No ponto de ônibus

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No ponto de ônibus

  1. 1. No ponto de ônibusEu decorei aquele momento como se fosseum código para um cofre secreto. Cadadetalhe, cada plano de fundo e cada cheiro.Tornei aquela situação um país da memóriaem que eu visitava sempre que sentia quefaltava algo a mim. Meus movimentostímidos incrivelmente eram semelhantesaos movimentos tímidos dela. Brincávamosde fazer silêncio e rir para o infinito.Jogávamos olhares rápidos para nossasbocas e viajávamos nas montanhas-russasde nossos lábios. Nossos cílios eram cortinade decoração de nossas faces esculpidasem nossas pupilas. Fazíamos samba com asmãos em nervosismo e em uma fração desegundos engolíamos frases quepoderíamos ter dito um para o outro, massem nos saciar.
  2. 2. Há um tempo eu não a via. Tempo que nãofoi suficiente para deletá-la dos meusarquivos mentais incompletos e dos meusdesejos ancorados. Nem deletar minhasensação de ficar estagnado e entalado nosilêncio que ela me provocava.Talvez por ela ter aquela risada analgésica.Talvez por ela também não ser tão clichê.Não digo o mesmo de mim, pois fazia omesmo sempre que a assistia. Ressusciteitudo que um dia imaginei ou tentei viver,seja claro ou escuro, bonito ou trágico,apenas fiz crescer no ébano dos meuspensamentos. Até me recordei brevementede nossa história.A minha cidade não é muito grande. Elatem em média um número de cidadãos quenem os próprios cidadãos sabem. Mas agente finge que é um número razoável. Aomenos para pegar ônibus não era tão difícilquanto na capital. Ouvia isso também dealguns cidadãos.
  3. 3. Os ônibus não demoravam passar. Erampontuais, assim como quem os aguardava.Eu o esperava todos os dias. A rotina erareligiosa, mas nem tanto iluminada.Minha casa fica a uma distânciadesproporcional a resistência dos meus pése da minha força de vontade. O ônibus eraminha ambulância: transferia gentilmentemeu corpo acabado pela longa labutadiária. Quando o ônibus dava as caras nocateto da rua, erguia meu braço e faziauma sinalização para parar como se fosseum tom romântico de pegue o meu braço eme leve, me possua, seja o meu guiaespiritual.Meus olhos murchos e minhas bochechasenrugadas me entregavam. Às vezes eufingia um sorriso para a trocadora. Mas elame devolvia um de volta provavelmenteironizando meu cabelo desarrumado eminha blusa do avesso.
  4. 4. Mas nos finais de semana o ônibus não eratão pontual, principalmente à noite.Esperávamos mais do que o atrasopermitia.Lá no ponto de ônibus não tinha assento,era sofrer e pedir perdão para os pés, queem vista da longa jornada já flutuavam e àsvezes nem sentiam o chão. Os olhosbancavam de vigias. O pescoço clamava porperdão pelas retorcidas, era cá e lá, lá e cá,praticamente o tratando como uma tampade uma garrafa pet, só que sem abri-lacompletamente. A cintura era encosto paraos braços, que quando repousados nela,davam a entender que eu estaria tentandoalgum tipo de dança estranha com o corpoparado. As dores físicas eram só confeites,as dores por dentro eram recheios de saboramargo. Eu já não sabia mais distinguir oque era, o que eu queria e em que situaçãoeu me encontrava. Vivia perdido nos meusdevaneios e nas minhas preocupações com
  5. 5. tudo que não se preocupava comigo. Eraabominado por uma confusão derealidades, confusão de tempo e espaço.Não encontrava na linha retilínea douniverso. Dava espaço até para aquele frioque sobrevoava minha alma e pousava emminha solidão. Eu já não me sentia maisamado. Nem por mim mesmo. E nem mesentia nos meus dias. Sequer um fiasco dereciprocidade. Não. Nada.Após percorrer a maratona dos trabalhosainda sem a bandeirada final, encostei emuma das pilastras do que antigamente erauma coberta para o ponto. Era confortantee ficava exatamente no centro de tudo queme rodeava e eu observava em silêncio. Omendigo brigando com seus pés para verquem tinha todo o calor do pequenocobertor para si. A moça afogando o bebêem seus seios numa tentativa desesperadade parar o seu choro. E, para minhasurpresa, vindo em direção ao ponto, a
  6. 6. mulher que não era manequim de loja, mastinha corpo para isso: a caixa da sorveteriada minha rua.Era uma menina surrada pelo seu ardotrabalho. Quando tinha tempo, o retiravapara colocar os trabalhos da faculdade emdia. Mas o que mais me surpreendia eraque ainda sim sobrava um pequeno tempopara cuidar de sua enorme beleza. Não seise era só uma beleza que eu notava, elanão era muito namoradeira, nem arrancavaassobios dos pedreiros do bairro. Tinha ocorpo magrinho, que apesar disso haviamgordurinhas que davam as silhuetas dassuas curvas em seu quadril. O olhar era tãoprofundo quanto um poema que eu queriaescrever sobre ele.A minha admiração ia além do que osoutros podiam imaginar. O fato daquelamenina ser tão dedicada me fantasiava auma vida que eu queria muito compartilhare ser da rotina.
  7. 7. Naquele dia, no ponto de ônibus, ela estavamuito bem arrumada. Um vestido queparecia ter sido bordado por alguma tiacostureira que abusava do bom gosto nasrendinhas florais rosadas e no brilho quedelineava-lhe as linhas do corpo. Umencaixe perfeito no que se referia a alguémque não se importava tanto em chamar aatenção na sorveteria. Até esse bom sensode não querer aparecer era afrodisíaco, pormais estranho que isso soe. Talvez anaturalidade da sua beleza – e o fato delanão ter abusado da maquiagem nemnaquele sábado à noite – me instigava a sertão preso ao seu inigualável jeito.Ela me cumprimentou.- Olá, sabe se o ônibus do Vilarejo do Pinhaljá passou?- Ainda não. Mas breve deve passar.Me peguei numa vontade de esticar oassunto, mesmo sabendo que ela estava
  8. 8. preocupada enviando mensagens em seucelular e eu não queria dividir a suaatenção com um aparelho telefônico. Maso fiz mesmo assim.- É um bairro de elite. Haverá alguma festapor lá hoje?- Sim. – disse sem desgrudar os olhos docelular.- É alguma festa de formatura, festa dopessoal da universidade, não sei, algo dessetipo?- Festa de formatura.Ela abusava do curto diálogo. Algo aaprisionava ao seu celular de modo a nãoquerer se desgrudar dele a nenhummomento. Nem dispensou uns risinhosesporádicos e umas recolocações de suasmechas atrás das orelhas.
  9. 9. - Desculpa, mas não acha que perderá oônibus se não prestar atenção se ele estávindo?- Se ele aparecer, me avise, por favor.- Olha! Lá vem ele!Destrambelhada, deixou o celular cair aochão em susto. Ela desenhou umdesespero, mas se conteve quando,cavalheiramente, me abaixei e peguei paraela.- Mas o ônibus nem vem. Por que você fezisso?Alguém cutucou minhas costas. Era a moçaque carregava o bebê.- Moço, segure o bebê, por favor, por favor.Eu imploro. Talvez eu volte. Mas segurecom toda a sua alma. – disse a moça comos olhos refugiados em desespero e que,logo em seguida, disparou a correr semrumo.
  10. 10. - Ei! Volte aqui! – gritei sem muitasesperanças de que ela voltasse. - MeuDeus! E agora? O que eu faço? – disseolhando para ela com os olhos arregalados.- Estava irritada por ter deixado cair o meucelular, mas acho que agora você pagarápor aquilo. – esbanjou aquele sorriso que,mesmo irônico, me derrubava como se eufosse uma pilha de dominós levantados eordenados.- Mas que preço salgado.- Estou brincando. Dá cá esse bebê, deixaeu tentar fazer ele parar de chorar.O bebê instantaneamente se tranquilizou.Além do dom natural de ter algo que meencantava e que não sei decifrar, ela tinhaum toque fascinante de calmaria.- Você leva jeito pra coisa.- Surpreendentemente, sim. Mas pra falar averdade é que minha irmã mais nova teve
  11. 11. um filho. 17 anos. Imatura para o mundo.Engravidou precocemente. Minha mãe quejá não é mais aquela guerreira de outrora,teve esse elefante jogado nos braços. Tivede ajudá-la a cuidar do bebê enquanto elapassava a roupa de metade do bairro deVilarejo do Pinhal. É toda uma históriamuito chata e comum, desculpa estar lhefalando isso.- Não é incômodo algum me contar, eusentaria aqui para ouvi-la a noite toda,afinal não podemos abandonar essa criançasem devolvê-la à mãe.- Exatamente.- Toda semana passo para pegar umsorvete no local que você trabalha. Não seise nunca me notou.- São muitos clientes que frequentam aloja, mas seu rosto não me é estranho.- Nem o seu me é estranho.
  12. 12. - Estamos partindo para aquela históriabatida do cara que é encantado pelamenina, mas ela nunca o notou na verdadee ele tenta a ludibriar dizendo que a achavalinda, com uma beleza diferente e umsorriso lindo?- Espero que não. Mas acho incrível o seudom de ler pensamentos.- Não é a primeira vez que isso acontececomigo. Um outro rapaz ia regularmente naloja. Ele tentou de qualquer maneira meconquistar. Se disse apaixonado, dominadopelo meu olhar segundo ele “diferente”.Não sou de menosprezar e nem gosto defazer ninguém sofrer, mas disse que nãoseria possível. Não tenho tempo nem paracuidar de mim mesma, que dirá cuidar dedois, ou três, ou quatro. Eu não sei aquilometragem certa que umrelacionamento pode ter. Pareço seregoísta com isso, confesso. Imatura emedrosa, talvez. Mas eu conheço minha
  13. 13. vida desorganizada. É uma insegurança dequerer trazer um passageiro para essecomboio lotado.Parecia que eu estava ouvindo a história domeu eu futuro. Trágica, diga-se depassagem. Mas agradecia por ter voltadoao passado. Ela era a coisa perfeita para omomento imperfeito. Um desencontro naforma literal. Mesmo não sabendo se o queeu sentia era algo de estalo ou repentino,de certa forma ir a uma sorveteriaconstantemente e se atentar a uma únicapessoa e querer trazê-la para si, paradentro do seu livro de novas histórias não éalgo lá tão comum.- Enfim. O que será que aconteceu comaquela mulher para ela deixar um bebê nasmãos de estranhos e sair correndo?- Realmente não faz muito sentido. Maspor que de repente mudou de assunto?
  14. 14. - A gente nem se conhece, mas, com umafrase, eu posso criar um laço entre nós. Umlaço estranho, mas posso criar.- E qual seria?- Com o pouco que você disse eu senticomo se você já tivesse visitado meuspensamentos, feito uma releitura dos meusdesejos e colocado uma ancora naquilotudo. Uma repaginada no visual da minhailusão.- Assim eu me sinto como uma megera.- Não, não é. A culpa aqui é toda minha.- Por que sua?- Eu fui copiar a idéia errada do outrorapaz. Deveria ter pensado em outra. Umamais convincente, quem sabe.- Você é engraçado.A mãe do bebê voltou. Pediu a criança devolta e agradeceu. Parecia mais aliviada.
  15. 15. - Aconteceu alguma coisa?- O pai da criança me ligou. Queria meencontrar. Disse que tinha algo urgentepara me dizer, mas eu já sabia que era sóuma artimanha para ver a criança, sendoque ele não dá a mínima para ela.- Malditos pais modernos.- Mas muito obrigado por terem olhado acriança. Principalmente você, moço, sei queé de confiança pois sempre o vejo por aqui.- Disponha.- Que loucura, não? – disse colocando amão nos bolsos e respirando fundo.- Essa vida não é fácil.Dividindo um momento de pura falta deassunto, não sabia se me aventurava atentar convencê-la do contrário ou apenasme acostumar com a idéia de que aquelasituação não apresentava uma estrada de
  16. 16. opção. Ela não se demonstrava interessadae aquilo me trouxe a um universo defrustração, devido às ilusões que alimenteinuma suposta perfeição de um ser quequeria ter no abraço nos finais dos meusdias ácidos.- Parece que o ônibus está vindo.- É, já está chegando. Me desculpa pelocelular. Ele estragou?- Não, está intacto.- Desculpa a intromissão e a minhacuriosidade, mas o que tanto prendia a suaatenção e lhe arrancava algumas risadas?- Era minha irmã. Disse que o meu sobrinhofalou suas primeiras palavras. Uma delas foio meu nome.- Que coisa mais linda.
  17. 17. - É sim. Bom, lá vem o ônibus. Deixa eu ir.Obrigada pela companhia essa noite. Vocême parece um bom rapaz.- Eu que agradeço. – disse levantandovagarosamente os braços e dando umtchau em tons de não se vá.O meu ônibus passou logo em seguida.Novamente, a trocadora com seus risos.Naquele dia eu não estava tãodesarrumado e nem com a camisa doavesso. Talvez ela debochasse de fato demim. Mas voltei para casa como quem nãotivesse completado sua missão.No dia que nos encontramos novamentenaquela mesma situação e naquele mesmoponto de ônibus, o filme voltou a se exibirnos meus olhos. Ela estava vestida domesmo jeito – talvez aquele vestido fosse oseu preferido, ou talvez ela abusasse doseu dom de fazer uma leitura dos meuspensamentos e optasse pelo que eu achava
  18. 18. que a deixava como uma rainha. A encareidevagar, sem graça como me era decostume e sem palavras como sempre mefaltara.Ela me cumprimentou.- Olá, sabe se o ônibus do Vilarejo do Pinhaljá passou?- Ainda não. Mas breve deve passar. Tiago Peçanha.

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