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Tempo do sacho

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Um conto de Maria Helena Amaro publicado no blog Maria Mãe

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Tempo do sacho

  1. 1. Tempo do sacho Contar não é o meu forte... Nunca foi. Gosto mais de ouvir... E osmeus olhos rasgados, mas míopes, escondem-se em tudo nadacontra as pestanas escuras e seguem maravilhados os movimentosinquietos dos lábios e das pálpebras dos que contam. Fui sempre assim. Em pequena, deitava-me ao sol, de braçosatrás da nuca, junto de um grupinho e ouvia... ouvia... - Tu não contas - diziam. - Não sei contar... E sorria-me para dentro. Sim, eu sabia contar... Mas contarnão era o meu forte. Tal como agora. Gostava, sim, e ouvir osoutros. E, depois, os braços saíam-me da nuca e deitavam-se sobre orosto. E ficava a plagiar as coisas que me contavam. Das moçasfeias, fazia princesas lindas... Dos choros das crianças, risos demulheres... Da chuva, orvalho... E nos contos plagiados, tudo erabeleza, alegria, esperança... Mas, contar não é o meu forte... Gostava sim, de ouvir e,depois, pintar a meu gosto novos contos. Ninguém sabia, e nãopoderiam rir-se das minhas ingenuidades. Só o sol, certamente, porentre a curvatura dos braços, vinha espreitar as imagens quepassavam no ar e a tremura dos meus lábios soletrando em silêncioas frases mais adequadas... Frases que morriam, antes que alguémmas ouvisse. Podiam rir-se...porque contar não é o meu forte. Mas, hoje, vou experimentar... * Sol a pino. E a estrada é poeira vermelha, ardente, toda adesfazer-se em ruído e pedras, quando os carros passam, demotores a roncar e pneus saltitantes. Quem vem de Sul para Norte,sempre longe do mar, pode encontrar estradas assim. E ao vê-las,esquece aquelas outras cinzentas, alcatroadas, brilhantes, luzidias,onde apetece carregar no acelerador e desaparecer, além napróxima curva muitas vezes rara... Todos os dias, eu olho a estrada coalhada de sol e pó, sentadonuma pedra sob uma nesga de sombra... Todos os dias, os vejopassar aos grupos, cantando, de enxadas ao ombro, baixos, grossos,de pernas curtas e braços musculosos. Morenos trigueiros comoazeitonas maduras. Elas, de saia estreita atada na cintura com umlargo pano negro. Avental farto. E um lenço na cabeça. Quase
  2. 2. sempre descalças e de luto vestidas. Só a blusa é clara. Eles... nãoposso precisar o que costumam vestir. Mas vestem mal e a roupa étoda remendada. A estrada é sinuosa. E, do alto, posso vê-los lá embaixo a contornar o declive e ouvi-los também. São vozes arrastadasmas alegres. E deixam sempre, no final da última frase, uma notabaixa que se prolonga até morrer como um eco. Gosto de vê-lospassar. Desde maio, que os vejo assim aos magotes. É o tempo dosacho. Às vezes, param no meio do caminho, perto de mim. Pousamas enxadas e ficam aos grupos a bisbilhotar, a rir, a coçar, apeguilhar uns com os outros. Eles com elas. Elas com eles. Eformam pares. Não vou afirmar que alguns namoriscam, mas, seestivesse perto, por certo que veria os olhos do Manel procuraremos da Rosa... Depois, quase sempre, aparece um homem de idade, de botasaltas à cavaleiro e colete justo. Chapéu na cabeça e gestos pesados.Eles, então, dispersam e dizem à uma: - Bons dias, Ti Zé!... Deve ser o capataz. E a caminhada prossegue até lá cima, ondeas matas desaparecem e os campos cultivados surgem por milagrede Deus. Perguntei, um dia, o que era o sacho. « - Ora, não sabe? Credo! Quando o milho cresce, é precisosachá-lo, desapontá-lo, tirar ervas daninhas. Não só ao milho, masàs outras plantações. Então o encarregado contrata rapazes eraparigas, que, de sacho na mão, revolvem a terra e catam asplantas. Cantam todo o dia. Debruçados para a terra, sob o solescaldante, rostos suados e faces vermelhas, dizem à terra do seutrabalho e à vida dos seus amores. No sacho conversa-se. Dizem-secoisas... Contam-se coisas... Contam-se anedotas... Enterram-sevivos e desenterram-se mortos... Mas o trabalho não para, nem osmovimentos perdem o ritmo. O terreno é extenso e o encarregadonão é para brincadeiras. Param para comer. Depois, a sesta. Unsdormem. Outros, à sombra, puxam dos instrumentos e mostram ashabilidades musicais. E as vozes erguem-se no silêncio quente comobrados de vida e alegria. Vermelhos e fortes. Como a alma da genteminhota. O verde salta nas malgas, espumoso e negro. Comosangue. E as gargantas refrescam-se. Pelas três da tarde regressamao trabalho. E o encarregado, de braços na cintura grossa, vai de filaem fila, a recomendar, a fiscalizar, a incitar com voz amiga mas
  3. 3. insistente. Há sempre aqueles que gostam de lançar desafios emverso... E elas respondem. Ruborizadas e prestes. Mas semprearremetiças. E as gargalhadas sobem no ar. Gargalhadas fortes esonoras. Como os músculos deles; como as vozes delas». Ao anoitecer, regressam. É a descer e, por isso, a marchaligeira. Mas os cantares são mais arrastados. E elas ficam para trás.Mais separadas deles. E o capataz fecha o cortejo. Regressam todos.Mais morenos, mais musculosos, mais sujos; cobertos de terra. Masos olhos são searas ondulantes, e os dentes parecem de neve. Na encruzilhada, depois do declive, param. Batem asTrindades, lentamente, docemente como um apelo do Alto. E elestiram as enxadas do ombro e benzem-se num movimento ritmado ecerto. O silêncio é oiro de oração. Quase súplica. E o encarregadoquebra-o: - Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!... A jaculatória é um chamamento de novo à vida feita de terradura e suja. - Té manhã!... - Adeus! - Adeus, ó Rosa! - Té manhã Toino! E vão-se todos separados. Cada carreiro escrito no solo é paraeles uma avenida que os conduz ao aconchego do lar, ao sossego, aocaldo fumegante, à cama de lençóis de linho áspero. Cada umcontará, em casa as últimas novidades sabidas no sacho:casamentos, batizados mortórios, pegas dágua, zangas, etc. Eles eelas. E, amanhã, voltarão a subir a estrada vermelha, poeirenta, sobo sol a pino. Que o sol, cá em cima, nasce mais cedo e vem direito àestrada por onde eles passam aos grupos, a cantar, a peguilhar, adizer ao Sol os seus amores e a nós o seu trabalho... É o tempo do sacho. Maria Helena Amaro In, «Maria Mãe», 1973, p. 102-104. Data da conclusão da edição no blogue – 9 de janeiro de 2013 http://mariahelenaamaro.blogspot.com/

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