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Domingo à tarde                   (Do diário de uma professora)   Sol a nascer... E a rua cheia de vento faz lançar a poei...
«-Tem-me juige, mulhêre! Olha o dêmo, para que havia de dá-leà rapariga! Olha, eu num posso dar-te. Pêde-la ao teu pai...»...
A eles, aos garotos, de nariz ranhoso, boca melosa dum rebuçadobarato, queria vê-los sempre pequenos, a sair alegres da te...
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Domingo à tarde

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Mais um conto de Maria Helena Amaro publicado no blog

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Domingo à tarde

  1. 1. Domingo à tarde (Do diário de uma professora) Sol a nascer... E a rua cheia de vento faz lançar a poeira seca naberma dos passeios de cimento. Sai o garotio da televisão, numa revoada selvagem e barulhenta,e, por momentos, a porta da taberna é um vozear de coisas e ditosque ninguém entende. As mulheres arrastam os chinelos e gesticulam. Os homenschupam o cigarro da marca duvidosa; e as crianças, de olhostransparentes, narizes ranhosos e bocas untadas de mel dumrebuçado de tostão, desaparecem aos grupos nas cangostas laterais,sempre ligeiros, mas nunca silenciosos. É domingo à tarde. E é precisamente ao domingo que eu meperco em conjeturas, à janela, mirando a rua lés a lés, bisbilhotandocomigo só. Não sou uma má língua. Mas gosto de bisbilhotar a sóscom os meus botões... Às vezes, disponho da vida de cada um desses garotos, que saemda televisão atrás das mães, com os olhos cheios de imagens bonitase a boca gostosa dum rebuçado barato... Se tivesse um punhado de estrelas, poderia espelhá-las nos olhosdeles!... Dos pais... Dos pais, francamente, não gosto. Os pais, desculpem, mas estragam sempre tudo... «-Ó pai, vistesaquele home que inté deitava fogue por a boca?! Lindo num era?» «- Cala-te rapaz! Levas um bofetão que inté te biro!...» A criança emudece. Afasta-se. E se mora cá na rua, para os meuslados, caminha deixando o passeio todo ao homem, que Deus lhedeu como pai e que vai ali ao lado dela, encostadinha à parede aarrastar os sapatos comprados em segunda mão, de mãos nosbolsos, a fazer tilintar a navalha de bico e uma moeda de cincoescudos, com cara de pessoa crescida (crescida desde o berço) e arde quem quer chegar com o nariz ao telhado do meu 1.º andar... As mães... As mães são mais compreensivas. «-Ó mãe, tu bistesaquela menina com aquela boneca tão grandi a andar pela mão...Quem me dera uma».
  2. 2. «-Tem-me juige, mulhêre! Olha o dêmo, para que havia de dá-leà rapariga! Olha, eu num posso dar-te. Pêde-la ao teu pai...». E a miúda ri alto e salta. «- Ai, que bou ter uma bonequinha... Bou escrevêri ao pai pòBrazile...» E desaparece atrás da mãe. Possivelmente, a boneca não virámais. E o pai também não. Mas o sonho ficou vivo na miúda. E háde crescer com ela numa promessa branca... Casará. Bonecos decarne virão encher-lhe os braços feitos berço. A mãe há de continuar agarrada a semana toda à gamela dopeixe, a arrastar os chinelos, a sacudir as ancas fartas, a tirar dagarganta um pregão rouco, apregoando a sardinha do nosso mar. Afilha é engraçada. Loira e branca. E fica bem de tranças caídas e pésdescalços. Mas eu temo, um dia vê-la transformada. E toda seráoutra diferente, igual a tantas que me passam à porta em dias defesta. E talvez me faça murmurar:Menina da luaDe saia travadaTravada e curtinha...Menina paradaE toda a esquinaDe saltos tão altosCinta tão franzinaBoneca -meninaMenina da rua!... E hei de ter pena... E saudades de vê-la como agora, de trançascaídas e pés descalços! Que o luxo destas meninas da lua podesignificar a noite mais escura! Os moços, esses hão de crescer... Trigueiros, delgados, teimosos,rudes. Braços de ferro para dobrar redes... Olhos de fogo para espiarmarés... Pobres, estouvados, invejosos, talvez. Mas barulhentos. Que a vida do mar é ruído, fadiga, sol, luz, imensidade e... perigo!Que a vida do mar é luta por um pedaço de pão e alguma alegria... Egosto de bisbilhotar... Chego a zangar-me com destinos imprevistosque a imaginação me traz.
  3. 3. A eles, aos garotos, de nariz ranhoso, boca melosa dum rebuçadobarato, queria vê-los sempre pequenos, a sair alegres da televisão,com os olhos brilhantes de imagens bonitas. Aos pais... Desculpem, mas os pais estragam sempre tudo!... Maria Helena Amaro In, «Maria Mãe», 1973, p. 110-116. Data da conclusão da edição no blogue – 27 de março de 2013 http://mariahelenaamaro.blogspot.com/

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