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Jika

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O voo do Jika

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Jika

  1. 1. 1 Est�rias: O voo do Jika Ondjaki O Jika era o mais novo da minha rua. Assim: o Tibas era o mais velho, depois havia o Bruno Ferraz, eu e o Jika. N�s at� �s vezes lhe proteg�amos doutros mais-velhos que vinham fazer confus�o na nossa rua. Hoje pensar no Jika � lembrar-me dele com muita ternura. Por v�rias coisas. O almo�o na minha casa era perto do meio-dia. �s vezes quase � uma. Ao meio-dia e quinze, o Jika tocava � campainha. - O Ndalu est�? - perguntava � minha irm� ou ao camarada Ant�nio. - Sim, est�. - Chama s�, faz favor. Eu interrompia o que estivesse a fazer, descia. - M� Jika, com�? - Ndalu, vinha te perguntar uma coisa. - Diz. - Hoje num queres me convidar pra almo�ar na tua casa? - Deixinda ir perguntar � minha m�e.
  2. 2. 2 Entrei. O Jika ficou ansioso na porta, aguardando a resposta. Quase sempre a minha m�e dizia sim. S� se fosse mesmo maka de pouca comida, ou muita gente que j� estava combinada para o almo�o. Se a Av� Chica viesse, ia trazer tamb�m a Helda, e assim j� n�o ia dar. Mas normalmente a minha m�e dizia mesmo �sim�. E ficava a rir. - A minha m�e disse que podes - eu disse tamb�m contente. - Ah �? - ele pareceu surpreendido. - E a que horas � que voc�s v�o almo�ar? - Ao meio-dia e meia, Jika. - Ent�o vou pedir na minha m�e. Deixei a porta aberta. O Jika devia voltar sem demora quase nenhuma. Ouvi ele gritar contente, c� de baixo, na direc��o da janela do quarto da m�e dele: - Maaaa�e!, a tia Sita me convidou pra almo�ar na casa dela. Posso? - Podes. Mas vem mudar essa camisa suada. O Jika deu uma esquindiva, fingiu que j� tinha mudado, veio a correr numa transpira��o respirada. Contente. Olhos do mi�do que ele era. Fosse o melhor programa da semana dele. E eu, mesmo mi�do candengue, fiquei a pensar nas raz�es do Jika n�o gostar nada de almo�ar na pr�pria casa dele. O Jika tava habituado a muita gasosa. Nesse tempo, se houvesse gasosa na minha casa era pra dividir. Como n�s �ramos tr�s, eu e duas irm�s, quando o Jika vinha almo�ar, at� a divis�o corria melhor. Ele por vezes queria fugir desse ritual: - Tia Sita, posso beber uma gasosa sozinho? - Sozinho bebes na tua casa - a minha m�e respondeu. - Aqui divide-se. Depois do almo�o, o Jika disse que ia a casa dele buscar �uma coisa�. Eu fiquei � espera, no port�o aberto. Prometeu n�o demorar. Voltou com a tal coisa escondida debaixo do bra�o, e entr�mos rapidamente na minha casa. Subimos ao primeiro andar, fomos at� ao quarto da minha irm� Tchi, e salt�mos da varanda para uma esp�cie de
  3. 3. 3 telhado. Aproxim�mo-nos da berma. L� em baixo estava a relva verde do jardim. O Jika abriu um muito, muito pequenino guarda-chuva azul. - P�e a m�o aqui - ensinou-me. - Agora podemos saltar. - Tens a certeza? - olhei l� para baixo. - Vamos s�. E salt�mos. Hoje lembrar isso faz-me cair num brilho de l�grimas antigas e sorriso tipo cacimbo sonhado ou algo que fosse igual a isso mesmo. A inf�ncia � t�o bonita. Ca�mos juntos na relva, magoamo-nos um bocadinho, mas sobretudo rimos. Mas o Jika teve outra ideia. - Calmo s�, m� Ndalu. Vou na minha casa buscar um maior. - N�o, Jika, desculpa l�. Vais saltar sozinho, eu j� num vou saltar mais de guarda-chuva. - Nem num bem grande que tenho, daqueles da praia, anti-sol e tudo, colorido tipo arco-�ris? - Nem esse! O Jika ficou desanimado. Sem outras propostas para brincadeiras perigosas, decidiu ir pra casa. Ao cruzar o port�o, falou ainda: - Posso te perguntar uma coisa? - Diz, Jika. - Amanh� num queres me convidar pra almo�ar na tua casa?

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