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Crianças más

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Mais um conto de Maria Helena Amaro.

Published in: Education
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Crianças más

  1. 1. Crianças más Abri a janela. Silêncio morno. O Sol inundava um lado da rua estreita de casasesguias e cinzentas, projetando no passeio fronteiriço as sombrasdisfarçadas das mais afortunadas. Na casa da esquina, uma gaiola pintada de verde fazia prisioneiroo mais taciturno dos melros apanhados pelo rapazio do bairro, naúltima Primavera. À porta da taberna duas mulheres gordas e anafadas,possivelmente cheirando a peixe fresco, discutiam com grandesgestos o preço do último lote. Zaragateiras. Espalhafatozas. Rudes como penedos. Que a vida édura... Que o mar é rico mas cruel... Um gato esquelético, de focinho delgado e olhar melancólico,roçava-se lentamente no lampião da direita. Toda a rua tresandavaa peixe frito, a vinho entornado. Por cima dos telhados, onde a ervacrescia pela graça de Deus, o céu era transparente. E extenso. Comoum lago de seda rendilhada. Nem retângulo de azul, lá para os lados da praça, erguia-se umaantena de televisão pintada a oiro e prata. Vida quotidiana. Calor e poeira. Lassidão. Rotina. Casas estreitase sujas. Peixe frito e vinho entornado. E aquela antena de televisão agritar ao bairro todo os moldes dourados de novo rico... Debaixo da minha janela, o Manel havia-se sentado, de pernasestendidas para o Sol... O Manel é louco, sabem? Sim, louco. Emau... às vezes. Quando lhe puxam pela língua... As mulheres do peixe desataram-se e sumiram-se na cangostalateral, uma atrás da outra, dando às ancas e arrastando os socos nacalçada incerta. O dono da gaiola retirou-a, do prego... O sol subiu mais alto, para os lados do mar, mas o Manel,indiferente, ficou de pernas estendidas a contar as pedras da rua...- Um...dois...três... Um... dois... três... Na janela defronte surgiu um rosto de homem. - Oh ! Manéle ! - !!! - Eh ! Manéle ! ... - ??? - Eh ! Manéle !...
  2. 2. - Qué quéris ? - Nada... - Então ... (uma praga). Uma gargalhada enorme e chistosa e a janela fechou-senovamente com ruído... Encolhi-me toda. O Manel voltou de novo à conta: - Um... dois... três... Uma criada veio sacudir o tapete mesmo por cima dele. - Sai Manéle ! - Siri, não... - Sai Manéle ! - Bai... (outra praga). A rapariga riu, retribui-lhe a saudação e voltou a sacudir o tapetecom mais entusiasmo... Olhou a rua, de cima a baixo, dirigiu-me omais untuoso dos sorrisos e recolheu-se anafada. O homem databerna encostou-se à vitrina... - Queres um copo, Manéle ! - Como, sim. E voltou à conta: Um... dois... três... - Três, não Manéle ! - Bai... (outra praga). Aquilo mexeu comigo. Voltei a encolher-me. O Manéle deixou decontar e caiu num mutismo patético. O homem da taberna desistiu da troça e desapareceu por trás dobalcão. Desenhou-se na nesga de sol da rua lateral o vulto dum rapaz.Depois surgiu assobiando, vestido de ganga parda. Deu com o tolo e parou olhando: - Olá Manéle ! - Olá... - Istá sóle, Manéle ! - Instá... - Quéris uma pêra ? - Quereri, quéro... - Pega lá... Atirou-lhe o fruto. Grande e acastanhado. Manel segurou-o no arcom ambas as mãos... - É bom, Manéle ! - Bom...
  3. 3. E os dentes trincavam raivosamente a pera suculenta... O rapazria. E só quando o ouvi rir alto e mirei bem de frente é que oreconheci. Foi como se uma onda de emoção me saltasse por cima eme deixasse submersa. Pequeno... Delgado.... Claro de cabeça e rosto... Era ele, o Alberto! Quinze anos, talvez. É que... O Alberto foi meu aluno... Como sefosse possível esquecer o 1º ano que lecionei !... Pensava tão mal dele ! É que... pensava realmente que, quandoele saísse da Escola, seria como os outros grandalhões que corrematrás do Manel proferindo tolices... Quantas vezes o avistei de calçasarregaçadas entre o lodo, fisgando as gaivotas! Quantas vezes oadivinhei trepando às árvores para roubar os ninhos ! E tinha pena,muita pena. Que as crianças constroem o Mundo... E o Mundoprecisa de Amor e crianças boas... De crianças boas, transformadasmás nestes bairros de vinho entornado e peixe frito... A criada e o tapete... O homem da taberna... O rosto da janelafronteiriça... E sobretudo isso que me feria e me fez encolherperplexa e irritada, no vão da janela, aquela pera oferecida ao Manelpelo Alberto, um gesto de carícia disfarçada, entrou-me na almacomo o repicar dum sino de cristal... - É bom, Manéle ? - Bom ! - Como se dizes ? - Bom ! ô... ô... ôbrigado ! - Intão, adeus ! - Adeus ! O rapazote voltou a desaparecer na ruela estreita. O Manelergueu-se, arrastou-se até ao fim da rua a cantarolar em surdina... O homem da taberna abriu a telefonia no máximo, para ouvir orelato do futebol... O sol desapareceu por cima dos telhados... A rua tornou-se empenumbra... A antena da televisão deixou de brilhar pintada de oiroe prata... -Gu...ô...Lo de... ! ! ! O cheiro a peixe frito acentuou-se. Procurei por cima das casascinzentas um telhado de azul, onde pudesse mergulhar os olhos eencher-me de Infinito. Aos meus olhos como num filme vivo: - É bom Manéle ? - Bom...
  4. 4. Oh! Que ser-se professora de crianças más (não há crianças más,Deus Meu!) é maravilhoso ! E descobrir que elas não são realmente más é divino ! É que... Eu vi o Alberto dar a pera ao «Manéle». E... Toda eu sorripara o Azul! Como podem nascer lírios nesta lama quotidiana ? Fechei a janela.Maria Helena AmaroIn, «Maria Mãe», 1973.Data da conclusão da edição no blogue - 10 de abril de 2012.http://mariahelenaamaro.blogspot.com/

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