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Quando as lésbicas entram na cena do cotidiano: uma breve análise dos relatos sobre mulheres com experiências amorosas /sexuais com outras mulheres na heterossexualidade compulsória.

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Artigo produzido por Suely Aldir Messeder

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Quando as lésbicas entram na cena do cotidiano: uma breve análise dos relatos sobre mulheres com experiências amorosas /sexuais com outras mulheres na heterossexualidade compulsória.

  1. 1. Debates contemporâneos Quando as lésbicas entram na cena do cotidiano: uma breve análise dos relatos sobre mulheres com experiências amorosas / sexuais com outras mulheres na heterossexualidade compulsória Suely Aldir Messeder Prof.ª da Universidade do Estado da Bahia. E-mail: suelymesseder@gmail.comResumo: Este artigo tem como objetivo apresentar cenas do cotidiano de mulheres que têm experiências amo-rosas/sexuais com outras mulheres. No desenrolar do artigo serão descritas e analisadas cinco cenas que trazemà tona como a matriz da heterossexualidade compulsória prescreve e normatiza os atos performativos que seencerram em corpos sexuados masculinos e femininos, cujo conteúdo deve seguir a coerência entre gênero,sexo e desejo. As cenas nos envolvem em cenários distintos, quer seja em lugares de grande circulação, querseja em lugares íntimos. Por fim, busca-se esclarecer o quanto a visibilidade política em ser mulher e lésbica nãosignifica uma essência materializada em corpos sexuados, mas sim uma forma de ser cúmplice no ato de positivarpoliticamente a imagem de nós mulheres com experiências amorosas/sexuais com outras mulheres.Palavras-chave: Mulheres lésbicas. Ato performativo e heteronormatividade.152 - DF, ano XXI , nº 49, janeiro de 2012 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
  2. 2. Debates contemporâneosIntrodução quanto nossos lençóis nos constituem enquanto seresN este artigo será mantido o tom coloquial, portadores de direitos políticos. Abaixo, descrevo a uma vez que foi originado para apresentá- primeira cena. lo na mesa intitulada SAÚDE SEXUAL E REPRODUTIVA DAS MULHERES, Cena ISEXUALIDADE E LESBOFOBIA, realizada no No restaurante, Celi e Carol encontram-se. Am-decorrer do I SEMINÁRIO NACIONAL DE bas caminham para se cumprimentar; uma delas, noMULHERES – ANDES-SN, ocorrido no período afã de querer beijar na boca, insinua o ato; a outra,de 30 de junho a 01 de julho no Ceará. constrangida, dá a sua face. Ao saírem do restaurante, Antes de adentrarmos nos relatos sobre as mu- direcionam-se aos seus carros. Dirigem-se a um mes-lheres que têm experiências amorosas/sexuais com mo caminho, a casa de número 51. Alojam seus carrosoutras mulheres, quero apresentar-me como uma na garagem. Seguem em direção à porta. Entram nacategoria política, ou melhor, como mulher, lésbica, casa, abraçam-se e desmancham-se em beijos ávidosnordestina, baiana e afrodescendente. E, mais espe- na sala. Depois de um tempo, inicia-se um diálogocificamente, esclareço que ocupo um lugar nesta me- ressentido: – Por que não permitiu que a minhasa por conta da minha trajetória profissional, cuja emoção fluísse no restaurante? Era apenas um beijoconstrução ocorre via o desejo, pelo qual não pre- inocente. Então, é retrucada por Celi: – Porque nãotendo abrir a mão: situar-me na ciência. Ao longo des- quero ser apontada na rua. Carol questiona: – É porta narrativa explicarei por que não quero sair desta isso que nos escondemos e ocultamos o nosso amor?posição. Muito embora, esta ciência reivindicada se- Celi responde: - Acho que isso é melhor para nós. Oja a ciência que deseja a blasfêmia, é o cortejo sem silêncio reina por alguns instantes. Daí, Carol retomacerimônias do conhecimento difundido no Manifesto a fala: - Não sei se para nós, sinto-me mal por ter umdo Cyborgue, evocado na voz de Haraway (1991). amor invisível. Para ser mais coerente com o ofício da antropo- Nesta cena depreendemos o constrangimento delogia, tentarei compreender cinco cenas que nos re- se mostrar como casal lésbico de classe média em es-portam ao fenômeno sociocultural: a experiência paços de grande circulação. As duas protagonistasamorosa/sexual entre mulheres. As cenas são depre- atuam como se estivessem sendo perscrutadas peloendidas em espaços de grande circulação: restauran- olhar panóptico. Elas se encarceram e regulam seustes e cinemas. Em espaços mais reservados: na sala de atos performativos sob as normas da matriz hete-estar e no consultório ginecológico. Devo esclarecer rossexual. Mas, possivelmente não conseguem, por-que as categorias – público e privado – foram inten- que algo escapa, sobretudo porque o ato repetido écionalmente não empregadas para descrever os locais sempre um simulacro. Vejamos a segunda cena.das cenas descritas, para que pudéssemos cotejá-lasde forma analítica, como nos ensina a teoria feminista. Cena II:Com isto, sublinho o emblema da política feminista, No shopping de Salvador, na sala do cinema, as-o privado é politico, sobretudo quando costumamos sistíamos: Vick Cristina em Barcelona. Envolvia-meescutar de forma bastante uníssona dos/as guardiões/ na atmosfera cinematográfica, imbuída de um lugarãs da heteronormatividade: “Os seus lençóis não me e de um tempo. Então, no decorrer do filme, as pro-interessam”. Esta frase foi expressa por um promotor tagonistas beijam-se. Bruscamente, sou deslocada dade justiça que ministrava uma palestra no evento cena, uma voz feminina ecoa por detrás da minhaintitulado “Reflexos Jurídicos da Homoafetividade”, poltrona: - Arg!!! Que nojo!!!!promovido pela Universidade Católica de Salvador. Mais uma vez a matriz da heterossexualidadeO promotor advogava a posição contrária à especifi- compulsória é acionada, a interjeição - que nojo!!!cidade da união homoafetiva, legalizada pelo Supre- - é prescritiva da norma. A cena é movida pelomo Tribunal. aparelho cinematográfico e, como alerta Lauretis Vejamos, a seguir, as cenas que nos revelam o (1994), estamos diante de um aparelho ideológico daUNIVERSIDADE E SOCIEDADE DF, ano XXI, nº 49, janeiro de 2012 - 153
  3. 3. Debates contemporâneostecnologia do gênero, cuja interpelação dos sujeitos sexuales” y requerían menos satisfacción sexualengendrados assume, por vezes, uma cumplicidade que los hombres. El “aberrante amor lésbico” eracom outras representações de gênero que nos mostram menos habitual que el homosexualismo masculinocorpos sexuados possíveis de se relacionarem na y se lo encontraba en cárceles y entre prostitutas,ruptura da suposta continuidade do gê- pero era una “perversión”, imagen que Ambas as cenas nãonero, sexo e desejo sexual. Eram duas introdujo para referir que la elección demulheres femininas beijando-se; se, por revelam a existência una pareja del mismo sexo generaba unaum lado, esta cena representa o fetiche de essências lésbicas, dupla estéril. Preocupado por esos actosmasculino, por outro lado, desconserta mas sim, de atos “contra natura”, destacó la importancia dele desloca os desejos de corpos sexuados coito para la salud femenina, aunque con- performativos quena divisão masculino e feminino. sideró el clítoris como potencial fuente de Ambas as cenas não revelam a exis- se desenrolam por perversión. Aunque sus ideas fueron re-tência de essências lésbicas, mas sim, de desejos possíveis, futadas, continuaron vigentes durante el pe-atos performativos que se desenrolam mas que devem ser ríodo de entreguerras ( RAMACCIOTTI epor desejos possíveis, mas que devem VALOBRA, 495, 2008). cerceados por umaser cerceados por uma norma ideal con-sagrada hegemonicamente. Se, de um norma ideal consagrada Na citação acima verificamos que alado, não existem essências lésbicas, do hegemonicamente. relação sexual entre duas mulheres eraoutro, tampouco existem essências he- considerada desnaturalizante, e a ênfa-terossexuais, mas sim, atos prescritos que se imagi- se recaía na ideia de que as mulheres eram menosnam como leis naturais. Vejamos a terceira cena. sexuais do que os homens. Seguindo Ramacciotti e Valobra (2009), verificamos que, para Krafft-Ebing, III Cena: a relação entre duas mulheres era menos corriqueira Na consulta ao ginecologista, o médico indaga: do que entre os homens e, provavelmente, ocorriaVocê tem vida sexual ativa? Em seguida complementa entre as prostitutas e nas prisões. Com efeito, a es-a questão: Você faz uso de anticoncepcional? A sua colha do casal do mesmo sexo feminino revela-sepaciente, constrangida, engole a saliva e retruca: Não como duplamente estéril, tendo como receituáriotenho vida sexual ativa. para a saúde feminina o coito; em contrapartida, o O roteiro médico possui procedimentos hetero- clitóris como fonte de perversão. Ainda, na linha danormativos. A mulher não possui a condição de invisibilidade da relação sexual entre duas mulheres,interlocutora, ela retoma o seu lugar de paciente ou melhor, da possível existência material de algoe passiva, sem escolhas, e se põe na clausura do ar- patológico nestas relações, vejamos a relação entre amário, diante da autoridade médica. Vejamos a iden- endocrinologia, anatomia constitucional, raça e psi-tidade fixada da mulher lésbica no discurso médico, que:do século XIX, cujo conteúdo perpetua-se nos ima- En esta línea, cabe referir el trabajo de George Henryginários mais atuais: quien tempranamente conectó endocrinología, ana- Richard Von Krafft-Ebing (1840-1902), neuro- tomía constitucional, raza y psiquis. Relacionó la psicólogo alemán, profesor de psiquiatría y neu- menstruación y los ciclos de ovulación con cambios rología de la Universidad de Viena hacia fines emocionales y psíquicos de las mujeres, llegando del siglo XIX, considerado el fundador de la mo- a sostener que las irregularidades menstruales se derna patología sexual, fue, a su vez, el referente asociaban con esquizofrenias, narcisismo y ho- médico internacional de una línea biologicista. En mosexualidad. Señaló que algunos caracteres se- Psychopathia sexualis (1886) describió y clasificó las cundarios de masculinización - como el exceso desviaciones sexuales como “trastornos psíquicos”, de bello púbico o en la areola - se conectaban a la es decir, los concibió como enfermedades y no demencia precoz femenina. Según él, en la homo- como delitos. Para él, las mujeres eran “menos sexualidad femenina existían disfunciones anató-154 - DF, ano XXI , nº 49, janeiro de 2012 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
  4. 4. Debates contemporâneos micas visibles: la morfología genital y constitucio- com a CENA IV, na qual verificaremos as afirmações nal de las homosexuales era distinta a la de las he- da atriz e deputada estadual Myriam Rios (PDT- terosexuales. El himen era más amplio, los labios RJ) sobre as lésbicas1. Em um discurso na tribuna mayores y menores crecidos y protuberantes, el da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), em 21 de clítoris más eréctil, aumentado y acompañado de junho de 2011, ela se posicionou contra a Proposta cuerpos más voluminosos o “masculinizados” y de Emenda à Constituição (PEC) que acrescenta a algunas disfunciones tiroideas. Henry intentó de- orientação sexual às formas de discriminação pu- mostrar el modo en que las lesbianas conseguían níveis no Estado e insinuou que uma babá lésbica po- goce en la relación sexual. Así identificó el “genital deria praticar pedofilia contra suas filhas. Vejamos a mutual rhythmic pressure” por medio del cual sua fala: graficó cómo el contacto de un clítoris con otro, Digamos que eu tenha duas meninas em casa e la estimulación manual o cilindros que imitaran contrate uma babá que mostra que sua orientação un falo o doble falo podían provocar el orgasmo. sexual é ser lésbica. Se a minha orientação sexual Señaló que era más difícil lograr esa satisfacción for contrária e eu quiser demiti-la, eu não posso. que en la relación heterosexual, su modelo de O direito que a babá tem de querer ser lésbica é o goce. No obstante, el tribadismo cuestionaba el mesmo que eu tenho de não querer ela na minha orgasmo sólo por penetración vaginal y marcaba casa. Vou ter que manter a babá em casa e sabe Deus la importancia que el mismo tenía para la mujer y até se ela não vai cometer pedofilia contra elas. E eu la posibilidad de obtenerlo con prescindencia del não vou poder fazer nada. pene (RAMACCIOTTI e VALOBRA, 495, 2008). No discurso supracitado, apreciamos a atriz como Neste momento, presenciamos a formulação da coe- a guardiã mais sensata da heteronormatividade. A suarência de gênero, sexo e desejo. A ciência reforça a pa- sensatez assenta-se em sua escandalosa presunção etologia da mulher lésbica, sobretudo das arrogância. Segundo a deputada, a ho-mulheres masculinizadas, muito embora Quando nos debruçamos mossexualidade e heterossexualidadefixe o desejo na coerência do gênero, ou no mundo da prática estão em oposição, ou seja, são biná-seja, o desejo deverá ser heterossexual, jurídica e no mundo rias. De um lado, estamos diante deporque se formula no eixo: aqueles/as babás lésbicas, cujas condutas são da pesquisa científicaque possuem o modelo masculino devem prescritas por manter relações sexuaister o seu desejo direcionado ao modelo nos deparamos com com crianças. Do outro, estamos di-feminino e vice-versa. Desta forma, re- inúmeros casos de ante de babás heterossexuais, cujaproduz-se a heterossexualidade compul- crianças abusadas conduta é maculada pela matriz da he-sória na tecnologia do gênero – os cor- terossexualidade compulsória. A depu- sexualmente por umapos devem ser sexuados em masculino tada evoca o discurso hipotético dae feminino. O prazer pelo sexo, os que- rede de parentesco, cuja sagrada família heterossexual, com fi-reres entre as pessoas são dimensões ne- conduta sexual, em sua lhos e filhas heterossexuais no mundogadas ideologicamente nesta economia grande maioria, revela- ideal desprovido de violência contrasimbólica da matriz da heterossexualidade crianças. Quando nos debruçamos no se como heterossexual.compulsória. Felizmente, no interior da mundo da prática jurídica e no mundoesfera biomédica, na década 1970, a APA (Associação da pesquisa científica nos deparamos com inúmerosPsiquiátrica Americana) retirou a homossexualidade casos de crianças abusadas sexualmente por uma redecomo transtorno mental do seu DSM (Diagnóstico e de parentesco, cuja conduta sexual, em sua grandeEstatística de Transtorno Mental). Na década de 1990, maioria, revela-se como heterossexual.no CID (Classificação Internacional de Doença) foi Passamos então para a V Cena, desenrolada emremovida a homossexualidade de seu catálogo. finais de janeiro de 2010, no decorrer do Congresso Ao seguirmos com as descrições nos deparamos promovido pela ILGA (INTERNATIONAL LES-UNIVERSIDADE E SOCIEDADE DF, ano XXI, nº 49, janeiro de 2012 - 155
  5. 5. Debates contemporâneosBIAN, GAY, BISEXUAL, TRANS AND INTER- se busca naturalizar a superioridade entre os seresSEX ASSOCIATION) em Curitiba. Lá, um número humanos? Por que a demonização do outro/a? Porsignificativo de lésbicas reúne-se para discutir sobre que se busca a classe, raça, gênero e a prática sexualuma agenda comum dentro do movimento lésbico. como um caminho discriminatório? Por que se buscaE, no decorrer do debate, todas concordam que nós, hierarquizar os marcadores socioculturais? Por quelésbicas, precisamos garantir na agenda mínima de necessitamos destas hierarquias? Será possível o giroações a questão da visibilidade como uma necessidade na matriz heterossexual compulsória, racializada epremente do Movimento Lésbico. capitalista? Será que conseguiremos entender a ma- Tanto o depoimento da deputada quanto a agenda terialidade dos corpos negros, dos corpos lésbicos,do movimento social lésbico revelam o quanto a dos corpos pobres como discursos? Será que os nos-lógica da resposta para o Estado necessita da cons- sos corpos colonizados e encapsulados nos revela-trução de uma identidade política reivindicativa, rão saídas em suas práticas e em suas irrupções?para que os grupos subalternizados construam uma Será que em nossas possíveis agências aplaudiremosimagem positiva de si. A heterenormatividade, ra- a construção de novos modelos? Será que em nossoscializada, sexista e classista ergue-se na invenção de Estados nacionais aplaudiremos novos sujeitos desi e constrói sua imagem positiva. Ela constrói-se na direitos sem privilégios? Será que os corpos abjetosimagem do sagrado, afasta-se do pro- irão se insurgir e entrar na zona inteli-fano. Constrói-se no Apolo versus o A identidade lésbica é gível?Dionísio, acorrenta os exus, exorciza constitutiva do sujeito, Aqui, não encerro as minhas inda-as sexualidades. Daí, constata-se que fornece-lhe o limite e a gações, mas, como costumo concluira afirmação da identidade relaciona-se o curso em antropologia, declaro que coerência e, ao mesmocom a demarcação e a negação do seu possuímos quatro formas de conhe-oposto, que é constituído como sua di- tempo, assombra-o com cimento. Numa generalização grossei-ferença. Neste caso especifico, somos a instabilidade. ra, apresento como situo as quatroa “outra” que permanecemos, muito formas. A primeira forma constrói-seembora sejamos indispensáveis. A identidade lés- em nosso cotidiano, denomina-se senso comumbica é constitutiva do sujeito, fornece-lhe o limite e ou linguagem ordinária. É aquela que nos domina,a coerência e, ao mesmo tempo, assombra-o com a sobretudo, quando nos encontramos na inocência,instabilidade. E, assim, a heterossexualidade acabou quando nós aceitamos a naturalidade das coisas,por se tornar a norma, passou a ser concebida como quando simplificamos o entendimento do mundo,‘natural’. Então, nós, a “outra”, o que faremos em nós, quero crer que este estado não tem nada que verem nossos discursos? Reinventamo-nos na mesma com as nossas inquietudes infantis; muito pelológica? Seremos assépticas em nossas construções? contrário, é justamente quando nos acomodamosCriamos mitos de origem românticos? Construímos nas explicações hegemônicas. A segunda forma deoutro/a inimigo/a? Seremos meras cópias, em nossas conhecimento tem que ver com o religioso, e certa-repetições, ou andaremos nos interstícios? mente não está dissociado do primeiro. Este conhe- cimento requer um ato de fé. É formulado por axio-Considerações finais mas indubitáveis. É completamente fechado no Os relatos supracitados revelam que não existe armário. É uma visão de mundo que nos preencheuma essência de ser lésbica; ou seja, não existe uma em nossa existência, e em nossa solidão. O terceiromulher lésbica verdadeira e uma mulher lésbica falsa. conhecimento é promovido pelo movimento soci-Mas sim, planos discursivos que nos levam a uma al. Ele constrói-se na relação com o mundo e emmatriz discriminatória que nos acomete, enquanto nosso desespero pela vida digna. Falo do movimen-vítimas estruturais. Os grupos subalternizados são to orgânico, cujo conteúdo reivindicativo tem queconstantemente insultados pelos seus habitus corpo- ver diretamente com a nossa perda de dignidade.rificados. Então, começamos a nos indagar: Por que O quarto, talvez o mais incômodo, é aquele que156 - DF, ano XXI , nº 49, janeiro de 2012 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE
  6. 6. Debates contemporâneosblasfema e põe sob suspeita o assentado, o norma- Notativo. É aquele que nos permite andar nos interstí- 1. Depoimento de Miriam Rios gravado durante a reunião nocios. É o conhecimento desejoso do enlace com o plenário da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, em 27inimaginável, com o movimento e com o trânsito. de julho de 2011. Disponível em: http://noticias.terra.com.É no caminhar pela utopia que desejamos deslegi- br/brasil/noticias/0,,OI5208521-EI7896,00 Em+video+Myri an+Rios+diz+que+baba+lesbica+poderia+ser+pedofila.html.timar o discurso hegemônico fabricado na matriz Acesso em: 30 de julho de 2011.heteronormativa, sexista e racializada, cujo con-teúdo insulta e despreza a todos nós que, de algu- Referênciasma forma, somos considerados/as excrementos,quer seja pela gordura, quer seja pela classe, quer HARAWAY, D. Ciencia, cyborgs y mujeres. La invención de la naturaleza. Cátedra. Madrid, 1991.seja pelo gênero, quer seja pela prática sexual, quer LAURETIS, T. de. A tecnologia do gênero. Holanda, H.seja pela cor, quer seja pela deficiência; enfim, quer B(ed.). Tendências e impasses. Rocco. Rio de Janeiro, 1994.seja por qualquer coisa que não nos enquadre no RAMACCIOTTI, K. I.; VALOBRA, A. M. El campoideal do universal criado para atender a uma suposta médico argentino y su mirada al tribadismo, 1936-1955. Rev.normalidade. Estud. Fem. [online]. 2008, vol.16, n.2, pp. 493-516.UNIVERSIDADE E SOCIEDADE DF, ano XXI, nº 49, janeiro de 2012 - 157

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