Relato BR135-2010

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Um relato da participação do Ultra Cleonir Simonetti na Brazil 135, a famosa BR135, uma das ultramaratonas mais difíceis do mundo.

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Relato BR135-2010

  1. 1. Copa do Mundo de Corridas de 135 Milhas - "BAD135 World Cup" Serra da Mantiqueira ◄ São João Boa Vista, 8h ◄ 23-25 janeiro 2010 A Corrida das Montanhas A competição é considerada a mais difícil do Brasil, integrando uma das três etapas da Copa do Mundo de Corridas de 135 milhas (217km) em ambientes extremos—”BAD135 World Cup”. Totalmente realizada nas montanhas da Serra da Mantiqueira, entre os estados de SP e MG, abrange o trecho de maior dificuldade do Caminho da fé (uma peregrinação de mais de 500km por cidades históricas da região). Essa é considerada a série de ultramaratonas mais difícil existente no planeta. Suas etapas são:  BR135 Ultra (Brasil) - Corrida nas Montanhas  Arrowhead (EUA) - Corrida no Gelo  Badwater (EUA) - Corrida no Deserto Em todas as etapas os atletas devem assinar um termo de compromisso,alertando-os sobre os riscos à saúde(podendo até causar a morte) e o possível encontro com animais selvagens. Missão “ The journey” e o time Farroupilha Adventure Em 2009 após ter cumprido a primeira parte da tríade da BR135, estava novamente com o desafio dos caminhos sinuosos das montanhas da Serra da Mantiqueira pela frente. Sabendo do tamanho que é o desafio, precisava formar uma equipe de apoio, estando ciente de que não contaríamos com a estrutura do ano anterior partindo de Juiz de Fora como em 2009. Daquela fantástica equipe de desbravadores, restou apenas o Lúcio, que pilotou o carro novamente, sempre com muita segurança, com sua qualificação e habilitação “E”, sem mais comentários. Na função de pacer(atleta que presta apoio direto ao competidor, correndo a seu lado nos trechos mais difíceis para o fornecimento de suprimentos essenciais e manutenção do ritmo), atendeu meu convite; meu amigão, Marcelo Nava. Alguns critérios pesaram muito para a escolha do Marcelo como pacer, entre os principais que eu destaco, a qualidade técnica como atleta, segurança e lucidez na prática esportiva, seu mestrado em ciências biomédicas e a dedicação as corridas de longa distância. O Marcelo ficou feliz com o convite e prontamente aceitou o desafio, que a princípio era de acompanhar-me em um total de 54 a 78km, entre os trechos 12 e 15, com subidas muito íngremes e isolamento em relação aos demais atletas(ver mais informações sobre os dados do percurso). Sabendo que a BR135 independente de que edição se vá participar é um encontro consigo mesmo, mesmo não correndo a prova e só participando de alguma forma do ambiente dela, não poderia deixar de fora meu nobre amigo Lazie que trabalhou no staff como voluntário na barraca após a cidade de Consolação e depois na chegada em Paraisópolis. Estou ciente que a prova foi inesquecível para todos que estiveram lá. Minha meta na prova era melhorar meu tempo de 40 horas e 56 minutos, conquistada na edição de 2009 e buscar uma qualificação pra concorrer a uma vaga na Badwater, que acontece nos EUA na metade do ano.
  2. 2. Treinamento Meu planejamento para a prova começou em Junho, após a ultramaratona de resistência 24 horas de Santa Maria, quando fiquei parado por 2 meses para descansar durante o forte inverno da serra gaúcha; não treinei neste período para recuperar meu organismo que vinha de 10 meses de treinos pesados de ultra e competições. O inverno foi dureza, chegou a –4ºC e creio que foi a decisão mais certa que tomei nos últimos 2 anos. Em agosto retornei ao reforço muscular na academia que não passou de dois meses, eu me sentia muito travado durante os treinos de estrada e por isso continuei me exercitando em casa e mudei o trabalho de fortalecimento, utilizando percursos alternativos preferencialmente acidentados e íngremes. Entre estes percursos alternativos as trilhas que contornam a barragem do Burati, as trilhas do Distrito de São Marcos, os canyons da Vila Jansen, as longas subidas da Buza e Caravaggio e também Capela de São José, foram meu endereço por um período de 5 meses e meio e foram treinos muito bons. Vista geral dos paredões atingidos pelo tornado Travessia do Rio nos Canyons da Jansen, são 4 em Dezembro de 2009. travessias durante o percurso da trilha. Trecho da trilha coberto por árvores que foram Mais um trecho de árvores retorcidas pela trilha arrancadas pelo tornado. de quase 8 km, sua travessia leva mais de duas horas.
  3. 3. Nos canyons da Jansen passou um tornado que destruiu a trilha e deixou-a intransitável para os jipeiros, nós continuamos a freqüentar o lugar ainda mais depois do tornado, era possível exercitar o corpo inteiro naquelas trilhas. Se aquele tornado tivesse atingido a cidade de Farroupilha poderia ocorrer uma tragédia difícil de dimensionar devida a intensidade do mesmo, são inúmeras as árvores enormes arrancadas e retorcidas pelo caminho, a destruição é impressionante. O Percurso da BR 135 Este ano a prova iniciou em São João da Boa Vista(SP) e terminou em Paraisópolis(MG), tendo sua subdivisão como segue:  Trecho 1– São João da Boa Vista até Águas da Prata (18km)  Trecho 2– Águas da Prata até a Base do Pico do Gavião (13,3km)  Trecho 3– Pico do Gavião, subida e descida (10km)  Trecho 4– Base do Pico até a Pousada Pico do Gavião(13,3km)  Trecho 5– Pousada Pico do Gavião até Andradas (9km)  Trecho 6– Andradas até Serra dos Limas (15km) 1º Checkpoint  Trecho 7– Serra dos Limas até a cidade de Barra (6km)  Trecho 8– Barra até Crisólia (16km)  Trecho 9– Crisólia até Ouro fino (7km)  Trecho 10– Ouro fino até Inconfidentes (11,4km) 2º Checkpoint  Trecho 11– Inconfidentes até Borda da Mata (19,1km)  Trecho 12– Borda da Mata até Tocos do Mogi (18km)  Trecho 13– Tocos do Mogi até Estiva (21,7km) 3º Checkpoint  Trecho 14– Estiva até Barraca de Consolação (25km)  Trecho 15– Barraca de Consolação até a chegada em Paraisópolis (18km) Lazie e Marcelo demonstrando a altitude do Pico Vista da Igreja na Praça central de São João da do Gavião no painel altimétrico da prova. Boa Vista. Nos checkpoints, os ultramaratonistas tinham a sua disposição comida quente e também eram avaliados pela equipe médica da prova, pesagem, glicose e coloração da urina, nesta avaliação biomédica era constatado se os atletas tinham condições de seguir adiante na prova ou não. Atletas reprovados foram encaminhados para o hospital mais próximo. Este ano o percurso estava bastante complicado em função das fortes chuvas e deslizamentos, bem como das quedas das pontes em diversas localidades.
  4. 4. Serra da Mantiqueira Vistas da Serra da Mantiqueira pelo excelente fotógrafo Samuel Marcondes, na edição de 2009. Mais fotos: www.smarcondes.com.br De Farroupilha para Campinas Preocupado em não ficar preso no trânsito de SP, estudei a logística por um longo período analisando todas as possibilidades, aeroportos, hotéis, agências de locação de veículos enfim...a idéia era não perder tempo com deslocamentos desnecessários e cansativos. Encontrei em Campinas nossa base logística, geograficamente favorável e com estrutura muito boa. Tendo a opção de vôo ida e volta entre Porto Alegre e Campinas no aeroporto de Viracopos e com facilidade de locação do veículo de suporte. No dia 20/01 durante a tarde saímos de Farroupilha para Porto Alegre onde as 19 horas embarcaríamos para Campinas, onde permanecemos por um dia, tempo suficiente para visitarmos a Choperia Giovanetti, inaugurada em 1937 e conhecermos o centro de Campinas com suas atrações arquitetônicas e alugar o veículo. Fotos do salão principal da Choperia Giovanetti, destacando vários objetos antigos dependurados nas paredes do estabelecimento, que eram utilizados no ponto de comércio como exemplo os vidros com bolas de gude e a máquina de escrever. Abaixo a Catedral localizada no centro de Campinas, a Torre do Bairro Castelo e o Palácio da
  5. 5. De Campinas para São João da Boa Vista Deixamos Campinas na quinta-feira dia 21/01, no início da tarde, rumo a São João da Boa Vista, cidade com intensa movimentação, durante o dia todo. Seguimos pela rodovia Fernão Dias até chegar ao acesso a cidade, rodovias em bom estado de conservação devido aos pedágios. Este trecho de estrada é cercado por belas paisagens da Serra da Mantiqueira e também de plantações de café. Durante o deslocamento até a cidade da largada, acompanhávamos pelas rádios da região a previsão do tempo que nos preocupava bastante, devido a expectativa de chuva torrencial para o final de semana todo. Isso não se concretizou por completo, a cuva não foi geral, pegou partes da prova apenas e alguns atletas tiveram a sorte de não encontrar chuva pelo caminho. Apresentação, retirada do kit e pré-race em São João da Boa Vista Iniciando ainda na quinta-feira, em um ambiente muito agradável, o evento de integração possibilitou um saudável contato entre todos os participantes, além de fornecer informações importantes sobre a logística, centros de apoio e situação das estradas. Em nossa chegada fomos brindados com uma forte pancada de chuva, que durou cerca de uma hora. Nos apresentamos para retirada do kit, depois de vários abraços; assinamos a documentação, fiz a pesagem com o Dr. Luis Lacerda e efetuei o pagamento das contribuições do Caminho da fé à guerreira Jaqueline Terto. Após ter passado pela parte médica, ficamos a espera dos outros amigos de ultramaratona e também do multicampeão Valmir Nunes, que faria o lançamento do seu livro naquela noite mesmo, na Mansão dos Nobres. Devido ao trânsito em SP, Valmir se atrasou e só conseguiu chegar depois das 21 horas. Logo que o Valmir chegou, com toda simplicidade característica dele, ficou disponível pra tirar fotos e conversar com todos. Depois de o Diretor da prova, organizar um lugar para que o Valmir pudesse autografar seu livro, recebi com a dedicatória seu livro Fotos com o multicampeão Valmir Nunes, autografando o livro que agora faz parte dos meus estudos de ultra. Um trabalho que merece ser reconhecido por todos os ultras de nosso país e também do exterior, além de ser um material excelente de consulta, um verdadeiro manual de ultramaratona.
  6. 6. No pré-race foi exibido um vídeo de edições anteriores da BR no telão e após isso foram apresentados os atletas estrangeiros que trabalharam na busca de recursos para a construção do Ginásio esportivo do projeto Lucianas em Miracatu(SP), grupo que foi liderado pela simpática ultra Lisa Smith. Este mesmo grupo de atletas visitou o projeto depois da prova para um almoço, no dia 26/01. O grupo apresentou na prova, nível técnico excelente e rápida adaptação ao ambiente. Creio que com as dificuldades da BR135, todos nós sentimos por uma melhor adaptação..somos quase que estrangeiros também. Em emails anteriores a organização de prova já tinha nos avisado de algumas pontes que haviam caído, impossibilitando que os veículos de apoio pudessem dar assistência aos atletas em alguns trechos. O Lazie foi incumbido de integrar o staff da organização na barraca de Consolação, um dos pontos afetados pelas fortes chuvas, no trecho 15, neste local a ponte foi substituída por outra de cabos de aço, por onde somente era possível a passagem dos atletas e demais pessoas da localidade, sem possibilidades de os carros seguir por aquele caminho. Cumprido o protocolo da BR, os atletas foram reunidos para a foto oficial e em seguida Fotos da concentração, da equerda para a Outro momento de alegria, Da equerda para a direita, Lazie, Marcelo, Jarom Thurston, a direita, Juvam Palmeira, Cleonir, José Servello, argentina Suzana Segurel, meu amigo Júlio Latini Marcelo e Lazie. Jr e eu que vos escrevo este relato. Antes do almoço, momento de descontração com Verificando a altimetria, Jarom, Lúcio, Marcelo, meu querido amigo Márcio Villar, o homem do Raymond Sanchez, Cleonir e Lazie. gelo.
  7. 7. O pré-race seguiu com momentos descontraídos e alegres até o início da tarde, quando os atletas e suas equipes foram se dirigindo para os hotéis descansar, porque estava perto o momento tão esperado da largada da BR135, edição de 2010. Após o pré-race, fomos às compras dos mantimentos que faltavam para o dia da prova antes de seguirmos em definitivo para o descanso no hotel, cientes que antes disso tínhamos combinado o jantar com minha equipe de apoio. A prova Este ano a largada foi pontualmente as 8 horas da manhã, na praça de São João da Boa Vista, com presença de autoridades municipais e até banda marcial, que executou o Hino nacional ao subir das Bandeiras. Os momentos que antecederam a largada foi pura emoção e ansiedade, muitos saíram já em lágrimas. Quando deu a largada procurei andar rápido esta parte de asfalto porque é uma das partes que mais se tem possibilidades de andar rápido durante o percurso, nesta parte da prova é muito tranquilo, o bate papo está presente e até adentrar as trilhas o clima é de festa. O pessoal da frente saiu forte, muito forte, parecia uma prova de 10km e eu procurei fazer minha prova como planejado, sem entrar no ritmo alheio, logo tive a companhia do Luciano de São Gonçalo(RJ) e andamos por um bom tempo juntos, andavam juntos de nós também Uma foto para guardar de recordação, eu Hadi Akkou e seu pai, o experiente ultra (Cleonir), Márcio Villar, Adão Miranda e Éber Fernando e logo mais a frente seguia Brian Valentim, meus grandes amigos. ..seu pacer o experiente conhecedor do caminho Gustavo Aires, que já levou outros atletas estrangeiros a bons resultados na BR135 e na edição de 2009 fizemos uma chegada fantástica com o inglês Garry Johnson e lá estava o Gustavo também. A primeira trilha iniciou mansa e logo mostrou seu cartão de visita, com uma fortíssima e longa subida, tinha até corda na trilha para auxiliar a subida dos atletas, pela trilha escorregadia. Neste trecho, Hadi e eu seguíamos andando praticamente em fila indiana, até encontrarmos o Mário com sua câmera em um ponto estratégico da trilha. Logo em seguida alcancei o boliviano Yucra que seguia por uma estrada logo após a saída da mata, a prova nos reservava bons momentos, esta integração Brasil-Bolívia daria o que falar durante os 200km seguintes. Cheguei em Águas da Prata tranquilo, sereno, peguei suco, cereal e proteína, água gelada e segui em frente para o Pico do Gavião, ouvindo a orientação do Dr. Luis Lacerda que me dizia: “ é isso aí, está perfeito,
  8. 8. Saindo de Águas da Prata novamente alcancei o Hadi e seu pai, em seguida alcancei meu nobre amigo Raphael Bonatto, que estava um pouco desanimado, não estava legal, não estava conseguindo se concentrar na prova, sua cabeça não estava na BR, tentei passar motivação e segui em frente; na metade da prova perguntei para o Marcelo sobre ele e o pessoal me disse que ele tinha abandonado em Andradas. Neste ano, onde no ano passado fui alcançado por meu querido amigo Manoel Mendes, alcancei o Ariovaldo que seguia tranquilo pelo caminho com seu pacer; conversamos um pouco mas logo ele seguiu forte novamente e eu preferi não acompanhar, mantive meu ritmo para não desgastar no início da prova. Andei por um longo período solitário, até chegar à base do Pico do Gavião onde encontrei toda a galera esperando os atletas, neste lugar encontrei o Juvam que descia o pico na segunda posição, seguido de perto por vários atletas; Adão Miranda, Brian Krogman, Sebastião da Guia, Eleir, Áureo, Raymond, Luciano,...fiquei feliz com isso porque inicialmente não acreditava que chegaria ao pico e encontraria todos os atletas da frente ali, pensava que estariam mais a frente. Com isso subi o pico de forma cadenciada, ora correndo, ora caminhando para poder me adaptar a altitude dos 1630 metros. Mesmo assim, senti muito a rápida subida, os efeitos fisiológicos se manifestaram, fiquei um pouco tonto e com ânsia de vômito. Logo que cheguei no carro tentei me alimentar e o chocolate não desceu, mas consegui me recuperar rapidamente com uma boa hidratação. Recuperado; retornei ao ritmo e foi nesta parte que eu e meu amigo Izo Yucra iniciamos uma parceria que nos levaria até o fim da prova com êxito, nosso ritmo assemelhava-se muito e nossos carros estavam praticamente que andando juntos, isso facilitou nossa vida. Em Andradas, quando chegamos na cidade, localizamos somente o carro do Yucra, onde ele parou para fazer uma massagem, aproveitei o carro para pegar um pouco de água e então segui em frente para encontrar meu carro, a Meu carro estava posicionado logo após este cidade foi terminando e não encontrei o córrego onde em 2009 o Samuel Marcondes, veículo, segui adiante novamente a caminho de foi clicado pelo seu colega de fotos Luciano Moraes, com seu jeep cruzando pela água. Serra dos Limas. Neste momento eu estava decidido a não voltar para procurar o carro e aproveitar que estava bem e ganhar terreno. Logo na saída de Andradas o Hadi novamente me alcançou e eles foram os responsáveis por minha manutenção de ritmo, graças aos mantimentos que a equipe me forneceu durante o percurso, bem como água, refrigerante e também foram as gurias que avisaram minha equipe de apoio que eu já tinha passado por Andradas. O pessoal da equipe do Gerson também me ajudou nesta parte, verdadeiro espírito esportivo. O Lúcio e o Marcelo me alcançaram quando eu estava subindo a encosta de Serra dos Limas e neste trecho eu senti um pouco a subida, porém minha preocupação maior era com a cor da urina que estava escura, como fiquei um período longo sem a hidratação completa e sem minha mochila, fui obrigado a ingerir muito líquido antes de chegar no checkpoint em Serra dos Limas e aos poucos a urina foi clareando; se não fosse a providencial ajuda do Hadi e do Gerson, a coisa ficaria complicada pra mim.
  9. 9. No topo da encosta de Serra dos Limas, alcancei o Gérson, grande companheiro e amigo de longa data, estava caminhando se poupando para a parte final, Gerson sempre foi um ultra de chegada forte, sempre administra uma regularidade de nível bastante elevado. No checkpoint de Serra dos Limas estaríamos num grupo de atletas considerável, visto que sabia que o Hadi vinha perto, Reinaldo Tubarão estava próximo também e ainda o Yucra que estava comigo antes e estava muito bem. Foi o que aconteceu, logo depois que cheguei chegaram quase todos, Reinaldo não tinha chegado quando eu saí. O macarrão estava muito bom e fui fundamental na sequência do percurso, como tínhamos combinado, eu e o Yucra seguimos juntos deste trecho em diante, estava começando a anoitecer e durante a noite, em dois atletas é muito mais tranquilo de manter o ritmo. O Yucra sentiu um pouco o estômago seguindo para Barra, onde fomos acompanhados por mais dois atletas da equipe do Agnaldo Sampaio. Chegamos em Barra, ainda conseguindo correr sem utilizar o equipamento de iluminação, porém a noite veio rápido e com el as dificuldades, o cansaço começou a pegar; como encontrávamos nossos carros periodicamente neste trecho, estava fácil rodar bem. As coisas começaram a complicar um pouco antes de nós chegarmos em Inconfidentes, neste momento a chuva tinha começado mansamente e prometia continuar por um bom período. Neste checkpoint encontramos o Cléber e também seguimos com o José que estava correndo conosco também. Fizemos uma parada estratégica, alimentação...um curto descanso, revisamos a bandagem dos pés e o equipamento de iluminação. Retornamos para o caminho com a garoa aumentando, agora éramos três, eu, Yucra e José. Conforme os minutos passavam a chuva aumentava sua intensidade até se tornar torrencial, tínhamos dificuldade de ver adiante de 3 metros, o terreno ficou liso, perigoso, muita lama se formou no percurso, encontramos 3 carros deslizando pela lama neste trecho, sem chance de sair de onde estavam. O trecho de Inconfidentes a Borda da Mata, inteirinho debaixo de uma água que Deus mandava, eu não tenho recordação em minha vida toda, ter tomado uma verdadeira bomba de água parecida com a que tomamos na BR naquele trecho, eu cheguei em Borda da Mata, com sintomas de hipotermia, eu batia os dentes em razão do frio que eu sentia. Foi complicado este trecho. Para minha surpresa quando chegamos em Borda, encontramos o Brian Krogman saindo com seu pacer. O Raymond Sanchés foi auxiliado pelo Yucra com algumas roupas porque estava sem o carro de apoio naquele local, só encontraria seu pacer na penúltima subida antes de Tocos do Mogi, foram momentos difíceis para o Ray, porém é um atleta experiente e logo superou as dificuldades e foi em frente. Nesta parte da prova, não contaríamos com o carro também, somente em Estiva, mas o Lúcio e o Marcelo conseguiram vir em nosso encontro em Tocos, logo depois da cidade e nos ajudaram muito, foi na parte mais terrível de Tocos pra Estiva. Em Borda da Mata, Cel. Seabra nos deu uma dica muito importante, aconselhou-nos a deixar os equipamentos de iluminação porque logo amanheceria. Era um peso pequeno, mas naquela altura da prova, 100 gramas a menos faz uma diferença danada. O rapaz que estava com o irmão do Yucra no carro nos deu dinheiro pra comprarmos algo no caminho caso fosse necessário; compramos refrigerante. Na penúltima subida de Tocos pra Estiva, fomos ultrapassados pelo guerreiro Rosivaldo e sua equipe que também nos ofereceu ajuda. O mestre Heroi até pastel nos ofereceu; porém não descia, só queríamos saber de líquido; o calor era intenso, a cada pouco
  10. 10. Enfim chegamos em Estiva para o úlimo checkpoint, minha urina estava um pouco escura, mas nada comprometedor do desempenho, a urina do Yucra parecia uma coca- cola, mas estávamos controlando ritmo e desgaste. Tomei a canja de frango , a comida me deu forças pra seguir em frente. A parte de Estiva até Consolação é uma parte que vai minando as forças em função do calor e das longas subidas, agora com a companhia do Cel. Seabra em nosso carro, que precisou de uma carona pelo caminho. Imaginem a honra que eu estava sentindo..um ultra que foi soldado de Cavalaria, com um Cel. Da Cavalaria em meu carro. Até consolação muitos ultras vão pelas tabelas, é incrível o desgaste físico e mental com que se chega a este ponto da prova, um pouco antes da Barraca de Consolação fomos ultrapassados pelo Harry, que estava bem, nós adentramos a trilha de Paraisópolis bem no momento em que o Lazie estava sendo liberado pra ir descansar, acabou que nem foi descansar naquele momento porque foi obrigado a ir pra praça de Paraisópolis com o Lúcio registrar nossa chegada. Momentos da chegada a Barraca de Consolação, Marcelo ao lado da unidade móvel de combate ao stress e nós adentrando o último trecho. Nesta altura o Marcelo já estava conosco, meu forte e guerreiro pacer, se encarregou de levar minha mochila e as garrafas do Yucra, estávamos exaustos, e um pouco antes da ponte pencil, uma vaca avançou em nós, quase acertou eu e o Yucra, por pouco não saímos machucados do episódio. Começamos a correr para fugir do raio de visão de algum outro ultra que estava entrando na trilha, a noção de se estar perto; dá um ânimo muito grande na parte final, por isso colocamos nossas forças também para aproveitar a claridade do dia, andamos até começar a subir, onde desabou o mundo em chuva novamente por uns 20 minutos torrencialmente e o solo ficou um sabão, liso e pesado, o caminho se apresentou para dar a última lição antes da chegada, nunca pense que o percurso está dominado pois ele pode mudar radicalmente em poucos minutos. Nestes momentos finais a adrenalina foi subindo e começamos a andar mesmo, aos poucos contornávamos a parte mais complicada do último trecho que nos levaria pra entrada da cidade e também para a linha de chegada. A cada passo a frente mais motivados e felizes estávamos, quase no final encontramos novamente a Land Rover do Exército com o pessoal da equipe do Gerson,” Selva...Brasil !!” Meu amigo Gerson estava próximo, nossos carros estavam juntos, na maior alegria, faltava muito pouco, já conversávamos da chegada. Em forma de gratidão ao Yucra, que em Inconfidentes quando minha lanterna pifou, ele me emprestou sua lanterna reserva, ele foi na frente.
  11. 11. Já tínhamos vencido muitos obstáculos e minha conquista estava de bom tamanho, uma prova lúcida por sinal, baixar 3 horas o tempo na BR não é algo tão fácil de se conseguir, e com os perengues que tive de superar para concluir a prova nem se fala. Quando entrei na cidade a sensação de dever cumprido é a fiel certeza de que tínhamos feito uma prova perfeita. Quando recebi das mãos do Lúcio a bandeira de Farroupilha, a emoção estava estampada em meu rosto, eu não sabia se gritava, se chorava, não sei...só lembro que cruzei a linha de chegada e fui abraçado pelo Mário..logo em seguida Lazie..Lúcio..Marcelo..muita emoção. Minha chegada, junto com meu pacer Marcelo e a bandeira de Farroupilha, que sempre nos acompanha nas provas que vamos. E abaixo o registro da lama que enfrentamos antes da chegada, foi de encardir uma barbaridade. Tudo certo no checkup final, fui para a foto de premiação, receber minha medalha dourada, linda “The journey” que o Mário colocou em meu pescoço..recebi a camiseta de finisher das mãos da Eliana, também meu certificado com a marca de 37 horas e 56 minutos, exatas 3 horas abaixo do meu antigo tempo. De tudo que se passou naqueles momentos minha única tristeza, foi não ter conseguido esperar o Gerson passar a linha de chegada, eu estava demolido, tive que ir para o
  12. 12. A marca deste ano, talvez no ano que vem eu não consiga superar, porque em 2011 eu vou em busca de fechar a tríade, mais maduro, mais consciente do quanto somos humanos, passíveis de erros, sentimentais, vulneráveis até a uma pequenina bolha na sola dos pés e ao mesmo tempo guerreiros incansáveis. Na próxima edição eu vou viver meu encontro comigo mesmo, será “the end of the journey”, meu sonho é fechar a BR135-2011 como o Mauro fechou este ano..íntegro, fiel aos seus princípios de amor e ética ao esporte, ou como o Erisvaldo e tantos outros..tenho dezenas de nomes para me espelhar...e aprender. Se minha medalha for dourada ou prateada, não vai importar muito, se vou conseguir também não sei, só tenho a convicção que farei o que tiver ao meu alcance pra conseguir, darei o que tenho de melhor, que é a vontade de viver, de seguir em frente quando tudo está agindo contra, sei conviver com a dificuldade; pois eu a conheço bem e jamais ela vai me fazer desistir, porque eu sou um homem de Deus, um atleta de Cristo, as glórias passam e as medalhas enferrujam, porém a fé se renova a cada batalha.!! “Lutei uma boa luta e mantive minha fé.” Dedico este relato a cada pessoa que acompanhou minha luta desde o início da jornada, aos atletas que participaram da BR, pessoal do staff, amigos, irmãos do Brasil e do estrangeiro, todos levamos em nosso coração e nas lembranças algo um do outro, saibam que muito eu tenho aprendido com estas “pessoas comuns que realizam coisas extraordinárias.” Fim, ano que vem tem mais.....!!!

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