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A estrela de belém

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Mais um conto Maria Helena Amaro publicado no blog Maria Mãe

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A estrela de belém

  1. 1. A Estrela de Belém Naquela noite de Natal serena e fria, a Lua havia surgido no céuazul, etéreo, pálida e indecisa, enorme e luminosa, como um balãode prata incandescente. Para além das cumeadas cinzentas, o Sol desaparecera vermelhoe dourado, deixando num rasto de saudade essa sinfonia estranha,que a voz sibilante do vento executava, fazendo girar numa dançafrenética e demorada as folhas amarelas e secas, perdidas peloscaminhos, nesse crepúsculo arroxeado do inverno. As pedras húmidas da rua estreita e sinuosa, de casas altas eesguias, brilhavam intensamente à luz lunar, como se mão invisívelhouvesse espalhado sobre elas toalha prateada. Silencio! Solidão... A mulher, de faces quase coladas à vidraça, observavaatentamente, uma por uma, as pedras da calçada, como se esperassesurgir de entre elas algo de insólito e irreal. De mãos unidas sobre opeito, direita, numa posição tensa, olhos perdidos na noite, pareciamurmurar: «Como é bela esta noite, Meu Deus!... Noite de Natal!» Nisto... - «Mamã!» A mulher volta-se num movimento rápido, como se a vozita queimplorava a despertasse dum sonho profundo. Estendeu os braços,e erguendo a criança até ela, num abraço de ternura exclamou: - «Meu filho!» O pequenito, de olhos grandes claros e profundos, articulou: - «Mamã! Tu falavas com a noite? Mostra-ma Quero vê-la...» A mulher aproximou-se do retângulo luminoso, e olhando oexterior retorquiu: - «A noite, meu filho!» Os olhos transparentes da criança percorreram a rua estreita ehúmida, a calçada escorregadia, os telhados acobreados dos prédiosfronteiriços e detiveram-se curiosos e estáticos no céu iluminado,onde as estrelas cintilavam rodeando a Princesa da Noite... E... o diálogo começou: - Mamã: a noite é fria... é negra...» - «Mas... filho!» - «Não, mãe, não a quero!» - «Que queres tu, meu amor?»
  2. 2. As mãozitas do miúdo, agitaram-se no espaço como gaivotasbrancas, ensaiando o primeiro voo sobre o mar e, num jeito decarícia, foram pousar no rosto da mãe, cetinosas, leves como penas. A resposta saiu-lhe trémula e indecisa: - «Quero uma estrela!» A mulher sorriu, afagou-lhe os caracóis de ébano, as facesmartinadas e, num murmúrio, respondeu: - «As estrelas estão longe, meu filho! São lindas, prateadas, feitasde fogo e pedras preciosas. Todas as noites, os anjos as vão colocaràs janelas do Paraíso, para que as almas não caminhem às escuras,pelas estradas tortuosas do mundo... numa noite como a de hoje. Asestrelas pertencem à noite e esta é a mais bela noite do ano, meufilho! Eu te conto...» - «Conta, mãe, conta!...» - «Numa noite iluminada e fria, com o céu recamado de estrelascintilantes, uma Senhora de rara beleza e um velhinho de barbasbrancas, semelhantes a estrigas de linho, caminhavam na neve,silenciosos e angustiados, procurando em vão, no caminhode Belém, uma pousada que os acolhesse. Noite alta, encontraramuma gruta de pastores situada no cimo dum monte. Alegres e resignados, dispunham-se a passar aí a noite, quandouma multidão de anjos, descendo do Céu, cantando louvores aoSenhor, veio depositar na pequena manjedoura presente, envoltonuma nuvem de luz, um Menino rosado e loiro, que Deus enviava àTerra, como Mensageiro de Paz e de Amor. Os ares encheram-se decânticos, o mundo de júbilo, e uma estrela, descida lá dofirmamento, foi poisar-se, em cambiantes de oiro e prata, sobre agruta, onde surgira o Menino rosado e loiro... Essa estrela era...» - «A dos Reis Magos?...» - «Sim, meu amor!» - «Mas... eu queria essa estrela! Havia de guardá-la aqui no coração e trazê-la sempre comigo,para que se não apagasse e eu pudesse, de vez em quando, afagá-lade mansinho. Se eu fosse rico... compraria todas as estrelas aosanjos, para que os meninos pobres como eu, tivessem uma estrelalinda e luminosa, na Noite de Natal. Iria pelas ruas da vila, a cantar e a rezar, levando aos pequenosdo bairro brinquedos com estrelinhas pregadas. E diria: - É Natal! ÉNatal! E para que tu não chorasses mais, por sermos pobrezinhos, e
  3. 3. não falasses com a noite como hoje, havia de colocar-te nas mãos aestrela mais bela que eu tivesse, e tu ficarias alegre, mãe!» - «Meu filho...» - «Achas que Menino loiro e rosado gosta dos meninos pobrescomo eu?» -«Sim, ele veio exatamente para os tornar ricos com o seu Amor... Como ele nasceu humilde e pobre!» - Se «ele» me desse uma estrela... a do Natal! Só uma...» A mulher aconchegou-o mais ao seio, num gesto mudo; e os seusolhos claros e profundos, como os da criança, encheram-se delágrimas, reparando no rosto ansioso do filho, que de olhossemicerrados, como quem vai dormir, olhava o Céu. Precisamente por cima deles, uma estrela cintilava luminosa,atraente... Num movimento demorado, a criança voltou-se, olhou amulher e fitando-a nos olhos meigos, húmidos de emoção,exclamou, delirante, como num sonho: - «Mãe! Mãe! Tu tens duas estrelas nos olhos... O Menino ouviu-me... É Natal, mãe!» E num jeito de quem vai adormecer, encostou-se todo ao seiomaterno... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... Fechei a porta. Do outro lado da rua, os vultos da mulher e dacriança adormecida, unidos numa só sombra, tinham desaparecidopor detrás do retângulo luminoso da janela. No céu, as estrelas pareciam sorrir. E a Lua pálida e indecisa,enorme e luminosa, desaparecia por cima do telhado da casafronteiriça, cedendo os encantos da noite serena e fria às mães, que,de braços em forma de berço e de estrelas nos olhos, velavam o sonoinocente dos filhos, rogando aos céus, numa cantiga de embalar, aproteção dos Anjos e de Deus, nessa noite distante de Natal! Maria Helena Amaro In, «Maria Mãe», 1973. Data da conclusão da edição no blogue – 15 de agosto de 2012 http://mariahelenaamaro.blogspot.com/

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