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De paixões e de vampiros uma história do tempo da era

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Comunicação apresentada por Diogo Silva em 06/12/2010 sobre o livro De paixões e de vampiros uma história do tempo da era.

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De paixões e de vampiros uma história do tempo da era

  1. 1. De paixões e de vampiros: uma história do tempo da era Ruy Espinheira Filho Comunicação: Diogo de Oliveira Um fluxo em De paixões e de vampiros - Vamos fazer um negócio? Eu te levo até Manacá da Serra e você me diz o queachou. Esse diálogo poderia ser feito entre Ruy Espinheira Filho e qualquer pessoa quequisesse ler seu livro De paixões e de vampiros, uma história do tempo da era. Se bemque ele nos dá a licença para adentrar em um lugar muito além do que é essa cidadefictícia e conhecer seus personagens. Nesse livro, o personagem-narrador nos deixa a par de todas as questões de suavida, não há o obscuro, talvez apenas o subentendido nas ironias que seguem no cursodo texto. O fluxo da obra é como um moinho de água que de repente sai da calmaria esente como o nível do leito aumentou e o movimento que ganhou, mesmo sem querer.Todavia, não perde a clareza e a fina beleza da simplicidade. Nessa história Ruy estabelece uma conexão sensível com o tempo. São pequenaspistas que indicam um passado recente. É aos poucos que se entra em Manacá da Serra,e sempre desvendando os segredos de sues moradores. Como o caso de Philinho e ocasal dono da pensão em que o protagonista está instalado. O casal, seu Amphilophio e dona Clotilde, tiveram um filho quando estavam emidade avançada. Ele morreu de leucemia. Esse acontecimento é narrado no capítuloVida, morte e regresso que é encerrado contando como e porque a mãe do rapazguardou os ossos de seu filho no sótão de casa. Mas o narrador não apresenta nenhumespanto ao relatar o fato: “[...] Um dia, dizendo-se cansado e com frio, adormeceu e nãoacordou mais [...]” (pg. 21). É com esse tom que o protagonista nos mostra algunspontos do passado dos principais personagens do livro como Juvenal e Luis Virgem,ambos amigos do protagonista. Outras questões do livro também são narradas com a mesma impressão denormalidade quando, na verdade, poderiam ser espantosas, revoltantes, hilárias. Arevolta poderia estar no caso do jogo de futebol em que o integrante de um time cometeas maiores arbitrariedades, chega à violência contra outro, mas não é penalizado pelojuiz em campo. Trata-se do promotor, e seu cúmplice, o cunhado. Mas tudo termina daseguinte forma:
  2. 2. “ – Mas ele não pode fazer isso! – indignei-me. - Pois ele fez. Fez e faz de novo. - E por que o juiz não toma uma providência? - Até que fica sabendo sim. Quando fica sabendo, manda soltar o homem. - Estou falando do juiz do jogo! - Ora, aqui só tem mesmo dois que apitam. Aquele de hoje é o genro do doutor. Leão deu um muxoxo: - Tem um rabos-de-palha e prefere não se fazer notar...” (pg.73) É assim que se dá a concentração de poderes em algumas relações descritas,sempre envolvendo figuras ligadas à política. O jornal local e o cabaré se mantêm foradessa cúpula, também a pensão que vai sendo esquecida pelos fatos que entram noenredo enquanto o nível do leito do rio vai aumentando. O narrador não passa a visão de um jornal que domine ou influencie fortementea sociedade local, ele aparenta ser mais um termômetro, ou fluviômetro se fossemosexigir um vocabulário rigoroso, das atividades da cidade. Passou de circularquinzenalmente para semanalmente na época da campanha política. Juvenal, o dono dojornal, deixa claro que o veículo não apoiará qualquer partido, simulando aimparcialidade que reinava nos manuais e nas orientações dos meios de comunicação háalgum tempo. Enquanto Isaura Pernão, dona do bordel, acolhia todas as figuras ilustresda cidade nas noites de festa, momento no qual as divergências entre os personagens,políticas ou não, são colocadas de lado. São das “fissuras explicativas” que o narrador-personagem estabelece um quadroclaro da realidade política em Manacá da Serra. Não pense que estamos falando de umvampiro candidato, ou de uma paixão frenética com os poderes no Estado. A paixão e a aventura do livro perdem dimensão na narrativa para uma confusãopolítica na cidade. Mas não é apenas uma cidade com suas vendas, farmácias, padarias.É uma cidade com os aspectos fundamentais para a narração. O leitor não se perderá emvários lugares, ele passeará por fragmentos de uma pensão, de um auditório de colégio,algumas ruas, e, não se sabe se por gosto do autor, nos lugares mais bem descritos: ojornal e o cabaré. Portanto, não é por uma descrição física dos lugares e das pessoas que o autortem uma aproximação com o “real”. Há no livro uma admissão da ficção em uma
  3. 3. narrativa sóbria, com fortes críticas ao modo como se estabelecem as relações e astomadas de decisões em uma sociedade dominada pelos interesses políticos. A política entra no leito de maneira abrupta, como se fosse algo externo à vida eviesse restabelecer as relações pré-existentes. A partir desse momento o fluxo desse rioextravasa com os discursos, posicionamentos e confusões. Tira a cidade da cidade seucaráter pacato, como acontece o com protagonista: Encontrei Tertuliano na avenida Rio Branco. - Vai à AMES hoje? – perguntou-me. - O que é que tem lá? - Os estudantes vão definir posição política. - Ah.... e você acha que a AMES vai apoiar quem? - O General, é claro. Quase todo mundo lá é comunista – como você. Surpreendi-me: - Como eu?! - Como você – confirmou ele. - E eu sou comunista? – duvidei. - E não é? – espantou-se. E arrematou: - Ora, todo mundo sabe que você é! (pg 33) Logo toda a cidade é revirada de ponta-cabeça pela presença dos candidatos: oGeneral, já citado, o Rouba Mas Faz e o Homem da Vassoura. O ingresso doprotagonista no jornal local, o Folha de Manacá da Serra, é que o joga nas correntes dapolítica e da politicagem. Na verdade, muito mais da politicagem, como explicita essetrecho: Juvenal me chamou lá de dentro, da biblioteca. - Você vai ficar encarregado da cobertura política – disse. – Seu mundo, de agora em diante, será o mundo da política. Fará entrevistas, acompanhará os comícios, estará atento a qualquer fato ligado à campanha. Certo? [...] - Nem sei se vou votar ou anular o voto – disse. – Com esses candidatos... Um, notório ladrão; outro, um sujeito meio doido quem vem representando o que há de pior no país; o terceiro um General [...] (pg. 79) Assim é que o aprendiz de jornalista toma consciência do quadro político dacidade onde está. Mas o fluxo da cidade volta ao pacato e quase apagado com o final do processoeleitoral. Nosso narrador garante:“O comício do General encerrou a campanha política em Manacá da Serra. Vieramentão dias vazios – e, no 3 de outubro, fiz a cobertura da votação [...] ” (pg. 195) e “Os
  4. 4. dias se arrastavam. Quase nada acontecia que merecesse a atenção da Folha, quevoltaram a circular quinzenalmente [...]” (pg. 196). Daí em diante as águas são termais: quentes de amor e da resolução do mistériodo vampiro. Poderíamos afirmar que foi o caminho de aprendizagem do próprio autor dentrode um veículo de comunicação. O jovem estudante, fora de casa, escolhe ser escritor ese aproxima do jornal para aguçar a escrita e se aproxima da literatura por influência deseu editor. O velho Juvenal, editor-chefe e dono do Manacá da Serra, uma figuraobscura e boêmia, lembra a época que não vivi onde as pautas eram feiras embaladas debebidas, discussões, nos bares, em proximidade com os bregas e a irreverência cultural. Seria um depoimento? Mas o protagonista não tem nome. Sou “eu” que narrotoda a história. Tenho um amor meio platônico por uma garota inalcançável, vivodesventuras em uma cidadezinha, não há vampiro a ser derrotado no final. Só mais umaconfusão própria da vida. De vampiros e paixões são minhas memórias? Só a partir do momento quetambém me jogo nesse rio, e lido com seus meandros, como nos ensina Juvenal:“[...]Alguém já disse que a experiência é uma lâmpada muito fraca, que só ilumina quem acarrega. Assim, quanto ao que é mesmo importante, ao que é essencial, você só contavocê mesmo. Com o que você é. Se você for, tudo bem. Se não... (pg. 46)”. Através desse texto Ruy Espinheira Filho deu-nos a oportunidade de ver maisum caminho que a vida tomou e poderia ter tomado. Fiel à vida, eu diria que esse livroé. Memórias (pré-figurações), política, amores repentinos, são experiências que o livronos abre para ver e rever ... mas você só pode contar com o que você é, se você for.

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