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Carta para belém

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Um conto de Maria Helena Amaro publicado no blogue Maria Mãe:
http://mariahelenaamaro.blogspot.pt/

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Carta para belém

  1. 1. Carta para Belém MENINO JESUS BELÉM-JUDÁ. Doce Menino Jesus de cabelos de oiro e de olhos azuisparecidinho com o Zézinho do Sr. Doutor. Eu sou o Nel da «Mula»,filho da Maria «Perita» e do Augusto pescador. Moro com os meuspais e irmãos, ao todo «semos» dez, naquela casa pintada debranco, a última ao cabo do bairro dos pescadores. Havias de ver, Menino, quando a maré subiu, a gente todosmolhados a pingar, a pingar e a água sempre a correr pela rua foravinda do lado do cais... Eu fiquei sem a minha bola de capão que oRicardo me deu, mas gostei de ver aquela água toda... Parecia mesmo que ia acabar o Mundo! A grande coisa!... Nãome importava nada... Sabes porquê? Ontem fui à porta da tasca doToino da Ribeira espreitar a televisão e ouvi dizer a dois colegas quemoravam lá para a vila que todas as pessoas que morrem vão para atua beira... Ah! Pá!... Onde haviam de meter tudo? Ah! Se é verdadeque é assim, tu que és do tamanho da nossa Zeza pequena, dize-mese não tinhas medo de ter aí no Céu, ao pé de Ti, a Tisuda, a Bentatola e aqueles homens todos que se zangam e batem uns aos outrosno fim do futebol... Havias de ver... Sabes, que à porta da tascatambém ouvi dizer que todos os anos pões uma prenda nos sapatosdos rapazes da Escola. Eu não tenho sapatos mas também ando na escola. Gostarmuito, não gosto, mas... Anda a gente lá, zuca que zuca, matuta quematuta e, no fim, somos sempre apanhados... Eu não sei secompreendes... Mas um dia, quando fores para a Escola, vaisperceber... Não sei se ficas triste com os meus desabafos como a nossaprofessora, mas a verdade é que a Escola devia ser à semana para osricos e ao domingo para os pobres... À semana o pai manda-me àisca e a mãe toma conta dos meninos... Apareço na escola ao sábadoporque é só até às três horas... E fazemos desenho, caligrafia e
  2. 2. problemas. Eh! Que disso é que eu gosto!... O meu pai diz que aSenhora não é boa «peça», que tem a mania de mandar papeizinhosa falar de multas, mas eu não acredito nisso. Ela é boa pessoa, issoé... Havias de ver, Menino!... Quando se zanga connosco bate com arégua na mesa e diz: - «Ó meus filhos! Aqui é assim...» E ás vezes,zás!... Quem merece castigo, recebe castigo... Isto é só quandodescobre que o João rouba cigarros ao pai, que o Jorge bateu noRui, que o Nando rasgou um livro ao Zé Rolhas... E outras coisas...Outras coisas... Depois... Ri-se... Quando se ri é parecida com aqueleretrato da tua mãe que está na Igreja... E diz que gosta tanto de nóscomo nós gostamos de Ti, Doce Menino! Se o meu pai um diafalasse com ela nunca mais batia com os punhos em cima dacómoda, a gritar: «- Eh! Denho de moço! Eh! Calhau duma figa!Arruma-me com essas papeladas todas, senão vai naco...» Se puderes, Menino, se a tua casa não ficar longe da minha,anda pôr-me na chaminé umas botas altas como as dos polícias,para não andar descalço pelo lodo à procura da isca... Se nãopuderes, manda então outra maré para a gente ficar a perigar, aperigar e a pensar que o Mundo vai morrer... Se não compreenderes a letra, Doce Menino, pede à NossaSenhora que leia a carta e que te explique que há muitos rapazescomo eu no bairro, pobres, tristes, esfomeados e marotos. Sim,porque nós somos marotos quando nos juntamos. A brincarcorremos atrás da Benta tola e partimos as flores do jardim... Osnossos pais ralham connosco e chamam-nos nomes feios, porque amiséria é grande, negra e feia. Sabes, Doce Menino! Se não me deres as botas altas, vou ver seposso roubar no monte de lixo da Ribeira um bocado de cabedal epintá-lo com giz branco. Talvez consiga fazer dele umas sandálias como aquelas quelevava o Miguel, quando foi para junto de Ti. Vestia o fato demarinheiro do Zézinho do Sr. Doutor e pedia a uma gaivota grande,que me costuma roubar a isca, que me levasse sobre o mar atédesaparecer no Céu. Depois, tirava-te as estrelas mais pequeninas emandava-as ao meu pai para trocar por roupas, sapatos, casas ebotas altas. E... e nunca, e nunca mais chegava tarde ou faltava àEscola para ir à isca... Ó Menino, que a estrela maior era para a nossa professora!!! Não te zangavas, pois não? Então... então manda-me, esteNatal, umas botas altas.
  3. 3. Dá saudades à Nossa Senhora e recordações a S. José.Recebe um abraço do teu amigo Nel da Mula Casa branca de janelas verdes Maria Helena Amaro In, «Maria Mãe», 1973. Data da conclusão da edição no blogue – 22 de junho de 2012 http://mariahelenaamaro.blogspot.com/

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