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Férias à beira mar      Diante de meus olhos, estende-se um panorama maravilhoso,que eu mal posso admirar de uma só vez, t...
Vai-se fazendo tarde. Um miúdo passa por mim, quase asorrir.... Falo-lhe. Parece não compreender, mas sorri. Sorri-memuito...
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Férias à beira mar

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Um conto de Maria Helena Amaro

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Férias à beira mar

  1. 1. Férias à beira mar Diante de meus olhos, estende-se um panorama maravilhoso,que eu mal posso admirar de uma só vez, tal é a emoção que meprende. O mar, este imenso lago azul, esverdeado, onde o sol põemil cambiantes de ouro e prata, sob um céu turquesa, empedacinhos de renda, beijando o horizonte... A meus pés, estende-se a longa esteira cinzenta da praia, naqual se erguem, aqui e ali, sobre montículos negros, moinhos devento, pintados de branco, de velas esfarrapadas, paus erguidos aoalto, como implorando a Deus mil bênçãos para o pão que moem.Paus erguidos ao alto, imagens vivas de esqueletos cujas formasforam belas, acenando à imensidade do oceano, num último adeusàqueles que já pereceram!... Última recordação dos que partem para não voltar, pobresvelas esfarrapadas, cansadas de acenar à imagem do passado,enterrado no mausoléu da Saudade. A paisagem é triste e suave, como a expressão estampada nosrostos dos pescadores, que, sentados na areia, junto dos bancos,consertam redes. Além, nos rochedos, vejo crianças quase nuas, de rostos sujos,mas de olhos calmos e transparentes de pureza, brincarem na areiahúmida e fina. Até mim, vêm, à mistura com o ruído contínuo domar, e o cheiro delicioso da maresia, as vozes das crianças, asconversas dos pescadores, num conjunto quase musical, nadamonótono. Sentada na escadaria de pedra que desce até à praia, eu olhotudo, quase feliz, entre curiosa e interessada. É belo viver! … Demasiadamente belo, por vezes, para pensar nas lutasconstantes que estes pescadores, de faces trigueiras, com traçosenérgicos, têm de travar, dia a dia, com o mar.O mar, esse maravilhoso tesouro, que dá e rouba ao mesmotempo!... Dá, a gemer, desfazendo-se em farrapos contra os cascos dasembarcações, e rouba, soltando gritos selvagens, lançando as suasinfindas garras sobre tudo que encontra no caminho, erguendo-seem ondas altaneiras, cantando vitória aos quatro ventos!...
  2. 2. Vai-se fazendo tarde. Um miúdo passa por mim, quase asorrir.... Falo-lhe. Parece não compreender, mas sorri. Sorri-memuito, com uns dentes claros, sãos, junto do rosto moreno e gaiato.Afago-o, fascinada com tanta beleza. Vejo-o afastar-se de mim,correndo em direção a um grupo de mulheres, quase andrajosas,que transportam enormes redes, porventura, consertadas. Cantam uma ária lenta, suave, embora triste. Música, que omar lhes ensina, dia a dia... À noite, talvez, o miúdo confidencie àmãe: - «Hoje, vi uma senhora na praia, sozinha. Estava a escrever...Tinha os cabelos da cor dos rochedos mais escuros e os olhos negroscomo o mar, em noite de invernia... Parecia triste, mas sorriu-me efez-me festas como tu... Olha que era triste, mãe!...» Sim a vida tem que ser um sorriso constante, mesmo que asnossas ilusões sejam ondas, que se desfazem em espuma, junto àpraia. A vida tem que ser um sorriso, tão belo como o daquelacriança, tão confiante como o dos pescadores, que lutam, dia a dia,pelo bem, pela vitória! ... A vida tem que ser um sorriso, mesmo que os nossos braçossejam velas esfarrapadas, paus erguidos ao alto, buscando uma gotade ventura, no deserto imenso deste mundo.Sorrir... Sorrir a Deus, erguendo a alma às alturas da vida! ... Maria Helena Amaro In, «Maria Mãe», 1973. Data da conclusão da edição no blogue - 27 de dezembro de 2011

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