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Diário

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Mais um conto de Maria Helena Amaro.
Boas leituras!
http://mariahelenaamaro.blogspot.pt

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Diário

  1. 1. Diário Sílvia e Jorge casaram ontem. Uma voz dentro de mim dizia-me há muito já que isto tinha de acontecer mais tarde ou mais cedo. Questão de intuição. No entanto... sofro. Sílvia... Pequena, rosada, muito loira e muito frágil, a minha irmã era realmente um encanto, um amor de rapariga. Quem a vê, assim, a sorrir, de estrelas nos olhos e cerejas na boca, não será capaz de acreditá-la caprichosa e triste. Mas, eu conheço-a. Estes meus braços substituíram os da nossa mãe e neles encontrou Sílvia todo o meu amor, toda esta dedicação profundamente grande... Conheço-a e quero-lhe tanto, apesar daquela festa de ontem... desta certeza que desceu sobre mim de que o sol não voltará a brilhar na minha vida... Querida irmã! Recordo... Sinto a alma vazia de tanto recordar!... Saltitante, alegre, muito loira e frágil, caminhava a meu lado, equilibrando-se na berma do passeio, cantarolando uma canção de Amor... E eu olhava-a, fascinada de tanta beleza e graciosidade. Éramos as irmãs mais felizes, diziam. Na esquina da rua encontrámos o Jorge. O Jorge... Conheceste-o? Não era o que se chama um perfeito rapaz, mas eu gostava dele, sabia-o senhor de uma alma grande, boa transparente. Conheci-o num serão em casa dos Veigas. Depois, mais tarde, quando me empreguei na secção de decoradores, fui encontrá-lo ao lado de outros empregados. Reconhecemo-nos e ficamos amigos. Era um poeta, o Jorge. Lembro-me bem do dia em que descobri que o amava mais que a Sílvia, mais que a vida... Dobrava uns papéis, toda inclinada na minha mesa... De repente, ele exclamou estendendo um braço até me tocar: - Não te mexas, Telma! Que maravilhosos reflexos tem o teu cabelo! Quando se é nova, principalmente quando se é tímida e feia, os elogios são pérolas encontradas na poeira... E eu, ruborizada, atónita, profundamente admirada com a atitude inesperada de Jorge, apanhei a pérola e guardei-a cá dentro, onde ele morava já há longos meses. E fiquei à espera que ele pudesse descobrir... Num desses passeios que dava, na esperança de o encontrar, levei Sílvia comigo. Pus o vestido azul... Não me dizia o Jorge que o azul ficava bem à minha pobre cor dos trigais!?
  2. 2. Encontrámo-lo ao dobrar da esquina... - Jorge, a minha irmã Sílvia! Olhou-me risonho, e estendendo-lhe as mãos abertas, exclamou: - Não me tinhas dito que tinhas uma irmã tão encantadora! ... Sílvia riu. Riu muito, naquele jeito seu de rir, docemente, lentamente, como se acariciasse uma criança... E Jorge viu nela a imagem do Amor! No entanto, para mim, esse encontro não contou. Estava tão certa do Amor de Jorge apesar do silêncio!... Depois... as pessoas do nosso bairro passaram a ver-nos aos domingos de tarde; de braço dado, alegres, confiantes, ciosos de viver! Como éramos felizes, meu Deus! A verdade é que Jorge vivia mais perto de mim... Quantas vezes o surpreendi a fitar-me longamente, como ensaiando uma conversa diferente? Nesses momentos um caudal de emoção deslizava dentro de mim e a timidez emudecia-me. Sílvia e Jorge entendiam-se maravilhosamente. A infantilidade da minha irmã divertia-o. A minha placidez fazia-o serenar. Quando os via brincar como garotos, gritava-lhes: - Como sois crianças! Eles sorriam muito... de mãos dadas... e eu parecia ler nos olhos de Jorge... Sílvia, uma tarde, falou-me na enorme admiração que Jorge nutria por mim, na nossa amizade, no nosso profundo entendimento... Brinquei, receosa que os meus olhos deixassem transparecer o meu segredo. Respondeu-me: - Tenho a certeza de que o Jorge seria para ti o marido ideal... Comoveu-me a seriedade com que acompanhou tal afirmação e olhei-a subitamente. Sorria-me de olhos brilhantes. Sosseguei. Tolices! Era tão nova... Até que um dia... - O Jorge telefonou. Espera-nos no jardim... - Não vou, querida. Parece-me que ele quer falar-te em segredo... Achas que devo ir? A surpresa entonteceu-me. Ele ia finalmente dizer-me, falar... Meu Deus! Teria contado os degraus da escada nesse dia? A alegria cega, sufoca, aprisiona, põe-nos asas na alma e nos pés. Quando cheguei ao jardim fui encontrá-lo todo inclinado sobre os canteiros em flor. Olhei-o enternecida. - Jorge!
  3. 3. - Ó Telma! Vieste... - Sim, vim... - Sentemo-nos, queres? - Pois. Mas... - Sabes... Queres... Quero dizer-te Eu, tu... compreendes... - ... ... - É que... Escuta Telma: Sei que Sílvia é uma criança, muito nova, mas eu amo-a perdidamente. Tenho vivido numa expectativa tremenda, à espera que descobrisses o meu segredo para me ajudares, mas tu... enfim... andas preocupada talvez, com os teus problemas... Prometo-te que a farei feliz... Esperarei dois, três anos... o tempo que queiras. Leio no teu rosto uma sombra de inquietação... Não. Telma. Tenho a certeza que a farei feliz... Ergui-me. Estendi-lhe as mãos num gesto de oferta e consegui murmurar: - Ó Jorge! Que surpresa... E... Sílvia? - Telma, eu... Peço-te que lho digas... Umas vezes creio que me ama... outras... - Sim, dir-lhe-ei. Vem comigo. Atravessamos a rua. Gente risos, sol, e dentro de mim aquele ruído de cristais a partir... Dor. Desengano. Aniquilamento total. Subi as escadas lentamente. Sílvia veio receber-me. Parecia angustiosamente preocupada. Estendi-lhe os braços, apertei-a contra mim e disse-lhe de rosto escondido: - Sílvia... O Jorge espera-te lá em baixo. Sê compreensiva. Ele... ama-te! - Oh! Isso não é verdade... O Jorge... Ó Telma! Ó Telma, como sou feliz! Soltei-a. Aquela alegria fazia-me mal. Olhou-me rosada, ofegante como se fosse morrer... - E eu... eu a pensar que ele gostava de ti, que vós íeis casar... Ó Telma! Então... então posso ir dizer-lhe... então posso descer e dizer-lhe que... que... também o amo? Não sei se lhe respondi. Foi um novelo branco que eu vi deslizar escadas abaixo em direção aos braços que a reclamavam. Passaram primaveras de luz e outonos de sombras. Entretanto, Jorge vinha encher de flores a nossa casa, de esperança o coração de Sílvia, de dor a minha pobre alma abandonada. Bordei para ela um enxoval de rendas e para os dois construí uma Felicidade sem par.
  4. 4. Vivi dias após dias a realidade de hoje... E ontem, quando os levei à Igreja, senti dentro de mim a certeza de que a vida será doravante uma manta de farrapos, onde terei de embrulhar o meu futuro. Jorge nunca saberá o segredo das minhas horas vazias... Sílvia nunca encontrará no seu caminho os fantasmas do meu recolhimento... Eles... Eles casaram ontem! Fiquei só. Fiquei só com as minhas recordações, nesta casa enorme de janelas sem cortinas, toda voltada para o pátio sujo, onde os gritos das crianças da rua são como brados de gaivotas famintas. Gaivotas famintas! Terão alma as gaivotas? Como a minha, talvez... Sofro. Não, eles nunca poderão adivinhar porque... me querem. Antes de partir vieram abraçar-me. Disse-me a Sílvia: - Até à volta, querida! Disse Jorge: - Adeus, «minha irmã!» Cá levo a «tua filha». «A tua filha...» Sorri-lhes. Juntei-lhes as mão e articulei: - Ide. Sede felizes. Deus vos faça felizes! «Felizes...» Que poderia dizer-lhes? Ó Meu Deus, que poderia dizer-lhes? Sílvia e Jorge casaram ontem. Partiram ao encontro da vida. Se eles voltarem, Senhor, que venha com eles a certeza duma Felicidade sem nuvens, enorme, maravilhosa e profunda, que me faça renascer matando em mim esta amargura! Se eles voltarem; Senhor, que venha com eles a esperança radiosa dum riso de bebé, capaz de preencher estes meus braços vazios de tanto dar sem nada receber!... Maria Helena Amaro In, «Maria Mãe», 1973, p. 169-172. Data da conclusão da edição no blogue – 21 novembro de 2014 http://mariahelenaamaro.blogspot.pt

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