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Retalhos vivos

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Um conto de Maria Helena Amaro
http://mariahelenaamaro.blogspot.com/

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Retalhos vivos

  1. 1. Retalhos vivos Chamava-se Imelda. Conhecemo-nos nos tempos do liceu eficámos amigas. Mocidade irreverente. louca da vida, pujante dasaúde e alegria. Dias maravilhosos em que éramos alegres comopássaros e camaradas como cerejas! Mas... O tempo foge e nãoperdoa. Crescemos. Separámo-nos e a meio da jornada seguimosrumos diferentes. Ontem, encontrei-a e falámos. Ah! Como estádiferente esta Imelda, que eu vi, dessa outra Imelda dos bancos doliceu, um tanto fútil e enfeitada, menina rica, vestida sempre desedas e veludo! Uma Imelda que zombava dos mestres, cábula etravessa, sonhando com o curso fácil que durasse até à eternidade!Uma Imelda que dizia poemas em voz alta e sabia de cor todos osnomes das estrelas de cinema... Nos meus dezasseis anos inexperientes, perguntava a mimmesma, nessa época, se a vida se chamava Imelda. E sofria um tantopor não poder chamar-me assim... Pois, se tudo que era belo, rico,bom, alegre e inteligente, tinha o nome de Imelda! Nós, as outras,enfim... Só Imelda existia! Mas, ontem, encontrei outra Imelda. Conversámos. Edepois das recordações, choveram as novidades. A Imelda,professora primária!... A coisa chocou-me. Ela notou e não pôdeguardar: - Eu sei que tu estás... eu sei no que tu estás a pensar... Estásadmirada e... Fiz bem... Olha, a certa altura, a Faculdade desiludiu-me. Desisti. Estive um ano em casa. Assim, sem nada... Era demais.Alguém me sugeriu o Magistério. Mas fui de alma vazia. Fui parafazer alguma coisa, para não ficar ao canto da sala a pontearpeúgas...e, hoje, tu não supões a riqueza que encontrei no curso queescolhi! Transformei-me. Um ano, aqui, outro ali, mais outro...Vive-se. - Ó Imelda, e os teus sonhos de menina rica? - Olha, sinceramente esqueci-me de tudo. Somos tão tontasaos dezasseis anos! Só quando me puseram diante de uma classe de38 alunos, numa terra de pescadores, quase miserável, de criançasde olhos rasgados a pedirem mais pão do que sabedoria, é que meencontrei com a Vida... A Imelda falou, contou, desabafou. Estivemos horasseguidas no meio do passeio, indiferentes à vida da cidade quesaltitava ao redor de nós.. Na despedida, Imelda tornou-me:
  2. 2. -... E olha: gostava de escrever lá para o teu jornal algumacoisa de bom, como tu me pedes, mas não sei... Desculpa (e sorriamexendo e remexendo na carteira espaçosa...). Depois... - Só se for isto... Num ápice, tirou da carteira uma pasta de papel feita livro eabriu à sorte. Na capa li; «Diário de uma Professora de Aldeia» - ereconheci na frase a mesma letra escangalhada da Imelda do liceu.Perante o meu espanto, sacou do livro um punhado de folhasnumeradas e disse: - Leva a lê. - Mas... - Não têm segredos. São retalhos vivos da minha escola.Podes publicá-los no teu jornal. Talvez sirvam... (Ah, que, nestagenerosidade espontânea, era bem a mesma Imelda do liceu!...) Despedimo-nos. Refugiei-me no café mais próximo ecomecei a ler: «8 de Maio de 1966. A Fátima é de todas as minhas alunas da 2ª classe a maisirrequieta, a mais ligeira, a mais «andorinha». Andorinha... Issomesmo. Não é que o termo seja humano, mas a Fátima é umpedacito da primavera irreverente dentro das quatro paredesenfeitadas de bonecos desta sala de aula um tanto velha. Pequena, quase magrita, olhos de amêndoa, nariz arrebitadoe toco à mulher, no alto da cabeça, a Fátima, se eu a deixasse, seriacapaz de se atrever a intitular-se professora da minha classe... Ébonita e arrapazada. Quando a mãe no ano passado a veio matricular trouxe-meeste recado: «-Olhe, minha Senhora, a Senhora não faça cerimónia.Dê-lhe bem e sem dó, que Deus não me deu uma rapariga para eucriar; deu-me um bom mafarrico... O irmão dela ao pé dela é ummaricas. A Senhora desculpe a palavra, mas é o que eu acho. Temdemo esta rapariga». Ora... eu fiz cerimónia e não lhe dei. Não lhe dei, porqueadoro a Fátima (a Fátima em si, não, porque tenho para adorar 42Fátimas mais ou menos e a todas por igual...), sim, adoro na Fátimaessa irreverência, essa à vontade, essa ternura tonta e espontâneaque lhe sai a todo o momento, mesmo a seguir a um castigomerecido e esperado.
  3. 3. Tem coisas interessantes a Fátima: zero erros... contascertas... simpatia transbordante... humorismo natural perantedesastres inesperados. E a Fátima, a Fátima imita-me: Há dias vimdar com ela em cima do estrado de ponteiro na mão gesticulando...Não vou dizer o que ela dizia. (Em que triste figura é capaz de pôr afalta de paciência a um mestre escola!) Entrei, fiz vista grossa edeixei-a. A Fátima mirou-me de lado, com aqueles olhos saltitantese foi sentar-se de mansinho no lugar, perante o meu riso sufocado atempo e o espanto geral das colegas. É que elas sabem tão bemcomo eu o que significa erguer-se do lugar e fazer teatro na ausênciamomentânea do mestre. A Fátima tem um senão: a caligrafia. Que letra, Deus meu!Mas, compreende-se... Quem se mexe e remexe na carteira como elanão pode escrever bem. Um dia envergonhei-a. O caderno era umrodilho. Ao outro dia, fez-me a cópia na letra mais limpa da escola.Louvei-a. A Fátima, quando a louvo, fica parecidinha com umperuzinho novo, inchado e rosadinho. Olha-me por cima do cadernoe beija-me com os olhos. No fim da aula, vem ter comigo: - A Senhora de qual gosta mais, da cópia de ontem ou da dehoje? - Da de hoje, sem dúvida. Se fizeres sempre assim, nãohaverá problemas entre nós. Anda cá, dá-me um beijo e vai brincar. No recreio, a Fátima, logo a seguir, brincava só ecantarolava atirando uma tangerina ao ar... (e canta bem!) - Fui ao jardim das flores, giró flé, flé, flá... E que foste lá fazer, giró, flé, flé, flá... Fui buscar esta laranjinha, giró flé, flé, flá... Pra quem é a laranjinha, giró flé, flé, flá... É prá minha professora, giró flé, flé, flá... Ela vai agradecer... ... ... ... ... As outras, de longe, sorriram à minha aproximação. AFátima não me viu e voltou de novo à cantilena. Retirei-me para asala. E não sei porquê, tinha os olhos húmidos... É que a Fátima é isto. Ternura e irreverência. Depois, emcima da secretária, estava a tangerina que havia dançado nas suasmãos pequeninas e sujas de tinta. Quando as minhas alunas «palavreiam» na sala, muitasvezes, pergunto pausadamente: «- Ó meninas, a como é asardinha?» Elas já entendem. Há dias aconteceu isso. Uma levantou-se e disse:
  4. 4. - Minha Senhora, a Fátima escreveu um pecado na cópia!... A Fátima teve de trazer o caderno à revista. Ao cimo, àmargem, ela havia escrito com letras garrafais: «A três à coroa».Olho-a no rosto. Vou castigá-la? Não. Toda a sala está suspensa,silenciosa, a mendigar com os olhos o perdão para a mais azougadadas minhas alunas. E eu? Perdoo, os olhos húmidos e a gargantaseca. Estas pequenas vencem-me. Sei que vou levá-las comigo, vidafora, numa recordação perene, cheia de saudade e fome de umregresso. E vai ser belo recordar estas coisas... Hei de vê-lasmulheres, de fartas ancas, saias compridas, lenços atados no alto dacabeça, rodeadas de filhos e canseiras um tanto rudes, duras comoseixos, corajosas como soldados, vergadas ao peso dos cestos acaminho das feiras, lutando na terra por uma vida melhor. Mas,para mim, serão sempre estas meninas pequenas de olhos abertos epasmados, a comer-me as palavras, de mãos sujas de tinta, de batasbrancas (às vezes, bem sujinhas já à quarta-feira...) e pés enormes(por causa das chancas). Estas meninas que me recebem aos montesjunto à porta da escola, regateando o primeiro cumprimento, umtanto doces e tímidas, a sorrir, a mirar-me por debaixo dos cílios, aver se levo vestida a mesma saia do dia anterior... Estas meninasque me vêm colocar em cima da secretária um pedaço de pão demilho de côdea grossa, untado de sardinha frita, um rebuçado sempapel, um santinho duma Missa Nova, uma recordação de S.Torcato, uma maçã, uma noz, uma laranja, com gestos simples, semuma palavra, apenas com um sorriso de amor. Estas meninas queme escrevem cartas e vêm pô-las, durante o recreio, em cima dasecretária. «Minha saudosa professora: Louvado seija nosso senhor Jesus Cristo. Estimo que estacarta a vá incontrar de saúde. Eu gosto muito da nossa senhora. Elagosta muito de nós. Ela tem coisas tão lindas que assim só ela enosso senhor Jesus cristo. Ela insina bem e vou-le ouferecê-le umaprenda». As cartas, às vezes, não trazem nome. Mas eu reconheço asautoras pela caligrafia e pelo «santinho» que vem a acompanhar. Éque são quase os «santinhos» que marcam a lição do dia. E vão aoquadro corrigir os erros que a carta traz... Estas meninas que me dão tostões... -A Senhora faz favor vende-me um caderno. - Tu és a... O dinheiro?
  5. 5. - O troco fica para a Senhora.... - Para mim, não. Fica para a Caixa. - Eu antes queria que ficasse prà Senhora... Estas meninas, algumas delas tão andrajosas e pobres, mastão ricas de ternura e pureza... Estas meninas que aprendem bem,apenas na medida em que eu ensinar; que me impacientam; que mefazem zangar; que me ocupam a alma o ano todo, são para mim, sãominhas. Ninguém me pode roubar esse direito. Elas levammarcadas na alma os traços que vou desenhando na vida de todos osdias. Estas meninas calmas, que, no fim de uma visita de inspeçãoescolar, me dizem com ar galhofeiro, quase em coro: «-E nósjulgávamos que era o pai da Senhora!...» E rimos todas. Elas e eu.Eu e elas. Estas meninas que choram, que riem, que vivem, oraserenas, ora alegres, ora pacientes, ora rebeldes... Abençoado o dia de hoje! Não sei se amanhã...» Quando acabei, o café esfriava em cima da mesa. O criadode pé, olhava-me um tanto confuso, pelas duas lágrimas que mehaviam caído dos olhos e formavam duas rosetas escuras no decotedo meu vestido vermelho. Quase envergonhada bebi o café já frio,paguei e saí. Na esquina da rua próxima passou por mim um ranchode crianças de bata azul. Rapazes. Barulhentos, questionadores,alegres, de olhos brilhantes e faces trigueiras. Pararam na montrada livraria e começaram a ler, em surdina, os títulos das obrasexpostas. Parei também e, não sei como, vieram-me à lembrançauns versos lindos não sei onde e escritos por não sei quem: «Também de asas precisa a criancinha E quem lhas souber dar bendito seja!» Pensei na Imelda... e nas pequenas dela. Mãe e filhas. Sorri eaconcheguei no bolso aquelas folhas de papel, retalhos vivos do«Diário duma professora». Maria Helena Amaro In, «Maria Mãe», 1973. Data da conclusão da edição no blogue – 03 de março de 2012 http://mariahelenaamaro.blogspot.com/

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