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O anoitecer na beira

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Um conto de Maria Helena Amaro.

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O anoitecer na beira

  1. 1. O anoitecer na Beira - «Eh! Maria!... Eh! Maria!...» Ruídos de socos que se arrastam, portas que batem e, finalmente,uma voz de mulher, esganiçada, responde: - «Já lá vou! Já lá vou...». Ao mesmo tempo, surge na varanda demadeira, a ameaçar ruína, enfeitada de craveiros em flor, umamulher nova, quase bonita, de feições frescas e sorriso bondoso.Mulher do campo, a quem o dia a dia de afazeres não tira o viço,mas que parece, até, pôr-lhe no rosto aquele ar decidido e prestável.Limpando as mãos delgadas e secas ao avental de chita, fala denovo: - «É você, prima? Empurre o portal... Isso, força! Ora, o Senhorlhe dê muito boas nôtes»! Alguém responde, já dentro do pátio: - «Ora o Senhor lhe dê as mesmas...» E o diálogo começa: - «Então que a traz por cá, prima? Está tudo bom, lá por casa?» - «Está tudo bom, graças a Deus; muito obrigada! E os seus?Assim é que se quer... Pois eu venho, mais uma vez, incomodá-la...Sabe, prima, é que a minha Joana estragou-me o fermento. Olhaque vida a minha, priminha! Quero cozer amanhã e não tenho«mezinha» que lhe ponha... E vinha ver se me emprestava umpouco do seu, prima! Só até amanhã, pode?» - «Então, não posso? Leve-o todo, prima! Não me faz falta... O que há em minha casa, há em toda a Foz deArouce... Porque não? Então, fica aí à porta? Entre criaturinha doSenhor!...» Novos passos que se arrastam, portas que batem, rumores que seperdem no interior da habitação... É assim a Beira. Cada povoado é uma família, um amontoado deprimos e primas, que não mais acaba, que não pode decompor-seem número exato. Não importa. Desde o fidalgo da quinta, cujosolar é brasonado, ao pobre moleiro enfarinhado, anda de boca emboca a mesma saudação: «Está bom, primo? Bem. muitoobrigado!», que se estende de família em família, a léguas dedistância, chegando a transpor os umbrais da Serra. As mesmascenas repetem-se, ao pôr do sol, nos diversos lares, ao findar decada dia, depois da labuta quotidiana, à hora em que tudo recolhe adescansar.
  2. 2. Em todos os atalhos da aldeia, há vultos que deslizam comosombras ignoradas, nas quais se adivinham vidas que passam, em direções definidas,seres que desaparecem, aqui e além, nos umbrais das portas, aolongo dos caminhos desertos e silenciosos. A luz é pouca, o solo vermelho, calcário torna-se negro, asoliveiras carregadas de frutos vergam-se, silenciosamente, e a Luzaparece pálida e indecisa, num céu quase oriental, tingido de anil. Além, as serras, são monstros enormes desafiando a imensidãodos céus, um gesto sempre igual e tenso. Vêm, do outro lado do rio,ruídos musicais, notas rústicas, formadas por centenas de guizos ecampainhas: são as ovelhas da quinta, que voltam do pasto. (Dlim...Dlim... Dlim...) Chiam noras, docemente, entre as fazendas, e a água corre emborbotões, por entre a terra dura e seca. -«Eh! Homem!.... Não me percas essa água...» Sim, a água é oiro, é sangue, é maravilha, nessa terra, cor de fogo,que Deus fez ávida e crua. Aparecem no céu as primeiras estrelas, a princípio trémulas,indecisas; depois, cheias, brilhantes. À volta da lareira, sentada nos degraus carcomidos e escuros, afamília reúne-se. O pai medita, a mãe prepara a ceia, os filhosconversam, brincam, disputando ao mesmo tempo o lançamentodum casulo na fogueira crepitante, que põe sombras fantásticas nasparedes enegrecidas da ampla chaminé. Alguém bate ao portal. É um pobre serrano pedindo esmola. Dizvir lá dos lados da Serra, noite fora, em busca de aconchego. Hásempre farinha do taleigo, carne salgadeira, chouriço no fumeiro,pão na arca e vinho na picheira. Quando não, a água saída do cântaro é doce e fresca; e, nas noitesde Verão, é uma delícia bebê-la por um púcaro de esmaltecomprado na Lousã. Dá-se a esmola, diz-se sempre a mesma frase: «Vá com Deus,Santinho!», e ouve-se a resposta habitual: - «Benza-a Deus! OSenhor lhe acrescente o que fica...» Mesmo que a prece do mendigonão seja ouvida no Céu e a quantidade de restos aumente à volta dalareira, o pouco que houver far-se-á muito, dividido aos bocadinhos,o pote do azeite não ficará vazio e a pipa de água-pé durará o anointeiro. E, se o Inverno trouxer tormenta e as enxurradas da serralevarem no seu caminho caudoloso o fruto das oliveiras, o trigo das
  3. 3. searas ao pé do rio e a riqueza das vinhas, na boca do beirão haverásempre a mesma deixa: «O pouco com Deus é muito...» E na noite cálida, serena, silenciosa, cheia de mistério e sonho,que os velhos dizem ser povoada de seres estranhos e sobrenaturais,tudo é recolhimento, tudo é paz, tudo é prece: e a terra beirã cor defogo, que Deus fez seca e dura, rodeada de serras, como monstrosenormes, desafiando a imensidão dos Céus, num gesto sempre iguale tenso, dorme tranquila e crente, cansada e feliz. O seu seio, ditoestéril, seco, ardente, feito de seixos bronzeados, será amanhã,novamente, revolvido, explorado, humedecido pelo beirão honradoe trabalhador, franco e bondoso, que nele busca o pão de cada dia,desde o nascer do sol até ao anoitecer, nua luta árdua e persistente,debaixo duma estrela de fogo ou de uma Lua romântica e prateada,sorrindo às cumeadas pálidas, espargindo ao redor a luz doInfinito!...Maria Helena AmaroIn, «Maria Mãe», 1973.Data da conclusão da edição no blogue - 30 de dezembro de 2011http://mariahelenaamaro.blogspot.com/

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