquisadora) A mulher não é mais o sexo complicado, frágil; eagora, quem poderá salvar o “homem desamparado”? Como afirma o mesmo autor: “Esta confusão e esta insegurança decorrem das transformações sociais e culturais que, em menos de trinta anos, produziram uma reviravolta nas principais fontes da identidade masculina. O trabalho, o poder, a família, e mesmo a aparência física e a sexualidade do homem se modificaram. Essas mudanças não apenas exigiram adaptações por parte dos homens, mas mudaram a própria noção de masculinidade” (p. 18) Outros pesquisadores como Maciel Jr.(2006) também percebem estas mudanças.Estudos diversos citados em sua tese de doutorado remontam um panoramacompletamente novo sobre os homens, principalmente por que antes de pesquisaremsobre a feminilidade e o gênero, nada haviam falado sobre a “nova masculinidade”, ecomo os homens se relacionam com ela. Quais as diferenças agora entre homens emulheres? Um pedestal tão avidamente construído pelos homens agora bate de encontrocom o das mulheres, se choca e se mistura em pedras ambíguas, não se sabe mais dequem é o pedestal, ou se ele ainda existe apesar dos escombros. Oliveira(2004) também ressalta a masculinidade atual como muito influenciadapor uma tentativa de desconstrução de valores antigos, inclusive a própriamasculinidade, o que resulta em um declínio nas classes médias e altas quanto aodomínio exercido. Isso por que existe uma luta às hierarquias no período da pós-modernidade (aliás, o termo pós-modernidade vem das artes, um período dedesconstrução do ideal do período perfeito na arte, para colocar as tendências lado alado, apenas diferentes), uma busca pelo consumo (reprodução) ao invés dacriação(produção), uma descentralização de poderes. Nesse estudo, espera-se compreender como se processam estas transições noâmbito pessoal e relacional tão cheias de expoentes e influências. Será a masculinidadeatual a mesma do passado, com uma roupagem mais “bonitinha” (mandando edesmandando com um terno Armani® e as unhas pintadas com base)? Ou as angústias econflitos tomaram este papel e transformaram os homens para sempre? Buscamoscompreender como se revelam as possibilidades de construção e expressão dasmasculinidades por meio de categorias de análise relacionais, ou seja, como discutimos 27
  28. 28. que a masculinidade é demonstrativa e é sempre negociada por meio da relação dohomem com outros objetos, inclusive ele mesmo, é importante observarmos como ela seexpressa em cada campo relacional (como ele se relaciona consigo mesmo, comhomens, mulheres, filhos, no trabalho, entre outros). 28
  29. 29. Capítulo II - Em que campos a Masculinidade se expressa? Estamos nos referindo nessa pesquisa a gênero, ao gênero masculino. Pedrosa(2009), ao discutir gênero, trabalha com a vertente comportamentalquando diz que são comportamentos reforçados através do convívio social que geram aidentidade de gênero. Então gênero referir-se-ia a vários comportamentos que,reforçados pela sociedade, dão origem aos papéis de gênero, feminino e masculino, quese modificam através do tempo de acordo com os comportamentos reforçados oueliminados. Hime(2004) também nos ajuda a entender o gênero quando afirma que “ogênero revela como as diferenças sociais se estruturam a partir das diferenças entre ossexos e como se atribui significado às relações de poder”(p. 7) observando assim comoMaciel(2006), Welzer-Lang(2004), Connell(2005) entre outros, que as relações sociaissão primordiais para a identidade de gênero, e que elas ditam muitas vezes comodevemos interagir com homens, com mulheres e com ambos. Barbieri (1990) afirma que o sexo socialmente construído, ou gênero é “En otras palabras: los sistemas de género/sexo son los conjuntos de prácticas, símbolos, representaciones, normas y valores sociales que las sociedades elaboran a partir de la diferencia sexual anátomo-fisiológica y que dan sentido a la satisfacción de los impulsos sexuales, a la reproducción de las especie humana y en general al relacionamiento entre las 8 personas” (p.100) Esta autora é importante, pois localiza a origem do gênero no corpo, comoBeauvoir(1949), e faz do gênero algo que se vincula às características corporais. Asmulheres, por causa da possibilidade de gravidez, do corpo propenso a armazenargordura em locais específicos, das mamas, etc, deve ter características femininas comoo cuidado, a passividade, e portando serão oprimidas pelos homens, que tem osmúsculos mais desenvolvidos, possuem um pênis de modo a penetrar, e portantooprimirão, serão ativos e se utilizarão da força e do poder que seu corpo lhes gera. É1 “Em outras palavras: os sistemas de gênero/sexo são os conjuntos de práticas, símbolos, representações,normas e valores sociais que as sociedades elaboram a partir da diferença sexual anatomo-fisiológica eque dão sentido à satisfação dos impulsos sexuais, à reprodução da espécie humana e em geral aorelacionamento entre as pessoas” 29
  30. 30. desse olhar unido às descobertas científicas que abstraímos que o conceito de sexo éconstruído através das características corporais sexuais primárias (pênis, testículos eútero, ovários) assim como secundárias (pêlos corporais, localização de gordura,aumento ou não de mamas, desenvolvimento muscular, etc). Essa visão é reproduzida em vários textos feministas e em textos científicostambém; até hoje, e essa é uma das teorias mais aceitas quanto ao início do conceito degênero: o corpo. Segundo a definição de Barbieri (1991), todas as sociedades, parasobreviver, precisam de mulheres em idade fértil. Como só elas são capazes de gerarvida em seus corpos, as sociedades lhes atribuem um poder. Este fato leva à necessidadede controlá-las sem, no entanto, destruí-las. Este controle se dá por meio da capacidadereprodutiva, da capacidade erótica e de sua força de trabalho. Assim, há umatransformação do pênis em falo, exato símbolo de poder, e um valor é colocado navirgindade, na infidelidade feminina, valorada de maneira muito diferente da masculina,considerada algo sem importância. Embora o corpo feminino e masculino possam dar eter prazer, apenas o feminino é considerado objeto sexual. E finalmente, a capacidade detrabalho feminina poderia dar às mulheres a autonomia necessária ao questionamentodas relações de dominação-submissão. Para esta autora, a partir das diferençasbiológicas constroem-se as desigualdades entre homens e mulheres. Para outros autores, como Kimmel, Connell, Maciel Jr. e Butler, o ponto departida é o social, arena onde se articulam as relações de gênero que veiculam o poder,sustentado pela criação de heranças biológicas, usadas para justificar as desigualdades.Mas como pessoas então podem ter gêneros e sexos diferentes? É a partir desta questão que Bento(2006) expõe um outro universo, seguindoautoras como Butler(1999) que questiona os entremeios do gênero: existem pessoas quenão são homens nem mulheres? Onde elas se localizam no espectro binário de gêneroconstruído pela nossa sociedade? Como podemos compreendê-los/as? Esta autora entãodesconstrói o gênero para então entender o que se passa para que sejamos masculinos oufemininos. Ela afirma por fim que, diferentemente de Barbieri(1991) e grande parte dasfeministas, o corpo não é a matriz do gênero e sim, valores sociais e constructos da falae da cultura que são a matriz de como vemos o corpo, e dessa forma, construímos nossavisão do gênero e do corpo. Isso significa que o corpo que conhecemos é permeado devalores, e são eles que nos fazem afirmar que um corpo é masculino ou feminino e quetambém se deve agir de modo feminino ou masculino. Por ser um constructo idealizado 30
  31. 31. pelo ser humano, o corpo e suas normas hegemônicas se modificam ao longo do tempoe do espaço e desta forma podem se modificar em relação ao momento histórico-social eo lócus geográfico. Essas normas, ou leis, como afirma a autora, se materializam nodecorrer de um processo, nunca de uma vez só, apenas no nascimento ou através de umritual. Mas também não é possível enxergarmos o corpo pelo corpo, sem as normas degênero, pois elas se constituem como um ideal hegemônico, e é muito difícil nosdesviarmos deste valor que nos é ensinado e que atuamos desde bebês. Bento(2006)afirma que “Quando o médico diz ‘é um menino/uma menina’ produz-se uma invocação performativa e, nesse momento, instala-se um conjunto de expectativas e suposições em torno deste corpo. É em torno dessas suposições e expectativas que se estruturam as performances de gênero. As suposições tentam antecipar o que seria o mais natural, o mais apropriado para o corpo que se tem”(p. 88) Também não é possível pensar que o corpo não influi no gênero, que ele écompletamente passivo em relação às normas sociais, e que estas não têm uma base nomundo físico. Mas a cultura se constrói como o corpo se constrói, e existe uma dialéticaentre as construções sociais sobre o corpo e o gênero, de forma que a materialidade docorpo também é capaz de produzir, além de reproduzir, como foi pensado por Beauvoir.Butler(1993) nos traz estas indagações e dessa forma é possível pensar no/a transexual,n@9 travesti, nos drag kings e drag queens como o faremos neste trabalho. Os estudos de gênero são deste século e muito se referiram às mulheres, aoshomossexuais, aos desviantes em geral e suas angústias, suas disfunções dentro de umasociedade que se baseia em uma heteronormatividade, onde o macho é divinizado pelassuas características inatingíveis. Por que então, agora, falar deste macho? Será que eletambém não tem funcionado dentro da lógica criada por ele e para ele? É importante também contextualizar os estudos sobre a masculinidade para queentendamos em que ponto estamos na pesquisa. O feminismo foi precursor nos estudossobre gênero e até se escrevia sobre as “hombridades” de forma escassa antes das9 O arroba, quando substitui a vogal de uma palavra que contenha como característica o gênero, tem comosignificado um gênero não conhecido, ou diferente do masculino ou feminino. Entre @s travestis, isso émuito comum, pois é falta de respeito na maioria do tempo chama-l@s de homens, e nem tod@s sereconhecem como mulheres, ou se percebem dessa forma. Por essa razão, a linguagem utilizada pel@smesm@s é essa, e aqui será reproduzido em respeito ao como el@s querem ser denominad@s, segundoconversas informais com estas pessoas durante os anos de 2008 a 2010. 31
  32. 32. feministas de acordo com Maciel Jr.(2006), mas até Nicole-Claude Mathieu, em 1971, oestudo das mesmas se resumia às mulheres; os desviantes eram o problema a ser“dissecado” como afirma Welzer-Lang(2004). Mathieu foi a primeira pesquisadora deque se tem notícia a propor que estudemos os homens tanto quanto as mulheres, poissendo ambos formadores de um sistema relacional, o estudo de uma categoria de gênerofica incompleto se deixarmos de estudar a outra. Como Cecchetto(2004) comenta, não é possível falarmos que o tema damasculinidade foi completamente esquecido antes deste século, mas é importante frisarque apenas um tipo de masculinidade não deixou de aparecer: o modelo hegemônico decada época. Porém a masculinidade como um todo ficou às escuras por tempo demasiadoapós Mathieu. Isso não quer dizer que não houve sociólogos, psicólogos, historiadores emédicos olhando para questões do masculino, porém este foram raros em comparaçãocom o florescimento dos estudos de gênero. Podemos citar algumas revistas comoTypes- Paroles d’hommes e Contraception Masculine- Paternité, e autores renomadosna década de 70 como Lefaucheur e Falconnet(1975), e no começo da década de 80,Emmanuel Reynaud e Guido de Ridder, além de Michel Foucault, Philippe Ariès, JeanGenet e Michaël Pollack entre alguns outros. Como foi dito por Maciel Jr.(2006), “Na segunda metade da década de 80, iniciaram-se estudos e pesquisas centradas no tema-questão dos homens e da masculinidade, tendo como característica principal a rejeição ao modelo tradicional vigente que interpretava a experiência masculina como a norma”(p. 10) Então, o homem não mais é um ser já prescrito, moldado como sendo agressivo,competitivo, caçador, dominador, entre tantas outras características que ele podeapresentar. Ele pode ser isso, mas pode também não ser. E foram estes estudos nadécada de 80 que começaram a perceber o homem e a masculinidade comopossibilidades diferentes e até excludentes em alguns casos, como podemos ver nosideais das mulheres e homens transexuais. São poucos os estudos sobre a masculinidadese comparados aos outros estudos de gênero, mas eles formam um panorama geral arespeito de quem são estas pessoas, mostrando as várias possibilidades do “ser” e do“tornar-se” homem. 32
  33. 33. Quando estudamos gênero, é imprescindível notar como as relações de poder seinscrevem entre as possibilidades de gênero, seja dos homens para com as mulheres,seja entre homens e entre mulheres, ou qualquer outra possibilidade. Como os estudosde gênero e mais tarde os men’s studies foram baseados com razão nessa desigualdade,porque ela existia, era perceptível e continua sendo através dos olhos de MacielJr.(2006), Welzer-Lang(2001, 2004), Hime(2004), Monteiro(1997) entre vários outrosautores, observar apenas as diferenças seria deixar de olhar uma das mais importantes:quem construiu a história até há pouco foram homens, e eles detém todo este know-how,em detrimento das outras formas de gênero, que andaram à margem dos livros e daHistória humana, deixando suas marcas em leves pinceladas através de olharesmasculinos. Uma característica da expressão da masculinidade é que diferentemente dasmulheres, os homens precisam provar o tempo inteiro que são masculinos, que cultivamestes ideais e valores, seja para si, seja para outras pessoas. Se o homem fraqueja emdemonstrar que é masculino, é como se esta característica se esvanecesse para fora de si.Ele reforça isso para seus colegas de sexo e também para as mulheres, dizendo o quedevem ou não fazer. Suas prescrições também são para si, para lembrar em toda equalquer situação de que é um homem, de que é forte, detém o poder, é racional, etc. Weininger, no começo do século XX, foi um dos primeiros a afirmar que estasconstantes demonstrações de masculinidade se deviam ao fato de um hermafroditismooriginal que faz com que o homem, diferentemente da mulher, tenha que diferenciar-seda mesma, se não seu “outro lado” transpareceria. Apesar de como via as mulheres,Weininger, segundo Cecarelli(1998), influenciou toda uma geração sobre a indefiniçãode gênero inata dos seres humanos, e sobre o fato da masculinidade não ser algo detidopelos homens, mas sim algo desejado e necessariamente inatingível enquanto ideal.Connelll(2005) então formula a possibilidade de várias masculinidades, todas passíveisde transformação ao longo do ciclo da vida, da sociedade em questão, da cultura, e ,principalmente, de como este homem se relaciona. Por essa razão, é impossível perceber a masculinidade e como ela se expressa senão está em relação, se não se expressa a algo ou alguém. Algumas categorias de análiserelacionais a seguir podem ser exemplificadas como portadoras das relações em que seinscreve a masculinidade, as quais estudaremos com mais afinco por meio dasentrevistas. 33
  34. 34. II.1. O homem consigo mesmo O homem demonstra a si que é homem. Quando olha no espelho, vêcaracterísticas que o fazem sentir-se masculino, de forma diferente das mulheres, comoafirma Beauvoir(1949) quando explana que a mulher foi presa em seu corpo de forma aser subordinada à razão masculina, em detrimento das sensações e sentimentosconsiderados ponto forte feminino. Connell (1995) comenta que ao olharem para seuscorpos, os homens esperam transpirar, inerentemente, sua masculinidade, que é algo deque não têm controle e que os liga ou desliga de certos comportamentos (liga-os àviolência, e desliga-os do cuidado com crianças, como exemplos). O corpo masculinopode ser observado de duas formas: por meio da ciência biologicista, onde o sexoproduz as diferenças de gênero (o homem tem um pênis e deve ser ativo, comopossibilidade desse pensamento) ou o simbolismo impresso no corpo por sua sociedadevigente (o homem é visto como o provedor, por exemplo, ativo, produtivo).Butler(1993) com sua teoria de gênero nos aprofunda na compreensão do homem demodo a percebê-lo como atravessado pelas regras sociais, pelos valores de umasociedade. Quando veste uma roupa, quando senta, quando fala, revela a si mesmocaracterísticas consideradas masculinas, e se mune consciente e inconscientementedestas em seus pensamentos e de como foi-se percebendo enquanto homem ao longo deseu ciclo vital; É dessa forma que um homem transexual sabe que é do gêneromasculino, por exemplo, pois sua identidade de gênero demonstra a si estascaracterísticas, relaciona-se com a maneira que ele se percebe, e não ao seu sexobiológico. Vamos entender então como se forma essa identidade de gênero, no geral. Helen Bee (2000), grande psicóloga desenvolvimental, afirma que para que umser humano tenha em sua identidade o gênero e o papel sexual, é preciso que ele possuaa constância de objetos, que ele perceba que ele é diferente do mundo e que permaneçano espaço e no tempo. Através desse processo, o bebê começa a ter um senso de eu.Mas não apenas isso; ele precisa dar qualidades a si mesmo, compreender-se comoobjeto no mundo, dar-se um gênero, um tamanho, um nome, além de outras qualidades.Essa segunda fase do desenvolvimento do Self começa com o bebê de aproximadamente21 meses e vai se moldando daí em diante, através da interação com o mundo doindivíduo. 34
  35. 35. Quanto ao desenvolvimento de gênero, este possui três fases primordiais: aidentidade de gênero, ou seja, o reconhecimento de homens e mulheres, inclusive a simesmo (que acontece entre 9 meses e 1 ano), a estabilidade de gênero que constituiuma certa constância do sexo durante a vida (ocorrendo por volta dos 4 anos) e enfim, aconstância de gênero, onde a criança geralmente reconhece que alguém não muda degênero ao usar roupas diferentes, que ocorre durante o 5º e 6º ano de vida. Quanto ao papel sexual, ou às performances de gênero, começam a ocorrer dos 18aos 24 meses de idade, quando os bebês começam a preferir brinquedos “femininos” ou“masculinos”. Ela ainda ressalta que meninos normalmente têm estereótipos de papelsexual mais rígidos e tradicionais que as mulheres, levando à hipótese de que ascaracterísticas masculinas de gênero são mais valorizadas e reforçadas em nossasociedade, e por isso, as características consideradas femininas em nossa sociedade nãosão alvo de desejo destes meninos, mas sim para as meninas, que flexibilizam mais seusestereótipos de gênero para que estas características também caibam em sua definiçãodos gêneros (existirão homens que gostam de se vestir de meninas também, usar o nomefeminino, ou até se tornarem mulheres, o que nos faz pensar que nem todos querem serpessoas com características masculinas, mas esta incógnita será resolvida em trabalhosfuturos.). Essa autora também comenta sobre crianças de sexo cruzado, citando John Moneyao falar que o gênero de criação da criança nutrirá sua identidade de gênero. Mastambém afirma que caso haja um desequilíbrio hormonal na mãe durante a gestação,isto pode gerar meninas com características mais masculinas ou meninos comcaracterísticas mais femininas. Até hoje, não firmou-se nenhum diagnóstico conclusivoa respeito do aparecimento de pessoas transexuais e, até este segundo momento,sabemos muito pouco como isso acontece. Mas nem pistas biológicas, nem pistassociais podem nos dar algo conclusivo sobre o tema. Mesmo assim, existem váriasteorias que poderão embasar nossa reflexão com as quais analisaremos os homens, e aprincipal neste trabalho será citada a seguir. Quando falamos de identidade de gênero, precisa-se fazer uma ressalva: nãopodemos considerar sexo como sinônimo de gênero; nem gênero como sexualidade.Quando alguém considera-se homem fisicamente, não necessariamente se considerarámasculino, nem muito menos terá uma sexualidade pré-determinada. Temoshomossexuais, travestis, transexuais, crossdressers, drag-kings e drag-queens (entre as 35
  36. 36. variedades de trânsitos de gênero, sexualidade e sexo) para provar que nestes trêscampos, nada é a priori, e as combinações originam um leque sem fim de possibilidadesde ser e estar no mundo. Os autores principais desta vertente teórica são Butler(1993),Scott(1990), Derrida(apud Bento,2006). É importante que se considere como aquele serhumano se constrói enquanto ser social que trará sua auto-imagem, como ele se vê ecomo se sente sobre isso, ou seja, como sua auto-estima se constrói e reconstrói aolongo do seu ciclo vital. Este ponto é fundamental para compreendermos a masculinidade, pois apesar denos situarmos em uma sociedade com concepções rígidas acerca do masculino, homenstransexuais e homens homossexuais são tão homens quanto homens biológicos ehomens heterossexuais e talvez esse seja o ponto de convergência mais gritante: “Eusou homem, ué...” Ademais, assim como Beauvoir afirma que mulheres não nascem mulheres,tornam-se mulheres, os homens negociam suas masculinidades a vida inteira, e setornam homens a cada momento em que vivem desta forma. Quando crianças, quandoidosos, quando adultos, os homens atuam diferentemente suas masculinidades eexercem seus papéis de forma diferente durante suas vidas, com o que concordamWelzer-Lang (2001; 2004) e Maciel Jr. (2006). O primeiro comenta sobre as relaçõesentre homens que chama de “a casa dos homens”: “Nessa casa dos homens, a cada idade da vida, a cada etapa de construção do masculino, em suma está relacionada uma peça, um quarto, um café ou um estádio. Ou seja, um lugar onde a homossociabilidade pode ser vivida e experimentada em grupos de pares. Nesses grupos, os mais velhos, aqueles que já foram iniciados por outros, mostram, corrigem e modelizam os que buscam o acesso à virilidade. Uma vez que se abandona a primeira peça, cada homem se torna ao mesmo tempo iniciado e iniciador.” (p. 3) E a cada etapa do masculino, assim como qualquer pessoa, ele ressignifica asépocas passadas e vê de modo diferente que tipo de homem quer ser no futuro.Pensando que existem vários tipos de homens em etapas diferentes e modos diferentesde exercer sua masculinidade, como estes reagem quando estão com outros homens? 36
  37. 37. II.2. O homem com outros homens A pergunta feita no subtítulo acima traz ainda mais dúvidas: como o indivíduopercebe outros do seu próprio gênero, objetivamente e subjetivamente? Onde e o queeles conversam em cada ambiente que freqüentam? Como estas relações se transformamao longo do tempo? Como é uma amizade entre homens? Como um homem deve agirquando deve dar um exemplo a um outro homem mais novo? E quando a relação seinverte? Do que eles tanto contam vantagem? E as competições intermináveis entrecolegas de trabalho, nos esportes, etc.? Como é a relação amorosa homossexual?Podemos ver que este tópico “dá panopara a manga” e muitas destas questõesvão ser respondidas de forma simplesdemais para as reflexões que elasoferecem. Mas vamos tentar aqui passarpor todas estas e quem sabe, ainda outrasque surjam pelo caminho... Os homens têm algumas relaçõescom outros homens autorizadas pelasociedade vigente e outras que não, masnem por isso deixam de fazê-lo. Oshomens podem ser pais, filhos, colegas detrabalho, amigos, competidores, inimigos,conhecidos, namorados, amantes. E comoafirma Connell (2005), essas Figura 2 – Homer Simpson, um personagem da televisãorelações podem se dividir em quatro com seu filho, Bart Simpson; a relação entre masculinidades é bem presente nesta série de televisão,grandes blocos: hegemonia, principalmente quanto à relação pai e filho, mas também asubordinação, cumplicidade e respeito do homem e como ele atua com outros homens.marginalização, cada qual com suas características principais: • A hegemonia ocorre quando uma forma de masculinidade é exaltada em detrimento de outras formas de masculinidades e formas de gênero, e é o tipo de relação mais comum e bem aceita na história da humanidade; depende da correspondência desta com ideais culturais e poder institucional. Tem como ponto chave a autoridade e às vezes a violência pode lhe dar suporte. A hegemonia 37
  38. 38. masculina pode muito bem ser erodida por outras formas de gênero e, portanto, se altera. Um exemplo de masculinidade hegemônica através dos tempos é o homem branco heterossexual machista. • A subordinação existe em razão da hegemonia, e tem vários efeitos sociais, como a baixa auto-estima destas pessoas, a violência e humilhação verbal e física para manter os subordinados em seu lugar, a discriminação de forma negativa de suas características, apesar de haver outras que se encaixariam no perfil hegemônico (como a discriminação econômica). Podemos citar como exemplo histórico de masculinidade considerada subordinada os homossexuais, os homens negros, os homens transexuais, homens com deficiências físicas e mentais, entre muitos e muitos outros (veja bem, se um tipo de masculinidade é hegemônica, neste momento, todas as outras são subordinadas). • A cumplicidade é a relação em que não se exerce poder sobre outras pessoas, existe um mútuo acordo entre as partes e não se pensa muito sobre o modelo hegemônico de masculinidade, mesmo que ele exista e influa nessa relação também. É onde o respeito e a amizade podem estar, como na relação entre pai e filho, e exige profundidade. • A marginalização é a relação em que mesmo que os grupos subordinados possam trazer características boas, eles não serão inclusos na masculinidade hegemônica. Exige a autorização do grupo a ser marginalizado. Então, através dessas relações, cada um dos tipos de vínculo que estes homensformam pode ser diferente. Um homem pode namorar outro homem e mantê-losubordinado a ele, ou pode ser cúmplice e viver um relacionamento entre iguais. Outro autores como Williams(1985), falando sobre a amizade entre homens,comenta que as relações de poder permeiam muito estas amizades, e que têm muitomais a ver com possuir um grupo que o apóie caso se sinta ameaçado do que dividirconfidências ou se sentir bem quando seus amigos estão lá. Demonstrar intimidade seriaentão algo a se fazer a uma mulher e de preferência na cama, nunca com um colegahomem. Williams também comenta que dependendo do quão feminino ou masculinoum homem for, isto varia, pois os nos padrões femininos de amizade incluem-se aintimidade e a liberdade de expressar sentimentos. Já Migliaccio(2009) e Kimmel(2000) percebem que os modos como vemos aintimidade estão extremamente ligados à intimidade feminina, sendo esta a única forma 38

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