A diversidade revelada

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A diversidade revelada

  1. 1. ) ) s -SP /SP /Aid V idda D S T Pela CRT upo x u a i s ( Gr nse D- (CR Tra id ade v e s t i s e ers a Tra Div r i a da egral pa rênc e Int fe úd e Re a t ro d io de SCen ulatór bAm A orientação sexual e a identidade de gênero são fatores determinantes para a saúde, não apenas por implicarem em práticas sexuais e sociais específicas, mas também porque podem significar o enfrentamento cotidiano de preconceitos e violações de direitos humanos. O Centro de Referência e Treinamento DST/Aids, sede da Coordenação Estadual DST/Aids-SP, A relação entre a epidemia da inaugurou em junho de 2009, em aids e a exclusão social precisa ser suas dependências, o primeiro melhor compreendida e enfrentada. ambulatório de saúde do Brasil É com esse propósito que o Grupo dedicado exclusivamente a Pela Vidda/SP está à frente do travestis e transexuais. Este Centro de Referência da serviço foi criado para facilitar o Diversidade (CRD), desde 2008, acesso de populações vulneráveis em parceria com a Prefeitura ao Sistema Único de Saúde, de São Paulo. Iniciativa pioneira, possibilitando a elas sua inserção oferece assistência, capacitação, social e o direito integral à saúde. geração de renda, convivência e Maria Clara Gianna e cultura para profissionais do sexo, Artur Kalichman gays, lésbicas, travestis, transexuais Coordenação Estadual DST/Aids-SP e pessoas que vivem com HIV e aids em situação de vulnerabilidade e risco social. Com a porta aberta para a realidade, buscamos resgatar a dignidade, a cidadania e melhores condições de vida para tantas pessoas historicamente esquecidas e discriminadas. Mário Scheffer e Irina Bacci Grupo Pela Vidda/SP Centro de Referência da Diversidade
  2. 2. REALIZAÇÃOGrupo Pela Vidda/SPPresidente: Mário SchefferCoordenadora do CRD: Irina BacciCentro de Referência e Treinamento DST/Aids-SPCoordenadora: Maria Clara GiannaCoordenador-adjunto: Artur KalichmanCOLABORAÇÕESNossos agradecimentos aos entrevistados: Ana MariaCosta, Elaine Maria Frade Costa, Gustavo Menezes, JalmaJurado, Jovanna Baby e Tereza Rodrigues Vieira.Grupo Pela Vidda/SP: Abel Corino da Fonseca Neto,Douglas Galiazzo, Flavio A. Rodrigues, Luis Francisco dosSantos, Marcos Ferreira Marinho, Maria Hiroko Watinaga,Michele Aparecida Morais Santos, Murilo Bezerra Duarte,Rogério de Jesus Ribeiro e Silvia Regina Carvalho.Centro de Referência da Diversidade: Alessandra Saraiva,Andreza Barbosa Trindade, Claudia Coca (in memorian), FernandaMaria Munhoz Salgado, Fernando Henrique da Silva Settanni,João Batista Pereira, Maria Cristina Santos, Paulo Rogério da Silva,Renato Mathias, Selma da Silva Leal Montervan, Taís Diniz Souza,Thaís di Azevedo e Thatiane Di Risio dos Santos.CRT DST/Aids-SP: Angela Maria Peres, Denise Mallet, EmiShimma, Judit Lia Busanello, Maria Filomena Cernichiaro, MartaOmya e Ricardo Barbosa Martins.AGRADECIMENTOSSecretaria Municipal de Assistência Social (SMAS/PMSP)– CRAS/Sé e CAS/Centro-Oeste: Idalina Helena Villas BoasMenezes, Lia Déborah Sztulman, Margarida Yoshie IwakuraYuba, Maria Inês Cordeiro Gabriel, Marilisa Jorge Ayres, Níveade Simone da Silva e Sueli Chohfe Stelzer.Coordenadoria de Assuntos de Diversidade Sexual –CADS (SMPP/PMSP)Projeto de Inclusão Social Urbana Nós do CentroPelo incentivo e apoio: Ana Paula Alberico, Cássio Rodrigo,Floriano Pesaro, Gilberto Natalini, José Carlos Ferreira, LeilahRios, Luca Santoro, Marcelo Garcia, Marina Morena Barbosa,Nacime Salomão Mansur, Norberto Bossolani, Renato dePaula Marin e Vicente Roberto Hortega.APOIOSDepartamento de DST, Aids e Hepatites Viraisdo Ministério da SaúdeSecretaria Municipal de Assistência Social daPrefeitura de São Paulo (SMAS/PMSP)Programa Municipal de DST/Aids de São Paulo (SMS/PMSP)EQUIPE DE PRODUÇÃOReportagens e textos: Aureliano BiancarelliFotografia: Osmar BustosEdição e revisão: Fernando FulanettiArte e diagramação: José Humberto de S. SantosProdução gráfica: Márcia CostaImpressão: Gráfica StampattoTiragem: 2.000 exemplaresSão Paulo, outubro de 2010
  3. 3. SUMÁRIO 4 O amor na diversidade Um tema estigmatizado e ignorado 610 Acolhimento e atenção integral à diversidade Transexuais e travestis. Respeito e direitos em adequação 1520 CRD. O acolhimento como “porta de entrada” Ambulatório para travestis e transexuais. A busca pela saúde integral 25 Transexuais têm maior escolaridade32 e inserção no trabalho Abrigo, trabalho e acolhimento 34 “Não sou doente mental”,41 diz ex-presidente da Parada GLBT de São Paulo Brasil tem quatro centros públicos para a cirurgia 44 Terças-Trans.50 Um espaço de dúvidas e aprendizados A batalha pelo direito ao nome e ao sexo 54 “Abertura” do Judiciário56 facilita nova identidade Nome afasta transexuais e travestis da escola e serviços de saúde 6063 Mudança no documento é prioridade Visita às avenidas e guetos onde se oferecem as profissionais do sexo 6772 A “festa” dos craqueiros anestesiados e esquecidos Jovens e determinadas. Maioria das travestis diz não “precisar” de cuidados médicos 76
  4. 4. PREFÁCIO O AMOR NA DIVERSIDADE Aureliano Biancarelli á esperava ouvir relatos de humilhações e maus- panheiro com quem vai se casar quando se preparava J tratos sofridos pela população LGBT, especial- para a cirurgia de redesignação sexual. Os pais do casal mente por parte das travestis e transexuais. A já foram apresentados. angústia de gays que abandonaram a casa dos A descoberta do amor nesse universo marginal sur- pais depois de agredidos e foram morar na rua. giu ao longo das muitas entrevistas. A solidariedade e a Garotas travestis que fugiram de suas famílias e troca de cuidados, como gestos de amor, estão presen- se aventuraram sozinhas em busca de hormônio e de tes em quase todos os relatos. Já se imaginava um uni- clientela. Só não esperava que o amor e o com- verso de preconceito mas o amor não estava na pauta, panheirismo sobrevivessem com tanta força entre esses nem na lista de preocupações dessa publicação. personagens. No Centro de Referência da Diversidade A proposta foi deixar que contassem suas histó- é comum ver casais de mãos dadas, ela travesti, ele rias. Reunir relatos descritos a partir do olhar de quem heterossexual, os dois morando na rua. Em todos os se encontra na rua ou dependente da rua, onde seu relatos, em meio a histórias de maus-tratos, abandono sexo, definido ou imaginado, é a razão das atenções e discriminação, há sempre uma história de amor e discriminações. Muitas vezes desejadas e fantasia- Mikaela é capaz de quebrar um bar se alguém mal- das, travestis e transexuais são objetos de desejos es- trata uma de suas colegas travestis. Na “vida real”, ima- condidos – ou revelados – nas escapadas noturnas gina uma casinha onde possa trabalhar no computa- de “clientes” em avenidas e esquinas pouco ilumina- dor, ao lado do “esposo” que diz amar. Luiza Santos das da cidade. Na lista dos clientes estão garotos com vive há 14 anos com o companheiro e sonha com o dia carro emprestado dos pais e homens à procura de em que poderá presenteá-lo com uma vagina, sem a companhia. necessidade de esconder o pênis atrofiado. Ele nunca A proposta dos textos que se seguem é reproduzir se queixou, diz ela. Alexsandro, um homem trans, teve as histórias dessas travestis e transexuais. Falar dasA DIVERSIDADE REVELADA várias parceiras heterossexuais. A família da atual na- barreiras que separam essas personagens dos serviços morada prepara o casamento. Rodrigo já foi michê e públicos, principalmente aqueles de saúde. A publi- agora, portador do HIV, troca cuidados com a compa- cação dedica cuidado diferenciado e esperançoso a dois nheira que é travesti e sofre com um câncer. Marciano serviços recentes que buscam olhares e atenção ino- ganhou dinheiro como cafetão, até cair no crack e ado- vadores para essa população. Trata-se do CRD, o ecer com câncer e aids. Em nenhum momento antes e Centro de Referência da Diversidade, parceria da depois da doença, ele conta, foi abandonado por com- ONG Grupo Pela Vidda/SP com a Prefeitura de São panheiras, travestis e mulheres, que estiveram ao seu Paulo. E do Ambulatório de Saúde Integral para Tra- lado. A travesti Camila, no entusiasmo dos seus 20 anos, vestis e Transexuais, do Centro de Treinamento e deixou o albergue e passou a morar nas ruas por “amor Referência DST/Aids-SP, serviço da Secretaria de 4 ao esposo”. A transexual Alessandra conheceu o com- Estado da Saúde de São Paulo.
  5. 5. Aos olhos dessa publicação, estes locais revelam-se xúria”, não de uma modificação que necessitasse depontos de encontro com um universo marginal e estig- cuidados médicos. A oferta dos serviços públicos, sómatizado, mal compreendido e subavaliado. A depen- agora regulamentada, não dá conta de uma ínfimadência pelo crack e a infecção pelo HIV, altamente parcela das transexuais. A maioria, mesmos nos “tem-presentes nessa população, são duas ameaças para as pos modernos”, morrerá embalando o sonho de ter oquais a sociedade e a saúde pública ainda não presta- pênis trocado por uma vagina. Aos homens trans, nãoram a devida atenção. Os custos produzidos pela vio- há sequer a perspectiva de implantação de um pênis,lência desse vulcão silencioso, os gastos com saúde, as técnica ainda experimental.perdas de vidas e o sofrimento dos sobreviventes só O resultado desta publicação é ainda uma via-serão conhecidos quando a conta chegar. E ela chega- gem superficial num território outrora batizadorá com acréscimos nem sempre possíveis de bancar. equivocadamente de “terceiro sexo”, ignorado pela Convidado a produzir os textos dessa publicação, maioria heterossexual. Já começou o milênio ondeme senti à vontade para reunir relatos que ilustram a homens e mulheres serão superados por um sexo quevida de personagens e dados sobre serviços de saúde, não será nem masculino nem feminino, fantasiamprocedimentos médicos e legislações. A cirurgia de alguns militantes LGBT.redesignação sexual para transexuais foi oficializada Verdade ou fantasia, o livro revela que pouco seno Brasil em 2002, um atraso de meio século quando sabe sobre esse outro universo. E que poucos cuida-se compara com países desenvolvidos. A Justiça tam- dos vêm sendo dispensados para aqueles que vivembém empacou nos seus códigos, e a mudança de nome entre a marginalidade e a sobrevivência. O que se sabe,– e especialmente de sexo – ainda requer uma longa e é que eles vêm abandonando o ninho e ganhando vozcara ação individual. O cenário vem mudando, mas a no meio social.desesperança na fila das cirurgias – agravada com a Enquanto a sociedade não presta atenção nem cui- A DIVERSIDADE REVELADAfalta de transparência – e as dificuldades na mudança dados, travestis, transexuais e michês se protegem di-de nome fazem parte de quase todos os relatos. vidindo solidariedade e se juntando em casais. A im- A discriminação e a pouca atenção dedicadas a pressão que salta dos relatos é a de que o amor natravestis e transexuais se arrastam ao longo de sécu- diversidade é mais generoso e menos opressivo do quelos. Um dia alguém ainda escreverá sobre o sofri- entre casais heterossexuais. O preço que se paga, nomento dessa população, ignorada e estigmatizada. entanto, continua muito alto.Historiadores e antropólogos ainda não deram a devida A grande maioria das entrevistas foi feita entreatenção a esses personagens. março e junho de 2010, nos espaços do CRD e do Até décadas atrás, a medicina tinha pouco a fazer. ambulatório. Algumas poucas foram feitas por telefone.Agora que tem, limita a atenção a uma minúscula Todos os entrevistados e entrevistadas concordaramminoria de transexuais, como se tratasse de uma “lu- com a publicação de seus nomes e de suas fotos. 5
  6. 6. INTRODUÇÃO UM TEMA ESTIGMATIZADO E IGNORADO “Não mudamos nada, apenas adequamos o sexo ao cérebro”, diz o cirurgião que mais fez cirurgias de redesignação sexual no Brasil. Muito além dos bisturis, o desafio está em adequar as mentes heterossexuais à convivência com a diversidade. elatos de personagens de uma chamada reúne essa população. Mesmo reduzidas a um décimo R “diversidade” estão registrados nos capítu- desse número, não há estrutura nos serviços públicos los desta publicação. São mulheres trans – capaz de atender sequer uma parcela dessa população. que nasceram com corpo de homem e se Sem a pretensão de ordenar temas ou de explo- sentem mulheres. E de homens trans, que rar todas as dificuldades da população LGBT, os tex- conservam os órgãos femininos, mas pen- tos que se seguem nesta publicação tratam das ques- sam e agem como homens. O respeito e os cuidados tões da legalidade, do direito ao nome, dos serviços psicológicos e médicos a essa população dependem de saúde e do reconhecimento desse grupo. Espe- de um amadurecimento da sociedade. Vai do conhe- cialistas do direito e da saúde, e ativistas transexuais, cimento e da atenção médica, que inclui cirurgias expõem seus pontos de vistas e falam de suas expe- complexas e reordenações do serviço público, aos riências com essa população. avanços em termos da legislação e até mesmo às in- Os depoimentos das pessoas entrevistadas ilustramA DIVERSIDADE REVELADA terpretações do Judiciário. um cenário desconhecido e ignorado mesmo pelos Nos códigos prevalentes, não há espaço para um profissionais que deveriam estar de olhos mais atentos “terceiro sexo”, por isso a mudança do nome e do para a evolução dos conceitos. “Não mudamos nada, sexo depende de demorados e complexos processos apenas adequamos o sexo ao cérebro”, diz Jalma Ju- na Justiça. Medicina e Judiciário estão décadas atrás rado, o cirurgião plástico brasileiro que diz já ter feito de um processo de readequação do sexo que há sé- 800 cirurgias de redesignação sexual. A grande maio- culos aparece em relatos, em todas as civilizações e ria dos profissionais ainda terá de amadurecer antes em todas as épocas. de pensar como ele. Camufladas e escondidas no meio social, as traves- A seguir, falas resumidas de alguns e algumas das tis seriam 800 mil no Brasil e 400 mil as transexuais, personagens, cujas histórias em detalhe podem ser vis- 6 segundo estimativas da Antra, articulação nacional que tas ao longo desta publicação.
  7. 7. AGNES traz entre os seios uma procedimentos – e a abertura do “O CRD para mim é umatatuagem com seu nome, uma cruz e Ambulatório de Saúde Integral para clínica, nenhum outro tratamento meuma borboleta. Fez isso quando tinha Travestis e Transexuais, ela retomou mudaria tanto, porque aqui me deram23 anos. Deprimida, tinha decidido se as esperanças. “Só não me suicidei responsabilidades, tive o apoio e amatar, mas não se conformava com o porque tirar a vida por uma condição confiança de toda a equipe. Parafato de que na lápide ficaria gravado que Deus me deu, seria cometer o desviar da droga, o drogado tem queseu nome masculino. Com a maior pecado. Mas ainda espero que ter uma responsabilidade. Então otatuagem, saberiam que estavam com a cirurgia encontrarei o contrato aqui com o CRD mudouenterrando uma mulher, ela casamento e a felicidade.” tudo, virou um projeto de vida, maisimaginava. Desistiu do suicídio, mas do que um trabalho. É uma lutase inquieta ao pensar que se morrer NO PARQUE DA LUZ, o mais constante. Eu era 100% drogada, hojeantes da cirurgia e da mudança nos pobre e triste ponto de prostituição da posso dizer que sou 20%. Um tempodocumentos trocarão suas roupas por cidade, Bernadete é considerada atrás eu jamais estaria aqui, estariaum paletó de homem e na lápide jovem perto das senhoras de mais de roubando, indo atrás de droga.”ficará seu nome masculino. 80 anos que fazem programa ali. Claudia Coca, 42 anos, é uma travesti “Vivem de clientes antigos, ou de contratada como educadora de rua. ALEXSANDRO já teve quatro rapazes maníacos com fixação na mãe Percorre pontos de prostituiçãocasamentos com mulheres ou na avó”, ela interpreta. “Os embaixo de viadutos, onde só umaheterossexuais e diz que sempre clientes idosos, com os cabelos travesti seria recebida. Quem vêcumpriu suas “funções de homem e branquinhos, são tão sozinhos quanto aquela negra atraente, de cabelosmarido”. Agora está diante de um elas. Usam três cuecas, quando uma curtos, cintura torneada e seiosdilema: os pais da atual namorada suja, colocam outra por cima, depois empinados, não imagina que já foiesperam um casamento na igreja e de outra.” Bernardete Vicente de Souza, drogada, prostituída, presidiária,papel passado. Só que ele é um homem 58 anos, faz a ponte entre as bombadeira. É um dos exemplos maistrans, tem barba e traços masculinos, “meninas” da Luz e o CRD. “Digo a marcantes de “travestis marginais”mas disfarça os seios e esconde uma elas que é um jeito de não ficar que mudaram de vida ao encontrar ovagina. E nos documentos traz o nome sozinha. Porque ficar sozinha nesta CRD e que, infelizmente, faleceude mulher. Sua esperança é conseguir vida é perigoso.” antes de ver essa publicação.uma cirurgia para a retirada dos seios, jáque substituir a vagina por um pênis é CAMILA ROCHA, 18 anos, é uma A CABELEIREIRA Débora Zaidanuma possibilidade remota. E mudar o travesti forte, bonita, com traços e reuniu R$ 30 mil com a ajuda da famílianome depende de um processo lento seios que chamam a atenção. Dorme e em 2006 fez a cirurgia dena Justiça. A data do casamento está se na rua “por amor”, ela conta. O redesignação sexual com um cirurgiãoaproximando. “marido” morria de ciúmes sabendo particular. Os vizinhos e clientes que estava num albergue numa ala sabem que hoje ela é uma “mulher ANDRÉIA FERRARESI carrega na com 120 homens. “Não dava para operada”, embora sempre tenha sidopasta repleta de papéis um laudo de ficar separados. Decidimos os dois respeitada como mulher. Débora diz1977 informando que é portadora de dormir na rua.” Camila encontrou que teve companheiros antes e depoistransexualismo e que está apta para a socorro no CRD e no Ambulatório de da cirurgia, e descobriu que o sexo nãocirurgia de adaptação de genitais. Só Saúde Integral para Travestis e era o mais importante na relação. A DIVERSIDADE REVELADA25 anos depois, em 2002, o Conselho Transexuais quando o HIV já estava “Hoje vivo muito mais tranqüila comFederal de Medicina viria a autorizar roubando as energias e as drogas meu sexo, mas descobri que o prazero procedimento nos hospitais públicos afastando os clientes. Sua vida de rua é psicológico. Tive muito prazer come privados. Nesse quarto de século, e prostituição começou aos 10 anos na alguns homens, e não tive nada comAndréia viveu de terapias e sonhos. praia de Iracema, em Fortaleza. “Em outros, sem vagina e com vagina, assimAinda continua sonhando. Aos 67 São Paulo descabelei, orgia, bebida, como qualquer mulher.”anos, ela se diz uma mulher droga. O cliente oferece crack, pagainjustiçada, mas se recusa a falar em mais e não quer camisinha. Não vou “A MUDANÇA de sexo é umadesistência. Com a nova portaria do contar que tenho aids. Estou coisa que hoje não me incomodaSUS de 2008 – incluindo a cirurgia de deixando essa vida, mas ainda preciso tanto, mas já sofri muitoredesignação sexual entre seus de dinheiro.” afetivamente. Você conhece um 7
  8. 8. homem e ele pensa que você é marquises no centro de Osasco, até Demônio, que conserva até hoje. biologicamente mulher, e você não conhecer o CRD e ser encaminhada a Alta, forte e “babadeira”, ela se é... Fica com medo de contar e ser um albergue. Diz que ainda não impunha onde estivesse. Um cliente rejeitada, como acontecia lá atrás. O encontrou ajuda nos serviços de saúde ou estranho que humilhasse uma medo de se identificar vai virando um e naqueles voltados para a população colega, ela quebrava uma garrafa na trauma. Hoje já me pega menos. LGBT, onde esperava uma reinserção mesa e o bar virava um silêncio. Era a Estou conseguindo gostar de mim no trabalho. “Meu relato é uma mais respeitada. Aos 40 anos, mesma.” Kleos Marine Guedes, 45 história de perdas e de um auto- “exausta, acabada, sem saída”, anos, produtora de eventos e artesã. conhecimento solitário. Perda do passou um dia pela calçada do CRD e emprego, da casa, da identidade dediciu entrar. “Ali mostraram que “MEU NOME social é Leo sexual, da família. Aos 26 anos contei a minha vida podia ser diferente, e eu Moreira, tenho 52 anos, sou um meus pais o que eles sempre comecei a mudar.” Dali passou a ser homem trans, tenho essa barba e cara souberam. Meu pai disse, ‘eu aceito cuidada pelo Ambulatório de Saúde de homem, mas ainda carrego seios e você assim, só não estou preparado Integral para Travestis e Transexuais. uma vagina. Estive preso por cinco para participar’. Era justamente o que Mikaela está se mudando para uma anos em vários presídios por conta de esperava ouvir. Esse foi o momento casa na periferia da Zona Sul com o drogas, me casei três vezes nas definitivo. Meu pai e minha mãe “esposo”, que tem emprego no cadeias, nas alas femininas, porque morreram logo depois.” programa Travessia Segura, da para o sistema eu era a Lourdes Prefeitura. Diz que aprendeu tudo de Helena Moreira Santos, era a sapatão MARCIANO Alves Fernandes, 29 informática e quer fazer faculdade de mais disputada pelas presidiárias. anos, conserva a elegância dos tempos tecnologia da informação. Ganhará Com metade do curso de sociologia que mantinha R$ 300 mil em conta tanto que voltará a usar seu perfume na USP, virei professor na cadeia, bancária e chefiava 30 meninas numa preferido, Bulgary black, e só antes já tinha sido militante feminista das ruas de Ravenna, na Itália. Foi para trabalhará em casa, “pelada, com e baterista do grupo As Mercenárias. rua com 12 anos quando o pai adotivo meu namorado”. Fui casado de papel com a travesti lhe bateu na cara e ele prometeu que Gabriela Bionda, eu com meu nome homem nenhum voltaria a fazer isso MILA não quer mais que a de mulher, ela com o nome de com ele. Fugitivo de casa, dormiu em chamem de Mila Citroen, apelido que homem, era o casal mais badalado do cima de árvores, foi cuidado por ganhou porque os carros que mundo gay. Quando sai da cadeia, não travestis, até se tornar cafetão “sequestrava” para tirar dinheiro de tinha mais nada, nem amigos nem respeitado e patrocinador de festas caixas eletrônicos eram sempre da referências sexuais. O CRD me deu com as mulheres mais bonitas. Hoje se marca Citroen. “Sou outra Mila”, ela essa força. Hoje sou ator na peça trata da aids, de diabetes e de um diz. Mila Alves dos Santos, 30 anos, já “Hipóteses para o Amor de câncer. Trocou as contas em banco foi prostituta, assaltante, presidiária, Verdade”, que conta um pedaço da por um salário contado como drogada, “fazia programa por R$ 5 só minha história, e que está no espaço segurança e agente de prevenção do para comprar pedra”. Entrou no Satyros 1. Vocês estão convidados.” CRD. “Plantei espinhos, estou CRD convidada por uma amiga e colhendo espinhos”, diz, sem perder a desde então diz que sua vida está MARCELLE MIGUEL, 37 anos, tem dignidade. “O crack me pegou e me mudando. “Hoje não sou mais traços femininos, cabelos sobre os destruiu em dois anos. Mas ainda vou clandestina, vivo com meu parceiro, oA DIVERSIDADE REVELADA ombros, olhos verdes, usa blusa regata sair dessa.” Em todos os momentos, Igor, todo mundo no bairro sabe”. preta, calça unisex e sandália de dedo. sempre teve uma mulher do seu lado, Igor é ajudante de carga e descarga, Chama a atenção pela aparente travesti ou transexual. “Quando você estava noivo quando se decepcionou timidez, a conversa tranquila, as para com a droga, fica muito carente. e encontrou Mila, “esta é história que palavras medidas, as frases construídas Agora vivo com Bianca, na periferia. ele me conta”, diz. “A droga ainda com cuidado. Já foi “técnico” de Um cuida do outro.” me tenta, mas estou vivendo como informática em grandes empresas auxiliar de cabeleireira e faço antes de abandonar os trajes NOS 20 ANOS que se prostituiu, supletivo. Vivo fugindo das masculinos e se assumir como mulher quando se animava com drogas e tentações. Costumava carregar R$ 3 trans. O preço foi o desemprego e a álcool, a travesti Mikaela Rossini mil na bolsa, oferecia drogas e bebidas 8 rua. Viveu vários períodos sob ganhou o apelido de Mikaela para as colegas. Hoje o dinheiro para
  9. 9. viver me deixa feliz. No ambulatório, com um trabalho e um espaço que prostitutas, é voluntária num serviço deestou treinando com a fonoaudióloga possa dividir com Fernanda. “Ela tem DST-Aids, e faz o primeiro ano numapara afinar a voz.” dois yorkshires, precisamos de uma faculdade de Serviço Social. É casinha com quintal.” acompanhada pelo ambulatório para ELA É A ESTRELA das noites travestis e transexuais do CRT DST/paulistanas nos bares que reúnem “UMA TRAVESTI com silicone e Aids-SP. Vanessa diz que nunca ouviugays, lésbicas e travestis. É uma das próteses pode ganhar até R$ 500 por uma “gracinha, um psiu, umararas drag queens que não dubla e que noite, as outras ganham a metade. O provocação”, referindo-se a seus trajescoleciona elogios da crítica como silicone industrial é perigoso, mas não e comportamento como mulher. “Seintérprete da música popular vim de Belém para ficar no meio do você quer respeito, tem que terbrasileira. Cria suas coreografias e caminho. Assim que fizer as respeito, tem que impor. Não podedestila um humor picante, sempre aplicações e juntar dinheiro, vou para botar um bustiê, um sutiã, e querer irintercalado com poemas. Seu próximo a Itália.” Suzielen S., 19 anos, se diz ao açougue ao meio-dia”, ela diz.CD é dedicado a Noel Rosa. Ela é travesti e transexual. Frequenta asRenata Perón, mas já foi o cantor Terças-Trans do CRD e faz O PROFESSOR de inglês VictorSérgio, em Juazeiro, Bahia. Em São acompanhamento no Ambulatório de de Abreu, 27 anos, é um homemPaulo foi cabeleireira, manequim, Saúde Integral para Travestis e trans que já fez cirurgia da mama etrabalhou em teatro, cinema e novela Transexuais. Mesmo orientada, agora embala um sonho com ade TV. Nas tardes de quarta-feira, percorre a rota sonhada por milhares namorada com quem vive há quatropode ser vista entre o grupo que delas, “modelar” o corpo e ganhar anos: retirar um dos seus óvulos efrequenta as oficinas de canto do dinheiro lá fora. guardá-lo congelado numa clínica deCRD. “A música é sempre um inseminação para que no futuro possamomento de reflexão e autoestima, “O TERCEIRO milênio é o ser fecundado e colocado no útero dapara noiados ou não.” Foi o Centro de milênio da mente, e a mente tem um companheira. Assim, o filho nasceriaCombate à Homofobia, da Prefeitura, terceiro sexo. Vai chegar um de um óvulo seu e seria gerado nae o CRD que a acolheram quando foi momento que o homossexual terá “barriga” da namorada. Victor éagredida por um grupo de rapazes na muito orgulho em ser homo, porque é paciente do Ambulatório de Saúdepraça da República e perdeu um rim. capaz de gerar coisas lindas, Integral para Travestis e Transexuais.Renata é uma travesti, mas nos shows fabulosas.” Thaís di Azevedo, que fazque agora faz no Hábeas Copus se essa “previsão”, traz a experiência de ALEXANDRE SANTOS, o Xande,identifica como drag queen. “A uma travesti que aos 60 anos 38 anos, é um homem trans que jásociedade não aceita que haja travestis coleciona uma história de vitórias e comandou a Parada do Orgulho GLBTcom alguma dignidade e inteligência.” conquistas que superam as de São Paulo, a maior manifestação de humilhações. Thaís é hoje a gays, lésbicas, travestis, transexuais e QUASE TODOS os dias Fernanda recepcionista do CRD, aprovada em simpatizantes do mundo. Tem umasai de Guarulhos e vai à região central concurso. Combina a elegância com a filha, hoje com 19 anos, que nasceude São Paulo para ver Rodrigo. Ela é amabilidade e a habilidade necessárias ainda em sua “fase” lésbica. Nastravesti, já foi auxiliar de para manter a ordem num espaço relações seguintes, as companheirasenfermagem, agora luta contra um onde se misturam moradores de rua e foram sempre heterossexuais, comocâncer e batalha pela aposentadoria travestis em busca de ajuda, às vezes Débora, sua atual parceira. Xande A DIVERSIDADE REVELADAque tem direito. Rodrigo de Souza ainda sob o efeito de drogas. “A falta ainda não conseguiu a retirada dosVentura, 30 anos, percorreu várias de informação e o preconceito seios e dos órgãos femininos internos,cidades antes de chegar a São Paulo e paralisam todos nós”, diz. As cadeiras embora seja um procedimento comumse assumir como michê profissional. dispostas ao lado de sua mesa nunca em mulheres, por necessidadesAnimado pelo crack, chegava a fazer estão vazias. Tem sempre alguém médicas. “A menstruação é uma coisa20 programas em 24 horas nos querendo ouvir suas idéias. terrível para mim”, ele diz, cobrandoprincipais cinemas pornôs do centro um direito que considera fundamental.de São Paulo. Doente e com os VANESSA PAVANELLO, 41 anos, Militante em tempo integral, Xandesintomas da aids, foi em busca de mãe de um filho adotivo, é uma mulher lamenta a invisibilidade dos homensajuda no CRD, onde encontrou trans. Trabalha como agente social da trans e faz críticas à imposição doamigos e o gosto pela pintura. Sonha Prefeitura, coordena reuniões com padrão heterossexual. 9
  10. 10. Acolhimento e atenção INTEGRAL À DIVERSIDADE Os públicos são muito parecidos, o que facilitou a aproximação e a sinergia dos trabalhos realizados pelo Centro de Referência da Diversidade e pelo Ambulatório de Saúde Integral para Travestis e Transexuais do CRT DST/Aids-SP A experiência dos dois serviços . traz a perspectiva de dias melhores à população LGBT . Centro de Referência da Diversidade, o do Centro de Referência da Diversidade, o CRD. O CRD, já se firmou como porta aberta para “‘Tem um lanche da tarde e tevê’, Baby disse. Des- a população LGBT em situação de cobri que tinha muito mais, tinha gente para con- vulnerabilidade e risco social. Em outra versar e que se preocupava comigo. Minha vida co- frente, o Ambulatório de Saúde Integral meçou a mudar ali.” Foi o CRD que encaminhou para Travestis e Transexuais do Centro Mila para o Ambulatório de Saúde Integral para Tra- de Referência e Treinamento DST/Aids-SP (CRT vestis e Transexuais do CRT DST/Aids-SP. Encon-A DIVERSIDADE REVELADA DST/Aids-SP) já é referência como serviço de saúde trou lá não só endocrinologista, proctologista, voltado para essa população. Oferece, inclusive, o psicólogo, mas também uma fonoaudióloga. “Mi- acompanhamento psicológico necessário para a cirur- nha voz não era assim, era uma voz grossa.” gia de redesignação sexual. As duas iniciativas estão Camila Rocha, também travesti, fez caminho se- revelando formas diferenciadas e criativas de oferecer melhante. Divide visitas ao CRD com o ambulatório acolhimento, escuta especializada e realizar ações de do CRT DST/Aids-SP onde passa por consultas e prevenção junto a esta população. monitora a carga viral da infecção pelo HIV. A A travesti Mila Alves dos Santos viveu nove anos transexual Verônica Freitas conheceu o CRD no fi- entre prostituição, drogas, assaltos e cadeias. Lem- nal de 2009 e meses depois tinha suas consultas bra-se da tarde de setembro de 2009 quando Baby, agendadas no ambulatório. Quer participar do grupo10 uma amiga, insistiu para que entrassem na porta aberta de psicoterapia e sonha com uma cirurgia. Taís Diniz
  11. 11. Os sofás do saguão do CRD são o primeiro espaço de acolhimento para quem está chegando da ruaSouza, transexual e assistente social do CRD, retirou O Ambulatório de Saúde Integral para Travestis eo silicone industrial que a incomodava depois que pas- Transexuais foi pensado para oferecer na área da saú-sou a freqüentar o ambulatório. de a atenção especializada que os serviços da rede pú- O CRD fica na rua Major Sertório, entre a Rego blica não contam ou não estão capacitados a oferecer.Freitas e a Amaral Gurgel, certamente a calçada do Até então, travestis não passavam por endocrinologistasCentro da cidade mais freqüentada por travestis e toda (embora abusem do uso de hormônio), homens transsorte de desassistidos da noite. O Ambulatório de Saú- não contavam com ginecologistas (embora biologica-de Integral para Travestis e Transexuais, por sua vez, mente sejam mulheres), e mulheres trans não viamocupa várias salas dentro do Centro de Referência e urologistas – embora conservem a próstata, mesmoTreinamento DST/Aids-SP, na rua Santa Cruz, na Vila depois de operadas. Homens trans com jeito másculoMariana, Zona Sul. A entrada fica na calçada em frente e barba no rosto não ficavam à vontade numa sala deà Igreja Nossa Senhora da Saúde, próximo do metrô, espera de um ginecologista. Travestis ainda evitamdo Colégio Marista Arquidiocesano e de um shopping serviços de saúde para não serem chamadas em vozcenter. Seu entorno é agitado por milhares de pessoas. alta pelo nome do registro civil.Para muitos usuários, é conhecido como o ambulatório Nas saídas noturnas, quando educadores sociais doda Santa Cruz. CRD entregam camisinha e gel para profissionais do O Centro de Referência da Diversidade foi inau- sexo, as travestis mais jovens dizem que nunca procu-gurado em março de 2008. O Ambulatório de Saú- raram ajuda médica com medo de serem humilhadas.de Integral para Travestis e Transexuais começou a Agora, além de especialistas e de profissionais prepa-funcionar em junho de 2009. Os dois serviços se rados para essas usuárias, o ambulatório oferece ses-completam. Marcam um passo inovador na forma sões de fonoaudiologia, para que suas vozes sejamde fazer prevenção e oferecer cuidados a uma moduladas como seus corpos são modelados.população habituada à discriminação, ao pouco caso Os dois centros buscam oferecer mais que o acolhi-e à inabilidade das políticas públicas. mento e o atendimento. Pretendem ser modelos para A DIVERSIDADE REVELADA O CRD é a porta de entrada para travestis, que outros serviços sejam abertos no país, por isso sãotransexuais, prostitutas, lésbicas, gays e michês que centros de referência. Capacitar profissionais da saúdese encontram em situação de risco – vulneráveis à para que, num futuro, travestis e transexuais não neces-droga, à violência, ao HIV/aids e ao abandono com- sitem recorrer a um ambulatório diferenciado.pleto. É um espaço de acolhimento, convivência e A gestão do CRD é feita pelo Grupo Pela Vidda/intervenção na trajetória social. O maior desafio é o SP, uma ONG que trabalha com HIV/aids há maisaumento constante de usuários de crack e a reinserção de 20 anos, em parceria com a Secretaria Municipalno trabalho. Cerca de metade dos freqüentadores se de Assistência Social da Prefeitura de São Paulo. Nodizem desempregados, e outra parte, profissionais do início, o CRD integrava o Projeto Inclusão Socialsexo. Para dar conta dessa tarefa, o CRD fez uma Urbana – Nós do Centro, com recursos da Uniãosérie de parcerias públicas e não governamentais. Europeia. O Ambulatório de Saúde Integral para 11
  12. 12. rência da Diversidade ilustra o nível de risco em que se encontram. Entre os usuários que procuraram o CRD até maio de 2010, 57% se auto-classificavam como travestis e apenas 5% como transexuais. Os ou- tros disseram ser gays, heterossexuais, bissexuais ou lésbicas. No grupo todo, 40% viviam com HIV e 46% não realizavam teste há mais de três anos, embora relatassem situação de exposição. A metade se dizia desempregada e 35%, profissionais do sexo. Um terço deles era morador de rua. Trata-se de uma população bastante diferencia- da daquela que procura o ambulatório do CRT DST/Aids-SP, o que é compreensível pela própria proposta do serviço. De uma amostra inicial cadastrada no ambulatório, 68,2% se auto-definiram como transexuais e a demanda principal era a cirur- gia de redesignação sexual e tratamento hormonal. As travestis eram 35,3% e procuravam sobretudo pela hormonoterapia e pela retirada de silicone industrial. Partiu do então secretário estadual da Saúde, Luiz Roberto Barradas Barata, morto em 17 de julho de 2010, o pedido para que o CRT DST/Aids-SP colocasse em andamento um programa voltado para travestis e transexuais. “As condições estavam dadas, havia planos À espera de atendimento no CRT DST/Aids-SP: antes do nacionais e estaduais dizendo que tínhamos de trabalhar gênero, do nome e do sexo, o mais importante é o respeito com essa questão, e havia a clareza de nossa parte de que a vulnerabilidade dessa população precisava de Travestis e Transexuais, por sua vez, é um serviço do respostas diferenciadas e concretas – e que essas respostas CRT DST/Aids-SP, da Secretaria de Estado da Saúde passavam pelo acesso aos serviços de saúde. Para aquelas de São Paulo, o primeiro centro voltado ao tratamento que são soropositivas, o serviço permite melhor acom- e prevenção da aids, ainda no início dos anos 1980. panhamento. Com as outras, podemos trabalhar a pre- “Participamos desde o início da construção desse venção”, diz Maria Clara Gianna, coordenadora do Pro- ambulatório, por isso somos um parceiro prioritário”, grama Estadual DST/Aids-SP. diz Irina Bacci, que coordena o CRD. No cadastro que Se oferecesse apenas um acolhimento diferenciado, preenchem quando da chegada de um novo usuário, o ambulatório não atrairia nem teria a fidelidade que vários itens tratam da saúde. “Sabemos há quanto tem- tem das usuárias. “A saúde integral, como o ambulató- po não passam por um médico, se são soropositivas, se rio promete, inclui necessidades que vão da Atenção injetaram silicone e se fazem uso indiscriminado de Básica à hormonoterapia, à fonoaudiologia, passando hormônio. Quando é o caso, ligamos e agendamos uma por psicoterapia preparatória para a operação, no caso consulta no ambulatório”, diz Irina. das transexuais”, diz a médica. As travestis, por exemplo,A DIVERSIDADE REVELADA O caminho para os serviços de saúde não preci- não iriam ao ambulatório se não contassem com um saria, em princípio, passar pelo CRD, mas para al- acompanhamento hormonal e se não pudessem receber guns é o único atalho. “Muita gente está vindo aqui cuidados no caso de danos provocados por silicone porque não consegue acessar os serviços de urgên- industrial. Uma parceria com o Hospital Estadual de cia e emergência”, diz Irina. “Estavam tão mal que Diadema, na Grande São Paulo, vem cuidando daquelas pronto-socorro não aceita, Samu não resgata. Então cujo silicone migrou para outras partes do corpo, nós levamos para o ambulatório, e na fase seguinte causando deformações e inchaços. Em uma amostra ele encaminha para dentro da rede. Essa é outra im- de 72 travestis atendidas no ambulatório, 15 foram em portância do ambulatório, abrir a porta da rede de busca de tratamento para o silicone industrial implantado. saúde para essa população.” E quase todas procuraram o serviço para acompanha-12 O perfil dos frequentadores do Centro de Refe- mento hormonal.
  13. 13. Rodrigo de Souza Ventura, 30 anosQUASE TODOS os dias Fernanda sai deGuarulhos e vai à região central de SãoPaulo para ver Rodrigo. O trajeto toma “ Eu me prostituia e usava crackquase uma hora. Fernanda tem 45 anos, porque nãoé travesti, já foi auxiliar de enfermagem queria morrerpor 20 anos, é portadora do HIV e agorase trata de um câncer enquanto aguardaa aposentadoria. Rodrigo de Souza Ven-tura, 30 anos, também tem HIV, foimichê em Maringá onde nasceu, depois ” ceu na Praça da República, quatro me- ses atrás, eu estava pesando 49 quilos, dez meses antes tinha descoberto queem Curitiba e São Paulo. Chegou a fa- estava com HIV, foi julho de 2009. Co-zer 20 programas por dia, dentro ou fora mecei o tratamento e parei, achava quedos cinemas da São João, cobrando R$ minha vida não tinha mais sentido. Todo30 por saída. Desde que conheceu o dia eu me prostituía, todo o dinheiro queCRD vem fazendo cursos e sonha com eu pegava ia para o crack. Mesmo sa-uma casa pequena onde possa morar Curitiba, daí para São Paulo. “Estava bendo que tinha HIV, eu saia para noi-com Fernanda e seus dois yorkshires. decidido a sair dessa vida.” Era maio de te. Eu já freqüentava o CRD há um ano “Foi no CRD que comecei a acredi- 2007 e ao desembarcar em São Paulo, e meio, mas continuava fazendo pro-tar que havia um outro caminho”, ele conta que roubaram os R$ 1.800 que gramas, o dinheiro ia todo para o crack,diz. “Aqui me sinto seguro, meu sonho trazia e a saída foi retomar o caminho porque eu não aceitava que estava comé trabalhar aqui, mostrar aos outros que da prostituição. “Conheci as termas aids. Os clientes não sabiam que eu ti-sempre há uma saída.” Foi um colega Lagoa, a Fragata, a Praça da República, nha aids, nem queriam saber.”de albergue, já nas primeiras noites em rua do Arouche, os ‘cinemão’ pornôs, Foi nos contatos no Centro de Refe-São Paulo, que falou do CRD, um pon- que naquele tempo eram muitos. Foi rência da Diversidade, e com o círculoto de encontro onde teria lanche à tar- num desses que me apresentaram o de amigos que foi formando, que Rodrigode, Internet, tevê e até mesmo a ajuda crack, minha decadência começou aí.” fez as primeiras tentativas de deixar ade um psicólogo e a atenção de uma Usava tanto que num momento co- droga e a prostituição. “Aqui é a minhaassistente social. Isso foi no ano passa- meçou a vender o que tinha e a se primeira casa, porque nos alberguesdo, 2009. Rodrigo continua morando envolver com todos os personagens você não tem um espaço seu, só temem albergue e fazendo tratamento no da noite, travestis, gays, prostitutas. horários para cumprir, até às 8 da noiteSAE de Campos Elíseos. Trabalho ain- “No cine Saci, quando funcionava, eu para entrar, 10 minutos para tomar ba-da não conseguiu. cheguei a fazer R$ 480 reais com pro- nho, às 6 da manhã as luzes são acesas, Rodrigo nasceu em São Jorge do Ivaí, gramas de R$ 20, R$ 30 reais. Saí você tem até às 8 para sair. Mas foi ano Paraná. Logo a família foi para mais de 20 vezes em menos de 24 Fernanda, minha namorada, que meMaringá, e quando perdeu o pai, atro- horas, o corpo destruído. Tinha o Las ajudou a mudar de vida. Ela sofreu mui-pelado e bêbado, foi internado num or- Vegas, que foi desativado. O pessoal to, se envolveu com traficantes, com A DIVERSIDADE REVELADAfanato. Tinha cinco anos e ficou lá até deixava usar os banheiros, era crack usuários que já tentaram matá-la. O cân-os 18. Na saída, trabalhou como vigi- e sexo dentro do cinema também. cer dela é de pulmão. A gente vive cui-lante no centro da cidade, ruas que reu- Havia duas escadas laterais, duas sa- dando um do outro. Nesses cinco me-niam prostitutas e michês. “A farda e o las de cinema e uma sala menor onde ses que estamos juntos, ela só não veiocassetete chamavam a atenção e os ho- tinha uma tevê e o pessoal fumava me ver três dias. Hoje ela me deixoumens começaram a se envolver comi- crack direto, e fazia sexo, não preci- aqui na porta, é ela que cuida de mim,go. Ganhava até R$ 80 por programas sava nem ir para hotel. O cinema era da minha roupa. Largou o trabalho deque rendiam R$ 200 por noite. Come- só fachada, lá dentro se fazia de tudo, enfermagem depois que pegou o cân-cei a freqüentar saunas, conheci a ma- fechou alguns meses atrás.” cer, e ainda não conseguiu uma aposen-conha e a cocaína.” Fernanda, sua namorada, é quem tem tadoria. Perdeu todo o cabelo que ti- Com dinheiro no bolso, foi para dado força, diz ele. “A gente se conhe- nha, não pode mais trabalhar na noite.” 13
  14. 14. Débora Zaidan, 49 anos O SALÃO DA cabeleireira Débora Zaidan é um dos mais conhecidos numa das principais avenidas de Diadema, na Grande São Paulo. Seus clientes e vi- zinhos sabem que Débora já foi uma “mulher com corpo de homem”, e que “ Eu já mudei o sexo, mas hoje é uma “mulher operada”, como ainda não eles costumam dizer. Em 2006, fez uma cirurgia de transgenitalização na consegui mudar clínica particular do cirurgião Jalma Ju- o nome rado. O médico construiu uma vagina valendo-se do tecido do pênis, como se fosse uma luva ao contrário, uma técnica aprimorada por ele e que diz ” preservar a sensibilidade. homens, e não tive nada com outros, 15 anos, só um pouquinho, mas nunca Para pagar os R$ 30 mil que custou a sem vagina e com vagina, assim como fiz uma avaliação. No ambulatório cirurgia com a enfermagem e todos os qualquer mulher.” estou passando por todos esses médi- procedimentos, Débora afirma que Depois da cirurgia, Débora teve um cos. Nunca tinha recebido essa atenção. economizou durante anos. “Foi a úni- relacionamento que durou pouco mais Também percebo que estou encon- ca forma que encontrei para sair da fila de um ano. “Hoje estou com outro trando gente como eu, coisa difícil, do HC, onde aguardei por cinco anos companheiro, uma relação muito porque ficava isolada no salão.” sem nenhuma perspectiva”, ela diz. tranquila, cada um em sua casa, eu em Débora conta que se descobriu Débora tem 49 anos e desde os 25 vem Diadema, ele em Itaquera.” Filhos, ela transexual desde muito menina. “Eu tentando a cirurgia, sempre carregan- pensa em adotar mais tarde, quando um percebia que era diferente dos outros, do culpas quando um relacionamento dia tiver mais tempo e voltar para a ter- porque sentia aquele arrepio só quan- terminava. “Achava que os namorados ra de onde veio, Fortaleza, no Ceará. do via os meninos, não as meninas. iam embora porque eu não tinha uma Débora soube do Ambulatório de Quando eu via as meninas eu me sentia vagina. Aquilo sempre me deprimia.” Saúde Integral para Travestis e Tran- igual, só que eu notava que nas partes Hoje Débora diz entender que a ci- sexuais do CRT DST/Aids-SP quando genitais eu era diferente. Na minha rurgia, embora um direito fundamen- procurou o serviço do HC e não época, lá no Ceará, tudo era mais com- tal para as transexuais, não é tudo no conseguiu consulta com o endocri- plicado, demorou muito para a eu en- relacionamento. “Tive vários namora- nologista “porque tinha sido operada tender essas coisas.” dos, até casada já fui. Morei com um em clínica particular”. “Eu precisava de Débora conseguiu ganhar um lugar companheiro por 11 anos antes da ci- um acompanhamento hormonal porque na fila, juntar dinheiro e fazer a cirur- rurgia, ele nunca falou em operação. Eu sempre tomei remédio por conta, e gia, conquistou o respeito de seusA DIVERSIDADE REVELADA achava que sexo segurava alguém, mas com a idade chegando os riscos aumen- clientes e vizinhos como mulher trans, hoje vejo diferente, o sexo não impor- tam. Foi aí que alguém do posto de mas ainda não conseguiu mudar sua ta. A cirurgia veio para me completar, saúde aqui do bairro me falou do documentação. “Estou com todos os isso sim. A insegurança que eu tinha, ambulatório da Santa Cruz.” laudos e papéis num serviço gratuito hoje não tenho mais, me sinto tranquila, Débora marcou uma consulta pelo aqui de Diadema, mas está demoran- a tensão do relacionamento terminou. telefone e vem passando pelos médi- do muito.” No caso da transexua- Quando me olho no espelho, não me cos desde o final de 2009. “Eu nunca lidade, como em vários outros, a me- vejo mais como alguém com o sexo tinha ido antes a um ginecologista. Não dicina andou mais rápido que a Justi- deformado. Mas para mim o prazer não estava mais fazendo psicoterapia, nem ça. Se morrer, Débora será enterrada depende só do sexo, porque ele é psi- ia ao endocrinologista. Também tenho com corpo de mulher e na lápide esta-14 cológico. Tive muito prazer com alguns uma aplicação de silicone industrial faz rá escrito seu nome de homem.
  15. 15. TRANSEXUAIS E TRAVESTISRespeito e direitos em adequação Travestis e transexuais formam o grupo mais estigmatizado e por isso o mais afastado e incompreendido nos serviços de saúde. O acolhimento proporcionado pelo CRD-Pela Vidda/SP e a atenção à saúde oferecida pelo ambulatório do CRT DST/Aids-SP são exemplos de iniciativas bem-sucedidas que se empenham para mudar esse cenário.Q uem observa a sala de espera do Ambula- gestos masculinos, mas que são biologicamente do sexo tório de Saúde Integral para Travestis e feminino. Têm tudo de homem, mas escondem uma Transexuais, na Vila Mariana, em São Pau- vagina, disfarçam os seios e seus corpos carregam útero lo, vai notar ali homens e mulheres, como e ovários. São os homens trans. se vê em qualquer sala de espera de um Entre esses homens trans está Alexandre Santos, o serviço de saúde. Trata-se, no entanto, de Xande, ex-presidente da Associação da Parada do Or-um espaço onde sexo e gênero não obedecem à divi- gulho GLBT de São Paulo, a maior manifestação dosão convencional entre masculino e feminino. Algu- gênero no mundo, que ainda não se livrou da mens-mas das presentes são travestis, pessoas que nasceram truação. Espera pela cirurgia para a retirada do ováriodo sexo masculino e que optaram por desenvolver os e da mama. O promotor de eventos Alexsandro San- A DIVERSIDADE REVELADAtraços e as atitudes das mulheres, porque é assim que tos Silva, que há cinco anos é acompanhado em cen-se sentem. A maioria ali são transexuais. Parte são tros de referência e que deseja se casar até o final domulheres trans que se apresentam como mulheres, ano – desde que retire a mama e mude o nome nospensam como mulheres, agem e têm cérebro de mu- papéis. Há também o professor de idiomas Victor delheres, mas que biologicamente são homens. Podem Abreu, que vive com a companheira e sonha em guar-ser bonitas, elegantes, a voz com a modulação das dar um óvulo para um futuro filho, antes que o uso devozes das mulheres, mas conservam o órgão sexual hormônios o deixe estéril.masculino. São chamadas de mulheres trans porque Na mesma sala de espera está Andréia Ferraresi,estão se adequando ao gênero feminino, ao qual per- 67 anos, que nasceu biologicamente do sexo mascu-tencem. Entre elas, nessa sala de espera, há uns pou- lino e há quatro décadas cobra o direito a uma cirur-cos homens, voz grossa, alguns com barba no rosto, gia que readequaria sua genitália em uma vagina. 15
  16. 16. Recepção do ambulatório do CRT DST/Aids-SP: porta de acesso para a atenção integral à saúde E Luiza Claudia Santos, que vive com um compa- Os decretos recentes estão garantindo o nome nheiro há 14 anos e que ainda sonha em exibir a ele social em alguns serviços públicos para travestis e uma vagina, em lugar de esconder o pênis. transexuais. Mas a mudança do nome e do sexo nos São alguns dos dramas e sonhos que se escondem documentos, fato que mais trauma provoca nas pes- debaixo dos lençóis e que estão ali silenciosos na sala soas trans, só é concedida mediante uma ação na de espera. Na rua, nas escolas, no mercado de traba- Justiça, e diante de laudos que comprovem a cirur- lho, ou quando procuram um serviço de saúde, as gia, um sonho distante para muitas delas. pessoas transexuais e travestis amargam a discrimina- Não há levantamentos que quantifiquem essa po- ção e o preconceito. O que vale é o nome no docu- pulação, nem estimativas sobre sua prevalência. A mento, não a aparência, os gestos, os cuidados. Antra, Associação Nacional das Travestis e Depois de décadas de humilhações, o Estado de Transexuais, estima que sejam 1,2 milhão no país – São Paulo aprovou no início de 2010 uma lei que 800 mil travestis e 400 mil transexuais. Possivel- garante aos transexuais e travestis o direito de serem mente um número de difícil comprovação, mas en- chamados pelo nome social nos serviços públicos. Nos quanto o governo não considerar essa população últimos meses, cerca de 12 Estados e vários municípios nos censos demográficos, é o número que continua- baixaram decretos garantindo o mesmo direito na edu- rá valendo. Mesmo reduzindo esse número a um cação e nos serviços de saúde. Atendem a uma reco- décimo, as transexuais seriam 40 mil. Consideran- mendação da 1ª Conferência Nacional LGBT, de 2008, do que todas desejam a cirurgia de redesignação e a uma antiga reivindicação dos ativistas. Uma lei sexual, seriam necessários 50 hospitais fazendo 40 paulista, existente desde 2001, pune quem pratica qual- cirurgias por ano ao longo de 20 anos. Em 2008, quer ato discriminatório contra homossexuais, bissexuais, uma portaria do SUS incluiu a operação entre seus travestis e transexuais em todo estabelecimento público procedimentos e definiu quatro centros de referên-A DIVERSIDADE REVELADA – de delegacias, hospitais a lanchonetes e empresas. cia para a sua realização. Um deles, o Hospital das Mas apenas em março de 2010 um decreto dispôs so- Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, passou bre as penalidades. em junho de 2010 a fazer 12 cirurgias por ano. Até Ser chamado publicamente pelo nome que não então vinha fazendo duas. corresponde à aparência é o desrespeito responsável A Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, pela fuga de milhares de travestis dos serviços de saú- por meio do Ambulatório de Saúde Integral para de. É também a causa da evasão de mais da metade Travestis e Transexuais do CRT DST/Aids-SP, busca das travestis dos bancos escolares. Em todas as situa- uma parceria para a abertura de mais um serviço no ções de convívio com a sociedade, elas são a parcela Estado. Quando a intenção se concretizar, o Estado da população LGBT mais estigmatizada e com me- de São Paulo deve fazer 30 cirurgias por ano, somadas16 nor índice de escolaridade. as do HC com a do futuro serviço.
  17. 17. Foram 50 anos de olhos fechados, paralisando avanços da medicina e atrofiando milhares de vidas As cirurgias de transgenitalização vêm sendo reali- Dentro de alguns anos, uma ou duas décadas tal-zadas no mundo desde a década de 1950, especial- vez, quando a idade “aposentá-las” como profissio-mente em mulheres trans – pessoas que nasceram do nais do sexo, o abuso de drogas pesar, o silicone in-sexo masculino, mas que na verdade são mulheres, dustrial mostrar seus efeitos e a aids afastá-las dasnas quais o pênis é retirado e uma vagina é construída. ruas, o mesmo Estado que as ignorou não saberá oNo Brasil, no entanto, só em 1997 o Conselho Fe- que fazer. Assim como a legião de usuários do crack,deral de Medicina autorizou esses procedimentos as travestis descartadas serão um peso enorme paracomo experimentais e em ambientes universitários. uma rede pública e uma sociedade que não sabem,Em 2002, a cirurgia foi liberada em qualquer hospi- nem nunca souberam, como lidar com elas. Atal, apenas em mulheres trans, e seguindo um proto- desconsideração será cobrada em dobro.colo do CFM. Foram 50 anos de olhos fechados para Algumas iniciativas públicas e não-governamentaisessa população, o que resultou numa carência abso- começam a mudar esse cenário. Uma delas é o Cen-luta de cirurgiões especializados e em milhares de tro de Referência da Diversidade, o CRD, parceria dovidas “atrofiadas”. Muitos serviços de psicoterapia Grupo Pela Vidda/SP com a Prefeitura de São Paulo.para transexuais foram fechados. Ou interromperam A outra é o Ambulatório de Saúde Integral para Tra-novas inscrições, uma forma de camuflar o tamanho vestis e Transexuais do Centro de Referência e Trei-das filas e de evitar que mais transexuais apostassem namento DST/Aids-SP, da Secretaria de Estado dasuas vidas numa cirurgia que não viria nunca. Aos 67 Saúde. A primeira é a porta aberta para aqueles emanos, Andréia exibe o primeiro laudo indicando-a maior situação de risco e abandono entre a populaçãocomo apta para uma “cirurgia de plástica dos genitais” LGBT. É nesse primeiro socorro, que antes da con-e assinado ainda em 1977 por médicos do HC. Três versa com a assistente social e a psicóloga oferece umoutros laudos foram feitos em anos e décadas seguin- sofá para um cochilo, que muitos estão encontrandotes. Agora matriculada no Ambulatório de Saúde um caminho para sair da rua e das drogas. O segundoIntegral para Travestis e Transexuais do CRT DST/ é um ambulatório especializado onde travestis eAids-SP, Andréia ainda não perdeu a esperança. “Não transexuais são cuidadas na sua saúde integral e naspassa pela cabeça dos médicos e diretores de hospitais suas necessidades diferenciadas. A maioria dos servi-quanto sofre um transexual”, diz. ços da rede de saúde limita sua atenção ao masculino Enquanto as transexuais aparecem como vítimas, e ao feminino. Pessoas em fase de adequação de sexodignas de piedade e necessitadas de cuidados médi- não cabem nos seus protocolos, nem são considera-cos – sentimentos e abordagem que elas rejeitam – das nas suas práticas de assistência.as travestis são mostradas como “sem vergonhas” e A proposta e o cotidiano desses dois serviços apa-marginais, que modificam o corpo para ganhar di- recem nos relatos de quase vinte transexuais, traves-nheiro. Em número muito maior que o das tis e michês ouvidos nesta publicação. Ao lado deles,transexuais, elas são as principais vítimas da discrimi- um número significativo de profissionais foi entre-nação da sociedade e da desconsideração dos servi- vistado. O resultado é um retrato de dupla face. Deços públicos. Jovens e saudáveis na sua maioria, não um lado, revela o abandono e as dificuldades que A DIVERSIDADE REVELADAprocuram nem sentem necessidade da rede de saú- enfrentam essa população. De outro, o empenho dosde. Muitas, devido ao preconceito, se envolvem com profissionais e a surpreendente volta por cima dedrogas e álcool e abusam do silicone industrial e de pessoas já tidas como irrecuperáveis.hormônios para modelar o corpo mais depressa. É o que mostram depoimentos de personagens Mostram-se pessoas divertidas quando são vistas que estão conseguindo escapar ao destino da rua,nas esquinas das avenidas escuras, seminuas e convi- das drogas e da doença. Como Claudia Coca, travestidativas. Mas formam o grupo que mais sofre violên- que já foi prostituta, drogada, presidiária, e que aocia – nos primeiros meses de 2010, 28 foram assassi- encontrar o CRD descobriu suas habilidades comonadas no país. E constituem um dos grupos de maior educadora social. A travesti Mikaela Rossini, quevunerabilidade para a infecção pelo HIV. Entre as que encontrou no CRD uma saída para sua vida de pros-procuram o CRD, cerca de 40% estão infectadas. tituta e drogada “babadeira”. Agora se prepara para 17
  18. 18. fazer faculdade de tecnologia da informação. Marcia- no Alves Fernandes, que já foi cafetão e dependente de crack, e que agora trabalha e cuida da saúde. Por uma Por sua vez, relatos colhidos no Ambulatório de Saúde Integral para Travestis e Transexuais do CRT gramática DST/Aids-SP demonstram a importância de um ser- viço de saúde integral e especializado. Muitos transexuais que sonham com a cirurgia de redesig- transexual nação sexual encontraram ali a única porta para se Uma das dificuldades dessa integrar a um grupo de psicoterapia como fase pre- publicação foi adequar o paratória. A transexual Vanessa Pavanello, agente gênero e a sexualidade dos social e universitária, é uma das que estão começan- personagens ao gênero do no grupo e passando por consultas médicas. estabelecido pela gramática. Vanessa tem 41 anos, viveu 12 com um companhei- Não há, nas cartilhas, ro e nunca tinha encontrado um referência a um “terceiro serviço especializado. O transe- sexo”, por isso optou-se por xual Alexsandro Santos Silva vem A escola deixar de lado essa do interior de São Paulo a cada 15 dias para participar das con- poderia preocupação. De acordo com sultas e terapias. a gramática, onde há pelo Dez anos atrás, travestis e contribuir menos um elemento transexuais também não tinham para uma masculino, o gênero que a quem recorrer quando se sen- tiam abusadas e discriminadas. nova relação predomina é o masculino, Hoje vários Estados contam com embora grupos ativistas mecanismos e instrumentos de entre as reivindiquem, corretamente, a proteção, embora a maioria ain- pessoas se referência sempre aos dois da não passe de intenções no pa- gêneros. O correto seria dizer pel. Ainda falta o sentimento de ensinasse aos “os” transexuais e “as” que o importante está na educa- ção. Uma escola que ensine aos alunos o transexuais, por exemplo. Mas como se referir a uma mulher alunos a respeitar uma travesti ou respeito à trans, que na verdade é uma pessoa transexual colega de classe estará contribuindo para diversidade biologicamente homem (do que uma nova relação se estabe- sexo masculino)? Ou a um leça entre as pessoas. A maioria homem trans, cujo nome é das travestis e transexuais ouvidas nesse trabalho rela- feminino? Se ainda faltam ta humilhações sofridas nas escolas. Depois da famí- definições sociais e médicas lia, a escola e o local de trabalho têm sido o principal palco das discriminações. Os sentimentos, os fatos, os para esse “gênero emA DIVERSIDADE REVELADA julgamentos e as sugestões, podem ser extraídos dos adequação”, é natural que a depoimentos colhidos. gramática nada tenha a dizer a Em abril de 2010, o Governo Federal e repre- respeito. Decidiu-se, portanto, sentantes de movimentos de travestis lançaram a cam- que os textos desta publicação panha “Sou Travesti – Tenho Direito de Ser Quem usariam o masculino ou Sou”, voltada aos serviços de saúde. “Esta é a de- manda mais importante das travestis, que têm o di- feminino dentro dos reito de cuidar de sua saúde. Elas têm problemas contextos, facilitando a leitura específicos e o sistema de saúde tem que atender às e a compreensão. suas singularidades”, afirmou à época o ministro da18 Saúde José Gomes Temporão.
  19. 19. Agnes Prado dos Santos, 28 anosAGNES traz entre os seios uma tatua-gem com seu nome, uma cruz e umaborboleta. Fez isso quando tinha 23anos. Deprimida, tinha decidido se ma-tar, mas não se conformava com o fato “Não me enterrem comode que na lápide ficaria gravado seu homemnome masculino. Com a tatuagem, sa-beriam que estavam enterrando umamulher, pensava. O pior da crise pas-sou, ela desistiu do suicídio, mas a tatua-gem entre os seios permanece como ” lésbica, o que a torna sujeita a um du-uma forma de dizer que não é homem, plo preconceito. “Apesar de ter a mi-nem nunca quis ser. Agnes ainda espe- nha identidade feminina, eu gosto dera mudar seu nome na Justiça, mas se mulheres, assim como existem transe-vê muito longe de uma cirurgia de xuais gays, homens trans que gostamtransgenitalização por conta das filas de de homens. Imagine minha alegria quan-espera. Tudo que faz é o acompanha- do senti que não era a única. É muitomento terapêutico no Hospital das Clí- se a chefia. “Use o banheiro unisex”, complicado para as pessoas entende-nicas há um ano, e o comparecimento um banheiro que ficava escondido e qua- rem que eu me identifico mais comofiel às Terças-Trans, promovidas pelo se desativado. Agnes conta que escre- uma mulher lésbica do que com umaCRD, o Centro de Referência da Di- veu para a superintendência, que res- mulher trans.”versidade. Se morrer atropelada – ela pondeu autorizando o uso de roupas fe- Agnes nasceu biologicamente ho-imagina – trocarão suas roupas femini- mininas e o banheiro das moças. Mas logo mem, mas se sentia mulher. Em lugarnas por um paletó de homem e na lápi- aconteceram protestos de funcionárias, de gostar de homem, porém, sentiade irá seu nome masculino, que ela não a proibição voltou e ela ainda aguarda atração por outras mulheres. “Quandoquer pronunciar nem revelar. Será que uma decisão da superintendência para era criança era uma doideira com-alguém notará a Agnes tatuada no colo usar o banheiro e um crachá feminino. preender tudo isso, na minha cabeçados seios?, ela pergunta. Agnes conta que conheceu o CRD eu não era gay, não era travesti, não Agnes Prado dos Santos, 28 anos, dois anos atrás, em 2008, quando pro- era trans, nem nada... Aquela coisa depode ser vista nos corredores do Insti- curava grupos de transexuais na Inter- menino gostar de menina, não valia paratuto de Psiquiatria do Hospital das Clí- net e soube das “terças-trans”. “Pro- mim, eu não me sentia menino, e comonicas, onde é “funcionário administrati- curava pessoas que tinham o mesmo menina eu deveria gostar de menino,vo”, traja uma jaqueta masculina da ins- desejo que eu, que me orientassem a mas eu queria gostar de menina comotituição disfarçando blusa e calças femi- fazer um tratamento. Aqui no ‘terça- menina, isso não batia. Custou para euninas. Tem os cabelos na altura dos om- trans’, quando ouço outros relatos, vejo descobrir que identidade de gênero e A DIVERSIDADE REVELADAbros, encaracolados, quem a vê no tra- que minha vida foi até tranquila. Sem- sexualidade são coisas distintas.”balho não consegue saber se é homem pre acredito que vou acrescentar algu- O nome Agnes, que ela traz no pei-ou mulher. Fora dali, Agnes só usa rou- ma coisa. É também um pouco de to, veio ainda da infância quando assis-pas femininas, e quase sempre pretas. militância, eu quero fazer algo pelo tia desenhos japoneses como Jaspion,Foi assim que se vestiu quando compa- movimento. E queria contar coisas que Flashion e Jirai. “Em um dos episódiosreceu ao Instituto de Psiquiatria depois não conseguia dizer na psicoterapia do havia uma ninja que se chamava Agnes.de ter passado em um concurso do Hos- HC, porque lá me sinto presa a um ró- Uma mulher ninja que enfrenta todospital das Clínicas, dois anos atrás. “Quan- tulo de transexual.” os perigos, eu quero ser assim, querodo viram que eu me vestia como mu- O que imaginava ser um segredo só ser forte assim. E fiquei com aquelelher, não sabiam o que fazer comigo”, seu, revelou-se um sentimento com- nome na cabeça... Acho que tinha unsconta. “Você vai ter que disfarçar”, dis- partilhado por várias colegas. Agnes é sete ou oito anos.” 19
  20. 20. CRD O acolhimento como “porta de entrada” Entre 2009 e 2010, o número de atendimentos mensais aumentou em 115%. A população em situação de rua e usuária de crack tem sido a principal causa desse crescimento. Entre os que procuraram o CRD em 2010, um terço era morador de rua. espaço do Centro de Referência da Di- As paredes do Centro estão tomadas por grafites e O versidade, com a porta aberta para a cal- quadros pintados pelos próprios usuários durante as çada da rua Major Sertório, é um lugar sessões de arteterapia. Três computadores ficam à dis- que convida a entrar. Nenhum obstáculo posição e a concorrência entre os usuários exige ins- separa a porta dos sofás vermelhos mo- crição no livro sobre a mesa da recepcionista Thaís. rango dispostos diante de uma tevê sem- Nas salas no fundo ficam Taís Diniz Souza, a assistente pre ligada. A mesa da recepcionista Thaís di Azeve- social, e Fernanda Maria Munhoz Salgado, a psicóloga. do fica discreta à direita da sala, e o segurança do Um pequeno quadro indica se estão disponíveis ou espaço é instruído para cuidar da ordem, não con- não, mas a janela de vidro permite que se observe de trolar a entrada. Quem quiser chegar e apenas esti- fora, e as pessoas podem entrar sem bater.A DIVERSIDADE REVELADA car-se no sofá não será incomodado. Alguns chegam “Queríamos fugir da cara de equipamento públi- ali ainda “bodeados”, outros dormiram na rua. Ti- co burocrático”, diz Irina Bacci, que passou a dirigir ram um cochilo antes de se animar para uma con- a segunda fase do CRD, voltada sobretudo para o versa, ou antes da chegada de dona Selma, oferecen- acolhimento. “Fizemos uma recepção confortável, do lanche e um suco. Na tarde da sexta-feira, 16 de com sofá, tevê, com livros, colocamos uns computa- julho, um dos dias mais frios do ano, havia pelo me- dores, mesmo que só para entrar no Orkut, Facebook. nos 30 pessoas no espaço, entre travestis, transexuais O importante era despertar outros interesses que não e michês. Muitos se apertavam no sofá. Parte deles fosse só a droga, deixá-los menos bodeados.” A pró- iria para algum albergue no início da noite, outros pria tevê, mesmo que não componha um espaço ideal dormiriam na rua. Nas noites de frio, os pernoites para a inclusão, os leva a prestarem atenção na pro-20 em albergues são mais disputados. gramação, a discutirem sobre canais. “Às vezes
  21. 21. folheiam um livro, não ficam com aquele olhar vaziocom que costumam chegar”, diz Irina. “Isso é im-portante para nós, como equipe, observar o despertardeles. Ver qual tipo de ajuda estão pedindo.” O sofá é “nossa porta de entrada”, diz a psicólogaFernanda. “É um espaço aconchegante para dizer ‘euestou aqui, eu preciso ficar aqui’. Depois começamosum convencimento, pode ser eu mesma, ou qualqueroutro educador social do CRD, porque todos ali te-mos essa função. ‘Olha, quando precisar venha falarcomigo, estou naquela salinha’, a gente diz. No se-gundo dia passamos de novo para um olá. Assim temsido com muitos, alguns dias ou uma semana depoisestão fazendo parte das oficinas. Outros não apare-cem mais. Mas a porta continua aberta.” Os números e o perfil dos usuários do CRD mos-tram a dimensão do desafio. Desde que foi abertoaté setembro de 2010, um total de 1.486 pessoas pas-saram pelo Centro, e dessas 1.276 foram cadastradas.O número total de atendimentos em 2009 foi de 9.539;de janeiro a setembro de 2010 os atendimentossomaram 15.406. A média mensal passou de 795 em2009 para 1.712 em 2010. Um aumento de mais de115%, demanda que já deixou o CRD no seu limite. O crack vem sendo o responsável pelo crescimentobrusco dessa população, que na sua maioria já é desem-pregada, vive na rua ou é profissional do sexo, diz Irina.Essa é uma demanda não só do CRD, mas em todos osserviços de assistência social de São Paulo e de muitascidades. Passou a ser uma prioridade de saúde públicacom a qual o governo não sabe ainda lidar. “O crack está matando nossos moradores de rua,especialmente travestis e gays”, diz Irina, “talvez maisdo que já matou a aids”. Agora, as duas “epidemias”estão associadas. Travestis e michês relatam o convitefreqüente de clientes para dividirem a droga nos quar-tos de hotel, quando antes era apenas o álcool. Nestecenário, a camisinha costuma ser deixada de lado. “Umavez que você começa, não para mais”, diz Rodrigo deSouza Ventura, agora um assíduo frequentador do CRD A DIVERSIDADE REVELADAe em fase de tratamento. Rodrigo já foi michê e se ini-ciou no crack convidado por clientes. “A rede social e de saúde vê o usuário de drogameio como um criminoso, um cara que não tem maisjeito. Isso preocupa muito, porque hoje é o nossomaior público”, diz Irina. A exclusão, que pode le-var à droga e à rua, começa lá atrás, “quando a socie-dade discrimina, coloca fora de casa”. O roteiro éconhecido: a expulsão da família, a “pista”, da “pis-ta” à construção do corpo com silicone industrial, adroga e o álcool na noite, até que a “pista” já não 21

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