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Julieta

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Conto de Maria Helena Amaro

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Julieta

  1. 1. Julieta Quando ela passava à minha porta, num passo trémulo,arrastado, eu ficava a olhá-la , até o seu vulto esguio desaparecer, láem baixo, entre o arvoredo. Vinham-me à ideia aqueles versos tristes e maravilhosos deAntónio Nobre, intitulados «Pobre Tísica», e lamentava-a baixinho.Era sempre à hora do pôr-do-sol que Julieta saía de casa. Os últimosraios de luz bailam nas vidraças da sua humilde habitação, tingindo-as de mil cores diferentes. Caminhava, sempre em direção à praia,parecendo uma sombra vagueando à doce luz crepuscular. Vejo-a ainda alta, esguia, frágil como a gavinha viçosa de certavideira, o rosto macerado por longas insónias dum infindo penar, osolhos negros, febris, brilhantes como estrelas cadentes, as trançasescuras caídas ao longo das costas. Vestida de luto, uma mantinha branca cobrindo-lhe os ombros,quando a aragem marinha era mais fria, ela passava olhando o Sol,que se escondia, rubro e dourado, nas águas prateadas do Oceano.Sentada na areia, ficava a olhar o mar, que se desfazia a seus pés emrendilhados de espuma. Os seus dedos secos rabiscavam, na areiasolta, risos indefiníveis, que as ondas viriam apagar. Sorria ao mar, cantando com ele canções dum sonho que os doissonhavam, enquanto que ele lhe ia roubando a vida, pouco a pouco,tornando os seus dias em folhas de Outono, que o tempo arrastava.E eu via-a regressar, somente quando a Lua brilhava no céu pálida eindecisa. Parecia-me, então, mais débil, mais doente, que nunca...Os olhos brilhavam, mais que faróis na sombra; os lábios sem corestremeciam em suspiros lentos e curtos; os cabelos negros edespenteados pareciam um manto de luto. E a tosse seca, que lhepunha no rosto esgares de dor, faziam lembrar o eco do marquebrando-se contra os rochedos. Olhava para a minha janela,esperando que eu lhe sorrise. Nunca me sorria... Muitas vezes, tentei descobrir, naquele olhar parado e distante,qualquer brilho diferente, mesmo que fosse estranho. Mas o tempopassou, e eu ainda hoje pergunto a mim própria se Julieta não seriatambém uma doente mental. Um dia perguntei-lhe pela saúde, via-a a empalidecer, olhar-mecom aquele olhar indecifrável e murmurar resignada: - «Estou pior,menina, Deus não quer...»
  2. 2. ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... O sino toca a finados. O eco das notas tristes, plangentes quebra-se no espaço e vai morrer no rumor das ondas do mar,maravilhosamente azul. - Dlim, dlão!... Julieta morreu! Os meus olhos estão toldados delágrimas, e eu murmuro uma oração pela alma branca de Julieta.Nunca mais a verei passar à minha porta, pálida, magra, como umasombra vagueando à doce luz do entardecer. Julieta morreu!...Aquela tosse... Aqueles olhos febris... Aquele rosto pálido... Aquelear distante... E parece-me vê-la em verdadeira incarnação de anjo, com as suasasas de pureza voando até ao Infinito, até Deus, o único entesabedor daquele olhar parado e distante, que parecia atravessar asalmas...Maria Helena AmaroIn, «Maria Mãe», 1973.Data da conclusão da edição no blogue - 13 de janeiro de 2012.http://mariahelenaamaro.blogspot.com/

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