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Carnaval

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O último Carnaval de Vitória - Ondjaki

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Carnaval

  1. 1. 1 Est�rias: O �ltimo Carnaval da Vit�ria Ondjaki A vida �s vezes � como um jogo brincado na rua: estamos no �ltimo minuto de uma brincadeira bem quente e n�o sabemos que a qualquer momento pode chegar um familiar a avisar que a brincadeira j� acabou e est� na hora de jantar. A vida afinal acontece muito de repente - nunca ningu�m nos avisou que aquele era mesmo o �ltimo Carnaval da Vit�ria. O Carnaval tamb�m chegava sempre de repente. N�s, as crian�as, viv�amos num tempo fora do tempo, sem nunca sabermos dos calend�rios de verdade. Para n�s segunda-feira era um dia de come�ar a semana de aulas e sexta- feira significava que �amos ter dois dias sem aulas. Depois as datas eram assim isoladas: Carnaval da Vit�ria, dia do trabalhador, dia um das crian�as, f�rias grandes, feriado da independ�ncia e o natal com o fim de ano tamb�m j� a chegar. O Carnaval tinha que ser anunciado pelos mais velhos, como se n�s, as crian�as, vivessemos numa vida distra�da ao sabor da escola e da casa da av� Agnette. O dia da "v�spera do Carnaval", como dizia a av� Nh�, era dia de confus�o com roupas e pinturas a serem preparadas, sonhadas e inventadas. Mas quando acontecia era um dia r�pido, porque os dias m�gicos passam depressa deixando marcas fundas na nossa mem�ria que alguns chamam tamb�m de cora��o. Na televis�o passava o grande desfile do Carnaval da Vit�ria e, na Praia do Bispo - o bairro poeirento da av� Nh� -, n�s form�vamos um grupo pequenino que, com um apito gritante, fazia uma passeata de quase quarenta e cinco minutos.
  2. 2. 2 Havia que ir at� � bomba de gasolina, atravessar a rua com cuidado, passar perto da casa do Xana, esse Xana que todo mundo dizia que tinha um jacar� no quintal dele, ir pelo passeio da Andreia, a amiga bonita da minha prima, cumprimentar a tia Adelaide no port�o, esperar que o Paulinho tamb�m viesse, e entrar no bairro da Kinanga, passando pelo Cine, apitando sempre forte, dando a volta na igreja e voltando pela rua principal outra vez a olhar as ruas com cuidado por causa dos carros que vinham com velocidade conduzidos pelos b�bados do Carnaval da Vit�ria. Ao chegar a casa se calhar a tia Maria e a av� Nh� tinham preparado um lanche magrinho, com banana, p�o, umas fatias bem fininhas de bolo feito com metade da receita normal, ngonguenha para quem quisesse, quatro rebu�ados duros e antigos que ningu�m atacava, um pires pequeno de arroz doce s� com cheiro de canela, alguma paracuca e a gasosa �baptizada�, que era uma gasosa misturada com �gua de modo a que uma garrafa de fanta ou coca-cola, depois de baptizadas, dessem para tr�s ou quatro copos. A tia Maria vinha da cozinha com o prato de arroz-doce ainda a polvilhar o restinho de canela que sa�a do frasco, a rir, e a fazer estranhos movimentos na boca com a placa de dentes toda velha que ela usava. N�s n�o pod�amos rir. A av� Nh� tinha proibido todos os netos de estigarem a tia Maria nesse gesto dela da placa, e tinha dito que a tia Maria era �boazinha�. N�s r�amos �s escondidas, porque a tia Maria era muito gorda e tinha o h�bito de p�r os dedos tamb�m gordos em todas as comidas para provar quando a av� Nh� n�o tava a olhar. As nossas m�es faziam de prop�sito para nos deixar l� na casa da av� Nh� no dia do Carnaval da Vit�ria. �s vezes at� fico a pensar que no dia do Carnaval era a data em que eu via os primos todos, mais at� que no natal. Quando entr�vamos para vir lanchar, as roupas e as pinturas eram j� s� um resto de coisas penduradas, azuis suados e vermelhos tristes nas bochechas da prima Naima e da mana Tchi. As "Arletes", como a av� chamava o grupo das filhas do sr. Tuarles, �s vezes vinham tamb�m lanchar connosco, mas a tia Maria dava-lhes cada olhada que elas quase nem tinham coragem de tirar comida nenhuma. Acho que a tia Maria s� gostava das crian�as que eram de casa e principalmente n�o queria que outras crian�as comessem as coisas que ela tinha preparado. A tia Maria era muito gorda e passava muitas horas na cozinha, de tal maneira que j� ningu�m gostava de lhe dar beijinho nas bochechas a cheirar a cebola e a margarina daquelas latas vermelhas.
  3. 3. 3 Al�m da av� Nh� e da tia Maria, estava tamb�m a av� Catarina, toda vestida de preto e muito caladinha, com o len�o escuro a tapar o cabelo todo branquinho. Ela era muito calada e tinha sempre aquele h�bito de passar o dia todo a abrir e fechar as janelas do quarto dela, mas na altura do Carnaval da Vit�ria, ela era boa a dar ideias para inventar m�scaras, "a Naima pode ser a bailarina", dizia com a voz dela muito apagada como se fosse uma pessoa que ainda n�o tinha percebido que afinal j� tinha morrido h� muitos anos, "a Tchissola pode ficar a fada", e ia para o quarto dela ver se tinha deixado as janelas abertas, trazia mais uma roupa, um len�o, uma ideia, "o Amilcar vai mascarado de pol�cia", o Amilcar adorava que lhe chamassem o sr. Pol�cia, ficou vaidoso com a camisa azul e o len�o no pesco�o, tinha at� uma pistola de madeira que parecia dos filmes do Trinit�. Quando entr�mos para lanchar, na televis�o estava a dar, em directo, o desfile do Carnaval da Vit�ria. Eu n�o gostava de arroz-doce, a mana Tchissola atacou o meu pires. Fic�mos todos a ver o desfile e era um m�s de Mar�o. O locutor deu alguma informa��o errada sobre o Carnaval, e um dos primos disse que n�o era assim, que aquele era o Carnaval da Vit�ria porque a 27 de Mar�o se comemorava o dia em que as for�as armadas tinham expulsado o �ltimo sul-africano de solo angolano, e bu� de gente come�ou a estigar porque ali n�o est�vamos em nenhuma aula e n�o queriam li��o de hist�ria. Mas eu pensei que o meu primo tinha raz�o. Est�vamos nessa distrac��o de risos e gasosas baptizadas, quando a av� Catarina veio me pedir o apito. Eu tinha esquecido de lhe entregar o apito. Naquele tempo, antes de sairmos de casa para o nosso desfile de crian�as mascaradas, a disputa era quem ia levar o apito na boca. Esse que tinha o poder de apitar fazia a vez daqueles que, no desfile de verdade, v�o � frente a marcar o ritmo do grupo. Nesse ano, n�o sei porqu�, ningu�m tinha mostrado vontade de apitar, e a av� Catarina tinha me dado o apito. Eu fiquei contente e nervoso, porque se eu n�o apitasse bem mais tarde iam me gozar durante bu� de semanas. Mas correu tudo bem. Agora, devagarinho e sempre falando baixo, a av� Catarina veio me pedir o apito. - D�-me o apito, filho, que eu tenho de ir l� a cima ver se deixei as janelas abertas. Ela parecia ter pressa. Procurei nos bolsos, nada no casaco, nada na cal�a. Fiquei atrapalhado, pousei o copo com o restinho da gasosa aguada do baptismo.
  4. 4. 4 - Espera s�, av� - levantei a cal�a, encontrei o apito escondido na meia. Tinha medo de ser roubado porque j� t�nhamos voltado para casa quando estava escuro. Dei-lhe o apito e ela fez uma coisa que fazia poucas vezes: sorriu e fez-me um carinho na bochecha. Nunca disse aos meus primos porque iam me gozar, mas eu n�o sabia que a m�o assim toda enrugadinha da av� Catarina era t�o suave. Fechei os olhos. Quando os abri, ela j� n�o estava l�: a av� Catarina era muito r�pida a desaparecer. Levantaram o som da televis�o. O camarada locutor estava a conversar com algu�m e ouvimos coment�rios de aquele ser mesmo o �ltimo Carnaval da Vit�ria. L� fora, o cami�o da �gua passou a largar �gua no passeio da av� Nh� que tinha sempre muita poeira por causa das obras do Mausol�u. Muitos mi�dos brincavam de correr perto desse cami�o e um sovi�tico dizia palavras que ningu�m entendia mas acho que ele estava a dizer disparates na l�ngua dele. Como n�o podia apanhar poeira, por causa da asma, fui para o quintal. Fazia um vento que voava devagar ent�o as folhas da figueira faziam um ru�do que era mais um segredo que um barulho. L� longe, na rua principal, ouvi o barulho da Honda 1100 do Jo�o Serrador a passar. Os dois jac�s na gaiola disseram bu� de disparates porque estavam assustados com o barulho da mota e s� havia uma coisa a fazer: fui at� ao tanque da roupa onde tinham deixado uma �gua azulada por causa do sab�o, molhei as m�os e sacudi para dentro da gaiola. Os jac�s lambiam o corpo com vontade. Mesmo vendo os olhos deles t�o alegres, nunca entendi porqu� que o sabor daquele sab�o azul lhes acalmava mais que um carinho. Isto foi em fins de Mar�o. No �ltimo ano do famoso Carnaval da Vit�ria.

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