Successfully reported this slideshow.
We use your LinkedIn profile and activity data to personalize ads and to show you more relevant ads. You can change your ad preferences anytime.
O Milagre      João nascera, vermelho e pequenino, chorão e irrequieto.Quando a irmãzita o viu espernear nos braços da Ros...
- É que Vossemecê parece que não tem a voz dos outros dias...   - ...   - Mãe, Vossemecê está a chorar...   Ela não respon...
pedras do rio limparam ano, após ano, numa esfrega extenuante.Vida de preta! - diria o marido, se fosse vivo. Mas ele morr...
- Senhor! Não, o meu menino não irá à escola... para quê! Paraquê, se não pode ver a luz do Sol nem conhecer os braços que...
- Mas a Senhora ensinou-me... Começa assim: «Jesus, que estásno Céu, faz um milagre para eu poder conhecer a minhaMãezinha...
- Mãe, vossemecê quer que feche a porta?   - ...   A mulher, encolhida na manta, não responde. Dorme. Joãoarrasta-se em si...
Quando ela se foi e me disse adeus, talvez para sempre, fiquei-mea vê-la desaparecer, toda inclinada para o lado direito, ...
Upcoming SlideShare
Loading in …5
×

Milagre

296 views

Published on

Um conto de Maria Helena Amaro. publicado no blog
http://mariahelenaamaro.blogspot.pt/

  • Be the first to comment

  • Be the first to like this

Milagre

  1. 1. O Milagre João nascera, vermelho e pequenino, chorão e irrequieto.Quando a irmãzita o viu espernear nos braços da Rosa Pomba, fugiua gritar pelo corredor: «Que feio, Pai ? Que feio !». Realmente acriança não devia nada à formosura. No rosto diminuto e achatado,os olhos eram enormes lanternas imóveis e sem brilho. Quandochamaram o médico e ele a examinou, uma ruga profunda vincou-lhe a testa ampla. - Rosa, chegue-me uma vela... - Credo, Sr. Dr.! Não me diga que quer chamuscar o pobreanjinho... - Já lhe disse, chegue-me uma vela! - Acesa? - Sim, mulher, acesa. Chegue a vela; quero ver uma coisa... - «Sã» Telmo, Sr. Dr. ! Olhe que queima os olhos a este anjinho!!!... - Não, não queimo... É cego, Rosa! - Cego!!! ... A boa mulher abriu a boca desdentada e recebeu dos braços domédico a criança. Depois, foi deitá-la silenciosamente no berço depinho enfeitado de chita cor de rosa. Do lado veio a voz da mãe: - Que disse o Sr. Dr., Rosa? - A criança é cega, mulher! Cega !!! ... Do corredor o homem perguntou: - Então, que tal vai o «ganapo» ? Fez-se um silêncio opressivo. De súbito, como um ruído decristais estilhaçados, o choro convulso da mãe rompeu na atmosferadoentia do quarto........................................................................................................ - Bom dia, Mãe... A mulher volta-se, debruça-se toda para o lume e responde numavoz fechada: - Bom Dia! ... - A criança parece hesitar... Depois: - Vossemecê está zangada, Mãe? - Não... (e quase mete o rosto na panela que lava...) Porquê?!
  2. 2. - É que Vossemecê parece que não tem a voz dos outros dias... - ... - Mãe, Vossemecê está a chorar... Ela não responde. Ergue-se. Com a ponta do avental de riscado,limpa o rosto sem expressão. A voz é agora doce quase pacificante. - Não andes mais filho. Olha aí esse cavaco... Aí, à tua frente. Vá,dá um passo mais... Assim... Isso. Senta-te nesse canto. - Não se incomode, Mãe. Eu sei por onde vou... Ah! Cá está obanquinho... Vê como eu não caí? - ... Vossemecê... - Vá, cala-te agora. Dói-me a cabeça... - Tá bem..., A mulher volta à panela. As mãos parecem argila. Torcidas,enrugadas, moles como sabão esquecido na água. Esfregam-se umana outra contra o ferro da panela e traçam na água movimentosirrequietos. As faces da mulher definem-se na sombra da lareira,como se fossem esculpidas em bronze. Na fogueira, as achascrepitam ruidosamente e parecem cantar o seu suplício vermelho. - Mãe, a panela custa a lavar... - Pois custa... Novo silêncio. A porta bate e uma rajada de vento penetra,fazendo rodopiar o fumo numa dança cinzenta. A criança, de olhosparados, escuta... Depois: - Mãe, amanhã vou para a Escola... A mulher despeja a água gordurenta pelo postigo desmantelado efica de pé espreitando a eira. - Vossemecê vai-me levar? As frases ficam sem resposta um instante no ar impregnado decheiro resinoso... - E se a Senhora não te quer lá? Tu queres ir, João? A criança sorri. As mãos sobem-lhe ao rosto num gesto tímido. Amãe olha-o num misto de piedade e desespero. Depois senta-se,silenciosamente, esquecida da pergunta lançada. Tudo nela é desilusão, quase amargura. As rugas do rosto falamda miséria, cansaço, desalento, fome. As mãos falam de trabalhoescravo e do calor da enxada fendendo a terra rubra e juncada deseixos. A blusa e a saia são farrapos unidos cuidadosamente, que as
  3. 3. pedras do rio limparam ano, após ano, numa esfrega extenuante.Vida de preta! - diria o marido, se fosse vivo. Mas ele morreu nasoltura da represa. Ana cresceu e foi para a cidade servir. Às vezes,vêm cartas perfumadas... e ela tem medo. A filha não é feia. E temsó dezasseis anos... - Gostava tanto, Mãe! - Gostava tanto, Mãe! A criança responde à pergunta anterior, mas ela não ouve.Continua mergulhada nas suas dolorosas cogitações. Só. Comaquele cangalho... É dura a vida, para ela, habituada a cortar fundoe longe, quando da união com o marido. Agora, está pobre e comum filho cego!... Cego!... Espevita o lume que dança em labaredas gritantes, eenxuga uma lágrima furtiva... - Vossemecê leva-me, Mãe? A criança insiste, mas ela não ouve. A Ana pode perder-se... Afilha faz-lhe lembrar a videira plantada à beira do silvado... Frágil epequena. E tem medo... - Vossemecê não está aí, Mãe? Mãe, vossemecê está a ouvir? Desperta. Sacode a saia... - Estou... estão... Amanhã... Amanhã, vou-te levar... - Ó Mãe, como estou contente! ... A criança inclina-se toda e adormece sobre a lareira iluminada. As chamas erguem-se mais e mais, até encher de luz amarelada acozinha escura e fria. A mãe fica de joelhos perdidos no fogo, monologando, sofrendo.No dia seguinte, de novo a enxada, os seixos cinzentos, o andarhesitante do filho procurando de mãos estendidas um ponto de guiae apoio. E sempre aquele bom dia, mesmo que seja noite! E sempreaquele sorriso, mesmo que a pense chorosa!... Uma dor surda entra-lhe na alma e num gesto de revolta espalha a fogueira que se desfazem mil rastos de brasas e fumo. Fica de pé como uma estátua, nasemi-penumbra, sob a chaminé enegrecida... O filho mexe-se: - Mãe !!! A mulher cai de joelhos junto do filho adormecido, e pormomentos, no silêncio profundo da cozinha a voz dela ergue-senum brado surdo de desespero e dor:
  4. 4. - Senhor! Não, o meu menino não irá à escola... para quê! Paraquê, se não pode ver a luz do Sol nem conhecer os braços que oacarinham?... Meu filho! Meu filho! E fica ali prostrada, até que o frio e o sono a tomam. Noite alta,ergue-se. Deita o filho e ela própria de olhos no espaço, hirta comoum cadáver, suspensa dum letargo sem limites, estende-se no catreouvindo dentro de si uma sinfonia estranha irreal, desconhecida einesperada. O filho, apesar de cego, é o seu amor, a sua maispróxima riqueza. ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... - Mãe, de que cor é o Sol? - O Sol... - Eu sei, Mãe... A Senhora contou-me... Deve ser assim... assim...Dizem que é cor de fogo! Ela contou-me, Mãe. E disse que há floreslindas que cheiram bem, parecidas com seda... E pôs-mas aqui nas mãos... Que macias, Mãe! E ensinou-me queo Céu é muito azul!... E pareceu-me que o via... É tão bom ir à Escola, Mãe! Ela põe-se a falar de mansinho e euouço... E fala-me e pega-me nas mãos, quando os outros andam àroda... E eu canto com eles: - «Vai numa roda, numa roda é qué...»Que lindo, Mãe!... Quem me dera ver o Céu! E ser como os outros.Mas não. Fico-me caladinho no meu lugar e ouço, ouço, ouço...Tantas coisas que não sei... Vem um e diz: - «Quem sou eu?» E eu logo: «- És o Zé». Eles então chamam a senhora e gritam: «Ele adivinha!» Ela veme ri-se alto... E diz: «Foi o Jesus que lhe disse...» E eu fico contente,tão contente, Mãe! E quando entro na sala adivinho sempre se ela láestá... Deve ser linda, Mãe?! - ... E a criança, de olhos transparentes, fica a olhar o vácuo...Depois... - Mãe, ontem rezei!... - Também eu, filho! - Vossemecê sabe rezar? - Sei... - Mas nunca me ensinou!... - Pois não...
  5. 5. - Mas a Senhora ensinou-me... Começa assim: «Jesus, que estásno Céu, faz um milagre para eu poder conhecer a minhaMãezinha...» - ... - O Pai sabia rezar, Mãe? - Sabia... - E rezava, Mãe? - Antes de nasceres... - E depois? - Depois, não... - Porquê? - Porque... (e fica suspensa...) - Vossemecê não diz, mas eu sei... Ele depois não rezava, porqueeu nasci cego... - João!!!... - Vossemecê está a chorar, Mãe? Olhe que eu não choro... ASenhora disse que Jesus gostava muito de mim, porque eu eraamigo de toda a gente... E se rezasse, havia de fazer-me ummilagre... Nem parece que sou cego, Mãe! Ontem encontrei nocaminho o Zé Toinho a chorar, porque lhe tinha caído o pião aoribeiro, e depois eu desci a buscá-lo... A mãe grita: - E não caíste? - Não vossemecê não se aflija, que eu nunca caio...E apanhei o pião... - Tem cautela, meu filho! - Ó Mãe, eu rezo sempre, por isso nunca caio... - ... - Rezo sempre... sempre... Nunca caio, Mãe! - Fazes bem, filho. E pela Ana também... E pelo milagre... - Há de fazer, Mãe! Há de fazer...... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... - Tens frio, João? - Não, Mãe. A noite está fria... - Eu tenho... A criança volta-se para a lareira quase apagada. Sente que o calordiminui e sabe que não há em casa mais um graveto para espevitá-la... A mãe, doente, embrulhada numa velha manta, dormita, mas atosse sufoca-a, por vezes. A mãe tem frio... E não há lenha paraespevitar o lume. E se ele...
  6. 6. - Mãe, vossemecê quer que feche a porta? - ... A mulher, encolhida na manta, não responde. Dorme. Joãoarrasta-se em silêncio e sai para a noite escura e gélida. As nuvenssão flocos de algodão, mas ele não pode vê-las...A mãe tem frio... A mãe está doente... A mãe não pode morrer defrio... E pela primeira vez sente-se desesperado ao peso da suainvalidez... Os pés enterram-se-lhe no chão espumoso de lama...Onde ir? Onde procurar ajuda, se a noite é de neve? As mãosdançam-lhe no espaço... E da alma sobe-lhe a prece feita choro:«Jesus, que estás no Céu...» E vai caminhando, às cegas... Tropeça e cai a soluçar, enrolando-se na lama do barranco, como um farrapo velho e apodrecido.Encontram-no na madrugada inerte, de mãos estendidas, voltadaspara o chão, num gesto de defender a cabecita ferida nos seixoslimosos da levada. ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... - Como vai o pequeno? - Ai, mulher que não há mezinha que o cure! Está para ali há doisdias como morto sem falar, o meu menino, o meu menino... Osenhor tenha piedade de mim que sou uma infeliz... A vizinha vai adiante, que o jantar se tarda... E ela fica-se alimeditando as estranhas palavras do médico que socorreu acriança... - M...ã...ãe...e !... - Meu filho! E os braços da mulher, sôfregos e tensos, apertam o pequenonum abraço de desesperada surpresa. Depois: - Vossemecê sabe uma coisa? E as mãos da criança são gaivotas, esvoaçando sobre a cabeçagrisalha da mãe... - Não, meu Amor! - Eu vejo-a, Mãe!!!... A mulher ergue-se transfigurada. Depois, cai a soluçar, de joelhosgritando como louca: - Milagre! Milagre!!! ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
  7. 7. Quando ela se foi e me disse adeus, talvez para sempre, fiquei-mea vê-la desaparecer, toda inclinada para o lado direito, pelo peso damala, na curva do caminho poeirento. E meditei por largosmomentos a estranha história desse rapazito que ela me acabava decontar, história dum milagre que ela ajudara a realizar... E, hoje, quando entro na sala e olho a secretária que ela outroraocupou, parece-me escutar, no silêncio povoado de coisas invisíveis,as últimas palavras que me dirigiu: - «Ensine-os a rezar...» Agora... Recordo-a. Onde foi? Não sei. Mas a história desteestranho milagre ficou-me na alma… Maria Helena Amaro In, «Maria Mãe», 1973. Data da conclusão da edição no blogue – 22 de maio de 2012.http://mariahelenaamaro.blogspot.com/

×