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Página 4 de 39 Pois é caras. Parece-me que vocês terão de renascer em família rica pra dirigir a palavra à dama do Paço. (...
Página 5 de 39E o que me diz sobre o prejuízo de meus empregados e a injúria de meu                              sobrinho?...
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Página 7 de 39  Eu sei lá meu filho. Você não tem amigos nas cidades vizinhas não?                          Pega e vai emb...
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Página 9 de 39CENA VID. RITA e DOMINGOS    conversando na sala.                                  D. RITA    Mas eu já diss...
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Página 12 de 39É hora de abrir o coração, prima. (pega a mão de TEREZA) Está disposta                              a ouvir...
Página 13 de 39                             (levanta-se)            É com tamanha paixão que desobedece a seu pai?        ...
Página 14 de 39varredor de feiras? Não    lhe constou que ele, em Coimbra, abarrotado de     vinho, andava pelas    ruas a...
Página 15 de 39                  Ah, que ótimo que você está aqui.TEREZA dobra o papel e entrega a ela.                   ...
Página 16 de 39                                TEREZA               E você será feliz com o meu sacrifício?               ...
Página 17 de 39Não se preocupa, a gente dá um jeito nisso. São apenas as bobagens da                            adolescênc...
Página 18 de 39SIMÃO vai entrando na sala. Não vê ninguém, mas ouve o barulho de algocaindo no chão.                      ...
Página 19 de 39Então a priminha acha que pode me fazer de bobo? Sei muito bem que ela  está recebendo o ignóbil. Como pode...
Página 20 de 39                                   JOÃO   Ora. Não há de negar que tens lhe dado motivo de sobra para ser  ...
Página 21 de 39  Prazer em conhecê-la, senhorita. Uma pena as circunstâncias não mepermitirem apreciar seus belos, porém t...
Página 22 de 39                             Não, meu caro.JOÃO aparece por trás de BALTASAR apontando a pistola para sua c...
Página 23 de 39 E quanto a você, mocinha, acho bom levantar e fazer as malas. Vou te                        mandar para o ...
Página 24 de 39                                 MARIANASimão, tive uma ideia. Que tal planejar as coisas melhor? Eu tenho ...
Página 25 de 39sacode) Moça, não dá. Você tem de dizer a ele que é perigoso. Você tem                             de imped...
Página 26 de 39                                 TADEU               Ali, ali o infame. (aponta para os dois)              ...
Página 27 de 39                                 MARIANA                        (sentando-se ao lado dele)Vim assim que sou...
Página 28 de 39                                SIMÃONão senhor, eu matei Baltasar Coutinho estou aqui para ser punido por ...
Página 29 de 39CENA XVSimão passou 19 meses de cárcere num navio em direção à índiaalmejando um raio de sol, um pouco de a...
Página 30 de 39enviara. Simão aceitou o dinheiro, e, na presença de Mourão Mosqueira,pediu ao comandante que fizesse distr...
Página 31 de 39entrevadas para lhes dar o beijo da despedida. Todas cuidavam emreanimá-la, e Teresa sorria, sem responder ...
Página 32 de 39                              COMANDANTE                                Teresa.                            ...
Página 33 de 39                            Chorei, senhor!                              COMANDANTE  Eu não tinha imaginado...
Página 34 de 39                     Eu já o estava, senhor SimãoSIMÃO apoiou a face sobre a mesa, e apertou com as mãos as...
Página 35 de 39realizados como obra minha, se tu me dizias, como disseste muitasvezes, que não serias nada sem o estimulo ...
Página 36 de 39                                SIMÃO                      Queria, senhor comandante.                      ...
Página 37 de 39                               MARIANA                       Quer descer ao camarote?                      ...
Página 38 de 39dia 27 de março, o nono da enfermidade de Simão Botelho. Mariana tinhaenvelhecido. O comandante, encarando ...
Página 39 de 39Mariana tirou o maço das cartas debaixo do travesseiro, e foi a umacaixa buscar os papéis de Simão. Atou o ...
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  1. 1. Página 1 de 39Cena ID. RITA está na sala de sua casa, lendo um livro na cadeira quandoDOMINGOS entra esbaforido com um papel em mãos. Ele anda de um ladopara o outro da sala na frente da mulher até que esta se irrita. D. RITA (irritada e deixando o livro de lado pra olhar séria para o marido) Diz logo o que aconteceu? A carta veio da cidade? DOMINGOS (parando em frente à mulher) Veio de Manuel. D. RITA(levanta da cadeira abruptamente e leva a mão ao coração, fazendo cara de preocupada) De Manuel? O que diz aí? Lê logo a carta. DOMINGOS (lendo a carta)Manuel diz que não quer morar mais com Simão. Diz que ele é de péssimo gênio... D. RITA Que mais? DOMINGOS ...que vem gastando em pistolas o dinheiro dos livros... D. RITA E o que mais? DOMINGOS (impaciente) Vai me deixar ler ou quer ler você mesmo? D. RITA Continua logo! DOMINGOSAnda com os piores tipos da academia, perturba a ordem da vizinhança e vem se envolvendo em políticas.
  2. 2. Página 2 de 39 D. RITA Ora essa! O que será de uma família arruinada por esses malditos comunistas? Meu querido Simão sendo despejado de casa pelo próprio irmão! DOMINGOSOrdenemos que o garoto volte para casa ainda este verão, antes que dê tempo de acontecer algo mais grave.DOMINGOS se retira da sala com seu andar empertigado e deixa a mulhersozinha. D. RITA senta-se em sua cadeira e volta a ler o livro. D. RITA (divagando enquanto lê seu livro) A boa notícia é que terei meu filhinho de volta. Quem sabe não o matriculo no clube de tênis e o visto com as melhores marcas?CENA IID. RITA está na sala com DOMINGOS. DOMINGOS lê o jornal do dia. D.RITA está tricotando. Um empregado entra na sala com malas e as deixano chão. Pede licença e se retira. Logo em seguida, SIMÃO entra nasala com o boletim de notas em mãos.D. RITA deixa o tricô de lado e o abraça. SIMÃO se solta do abraço damãe e vai até o pai. SIMÃO (beijando a mão do pai) A benção, pai. DOMINGOSDeus lhe abençoe meu filho. (bagunça o cabelo do filho) E que abençoe essa sua cabecinha de vento. SIMÃOPois acho que também não se interessa pelos méritos que essa cabecinha de vento conquistou nos últimos dois anos. (estende o boletim para o pai de maneira presunçosa) DOMINGOS (analisando, admirado, as notas do filho) Parabenizo-o pelas notas, mas me parece que ainda há muito a ser explicado sobre seu comportamento nos últimos meses, ainda mais para com seu irmão. SIMÃO
  3. 3. Página 3 de 39 (sentando-se ao lado do pai) Ora meu caro pai, Manuel, assim como todos da academia, são uns chatos. Tão parados que só lhe faltavam algumas velas aromáticas paraficarem mais monásticos. Aliás, agradeço a oportunidade de voltar para casa. D. RITA Mas Simão... SIMÃO(levanta-se, vai até a mãe e passa o braço ao redor de seu ombro, como que para tranquiliza-la)Mas nada, mamãe. As vezes até me esquecia como era viver aqui, esqueço os discos que a senhora sempre tocava na vitrola, o papai lendo o jornal, o sabor dos bolos de fruta... D. RITA Olha só Domingos, como é carinhosos esse nosso menino!DOMINGOS concorda com a cabeça. SIMÃO Ah, e as velhas companhias! Como poderia esquecer as velhas companhias. D. RITA (libertando-se do abraço do filho e levando a mão a testa de maneira dramática) Oh, não! As velhas companhias não! SIMÃO (assovia para a porta) Pessoal, entra aí pra dar um oi pro pai e pra mãe.Três rapazes vestidos pobremente entram. RAPAZ 1 Opa. Tudo beleza, D. Rita? D.RITA Mas era só o que me faltava, esse insolente me dirigindo a palavra! (dá um tapa na cabeça do marido) Venha, Domingos!DOMINGOS segue a esposa para outro aposento. Ambos saem de cena. SIMÃO
  4. 4. Página 4 de 39 Pois é caras. Parece-me que vocês terão de renascer em família rica pra dirigir a palavra à dama do Paço. (dá uma batidinha no ombro do amigo e os dirige à porta) Até mais tarde.Os RAPAZES saem de cena e SIMÃO fica só. RITINHA, a irmã mais nova,entra saltitante na sala com uma HQ nas mãos. Abraça o irmão. SIMÃO Olá irmãzinha. RITINHASimão, o que está acontecendo? Ah, deixa pra lá. Estou feliz que você finalmente está em casa. Você não sabe o inferno que é isso aqui quando você me abandona. SIMÃO Credo Rita. Tão dramática que está ficando igual as sua irmãs. RITINHA Deus me livre. Bom, você vai me levar pra tomar sorvete hoje, né? SIMÃO Claro, claro. Só vou por as malas lá em cima.SIMÃO e RITINHA saem de cena.CENA IIIUma festa onde tem alguns jovens bêbados. Um dos empregados derrubabebida em alguns jovens sem querer e estes partem para cima doempregado. SIMÃO e seus amigos que estavam passando por lá veem aconfusão e resolvem entrar no meio. SIMÃO Aí pessoal. Tão fazendo festinha sem a gente.SIMÃO pega eu bastão e vai para o meio da briga. Seus amigos fazem omesmo.CENA IVNa sala dos Botelho, DOMINGOS e D. RITA recebem a visita do vizinhoTADEU DE ALBUQUERQUE e seu sobrinho BALTASAR COUTINHO. TADEU eDOMINGOS discutem sobre os eventos da noite passada. D. RITA estásentada na cadeira observando. BALTASAR está em pé ao lado do tio, comseu ar presunçoso. TADEU (de modo visivelmente alterado e expansivo)
  5. 5. Página 5 de 39E o que me diz sobre o prejuízo de meus empregados e a injúria de meu sobrinho? DOMINGOS (tentado ficar calmo) Podemos falar com um pouco de calma? TADEU Me pede calma, meu senhor? Ora essa. Foi assim que me prejudicou ejogou lama sobre a honra dos Albuquerque em outro carnavais, não foi?SIMÃO entra na sala. Alheio à conversa, ele parece ignorar as visitas. TADEU Ora, aqui está o rapaz que, em suma, representa tudo que a família Botelho tenta esconder da elite durante todos esses anos. Ainda não entendo como tão bela senhora como D. Preciosa deu a luz à tão vil criatura. DOMINGOS (perdendo a linha) Muita audácia da sua parte vir à minha casa, insultar meu brasão e fazer gracejos a minha mulher. TADEU Vai negar então que seu filho é um baderneiro da pior espécie. SIMÃO Alguém pode me explicar como meu nome tá rolando nessa conversa? DOMINGOS Parece me que andou aprontando de novo, meu filho. SIMÃO AH, a festa de ontem? A gente só estava se divertindo. TADEU (virando-se para o sobrinho) Está vendo, Baltasar, é exatamente gente da laia dos Botelhos que mancham a reputação da nossa cidade. SIMÃOPeraí, você que é o Baltasar? Acho que vi você apanhando feio ontem...BALTASAR se descontrola e tenta partir pra cima de SIMÃO, mas ésegurado pelo tio. SIMÃO tenta revidar e é impedido pelo pai.
  6. 6. Página 6 de 39 TADEUFaça o favor de levar esse seu cãozinho para longe, onde ele não possa manchar-me a honra. DOMINGOS (ainda segurando filho, meio relutante, vira-se para a esposa) Querida, por favor, acompanhe Simão lá para cima, sim?D. RITA pega no braço do filho e ambos saem de cena.TADEU se aproxima ameaçadoramente de DOMINGOS. TADEU Agora é guerra, meu caro.TADEU sai da sala com passos duros, segurando o sobrinho pela manga dacamisa.SIMÃO aparece na sala novamente seguido de sua mãe. SIMÃO (meio zombeteiro) Acho que minha reputação tá manchada por aqui também. DOMINGOS Simão, você será preso. D. RITA Meu filho, preso? Como assim? Ele é seu filho, seu crápula sem coração. DOMINGOS Sinto muito, vou a delegacia dizer que meu filho estava metido na confusão e quando voltar espero que esteja com as malas prontas e tenha feito todas as despedidas.DOMINGOS sai de cena. D. RITA pega sua bolsinha e tira um maço dedinheiro e entrega ao filho. D. RITA Pega criatura, vai embora daqui. SIMÃO (surpreso) Ir embora? Pra onde? D. RITA
  7. 7. Página 7 de 39 Eu sei lá meu filho. Você não tem amigos nas cidades vizinhas não? Pega e vai embora. SIMÃO Mas mãe... D. RITA Vai embora logo antes que seu pai volte com os homens da lei. Vai (enxotando o filho pra fora)D. RITA senta-se na cadeira para esperar o marido. Está impaciente.DOMINGOS volta com um policial. DOMINGOS (grita da porta) Riiiiiiiiita, cadê o moleque? D. RITA Não sei. DOMINGOS Como assim não sabe? D. RITA (cai de joelhos aos pés do marido) Oh, Domingos. Simão ainda é uma criança. Não pode ser preso não. Mandei ele ir embora, vai ser um bom menino a partir de agora. DOMINGOSSó podia ser coisa sua mesmo. (vira-se para o policial) Muito obrigado pela sua paciência, senhor policial. E sinto muito pelo papelão da D. Rita. Sabe como é, essas mães tem o coração muito mole.O POLICIAL acena com a cabeça e sai de cena.CENA VSIMÃO está sentado em um banco, num parque próximo de sua casa,segurando uma flor e cantarolando para si mesmo a espera de TEREZA.TEREZA entra em cena, apressada e senta-se ao lado dele. SIMÃO (vira-se para ela e toca seu rosto com o polegar)Estou radiante de finalmente poder ver tanta beleza pessoalmente, tãode perto. Tens um rosto tão doce e tão belo que diria se tratar de um anjo se não soubesse que o seu pai é o Capiroto em pessoa.
  8. 8. Página 8 de 39 TEREZA Não seja tão rude, Simão. Meu pai só é assim porque se preocupa comigo...SIMÃO cala a boca dela pondo o indicador sobre os lábios dela. SIMÃO Não, não vamos falar sobre o seu pai. Falaremos sobre nós dois. TEREZA O que, meu amor? O que falaremos sobre nós dois? SIMÃO (olhando sonhadoramente para cima segurando firmemente as mãos de TEREZA entre as suas)Sobre a nossa paixão, sobre o nosso futuro, sobre o que vai ser de nós dois daqui pra frente. Vamos falar sobre o amor, vamos viver o amor. Amaremos e seremos amados. Oh, esse louco e desvairado amor que se apossou de um incauto coração.Diga, Tereza. Diga que me ama! TEREZA (aproximando-se mais de SIMÃO) Eu te amo, Simão. E nada nos impedirá de vivermos juntos e felizes para sempre.Pausa, silêncio. SIMÃO A não ser o meu sobrenome... TEREZA Oh, meu amor. Porque insistes em entristecer-me com a tragédia de nosso amor? Não se preocupe, deixe que de meu pai cuido eu. Agora é tarde, devo voltar para casa antes que ele note minha ausência.Os dois se levantam de mãos dadas e ficam de frente um para o outro. SIMÃO Volte, meu amor. Volta para casa, mas antes me prometa que me encontrará aqui amanhã, para me ver antes que eu parta para Coimbra. TEREZA Sim, querido. Voltarei, mas agora preciso me apressar. Adeus, Simão. SIMÃO (beija a mão de TEREZA e a solta, ele a vê partindo) Adeus, Tereza.
  9. 9. Página 9 de 39CENA VID. RITA e DOMINGOS conversando na sala. D. RITA Mas eu já disse que preciso de um vestido novo para ir a esse casamento...SIMÃO entra apressado na sala. SIMÃO A benção, pai. A benção, mãe.SIMÃO sai de cena. D. RITA olha admirada para o filho deixando a sala. D. RITA Tá vendo só? Nosso menino anda uma benção. Mal sai de casa, e quando sai é com a irmã. Não anda mais com aqueles favelados, não teve nem reclamação da vizinhança. Tá até chegando cedo em casa, antes madrugava na farra. Desde que voltou de Coimbra tá parecendo uma pessoa nova... DOMINGOS (impaciente)Tá, Rita, já entendi. O menino tá direito agora. Também, depois desse último corretivo! Só espero que não volte a aprontar em Coimbra... D. RITA (fazendo o sinal da cruz)Vira essa boca pra lá, homem. Simão vai estudar, vai ficar bem de vida e quando ele voltar encontraremos uma moça de boa família para ele se casar. DOMINGOS Deus te ouça, Rita. Deus te ouça.Saem de cena.CENA VIISIMÃO está a espere de TEREZA no parque. Ele está em pé, ansioso,olhando o relógio compulsivamente, com as malas ao lado, pronto parair para Coimbra. TEREZA entra em cena inquieta. SIMÃO (abrindo os braços para abraça-la) Oh, minha querida.TEREZA ignora o abraço de SIMÃO.
  10. 10. Página 10 de 39 TEREZA Não, NÃO TEMOS TEMPO. Temo que meu pai tenha descoberto sobre nossos encontros. O que será de nós agora?Os dois se olham com ternura e desespero. TEREZA dá um beijo nabochecha de SIMÃO. TADEU entra em cena de supetão. TADEU Tereza! O que significa isso? (puxa a filha pelo braço tirando-a de perto de SIMÃO) Seu verme nojento, está desvirtuando minha filha? SIMÃO (atônito) Mas... mas... TADEU (bravo)Mas nada. Já chega. Já vi tudo que tinha pra se ver nesta vida. Vamos embora, Tereza, nunca mais quero vê-la perto desse Botelho imprestável.TADEU sai de cena pisando duro, arrastando a filha, que sai chorando.SIMÃO fica desolado assistindo sua amada partir. DOMINGOS entra emcena. DOMINGOS Simão, meu filho. O que se passa?DOMINGOS põe a mão na testa do filho e o sente febril. DOMINGOS Você está febril. Tem certeza que quer partir agora? SIMÃO(pegando a mala) Sim, meu pai. Parece-me que não há razão para ficar.DOMINGOS sai de cena apressadamente e quando SIMÃO está para sair decena logo atrás do pai, a MENDIGA aparece com um papel dobrado na mão.Ela cutuca o ombro de SIMÃO. SIMÃO O que você quer? MENDIGA(tenta se comunicar através de sua mímica desajeitada, pois não sabefalar) SIMÃO
  11. 11. Página 11 de 39 Vamos! Diga sua velha inútil MENDIGA (Tenta avisar a respeito da carta, se atrapalhando no meio das mímicas) SIMÃO O que é isso? Não quero porcarias de um inseto miserável MENDIGA (Perde a paciência diante de tamanho tumulto, abre o bilhete e “esfrega-o” no rosto de Simão) SIMÃO Se eu pegar vai me deixar em paz? MENDIGA (Acena confirmando o combinado) SIMÃO Ah! Uma carta! MENDIGA (Faz cara de inconformada e vai embora resmungando silenciosamente) SIMÃO (Lendo a carta recebida) “Meu pai diz que vai me colocar num convento por sua causa. Não meesqueça, pois se acha que vai sair por aí fazendo a festa com qualquer uma que aparecer pode esquecer. Vá para Coimbra. Lá entregarão minhas cartas; E na primeira direi em que nome irá responder as minhas cartas.”SIMÃO fica radiante. SIMÃO Muito obrigado, minha senhora. (devolve o papel pra MENDIGA) Agora preciso ir. Parto para Coimbra, mas vou na esperança de receber as doces palavras de minha amada para alegrar meus dias.Os dois saem de cena.CENA VIIITEREZA está sentada na sala de sua casa, lendo uma revista. BALTASARchega e senta ao seu lado. TEREZA deixa a revista de lado. BALTASAR
  12. 12. Página 12 de 39É hora de abrir o coração, prima. (pega a mão de TEREZA) Está disposta a ouvir-me? TEREZA (rudemente) Eu estou sempre disposta a ouvi-lo, primo Baltasar. BALTASAR Acho que nossos corações estão unidos; agora é preciso que as nossas casas se unam. TEREZA fica surpresa e tira sua mão das mãos dele de maneira brusca. BALTASAR (surpreso) Eu disse algo desagradável? TEREZADisse o que é impossível de se fazer. Está enganado se acha que nossos corações não estão unidos. Sou muito sua amiga, mas nunca pensei em ser sua esposa. Nem me lembrei que você pensa nisso. BALTASAR Quer dizer que me aborrece, prima Tereza? TEREZANão. Já disse que o admiro muito, e por isso mesmo não devo ser esposa de um amigo a quem não posso amar. A infelicidade não seria só minha... BALTASAR Muito bem... Eu Posso saber... (sorri maliciosamente) quem é que me disputa seu coração? TEREZA (relutante) Que diferença faz? BALTASAR A diferença é que, pelo menos, saberei que a minha prima ama outro homem... É exato? TEREZA É. BALTASAR
  13. 13. Página 13 de 39 (levanta-se) É com tamanha paixão que desobedece a seu pai? TEREZA (levanta-se pra ficar de frente com o primo) Não desobedeço; o coração é mais forte que a mera vontade de um pai.Desobedeceria se casasse contra a vontade de meu pai; mas eu não disse ao primo Baltasar que casava; disse-lhe unicamente que amava. BALTASAR (andando de um lado para o outro da sala, TEREZA o acompanha com o olhar) Estou espantado com seu modo de falar! Quem pensaria que os seus dezesseis anos estavam tão abundantes de palavras! TEREZA (exaltada) Não são só palavras, primo. São sentimentos que merecem a sua estima,por serem verdadeiros. Se eu lhe mentisse, você ficaria mais bem visto como meu primo. Se o primo não me perdoa a sinceridade que eu tive, e será de hoje em diante meu inimigo. BALTASAR Pelo contrário, muito pelo contrário... Eu lhe provei que sou seu amigo, se alguma vez a vir casada com algum miserável indigno de si. (sarcasticamente) Casada com algum famoso ébrio ou jogador de pau,valentão de aguadeiros, distinto cavalheiro, que passa os anos letivos encarcerado em Coimbra...TEREZA leva a mão ao coração e senta-se novamente, abismada. TEREZA Não tem mais que me dizer, primo Baltasar?BALTASAR senta-se novamente e põe a mão no ombro da prima. BALTASAR Tenho prima. Queira acalmar-se. Não cuida que está falando com o namorado infeliz. Por hora sou seu mais próximo parente, mais sincero amigo e mais decidido guarda de sua dignidade e fortuna. Eu sabia que minha prima, contra a expressa vontade de seu pai, uma ou outra vez conversara da janela com o filho do corregedor. Não dei valor aosucesso, e tomei-o por brincadeira própria da sua idade. Quando soube, pasmei-me da boa-fé da priminha; depois entendi que a sua inocência devia ser o seu anjo da guarda. Agora, como seu amigo, compunjo-me dea ver ainda fascinada pela perversidade de seu vizinho. Não se recorda de ver Simão Botelho suciando com a ínfima vilanagem desta terra? Nãoviu seus criados e esse que vos fala com as cabeças quebradas pelo tal
  14. 14. Página 14 de 39varredor de feiras? Não lhe constou que ele, em Coimbra, abarrotado de vinho, andava pelas ruas armado como um salteador e estradas, proclamando à canalha a guerra aos nobres e aos reis, e à religião de nossos pais? A prima ignoraria isso? TEREZA Ignorava parte disso e não me incomoda sabê-lo. Desde que conheci Simão, não me consta que ele tenha dado o menor desgosto à sua família, nem ouço falar mal dele. BALTASAR E por isso persuadida de que Simão deve ao seu amor a reforma de costumes? TEREZA (vira a cara pra ele e fala com arrogância) Não sei, nem penso nisso. BALTASARNão se zangue, prima. Eu hei de, enquanto viver, trabalhar por salva-la das garras de Simão Botelho. Se seu pai lhe faltar, fico eu. Se as leis a não defenderem dos ataques do seu demônio, eu farei ver aovalentão que a vitória sobre os aguadeiros não o poupa ao desgosto de ser levado a pontapés para fora da casa de meu tio Tadeu de Albuquerque. TEREZA (volta-se para ele irritada) Então o primo quer-me governar!? BALTASARQuero-a dirigir enquanto sua razão precisar de auxílio. Tenha juízo eeu serei indiferente ao seu destino. Não a enfado mais, prima Tereza.BALTASAR se dirige a porta, pisando duro, meio contrariado. Sai decena. TEREZA vai andando atrás dele. TEREZA (irritada) Ótimo, Baltasar. Sai, vai dar uma volta que você já me fez perder a paciência.TEREZA volta a se sentar, pega papel e caneta e começa a escreverfreneticamente. Algum tempo depois, a MENDIGA entra em cena. TEREZA (levantando-se e indo até ela com o papel)
  15. 15. Página 15 de 39 Ah, que ótimo que você está aqui.TEREZA dobra o papel e entrega a ela. TEREZA Faz o seguinte: entrega essa carta para o mesmo rapaz. Lembra-se de Simão, filho do corregedor aí do lado?A MENDIGA acena (confirmando) com a cabeça. TEREZAEntão, faz tudo direitinho. Mas não vá errar heim? Não deixa o pai ver você aqui e não entregue pra ninguém além do rapaz.A MENDIGA presta atenção nas instruções de TEREZA, confirmando com acabeça. TEREZA Tá, agora vai que ele tá vindo aí.TEREZA empurra a MENDIGA para fora de cena. Senta e pega a revista,fingindo estar distraída quando TADEU entra em cena. TEREZA ignora apresença do pai, que senta ao seu lado. TADEU Hoje dará a mão a teu primo Baltasar, minha filha. É preciso que deixes cegamente levar pela mão de teu pai. Logo que deres este passo difícil, conhecerás que a tua felicidade é daquelas que precisam ser impostas pela violência. Mas repara minha querida filha, que aviolência dum pai é sempre amor. Não te consultei outra vez sobre esse casamento por temer que a reflexão fizesse mal ao zelo de boa filha com que tu vais abraçar teu pai, e agradecer-lhe a prudência com queele respeitou o teu gênio, velando sempre a hora de te encontrar digna do seu amor.TEREZA vira a página da revista com tanta violência que faz barulho. Opai logo percebe que ela não lhe prestava atenção. TADEU Não me respondes, Tereza?! TEREZA vira-se para olhar o pai. TEREZA E por que haveria de te responder, meu pai? TADEU Dás-me o que te peço? Enches de contentamento os poucos dias que me restam?
  16. 16. Página 16 de 39 TEREZA E você será feliz com o meu sacrifício? TADEU Não diga sacrifício, Tereza. Teu primo é um conjunto das melhores virtudes. Como se a gentileza e a riqueza não lhe bastassem para formar um marido excelente. TEREZA E ele me quer, depois de eu ter negado? TADEU Se ele está apaixonado? Tenho bastante confiança em ti para crer que hás de amá-lo muito! TEREZA (sarcasticamente)Será mais certo eu odiá-lo para sempre. Eu agora mesmo o abomino como nunca pensei que se pudesse abominar!TEREZA se joga aos pés do pai de forma extremamente dramática. TEREZA Meu pai me mate; mas não me force a casar com meu primo. Evite violência, porque eu não caso!TADEU fica nervoso, levanta-se e tira a filha do chão. TADEU Ah, mas há de casar sim senhora! Se não, serás amaldiçoada para sempre. Serás trancada num convento. Se fores uma alma vil não me pertence, não és minha filha. Maldita sejas! Entra nesse quarto eespera que daí te arranquem para outro, onde não verás um raio de sol.Em lágrimas, TEREZA sai de cena. BALTASAR aparece e vê o tio furioso. BALTASAR Tá tudo bem por aqui? TADEU (triste) Não te posso dar minha filha, porque já não tenho mais filha. A miserável, a quem eu dei este nome, perdeu-se para nós e para ela. BALTASAR (passando o braço pelos ombros do tio)
  17. 17. Página 17 de 39Não se preocupa, a gente dá um jeito nisso. São apenas as bobagens da adolescência.Os dois saem de cena.CENA IXSIMÃO está conversando com JOÃO DA CRUZ quando a MENDIGA se aproxima.Ele vê a MENDIGA chegar com um papel dobrado. SIMÃO Trazes notícias de minha amada, cara amiga?A MENDIGA lhe entrega o papel. SIMÃO começa a ler a carta. Silênciopor alguns segundos. Avançando a leitura, SIMÃO fica mais furioso. SIMÃO (gritando) Desgraçado! JOÃO (tentando acalmar SIMÃO) O que foi, homem? Há de se acalmar, pelo amor de Deus! SIMÃO Acalmar, acalmar nada. (empurra a carta pra MENDIGA) Tereza me conta que seu pai teve a audácia de lhe prometer a mão ao primo, Baltasar. Aquele de que lhe contei que espanquei com uns amigos algum tempoatrás em Viseu. E me conta todas as barbaridades que esse imbecil lhe disse. As ameaças, as ofensas... JOÃO Mas se atreve esse rapaz... SIMÃO (com um pouco de doçura na voz) Mas pelo menos minha amada me chama para visita-la essa noite, em segredo. Poderia me acompanhar, bom amigo João?JOÃO hesita em responder mas por fim assente com a cabeça.CENA XCasa dos Albuquerque. Está vazia quando SIMÃO entra. SIMÃO Tereza? Meu amor?
  18. 18. Página 18 de 39SIMÃO vai entrando na sala. Não vê ninguém, mas ouve o barulho de algocaindo no chão. SIMÃO Quem está aí? Tereza? É você?Silêncio.TEREZA entra em cena. TEREZA (com o indicador esticado em frente aos lábios, pedindo silêncio) Shhhhh. Meu amor, você veio... (abraça SIMÃO calorosamente) Sinto muito, foi um tremendo engano pedir que viesse aqui hoje. SIMÃO Porque? Não se alegras com minha presença? TEREZA Oh, não. Jamais pense nisso, meu amor. Mas hoje estamos recebendo visita e corremos sérios riscos aqui. Peço-lhe que vá embora e volte amanhã. SIMÃO Claro, meu amor. Só deixe-me apreciar sua beleza mais uma vez antes que eu vá embora.Olhar apaixonado. TEREZA Claro, claro, agora vá antes que alguém te veja aqui.SIMÃO sai de cena. BALTASAR aparece. BALTASAR (ironicamente) Falando sozinha, priminha? Esse romance não lhe está fazendo bem aos miolos! TEREZAOra essa Baltasar. Claro que não estou falando sozinha! Estou fazendo uma prece. Eu hein, será que uma moça não pode pedir a Deus que lhe proteja de assombração, feito você.TEREZA sai de cena. BALTASAR (esfregando as mãos maleficamente)
  19. 19. Página 19 de 39Então a priminha acha que pode me fazer de bobo? Sei muito bem que ela está recebendo o ignóbil. Como pode? Essas moças de hoje perderam os bons modos. Recebendo rapazes em casa sem o consentimento do pai! Mas deixe estar que eu cuido disso. E cuido agora mesmo!BALTASAR sai de cena.SIMÃO entra em cena. JOÃO vem logo atrás. JOÃO Simão!(cutuca o rapaz nas costas)SIMÃO vira-se para o amigo. SIMÃO Pois não. JOÃO (coçando a cabeça, hesitando em falar) Devia ter te avisado antes, sinto muito. Preciso lhe contar algo acerca do senhor de Castro Daire, Baltasar, esse que tanto lhe faz ferver o sangue. SIMÃO (impaciente) Pois conte logo! JOÃOEntão, faz bem uns seis meses que ele me mandou chamar a Viseu, com um pedido um tanto peculiar. (pausa)SIMÃO assente com a cabeça, fazendo sinal para que prossiga. JOÃO Ele me pediu para que eu tirasse a vida de um homem. SIMÃO (confuso) E quem é esse homem que ele queria morto? JOÃO Santo pai! (exclama impaciente) O homem era você, Simão! Você! SIMÃO (sem demonstrar surpresa) E por que isso?
  20. 20. Página 20 de 39 JOÃO Ora. Não há de negar que tens lhe dado motivo de sobra para ser malquisto por essa gente. Primeiro o incidente da festa, depois o senhor vem se engraçando com a prima e futura esposa do assassino. SIMÃO Futura esposa uma ova. Nunca que entregarei minha amada Tereza nas mãos de criatura tão vil. (anda de um lado para o outro, pensativo, até parar na frente de JOÃO). Amigo João me acompanha em minha desventura? JOÃO Ajudarei, Simão. Mas porque simpatizo contigo e com vosso pai, aindaque ache essa história de amor proibido uma bela duma enrascada. Devia pedir a permissão do pai da moça.SIMÃO nega com a cabeça. JOÃOMas já que insiste, ajudo sim. Conte-me seu plano e verei o que posso fazer por você. SIMÃO (de maneira maquiavélica) Vamos à caça.Os dois saem de cena. JOÃO volta com uma pistola e TEREZA com o seubastão. MARIANA entra em cena. MARIANA (correndo para abraçar o pai) Pai, aonde vai? JOÃO (compreensivo) Querida, não vê que temos companhia. Não cumprimenta Simão?MARIANA vê SIMÃO. MARIANA (toda derretida) Olá, Simão.SIMÃO toma-lhe a mão e beija. SIMÃO
  21. 21. Página 21 de 39 Prazer em conhecê-la, senhorita. Uma pena as circunstâncias não mepermitirem apreciar seus belos, porém tristes olhos. O que lhe aflige? MARIANA Aflige saber que o senhor e meu pai se enfiam em tamanha empreitada. Para onde vão com pistolas e bastões? SIMÃO Lutar por amor, minha cara. Amor.MARIANA faz cara de choro, fica meio triste. MARIANA Que Deus lhe abençoe então. (sai de cena correndo como quem vai chorar) SIMÃO João, vai por ali procurar o canalha que eu fico por aqui vigiando. JOÃO Vai com calma, amigo.JOÃO sai de cena. SIMÃO dá umas voltas pelo cenário, com o bastãoapoiado no ombro. BALTASAR aparece bem na sua frente. BALTASAR (aponta uma faca na direção de seu pescoço, sem aproximar-se muito) Botelho. SIMÃO (pressiona a ponta do bastão no estômago do rival) Coutinho. BALTASAR O que faz aqui? Sabes que é persona nom grata nas propriedades de um Albuquerque, não? E de qualquer outra família que se preze, claro. SIMÃOLamento não poder dar uma resposta a altura. (finge tristeza) Estou de luto. BALTASAR (olha surpreso, levantando uma sobrancelha) Luto? Luto por quem? Já está antecipando a sua morte? SIMÃO
  22. 22. Página 22 de 39 Não, meu caro.JOÃO aparece por trás de BALTASAR apontando a pistola para sua cabeça,sem que o mesmo perceba. SIMÃO A sua morte.SIMÃO dá uma piscadinha para o amigo. JOÃO atira em BALTASAR que caimorto. SIMÃO se agacha perto do morto e cutuca-o com o bastão para secertificar de que ele está morto. Olha para JOÃO. Silêncio.CENA XITEREZA está na sala de sua casa, escrevendo uma carta para SIMÃO, parase desculpar pelo incidente do dia anterior. TADEU entra e cena,pegando a filha pelo braço violentamente. TADEU Criatura insolente! Pode me explicar o que anda acontecendo nessa casa? TEREZA (assustada) Papai? Está me machucando! E não sei do que está falando.TADEU joga a filha no chão com violência e começa a gritar. TADEUNão sabe do que estou falando? É de meu conhecimento que mandou Simão vir a seu encontro ontem. Como pode?TEREZA se levanta, alisando a saia do vestido. TEREZA Quem lhe contou? Quanto a isso, eu posso explicar... TADEUExplicar? Explique então porque o corpo de seu primo está estendido no quintal com um buraco de bala no crânio. TEREZA (levando a mão a testa, cambaleando) Baltasar está morto?TADEU assente. TEREZA desmaia dramaticamente e fica lá no chão. TADEUnão se comove com a cena. Ainda muito irritado, chega mais perto dafilha. TADEU
  23. 23. Página 23 de 39 E quanto a você, mocinha, acho bom levantar e fazer as malas. Vou te mandar para o convento. TEREZA (levantando-se rapidamente) O que? Não pode fazer isso. TADEU Mas é claro que posso. Desde quando você está no direito de decidir sua própria vida? Agora não lhe restam opções: seu ex-futuro marido está morto. Vá, faça as malas enquanto eu vou a caça do assassino. (faz menção de se retirar) Ou devo dizer: Simão Botelho.TADEU sai de cena. TEREZA Não, não pode ser verdade. Preciso escrever a Simão. (rabisca freneticamente num papel, dobra e sai de cena)CENA XIISIMÃO e MARIANA estão a conversar. JOÃO chega apressado com um papel. JOÃO (empurrando a filha de lado) A pobre lhe trouxe algo. D. Teresa já deve estar informada do ocorrido.SIMÃO, desesperadamente, arranca o papel da mão do amigo. SIMÃO (lendo a carta em voz alta)Querido Simão, as ameaças por fim se concretizaram. Meu pai me colocou no convento de Viseu. Ainda que tive a sorte de conseguir alguns papeis para escrever-lhe. Logo serei transferida para outro convento ainda mais longe. Espero que não me esqueças, pois sempre serás meu amado Simão. Soube da morte do crápula. Não se preocupe, sei que não foi obra de suas mãos, mas meu pai está a sua procura com o meirinho geral e o juiz de fora. Beijos, da amada Teresa.SIMÃO cai aos prantos. MARIANA leva a mão ao coração. SIMÃO Ora essa! Vou atrás dela e tirá-la daquele convento na força. (ele reflete por alguns segundos) Vou fazer melhor, vou fugir com ela quando estiver indo para o outro convento. Claro, não poderia ter ideia melhor.SIMÃO vai se retirando mas MARIANA o impede de sair.
  24. 24. Página 24 de 39 MARIANASimão, tive uma ideia. Que tal planejar as coisas melhor? Eu tenho uma conhecida no convento onde D. Teresa está. Porque não lhe escreve pedindo para que se prepare? Isso pode evitar que essa semana se transforme num evento funesto. SIMÃO (abraçando MARIANA ternamente) Farias mesmo isso por mim, cara Mariana? MARIANA (dá um sorriso triste) Mas é claro.SIMÃO põe-se a escrever, dobra o papel e entrega a MARIANA. SIMÃO Muito obrigada, Mariana. Em você pude achar uma amiga. Muito mais, aliás. Uma irmã.Eles saem de cena.CENA XIIITERESA está ajoelhada no convento, orando e segurando um terço.MARIANA entra apressada. TERESA se levanta. TERESA (ajeitando o vestido, assustada) Pois não? MARIANA Venho da parte de Simão, senhora. (estende a carta para TERESA) TERESA Novidades? (arranca a carta da mão de MARIANA) Querida Teresa...TERESA vai andando de um lado para o outro da sala enquanto lê a cartapara si mesma. MARIANA apenas a observa. TERESA (parando abruptamente ao lado de MARIANA)Ele vai vir me sequestrar na hora que eu for transferida? Mas ele está ficando louco? Isso é impossível! (segura nos ombros de MARIANA e a
  25. 25. Página 25 de 39sacode) Moça, não dá. Você tem de dizer a ele que é perigoso. Você tem de impedi-lo! MARIANA (libertando-se das mãos de TERESA) Eu disse a ele, mas você sabe como é... TERESA De qualquer jeito, faça o possível. Não posso perder o amor de minha vida numa tola empreitada. Uma pena que não posso lhe escrever: tiraram-me papel e caneta depois que souberam para quem estava escrevendo. MARIANA Mas se estou, ora essa! TERESAClaro, claro. Diga então a ele que não venha, pois é perigoso demais. Diga que vá para longe, muito longe porque os homens da lei temcerteza absoluta de que matou Baltasar e me escreva assim que estiverem segurança, escreva para o convento de Monchique. E diga também que eu o amo. MARIANA Tens sorte de ser amada por um homem como Simão. TERESA (aflita e tocando MARIANA para fora do aposento) Sim, sim. Mas agora vá e entregue meu recado. Logo alguém chegará.MARIANA sai e TERESA ajoelha-se e se põe a rezar. SIMÃO entra em cena.TERESA levanta-se e passa os braços pelo ombro do amado. TERESASimão, o que faz aqui? Não recebeu o recado? Por que veio? É perigoso levar esse plano adiante. SIMÃO (se soltando do abraço) Vim para te buscar Teresa. As paredes desse convento não são o suficiente para me separar de você. Venha, vamos. TERESA Por onde você entrou, aliás?TADEU, DOMINGOS e um POLICIAL entram em cena.
  26. 26. Página 26 de 39 TADEU Ali, ali o infame. (aponta para os dois) DOMINGOS Prenda-o, seu guarda.O POLICIAL vai até ele e o rende. TERESA cai aos prantos. TADEU vaiaté ela e a pega pelo braço. TADEUVamos, minha filha. Já temos muita dessas palhaçadas. Está na hora de ir.TADEU sai levando a filha. TERESA resiste um pouco, mas logo saipuxada pelo pai. DOMINGOS(olhando para o filho que está de cabeça baixa com as mãos nas costas, segurado pelo POLICIAL) Filho, matou mesmo o sobrinho de Tadeu? SIMÃO (levantando a cabeça)Matei, matei pai. Não tenho vergonha ou remorsos de dizer que matei o algoz de tão doce criatura como Teresa.DOMINGOS dá um tapa no filho. DOMINGOSPois és um tolo. (faz sinal para o POLICIAL) Leva, leva essa criatura daqui. Não tenho mais filho.CENA XIVSIMÃO todo amarrotado é jogado na cela pelo POLICIAL. Ele fica ládeitado no chão. MARIANA entra apressada com uma garrafa de pinga e umsaco de pão, papel e caneta. SIMÃO (sentando no chão) Mariana? O que você está fazendo aqui?
  27. 27. Página 27 de 39 MARIANA (sentando-se ao lado dele)Vim assim que soube que foi preso. (entrega-lhe a pinga e o pão) Não é muita coisa, mas era só o que tinha pronto em casa. Fiquei preocupada depois que soube que seu pai estava no momento em que foi preso e não fez nada para ajudar. SIMÃO Eu não tenho pai.MARIANA abraça SIMÃO. MARIANA Eu sinto muito, Simão. Mas olha, eu lhe trouxe papel e caneta.SIMÃO pega o papel e caneta. Enquanto escrevia, chega o POLICIAL. POLICIALSenhor! Aprume-se. O juiz está vindo para lhe julgar. Queira a senhora se retirar, por favor.SIMÃO e MARIANA se levantam, ficando um ao lado do outro. MARIANA seagarra ao braço de SIMÃO. MARIANAMas de jeito nenhum. (bate o pé no chão) Aqui estou e daqui ninguém me tira. POLICIAL Tudo bem, mas tente não interferir.O JUIZ entra. JUIZ Simão, tem algo a dizer em sua defesa.MARIANA olha para ele esperançosa.
  28. 28. Página 28 de 39 SIMÃONão senhor, eu matei Baltasar Coutinho estou aqui para ser punido por isso. JUIZPois admite isso então? Sem se importar que seu destino seja a forca? SIMÃO Digo que o meu coração é indiferente ao destino de minha cabeça.O JUIZ dá sinal para que o POLICIAL e a moça se retirem, deixandoSIMÃO sozinho novamente na cela. A MENDIGA entra em cena. SIMÃOPobre senhora. Lamento não ter sequer uma moeda no momento. Mas o que tens para mim?A MENDIGA lhe entrega a carta de TEREZA e sai. SIMÃO (lendo a carta) “SIMÃO, MEU ESPOSO. Sei de tudo...Está conosco a morte. Olha que te escrevo sem, lágrimas. A minha agonia começou há tempo. Deus é bom, que me poupou ao crime. Ouvi a notícia da tua própria morte, e então compreendi porque estou morrendo hora a hora. Aqui está o nosso fim, Simão!...Olha as nossas esperanças Quando tu me dizias os teus sonhos de felicidade, e eu que te dizia os meus!... Que mal fariam a Deus os nosso desejos?!...Ver-nos-emos num outro mundo, Simão? Ao menos,morrer é esquecer. Eu também estou condenada, e sem remédio. Segue-me, Simão! Não tenha saudades da vida, não tenhas, ainda que a razão te diga que podias ser feliz, se não me tivesses encontrado no caminhopor onde te levei a morte...E que morte, meu Deus!...Aceita-a ! Não te arrependas. Se houve crime, a justiça de Deus te perdoará pelas angústias que tens de sofrer no cárcere...e nos últimos dias, e na presença da...”
  29. 29. Página 29 de 39CENA XVSimão passou 19 meses de cárcere num navio em direção à índiaalmejando um raio de sol, um pouco de ar que não fosse filtrado pelasbarras metálicas. Já não tinha mais ânsia de amar e sim de viver.Teresa pedira a Simão que aceitasse dez anos de cadeia e esperasse aísua redenção por ela.“Dez anos! Em dez anos terá morrido meu pai meu pai e eu serei tuaesposa, e irei pedir ao rei que te perdoe se não tiveres cumprido asentença. Se vais ao degredo, para sempre te perdi, Simão, porquemorrerás, ou não acharás memória de mim, quando voltares”Simão sem qualquer tipo de esperança, responde a carta com palavrasmelancólicas“Não esperes nada, mártir. A luta com a desgraça é inútil, e eu nãoposso já lutar. Foi um atroz engano o nosso encontro. Não temos nadaneste mundo. Caminharemos ao encontro da morte. Há um segredo que sóno sepulcro se sabe. Ver-nos-emos?As palavras únicas de Tereza, em resposta àquela carta, significativada turbação do infeliz, foram estas:"Morrerei Simão, morrerei. Perdoa tu ao meu destino... Perdi-te... Bemsaber que sorte eu queria dar-te... e morro, porque não posso, nempoderei jamais resgatar-te. Se podes, vive; Não te peço que morras,Simão; Quero que vivas para me chorares. Consolar-te á o meuespírito.. Estou tranquila. Vejo a aurora da paz... “Adeus até o céu,Simão”.No dia 10 de março de 1807, Simão recebe a intimação para sair naprimeira embarcação que levava âncora do Douro para a Índia.Nenhum estorvo impedia o embarque da Mariana, que se apresentou aocorregedor do crime como criada do degredo, como passagem paga por seuamo.CENA XVI17 de março de 1807, saiu dos cárceres da Relação, Simão AntônioBotelho e embarcou no cais da Ribeira, com 75 companheiros. Omagistrado, fiel amigo de D. Rita Preciosa, foi a bordo da naurecomendou ao comandante que distinguisse o condenado Simão,consentindo-o na tolda, e sentando-o à sua mesa. Chamou Simão departe, e deu-lhe um cartucho de dinheiro em ouro, que sua mãe lhe
  30. 30. Página 30 de 39enviara. Simão aceitou o dinheiro, e, na presença de Mourão Mosqueira,pediu ao comandante que fizesse distribuir pelos seus companheiros dedegredo o dinheiro que lhe dava. DESEMBARGADOR É demente o senhor Simão?! SIMÃO Nem ao menos sei quem me mandou este dinheiro DESEMBARGADOR Foi sua mãe SIMÃO Não tenho mãe. Quer vossa excelência devolver esta esmola rejeitada? DESEMBARGADOR Não, senhor SIMÃOSenhor comandante cumpra o que lhe peço, ou eu atiro o dinheiro no rio (O comandante aceitou o dinheiro, e o DESEMBARGADOR sai de bordo espantado da sinistra condição do moço) SIMÃO Onde é Monchique? (Pergunta SIMÃO à MARIANA) MARIANA É acolá, senhor Simão. (Respondeu lhe indicando o mosteiro se debruça sobre a margem do Douro, em Miragaia) Simão cruzou os braços, e viu através do gradeamento do mirante um vulto.Era Teresa que na véspera recebera o adeus de Simão, e responderaenviando-lhe a trança dos seus cabelos. Ao anoitecer daquele dia,pediu Teresa os sacramentos, e comungou à grade do coro, onde se foiamparada à sua criada, Parte das horas da noite passou-as sentada aopé do santuário de sua tia, que toda a noite orou, Algumas vezes pediuque a levassem à janela que se abria para o mar, e não sentia ali afrialdade da viração. Conversa serenamente com as freiras, e despede-se de todas, uma a uma, indo por seu pé às celas das senhoras
  31. 31. Página 31 de 39entrevadas para lhes dar o beijo da despedida. Todas cuidavam emreanimá-la, e Teresa sorria, sem responder aos piedosos artifícios comque as boas almas a si mesmas queriam simular esperanças. Ao abrir damanhã, Teresa leu uma a uma a cartas de Simão Botelho. Emaçou depoisas cartas, e cintou-as com fitas de seda desenlaçadas de raminhos deflores murchas, que Simão, dois anos antes, lhe atirara da sua janelaao quarto dela. As pétalas das flores soltas quase todas sedesfizeram, e Teresa, contemplando-as, disse: TERESA Como a minha vida (Chora beijando os cálices desfolhados das primeiras que recebera)Às nove horas da manhã pediu a Constança que a acompanhasse aomirante. Foi então que Simão Botelho a viu. Ouviu-se a voz de levas âncora e largas amarras. Simão encontrou-se à amurada do navio, com os olhos fixo ao mirante. Viu se agitar um lenço, e ele respondeu com o seu à aquele aceno. O navio desceu ao mar, e passou fronteira ao convento. Distintamente Simão viu um rosto e uns braços suspensos das reixas de ferro; Mas não era de Teresaaquele rosto; Seria antes um cadáver que subiu da claustra ao mirante, com os ossos da cara içados ainda das herpes da sepultura. SIMÃO É Teresa? MARIANA É, senhor, é ela.De repente aquietou o lenço que se agitava no mirante, e entreviuSimão um movimento impetuoso de alguns braços e o desaparecimento deTeresa e do vulto de Constança. Mais tarde adiou-se a saída para o diaseguinte. Ao escurecer, voltou de terra o comandante, e contemplou,com os olhos embaciados de lágrimas. O desterrado, que contemplava asprimeiras estrelas, iminentes ao mirante. COMANDANTE Procura-a no céu? SIMÃO Se a procuro no céu! COMANDANTE Sim!... No céu deve ela estar. SIMÃO Quem, senhor?
  32. 32. Página 32 de 39 COMANDANTE Teresa. SIMÃO Teresa...! Morreu?! COMANDANTE Morreu, além, no mirante, donde ela estava acenando.(O COMANDANTE bate nas costas de SIMÃO e tenta animá-lo) COMANDANTE Coragem, grande desgraçado, coragem! Os homens do mar crêem em Deus! (MARIANA estava um passo atrás de SIMÃO, e tinha as mãos erguidas) SIMÃO Acabou-se tudo!... Eis-me livre... Para a morte... Senhor comandante eu não me suicido. Pode deixar-me. COMANDANTE Peço-lhe que se recolha à câmara. O seu beliche está ao pé do meu. SIMÃO É obrigatório recolher-me? COMANDANTE Para vossa senhoria não há obrigações; há rogos: peço-lhe, não mando. SIMÃO Vou, e agradeço a compaixão.SIMÃO encara MARIANA, e diz ao comandante: SIMÃO E esta infeliz? COMANDANTE Que deus o siga... (SIMÃO recolheu-se ao beliche, e o COMANDANTE sentou-se em frente dele, e MARIANA ficou no escuro da câmara a chorar). COMANDANTE Fale, senhor Simão! Desafogue e chore. SIMÃO
  33. 33. Página 33 de 39 Chorei, senhor! COMANDANTE Eu não tinha imaginado uma angústia igual à sua. A invenção humana não criou ainda um quadro tão atroz. Que desgraçado moço o senhor é! SIMÃO Por pouco tempo... COMANDANTEPor pouco tempo, creio eu, mas se os amigos pudessem salvá-lo, senhor,eu dar-lhes-ia na Índia mais fiéis que em Portugal. Prometo-lhe, sob aminha palavra de honra, alcançar do vizo-rei a sua residência em Goa.Prometo segurar-lhe um decente principio de vida e as comodidades quefazem a existência tão saudável como ela é na Ásia. Não o intimide aideia do degredo, senhor Simão. Viva, faça por vencer-se, e seráfeliz! SIMÃO O seu silêncio, por piedade, senhor... COMANDANTE Bem sei que é cedo ainda para planejar futuros. Desculpe à simpatia que me inspira a indiscrição, mas aceite um amigo nesta hora atribulada. SIMÃOAceito, e preciso dele... Mariana! Venha aqui, se este cavalheiro opermite. Esta mulher tem sido a minha providência porque ela me valeu,não senti a fome em dois anos e nove meses de cárcere. Tudo que tinhavendeu para me sustentar e vestir. Se eu morrer, senhor comandante,aceite o legado de ampará-la com a sua caridade como se ela fosseminha irmã. Se ela quiser voltar à sua pátria, seja o seu protetor napassagem. (E estendendo lhe a mão disse) O senhor promete? COMANDANTE Juro.O COMANDANTE, obrigado a subir ao tombadilho, deixou SIMÃO comMARIANA. SIMÃO Estou tranquilo pelo seu futuro, minha amiga. MARIANA
  34. 34. Página 34 de 39 Eu já o estava, senhor SimãoSIMÃO apoiou a face sobre a mesa, e apertou com as mãos as fontesarquejantes. MARIANA, de pé, ao lado dele, fitava os olhos na luzmortiça da lâmpada oscilante, e cismava, como ele, na morte.Às onze horas da noite, o comandante recolhera-se num beliche depassageiro, e Mariana, sentada no pavimento, com o rosto sobre osjoelhos, parecia sucumbir ao quebranto das trabalhosas e aflitivashoras daquele dia. Simão Botelho velava prostrado no camarote, com osbraços cruzados sobre o peito, e os olhos fitos na luz que balançavapendente de um arame. À meia-noite, estendeu Simão o braço trêmulo aomaço das cartas que Teresa lhe enviara, e contemplou um pouco a queestava ao de cima, que era dela. Rompeu a obreia, e dispôs-se nocamarote para alcançar o baço clarão da lâmpada. Dizia assim a carta:"É já o meu espírito que te fala, Simão. A tua amiga morreu. A tuapobre Teresa, à hora em que leres esta carta, se Deus não me engana,está em descanso. Eu devia poupar-te a esta última tortura; não deviaescrever-te; mas perdoa à tua esposa do céu a culpa, pela consolaçãoque sinto em conversar contigo a esta hora, hora final da noite daminha vida. Quem te diria que eu morri, se não fosse eu mesma? Daqui apouco perderás de vista este mosteiro; correrás milhares de léguas, enão acharás, em parte alguma do mundo, voz humana que te diga: Ainfeliz espera-te noutro mundo,e pede ao Senhor que te resgate. Se tepudesses iludir, meu amigo, quererias antes pensar que eu ficava com avida e com esperança de ver-te na volta do degredo? Assim pode ser,mas, ainda agora, neste solene momento, me domina a vontade de fazer-te sentir que eu não podia viver. Parece que a mesma infelicidade temàs vezes vaidade de mostrar que o é, até não podê-lo ser mais! Queroque digas: Está morta, e morreu quando eu lhe tirei a últimaesperança. Isto não é queixar-me, Simão: não é. Talvez, que eu pudesseresistir alguns dias à morte, se tu ficasses; mas, de um modo ou deoutro, era inevitável fechar os olhos quando se rompesse o último fio,este último que se está partindo, e eu mesma o ouço partir.Não vão estas palavras acrescentar a tua pena. Deus me livre deajuntar um remorso injusto à tua saudade. Se eu pudesse ainda ver-tefeliz neste mundo; se Deus permitisse à minha alma esta visão!...Feliz, tu, meu pobre condenado!... Sem o querer, o meu amor agora tefazia injúria, julgando-te capaz de felicidade! Tu morrerás desaudade, se o clima do desterro te não matar ainda antes de sucumbiresà dor do espírito. A vida era bela, era, Simão, se a tivéssemos comotu pintavas nas tuas cartas, que li há pouco! Estou vendo a casinhaque tu descrevias defronte de Coimbra, cercada de árvores, flores eaves. A tua imaginação passeava comigo às margens do Mondego, à horapensativa do escurecer. Estrelava-se o céu, e a Lua abrilhantava aágua. Eu respondia com a mudez do coração ao teu silêncio, e, animadapor teu sorriso, inclinava a face ao teu seio, como se fosse ao deminha mãe. Tudo isto li nas tuas cartas; e parece que cessa odespedaçar da agonia enquanto a alma se está recordando. Noutra carta,me falavas em triunfos e glórias e imortalidade do teu nome. Também euia após da tua aspiração, ou adiante dela, porque o maior quinhão dosteus prazeres de espírito queria eu que fosse meu. Era criança há trêsanos, Simão, e já entendia os teus anelos de glória, e imaginava-os
  35. 35. Página 35 de 39realizados como obra minha, se tu me dizias, como disseste muitasvezes, que não serias nada sem o estimulo do meu amor.Ó Simão, de que céu tão lindo caímos! A hora que te escrevo, tu estáspara entrar na nau dos degredados, e eu na sepultura. Que importamorrer, se não podemos jamais ter nesta vida a nossa esperança de hátrês anos? Poderias tu com a desesperança e com a vida, Simão? Eu nãopodia. Os instantes do dormir eram os escassos benefícios que Deus meconcedia; a morte é mais que uma necessidade, é uma misericórdiadivina, uma bem-aventurança para mim. E que farias tu da vida sem atua companheira de martírio? Onde tu irás aviventar o coração que adesgraça te esmagou, sem o esquecimento da imagem desta dócil mulher,que seguiu cegamente a estrela da tua malfadada sorte?!Tu nunca hás de amar, não, meu esposo? Terias pejo de ti mesmo, se umavez visses passar rapidamente a minha sombra por diante dos teus olhosenxutos? Sofre, sofre ao coração da tua amiga estas derradeirasperguntas, a que tu responderás, no alto mar, quando esta carta leres.Rompe a manhã. Vou ver a minha última aurora... a última dos meusdezoito anos! Abençoado sejas, Simão! Deus te proteja, e te livre deuma agonia longa. Todas as minhas angústias lhe ofereço em descontodas tuas culpas. Se algumas impaciências a justiça divina me condena,oferece tu a Deus, meu amigo, os teus padecimentos, para que eu sejaperdoada. Adeus! À luz da eternidade parece-me que já te vejo, SimãoErgueu-se o degredado, olhou em redor de si e fitou com espasmoMARIANA, que levantava a cabeça ao menor movimento dele. MARIANA Que tem, senhor Simão? (disse ela, erguendo-se) SIMÃO Estava aqui, Mariana?... Não vai se deitar?! MARIANA Não vou; o comandante deu-me licença de ficar aqui. SIMÃO Mas há de assim passar a noite?! Rogo-lhe que vá, porque não é necessário o seu sacrifício. MARIANA Se o não incomodo, deixe-me aqui estar, senhor Simão. SIMÃO Esteja, minha amiga, esteja... Poderei subir ao convés? COMANDANTE Quer ir ao convés, senhor Botelho?
  36. 36. Página 36 de 39 SIMÃO Queria, senhor comandante. COMANDANTE Iremos juntos.Simão ajuntou a carta de Teresa ao maço das suas, e saiu cambaleando.No convés sentou-se num monte de cordame, e contemplou o mirante doMonchique, que avultava negro ao sopé da serra penhascosa em queatualmente vai a Rua da Restauração. O capitão passeava da proa à ré,mas com o ouvido fito aos movimentos do degredado. Receara ele opropósito do suicídio, porque Mariana lhe incutira semelhantesuspeita. Queria o marítimo falar-lhe palavras consoladoras, maspensava consigo: "O que há de dizer-se a um homem que sofre assim?" Eparava junto dele algumas vezes, como para desviar-lhe o espíritodaquele mirante. SIMÃOEu não me suicido! Se a sua generosidade, senhor capitão. Se interessa em que eu viva, pode dormir descansado a sua noite, que eu não me suicido. COMANDANTE Mas mereço-lhe eu a condescendência de descer comigo à câmara? SIMÃO Irei; mas eu, lá, sofro mais, senhor. COMANDANTE Não!Replicou o COMANDANTE, e continuou a passear no convés apesar dasrajadas de vento. MARIANA estava agachada entre os pacotes da carga, a pouca distância de Simão. O COMANDANTE viu-a, falou-lhe, e retirou-se. Às três horas da manhã, Simão Botelho segurou entre as mãos a testa, que se lhe abria abrasada pela febre. Não pôde ter-se sentado, e deixou cair o meio corpo. A cabeça, ao declinar, pousou no seio de Mariana. SIMÃO O Anjo da compaixão sempre comigo! (murmurou ele) Teresa foi muito desgraçada...
  37. 37. Página 37 de 39 MARIANA Quer descer ao camarote? SIMÃO Não poderei... Ampare-me, minha irmã.Deu alguns passos para a escadinha, e olhou ainda sobre o mirante.Desceu a íngreme escada, apegando-se às cordas. Lançou-se sobre ocolchão, e pediu água que bebeu insaciavelmente. Seguiu-se a febre, oestarrecimento, e as ânsias, com intervalo de delírio. De manhã veio abordo um facultativo, por convite do capitão. Examinando o condenado,disse que era febre maligna a doença, e bem podia ser que ele achassea sepultura no caminho da Índia. Mariana ouviu o prognóstico, e nãochorou. As onze horas saiu barra fora a nau. As ânsias da doençaacresceram as do enjôo. A pedido do comandante, Simão bebia remédios,que bolsava logo, revoltos pelas contrações do vômito. Ao segundo diade viagem, Mariana disse a Simão: MARIANASe o meu irmão morrer, que hei de eu fazer àquelas cartas que vão na caixa?Pasmosa serenidade a desta pergunta! SIMÃO Se eu morrer no mar. Mariana, atire ao mar todos os meus papéis, todos; e estas cartas que estão debaixo do meu travesseiro também. Passada uma ânsia, que lhe embargava a voz, Simão continuou: SIMÃO Se eu morrer, que tenciona fazer, Mariana? MARIANA Morrerei, senhor Simão. SIMÃO Morrerás?!... Tanta gente desgraçada que eu fiz!...A febre aumentava. Os sintomas da morte eram visíveis aos olhos docapitão, que tinha sobeja experiência de ver morrerem centenas decondenados, feridos da febre no mar, e desprovidos de algummedicamento. Ao quarto dia, quando a nau se movia ronceira defronte deCascais, sobreveio tormenta súbita. O navio fez-se ao largo muitasmilhas, e, perdido o rumo de Lisboa, navegou desnorteado. Ao sexto diade navegação incerta, por entre espessas brumas, partiu-se o lemedefronte de Gibraltar. E, em seguida ao desastre, aplacaram asrefregas, desencapelaram-se as ondas, e nasceu, com a aurora do diaseguinte, um formoso dia de primavera. Era o dia de primavera. Era o
  38. 38. Página 38 de 39dia 27 de março, o nono da enfermidade de Simão Botelho. Mariana tinhaenvelhecido. O comandante, encarando nela, exclamou: COMANDANTE Parece que volta da índia com os dez anos de trabalhos já passados! MARIANA Já acabados... de certo...Ao anoitecer desse dia o condenado delirou pela última vez, e diziaassim no seu delírio: "A casinha, defronte de Coimbra, cercada deárvores, flores e aves. Passeavas comigo à margem do Mondego, à horapensativa do escurecer. Estrelava-se o céu, e a Lua abrilhantava aágua. Eu respondia com a mudez do coração ao teu silêncio, e, animadapor teu sorriso, inclinada a face ao teu seio, como se fosse o deminha mãe... De que céu tão lindo caímos!... A tua amiga morreu... Atua pobre Teresa... E que farias tu da vida, sem a tua companheira demartírio?... Onde irás tu aviventar o coração que a desgraça teesmagou?!... Rompe a manhã... Vou ver a minha última aurora... aúltima dos meus dezoito anos. Oferece a Deus os teus padecimentos,para que eu seja perdoado...Mariana..."Mariana colocou os ouvidos aos lábios roxos do moribundo, quandocuidou ouvir o seu nome. "Tu virás ter conosco; ser-te-emos irmãos nocéu... O mais puro anjo serás tu... se és deste mundo, irmã; se ésdeste mundo, Mariana..."A transição do delírio para a letargia completa era o anúncioinfalível do trespasse.Ao romper da manhã apagara-se a lâmpada. Mariana saíra a pedir luz, eouvira um gemido estertoroso. Voltando às escuras, com os braçosestendidos para tatear a face do agonizante, encontrou a mão convulsa,que lhe apertou uma das suas, e relaxou de súbito a pressão dos dedos.Entrou o COMANDANTE com uma lâmpada, e aproximou-lha da respiração,que não embaciou levemente o vidro. COMANDANTE Está morto!MARIANA curvou-se sobre o cadáver, e beijou-lhe a face. Era o primeirobeijo. Ajoelhou depois ao pé do beliche com as mãos erguidas, e nãoorava nem chorava.Algumas horas volvidas, o comandante disse a Mariana: COMANDANTE Agora é tempo de dar sepultura ao nosso venturoso amigo... Éventura morrer quando se vem a este mundo com tal estrela. Passe asenhora Mariana ali para a câmara que vai ser levado daqui o defunto.
  39. 39. Página 39 de 39Mariana tirou o maço das cartas debaixo do travesseiro, e foi a umacaixa buscar os papéis de Simão. Atou o rolo no avental, que ele tinhadaquelas lágrimas dela, choradas no dia da sua demência, e cingiu oembrulho à cintura. Foi o cadáver envolto num lençol, e transportadoao convés. Mariana seguiu-o.Do porão da nau foi trazida uma pedra, que um marujo lhe atou àspernas com um pedaço de cabo. O comandante contemplava a cena tristecom os olhos úmidos, e os soldados que guarneciam a nau, tão funeralrespeito os impressionara, que insensivelmente se descobriram.Mariana estava, no entanto, encostada ao flanco da nau, e pareciaestupidamente encarar aqueles empuxões que o marujo dava ao cadáver,para segurar a pedra na cintura.Dois homens ergueram o morto ao alto sobre a amurada. Deram-lhe obalanço para o arremessarem longe. E, antes que o baque do cadáver sefizesse ouvir na água, todos viram, e ninguém já pôde segurar Mariana,que se atirara ao mar.A voz do comandante desamarraram rapidamente o bote, e saltaram homenspara salvar Mariana. Salvem na!...Viram-na, um momento, bracejar, não para resistir à morte mas paraabraçar-se ao cadáver de Simão, que uma onda lhe atirou aos braços. Ocomandante olhou para o sítio donde Mariana se atirara, e viu, enleadono cordame, o avental, e à flor da água, um rolo de papéis, que osmarujos recolheram na lancha. Eram, como sabem, a correspondência deTeresa e Simão.Da família de Simão Botelho vive ainda, em Vila-Real-de-Trás os-Montes, a senhora D. Rita Emília da Veiga Castelo Branco, a irmãpredileta dele. A última pessoa falecida, há vinte e seis anos, foiManoel Botelho, pai do autor deste livro. FIM

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