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Quase um retrato

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Um poema de Maria Helena Amaro

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Quase um retrato

  1. 1. Quase um retrato Conheciam a TiAna?Era uma mulherzita baixa, vestida de negro, que passava à minhaporta todos os dias ao fim da tarde. Saia rodada batendo noscalcanhares, lenço atado na cabeça, dando um grande nó nopescoço, taleigo ao alto onde se apoiava um embrulho talvez odinheirito da venda dos ovos ou o resto da merenda do dia... Erapequenina a TiAna. Parecia uma bonequita de trapos que sabiaandar tão bem como uma boneca de carne. Raras vezes traziacalçado. Os seus pés pequeninos, morenos, habituados a palmilharmilhas e milhas, não se sentiam bem metidos nuns socos ou emsapatos.- «Descalça! Descalça!» - dizia ela sorrindo - «Anda-se maisdepressa. Não estou para dar cabo dos que o meu sobrinho Toinome mercou há um ror de tempo na feira pelo S. Miguel!...»E lá se ia a caminho do povoado.Os cabelos brancos saíam-lhe do lenço e vinham brincar-lhe em,caracóis pequeninos no rosto branco, rugoso, onde se viam unsolhitos pequenos, dum tom esverdeado, um pouco gaiatos,marotos... Tinha sempre um sorriso amigo para a garotada da ruaque lhe gritava em surdina: - TiAna, olhe o que lhe caiu!...»Ela sorria e da sua boca já sem dentes, saíam estas palavras:- «Marotos! Vocês lá irão para onde o paguem... Marotitos!... OraVinde!... Ora Vinde que eu vos apanho...»As crianças corriam atrás dela, numa gritaria que não aincomodavam, mas que a fazia rir de prazer.TiAna era muito conhecida na vila. Aquela velhinha simpática eraquerida de todos. Talvez pela sua alegria ou então pela popularidadeque os garotos lhe davam. Lá na aldeia diziam que a TiAna era noseu tempo a rapariga mais gaiata da freguesia. Nos bailes ouvia-se:- «Ó Ana, bote lá uma cantiga!...»E a TiAna, cantava numa voz cristalina e alegre:«Dentro da minha algibeiraEu tenho um cravo escondidoPara ofertari ao peneiraQue queira seri meu marido!»
  2. 2. E logo uma voz forte, audível, respondia:«Se me quiseres pra maridoAqui me tens apruntadoDá-me esse cravo escondidoSe me queres ver enfeitado!»Todos sabiam que essa voz era a do João Malhado, o conversado daTiAna. Formavam o par mais azado da aldeia e era um gosto vê-losao domingo a caminho da Igreja.A TiAna moçoila fresca, linda, pequenina...O João, rapagão moreno, desempenado...E no «vira»?! Ninguém lhe ganhava! Aquilo é que era virar!...A TiAna também era uma mulher de trabalho.Nos campos, de saia arregaçada, deixando ver o saiote de lã ou deflanela vermelha, a fouce em punho, ceifando a erva fresca eviçosa... E na malha do centeio?!E na vindima!? Onde faltasse a Ana Domingueira, faltava a alegria ea vontade de trabalhar. Todos sabiam isso e todos a chamavamdisputando entre si a ajuda daquela rapariga franzina.Mas... veio a guerra. João teve de partir. Despediu-se galhofando:- «Não chores rapariga?! Quando voltar aquilo é que vai ser...Havemos de dançar e pagodar como nunca...»Passaram meses e um dia veio a notícia que... João morrera! Anaadoeceu mas a mocidade venceu-lhe a maleita.E os anos rolaram uns após outros... e todas as Primaveras aencontraram solteira.Fidelidade ao primeiro amor?Nunca mais cantou, nunca mais dançou, até que os temposenbranqueceram a sua cabeça e levaram a frescura das suas faces.O tempo transformou a Ana Domingueira, a saloia alegre, navelhinha vestida de negro, que passava à minha porta ao fim datarde. Mesmo nessa altura, quando as moças da aldeia bailavam àroda das fogueiras na noite de S. João e gritavam: - «TiAna bote láuma cantiga! Salte connosco!» - ela sorria e a sua voz trémula, ondese adivinhava um caudal de lágrimas, cantava:«Mocidade enganadoraQue é feito da tua cor?Vai-se tudo... Vai-se tudo...Nem mesmo fica o Amor!...»
  3. 3. E não cantava mais...Sentada na borda do caminho, vendo as moças voltejaremalegremente, recordava com saudade (quem sabe?), a sua mocidadedistante...... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...Soube há pouco que a TiAna morreu.Nunca mais a verei passar aqui à porta, com a criançada a gritar emsurdina:- «TiAna, olhe o que lhe caiu! Olhe o que lhe caiu...»Maria Helena AmaroIn, «Maria Mãe», 1973.Data da conclusão da edição no blogue - 22 de janeiro de 2012http://mariahelenaamaro.blogspot.com/

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