Successfully reported this slideshow.
We use your LinkedIn profile and activity data to personalize ads and to show you more relevant ads. You can change your ad preferences anytime.

Luiz.pilla.vares o.anarquismo pesquisavel

281 views

Published on

  • Be the first to comment

  • Be the first to like this

Luiz.pilla.vares o.anarquismo pesquisavel

  1. 1. yf})síntese universitária ô Editora da Universidade Universidade Federal do Rio Grande do Sul
  2. 2. O anarquismo (promessas de liberdade). A história das idéias anarquistas ou libertárias está presente nesta obra, remontando perspectivas de quase dois séculos, e que ainda se colocam como assunto presente. Luiz Pilla Vares traça os vínculos existentes entre as origens do anarquismo moderno, a Revolução Francesa, o marxismo e as demais teorias socialistas que emergem na turbulência da queda das monarquias e o nascimento das repúblicas. A obra passa por Proudhon e por Bakunin, vindo até os movimentos sociais libertários que surgiram na Europa e nos Estados Unidos. universitária Editora da Universidade Universidade Federal do Rio Grande do Sul ISBN 85-7025-173-4
  3. 3. O anarquismo promessas de liberdade Luiz Pilla Vares 0Editora da Universidade Universidade Federal do Rio Grande do Sul Síntese universitária/15
  4. 4. © de Luiz Pilla Vares l! edição: 1988 Direitos reservados desta edição: Universidade Federal do Rio Grande do Sul Capa: Carla Luzzatto Ilustração: desenho de Falke para uma capa do Crapouillot, em 1938. Administração: Maria Beatriz A.B. Galarraga Editoração: Geraldo F. Huff Revisão: Maria Isabel Tinun, Haydée Diebold, Mônica Ballejo Canto e Sandra Gabert Masi Montagem: Rubens Renato Abreu A publicação desta obra conta com o patrocínio da Secretaria de Ensino Superior, através do Programa de Estímulo à Editoração do Trabalho do Intelectual das IES-Federais. Composição: K&M — Composição, Arte e Revisão Ltda. Impressão: Pallotti Luiz Pilla Vares Jornalista. Formado em Gências Jurídicas e Sociais. Autor dos livros Socialismo e liberdade, Porto Alegre, 1985; Glasnost, aprimavera vermelha, Porto Alegre, 1987Rosa, a vermelha, São Paulo, 1988; Opescador de pérolas:por um marxismo vivo, Porto Alegre, 1988. V296a Vares, Luiz Pilla O anarquismo: promessas de liberdade. — Porto Alegre : Ed. da Universidade/UFRGS ; MEC/SESu/ PROEDI, 1988. 95p. —.(Série síntese universitária) 1. Anarquismo. 2. Anarquismo — socialismo. 3. Anarquismo — Revoluções. I. Título. II. Série. CDU 329.285 329.285 : 329.14 329.285 : 323.272 Catalogação na fonte da Biblioteca Central da UFRGS. ISBN 85-7025-173-4
  5. 5. Para Elizabeth Souza Lobo e Marco Aurélio Garcia A obra de Proudhon Que é a propriedade? tem, para a economia nacional moderna, a mesma importância que a obra de Siéyès, O Que é o Terceiro Estado, para a política moderna. KARL MARX Não temos nem desejamos ter habilidades políticas. A melhor habilidade é sermos sinceros. HÉLIO NEGRO E EDGARD LEUENROTH A lição: um socialismo revolucionário que se liberta do jacobinismo marxista-leninista corre o sério risco de retomar às ideologias pequeno-burguesas e contra-revolucionárias. Só existe uma forma sã e segura de desjacobinizar-se, de situar-se devidamente diante do socialismo autoritário: unir-se ao socialismo libertário, o único valor não desvalorizado de nosso tempo, o único socialismo que permanece jovem, o único socialismo autêntico. DANIEL GUÉRIN
  6. 6. SUMÁRIO Pequena introdução à história das idéias libertárias.............. 7 A idéia e os precursores.............................................................. 18 Proudhon: a propriedade é um roubo........................................ 26 Bakunin: a revolta permanente.................................................. 37 Kropotkin, opríncipe anarquista....................................... 5 O anarquismo na prática............................................................. 58 Começa a revolução............................................................... 58 O comunismo dos conselhos: oproletariado russo 64 Espanha: o comunismo libertário.......................................... 73 Libertários no Brasil: a organização independente do proletariado........................................................................ 82 Conclusão: e hoje?....................................................................... 90
  7. 7. PEQUENA INTRODUÇÃO À HISTÓRIA DAS IDÉIAS LIBERTÁRIAS Terá sentido estudarmos hoje, quando estamos quase no século XXI, as idéias anarquistas ou libertárias? Não será um mero exercício acadêmico ou algo semelhante ao médico legista que disseca cadáveres? Pois atinai de contas o anarquis­ mo e/ou as idéias libertárias tiveram sua origem ainda no século XVni e seu apogeu, sua idade dourada, no século XIX e nas primeiras décadas do atual. Não penso assim. Ao contrá­ rio, ao longo dos anos, tenho solidificado a opinião de que, mesmo fora dos compêndios filosóficos, as idéias anarquistas se projetaram para o futuro e, mesmo com a deliberada intenção de todas as correntes de pensamento em considerá-las como a mera “infância” do pensamento socialista, sem nenhuma atualidade prática nos tempos atuais, exerceram e continuarão a exercer uma considerável influência nos projetos de transfor­ mação social, particularmente a partirde Maio de 1968, quando todas as velhas fórmulas clássicas do fenômeno revolucionário se revelaram insuficientes, ineficazes, para dizer o mínimo. E, ao contrário, as intuições anarquistas e/ou libertárias acaba­ ram rompendo o bloqueio e revelando-se com uma surpreen­ dente modernidade para o questionamento teórico e prático da sociedade autoritária. Assim, perspectivas de quase dois séculos, colocadas con­ tra a parede e “enterradas” pela idolatria estatal da esquerda, ressurgiram com impressionante atualidade e hoje podemos falar em Proudhon, Kropotkin, Bakunin, Malatesta, Fabri, na FAI espanhola, sem nos colocarmos na posição de dissecadoies de cadáveres e, sim, como estudiosos de um projeto que ficou 7
  8. 8. entre parênteses durante várias décadas e pode hoje ser perfei­ tamente reassumido como contemporâneo de nosso presente. Certamente, o resgate do anarquismo não pode ser feito em bloco, como se pretendêssemos dar “vida” ao antigo debate entre os libertários e os marxistas. Em primeiro lugar, porque o anarquismo, se tem uma história e uma “árvore genealógica”, não é uma “doutrina” sem contradições, fechada. Ao contrário: tem muitas faces e caminhos, teóricos e práticos. E, da mesma forma como o marxismo, muitas de suas propostas realmente envelheceram e ficaram sepultadas em seu século. Outras, po­ rém, renasceram, assumiram um novo vigor e apresentam-se diante de nosso tempo, teórica e praticamente, como um desa­ fio. Desafio, aliás, que a humanidade vem se propondo desde os seus primórdios. Ou, para sermos mais precisos, quando 0 Estado e a propriedade privada entraram na cena da história. Assim, poderíamos fazer como George Woodcock, uma árvore genealógica do anarquismo que remontasse à infância da histó­ ria,1 mas uma empreitada desse tipo ultrapassaria em muito os limites deste trabalho, que não é mais do que uma pequena introdução às idéias libertárias. E, é claro, quando falamos em introdução às idéias, não pensamos na construção mera­ mente abstrata, mas na vinculação do pensamento anarquista com a sua prática, o que significa, em última análise, ao seu desafio proposto aos homens e mulheres: a luta concreta pela liberdade e a igualdade. E isso começa, verdadeiramente, com a Grande Revolução Francesa de 1789. Iniciemos, pois, nosso trabalho pelo significado da Revolução Francesa que derrubou em poucos anos uma ordem estabelecida várias vezes milenar, destruindo um tipo específico de propriedade e uma forma particular de Estado, proclamando e prometendo à humanidade a liberdade e a igualdade. Costuma caracterizar-se a Revolução de 1789 como bur­ guesa. Burguesa foi a sociedade que dela emergiu. Havia uma série de forças sociais empenhadas na derrubada do absolutismo 1WOODCOCK, George. A idéia. In: Anarquismo: uma história das idéias e movimentos libertários. Porto Alegre, L&PM, 1983. v.l. p.31-50. 8
  9. 9. e da monarquia, na destruição do modo de produção feudal. Assim, Pedro Kropotkin, o grande pensador anarquista, vê a revolução burguesa como um freio às suas características essencialmente plebéias2e o marxista libertário Daniel Guérin concebe o processo da Revolução Francesa comopermanente, tomando-se burguês apenas na medida em que o conteúdo plebeu que pretende levar a revolução além de seus limites burgueses é reprimido.3 Detenhamo-nos um pouco sobre esta questão, pois tudo começa aí. A 14 de julho de 1789 caía a Bastilha, símbolo da autocracia e do absolutismo. Símbolo do poder feudal e do obscurantismo na França. Daí à derrubada da monarquia de Luiz XVI e à proclamação da República ainda demorou algum tempo. No entanto, o 14 de julho é efetivamente o marco referencial da Revolução Francesa. Não o seu início, pois este é difícil de precisar cronologicamente, na medida em que as massas da cidade e do campo já estavam em movi­ mento há muito tempo, antes da queda da Bastilha, e a própria convocação, pelo monarca, dos Estados Gerais foi um elemento fundamental no processo revolucionário. A Bastilha caiu justa­ mente porque a Grande Revolução estava em marcha e nenhuma força tinha condições para detê-la naquelas circunstâncias his­ tóricas. Os conservadores, incapazes de compreender a lógica da história, lamentam-se: se Luiz XVI fosse mais duro... Esque­ cem-se que ele era o próprio tipo que simbolizava a decadência da aristocracia e do feudalismo. Ou seja, se não fosse Luiz XVI, seria outro rei, igualmente impotente diante do momento que impugnava historicamente o velho regime. É certo que os indivíduos imprimem a sua marca nos processos históricos, mas só o fazem, positiva ou negativamente, se agem de acordo com o seu tempo. E 1789 não era mais a época dos senhores ^KROPOTKIN, Pierre, A grande revolução (1789-1793). Salvador, Pro- gresso, 1955. 2v. ^GUÊRIN, Daniel. A luta de classes em França na primeira república (1 7 Q 3 -1 7 Q 5 ). Lisboa, A Regra do Jogo, 1977. 9
  10. 10. feudais e muito menos da monarquia absoluta. A burguesia e a plebe entravam no cenário histórico. E agora seriam os Robespieire, os Marat, os Danton, os Saint-Just, os Babeuf e tantos outros que personificavam a nova era. Tomavam-se, eles e a plebe, os atores, mas também os autores da história, a tal ponto que ainda hoje a Grande Revolução Francesa e os movimentos sociais que a realizaram significam muito nos dias atuais. As lições que eles proporcionam, participando e mudando uma época histórica inteira, vão continuar atraves­ sando os tempos, isto é, a Revolução Francesa permanece viva quase dois séculos depois da tomada da Bastilha pelo povo revolucionário. Naquele 14 de julho, o dia despontou agitado. A plebe se preparava para o assalto à Bastilha, aquele centro de horrores e desprezo ao ser humano (e quantas Bastilhas ainda existem espalhadas pelo mundo contemporâneo) e certamente sabia que o velho regime estava chegando ao fim. Aquele dia, em 1789, era o dobre de finados. A plebe parisiense e os deserda­ dos de todos os tipos que começaram a se concentrar na saída dos subúrbios e nos cafés estavam certos de que os privilégios dos aristocratas agonizavam e que um novo mundo estava por nascer. Mas o que viria depois? Isso os plebeus franceses não sabiam. Ou melhor, sabiam o que queriam: a democracia igualitária, o fim da opressão, o domínio do povo —a Nação —e, mais adiante, a República: queriam Liberdade, Igualdade e Fraternidade. O que os ple­ beus, os pobres de Paris, não sabiam é que as revoluções triunfantes acabam percorrendo caminhos diferentes dos que estavam traçados nas consciências mais avançadas e revolucio­ nárias. Na verdade, a Revolução Francesa, antes de serburgue­ sa, foi radicalmente plebéia.4 O que o povo revolucionário não poderia imaginar naquele 14 de julho, quando a Bastilha já havia caído e sonhava-se com a imediata instauração de ^GUÊRIN, DanieL La Revohción Francesa y nosotros. Madri, Villalar, 1977. 10
  11. 11. um regime de liberdade, igualdade e fraternidade, é que, em seguida, viriam o Terror, o Termidor, Napoleão Bonaparte, a Restauração, para que o processo revolucionário completasse o seu curso. E, como prometeu, só fosse retomá-lo meio século depois, em 1848. Ou seja, a sonhada liberdade radical e comple­ ta, o império da razão, o entendimento entre os homens e uma nova era de fraternidade, enfim todos os grandes ideais que formavam a consciência da Revolução, acabaram se redu­ zindo às liberdades burguesas, à liberdade político formal, à igualdade meramente jurídica entre os homens. A igualdade real, concreta, havia sido apenas um sonho? Na verdade, por um breve período de tempo, a plebe esteve efetivamente com o poder em suas mãos. Robespierre e os seus — os Jacobinos — apenas em parte representaram este poder que estava nas ruas e nas comunas, o poder dos “braços nus”, o poder dos sans-cullottes. Este aspecto da Grande Revo­ lução raramente é salientado pelos historiadores, cuja maior parte insiste em identificar, sem fissuras, o jacobinismo com a plebe revolucionária. Penso que apenas Pedro Kropotkin e Daniel Guérin, entre os grandes historiadores da Revolução Francesa, fazem esta separação necessária. Os jacobinos eram, realmente, a facção mais decidida e mais radical da burguesia revolucionária. Eram, sob certos aspectos, sensíveis às reivindi­ cações da plebe. Mas constituíam, ao mesmo tempo, um freio ao domínio plebeu. E quando chegou Napoleão, após o Termi­ dor que encerrou a dominação jacobina, o rumo tomado pela Grande Revolução já era bem diferente daquele clima que tomou conta das ruas de Paris e se espalhou pelas províncias em 14 de julho de 1789. E a Revolução Francesa, como a Russa, mais de um século depois, deixa a interrogação: será que todas as revoluções acabam encontrando o seu Termidor? Esta pergunta tem sido colocada várias vezes, sem que se chegue a um acordo, desde o advento de Napoleão Bona­ parte. E recuando ainda mais no tempo: desde que Spartacus e seus escravos foram esmagados com seus sonhos de uma república comunista dos oprimidos, pelo imperialismo romano. 11
  12. 12. Mas uma pergunta os historiadores não fazem: e se o curso tomado tivesse sido outro? Se a plebe permanecesse em seu posto e, ao invés do Termidor contra-revolucionário preparar o caminho para Napoleão Bonaparte, tivessem os pobres de Paris aplainado a estrada para a Conspiração dos Iguais de Babeuf e Buonarrotti?5 Não se trata, apenas, de buscar a “versão dos vencidos”, mas de tentarmos pensar as possibilidades contidas na história, de um outro curso que não o acontecido: a possibilidade que nos fala Walter Benjamin.6O certo é que a Revolução Francesa foi um divisor de águas. Assim, Woodcock salienta que “na Revolução Francesa, o choque entre as duas tendências — libertária e autoritária — era evidente e em certas ocasiões chegava a assumir formas violentas...” Tal como Kropotkin, também percebemos que durante esse período surgiram algumas das idéias que se transformariam no anarquismo do século XIX. Condorcet, um dos cérebros mais fecundos da época, que acreditava no progresso infinito do homem rumo a uma sociedade sem classes, enquanto se escondia dos jacobinos, já havia anunciado a idéia da mutualité, que viria a ser um dos pilares do anarquismo de Proudhon. Condorcet concebeu um grande plano de ajuda mútua, que reuniria todos os operá­ rios para salvá-los dos perigos das crises econômicas, durante as quais eram normalmente obrigados a vender seu trabalho em troca de salários de fome. O outro pilar do anarquismo proudhoniano era o federalismo, objeto de muitas discussões e experiências durante a Revolução. E enquanto a Comuna de Paris veria na criação da República Federal, em 1871, um meio de salvar Paris de uma França reacionária, os girondinos imaginavam que ela poderia salvar a França de uma Paris jacobina. Um tipo mais autêntico de federalismo social surgiu '’VARES, Luiz Pilla. O 14 de julho. Zero Hora, Porto Alegre, 14 jul. 1986. p.4. ^BENJAMIN, Walter. Obras escolhidas: magia e técnica, arte e política, São Paulo, Brasiliense, 1985. p.222-32. 12
  13. 13. então entre as várias instituições revolucionárias semi-espon- tâneas da época, primeiro nos “distritos” ou “seções” em que fora dividida a capital para fins eleitorais, dando origem à Comuna de Paris, e depois na rede de Sociedades Populares e Irmandades, assim como nos comitês revolucionários que aos poucos iam tomando o lugar das seções, à medida que estas se tomavam órgãos políticos subordinados, dominados pelos jacobinos... Kropotkin vê nesse tipo de organização uma expressão primitiva dos princípios do anarquismo e conclui que esses princípios não são fiuto de especulações teóricas mas de atos da Grande Revolução Francesa.7 Woodcock, po­ rém, vê um certo exagero do pensador anarquista, uma ânsia de provar as origens populares de seu pensamento e acrescenta que o que Kropotkin “não chega a perceber é o fato de que o direito de legislar continua existindo, mesmo que apenas ao nível de assembléias gerais; o povo govema. Assim, deve­ mos considerar esse período revolucionário como uma tentativa de estabelecer não a anarquia, mas a democracia direta. Entre­ tanto, ainda que não fosse anarquista na verdadeira acepção do termo — tal como sua sucessora em 1871 — a Comuna era federalista e nisto ela antecipou Proudhon, ao criar um esboço, um modelo tosco do tipo de estrutura prática na qual, segundo ele julgava, seria possível desenvolver uma sociedade anarquista”.8 Entretanto, se as críticas de Woodcock são pertinentes, não é menos verdade que havia um embrião de anarquismo na Grande Revolução e este se encontrava entre Jacques Roux, Jean Variet e os Enragés, os quais se uniam na recusa às idéias jacobinas sobre a autoridade do Estado, defendendo a tese de que o povo deve exercer a ação direta e propondo medidas econômicas comunistas como o único caminho para acabar com os sofrimentos dos pobres. Assim, é certo que já na Revolução Francesa estavam em conflito as concepções libertárias e autoritárias do processo 7WOODCOCK, George. Op. cit. p.45-6. ^Idem, ibidem. 13
  14. 14. revolucionário. O pensador polonês Leszek Kolakowsky tem dado inequívocas contribuições no plano teórico, ao desnudar os regimes totalitários. Seus escritos trazem, apesar do saudá­ vel ceticismo de que estão impregnados, uma lúcida tomada de posição em favor da liberdade. No entanto, Kolakowsky, em sua paixão pela liberdade, acaba fazendo uma indevida crítica ao pensamento revolucionário, ao identificar de maneira um tanto simplista o espírito revolucionário com o autorita­ rismo, o que nem sempre é correto. Em primeiro lugar, o chamado espírito revolucionário não pode ser analisado em si mesmo, abstratamente, desligado de sua época e das condi­ ções que o engendram. Ou seja, o espírito revolucionário é fundamentalmente prático, não especulativo, e só tem sentido se vinculado à ação, que &sua essência, seu próprio conteúdo e sua razão de ser. Toda época revolucionária possui, assim, o seu próprio espírito, que se nutre da realidade na qual está imerso. “A coruja de Minerva só levanta vôo ao anoitecer”, dizia Hegel. E isto vale também para as épocas revolucionárias. Desta for­ ma, as épocas de revolução geram o seu próprio pensamento revolucionário que não pode ser considerado como um bloco monolítico, sem tendências, sem fissuras. Como vimos, já na Revolução Francesa coexistiam correntes libertárias, descentra- lizadoras e comunalistas, com correntes autoritárias e centrali­ zadoras, as quais, por sua vez, igualmente possuíam tendências diversas e, até mesmo, conflitantes. Portanto, é possível conceber a Revolução Francesa como de essência nitidamente libertária em contraposição ao absolu­ tismo monárquico. Não obstante, essa essência libertária da Revolução Francesa acaba gerando o autoritarismo jacobino que, teoricamente, propõe-se a levar o processo revolucionário às últimas conseqüências. Mas, ao geral, o jacobinismo como uma de suas vanguardas —a principal —a própria Revolução nega a sua essência libertária e alguns de seus postulados teóricos, preparando, durante o terror, o caminho para o domí­ nio ditatorial de Napoleão Bonaparte. 14
  15. 15. No século XIX, com o advento do movimento operário, refletem-se os conflitos entre as tendências autoritárias e liber­ tárias no interior das teorias socialistas que procuravam expres­ sar o conteúdo deste mesmo movimento. A começar, por exem­ plo, pelo próprio Proudhon. Com efeito, o autor de Que é a propriedade? e Filosofia da miséria elaborou um pensamento em seu conjunto nitidamente libertário, podendo, com justa razão, ser considerado por Daniel Guérin, entre outros, como um legítimo precursor da teoria da autogestão, tão discutida hoje em dia. Entretanto, se ê verdade que Proudhon é, em essência, um libertário, contestador implacável de qualquer foima de Governo e de Estado, não é menos verdade que, quando se propõe a analisar a família e o papel da mulher, revela-se um empedernido reacionário. Também na polêmica que, pela primeira vez, causou uma grande divisão entre os socialistas, Bakunin, o mais famoso representante do pensamento anarquista, acusou Karl Marx de autoritarismo. Por outro lado, Marx e Engels não cansaram de condenar os métodos de Bakunin, que, através de uma aliança secreta — a “Aliança da Democracia Socialista” —, procurava dominar a Associação Internacional dos Trabalha­ dores (AIT), a Primeira Internacional. Na realidade, ainda está para ser feita uma verdadeira análise desta polêmica, cujo eco ainda é perfeitamente perceptível hoje em dia. Bakunin tem razão em apontar aqui e ali tendências autoritárias no pensamento de Karl Marx e Friedrich Engels, mas esconde, às vezes deliberadamente, as tendências libertárias que perpas­ sam o pensamento marxista. É inegável, porém, que também Marx e Engels, em uma série de apreciações que fazem sobre Mikhail Bakunin, distorcem o seu pensamento, na medida em que suas idéias demonstram, com o passar dos anos, um imenso ^GUÉRIN, Daniel. L’anarchisme. Paris, Gallimard, 1965. p.68. E também: GURVITCH, George. Proudhon e Marx. Lisboa, Presença, 1980. p.127.; MOTTA, Fernando C. Prestes. Burocracia e autogestão; a proposta de Proudhon. São Paulo, Brasiliense, 1981.; BANCAL, Jean, PTOUdhOTttp[ura~ lismo e autogestão. Brasília, Novos Tempos, 1984. 15
  16. 16. vigor, especialmente no que diz respeito ao perigo de um Estado altamente centralizado, com orótulo de socialista, sufo­ car a liberdade e a iniciativa de milhões de trabalhadores. O antagonismo entre os libertários e os autoritários se projetou para o tempo e acabou por cindir de forma até agora irremediável os socialistas, com o advento da Rússia sob o domínio bolchevique, ao qual os anarquistas chegaram a simpa­ tizar durante algum tempo. E, ainda mais funda ficou a fissura com o surgimento do stalinismo, o qual, se é verdade que complementa certas tendências inerentes à teoria de Lênin, por outro lado, aniquila certas virtudes inegáveis contidas no “leninismo”. Hoje, com as revoluções no mundo subdesen­ volvido, periférico e colonial, assim como o impasse verificado nos países industrializados, o debate está readquirindo atuali­ dade prática, especialmente após o Maio de 1968, pois estamos diante de acontecimentos vivos, que se passam diante de nossos olhos e que, de uma ou de outra forma, envolvem-nos. Assim, se a revolução dos países coloniais e dependentes parece de­ sembocar sempre em regimes de feições altamente autoritárias, nos países desenvolvidos criam-se tendências de cunho nitida­ mente oposto, libertárias em essência. O certo é que a questão não é simples, nem pode ser resolvida de forma mecânica e dogmática, o que, no entanto, parece ser a tendência de tantos revolucionários, obstinados por sua própria natureza. Em todo o caso, o problema teórico não é para ser solucionado no terreno especulativo, pois a revolução, em si mesma, é um ato autoritário que se dá na prática, na vida real e concreta das sociedades. No entanto, ao realizar-se ela gera dois movimentos contraditórios: um que tende a perpetuá-la como ato autoritário, instituciona- lizando-a justamente nesse aspecto. O outro movimento vai em sentido inverso: busca soltar as virtualidades contidas no processo e que têm, como seu conteúdo básico, a ampliação do espaço para a liberdade humana. E, ao que parece, apesar de tudo, é este segundo aspecto, o libertário, que está se afirmando, pois quando a humanidade se coloca uma questão 16
  17. 17. desse tipo é porque as condições para a sua solução já estão dadas, embora as revoluções do século XX tenham devorado vorazmente as suas chamas libertárias, estas teimam em renas­ cer, cada vez com mais ímpeto. 17
  18. 18. A IDÉIA E OS PRECURSORES Para os anarquistas, de todos os preconceitos que cegam o homem desde a origem dos tempos, o mais fimesto é o do Estado, DANIEL GUÉRIN Vimos os vínculos existentes entre as origens do anarquis­ mo moderno e a Grande Revolução Francesa. Estes vínculos também existem entre o marxismo e as demais teorias socia­ listas que emergem na turbulência da queda da monarquia e o nascimento da República. Mas, tal como o marxismo, as idéias anarquistas vão se desenvolver em íntima ligação com o desenvolvimento do movimento operário que nasce para­ lelamente à burguesia e ao modo de produção capitalista. E tal como as primeiras idéias socialistas do século XIX, também as anarquistas se revestem de um invólucro idealista, não raras vezes ingênuo. Entretanto, desde o seu início os traços do anarquismo são difíceis de definir. “Seus mestres quase nunca condensaram seu pensamento em tratados sistemáticos... Além disso, existem várias espécies de anarquismo. E muitas varia­ ções no pensamento de cada um dos maiores libertários”.10 Assim, é preciso fazer aressalva de que o pensamento libertário é muito mais complexo em sua diversidade e que é praticamente impossível traçar com segurança uma evolução linear, com suas divisões e subdivisões, tal como se faz em relação ao socialismo de inspiração marxista. É preciso não esquecer o fato de que o próprio Bakunin, pormais de uma vez, se reivindi­ cou de Marx e do materialismo histórico, e que um de seus mais próxim os segu idores, o italiano C ario C a fiero, fo i o autor ^GUÉRIN, Daniel. Uanarchisme. Op. cit. p.5. 18
  19. 19. de um dos primeiros resumos para a vulgarização do primeiro tomo de O capital. “Não nos tomemos chefes de uma nova religião”, escreveu Proudhon a Karl Marx. E esse antidogma- tismo que perpassa todo o pensamento socialista libertário não ajuda a simplificar, o que é o objetivo desta pequena introdução. Mas há, evidentemente, uma trajetória comum, que se poderia resumir na concepção socialista ou comunista da sociedade e, fundamentalmente, no combate sem tréguas a qualquer forma de Estado. E é nesse sentido que procura­ remos trazer ao debate esse instigante pensamento que sempre é dado como coisa do passado e sempre retoma atualidade quando o questionamento da sociedade passa da teoria à práti­ ca. Na verdade, os problemas colocados pelos grandes pensado­ res socialistas libertários, longe de terem sido sepultados pelo tempo, renovam-se e persistem como fascinantes interrogações por todos aqueles que se preocupam com o homem e seu destino planetário. Além disso, os libertários estiveram presen­ tes em todas as grandes comoções sociais desde o século XIX, na Comuna de 1871, na Revolução Russa e em seus soviets de 1917, na Alemanha e na Itália em 1918, na Espanha de 1936 e em Maio de 1968. No Brasil, é preciso não esquecer, o movimento operário foi em primeiro lugarlibertário, anarcos- sindicalista, e a velha COB —a Confederação Operária Brasi­ leira —tem ainda muito a ensinar a um sindicalismo que apenas agora começa a se libertar das tutelas do Estado e de uma legislação corporativista e de inspiração fascista.11 Vejamos então o que é o anarquismo, palavra antiga, mile­ nar, que vem da Grécia, composta de “an” e ''arkhê”, signifi­ cando ausência de autoridade ou de governo. No excelente Dicionário do pensamento marxista, editado por Tom Bottomo- re, o verbete anarquismo aparece definido como “a doutrina e o movimento que rejeita o princípio da autoridade política 11A Voz do Trabalhador, jornal que circulou de 1908 a 1915, era o órgão central da COB. A Imprensa Oficial do Estado de São Paulo editou, em 1985, uma coleção fac-similar do jornal da COB, com um prefácio do historiador Paulo Sérgio Pinheiro. 19
  20. 20. e sustenta que a ordem social é possível e desejável sem esta mesma autoridade”.12 Mas os anarquistas estão muito longe de pretenderem um caos permanente. Ao contrário. Proudhon, por exemplo, que apesar das aparências é mais um construtor do que um destruidor, entendia a anarquia como o avesso da desordem e do caos. Para ele, o governo é o fator da desordem. Entretanto, tanto ele como o seu principal discípulo, o russo Mikhail Bakunin, entendiam a palavra em seu duplo sentido, ao mesmo tempo a mais formidável das desordens, a desorganização mais absoluta da sociedade, isto é, a revolu­ ção e, paralelamente, a reconstrução, a formação de uma nova ordem, estável e racional, baseada na liberdade e na solidarie­ dade, como acentua Daniel Guérin.13 Mas muito antes de Proudhon e Bakunin (em um livro a meu ver com muitos equívocos, entre os quais o de tratar o anarquismo como sucessor do liberalismo, quando penso que se trata, apesar da preservação do indivíduo e do individua­ lismo, da negação prática e teórica do liberalismo) Henri Arvon tem o mérito indiscutível de esboçar uma breve história do anarquismo, inidando-a com o inglês William Godwin.14 Também no Dicionário dopensamento marxista, de Botto- more, William Godwin ê apresentado como o autor da “primei­ ra exposição sistemática do anarquismo”.1SEm sua monumen­ tal História do pensamento socialista, o britânico G.D.H. Cole destaca a obra de Godwin, Enquiry intopoliticaljustice (1793), como anarquista: “O ideal que Godwin apresenta é o de que a humanidade deve começar a prescindir de todas as formas de governo e a confiarpor completo na boa vontade espontânea e no sentido de justiça de cada homem, guiado pela norma i^BOTTOMORE, Tom (org.). A dictionary of marxist thought, Cambridge, Harvard, 1983. p.18. ^GUÉRIN, Daniel. V anarchisme. Op. cit. p.14. 14ARVON, Henri. História breve do anarquismo, Lisboa, Verbo, 1966. ^BOTTOMORE, Tom (org.). A dictionary of marxist thought. Op. cit. p.18. 20
  21. 21. final da razão. Acreditava na razão como guia infalível para a verdade e o bem, presente em todos os homens, embora obscurecida nas sociedades atuais por convenções irracionais e práticas coercitivas. Verdadeiro discípulo do século XVIII, o Século das luzes, acreditava totalmente na perfectibilidade da raça humana, não no sentido de que os homens chegassem alguma vez a ser perfeitos, porém no de um contínuo e infinito avanço para uma racionalidade superior e um aumento de bem- estar... Sua doutrina era a de um puro comunismo no gozo dos frutos da natureza e do trabalho do homem sobre o propor­ cionado pela natureza”.16Godwin, porém, como salienta Cole, não era apenas um filho do Século das luzes, do Iluminismo, mas, também, dos puritanos ingleses. Ele nasceu em Wisbeach, em 1756, filho de um pastor e destinado também ele a se tomar um pregador religioso, profundamente influenciado pelo calvinismo, sendo nomeado pastor em 1778 em Ware. Seu biógrafo, Henri Roussin, acentua-lhe a retidão de caráter. E, talvez, seja justamente esta retidão de caráter que lhe faz descobrir na leitura de Rousseau, Mably e Helvetius as verda­ des de seu século, abalando-lhe definitivamente a fé calvinista e abandonando as funções religiosas em 1782, quando parte para Londres, onde se coloca na ala esquerda do partido Whig (liberal). O ano, porém, que marca decisivamente sua vida é o da Revolução Francesa, 1789. O próprio Godwin conta: “Era o ano da Revolução Francesa! O meu coração batia forte­ mente ao compasso do sentimento e da liberdade. Li, com grande satisfação, as obras de Rousseau, de Helvetius e de outros escritores franceses. Observei neles um sistema mais geral, e mais simplesmente filosófico, do que na maioria dos autores ingleses que abordavam os mesmos assuntos. E fiquei com grandes esperanças numa revolução, de que aqueles escri­ tores tinham sido os precursores”.17E é esse entusiasmo pela l6COLE, G.D.H. Los precursores (1789-1850). In: Historia deipensamiento socialista. México, Fondo de Cultura Econômica, 1974. v.l. p.32. 17ARVON, Henri. Op. cit. p.31. 21
  22. 22. Revolução que leva Godwin a escrever sua obra que leva o pomposo título de An inquiry concerning political justice and its influence on general virtue and happiness (Um inquérito acerca da justiça política e da sua influência na virtude e na felicidade humanas) ou, simplesmente Enquiry into political justice, como ficou conhecida. As teses de William Godwin, hoje quase esquecidas, tiveram grande repercussão em sua épo­ ca. Malthus, por exemplo, escreveu o seu Ensaio sobre o princípio da população como uma resposta a Godwin e, em 1794, os poetas Southey, Coleridge e Wordsworth pretendiam ir para os Estados Unidos a fim de fundarem ali uma sociedade aos moldes da preconizada por Godwin. Algumas de suas idéias influenciaram Robert Owen e suas cooperativas socialistas, que tiveram posteriormente um papel fundamental na formação do socialismo inglês e no próprio marxismo. Owen é conside­ rado, juntamente com os franceses Saint-Simon e Fourier, por Marx e Engels como um dos três mais importantes “socialistas utópicos” que teriam umainfluência decisiva para o surgimento do “socialismo científico”. Mas a influência e a “glória” de Godwin eram restritas a um público leitor liberal e avançado para uma Inglaterra conservadora, cuja classe dominante abo­ minava a sua obra. Aliás, e ele certamente não é o único nesse aspecto, alguns fatos de sua vida pessoal entram em contradição com sua obra. Veemente inimigo do casamento, que considerava “a pior das leis” e a “pior das propriedades”, casou-se secretamente com Mary Woolstonekraft, em 1797. Teve ainda um segundo matrimônio em 1801. Acérrimo inimigo dos preconceitos, não aceitou, porém, o romance do poeta Shelley com sua filha Mary, proibindo aos amantes que fre­ qüentassem a sua casa. Morreu pobre em 1836, como um peque­ no funcionário de um ministro, triste fim para quem um dia abalara mentes jovens, depositando as maiores esperanças num mundo novo. Outro precursor do anarquismo é. sem dúvida alguma, o alemão Max Stimer, cujo nome verdadeiro era Johann Caspar 18Idern, ibidem. p.43. 22
  23. 23. Schmidt, nascido na Baviera em 1806. Foi, como todos os jovens alemães universitários de sua época, fortemente influen­ ciado por Hegel, a cujos cursos assistiu. Mas, ao contrário de seu mestre, voltou-se desde logo contra o Estado, afirmando que “somos ambos, o Estado e eu, inimigos” e que “todo Estado é uma tirania, seja a tirania de um só ou de vários”. Stimer pertencia ao círculo dos chamados jovens hegelianos ou a esquerda hegeliana, da qual aproximou-se Karl Marx, mas logo tomou-a objeto de suas críticas ferinas e demolidoras, das quais Stimer não escapou. Sua principal obra, O único e sua propriedade (1844) surge em um momento no qual 0 movimento operário já afirmava a sua autonomia e o marxismo estava em processo de elaboração. Proudhon já pontificava como teórico do socialismo francês, que tanto impressionara —e influenciara —Marx e Engels. Ocorre, porém, que Stimer em O único e sua propriedade leva ao extremo aquele anarquis­ mo individualista, desvinculado da luta de classes real e a sua revolta não é uma revolta social. Antes é a revolta do “eu”, a consciência do “único”. Stimer afirma: “Nós vencere­ mos a opressão, mas só na medida em que verificarmos que esses poderes refiram a sua força, única e simplesmente, da ignorância em que nos mantemos do nosso papel de criadores absolutos e soberanos”. Daniel Guérin, que curiosamente não menciona William Godwin, começa a sua cativante Antologia do anarquismo, intitulada Ni Dieu, ni maître (Nem Deus, nem senhor), justamente por Max Stimer, definindo-o como um “revoltado solitário”.19A originalidade de Stimer é a de reabi­ litar o indivíduo numaépoca e num cenário —aintelectualidade alemã da primeira metade do século XIX — extremamente antiindividualista, pendendo para as tendências socializantes que surgiam da esquerda hegeliana, onde pontificava principal­ mente Bruno Bauer. Cole, porém, vê um certo parentesco entre as idéias de Stimer e as de Fichte na ênfase colocada 19GUÉRIN, Daniel. Ni Dieu, Ni Maître: anthologie de Vanarchisme, Paris, Maspero, 1980. p.9. 23.
  24. 24. na racionalidade do espírito humano individual.20 Não seria exagero afirmar que o anarquismo individualista de Max Stimer antecipa algumas das teses que viriam a ser defendidas, com muito mais beleza e profundidade, anos mais tarde por outro alemão: Nietzsche. Das posições filosóficas de Max Stimer, porém, não poderia ganhar consciência qualquer movimento social e não foi apenas de Marx e Engels que ele recebeu uma crítica demolidora. Também Proudhon criticou a “adora­ ção stiraeana do indivíduo”. Mas, se isso é verdade, não é menos certo que ao desmistificaro Estado e amoral burguesa, Stimer lançou as bases da teoria anarquista. A verdade é que Stimer, hoje, é um nome pouco mencio­ nado, tanto na história do pensamento socialista, o que seria natural dado o seu exacerbado individualismo, quanto na histó­ ria da filosofia, o que, de certa forma, é injusto, pois sua obra teve um papel antecipador em vários aspectos, inclusive da psicanálise. Era um homem de paradoxos. Individualista extremado, seu único luxo era o fumo e aceitou de bom grado o pseudônimo de Stimer, em razão de sua enorme fronte {stirn em alemão significa testa). Arvon conta o seu triste final de vida: “O esquecimento e, em breve, a miséria atormenta­ ram-no e acabaram por entenrá-lo vivo. Com suas últimas eco­ nomias, o filósofo tentou entrar em negócios e abriu uma leiteria. Mas se o recolhimento do leite era fácil, custava muito mais vendê-lo. A falência reduziu-o à extrema miséria. Tentou ainda captar o favor do público com algumas traduções e compilações. Mas em vão. Em 1853, a sociedade lembrou-se dele, mas para o mandar duas vezes para a cadeia. Nem mesmo na morte escapou ao ridículo. Uma mosca envenenada picou-o na nuca e venceu a resistência do único. O Registro Civil anota secamente acerca de seu falecimento, ocorrido em 1856: Nem mãe, nem mulher, nem filhos”.21 Assim, com o desaparecimento de William Godwin e Max Stimer, desaparecem também aquelas idéias precursoras do 20COLE, G.D.H. Op. cit. pJ225. 21ARVON, Henri. Op. cit. p.42. 24
  25. 25. anarquismo desvinculadas do novo movimento social que já começava a se afirmar, sepultadas as ilusões nas promessas liberais da Grande Revolução Francesa. A liberdade, a igual­ dade e fraternidade se fragmentavam diante do muro erguido pela burguesia, a nova classe dominante, com o seu modo de produção capitalista e o seu estado. O novo movimento social não era mais simplesmente plebeu como nas grandes jornadas de 1789. Entrava em cena o movimento operário vivo, com reivindicações próprias, afirmando-se a cada passo. E as idéias dos precursores teriam de cederlugar àqueles pensa­ dores que procuravam tirar as conclusões necessárias das novas lutas de classe. E entre estes ocuparam os primeiros lugares, antes do marxismo se afirmar, os socialistas anarquistas, os libertários. Começa uma nova era na longa história das lutas sociais da humanidade. 25
  26. 26. PROUDHON: A PROPRIEDADE É UM ROUBO Alguns ensinam que a propriedade é um direito civil originado da ocupação e sancionado pela lei; outros sustentam que é um direito natural, tendo sua fonte no trabalho: e essas doutrinas, por opostas que pareçam são fomentadas, aplaudidas. Sustento que nem o trabalho, nem a ocupação, nem a lei podem criar a propriedade; ela é um efeito sem causa; deverei ser repreendido por isso? PIERRE-JOSEPH PROUDHON Agora as idéias de liberdade, igualdade e fraternidade pas­ savam para o lado da classe operária, dos trabalhadores, e deixavam de ser uma questão meramente teórica para se tomar uma reivindicação eminentemente prática. E, a rigor, é aqui que começa verdadeiramente o anarquismo, como tendência atuante e viva no movimento operário, disputando com os “autoritários” reformistas ou não, a defesa do verdadeiro socia­ lismo. E o primeiro —e um dos mais importantes —represen­ tantes da tendênda anarquista é, sem dúvida alguma, Pierre-Jo- seph Proudhon, que iria marcar, com sua imensa e discutida obra, o pensamento e a ação dos libertários. É uma obra contra­ ditória também, onde coexistem e sucedem-se momentos extre­ mamente revolucionários e outros de um conservadorismo irri­ tante. Entretanto, tanto mais passa o tempo, mais se observa a atualidade de sua teoria revolucionária, particularmente no que diz respeito à autogestão. Já mergulhado na luta dos traba­ lhadores franceses, Proudhon é “o primeiro a propor uma con­ cepção anti-estatal da gestão econômica”.22 Mas é preciso salientar que Proudhon forma as suas concep­ ções políticas, sociais e econômicas quando se aproxima o 22GUÉRIN, Daniel. L’anarchisme. Op. cit. p.52. 26
  27. 27. ano da Revolução de 1848, quando, pela primeira vez, o prole­ tariado parisiense entra na cena da história com reivindicações próprias, como classe. Não se trata, portanto, de um vago socialismo utópico, apesarde suas leituras de Charles Fourier.23 Proudhon já faz propostas concretas para a transição do capita­ lismo e participa ativamente das lutas, conhecendo por diversas vezes a prisão e o desterro. Pierre-Joseph Proudhon nasceu em Besançon, na França, a 15 de janeiro de 1809, trabalhando, ainda menino,juntamente com o pai na fabricação de cerveja. Sua primeira infância transcorre no campo, da qual ele próprio dá um retrato, mesmo confessando-se avesso às autobiografias, ressaltando a existên­ cia “mais contemplativa e realista, mas oposta a este absurdo espiritualismo que fundamenta a educação e a vida cristã”, em uma autêntica apologia da vida camponesa.24Viu-se, porém, obrigado, durante toda a vida a lutar contra as duras necessi­ dades materiais para a existência. Ao contrário de Karl Marx, que pôde ter uma proveitosa vida universitária, Proudhon foi sempre um autodidata, o que explica a maior profundidade teórica do primeiro em relação ao segundo. Mas é inegável que esta deficiência de Proudhon em relação a Marx, por outro lado, proporcionou-lhe uma vantagem: a de estar sempre ligado à vida e propor uma doutrina da ação, jamais se esquecendo ou colocando em segundo plano o lado prático da construção teórica. É dele a idéia de que o anarquismo não se pretende o sinônimo da desorganização.25 Foi o primeiro a proclamar que a anarquia não 6 a desordem, mas a ordem natural, em oposição à ordem artificial imposta de cima, é a unidade real em contraposição à falsa unidade que engendra a coação. Para Proudhon, a anarquia “é a sociedade organizada, viva, o mais 22RESENDE, Paulo Edgar A. & PASSETT1, Edson (org.). Proudhon. São Paulo, Ática, 1986. p.9. 24GUÉRIN, Daniel. Ni Dieu, Ni Maître: anthologie de Fanarchisme. Op. cit. p.39. 25ARVON, Henri. Op. cit. p.48. 27
  28. 28. alto grau de liberdade e ordem que a humanidade poderá atin­ gir”. Vê-se, portanto, que a “revolta visceral” do anarquismo, como a classifica Guérin,26não conduz Proudhon a um niilismo à la Stimer, mas a uma perspectiva revolucionária, embora muito ligada às tradições francesas, o que faz depreenderem-se de seu pensamento, tal como em Hegel, duas tendências, uma conservadora e outra nitidamente esquerdizante e revolucio­ nária. O gênio de Karl Marx percebeu as duas, considerando-o na Sagradafamília,27como o mais importante socialista francês, para, alguns anos depois, na Miséria dafilosofia —obra, aliás, decisiva na formulação do materialismo histórico —criticá-lo sem piedade. Entretanto, a leitura de Proudhon por Marx seria extremamente mais benéfica para a própria teoria do materia­ lismo histórico se este procedesse da mesma forma como proce­ deu em relação a Hegel e a Feurbach, buscando o que havia de racional e verdadeiro em Proudhon e rejeitando o seu aspec­ to conservador. Ocorre, porém que Pierre-Joseph Proudhon elaborou a sua teoria em íntima ligação com a vida, a prática e as lutas do povo francês. Mas Marx viu apenas o lado teórico- especulativo do pensamento proudhoniano e não foi compla­ cente com as limitações do tipógrafo que se elevou à altura da abstração teórica, embora, mais tarde, diante da Comuna de Paris de 1871 os próprios fatos viessem a impregnar seus conceitos de alguns elementos contidos no pensamento de Proudhon, como a questão do Estado e a própria questão, tão discutida hoje em dia, do autogoverno e da autogestão. Mas, como dizia, Proudhon viveu uma juventude pobre e até mesmo, por vezes, miserável. Aos 18 toma-se tipógrafo em Besançon. Estuda hebreu, latim e grego por sua própria conta e até 1829 prossegue trabalhando como tipógrafo em Neuchâtel. Em 1830 vai para Paris onde, concluindo a leitura da Bíblia e de outras obras teológicas, reforça definitivamente 26GUÊRIN, Daniel. Uanarchisme. Op. cit. p.50-1. ^M ARX, Karl. La question juive. Paris, UGE, 1968. Miséria da fllosofla. Rio de Janeiro, Leitura, 1965. 28
  29. 29. o seu anticlericalismo e a sua aversão pelas religiões. Jean Bancai o define como “semicamponês, semi-operário, semi- classe média”, uma espécie de “microcosmo do povo fran­ cês”.28E isso talvez venha a explicar as contradições contidas em sua obra. Em 1833, volta à terra natal para dirigir a tipogra­ fia Gauthier, e três anos depois monta, com um sócio, a sua própria. O empreendimento fracassa, o sócio comete suicídio e Proudhon vai se refugiar no campo, onde escreve seu Ensaio de gramática geral, pelo qual recebe menção honrosa da Acade­ mia de Besançon. Retoma a Paris e freqüenta cursos na célebre Sorbonne, no Collége de France e na École des Arts e de Métiers. Com 29 anos faz o bacharelado e recebe uma bolsa. Mas não esquece os seus tempos difíceis: “Eu sei o que é a miséria, escreveu, eu vivi nela”. E, assim, foi até o fim, publicando obras sobre obras, fundamentalmente destinadas a mudar o mundo e o destino dos homens, todas escritas com um estilo e numa linguagem que provocaram a admiração de Saint-Beuve, para o qual Proudhon era “um filósofo comba­ tente, que quer ser, antes de tudo, um homem de pensamento de luta e de audácia”. O grande poeta Baudelaire também era um admirador de seus escritos. Como Marx, mas sem a profundidade deste, Proudhon inte- ressou-se basicamente pela economia política. Em 1840, publi­ ca a obra que vai lhe marcar para sempre como um dos princi­ pais representantes do socialismo francês do século XIX, obra, aliás, que não perdeu até hoje a sua atualidade e que se lê às vésperas do século XXI com avidez e paixão, pois os proble­ mas e as questões ali colocadas ainda não foram resolvidos: O que é a propriedade?, na qual ele dá a célebre resposta: “A propriedade é um roubo”.29A obra O que é apropriedade? recebeu de Karl Marx os mais rasgados elogios. Com efeito, Marx chama Proudhon de o “pensador mais audacioso do socia­ 2^BANCAL, Jean. Proudhon: pluralismo e autogestão. Op. cit. p.30. 2^PROUDHON, Pierre-Joseph. Qu’est-ce que la propriété? Paris, Garnier- Flammarion, 1965. 29
  30. 30. lismo francês” e referindo-se a O que ê apropriedade? afirma que seu autor havia submetido a propriedade privada a uma crítica científica. Muitos anos mais tarde o grande socialista francês Jean Jaurés vai elogiá-lo como um “grande liberal ao mesmo tempo que um grande socialista”. Mas a vida de P.J. Proudhon, como, aliás, a de todo o revolucionário, nunca foi fácil, embora tenha, ainda em vida, gozado da notoriedade e de muito prestígio entre os operários e intelectuais de esquerda da época, muitos dos quais já o consideravam um gênio. Em 1843, foi obrigado a assumir as funções de amanuense no escritório de um amigo de infância em Lyon, justamente quando vinha a ser publicada sua obra Da criação da ordem na humanidade. Por causa de seu empre­ go, era obrigado a ir constantemente a Paris, o que não lhe desagradava, evidentemente, pois mantinha seus contatos polí­ ticos e revolucionários. Foi numa dessas ocasiões, em 1844, que manteve relações com um grupo de refugiados políticos, entre os quais Kari Marx, com quem estabeleceu correspon­ dência. A ruptura definitiva com Marx dar-se-á, porém, dois anos depois, em 1846, quando surge a sua obra em dois volumes Sistema das contradições econômicas ou Filosofia da miséria, que recebeu a impiedosa, e por vezes injusta, crítica arrasadora de Marx intitulada A miséria da filosofia. Nesse ano, fixa-se em Paris e vive a Revolução de 1848, cuja orientação era completamente diferente das idéias que vinha expondo em suas obras, particularmente no que diz res­ peito ao Estado. Mesmo assim, para se ter uma noção do prestígio que desfrutava entre a classe trabalhadora e um setor da intelectualidade gauchiste foi eleito deputado a 4 de junho de 1848, com cerca de 80 mil votos. Seu discurso na Assem­ bléia provocou escândalo, pois ele apresentava o povo como a “vítima da burguesia”. No Parlamento, era o terror dos conservadores e bem-pensantes e por suas críticas ao regime capitalista e ao Estado burguês foi condenado, no ano seguinte, a três anos de prisão e a cinco mil francos de multa, mas conseguiu fugir para a Bélgica. Voltou, porém, à França e 30
  31. 31. foi preso, onde escreveu as Confissões de um revolucionário, uma obra-prima literária na opinião de Saint-Beuve. Foi libertado em 1852, mas sua atitude em relação a Luís Bonaparte, o piíncipe-presidente, lhe valeu muitas críticas da esquerda, especialmente de Marx, que não lhe perdoou. Ele dirigiu-se a Luís Bonaparte na obraA revolução social demons­ trada pelo golpe de estado, pedindo-lhe uma chance para a realização de suas idéias. Mas o seu trabalho como legislador e suas tentativas de ganhar o ditador para a realização de suas idéias, especialmente a do Banco do Povo, durou pouco. Em seguida, no jornalismo, outra de suas paixões, estava de novo batalhando contra o Estado e a sociedade dividida em classes. Morreu em 1865, pobre como viveu sempre, entre os seus, os da classe la plus nombreuse et la plus pauvre, para usar a frase de Saint-Simon. É importante que nos detenhamos um pouco nas diferenças entre Marx e Proudhon, especialmente pelo fato de se constituí­ rem, ambos, nos mais importantes escritores das duas principais correntes socialistas do século XIX. Já nos referimos à admira­ ção inicial de Marx por Proudhon, especialmente após o apare­ cimento de O que é apropriedade? e o desentendimento final, em 1847, quando sai a obra de Marx A miséria da filosofia em resposta ao Sistema das contradições econômicas. Mas a ruptura já se delineava claramente em 1846, quando Marx escreve a Proudhon, pedindo a sua ajuda para a correspondência impressa que deveria servir de ligação entre as diversas corren­ tes revolucionárias. Proudhon, em carta datada de 17 de maio de 1846, de Lyon, prometeu o auxílio, embora ressaltando que não poderia se comprometer a escrever muito, nem com freqüência definida.30Nesta carta, Proudhon aproveita a opor­ tunidade para fazer uma declaração de antidogmatismo, espe­ cialmente nas questões econômicas. Dizia Proudhon: “Não vamos dar novo trabalho à humanidade com novos desvarios, brindemos ao mundo o exemplo de uma sábia e sagaz tolerân­ MEHRING, Franz. Carlos Marx: historia de su vida. Máxico, Grijalbo, 1965. p.137. 31
  32. 32. cia, não queiramos passar por apóstolos de uma nova religião, ainda que esta venha a ser a religião da razão e da lógica”. E acrescentava: “E já que falamos disso, vos direi acreditar que as idéias da classe operária francesa coincidem com a minha posição; nossos proletários sentem uma sede tão grande de ciência que não sair-se-á bem quem não lhes oferecer outra coisa para beber que não seja sangue”. No ano seguinte, com olançamento de Miséria dafilosofia, os fundamentos do materialismo histórico marxista estavam lançados. Assim, involuntariamente, com a polêmica aberta, Proudhon proporcionou a Marx a oportunidade de lançar a “pedra angular” do materialismo histórico. Aqui também ficam claras as diferenças entre os dois pensadores socialistas, espe­ cialmente na questão da dialética, cujo manejo e compreensão Marx demonstra incontestável superioridade. Na verdade, ape­ sar de seu talento indiscutível, com rasgos de genialidade, Proudhon nunca chegou a compreender verdadeiramente a dia­ lética hegeliana, desfigurando-a. Mais do que isto: “fixava-se em seu lado reacionário, segundo o qual o mundo da realidade se deriva do mundo da idéia, negando o lado revolucionário da doutrina: a autonomia e liberdade de movimentos da idéia, que passa da tese à antítese, até chegar ao longo desta luta àquela unidade superior em que se harmoniza o conteúdo subs­ tancial de ambas as posições, eliminando-se tudo o que havia de contraditório em sua forma. Proudhon, por seu lado, distin­ guia em toda categoria econômica um lado bom e um lado mau, desejando chegar a uma síntese, a uma fórmula científica que acolhesse o bom e 'eliminasse o mau”.31 A resposta de Marx às fórmulas proudhonianas é dura e enérgica: “O senhor Proudhon jacta-se de nos oferecer ao mesmo tempo uma crítica da economia política e do comunismo e não percebe que fica muito abaixo de uma e de outro. Dos economistas porque, considerando-se como filósofo, na posse de uma fórmula mágica, acredita-se desobrigado de entrar em 31Idem, ibidem. p.142. 32
  33. 33. detalhes econômicos; dos socialistas porque carece da penetra­ ção e do valor necessário para elevar-se, ainda que somente no terreno da especulação, sobre os horizontes da burguesia. Pretende ser a síntese e não é mais do que um erro sintético; pretende flutuar sobre burgueses e proletários como homem de ciência e não é mais do que um pequeno-burguês, que oscila constantemente entre o capital e o trabalho, entre a Economia Política e o socialismo”. Mas Franz Mehring, um dos mais brilhantes marxistas alemães, camarada de Rosa Lu- xemburg, e avesso ao dogmatismo, coloca uma justa advertên­ cia que passa despercebida a muitos que se dizem “marxistas” ao abordar a obra e o significado das teses de Proudhon: “Não se deve ler ignorante onde Marx diz pequeno-burguês, pois não é o talento de Proudhon que está colocado em questão, porém, sim, a sua incapacidade de passar por cima das frontei­ ras da sociedade pequeno-burguesa”.32 Na verdade, no que diz respeito à dialética hegeliana ou à sua formulação materialista, Marx tinha razão contra Prou­ dhon. O método deste era precário, pois, dividido o processo dialético em um lado bom e outro mau e concebida uma das categorias como antídoto da outra, a idéia ficava exangue, morta, sem forças para se transpor a si mesma e descompor-se em categorias. E Mehring acrescenta: “Como autêntico discí­ pulo de Hegel que era, Marx sabia perfeitamente que o lado mau que Proudhon queria extirpar era precisamente o que fazia a história. As categorias econômicas não são, para Marx, mais do que outras tantas expressões teóricas, abstrações da situação social e a divisão do trabalho não é uma categoria econômica, como Proudhon pretende, mas uma categoria histó­ rica que assume as formas mais variadas através dos diversos períodos históricos”. Ainda sobre a polêmica Marx-Proudhon, é indispensável que nos detenhamos um pouco nas opiniões de Mikhail Baku- nin, um dos maiores revolucionários do século XIX e um pensa­ dor brilhante, embora pouco profundo, com intuições geniais <5 0 Idem, ibidem. 33
  34. 34. a respeito do futuro da humanidade e do socialismo, que viu, apesar de suas nítidas simpatias proudhonianas (ele definia o anarquismo como “o proudhonismo amplamente desenvol­ vido e levado às suas conseqüências extremas”) com muita lucidez o conflito teórico entre os dois pensadores. “Marx —diz Bakunin —é um pensador sério e profundo dos problemas econômicos. Tem sobre Proudhon a imensa van­ tagem de ser um verdadeiro materialista. Proudhon, apesar de todos os esforços que realizou para se livrar das tradições do idealismo clássico, foi durante toda a sua vida um idealista incorrigível, influenciado às vezes pela Bíblia, e às vezes pelo Direito Romano, como eu próprio tive de dizê-lo dois meses antes de sua morte, e metafísico sempre e em tudo até a medula. Sua maior desgraça foi não ter estudado nunca as ciências naturais e nem jamais ter assimilado os seus métodos. Era um homem de instinto e este lhe traçava uma que outra vez o caminho correto, mas, levado pelos maus hábitos, isto é, pelos hábitos idealistas de seu espírito, voltava a reincidir nos velhos erros. Assim se explica que Proudhon fosse, durante toda a sua vida, uma contradição constante, um gênio poderoso, um pensador revolucionário que nunca cessava de se revoltar contra os fantasmas do idealismo, sem conseguir vencê-los jamais.” E, em seguida, referindo-se a Karl Marx, afirma Bakunin: “Como pensador, Marx vai pelo caminho certo. Proclama como princípio fundamental que os movimentos religiosos, políticos e jurídicos da história nunca foram as causas, mas os efeitos dos movimentos econômicos. É esta uma idéia grande e fecun­ da, que Marx não foi o primeiro a descobrir; já antes haviam atinado com ela e muitos outros a proclamaram, mas o que não se pode negá-lo (a Marx) é a honra de tê-la desenvolvido cientificamente, colocando-a como base de todo um sistema econômico. Por outro lado, a liberdade foi muito melhor com­ preendida e sentida por Proudhon do que por Marx; apesar de que sua doutrina e imaginação não fossem tão grandes, Proudhon possuía o verdadeiro instinto do revolucionário. É muito provável que Marx se eleye a um sistema ainda mais 34
  35. 35. racional da liberdade do que Proudhon, mas falta-lhe o instinto deste. Como alemão e judeu que é (Marx), é um autoritário dos pés à cabeça”. Longe dos espíritos sectários e dogmáticos, é evidente, a polêmica vem ganhando nos tempos atuais novos contornos, especialmente após Maio de 1968, quando os velhos conteúdos foram questionados e aquele instinto anarquista recobrou atua­ lidade, e alguns pensadores chegam a afirmar que uma transição real do capitalismo ao socialismo nas sociedades contempo­ râneas não poderá serfeita sem Marx e Proudhon juntos. Obvia­ mente, sem reincidir no erro proudhoniano do lado bom e do lado mau da dialética, ou seja, extirpando de um e de outro pensador aquilo que não presta e conservando o que é válido e perene. Nada disso. O que se requer é uma leitura crítica tanto de Proudhon como de Marx, situando-os em seu tempo para que se formule uma teoria da transformação social mais completa e abrangente. O sociólogo Georges Gurvitch, por exemplo, afirma: “Cem anos volvidos após a morte de Proudhon, a atualidade do pensamento deste impõe-se a Leste como a Oeste... Enquanto sociólogo e doutrinadorsocial, Prou­ dhon não é apenas um traço de união importante entre Saint- Simon e Marx, sem o qual Marx não seria possível. É muito mais do que isso. Os pensamentos de Proudhon e Marx comple­ tam-se e corrigem-se mutuamente. Nunca se excluem, mesmo quando se contradizem. As diversas tentativas de síntese têm falhado até aqui, por não se terem elevado ao nível destes dois irmãos inimigos. Mas ainda não houve quem pronunciasse a última palavra. Esta síntese está muito mais adiantada na realidade dos fetos do que na teoria. Tenho a certeza de que uma nova concepção, superando, ao mesmo tempo, Proudhon e Marx, a fim de os unir, não tardará a ser formulada”.33 Pessoalmente, creio que Gurvitch está certo. O autorita­ rismo das sociedades contemporâneas estava germinando no momento mesmo em que as revoluções do século passado forta­ leciam cada vez mais o Estado, tão negligenciado por Marx. 33GURVITCH, George. Op. cit p.166. 35
  36. 36. Na verdade, as explosões sociais contemporâneas, quando acontecem, têm um conteúdo nitidamente autoritário e sobre esta questão Proudhon tem muito a dizer em sua obra longa e tão rica. Aliás, é o próprio Proudhon quem afirma: a Revolu­ ção Francesa proclamou o advento da liberdade e daigualdade, mas, sob o manto dos formalismos de participação, deixou como legado efetivo a autoridade: não consolidou a sociedade, antes esmerou-se em seu govemo. A potencialidade dos movi­ mentos revolucionários esterilizou-se nas constituições políti­ cas. Foi tão-só uma revolução política, que repôs a autoridade em outros termos.34 Em uma de suas obras póstumas —talvez tão importante como a célebre O que é a propriedade? — Proudhon traça um perfil da burguesia que revela todo aquele instinto percebido nele por Bakunin, um perfil que provavelmente seja até mais adequado aos dias atuais do que em seu próprio tempo: “En­ quanto a plebe operária, pobre, ignorante, sem influência, sem crédito, fala de sua emancipação, de seu futuro, de uma trans­ formação social que deve mudar sua condição e emancipar todos os trabalhadores do globo, a burguesia, que é rica, que possui, que sabe e que pode, não tem nada a dizer de si mesma», parece sem destino, sem papel histórico: carece de pensamento e de vontade... é uma minoria que trafica, que especula, que agiota, uma confusão”.35 34RESENDE, Paulo Edgar A. & PASSETTI, Edson. Op. cit. p.17.O^ JJPROUDHON, Pierre-Joseph. Da capacidade política das classes operá­ rias. In: RESENDE, Paulo Edgar A. & PASSETTI, Edson. Op cit. p.107. 36
  37. 37. BAKUNIN: A REVOLTA PERMANENTE Quem diz Estado, diz automaticamente dominação e, conseqüente­ mente, escravidão; um Estado sem escravidão, confessada ou masca­ rada, ê inconcebível. Por isso, somos inimigos do Estado. Liberdade sem socialismo ê privilégio, injustiça; socialismo sem liberdade ê escravidão e brutalidade. MKHAIL BAKUNIN Certamente, Mikhail Bakunin é o mais importante anarquis­ ta da história. Não teve, como Proudhon, uma obra enorme e sistematizada, mas possuía um cérebro privilegiado, como demonstram as suas centenas de folhetos revolucionários. Era, acima de tudo, um homem de ação que renunciara voluntaria­ mente tomar-se um filósofo, embora levasse em alta conta as teorias sociais e políticas de sua época. Mesmo assim, suas concepções sobre o socialismo e a sociedade futura elevaram-se acima de seu tempo e, após Maio de 1968, seu retrato e suas frases passaram a ser vistas nas grandes manifestações dos jovens que buscavam novos caminhos. Bakunin, filho de um aristocrata, nasceu em Premukhino, na Rússia, a 30 de maio de 1814, e morreu em Berna, na Suíça, em 1876. Tomou-se, desde logo, um “jovem hegeliano” de esquerda e percebeu de imediato a importância da negação no processo dialético, afirmando que “a paixão pela destruição é também uma paixão criativa”. De início, como tantos outros russos, era um democrata-revolucionário, mas acabou influen­ ciado pelas idéias do comunista alemão Wilhelm Weitling e por Pierre-Joseph Proudhon. Guérin traça um interessante para­ lelo entre o mestre Proudhon e o discípulo Bakunin: “Assim, Proudhon, na segunda parte de sua carreira, dá a seu pensa- 37
  38. 38. mento um tom mais conservador. Sua prolixa e monumental Justiça na revolução e na igreja (1858) é sobretudo consagrada ao problema religioso e a conclusão é muito pouco libertária... Com Bakunin, o fenômeno é inverso. É a primeira parte de sua carreira agitada de conspirador revolucionário que não tem relação com o anarquismo. Ele somente vai aderir àsidéias libertárias a partir de 1864, após o fracasso da insurreição polonesa, da qual foi um dos participantes”.36A tese de Prou- dhon de que “a democracia não é nada mais do que o arbítrio constitucional” exerceu umaforte impressão sobre ojovemhege- liano exilado que logo em seguida rompeu seus laços com a democracia revolucionária para se tomar um anarquista muito mais radical do que o próprio Proudhon. No início de sua vida revolucionária, porém, suas idéias se expressam fundamentalmente no apoio aos povos eslavos em suas lutas contra a dominação autocrática da Rússia, da Alemanha e da Áustria. Sua reputação como revolucionário cresceu imensamente pela participação pessoal que tomou em várias insurreições nos turbulentos anos de 1848-49.37Foi pre­ so após o fracassado levante de Dresden, permanecendo encar­ cerado durante sete anos e depois enviado para a Sibéria, de onde escapou em 1861. No entanto, foi na derrota da revolução nacional-democrática polonesa de 1863 que Bakunin deixou de ver qualquer possibilidade realmente revolucionária nos movimentos de libertação nacional. Então, já definitiva­ mente anarquista, passa a se preocupar em promover a revolu­ ção social em escala internacional. Em 1864, voltou à Itália, passando por Londres, onde encontrou Marx, e Paris, onde reviu Proudhon já perto do fim. Na Itália, ele se fixou até 1867, principalmente em Flo­ rença e em Nápoles e seus arredores. James Guillaume, o historiador (e militante) anarquista conta que por essa época 36GUÉRIN, Daniel. Uanarchisme. Op. cit. p.8. 37BOTTOMORE, Tom (org.). A dictionary of marxist thought. Op. cit. p.40. 38
  39. 39. as suas idéias já estavam amadurecidas plenamente e Bakunin estava decidido a lutar pela formação de uma organização secreta de revolucionários, que se concretizou com a ajuda de militantes italianos, espanhóis, franceses, escandinavos e eslavos, tomando-se conhecida como Fraternidade Interna­ cional- ou Aliança dos Revolucionários Socialistas,38 Na luta contra os republicanos autoritários de Mazzini, Bakunin e seus companheiros fundam, em Nápoles, o jornal Liberdade e Justi­ ça, onde desenvolve e aprimora o seu programa. Mas não se define como comunista: “Detesto o comunismo porque trata- se da negação da liberdade e eu não posso conceber nada humano sem a liberdade. Não sou comunista ainda porque o comunismo concentra e absorve todas as forças da sociedade nas mãos do Estado, enquanto eu quero a abolição do Estado — a extirpação radical da autoridade e da tutela do Estado, que, sob o pretexto de moralizar e civilizar os homens, até hoje só os aviltou, oprimiu, explorou e depravou. Quero a organização da sociedade e da propriedade coletiva ou social de baixo para cima, pelo caminho da livre associação, e não de cima para baixo, por meio de qualquer autoridade seja ela qual for. á nesse sentido que eu sou coleüvista e de nenhuma maneira comunista”.39 No entanto, verifica-se nos textos de Bakunin para a Fra­ ternidade Revolucionária Internacional, uma certa ambigüi­ dade no tratamento dado por ele ao Estado. É certo que ele se pronuncia categoricamente pela destruição dos estados: “O Estado, afirma, deve ser radicalmente demolido”. Porém, a palavra “Estado” é reintroduzida em sua argumentação, defi- nindo-a como “a unidade central do país”, como um órgão federativo. Verifica-se, portanto, em Bakunin, a mesma ambi­ güidade encontrada em Proudhon, especialmente o último Prou- dhon, o do Princípio federativo, livro escrito em 1863, dois 3®BAKUNIN, Mikhail. Textos escolhidos. Porto Alegre, L&PM, 1983. p.12. 39GUÉRIN, DanieL Op. cit. p.26. 39
  40. 40. anos antes do Programa de Bakunin, onde a palavra “Estado” assume o mesmo sentido federativo e anticentralista. Quando Bakunin entra em cena, como anarquista-coleti- vista ou socialista, o movimento operário europeu já tinha dado passos gigantescos para o seu pleno amadurecimento. Tanto é assim que, a 28 de setembro de 1864, é criada em Saint Martin’s Hall, em Londres, a célebre AssociaçãoInterna­ cional dos Trabalhadores (AIT), a Primeira Internacional, cu­ jos Manifesto, Mensagem Inaugural e Estatutos foram redigidos por Kari Marx, com várias tendências, abarcando desde os lassaleanos e marxistas alemães até os mazzinistãs italianos, passando, evidentemente, pelos sindicalistas ingleses e pelos anarquistas proudhonianos e bakuninistas. Aliás, é o discípulo de Bakunin, James Guillaume, que se tomou o autor da melhor história da Primeira Internacional. Foi também na AIT que se criou o cenário para a luta teórica e programática entre Maix e Bakunin, uma luta não concluída e cujos problemas colocados ainda perduram, em nossos dias, sem resposta. Luta reavivada nas últimas décadas num sentido extremamente posi­ tivo, pois, aos poucos, foi-se descobrindo que entre Bakunin e Marx as distâncias não eram intransponíveis. François Munoz, por exemplo, não hesita em afirmar com todas as letras: “Baku­ nin é marxista”. E argumenta: “Quando ele evoca a querela ideológica e livresca entre Marx e Proudhon é para dizer que, como pensador, é Marx que estava no caminho certo. Arespeito de O capital, ele (Bakunin) apenas falará bem. Mas certamente ele faz as suas objeções. Estas, que se seguem, entre outras: OScomunistas alemães vêem na história humana apenas reflexos dos fatos económicos. Este é um princípio profundamente ver­ dadeiro quando se examina concretamente, isto é, de um ponto de vista relativo, más que encarado e colocado de uma maneira absoluta, como o único fundamento e a fonte original de todos os outros princípios, como faz esta escola, toma-se completa­ mente falso... O estado político de cada país... é sempre o produto e a expressão fiel de sua situação econômica; para mudar o primeiro é preciso simplesmente transformar esta últi­ ma. Todo o segredo das evoluções históricas, segundo o senhor 40
  41. 41. Marx, está lá. Ele não leva em conta outros elementos da história, tais como a reação, que é evidente, das instituições políticas, jurídicas e religiosas sobre a situação econômica. Ele (Marx) afirma: a miséria produz a escravidão política, o Estado; mas ele não permite a reversão desta frase e afirma: a escravidão política, o Estado, por seu turno, reproduz e mantém a miséria, como uma condição de sua existência... Com efeito, o senhorMarx desconhece igualmente um elemento muito importante no desenvolvimento histórico da humanidade: é o temperamento e o caráter particular de cada raça e de cada povo, temperamento e caráter que são naturalmente os produtos de uma multidão de causas etnológicas, climatoló- gicas e econômicas, assim como históricas, mas que uma vez dadas, exercem, mesmo fora e independentemente das condi­ ções econômicas de cada país, uma influência considerável sobre seus destinos, e mesmo sobre o desenvolvimento de suas forças econômicas”. E François Munoz, após este longo exame das restrições de Bakunin a certos aspectos do pensa­ mento marxista, prossegue: “As debilidades em Marx que Ba­ kunin indica serão descobertas por Jean-Paul Sartre por sua própria conta 80 anos após Bakunin e ele escreverá, por exem­ plo, que Marx desconhecia a existência de um processo circular e que o Estado, produzido e sustentado pela classe dominante e ascendente, constitui-se como o órgão de coesão e integração. E certamente esta integração se dá através das circunstâncias e como totalização histórica; não impede que ela se faça por ele, ao menos em parte”. Assim, as objeções de Bakunin não são feitas por fora do marxismo, tal como as de Sartre. O próprio Marx, aliás, ultrapassa o marxismo e Sartre demonstrou ter encontrado em Marx algumas destas objeções.40 Mas Munoz não está isolado nesta aproximação póstuma entre os dois revolucionários. Muitos anos antes, Franz Meh- ^^MUNÕZ, François. La Liberté. Paris, JJ. Pauvert, 1965. p.10-2. Prefá­ cio a BAKUNIN, Mikhail. 41
  42. 42. ring, da ala esquerda da social-democracia alemã, também faz uma apreciação semelhante. Diz Mehring: “Bakunin era um caráter fundamentalmente revolucionário e possuía, como Marx e Lassalle, o talento de ouvir os homens... Marx e Bakunin viam a revolução aproximar-se com passos enormes, mas en­ quanto Marx havia estudado o proletariado da grande indústria, que tinha os seus principais centros e efetivos na Inglaterra, França e Alemanha, Bakunin fazia os seus cálculos com os batalhões da juventude sem classe, das massas camponesas e do lumpemproletariado. E, embora reconhecendo diretamente que, como pensador cientista, Marx lhe era muito superior, não cessava de incorrer, uma e outra vez, nos seus erros do passado... É uma torpeza e uma injustiça, que atinge igualmente a Marx e a Bakunin, pretender julgar as suas relações apenas pela discórdia irremediável em que acabaram... Muito mais importante, desde o ponto de vista político, e sobretudo sob o aspecto psicológico, é observar como, durante 30 anos, estes dois homens nunca cessaram de se atrair e repelir mutuamen­ te”.41 E mais adiante, Franz Mehring conclui que apesar de tudo, Marx conservou sempre o afeto pelo velho revolucionário e se opôs aos ataques que pessoas chegadas a ele (Marx) dirigiram ou pretendiam dirigir contra Bakunin.42 A Primeira Internacional, porém, era uma realidade e, nela, tanto os marxistas como os bakuninistas exerciam um papel importante, tão importante quanto constituíam os pólos diver­ gentes da nova organização dos trabalhadores. O atrito decisi­ vo, que acabou minando completamente o relacionamento dete­ riorado entre Marx e Engels de um lado e Bakunin de outro foi a formação no interior da AIT da organização secreta baku- ninista, Aliança para a Democracia Socialista. Na Interna­ cional, como vimos, coexistiam as mais diversas tendências e não seria o fato dos bakuninistas se organizarem como ten­ dência que provocaria a ira de Marx. O que este não tolerava ^ 1MEHRING. Franz. Op. cit. p.428-9. 42Idem, ibidem. p.432. 42
  43. 43. era o fato de que a Aliança agia secretamente, com base nos trabalhadores relojoeiros do Jura, na Suíça, para dominar a Internacional e colocar esta sob sua orientação, diante da revo­ lução que se aproximava segundo calculavam os partidários. Mesmo assim, os historiadores anarquistas da AIT, honrada­ mente colocam em realce o trabalho de Marx na Internacional. Victor Garcia, por exemplo, diz que “negar a contribuição de Marx, após seu ingresso na Internacional já criada, 6 faltar com a verdade. A presença de Maxx no Conselho Geral de Londres foi valiosa, embora quando chegou o momento tenha sido ele quem a matasse e a sepultasse”.43 O erudito e minu­ cioso historiador do anarquismo, Max Nettlau, também afirma que Marx produziu um “trabalho ótil na Associação”. Mas, além das divergências Marx-Bakunin, é inegável que este tíltimo também exerceu um papel fundamental na conscien­ tização revolucionária no sentido libertário. Para George Woodcock, “Bakunin foi, entre todos os anarquistas, o que desempenhou seu papel de forma mais coerente”.44 Até o seu aspecto ffsico contribuía para isso. Era um verdadeiro gigante, sempre em desalinho, apesar das maneiras refinadas que traíam a sua origem aristocrática. Praticamente esteve envolvido em todas as conspirações de esquerda da segunda metade do século XIX. Mas a sua intuição superava a todos os grandes pensado­ res de seu tempo, inclusive Proudhon e Marx. No início dos anos 60 do século passado, por exemplo, compreendeu com muito mais acuidade do que Proudhon que estava mais do que na hora de levar as teorias do anarquismo e do socialismo libertário para formar a consciência revolucionária dos descon­ tentes operários e camponeses dos países latinos. E foi na Itália onde ele encontrou o seu segundo lare foi lá onde amadu­ receram plenamente as suas idéias, inclusive no que diz respeito à associação, germe da teoria anarcossindicalista, que se toma­ ria na Espanha a principal força da classe operária. Nesse ^GARCIA, Vitor. La internacional obrera. Madri, Jucar, 1977. p.27. ^WOODCOCK, George. Op. cit. p.127. 43
  44. 44. aspecto, aliás, Bakunin diferia de Proudhon, que aceitou apenas com muita relutância a idéia das associações. Com Bakunin, a principal corrente do anarquismo afasta-se do individualismo à la Stimer definitivamente, sendo que, inclusive, no seio da Primeira Internacional, os discípulos coletivistas de Bakunin acabariam se opondo aos herdeiros “mutualistas” de Proudhon. Mas, como vimos, apesar de seus inúmeros folhetos, Baku­ nin não nos legou sequerum livro completo. Era visceralmente um homem de ação e, em toda a sua carreira, Woodcock o acentua bem, está presente a idéia da ação revolucionária como força purificadora e reformadora, tanto para a sociedade, como para o indivíduo. A seus amigos, ele costumava repetir uma das frases preferidas de Proudhon: “Vamos revolucionar! É a única coisa boa, a única realidade da vida”. O seu instinto revolucionário ficaria mais uma vez compro­ vado logo que sobreveio a Guerra Franco-Prussiana de 1870. Ele exultava com as seguidas derrotas de Napoleão m , mas, ao mesmo tempo, manifestava o seu temor de uma Alemanha imperial vitoriosa. E no meio dessas contradições vislumbrava uma outra possibilidade que não passou pela cabeça de nenhum dos grandes revolucionários e teóricos da esquerda daqueles tempos: a de que a guerraentre a França e a Alemanha acabasse se transformando em nova edição da Revolução Francesa, agora com os proletários na cabeça. Ele afirmava: “Como Estado, a França está acabada. Ela já não pode salvasse através de medidas administrativas regulares. Agora, a França natural, a França do povo, deve entrar no palco da história, deve salvar sua própria liberdade e a liberdade de toda a Europa, através de um levante imenso, espontâneo e totalmente popu­ lar, fora de qualquer organização oficial, de todo o centralismo governamental”. Bakunin conclamava, em plena guerra, o povo francês paia um “levante elementar, poderoso, apaixonada­ mente enérgico, anarquista, destrutivo e ilimitado”. E não ficou nos apelos: arregaçou as mangas e com seus amigos tratou de preparar a ação revolucionária nas cidades do vale do Rhone, escrevendo para os seus partidários de Lyon, quando estes o chamaram, convidando a unir-se a eles: “Decidi arrastar 44
  45. 45. meus velhos ossos até aí para jogar o que será provavelmente a minha última cartada”. A República fora proclamada em Lyon, em seguida à derrota de Sedan, mas quando lá chegou Bakunin, a 15 de setembro de 1870, viu que estava diante da república burguesa, com o Estado reconstruído e um Conse­ lho Municipal devidamente eleito. Mas a grande revolução sonhada por ele estava por vir e iria eclodir alguns meses depois, em março de 1871, em Paris, com tal radicalidade que obrigou o próprio Marx a revisar algumas de suas posições, particularmente no que diz respeito ao Estado e seu papel na sociedade revolucionária. Sem a Comuna de Paris de 1871, a Revolução dos Soviets, na Rússia de 1905-17 teria sido impensável. Após a derrota da Comuna de Paris, consumou-se a cisão na Internacional. O Conselho Geral transferiu-se para Nova Iorque e, usando os poderes que lhe tinham sido conferidos no Congresso de Haia, decidiu a 5 dejaneiro de 1873 suspender da AIT a Federação Jurassiana, onde se encontravam os mais dedicados bakuninistas, inclusive o professor James Guillaume. Mas estes não aceitaram a decisão e reuniram-se a 1! de setem­ bro de 1873, em Genebra, como o VI Congresso Geral da Inter­ nacional, com representações da Bélgica, Holanda, Itália, Espa­ nha, França, Inglaterra e o Jura suíço. Até mesmo um setor lassaleano de Berlim enviou uma moção de simpatia. O VI Congresso revisou os estatutos da AIT, extinguiu o Conselho Geral e fez da Internacional uma federação livre, sem autori­ dade dirigente de qualquer espécie. As idéias de Bakunin, que sempre insistiu na estrutura federativa, baseada em sessões autônomas, estavam plenamente vitoriosas. Mas o velho revo­ lucionário estava entoando o seu canto de cisne. Cansado e sem forças, sabia que seu tempo havia passado, sem que o problema da revolução social fosse resolvido. As lutas contí­ nuas, a clandestinidade quase permanente, as prisões, as fugas, os levantes fracassados, haviam alquebrado o seu corpo de gigante. Era justo que agora ele pretendesse a aposentadoria e o descanso que nunca teve, desde quando jovem aristocrata russo rompera os laços que o prendiam à classe dominante 45
  46. 46. e se jogara com todo o ímpeto, primeiro na revolução democrá­ tica, depois na revolução social. A reorganização da Internacional segundo os princípios federativos, que sempre defendera, proporcionou-lhe o mo­ mento e a 12 de outubro de 1873 escreverá a seus fiéis camara­ das da Federação Jurassiana, pedindo que aceitem a sua demis­ são como membro da Federação e da Internacional: “Não me sinto mais com as forças necessárias para a luta: seria, pois, no campo do proletariado, um estorvo, não uma ajuda. Retiro- me, portanto, caros companheiros, cheio de simpatia por esta grande e santa causa, a causa da humanidade... Continuarei seguindo com ansiedade fraterna todos os vossos passos e saudarei com alegria cada um dos vossos novos triunfos. Até a morte serei vosso”. Três anos depois Mikhail Bakunin morre­ ria, em Berna, Suíça. Não sem antes envolver-se em mais uma tentativa revolucionária. Carlos Cafiero, revolucionário italiano que fez o resumo de O capital, de Marx, hospedou-o perto de Lucamo e ali Bakunin passou, até meados de 1874, talvez os dias mais tranqüilos de sua vida adulta. Mas não resistiu aos apelos de seus instintos revolucionários. Nem o cansaço, nem a doença que já minava as suas resistências, conseguiram impedi-lo de juntar-se aos revolucionários que preparavam uma sublevação em Bolonha, muito mal organizada e que, obviamente, fracas­ sou. Bakunin, então, teve de abandonar a vila que Cafiero carinhosamente lhe reservara para, pela última vez, fugir clan­ destinamente de um país. Disfarçado, tomou o rumo da Suíça. “Bakunin era, em 1875, apenas uma sombra dele mesmo. Em junho de 1876, na esperança de encontrar algum conforto para seus males, deixou Lucamo para ir a Bema, onde chegou no dia 14 de junho. Disse a seu amigo, doutor Adolf Vogt: “Venho aqui para que me cures ou morrer”. Expirou no dia n de julho, ao meio-dia”.45 45GUILLAUME, James. Bakunin, In: BAKUNIN, Mikhail. Textos escolhi• dos. Porto Alegre, L&PM, 1983. p.25-6. 46
  47. 47. James Guilhaume perguntava em sua época: “Chegará o dia em que a posteridade irá apreciar a personalidade e as conquistas de Bakunin que sempre teremos direito a esperar? Além disso, podemos esperar que os desejos expressos por seus amigos diante de sua sepultura recém coberta cheguem a realizar-se algum dia?”46 De certa forma, as esperanças de Guillaume se realizaram. Mikhail Bakunin pelo menos para aqueles que esperam ver a humanidade livre, já não é mais o “Satã” e muitas de suas idéias foram plenamente resgatadas com o passar do tempo. As posições claramente materialistas e revolucionárias de Ba­ kunin lhe colocaram em desvantagem diante de Proudhon, o qual poderia ser estudado, analisado e comentado nas universi­ dades e academias sem conseqüências maiores, bastando para isso que se colocasse entre parênteses o aspecto revolucionário de sua doutrina. Com Bakunin era impossível realizar esse “corte”: sua teoria e sua prática conduziam diretamente às conclusões revolucionárias mais extremas. Entretanto, a pró­ pria história trouxe para a luz do dia a questão revolucionária em seus múltiplos aspectos. Ora, nessas circunstâncias certa­ mente Bakunin assume o seu lugar. Será impossível, por exem­ plo, falar sobre a Revolução Espanhola sem uma referência explícita e básica a Bakunin, de onde se origina o sindicalismo revolucionário. As próprias lutas sociais no Brasil nas duas primeiras décadas do século estão impregnadas do anarcossindi- calismo. Além disso, as questões colocadas no interior da pró­ pria transformação socialista na prática deixaram de serproble­ mas teóricos como nos tempos da Primeira Internacional para se tomar desafios concretos e atuais. Como acentua Daniel Guérin, ele (Bakunin) teve o mérito de lançar, desde os anos 1870, um grito de alarma contra certas concepções de organiza­ ção do movimento operário e do poder“proletário”, que, muito mais tarde, desnaturaram a Revolução Russa. No marxismo, ele acreditava perceber, às vezes injustamente, às vezes com 46GUILLAUME, James. Apuntes biográficos de Bakunin. In: La anarquia según Bakunin. Baroelona, Tusquets, 1977. p.55. 47
  48. 48. razão, o embrião daquilo que se tomaria o leninismo, e depois seu câncer, o stalinismo.47 E quando se aborda de frente esses problemas que se tomaram atuais, de uma atualidade impressio­ nante, nunca é demais lembrar novamente que Bakunin tinha uma grande admiração pelas capacidades intelectuais de Marx, do qual ele traduziu para o russo a obra principal, O capital, e, além disso, aderiu plenamente à concepção materialista da história, Ele apreciava mais do que ninguém a contribuição teórica de Marx para a emancipação do proletariado. Entre­ tanto, o que Bakunin não aceitava era que a superioridade intelectual —e em Marx era ela inegável —pudesse garantir o direito de direção do movimento operário. Na verdade, nas críticas por vezes violentas que ele dirigia às “pretensões” autoritárias do marxismo, é possível perceber, hoje, por trás da enorme figura de Marx, a sombra sinistra de Stálin. É nesse sentido que deve ser destacado o talento de Baku­ nin. Como homem de ação, profundamente ligado a todos os movimentos revolucionários de sua época, ele percebia com notável agudez as tendências e os riscos das organizações e processos revolucionários. E isso o situava adiante de sua época, fazendo críticas e alertando para perigos que poderiam em seu tempo dar-se apenas na imaginação, mas que se mostra­ ram concretos desde o momento em que a transformação socia­ lista se tomou uma questão real da história. E quando isso ocorreu ficou impossível passarpor cima de Bakunin e ahistória já lhe faz justiça. Inclusive porque ele ainda tem muito a dizer sobre os problemas de nosso tempo. Não é gratuito o fato de que os jovens revolucionários da Europa e dos Estados Unidos de hoje colocam o seu enorme retrato ao lado dos de Marx e Rosa em suas ruidosas manifestações. E, sem se referir expressamente a seu nome, quando os sindicalistas polo­ neses reivindicam uma sociedade autônoma, a autogestão, estão resgatando, talvez sem o saber, as idéias defendidas há mais de um século por Mikhail Bakunin. 47GUÊRIN, Daniel. L’anarchisme. Op. eit. p.27. 48
  49. 49. Mas não nos enganemos. A espontaneidade das massas é essencial, prioritária mesmo, mas não basta. Para que ela se tome consciente, é fundamental a existência das minorias revolucionárias capazes de pensar a revolução. Por isso, Baku­ nin não dispensava a necessidade da vanguarda consciente e afirmava: “Para o triunfo da Revolução contra a reação é necessário que, no interior da anarquia popular que consti­ tuirá a própria vida e a energia da revolução, a unidade de pensamento e de ação revolucionária tenha um órgão”. Na Espanha, isto foi confirmado na prática, através da ação e da teoria da CNT, a grande confederação sindical anarquista, e a FAI, a Federação Anarquista Ibérica, o organismo de van­ guarda dos anarquistas espanhóis. Para ele, o problema das “autoridades revolucionárias” (o termo é do próprio Bakunin) não 6 o de impor a revolução às massas, mas provocá-la em seu interior, não submeter as massas a qualquer tipo de organização, mas estimular a organi­ zação autônoma de baixo para cima. Não é precisamente isso que discutem em todo o mundo as vanguardas que se reivindi­ cam do socialismo? Além disso, antecipando-se ao tempo e, particularmente, à polêmica sobre a questão da organização entre Rosa Luxem­ burg e Lênin, Bakunin pensava que a contradição entre a espontaneidade e a necessidade de intervenção das vanguardas conscientes somente pode ser resolvida quando se opera a fusão da ciência com a classe operária. Nesse momento, a massa tomando-se plenamente consciente, não tem mais a ne­ cessidade de “chefes”, mas apenas de “órgãos executivos” que expressam a sua “ação consciente”. 49
  50. 50. KROPOTKIN, O PRÍNCIPE ANARQUISTA Somente a Revolução que, depois de colocar os instrumentos, as máquinas, as matérias-primas e toda a riqueza social nas mãos dos produtores e reorganizar a produção de modo a satisfazer as necessidades daqueles que produzem tudo, poderá colocar um fim nas guerras pelos mercadosCada um trabalhando por todos e todos para cada um, eis a única condição para chegar à paz entre as nações. Foi um mundo em ação. (Sobre a Grande Revolução Francesa de 1789.) PIERRE KROPOTKIN Pierre Kropotkin nasceu em Moscou, em 1842, filho de uma das mais antigas famílias da aristocracia russa. Ficou conhecido na história justamente por essa origem na alta nobre­ za como o Príncipe Anarquista, aliás o título de uma excelente biografia sua escrita por George Woodcock.48 O próprio Kro­ potkin escreveu sua autobiografia —fascinante, por sinal — onde relata as suas origens aristocratas e a ruptura com a família para se tomar um dos grandes anarquistas do século XIX.49 Seu nome completo era Pierre Alexievitch Kropotkin e estava destinado a seguir as tradições familiares da alta nobreza russa, a carreira militar, entrando no corpo dos pagens do Czar, onde recebeu instrução militar e científica de 1857 a 1862. Desde cedo, porém, manifestou um incoercível desejo de independência e, em vez de escolher, utilizando a influência de sua família, um lugar perto da capital para prosseguir seus estudos, preferiu a Sibéria, onde permaneceu de 1862 a 1867. 48WOODCOCK, George & AVAKUMOVIC, Ivan. El príncipe anarquista. Madri, Jucar, 1978. 4%CROPOTKIN, Pierre. Autour tfune vie. Paris, Stock, 1913. 50
  51. 51. No seu período de instrução, desde logo ficou evidente a inclinação para a ciência, em detrimento da formação militar: Kropotkin viria a ser um geógrafo renomado mundialmente. Esta vocação para o estudo da Geografia sedimentou-se na Sibéria, onde ele fazia expedições para a elaboração de mapas e o estudo da geografia de regiões desconhecidas naquela épo­ ca. Mais tarde, já revolucionário e anarquista, Kropotkin tam­ bém se revelou um historiador de indiscutível mérito, sendo o autor de uma magnífica história da Revolução Francesa de 1789,50 na qual, de forma pioneira, faz a análise e a crítica da Revolução de 1789 do ponto de vista das massas em oposi­ ção aos estudos tradicionais. Entretanto, esse período da Sibéria também ofereceu ao príncipe Kropotkin a oportunidade de discussões sobre temas filosóficos e sociais e de reformas políticas. “Foi especialmente no contato com a dura realidade siberiana que ele se convenceu da necessidade do federalismo e da ajuda mútua entre os seres humanos”.51 Em 1867, deixa o exército e volta a Moscou para se dedicar aos estudos científicos, mas rompe financeiramente com a sua aristocrática família, tomando-se, em 1868, membro da Socie­ dade Russa de Geografia. Seu primeiro gesto revolucionário, conta Martin Zemliak, foi a recusa da função de secretário da Sociedade de Geografia que lhe tinha sido oferecida. Em 1872, parte para a Suíça. Durante a viagem, passa grande parte do tempo ouvindo as discussões dos refugiados russos das várias facções revolucionárias em Zurique e Genebra. Pos­ teriormente, passou alguns dias na região do Jura suíço, conhe­ cendo pessoalmente a James Guillaume, filiando-se à Interna­ cional, que ainda não estava cindida, como um dos partidários de Bakunin. No verão, retoma à Rússia, ingressando no coleti­ vo Tchaikovsky, que reunia jovens partidários do socialismo, 5®KROPOTKIN, Pierre. A grande revolução (1789-1793). Salvador, Pro­ gresso, 1955. 2v. 51ZEMLIAK, Martin. Traits principaux de la vie de Pierre Kropotkin. In; KROPOTKIN, Pierre. Oewvres. Paris, Maspero, 1976. p.7-8. 51
  52. 52. e escreve o seu primeiro ensaio revolucionário Devemos nos ocupar da realização futura do Ideal?, redigido em novembro de 1873 e apreendido pela polícia czarista: o ensaio só foi publicado na íntegra quase um século depois, em 1964, No entanto, ali já estão as teses fundamentais que Pierre Kropotkin defenderia o resto de sua vida, tais como a negação do Estado, a comuna como a base da sociedade futura, a necessidade de satisfazer o máximo das reivindicações populares desde os primeiros dias da revolução e a recusa dos revolucionários profissionais. Kropotkin tentava conciliar seu trabalho de cientista com a sua militância revolucionária, trabalhando na Sociedade Rus­ sa de Geografia e, dois dias depois de apresentar para esta mesma sociedade uma comunicação sobre geologia polar, foi preso pela polícia, a 23 de março de 1874, juntamente com outros camaradas e encarcerado, sem julgamento, na triste­ mente célebre fortaleza Pedro e Paulo, de Petrogrado, de onde escapou algum tempo depois de forma espetacular, considerado um dos episódios mais fascinantes da história do movimento revolucionário russo. Assim, a partir de 1876, ele inicia a sua vida de exilado. Seus conhecimentos de várias línguas, como o francês, o inglês, o alemão e o sueco, porém, tomaram- lhe menos dolorosas as agruras do exílio, já que podia se integrar com mais facilidade nos diversos países por onde andou sempre fazendo a propaganda anarquista-comunista. Curiosamente, Kropotkin e Bakunin jamais se encontraram, apesar da identidade de pontos de vista. George Woodcock, notável biógrafo deKropotkin, acredita que este “desencontro” deve-se em grande parte à diferença entre estas duas personalidades marcantes do anarquismo. Com efeito, “Kropotkin acreditou durante toda a sua vida que a revolução era algo desejável e inevitável, mas jamais foi um revolucionário atuante, como fora Bakunin. Jamais chegou a lutar numa barricada e preferiu o debate aberto à obscuridade romântica da conspiração. Embora pudesse admitir a necessi­ dade da violência, opunha-se por temperamento, ao seu empre­ go. As visões destruidoras de fogo e sangue que tão lugubre­ 52
  53. 53. mente iluminavam o pensamento de Bakunin não o atraíam. O que o atraía era o aspecto positivo e construtivo do anarquis­ mo, a visão cristalina de um paraíso terrestre reconquistado e contribuiu para a sua elaboração através de seu treinamento científico e de seu invencível otimismo”.52 Bemard Shaw, que o conheceu, dizia que “pessoalmente Kropotkin era amável a ponto de ser quase um santo” e acrescentava: “Com sua abundante barba vermelha e sua expressão bondosa, bem pode­ ria ter sido o pastor das Deleitáveis Montanhas”. Há outras diferenças, porém, entre a vida dos dois anarquis­ tas que tinham pontos de vista tão próximos. Enquanto a carreira de Bakunin foi sempre uma vida ininterrupta de conspi­ rações, prisões, novas conspirações e novos exílios, Kropotkin viveu mais de 30 anos em Londres e, para os ingleses progres­ sistas, ele não era o incendiário e irreconciliável inimigo da sociedade burguesa, mas o que havia de melhor entre os exila­ dos que lutavam contra a autocracia do Czar russo. Mas não se faça uma imagem idílica de Kropotkin. Certa­ mente, sua personalidade diferia muito da de Bakunin. Mas ele estava longe de ser um pacifista. Seus folhetos revolucio­ nários eram um constante apelo à revolta dos oprimidos e deserdados e sua vida vai se ligar a jornais que nada tinham de conciliadores, como La Révolíe e Le Revolté, editados na França, onde foi publicada grande parte de seus escritos, e, posteriormente, Freedom, editado na Inglaterra. Na França, Pierre Kropotkin chegou a estar preso de 1883 a 1886, mas o clima liberal da Inglaterra permitiu que ele dividisse seu tempo entre as atividades de propaganda revolucionária e a científica. Em 1893, ele se tomou membro da Associação Cien­ tífica Britânica, mas recusou a oferta de ensinar na Univer­ sidade de Cambridge porque a cátedra tinha como condição a abdicação de suas atividades políticas. A Rússia, porém, não safa de suas preocupações, especial­ mente depois que seu irmão Alexandre, que pertencia também ao mesmo coletivo socialista Tchaikovsky, foi preso e enviado 52WOODCOCK, George. Anarquismo. Op. cit. p.163. 53

×