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Imagens

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Mais um conto de Maria Helena Amaro publicado no blogue Maria Mãe
http://mariahelenaamaro.blogspot.com/

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Imagens

  1. 1. Imagens Chamavam-lhe Muriel, a eslava... Não era linda, nem simpática, talvez... No rosto branco, espiritual quase transparente, os olhos eramduas janelas enormes, escancaradas, mostrando um céu semestrelas cinzento azulado... Eram um mistério para mim aqueles olhos grandes, profundos,silenciosos como sombras. Mas eu gostava de Muriel. Gostavadaquela serenidade doce, daquela placidez interior que emanavadela como uma mensagem de silêncio no meio barulhento lá daturma. Tinha um porte gentil e um andar cadenciado de cisne. Se erguiaa fronte muito ampla e um pouco proeminente, os cabelosacobreados balouçavam-lhe despretensiosamente pelos ombroscomo agitados por brisa suave. Eram uns cabelos lisos, sedosos, cordas searas maduras a perder de vista, soltos, ao abandono,espalhados no negro cetinoso da bata! Raramente sorria, mas quando o fazia, eu ficava a olhar-lhe a facedistendida, os lábios entreabertos, os dentes maravilhosamentebrancos, os olhos semicerrados numa carícia profunda e lenta... Asmãos brincavam-lhe no peito lançando no espaço limitado doregaço um medalhão de prata pendente de um fio metálico, brancoe luzidio. Conhecia-lhe aquele gesto sempre igual de erguer os braços sobrea cabeça, num anseio de voo, e deixá-los cair ao longo do corpo,num protesto mudo como se lhe houvessem cortado as asas. Asoutras não gostavam de Muriel. Achavam-na vazia, dura, distante,gelada... Não que ela fosse orgulhosa e má. O ponto da antipatianascera ao primeiro contacto, originado pelo porte dela, pela suamaneira de ser original e fechada, que tornava impossível umaaproximação mais íntima. Se umas a julgavam louca, outrasacreditavam que Muriel jamais seria uma rapariga vulgar. Mas eu... eu queria-lhe muito. Um dia cruzámo-nos nos claustros do pátio ajardinado... - Olá Muriel! - Parou, olhou-me, levou as mãos ao medalhão e, num gesto deespanto, escancarou mais os olhos... - Conheces-me?
  2. 2. - Sim, conheço-te... Simpatizo contigo, sabes? - Mas... Sorrindo por cima das nossas mãos estendidas, os nossos olhosencontraram-se divertidos, dispostos a serem amigos. Depois de uma tarde de conversa aprendi bastante acerca deMuriel. Tinha uma alma de artista a nossa colega. Aquelaserenidade, aquele sorriso lento e demorado, eram um pouco daalma dela, eram reflexos daquela personalidade que intimidava asoutras, principalmente naqueles momentos em que erguia os braçossobre os ombros como se pretendesse voar sobre nós... Um dia Muriel deixou de sorrir, as faces tornaram-se-lhediáfanas, os olhos maiores, semelhantes a firmamentos sem luz...Diziam no colégio que Muriel sofria de doença estranha.Leucemia, talvez. As Irmãs cochichavam ao longo dos corredores,quando passávamos em direção ao refeitório notando na fila oespaço vazio ao meu lado... Uma tarde fui visitá-la à enfermaria das mais novas. Reconhecinela a figura alada de outros tempos, por causa dos cabelos sedosose brilhantes dispersos no travesseiro amarrotado. Não sei seestremeci. Recordei as outras que não gostavam dela e perguntei amim mesma o que diriam se a vissem assim, muito branca, muitofraca, quase desfigurada pela enfermidade. Abriu os olhos lentamente e pousou-os sobre mim, um poucoespantada, um nada comovida, como naquela tarde em que ficamosamigas. - Vieste... Obrigada porque vieste!... - Muriel! minha amiga... - Amiga... És realmente minha amiga?... - Então... Então... Vi que um rubor intenso lhe subia ao rosto, tornando-adivinamente encantadora. Respondi procurando sorrir: - Não te acanhes, Muriel! - Por favor, toma estes papéis... Guarda-os na tua carteira dodormitório... Se eu morrer peço-te que as leias... a todas.. a todas...que não gostavam de mim... e que lhes digas, que eu, a Muriel, aquem elas chamavam a eslava, lhes quero muito... lhes perdootudo... O colégio... elas... tu... as Irmãs... tudo isto... (e sorria). Passeiaqui os dias mais felizes da minha vida de refugiada... Que a vida há de ser feita de neve.
  3. 3. Vereis -ó Mãe - como eu hei de subir. Falara sorrindo, de olhos cerrados, de mãos estendidas,segurando um rolo de papéis amarelos. Fiquei com ela até a noite cair. Depois despedi-me. Olhou-melongamente e murmurou acariciando a renda do lençol: - Deus te pague! ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... Será escusado dizer-vos que Muriel morreu. Aquela serenidadedoce, aquela placidez que emanava dela como se fosse umamensagem de silêncio, não podia pertencer ao nosso meiobarulhento e estranho. Foi uma morte branca a de Muriel. Contaram-me depois quetinha vindo não sei de onde e havia sido criada num orfanato decrianças sem famílias. Uns anos antes de a conhecer havia sidosucessivamente empregada de balcão, datilógrafa, criada de servir edepois mendiga, até que alguém a recolheu e a entregou ao meiobuliçoso em que vivíamos. Fui amiga de Muriel, compreendi-lhe os sorrisos parados e ossilêncios opressivos, mas o mistério daquele modo de ser espirituale estranho, descobri-o no maço de papéis amarelos. Chamavam-lhe Muriel, a eslava. Não era linda, nem simpática talvez... mas a sua alma devia serindiscutivelmente bela e grande para escrever:Eu amo a Vida, os pássaros e o SolE o riso das crianças quando correm...E o canto das minhas companheirasQuando rezam matinas,Ou saltam na caçada,Doiro nos olhos e auroras no rosto.Como se a Vida fosse toda AzulE nunca se perdessem na Estrada...Ó Irmãs dAlegria,Vinde colorir a minha caminhada!... Maria Helena Amaro In, «Maria Mãe», 1973. Data da conclusão da edição no blogue – 27 de novembro de 2012 http://mariahelenaamaro.blogspot.com/

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