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“Não me acho masculinizada, mas sim arrojada”: Os desafios na pesquisa sobre mulheres masculinizadas

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Artigo produzido por Suely Aldir Messeder

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“Não me acho masculinizada, mas sim arrojada”: Os desafios na pesquisa sobre mulheres masculinizadas

  1. 1. “Não me acho masculinizada, mas sim arrojada”: Os desafios napesquisa sobre mulheres masculinizadas Suely Aldir Messeder UNEB-BA-BRASILRESUMOA pesquisa sobre a vivência de mulheres masculinizadas enfrenta um desafio que tem aver diretamente com a própria configuração deste universo. Nesta comunicaçãopretende-se descrever a construção deste universo, cujo procedimento metodológicoinspira-se no tipo ideal weberiano, ou seja, a composição das características queconstituem este universo de mulheres depende da interação entre o conhecimento dacultura local e a vivência da pesquisadora com estas mulheres, bem como com a própriaaceitação destas mulheres como masculinizadas. No decorrer desta escrita, se por umlado, deseja-se descrever as características destas interlocutoras, por outro lado, coteja-se revelar as críticas positivas ou negativas que são tecidas em função do uso do termo“masculinizada”, quer seja pela teoria de gênero, quer seja pela teoria queer, quer sejapelo movimento social, quer seja por mulheres com as diversas práticas sexuais e/ouidentidades políticas.Palavras chaves: masculinidade de mulher, antropologia e ato performativo 1
  2. 2. “Não me acho masculinizada, mas sim arrojada”: Os desafios napesquisa sobre mulheres masculinizadasNa ocasião da gravação do vídeo intitulado Fio das masculinidades em parceria comMinistério Público da Bahia, tive oportunidade de ouvir de uma das garotas, a seguintefrase: - Ele me reconheceu depois, ele não acreditava que era capaz de fazer esseserviço, muito homem não faz...mas ele, meu chefe, chegou a mim e disse isso.(Carmem, 29 anos). Esta frase foi revelada sob forte emoção, enquanto a entrevistadadesaguava-se em lágrimas diante das pessoas que estavam nos bastidores da filmagem.Éramos em torno de cinco pessoas, além da câmera1.Esta cena, auge daquela entrevista, reverbera como que sinalizando uma possível chavepara compreensão do universo escolhido para entabular o diálogo nesta investigação, deforma bastante potente. Quer seja em sua relação na produção de uma subjetividadesubalternizada, quer seja em sua relação de uma subjetividade resistente. Muito mais doque falar acerca de um sujeito jurídico, ou de um sujeito que se insurge para serinteligível na matriz da heterossexualidade compulsória, racializada e classista, estouconvencida que este é um terreno que dificilmente será reconstituído numa zona deconforto para quem quer que seja o leitor/a deste texto.Para adentrarmos nas masculinidades em corpos femininos tentarei articularteoricamente as ideias desenvolvidas por Butler (2001), Connell (1995) e Halberstam(2004) sobre ato performativo e masculinidades. Na seção seguinte reporto-me a trêssituações, cuja interlocução tem a ver com os meus/minhas colegas de trabalho emCongressos de Ciências Humanas, com as militantes que participaram da IICONFERÊNCIA LGBT DA BAHIA e com as mulheres não militantes entrevistadas.No decorrer deste texto estarei no cotejo das seguintes questões: Por que falarmasculinidades em mulheres incomoda tanto? Será que de fato reforça o preconceito?1 Este vídeo sobre a vivência das mulheres masculinizadas foi o ponto de partida para a parceria entre oMinistério Público da Bahia- GEDEM e a Universidade do Estado da Bahia (UNEB). A parceria engloba osdois projetos Masculinidades em corpos femininos e suas vivências: um estudo sobre os atosperformativos masculinos reproduzidos pelas mulheres nas cidades de Alagoinhas, Camaçari e Salvador,e Masculinidade em corpos femininos: tecendo articulações entre pesquisa, extensão e políticaspúblicas sobre e com estas mulheres, aprovados pelo Edital MCT/CNPq/SPM-PR/MDA nº 20/2010 -Relações de Gênero, Mulheres e Feminismo / Edital nº 20/2010 e o Edital 021/2010 – Apoio àArticulação Pesquisa e Extensão- FAPESB, respectivamente. 2
  3. 3. Será que nós da antropologia sempre reforçamos ou criamos os estereótipos? Será que otermo masculinidade deve ser exclusividade dos homens no sentido do órgão genital?Será que falar em masculinidades em mulheres é um ataque às feminilidades.1. A DISCIPLINA NO OLHAR – A RE-CONSTRUÇÃO DE GÊNERO VIA APERSPECTIVA DESCONSTRUCIONISTAPara compreender como ocorre a construção desse universo de pesquisa, remontamos àideia weberiana de realidade social e de abstração desta realidade construída pelocientista social. Assim como Weber (1991), entendo o mundo social como um infinitofluxo de eventos que se dão no tempo e no espaço. Em outras palavras, o mundo socialé uma realidade que escapa a qualquer descrição ou síntese exaustiva e ao final, permiteapenas relatos parciais e incompletos que são abstraídos da realidade de diferentesmodos.Em nota de rodapé, no meu livro Ser ou não ser: uma questão para pegar amasculinidade reporto-me as lições de Weber sobre a construção do tipo ideal paraconstruir os tipos ideais do “verdadeiro homem” e da “bicha”. Lá reflito claramente que“o tipo ideal não é elaborado pelo pensamento puramente conceitual, mas antes criado,modificado e aperfeiçoado através da análise empírica de problemas concretos,contribuindo, por sua vez, para que essa análise tenha maior precisão” (pg.48,2009).Como na ocasião, explico-me novamente, o tipo ideal não é meramente um tipodescritivo, mas este último pode ser transformado no primeiro, através da abstração e dacombinação de determinados elementos. Desta forma, opero com a ideia do tipo ideal,considerando a possibilidade de encarar as relações de gênero como ato performativo.Então, para apreender a realidade que tem a ver com as masculinidades vividas emcorpos femininos, sigo a trilha de Butler sobre o conceito “La performatividad no es unacto único, sino una repetición y un ritual que logra su efecto mediante su naturalizaciónen el contexto del cuerpo”. (2001, p. 15)Desta forma encaramos que a naturalização não é uma lei antecipada que podeconformar as categorias de homem/mulher, mas sim, que a lei da naturalização requer 3
  4. 4. um árduo trabalho de repetição e reprodução de manejo dos corpos e dos desejos. Destainterpretação é preciso indagar, portanto, o que é ato performativo. Para ela, o atoperformativo é uma prática discursiva, no sentido que se trata de um ato lingüístico,neste sentido sujeito a interpretação, com efeito, o ato performativo deve ser executadocomo uma obra de teatro apresentado a um público, ou seja, na interação com outros,segundo normas pré-estabelecidas. Daí indaga-se por que gênero é performativo?Vejamos como nos contesta Butler: Así, dentro del discurso heredado de la metafísica de la sustancia, el género resulta ser preformativo, es decir, que constituye la identidad que se supone que es. En este sentido, el género siempre es un hacer, aunque no un hacer por parte de un sujeto que se pueda considerar preexistente a la acción. (2000, p. 58)Esses atos são, para Butler, performativos, pois “a essência ou a identidade quepretendem expressar são fabricações manufaturadas e sustentadas por signos corpóreose outros meios discursivos” (194). Os atos performativos de gênero e sexualidade sãoregulados por normas que estabelecem como homens e mulheres devem agir – o queButler identifica como heteronormatividade. Essas regras limitam as potencialidadesdos gêneros circunscrevendo-os a um binarismo castrador. Este binarismo produz aideia de dois corpos sexuados, cuja masculinidade, era imaginada como universal,diferentemente da feminilidade. Almeida (2003) em seu livro Senhores de si: umainterpretação antropológica da masculinidade chega à conclusão de que foram osestudos desenvolvidos pela teoria feminista e a teoria gay e lésbica que efetivamentelevaram ao questionamento da masculinidade. O autor considera que o androcentrismoda antropologia é meramente um reflexo de todas as estruturas, incluindo, portanto asdos saberes, da sociedade que a produz. O autor se apropria dos estudos de Connell,sublinhado que a masculinidade deve ser entendida numa estrutura de gênero, nuncacomo um objeto natural.No texto intitulado “Navegando em busca do giro na heterossexualidade compulsória:A construção teórica-metodológica dos atos performativos masculinizados” descrevomais detalhadamente o conceito de masculinidade desenvolvida por Connell, e verifico 4
  5. 5. como o autor revela a existência das múltiplas masculinidades, e como estas podemvariar histórica e culturalmente. Para ele, os principais padrões de masculinidade queimperam atualmente no ocidente, são: a hegemonia/dominação, a subordinação, acumplicidade e a marginalização/autorização.Entretanto, o problema que passa despercebido por Connell é efetivamente denunciadoatravés da leitura de Butler, a teoria de gênero nos leva inevitavelmente ao contratoheterossexual, no qual somente duas figuras o protagonizam: o homem e a mulher.Neste sentido, a masculinidade vivenciada pelas mulheres não se encontram noarcabouço teórico desenvolvido em Connell, daí reside a dificuldade de entender que amasculinidade em corpos femininos é também um tipo de masculinidade, e não umamasculinidade artificial, somente assim, compreendo que estamos radicalmente,levando a sério a desnaturalização dos corpos sexuados.Para dar início às reflexões que têm fortemente surgido com o conceito masculinidadede mulher, vejamos o que nos diz Halberstam (2004): "La masculinidad de MUJER" se me ocurrió como un término que estaba implícito en muchos de los diversos debates sobre el género, la performatividad de género, el constructivismo, etc, pero que nunca se mencionaba como tal. Lo que en realidad quiero decir en mi libro es que a pesar de que se está casi universalmente de acuerdo que el haber nacido MUJER no produce automáticamente la femineidad ni el haber nacido varón la masculinidad, parece que muy poca gente se está dando cuenta o está pensando sobre los efectos materiales que conlleva el disociar el sexo del género y esto ha sido particularmente obvio en la esfera de la masculinidad. Al significar la femineidad en general el efecto del artificio, la esencia de la "performatividad" (si se puede decir que lo performativo tiene esencia), nos resultará más fácil entender que es transferible, móvil, fluida. Pero la masculinidad tiene una relación totalmente diferente con la performance, lo real y lo natural y parece que es mucho mas difícil fisgonear y desmontar lo masculino y las características asociadas a los varones que lo femenino y las características asociadas a las MUJERES.(pg.1) 5
  6. 6. Na interpretação dos dados que tem a ver diretamente com uso do termo, aprecio oquanto, de fato, é significativo entender, desmontar, deslocar o masculino da leinaturalização.2. O DIÁLOGO ENTRE A TEORIA E OS ACHADOS EMPíRICOSNesta seção irei discorrer sobre três situações distintas no que diz respeito ao empregodo termo mulher masculinizada, que tem sido criticado e também acolhido em espaçosdiferenciados, quer seja no ambiente acadêmico, quer seja no ambiente da militância,quer seja com as mulheres interlocutoras da pesquisa. As duas primeiras foram jámencionadas no texto E PRECISA ISSO?! : Desconstruindo o fio dasmasculinidades nas vivências de mulheres masculinizadas na infância, na Escola eno Mundo do Trabalho. Aqui proponho uma discussão mais aprofundada sobre estatipificação. Vejamos como se desenrola o debate, as inquietações geradas pelo uso dotermo, tendo três interlocutores em posições estruturais distintas.2.1 No contexto acadêmicoEm 2010, na RAM (Reunião de Antropologia do Mercosul) e no CONLAB ( CongressoLuso Afro Brasileiro de Ciências Sociais - Diversidades e (Des)Igualdades) fuiinterpelada pelos meus colegas insatisfeitos com o uso do termo. Na RAM, no textoapresentado, fiz uma referência muito rápida de que o universo de pesquisa a serconsiderado englobava os microempresários homens e as microempresárias mulheresmasculinizadas. O foco de análise era a relação entre os microempresários e os seusclientes e funcionários LGBT. Mas mesmo assim, a crítica tecida pelo coordenador doGrupo de Trabalho centrou-se no uso termo mulher masculinizada. Para ele, o fato deter mencionado o termo sem maiores explicações promovia um estereótipo negativonestas mulheres, e reforçava a dicotomia.No ano seguinte apresentava no CONLAB a discussão teórica sobre o corpo naperspectiva da antropologia feminista e da teoria queer, bem como relatava a seleção douniverso destas mulheres. A polêmica mais acirrada nesta apresentação foi quando 6
  7. 7. anunciei como ocorria a seleção do universo de pesquisa, ou melhor, como se construíao tipo ideal de mulher a ser investigada. Este tipo ideal de mulher masculinizadadecorria efetivamente a partir da minha percepção sobre mulher masculinizada, dasconfusões do senso comum sobre o gênero da pessoa, das indicações feitas poramigos/as e a rede de relações destas mulheres, bem como a própria aceitação damulher como masculinizada. Vejamos a cena descrita no GT que incitou um debatecaloroso: Neste momento narro, como se deu um encontro, desenrolava-se na praia, estava com grupo de amigos/as, quando avistei de longe uma mulher bastante magra, em seu o rosto ressaltava uma sombra de bigode, suas roupas eram soltas e folgadas no corpo. Ela caminhava em nossa direção, em seu corpo atravessava uma faixa que sustentava um recipiente que se apoiava em suas costas. Era uma vendedora de caldo de sururu. Todos que estavam comigo duvidavam que fosse uma mulher. Segundos depois, iniciei uma conversa com ela, apresentei-me como professora da Universidade do Estado da Bahia e perguntei se podia entrevistá-la. Então marcamos o dia, mediante a troca de telefones. (MESSEDER, S, 2011, diário de campo)Para o antropólogo português que coordenava este GT, mulher com bigode não significanecessariamente mulher masculinizada, uma vez que em Portugal podemos identificarno lugarejo X, várias senhoras com bigode. Para ele significava também um descuidopor parte das destas mulheres. Para uma francesa que estava na plateia, em sua primeiravinda à Bahia, acreditava que todas as mulheres baianas fossem “putas”, por conta desuas roupas, e acrescentou que o trabalho exercido pelas mulheres poderia ser umcritério ou uma forma de masculinizá-las. Além disso, em tom acusatório afirmava queesta investigação acentuava os estereótipos destas mulheres. Desta forma, relativizar énecessário, mas ao mesmo tempo, no exercício de relativizar compreende-se que asverdades são contextualizadas.Segundo Halberstam (2001) o conceito masculinidade de mulher, não descreve umaidentidade, provavelmente descreve um espaço de identificação. A autora nos conta queem seu livro retrata sobre as “marimachos, butch, mujeres heteosexuales masculinas,safistas y tribades del siglo XIX, invertidas, trangénericas, stone butch y soft butch, dragkings, cyber butch, atletas, mujeres com barba, y la lista no se para ahí” (pg.7) 7
  8. 8. As mulheres masculinizadas a serem selecionadas para participarem desta investigaçãoantes de cederem as suas entrevistas assinam o termo de consentimento, cujo título dapesquisa já delata que elas vivenciam no seu cotidiano a masculinidade em seus corpos.2.2 No contexto do Movimento Social LGBTNa II Conferência de Políticas Públicas e Direitos Humanos de Lésbicas, Gays,Bissexuais, Travestis e Transexuais (LGBT) no estado da Bahia, as mulheres nãoaceitaram suas identificações como mulheres com estereótipos masculinos, elasagenciaram para si uma identidade como mulheres masculinizadas. Entretanto, nestamesma conferência contaram-me que mulheres lésbicas identificadas com afeminilidade desejavam a continuidade na escrita do estatuto, ou seja, mulheres comestereótipos masculinos.Este desacordo reporta-me a reflexão de Halberstam (2004) sobre como o termomasculinidade de mulher representa três tipos de intervenção na teoria e na prática dogênero. A primeira tem a ver com a polaridade feminilidade e masculinidade. Para ela, oconceito de ato performativo pode ser menos útil para a masculinidade, uma vez queesta com frequência se apresenta como o não performativo. A segunda intervenção tema ver com a ideia de que a masculinidade nos estudos culturais é compreendida comoum efeito social, cultural e político corporificada e com privilégios, neste caso reduz-sea masculinidade hegemônica. A terceira, acredito ser a mais pertinente com a cenaocorrida na Conferência, a autora tece comentários acerca de dois termos, mulheresidentificadas-com-varão e mulheres identificadas com mulheres.Segundo, nos conta a autora, o feminismo dos anos 70, cunhou o termo para descreveras condutas de mulheres heterossexuais que se identificam com e através do seu parmasculino e também com as lésbicas butch. Entretanto, nos diz Halberstam, o termoserviu para castigar as mulheres lésbicas mais visíveis e fora do armário, desta forma, ahistoria da masculinidade de mulher coincide ligeiramente com a historia do feminismolésbico, uma vez que a palavra lésbica foi utilizada para designar a de historia demulheres identificada com mulheres. 8
  9. 9. No V SEMINÁRIO DO FÓRUM BAIANO LGBT tive oportunidade de perguntarcomo duas mulheres masculinizadas sentiam-se em relação ao termo, como respostaobtive a curiosidade de entender a pesquisa e o telefone de ambas para entrevistá-las.2.3 No contexto da interlocução com mulheres masculinizadas não militantesNo diálogo com as mulheres tipificadas como mulheres masculinizadas, deparei-mecom duas situações. De um lado, nas entrevistas com as mulheres que fazem sexo comoutras mulheres percebi que não havia resistência, entraves, desconforto ao referir-me aelas como mulheres masculinizadas. Inclusive elas foram incentivadas a falarem sobresuas impressões sobre a pesquisadora, e daí pude reconhecer que também sou vistacomo “bofe”, mas um bofe gay, porque uso vestido. Por outro lado, até o momentopresente, conversei apenas com duas mulheres reconhecidas como masculinizadas quenão possuem experiências sexuais com outras mulheres. Uma delas retrucou-me, comum olhar questionador: - Não me sinto masculinizada, mas sim arrojada, e completa -acho que o termo valoriza o masculino, será que uma mulher não pode ser mais forte? Asegunda revelou que não se preocupa com o termo: “uma vez que de fato eu me acho,mas me visto como perua, eu sei da minha aparência mais forte, as pessoas até pensamque sou lésbica”.Nas citações das mulheres que não possuem práticas sexuais com outras mulheres duasquestões podem ser depreendidas. A primeira revela a preocupação com a possibilidadede o termo mulher masculinizada ser uma essência que designa o macho comoproprietário de qualidades masculinas, ou seja, a ideia de que existem qualidadesmasculinas intrínsecas ao macho. A segunda tem a ver com a coerência entre sexo,gênero e desejo sexual.Em relação às mulheres masculinizadas navego numa área bem fronteiriça com atransexualidade. Recentemente li um texto publicado em 2001: “Transexualismomasculino”, e nele a autora tece algumas comparações entre o masculino com ofeminino nos revelando o seguinte: Em relação às mulheres transexuais existem algumas diferenças, como, por exemplo: não existem mulheres travestis. Ou são ou não são transexuais. Outra diferença é que as mulheres, transexuais ou não, têm sempre pequena 9
  10. 10. frequência de masturbações, de modo que é arriscado usar isto como um indicador de que evitariam seus órgãos genitais. Impulso sexual: é muito baixo nos transexuais, diferentemente dos travestis.Das sete mulheres masculinizadas que fazem amor/sexo com outras mulheresentrevistadas, apenas uma revelou o desejo de realizar a mastectomia, mas sem alterar agenitália. Contrariando a afirmação acima, todas elas se vestem no “estilo masculino”: Acho que eu assumi o meu estilo mesmo, porque eu gosto. É.. meio masculinizada, né? Como se diz... Lembro quando eu tinha doze anos eu já gostava de brincar com coisa de menino, roupa de menino, mas eu só fui assumir mesmo, com uns dezessete anos (Amélia, 20 anos, branca, cursando a faculdade) Assim, desde infância 11 anos, 12 anos, eu sempre tive esse jeito masculinizado, porém, não era lésbica, não me via assim como lésbica, era julgada assim por colegas “ah mulher-homem” “machão” “não sei o quê”, mas eu me inspirava no meu irmão. Era... lá em casa éramos 3, eu , Bárbara e meu irmão. E eu achava a figura dele, o modo dele se vestir o modo dele andar, o jeito dele, copiava. Nunca gostei de brincar de boneca... essas coisinhas com menina, sempre joguei bola, fura-pé essas coisas de menino, mas não era lésbica, não tinha inclinação para envolvimento com mulheres. (Janaína, 42 anos, negra, ensino médio completo)Nos depoimentos vimos que existe a afinidade com o ato performativo masculino, elasnão se enquadram com o percurso supostamente naturalizado do ato performativofeminino repetido por mulheres. Além disso, ambas afirmam que o desejo por mulheresocorreu posteriormente. Nestas relações interpessoais amorosas, as mulheresmasculinizadas flexibilizam a sua forma de vestir, vejamos a fala de Janaína: Ela falava de eu andar de tênis, de andar de bermuda, camisa de botão, colocou no meu guarda-roupa batas e eu passei a amar, a andar de batas, eu adoro, mas eu andava bem masculinizada e ela tinha vergonha de mim. Sofri muito com esse relacionamento. Nós saíamos e ela fazia de conta que nós não tínhamos nada. Nós nos dávamos muito bem em casa, eu e ela, mas na frente dos amigos dela, ela tinha vergonha. Aí sempre ela falava mesmo abertamente pra mim que não gostava do meu jeito, que ela jamais se envolveria com um bofe, que no meio do grupo dela, ela preferia que a gente não demonstrasse ter algum envolvimento. E aí eu me sentia... eu aceitava porque gostava dela, mas me sentia super mal com as coisas que ela me dizia. Eu mesmo, sempre tentava achar que ela tinha razão, que era muito feio, ela 10
  11. 11. dizia que era feio, que mulher sapatão era feio, que mulher poderia gostar de mulher, mas não precisava se vestir de homem, eu dizia pra ela que assim era o meu jeito, eu me sentia bem, mas eu tentei mudar. Parei de usar um monte de coisas, parei de usar camisa de botão, porque ela dizia: - Ah camisa de botão é coisa de pastor evangélico! E passei constrangimento entre os amigos dela porque às vezes em rodas de amigos eles diziam assim: “Ah você dizia que não gostava de bofe? Agora está com um bofão”. Tinha uma amiga dela que me chamava de “Roque Balboa” por causa do filme. Aí eu fiquei na dúvida do meu jeito se eu mudava se não mudava depois que nós terminamos nosso relacionamento eu me senti mais a vontade para voltar o que eu era, o que eu sou na verdade.Interessante neste depoimento é que o ato performativo masculino reproduzido pelasmulheres masculinizadas sofre um processo de naturalização, elas sentem-se comoverdadeiros homens, são bofes. A feminilidade é sentida de forma estranha, ela étomada como artificial, como uma ficção se for repetida por elas. Muito embora,possamos verificar neste universo de mulheres masculinizadas nuances de feminilidade,que provoca desconforto no grupo de mulheres bofes: As pessoas me empurraram pra essa condição de bofe, como eu te falei anteriormente, meus colegas costumam dizer que eu sou aviadada, por um detalhe ou outro por usar roupa curta, roupa. (Rosa, 43 anos, negra, ensino médio completo)CONSIDERAÇÕES FINAISO deslocamento provocado na discussão sobre masculinidades em corpos femininospromete o desafio do cruzamento analítico entre os discursos hegemônicos e discursosnão hegemônicos, sobretudo, nos permite pensar quem são os nossos/as interlocutores,quem são os/as produtores/as, ou melhor, quem são “aqueles” ou “aquelas” que estãoreproduzindo tais atos performativos, e, quem são aqueles/as que estão produzindoconhecimento sobre tais atos. Por enquanto, mantenho o emprego do termo mulhermasculinizada, muito embora, seja consciente de que com o uso deste termo estou sendorefém da tecnologia de gênero, ao tempo em que também tenho consciência de que amasculinidade como ato performativo não possui um sexo biológico correspondente. 11
  12. 12. Na seção “A disciplina no olhar” faz-se a alusão ao texto “O trabalho do antropólogo:olhar, ouvir e escrever”. A intenção era ser transparente na constituição deste olhar queprecede ao mergulho no trabalho de campo, uma vez que nosso olhar está condicionado,ora pela perspectiva essencialista, ora pela perspectiva construcionista, ambasnaturalizam a lei do gênero, ou seja, tomam como ponto de partida o sexo biológico.Entendemos que a teoria social pré-estrutura o nosso olhar e sofistica a nossacapacidade de observação.Desta forma, busco entender os tipos de subjetivações construídas e depreendidas nestediálogo com as mulheres tipificadas como masculinizadas a partir da perspectivadesconstrucionista e não-essencialista. Busco verificar como a raça, o sexo, o gênero e aclasse são performados e se reproduzem socialmente como estruturas performativas,estruturadas e estruturantes, ligadas à reprodução social desigual, como a produção dosocial em contextos contingentes, cenários híbridos, históricos e abertos.REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICAATHAYDE, Amanda V. Luna de. Transexualismo masculino. Arq Bras EndocrinolMetab [online]. 2001, vol.45, n.4, pp. 407-414. ISSN 0004-2730.BUTLER, Judith. El género en disputa: El feminismo y la subversión de la identidad.Páidos. México. 20001.____________. Mecanismos psíquicos del poder: Teorias sobre la sujeción. Cátedra.Madrid. 2003.CONNELL, R. W. Politica da masculinidade”. Educação & Realidade. v.20, nº2,UFRS. Porto Alegre Public Culture, v.12, p.291-343, 1995HALBERSTAM, J. Female Masculinity. Durham: Duke University Press,1998__________________ A. Masculinidad sin hombres. Revista de Género en la Red,2004. Entrevista concedida a Annamarie Jagose. 12
  13. 13. Disponível em: http://www.rebelion.org/hemeroteca/mujer/040429halberstam.htm,acesso em 13 de janeiro de 2012.LAURETIS, T. de. “A tecnologia do gênero”. Holanda, H. B(ed.). Tendências eimpasses. Rocco. Rio de Janeiro, 1994.MESSEDER, S. PRECISA ISSO?! : Desconstruindo o fio das masculinidades nasvivências de mulheres masculinizadas na Escola e no Mundo do Trabalho. In: TEREZARODRIGUES VIEIRA. (Org.). MINORIAS SEXUAIS DIREITOS EPRECONCEITOS. 01 ed. Brasilia: Consulex, 2012.______________. Navegando em busca do giro na heterossexualidade compulsória: aconstrução teórico-metodológica dos atos performativos masculinizados. In: CosmeBatista dos Santos; Paulo César Garcia; Roberto Seidel. (Org.). Critica cultural eeducação básica: diagnósticos, proposições e novos agenciamentos. 01 ed. São Paulo:Edunesp, 2011, v. V.1, p. 313-325_____________. Ser ou não ser: uma questão para pegar a masculinidade. Eduneb,Salvador, 2009. 13

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