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O velho choupo

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Um conto de Maria Helena Amaro.

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O velho choupo

  1. 1. O Velho choupo Alguém me dissera que ele nascera, ali junto ao leiral, dumasemente vinda não se sabia donde; e as suas pequenas raízesperfuraram, numa árdua e persistente, a terra húmida e calcária.Fora num dia de Primavera, suave e alegre, que as folhas, viçosas eescuras, brotaram do chão, em busca da luz solar, amena e quente.E, dia após dia, o seu tronco tornara-se grosso e lenhoso e elecrescera sempre, em busca das alturas, fendendo o espaço com osseus braços ramalhudos e verdes. Quando reparei nele, ainda eu erauma criança , de saias curtas e tranças caídas, mas, lembro-me bemque, por mais que me esticasse, os meus dedos pequenos erechonchudos não atingiam as suas folhas duras. E isso aconteciasempre que me aproximava dele. Sentava-me, então, à sua sombra, escutando deliciada, asmaravilhosas histórias que o meu avô me contava, lançandopedrinhas no rio, fazendo coroas de violetas, malmequeres emimosas. Se, acaso, ia chorar junto dele os meus caprichos infantisinsatisfeitos, fazia roçar pelo seu rosto húmido, como uma carícia,uma pequenina folha desprendida do alto. Um dia o rio encheu-se e as águas quiseram arrastá-lo, naenxurrada vinda da Serra. Manteve-se firme, agarrado ao solo, indiferente à tempestade, sebem que naquele Inverno, ficasse quase despido. Recordo as noites outonais, em que, sentada à lareira ouvia ovento assobiar, por entre a sua ramagem. Ao outro dia, ia encontrar,caídas na relva húmida e fria, folhas amarelas e avermelhadas, queguardava, como relíquia, entre as páginas dos meus livros escolares. No tempo quente, ao entardecer, as aves realizavam um concertonos ninhos construídos nos seus ramos. Na Primavera as borboletasestouvadas e ligeiras, voltejavam ao seu redor, elogiando a beleza dasua verdura. E vinham as grandes nevadas, os vendavais tenebrosos, as chuvastorrenciais, as trovoadas medonhas - e ele crescia sempre,tornando-se mais alto e mais forte que os outros.
  2. 2. Ano após ano, quando vinham as férias, ia visitá-lo eencontrava, amorosamente enroscadas no seu tronco, heras e rosastrepadeiras, que buscavam junto dele, a atmosfera das alturas. Via-omirar-se, orgulhoso, do seu porte, ora nostálgico, ora balouçante,nas águas límpidas e serenas do Ceira, onde seixos azuladosapareciam aqui e ali... E os anos rolavam velozes... Numa tarde de Outono, fui visitá-lo. Um vento gélido faziabalouçar, freneticamente, os seus quase despidos braços, e as folhasmortas caídas no solo estalavam sob os meus sapatos enlameados.Ergui os braços até às alturas, onde ele terminava, e vi alguns dosramos decepados, cobertos de musgo, sem folhas, prestes a caíremnas águas escuras do rio. Depois, baixei os olhos até à lama calcadaa meus pés e vi as suas raízes vermelhas e ressequidas aparecerem,aqui e ali, no solo cor de tijolo, escorregadio. Fiquei muda, fitando o rio, e encostei-me, carinhosamente, aoseu tronco nu e carcomido. Então, na voz sibilante do vento agreste,pareceu-me ouvir uma voz, suplicante, saída do velho choupo: «-Afasta-te. Mal posso com o teu peso. Quem precisa de apoio soueu. O Inverno está a chegar...» Desviei-me. «Pobrezinho!» - consegui murmurar. Então, atrás de mim, ouvi a voz do caseiro dizer: - «Amanhã, deitarei abaixo este mostrengo. Antigamente, aindadava folhas para os animais e sombra para as pessoas, mas agora, aíestá a comer o melhor que a terra tem. O milho já...» Não ouvi mais nem me esforcei por ouvir. Alguma coisa sentidentro de mim, que os meus olhos se encheram de lágrimas e,pesarosa, me encaminhei para casa. Ao outro dia, ouvi o barulho, inconfundível, do serrote fazendo oseu tronco musgoso e o brado dos homens saudando a sua descidasobre a terra. Ficou ali à chuva e ao vento, caído no solo, noites semconta, meio mergulhado no rio lamacento. Quando voltei ao lugar, onde ele crescera e onde eu passara osmelhores dias da minha vida, duas lágrimas rebeldes e quentes,deslizaram no meu rosto de mulher. Olhei o rio e não vi a suasombra, entre tantas, dos que se miravam nostálgicos e serenos.Confidenciei a mágoa que me possuía a meu avô. Vi-o sorrir,tristemente e responder com doçura: - Tudo tem um fim, minha filha. Tal como o choupo do teudesgosto, tudo nasce, tudo cresce, tudo vive, tudo morre. Ele
  3. 3. rompeu da terra sempre em direção às alturas, tal como tu devescrescer e viver, com os olhos postos no Céu. Tudo vem de Deus e vaipara Deus... Eis o destino de toda a vida terrena».... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... Lembrei-me do velho choupo, da minha infância, porque, hápouco tempo, quando procurava nos meus velhos manuscritosalguma coisa que eu pudesse ler, caiu sobre o meu regaço umpunhado de folhas amarelas e bolorentas, folhas daquele velhochoupo, que nascera ali, junto ao Ceira, duma semente vinda não sesabia de onde...Maria Helena AmaroIn, «Maria Mãe», 1973.Data da conclusão da edição no blogue - 02 de janeiro de 2012.http://mariahelenaamaro.blogspot.com/

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