O conhecimento de Deus segundo Tomás de Aquino

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O conhecimento de Deus segundo Tomás de Aquino

  1. 1. O Intelecto Ativo e a alma humana intelectiva na visão de Santo Tomás de Aquino 1 José Fernando VieiraResumo: Este trabalho nos remete a uma breve noção de possibilidades deconhecimento sob o olhar de Tomás de Aquino, mais especificamente afinalidade do conhecimento em si, a possibilidade de conhecer a Deus, e odesenvolvimento do processo cognitivo humano. Percebendo o caminhopercorrido da noção tomista de gnosiologia que advém do aristotelismo eadquire certa transmutação que o faz se não diretamente, mas indiretamentese organizar e se sistematizar a partir do ser.Palavra chave: Intelecto. Abstração. Percepção. Ato. Composto. Inteligível.Alma. Sensível. Apreensão. Potência.Introdução: Neste trabalho iremos explorar a posição aristotélica tomista sobrea maneira pela qual o intelecto forma o conhecimento com a noção departicipação do intelecto humano no intelecto divino, tendo este como suaorigem e finalidade. Percebendo o processo de abstração da realidade e aatuação da alma nos passos hierárquicos de tal conhecimento.A estrutura do pensamento tomista Para Compreender Tomás de Aquino temos que ter em mente que Deusexiste e subsiste em si mesmo, sendo definido conceitualmente como Ser. Osistema tomista elaborado em torno do “ser” consiste numa base de distinção ehierarquização entre o ente que é, na medida em que participa do Ser.21 José Fernando Vieira – Graduando em filosofia. 3° período. -FAF- (Faculdade Arquidiocesana deCuritiba) 06/2010.2 Segundo Etienne Gilson em sua obra Deus e a Filosofia, diante da pergunta: O que é o ser?“Ao responder a esta que é a mais difícil de todas as questões metafísicas, devemos distinguircuidadosamente o significado de duas palavras que são diferentes, mas que estão, no entanto,intimamente relacionadas: ens, ou <<ente>>, e esse, ou <<ser>>. À pergunta: o que é o ente?,a resposta correta seria: o ente é aquele que é ou existe. [...] Mas esse, ou <<ser>>, é algomais e muito mais difícil de compreender porque está profundamente oculto na estrutura [1]
  2. 2. Segundo Tomás de Aquino: “O ser em si é mais perfeito de todos poratualizar a todos; pois, nenhum ser atual senão enquanto existente. Por onde,o ser em si é o que atualiza todos os outros e, mesmo, as próprias formas.”(AQUINO, 1980, Vol. I, Quest. IV; Art. II, p. 34).” Aqui a novidade da metafísica tomista que consiste na elaboração daperfeição do ser. Este por sua vez é Puro Ato de Ser, ou seja, Deus; cujo tudoo que existe é causa do próprio ser de Deus. 3 É por isso que as criaturasexistem e recebem uma essência que os fazem ser o ser próprio e distinto decada um. Por exemplo, o homem como homem primeiramente existe, depoiscontém a essência de homem e todas as suas propriedades. É a partir dessesteoremas apontados acima que iremos perceber o raciocínio tomista e suaelaboração no que diz respeito à maneira de conhecer do homem e suacapacidade de se relacionar com Deus.O homem é capaz de conhecer a Deus Nas propriedades do homem temos uma característica própria de suanatureza que queremos aprofundar, a racionalidade ou, a capacidade deapreender aquilo que está a sua volta, é a noção de saber que sabe, é apassagem marcante da humanidade conhecida como a evolução para o homosapiens. Neste contexto se intenta uma questão inicial: O homem é capaz depensar Deus? É daqui que desejamos partir para o conhecimento de Deus em Tomásde Aquino e perceber a maneira pela qual o homem o conhece e percebe aexistência de um Ser externo a ele. Partindo do pressuposto de que o homem é um animal racional,queremos agora investigar como se é possível conhecer a Deus racionalmente.metafísica da realidade. A palavra <<ente>>, como substantivo, designa uma substância; apalavra <<ser>> - ou esse – é um verbo porque designa um ato. (GILSON, 2002, p. 54 – 55).3 Temos que destacar que segundo o comentário de Etienne Gilson deve-se fazer umadistinção clara no que diz respeito ao pensamento de Tomás de Aquino de que “a essência e aexistência são distintas no ente. Elas se confundem e se unem somente no Puro Ato de Ser(Deus). Assim, o ente finito pode ser concebido como um ente cujo ato existencial é limitadopela própria essência que ele possui (...) a essência de um ente finito, fazendo-o ser aquilo queele é, impede-o de ser o próprio Deus”. (GILSON, 1962, p.39) [2]
  3. 3. Para Tomás de Aquino é possível conhecer a Deus utilizando-se deinstrumentos racionais como, por exemplo, a filosofia, mas tendo em vista queessa possibilidade é real porque é Deus quem se permite ser alcançado pelarazão, e não um processo onde a razão “intui” a Deus, ou o projeta pura esimplesmente.Duas maneiras pela qual Deus é conhecido Se existem duas maneiras de conhecer a Deus, logicamente a primeirapergunta a ser feita é: Deus existe? Para Tomás de Aquino, esta pergunta jápressupõe a resposta, tendo em vista que nós homens primeiro existimos edepois somos racionais, e conseqüentemente capazes de se questionar arespeito de Deus. Isso implica já estar lançado no “ato de existir” enaturalmente nos “re-tornar” a uma causa primeira, origem ontológica de todo oexistir e ser. Pois do nada, nada existe, e se existimos temos uma causaexterna, o próprio Deus. Portanto, Deus não só é realidade, mas também é oAto Puro de Ser, de tudo aquilo que existe e fonte última no sentido tantoontológico causal, como no âmbito de finalidade extrínseca e intrínseca darealidade. Aqui nos deteremos no movimento racional da criatura para Deus. Deus, organizado estruturalmente no conceito de ser tomista pode edeve ser percebido pelo intelecto de tal maneira que o ser é ser na medida emque é pensado, pois o próprio pensamento é, e por isso é ser pensamento,logo contém o ser.4 Contudo Deus pode ser conhecido por si de duas maneiras; segundoTomás de Aquino: De dois modos pode uma coisa ser conhecida por si: Absolutamente, e não relativamente a nós; e absolutamente e relativamente a nós. Pois qualquer proposição é conhecida por si, quando o predicado se inclui em a noção do sujeito, por exemplo: O homem é animal, pertencendo animal a noção de homem. Se portanto for conhecido de4 Neste sentido vale a explicação de Aniceto Molinaro em sua obra Metafísica – Cursosistemático, ao alertar-nos: “O ser na sua totalidade é, portanto, inteligência e inteligível. E porque o ser é atualidade pura e intranscendível, a inteligência e a inteligibilidade vêm a seidentificar na atualidade da intelecção, e vice e versa. Isto significa que entre a inteligência e ainteligibilidade existe uma correlação essencial e inseparável: uma, a inteligência, não podesubsistir sem a outra, a inteligibilidade. (MOLINARO, 2004, p. 82) [3]
  4. 4. todos o que é o predicado e o sujeito, tal preposição será para todos evidente (...) Mas para quem não souber o que são o predicado e o sujeito, a proposição não será evidente, embora o seja, considerada em si mesma. (AQUINO, 1980, Vol. I, Quest. II, Art. I, p. 16). Assim percebemos que Deus pode ser conhecido de maneira absolutapor intuição,5 contudo este conhecimento intuitivo é por si só um efeito objetivoe, se a percepção num primeiro nível é subjetiva, a “externalização”, ou“objetificação”6 de tal conhecimento nos leva as provas da existência de Deusbaseadas no teorema de que “do nada não se pode criar nada”, pode nos levara deduzir mesmo sem conhecer e de maneira lógica, que o mundo existe, juntocom tudo o que contém. Percebe-se também que é necessária uma causa última originária,assim uma pessoa sem necessariamente ter tido contato com qualquerdoutrina é capaz de intuir a Deus apoiado simplesmente nas causas primeiras;foi assim que ocorreu com Aristóteles ao deduzir o primeiro motor imóvel. Mas o conhecimento de Deus pode também ser transmitido comodoutrina; isso ocorre no cristianismo, fazendo com que o predicado sejaconhecido racionalmente e reconhecido empiricamente, (experiência de Deus). Assim, segundo o doutor angélico esta outra maneira de conhecer aDeus é dada; [...] pelo efeito, que é chamada a posteriori, embora se baseie no que é primeiro para nós; quando um efeito nos é mais manifesto que a sua causa, por ele chegamos ao conhecimento desta. Ora, podemos demonstrar e existência da causa própria de um efeito, sempre que este nos é mais conhecido que aquele; porque, dependendo os efeitos da causa, a existência deles, supõe, necessariamente a preexistência desta. Por onde não nos sendo evidente, a existência de Deus é demonstrável pelos efeitos que conhecemos. (AQUINO, 1980, vol. I Quest. II, art. II, p. 17) Entendemos que segundo Tomás, essencialmente é Deus quem se dá aconhecer; isso tanto no âmbito da Revelação7 como também no terrenofilosófico.5 Entendemos junto com Tomás que o caminho da intuição está incutido na natureza humanaque “clama” a Deus quase que instintivamente e de maneira subjetiva.6 Tanto o termo “externalização” como “objetificação” indicam em nosso contexto umacapacidade de expressar (jogar para fora) certezas que dizem respeito ao nosso conhecimentosubjetivo e corroborá-los objetivamente na realidade.7 Na doutrina cristã da Revelação a verdade do “Verbo Encarnado” onde Deus se faz homem eresgata a humanidade, ou seja, é de todo o conhecido que a Verdade Suprema que vai paraalém de toda a filosofia e transcende o âmbito racional é a de que Deus autor sumo da [4]
  5. 5. Percebemos que tanto no âmbito da Revelação como também naespeculação filosófica existe no homem uma capacidade estrutural e racionalque o permite compreender e distinguir tais verdades, essa estrutura doconhecimento humano é dado pelo intelecto do homem que apreende averdade do ser. Aqui utilizamos da definição do termo intelecto. Este termo é entendidono sentido aristotélico, onde: “o intelecto é aquilo graças a que a alma raciona ecompreende. (...) atividade pensante, capaz de escolher, coordenar esubordinar”. (ABBAGNANO, Dicionário de Filosofia. p. 655). Mas podemos estender este conceito e o aproximá-lo do senso comum,sendo assim entendido como: estrutura biológica (inteligência) que todo serhumano adulto possui de maneira desenvolvida e acompanhada pelapercepção consciente. A inteligência vê o inteligível no sensível, tal como érepresentado diretamente na percepção do sentido interno e remontadamentenos sentidos externos, sem perder o contato direto com a realidade.Como se dá o conhecimento na operação de abstração do intelecto Para entendermos o intelecto na visão tomista, permaneceremos sob aluz de toda a problemática que envolve o intelecto ativo elaborado porAristóteles. Para Aristóteles percebemos que o Intelecto contém duas partes: 8 seriao Intelecto ativo e o intelecto passivo. O Intelecto passivo recebe as formas, 9verdade, e mais, Verdade em si, se revela ao homem. A partir deste ocorrido histórico inferidona realidade humana e nela constatado, toda e qualquer verdade coerente (na visão cristã)deve caminhar nestes pressupostos. Em Tomás de Aquino não é diferente, a verdadeespeculativa embora seja autônoma, sempre será um meio para um fim, ou seja, paraencontrar Deus como princípio e causa de tudo. E o caráter de validade desta mesma verdadeestá intimamente ligado a esse processo.8 E assim, tal como em toda a natureza há, por um lado, algo que é matéria para cada gênero(e isso é o que é em potência todas as coisas) e, por outro, algo diverso que é a causa e o fatorprodutivo, por produzir tudo, como a técnica em relação à matéria que modifica, é necessárioque na alma ocorra tais diferenças. E tal é o intelecto, de um lado, por tornar-se todas ascoisas e, de outro, por produzir todas as coisas, como uma certa disposição,, por exemplo,como a luz. Pois de certo modo a luz faz cores em potências cores em atividade. E esteintelecto é separado, impassível e sem mistura, sendo por substância atividade.(ARISTÓTELES, 2006, livro III, art. V, par. 430a 10, p. 116)9 “Formas” para Aristóteles é a essência das coisas que no ato compreendido e atual, faz comque a coisas seja aquilo que ela é em si mesma. Segundo Abbagnano, a noção de forma emAristóteles é a “essência necessária ou substância das coisas que têm matéria [...] nestesentido a forma não só se opõe a matéria como a pressupõe”. (ABBAGNANO, 2007, p. 543). [5]
  6. 6. que correspondem a todas as coisas, numa espécie de captação, ou,apreensão da realidade. Já o intelecto ativo faz com que o primeiroentendimento (a recepção, ou apreensão das “formas” que se apresentam) sefaça todas as coisas, no sentido de reconhecer aquilo que foi apreendido peloprimeiro intelecto. Assim, num primeiro momento, o Intelecto contém tudo em si, porémesse conter é em potência, por isso quando o Intelecto atualiza, ele conhece.Conhece por aquilo que ele já possui, mas possui em potência. No inicio desta abstração, esse conhecimento é gerado no âmbito doIntelecto, aqui os cinco sentidos percebem os objetos externos separadamente,essa percepção vai, para um sentido interno que é a imaginação; que por suavez, unifica as percepções dos cinco sentidos e as apresenta para o Intelecto(que contém tudo em potência) e este, faz o papel de reconhecimento do quelhe foi apresentado, por meio de atualização. Sendo assim, na linguagem reflexiva do Estagirita, o intelecto conhecepor reconhecimento, atualizando o que ele contém em potência. Em outraspalavras, o inteligível é “iluminado” pelo Intelecto Agente. Isso ocorre tambémna doutrina tomista do conhecimento, porém Tomás de Aquino faz umainversão da ordem do processo de intelecção, onde a imagem ativa é dadapelo intelecto possível, ou seja, temos a doutrina da abstração.10 Em outras palavras, os sentidos para Aristóteles são válidos na medidaem que são “iluminados” pelo intelecto Agente, mas segundo o tomismo o“mérito” não se encontra tão e somente no inteligir refletido do intelecto agente,mas também são necessários os sentidos para a elaboração dos fantasmas(imagens) que se apresentam ao intelecto.Tomás em sua obra O Ente e a Essência, ao comentar a noção de “forma”, escreve: “(...) orelacionamento da matéria e da forma dá ser à matéria e, deste modo, é impossível que hajamatéria sem alguma forma; no entanto, não é impossível haver alguma forma sem matéria. Derfato a forma, por ser forma, não tem dependência com a matéria”. (AQUINO, 2010, cap. IV, par.48, p. 32)10 De maneira singela nos imitamos a apenas indicar como funciona a teoria da abstração doconhecimento, devido a sua extensão e a limitação própria deste trabalho. Essa doutrina ébaseada no processo do intelecto humano que distinto da realidade é capaz de apreender demaneira objetiva a realidade do objeto que se lhe apresenta. Essa apreensão se dá em umprimeiro momento pela ordem dos sentidos que captam a realidade externa, depois é impressopela imaginação no intelecto passivo, que recebe a atuação do intelecto ativo, ou intelectoagente, e o formula no juízo para o ato de inteligir. O resultado mais expressivo de tal processoé a capacidade de elaborar conceitos abstratos, não mais no sentido do essencialismoaristotélico, mas na universalização do ato existencial do ser. [6]
  7. 7. Assim: O intelecto humano, unido ao corpo, tem como objeto próprio a qüididade ou natureza existente na matéria corpórea; e, por tais naturezas, do conhecimento das coisas visíveis ascende a um certo conhecimento das coisas invisíveis. Ora, é da essência de tal natureza existir num indivíduo o qual não existe sem matéria corpórea, como é da essência da natureza da pedra existir numa determinada pedra (...) Por onde, a natureza da pedra ou de qualquer outra coisa material, não pode ser conhecida completa e verdadeiramente senão enquanto conhecida como existente num ser particular. Ora este nós aprendemos pelo sentido e pela imaginação. E por isso, é necessário, que o intelecto se valha dos fantasmas, a fim de conhecer a natureza universal existente no particular. (AQUINO, 1980, Vol. II, Quest. LXXXIV; Art. VII, p. 753). Tendo em vista o olhar de Tomás de Aquino é possível distinguir aimportância dos sentidos e sua função de apreensão da realidade e suainteligibilidade.11 Contudo a questão em relação ao processo pelo qual o homem conhece(o ato próprio da inteligibilidade) tem um caráter duplo: Por um lado os sentidossão colocados como “fonte externa” de captação do objeto que se apresenta narealidade, onde há o processo de reclinar-se sob a realidade, este processoconsiste numa primeira etapa. Por outro lado temos a função de inteligir quesegundo Abbagnano contém uma função essencial: (...) o substantivo intelecto implica certo conhecimento íntimo; intelligere é como „ler dentro‟ (intus legere). Isso é evidente a quem considera a diferença entre o intelecto e os sentidos: o conhecimento sensível concerne às qualidades sensíveis externas; o conhecimento intelectivo penetra até a essência da coisa. (ABBAGNANO, 2007, p. 656). Aqui há uma síntese12 da capacidade do homem de conhecer algumacoisa da essência da realidade. Onde além da distinção feita por Aristóteles 1311 Ato de tornar a realidade inteligível e perceptível a nossa compreensão.12 Para compreendermos esta síntese temos que perceber que Aristóteles está diante de umaquestão já levantada por outros pensadores anteriores a ele. O conhecimento está entre aconcepção idealista (Platão) e o sensualismo materialista de Demócrito. Assim, segundoGardeil em as obra Iniciação a Filosofia de Santo Tomás de Aquino – Psicologia, o autordescreve tal ambigüidade: “Como o conjunto de psicologia, manifesta-se a doutrina doconhecimento em Aristóteles como uma via média entre o sensualismo materialista,representado na antiguidade por Demócrito e o intelectualismo extremo, iniciado por Platão”.(GARDEIL, 1987, p. 79)13 E qual foi à solução dada por Aristóteles a este dualismo gnosiológico? “o intelecto humano,no aristotelismo, é originariamente uma pura potência passiva frente aos inteligíveis. Não há [7]
  8. 8. entre o intelecto e os sentidos, nós temos com Tomás de Aquino umaconjunção enquanto relação de ambos para o processo do conhecimento,assim: o sentido não tem, sem comunicação do corpo, operação própria; de modo que sentir não é ato só da alma, mas do conjunto (...) pois, não há inconveniência em que os sensíveis, exteriores a alma, cause alguma coisa ao conjunto (AQUINO, 1980, Vol. II, Quest. LXXXIV; Art. VI, p. 751). Em fim este composto cognoscitivo é manifestado no inteligir humano,estruturado pelos sentidos que captam a realidade, pelos fantasmas, comoprocesso decorrente dos sentidos externos, e sua formulação das imagens,que é configurada e reconhecida pelo intelecto, no processo conclusivo dainteligência. Dado que estas etapas são quase que instantâneas ao indivíduo.O Intelecto Agente Este intelecto já existente em Aristóteles, além de fazer parte da alma étambém necessidade de participação no ato do inteligir e em todo o processodo conhecimento. Percebendo tsi importância da existência deste intelecto, Tomás deAquino parte da teoria de Aristóteles complementando-a com o IntelectoAgente na defesa da relação de necessidade e admissão para com esteintelecto superior: (...) é necessário admitir-se, além da alma intelectiva humana, a existência de um intelecto superior, do qual a alma obtém a virtude de inteligir. Pois, sempre, o ser participante, móvel, imperfeito, preexiste algo de anterior a si, que seja tal, por essência, imóvel e perfeito. Ora, a alma humana é intelectiva, por participação da virtude intelectual. (AQUINO, 1980, Vol. II, Quest. LXXIX; Art. IV, p. 701).formas ou idéias inatas. É preciso, pois, para que entre em atividade, receber seu objeto.Donde este poderá vir? Não pode ser de um modo transcendente, de idéias separadas ou deinteligências superiores: um Atal hipótese não é verdadeiramente fundada e vai contra aexperiência. Resta que nossas idéias procedam do conhecimento sensível. Mais aqui surgeuma dificuldade precedentemente equivocada: como objetos materiais poderão imprimir-se emuma faculdade puramente espiritual? No caso da percepção sensível, explica-se que taisobjetos pudessem ser recebidos pois que os sentidos, pelos seus órgãos estão emcontinuidade com o mundo dos corpos”. (GARDEIL, 1987, p. 103) esta questão segue numestado de aporia, pois os caminhos podem ser muitos e o foram ao longo da história dafilosofia, porém estão muito longe de serem resolvidos. [8]
  9. 9. Assim, o foco principal é a participação na perfeição do inteligir, que érealizado pelo intelecto agente, que podemos entender como parte imaterial denossa inteligência e que preexiste como estrutura essencial para a atuação dointeligir humano, sem o qual seria impossível que este processo se realizasse. Contudo na concepção de Tomás de Aquino o Intelecto Agente éseparado da inteligência humana, e fonte de todo inteligir, ou seja, é Deusmesmo, contudo não se reduz a compreensão aristotélica, onde se deduz oIntelecto Agente como uma parte do inteligir humano, ele torna-se para além dohomem, ao ponto deste ser pensante conter o Intelecto Agente. Assim, há um intelecto que está para o ser universal como o ato do ser total. E tal é o intelecto divino, que é a essência de Deus, no qual original e virtualmente todo ser preexiste como na causa primeira; por isso, o intelecto divino não é potencia, mas ato puro. E nenhum intelecto criado pode ser ato em relação ao ser universal total porque, então, deveria ser infinito. Por onde, todo intelecto criado, pelo fato mesmo de o ser, não pode ser ato de todos os inteligíveis, mas está para eles como a potência para o ato. (AQUINO, 1980, Vol. II, Quest. LXXIX; Art. II, p. 696). Neste sentido aristotélico tomista o Intelecto Agente passa a sersinônimo de Ato puro de ser (esse), subsistente e causa de tudo o que existe,ou seja, Deus. Para Tomás tudo o que existe é, por que recebe a existência do ser,inclusive o intelecto humano. Aqui temos uma distinção de terminologias sendoque segundo o raciocínio de Aristóteles, os homens teriam uma alma intelectivahumana, que faz parte da mente, contudo para Tomás isso é possível, porémtorna-se necessário admitir um intelecto superior, como foi observado acima.Conclusão É impossível ou pelo menos não recomendável pensar Tomás de Aquinosem buscar perceber seu sistema estrutural filosófico e metafísico do (esse), esua teologia racional que fundamentalmente nos levará a possibilidade real doconhecimento de Deus. É a partir da existência de Deus como Ato Puro de Ser,donde tudo o que existe é efeito deste ser. [9]
  10. 10. É a partir deste teorema que se desenvolve o todo no pensamento deste autor.Contudo temos que ressaltar a compreensão que Tomás de Aquino teve deAristóteles e a reformulação e complementação de muitos aspectos. Temos também as duas maneiras de conhecer a Deus, pela Revelaçãoe pela especulação filosófica, ou razão natural, onde o processo da razão sefaz ao apreender os “rastros” de Deus que ao mesmo tempo de revela. Talprocesso se manifesta de maneira única pelas “leis” inscritas na realidade (ascinco vias tomistas),14 ou pela experiência com o Deus revelado. Contudo este processo de conhecer a Deus se dá pelo processo deabstração do intelecto ativo, onde nos é dado à realidade pelos sentidos e a14 As cinco vias tomistas estão fundadas na ordem da especulação da razão natural de talmaneira que através dos efeitos e a partir deles Tomás tenta acender até Deus. As provas daexistência de Deus ou as vias, no sentido de acesso ou caminho ser percorrido conservamentre si uma estrutura de relação intrínseca e seus efeitos estão ligados extrinsecamente.Contudo, elas se mantêm distintas em seus argumentos... São cinco vias e não uma única viadividida em cinco partes. A primeira via retirada da doutrina do ato e potência de Aristóteles sefaz fundamental e por vezes a mais genuínas de todas as vias, pois é a que se estrutura demaneira brilhante e infere mais que a necessidade de haver um princípio primeiro que chamamDeus; ela nos proíbe caminhar ao infinito de tal maneira que sustentada na existência, dadofenomênico e universal, pelo movimento de atuação do Ser, somos obrigados pelanecessidade lógica do argumento a inferir a existência e atuação do Ser (Deus). Assim, temosabaixo um esquema que indica os caminhos das cinco vias elaboradas por Tomás. 1°Movimento: Esta teoria está fundada na base aristotélica da passagem da potência ao ato,onde os entes podem “vir a ser”. Aqui subjaz a teoria do Motor Imóvel de Aristóteles, anecessidade de não “reduzir ao infinito”, pois nada existe do nada. Também nota-se que háuma finalidade, ou ainda uma intencionalidade no movimento das coisas. 2° CausasEficientes: É impossível que uma coisa se faça causa de si mesma (pois, então, precederia aprópria existência), as causas eficientes acham-se em conexão de complementaridade einterdependência, tendo em vista que na especulação das causas é necessário “parar” e nãoreduzir ao infinito, pois nada provém do de nada. 3° Pelo contingente e pelo necessário:Falar em mudança é falar em contingência, assim uma coisa ou é em razão a sua razão, ou emrazão de outra coisa, tendo fora de si à razão de sua existência. Assim tudo o que existe nãoencontra em si a razão de seu existir e deve recorrer a “algo” externo e originário. 4° Graus deperfeição: Onde se há a percepção de maior e menor, ou de mais e menos temos pordedução um grau superior que nos orienta e serve de base para nosso juízo. Assim se há certograu de bondade nas coisas, existe um grau máximo de bondade em si que é Deus. 5° Ordemdas coisas: Todas as coisas estão comprometidas num sistema de relações regulares eorientadas num sentido estavelmente definido, isso demonstra não o acaso, mas sim umaintencionalidade e orientação intrínseca que atrai todas as coisas a sua finalidade. (em relaçãoà última via, é fato que a natureza segue uma ordem que converge em um sentido, porexemplo, há um movimento ordenado e sistematizado que a permite progredir e evidenciar leispróprias que são seguidas. Neste sentido a ordem cósmica e cosmológica é manifestada nanatureza, bastando uma observação apurada da razão especulativa para a comprovação destavia). Cf. MARITAIN, Jacques. Caminhos para Deus. BH. Itatiaia, 1962. Ainda fica alertado queMaritain elaborou uma sexta via que se fundamenta nas cinco vias tomistas e perpassa pelaelaboração da “intuição” ate um possível sexto caminho para se inferir Deus. [10]
  11. 11. partir do conhecimento gerado realizando uma atualização no intelecto, comoprocesso de reconhecimento e assimilação das coisas. Tomás de Aquino separa o intelecto do homem, conhecido como almaintelectiva, ou seja, ao homem foi dada a capacidade de inteligir (conhecer arealidade das coisas), do intelecto Ativo, este por sua vez é o próprio intelectodivino que age no humano e o ilumina. O intelecto Ativo é Ato Puro de Ser, ouseja, é o ser manifesto e atuante no pensamento humano de tal forma que opensar e a realidade tornam-se um único movimento e expressão da existênciado ser. Assim o inteligir humano não é outra coisa se não a atuação empotência daquilo que o intelecto Ativo é em Ato. Assim percebemos que para além de Aristóteles temos o tomismo comsua estrutura de causa no ser donde tudo o que há, deriva e conserva, semanifestando por excelência no sistema gnosiológico humano. O fato é que seo homem é capaz de conhecer, a finalidade de tal conhecimento, para oAquinate, está na possibilidade real de conhecer a Deus, ou neste sentido, averdade primeira das coisas e finalidade ultima do próprio conhecimento. [11]
  12. 12. ReferênciasABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Martins Fontes,2007.AQUINO, Tomás. Suma teológica. Primeira parte. Questões 1- 49. 2° ed. RS.Escola Superior de Teologia São Lourenço de Brindes, Universidade de Caxiasdo Sul. Grafosul – Indústria Gráfica Editora Ltda. Co – Edição, 1980.AQUINO, Tomás. Suma teológica. Primeira parte. Questões 50- 119. 2° ed.RS. Escola Superior de Teologia São Lourenço de Brindes, Universidade deCaxias do Sul. Grafosul – Indústria Gráfica Editora Ltda. Co – Edição, 1980.AQUINO, Tomás. O Ente e a Essência. Rio de Janeiro: 2010.ARISTÓTELES. De Anima. São Paulo: Editora 34. 2006GARDEIL, H. D. Iniciação a Filosofia de Santo Tomás de Aquino.Psicologia, 1987.GILSON, Etienne. A Existência na filosofia de S. Tomás de Aquino. LivrariaDuas Cidades, SP. 1962.GILSON, Etienne. Deus e a filosofia. Lisboa: Edições 70, 2002.MARITAIN, Jacques. Caminhos para Deus. Belo Horizonte: Itatiaia Limitada,1962.MOLINARO, Aniceto. Metafísica. Curso Sistemático. 2° Ed. São Paulo: Paulus,2004. [12]

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