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Conto de Natal    Do fundo da alcova escura, uma voz veio cansada e chorosa:   - «Mamã Aurora, que cantam os sinos?»    A ...
As mãos da ama repousaram um pouco sobre a testa escaldanteda criança, os olhos encheram-se-lhe de lágrimas, mas a boca so...
E pela primeira vez na aldeia da velha Mamã Aurora os sinos nãodobraram anunciando morte. Tocaram suaves, lentos, uma músi...
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Conto de natal

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Mais um poema de Maria Helena Amaro publicado no blog maria mãe http://mariahelenaamaro.blogspot.com

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Conto de natal

  1. 1. Conto de Natal Do fundo da alcova escura, uma voz veio cansada e chorosa: - «Mamã Aurora, que cantam os sinos?» A velha ama volveu os olhos sem brilho e ergueu-se. Pousoucuidadosamente, na velha cadeira de junco, os utensílios de costurae encaminhou-se até junto do leito onde jazia uma criança pálida,franzina de grandes olhos negros e doces. A noite tinha vindo fria e agreste e a neve caía em grandes flocosdocemente, lentamente, cobrindo tudo... No Céu, as estrelasbrilhavam trémulas, pequeninas, parecendo murmurar: - «Que frio!Que frio!» Apesar do frio, havia algo de sobrenatural, de etéreo, de belo, noaspeto da noite. Os rostos das pessoas, que passavam apressadas na rua escura emal iluminada, pareciam sorrir de paz, da amenidade, de alegriaíntima. No entanto, os olhos de Aurora fixaram-se amorosos e tristes norosto do pequeno ao ciciar: - «Que tens, meu amor?» O miúdo olhou-a, perguntando de novo: - «Que cantam os sinos?» A voz dela saiu arrastada e meiga: - «Que hão de cantar? Esqueceste que hoje é noite de Natal?» Os olhos da criança humedeceram-se, as mãos agarraram acoberta cetinosa, e respondeu como quem delira: - «Natal! Hoje é noite de Natal!... Lembras-te, Mamã Aurora? Não foi num Natal que os pais foram para a grandeviagem? Disseste que viriam ver-me todos os Natais, mas não maisvoltaram. Viriam trazer-me uma prenda, mas não vieram. Somente,no meu sapatinho apareceu um boneco de corda... Sim, disseste queviriam, mas o meu sapatinho ficou mudo quando lhe perguntei se ostinha visto... E... Sabes? O boneco tinha um papel num braço que dizia: - «Oferece o teuJesus». Agora, não vais mentir-me, pois não? Dize-me: - «Os pais, este ano, virão?»
  2. 2. As mãos da ama repousaram um pouco sobre a testa escaldanteda criança, os olhos encheram-se-lhe de lágrimas, mas a boca sorriaao responder: - «Sossega... Verás os teus pais... Estão no Céu a pedir pela tuasaúde... Não ouves os sinos? Eles dizem que Jesus nasceu e quetodas as pessoas são felizes esta noite. É noite de Amor, de Paz, deOração. Os sinos, hoje e amanhã, cantarão somente louvores aoSenhor alegres como as almas dos meninos bons, como a tua alma,Pedrito!» - «A minha alma é triste, Mamã! Mas... disseste que os sinoscantarão somente de alegria... E se alguém morrer?» Ao dizer isto, os olhos brilhantes de febre fixaram-se no rostopálido da velha ama. E sorria, ao dizer, todo inclinado para o ladodo quarto onde Aurora havia erguido um presépio iluminado: - «Mamã Aurora! Olha o Jesus como sorri! Que lindo, Mamã! Seeu pudesse voar ia ao Céu, ali, além buscar aquelas estrelinhas paraenviar aos paizinhos... Tenho a certeza de que me viriam buscar eque eu iria com eles para a grande viagem de que me falas sempre... Ó Mamã!... E se eu fosse ver os paizinhos? Os sinos tocarãoalegres, se eu for? E o Jesus dar-me-á as estrelas do Céu? Quelindas. Mamã, que lindas! E se e for? Abre a janela... Não vês a nevea derreter-se? São as estrelas que querem aquecer o Menino Jesus... Lá vou, lá vou.. Hei de agarrar uma para levar ao Paizinho... Deixa-me, não me magoes no peito! Deixa-me ir... Os sinoschamam: -«Pedrinho! Pedrinho! Pedrinho!» Adeus, Mamã Aurora! Logo volto. Lá vou... Guarda o boneco decorda para o Zé Roda... Dize-lhe... dize-lhe que depois lhe... lhe... lhemando... uma estrela... Os sinos...» A voz deixou de ouvir-se lentamente, os olhos fecharam-se e osorriso da criança tornou-se mais amplo, mais belo, mais indefinidonos lábios arroxeados... A velha dama debruçou-se sobre o leitotentando interpretar aquele sorriso que a gelava. Apalpou a testa, asfaces, os olhos do menino e duas lágrimas quentes como fogo foramcair-lhe no regaço vazio. Pedrinho estava morto. Um anjo tinhasubido ao Céu e as estrelas sorriam mais...... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... Quando o esquife branco foi a enterrar, no dia seguinte, dumcerto lugar do cemitério a neve foi retirada.
  3. 3. E pela primeira vez na aldeia da velha Mamã Aurora os sinos nãodobraram anunciando morte. Tocaram suaves, lentos, uma músicapura e etérea como a alma de Pedrinho, como a brancura imaculadada neve daquela noite de Natal. Maria Helena Amaro In, «Maria Mãe», 1973. Data da conclusão da edição no blogue – 9 de outubro de 2012 http://mariahelenaamaro.blogspot.com/

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