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Relatorio de intervencao - comportamento sexual

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Projecto de intervenção sobre violÊncia no namoro

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Relatorio de intervencao - comportamento sexual

  1. 1. Universidade do Minho Mestrado Integrado em Psicologia U.C Comportamento Sexual RelatórioProjecto de Intervenção: oficina de teatro para a prevenção da violência no namoro entre jovens Discentes: Verónica Baptista nº36207 Rute Duarte nº52939 Pedro Póvoa nº56875 Patrícia Martins nº53375 Docente: José Cruz 2º Semestre 2010/2011 Braga
  2. 2. ÍndiceIntrodução Parte I “Emergência do Projecto de Intervenção” 1.1.Diagnóstico da realidade 1.2. Enquadramento teórico da Violência do Namoro Parte II “Programação do Projecto” 2.1. Objectivos 2.2. Mobilização de recursos e pessoas 2.3. Tipo de Intervenção 2.4. Teatro do Oprimido 2.5. Planificação das sessões 2.6. Instrumentos de avaliaçãoReferências BibliográficasAnexos a. Questionário realizado na Junta de Freguesia S.Nicolau b. Exemplos de dinâmicas de grupo para a dinamização da oficina c. Proposta de apresentação do projecto d. Apresentação power point do dia 16-06-2011
  3. 3. Introdução O presente relatório pretende apresentar o projecto de intervenção desenvolvidono âmbito da unidade curricular de Comportamento Sexual, e todo o processo deconceptualização do mesmo. O projecto de intervenção inscreve-se num plano de intervenção maisabrangente que compreende três fases: i) o projecto; ii) a realização de intervenção, epor último iii) a avaliação do processo e dos resultados. Posto isto, neste relatórioquedar-nos-emos nos aspectos relativos à conceptualização do projecto, pois no planoreal a intervenção e a sua avaliação ainda não foram operacionalizadas. Os motivos que impulsionaram o desenvolvimento deste trabalho remetemprincipalmente para questões de índole pessoal. Os elementos constituintes do grupocultivavam a vontade de poder criar uma intervenção no âmbito psico-educativo e ter apossibilidade de por em prática essa ideia. Por isso, delineou-se o plano de construiresse mesmo intento iniciando um processo de planificação. O processo de planificação que se desenrolou teve em vista responder àsseguintes questões que comummente estão implícitas a um projecto: Quem intervém?Com quem? Porquê? Para quê? A partir de quê? Onde? Quando? Como? O que já foiconseguido? O que falta conseguir? ( ref) O projecto como metodologia de trabalho permite que se desenvolvam osvectores condutores da prática interventiva e também, antecipa obstáculos epossibilidades de resolução, e ora dá a conhecer as características da realidade, actores emotivações com quem se pretende trabalhar. Num sentido mais simbólico, Barbier(1996) lembra que o projecto insurge-se como uma “ ideia possível de transformação doreal ou (…) uma imagem antecipadora e finalizante de um processo que permiteassegurar a passagem de um estado, a outro estado. “ (p. ) A Emergência do Projecto e Planificação, foram as duas etapas que definimospara um desenvolvimento faseado do projecto, de modo a controlar os objectivos quepretendemos cumprir com a intervenção. A Emergência do Projecto incluiu odiagnóstico da realidade a descrição do tema dos destinatários, a pesquisa bibliográficasobre a conceptualização metodológica a temática e formas de intervenção. A segundaetapa amplia as necessidades atinentes a um projecto de investigação, esclarecendoaspectos como objectivos e tipo de intervenção, planificação das sessões, mobilizaçãode recursos e pessoas, meios e moldes de divulgação da intervenção , as características
  4. 4. do grupo que queremos formar e uma calendarização geral das actividades. Por fim,esta fase abarca também os instrumentos de avaliação (ainda em desenvolvimento) queserão utilizadas para avaliar o processo de intervenção, o interesse e aprendizagensadquiridas pelos/pelas participantes, bem como o nosso desempenho na consecução dasactividades e passagem de informação. Dessa forma, o relatório apresenta um desenvolvimento das duas etapas deplanificação supra referidas, focando-se nos aspectos que considerámos mais relevantespara uma compreensão dos objectivos que pretendemos alcançar quando a intervençãopassar para o plano de acção.
  5. 5. Parte IEmergência do Projecto de Intervenção1.1. Diagnóstico da realidade O diagnóstico do contexto alvo surge como uma etapa no nosso projecto deintervenção no sentido de perceber a realidade onde será realizada a intervenção, asnecessidades comunitárias e as expectativas em relação à introdução de um projectonesse mesma comunidade. A auscultação da comunidade poderia ser realizada de váriasformas através de diferentes informantes chave. No entanto, dada a escassez de tempo ede recursos, optámos por entrevistar a presidente da junta de freguesia de S.Nicolau pelasua proximidade à comunidade, e pelos conhecimentos sobre o contexto que o exercícioda sua profissão à partida exige. Ainda, a pedido da Dra. Cármen Navarro, presidente dajunta freguesia de S. Nicolau, compareceu também na reunião o tesoureiro dainstituição, Sr. Adão, por estar bastante envolvido profissional e pessoalmente com afreguesia. A entrevista semi-estruturada foi construída de forma a compreender cincocampos distintos e essenciais para a construção do projecto: caracterização social edemográfica da comunidade; necessidades e potencialidades da comunidade; tipologiasde associações e áreas de intervenção existentes na freguesia S. Nicolau; pertinência dotema Violência do Namoro como área de intervenção; recursos da comunidade para aexecução do projecto. A par da entrevista foram ainda consultadas informações disponibilizadas nainternet no site da Câmara Municipal do Porto e da Junta de Freguesia de S. Nicolau. A freguesia de S. Nicolau situa-se na cidade do Porto, na zona Ribeirinha.Segundo o recenseamento da população em 2001 a freguesia possuía cerca de 2 937habitantes, num conjunto de 59 arruamentos. Uma das fragilidades desta zona portuense remete para o problema da habitaçãoque segundo a Dra. Carmen Navarro, revela-se a dois níveis. A um nível mais estruturalna deterioração das habitações locais e de grande valor arquitectónico e histórico, semprojectos de reabilitação. Facto que tem conduzido à desocupação e reencaminhamentodos moradores, inclusive idosos, para zonas periféricas da cidade; o que contribuiprimeiro, para uma população maioritariamente idosa na freguesia de S. Nicolau, e para
  6. 6. um processo de desenraizamento identitário, comunitário e social de pessoas quecresceram e viveram na freguesia que se vêem obrigadas por questões económicos eadministrativas a mudar para zonas da cidade com as quais não possuem qualquer tipode relação social, afectiva ou comunitária. Por outro, a nível demográfico, esta freguesia tem assistido a uma chegada depessoas de outros pontos da cidade, principalmente vindos das áreas artísticas,procurando por exemplo, soluções de habitação, espaços para trabalhar, locais paradesenvolver projectos de âmbito cultural, etc. É nesta linha que a Junta de Freguesiaestá envolvida com o projecto Low Cost, destinado à reabilitação de edifícios para ahabitação de pessoas maioritariamente jovens e vindas de outros pontos da cidade. Apesar da diminuição de jovens naturais da zona ribeirinha a que se temassistido nos últimos anos, alguns espaços relacionados com a população mais novaainda subsistem. É o caso da escola do primeiro ciclo, a ludoteca destinada às crianças,e “ O Musical” onde se praticam várias actividades de carácter cultural. É interessantedestacar estes espaços por acolherem crianças que não vivendo actualmente nafreguesia, ainda possuem ligações familiares como os avós que habitam na freguesia. Quanto aos recursos e potencialidades da freguesia, primeiro é importante referira disponibilidade da Junta em colaborar através da cedência de espaços, facilitação decontactos e até na participação nas actividades. Uma das características sociaissalientadas pela Presidente, foi o facto da população da freguesia apresentar um grandecarácter solidário, no sentido das redes sociais alargadas. Segundo a Presidente da Junta,verifica-se em S.Nicolau uma importante entreajuda entre vizinhos, que concorre paraum apoio social informal e para a cooperação entre os moradores a vários níveis. Em relação aos projectos e programas de intervenção nas áreas apoio social,promoção da saúde ou de índole cultural, não se têm verificado com a intensidadedesejada. Apesar da ausência, o/a nosso/a entrevistado/a concordaram com aimportância de projectos nessas áreas, principalmente voltados para os jovens. Por isso,a ideia de um projecto de intervenção sobre violência no namoro, na opinião darepresentante da Junta de Freguesia, é interessante até porque na sua prática profissionaljá tem assistido a esse fenómeno. Relatou os episódios dos ensaios para as rusgas de S.João onde tem a oportunidade de observar as interacções entre os jovens e apercebe-sefrequentemente das dinâmicas abusivas entre namorados.
  7. 7. 1.2. Enquadramento teórico da Violência do NamoroSão diversas as disciplinas que se ocupam com o estudo da presente temática.Segundo Teixeira, Gonçalves & Menezes (2009), os principais contributos vêm de áreascomo: a Medicina, já que são várias as vitimas a recorrem a serviços médicos e hospitalares, de forma frequentemente; • A Educação, que mune a sociedade com (in)formação acerca da temática contribuindo para o conhecimento geral do fenómeno; • a Filosofia, que aliada à Psicologia, promove competências e estratégias assertivas para lidar e antever situações de abuso nas relações; • e a Psicologia Social, que estuda diversos fenómenos sociais, sendo que este é um dos que se torna cada vez mais frequente na sociedade em que vivemos, ou que é cada vez mais denunciado ( graças ao trabalho e empenho que todas estas disciplinas manifestam).Estas acções de (in)formação são levadas a cabo através de diversas entidades. EmPortugal, nomeadamente, e de acordo com Teixeira, Gonçalves & Menezes (2009), asque mais contribuem neste sentido são Escolas e Universidades (actuando nas camadasmais jovens), Centros Comunitários de Promoção da Inclusão Social, Gabinetes deAtendimento à Família (GAF) e Hospitais através, essencialmente, de campanhas desensibilização e esclarecimento.Quando se trata de ir para o campo actuar sobre a problemática, os interlocutoresprivilegiados são os Psicólogos (pela sensibilidade humana que possuem), e actores-chave comunitários (que fazem a ponte entre o interior e o exterior da comunidade, paraalém de deterem uma posição única e singular, já que são vistos, normalmente, comoum modelo- de sucesso- a seguir. Segundo diversos estudos, os factores prevalentemente apontados comopromotores de comportamentos violentos nas relações de namoro são o contextopolítico-social, com maior incidência nas faixas económico-financeiras baixas, bemcomo em pessoas que apresentam antecedentes familiares de violência doméstica.A este respeito, Oliveira (2009) apresenta-nos um estudo efectuado junto de umaamostra de 283 sujeitos. Aqui, foram relatados 46% dos sujeitos como visandocomportamentos agressivos, 57% dizia já ter sido vítima de algum tipo de violência emrelações amorosas, e 16.3% afirmou ter assistido a comportamentos violentos em
  8. 8. contexto familiar. É ainda de salientar que se verificou que os adolescentes são os quemais apresentavam comportamentos violentos no namoro. No que diz respeito à violência na família de origem, grande parte dos estudosdizem que esta pode promover comportamentos violentos nas relações amorosas atravésda violência interparental -preditor visto como directo no impulsionar da violência nonamoro. Contudo, também pode exercer um papel indirecto, nomeadamente, através doimpacto atitudinal e comportamental que exerce sobre os jovens. A relação entre a violência no namoro e a vitimação na família de origemcompreende-se à luz da perspectiva da transmissão intergeracional da violência.Segundo esta perspectiva existem duas formas da propagação ocorrer: através da noçãode aprendizagem social e/ou da modelagem de certas características da personalidade.Relativamente à noção de aprendizagem social falamos em mecanismos vicariantes, taiscomo a observação, o reforço, a modelagem, ou coação. Assim, o comportamento doindivíduo é determinado pelo ambiente em que se insere, sobretudo pelos membros dafamília. A modelagem das características da personalidade que sustentam a agressão naintimidade refere-se à tendência de internalização e externalização da responsabilidade edas emoções desproporcionais face à rejeição/abandono.Percebemos então, que a família para além de viabilizar certos comportamentos deagressividade nos seus membros, também os pode levar a interiorizar valoresideológicos e sociais (ex: atitudes e crenças sobre papeis de género e violência) quefuncionam como factores de promoção de condutas violentas. Na bibliografia averiguada, existe a referência de que o impacto deste tipo deviolência não ocorre da mesma forma nos dois géneros. São apontadas várias situaçõesonde podemos verificar esta diferença. No isolamento imposto pelo agressor, stalking(impedimento para contactos sociais), a falta de experiência relacional, a necessidade deemancipação e de independência dos jovens, a falta de identificação de eventuaisrecursos para a gerir (nos adultos) e outras características associadas à dinâmicarelacional (mais concretamente, a assimetria de poder entre parceiros) (Matos et al.,2006).
  9. 9. Parte IIProgramação2.1. Objectivos Foram desenvolvidos sete objectivos no intuito de adequar a nossa intervenção ao interesse geral da intervenção, às especificidades da temática de violência no namoro e ao tipo de intervenção que queremos realizar. São estes, i) informar sobre o tema violência no namoro, identificando factores de risco e protectores, prevalência e dinâmicas; ii) explorar e desmistificar as crenças (sociais e culturais) e mitos associados às relações abusivas entre jovens; iii) elucidar sobre o impacto dos comportamentos violentos nas relações amorosas; iv) promover competências de gestão de conflitos; v) informar sobre as entidades portuguesas responsáveis pelo apoio à vítima; vi) fomentar competências como a coesão de grupo, comunicação, resolução de conflitos, expressão emocional e corporal; vii) usar da técnica teatral para a formação socioeducativa. Estes objectivos foram desenvolvidos a partir das leituras realizadas sobre programas de prevenção e intervenção nomeadamente o estudo realizado por Matos, Machado, Caridade e Silva (2006) sobre uma intervenção em contexto escolar com jovens no âmbito da Prevenção da Violência nas relações de namoro.2.2. Mobilização de recursos e pessoas Considerar a mobilização de recursos e pessoas é antecipar possíveis obstáculose resistências à execução e implementação do projecto. Um dos grandes obstáculosantecipados é a adesão dos/as jovens a uma oficina de teatro que trate do tema violênciano namoro. Determinadas práticas abusivas no contexto das relações amorosas sãolegitimadas e até reforçadas por algumas crenças culturais e sociais. Por isso, énecessário antecipar uma possível resistência ao presente tema, preparando argumentose respostas para debater questões sociais e culturais enraizadas. Dessa forma, oproblema é antecipado trazendo para a sessão de apresentação da oficina a comparaçãodas práticas violentas com o controlo e função da “violência” nas artes marciais.Funcionando como actor-chave, por pertencer e ser reconhecido pela comunidade em
  10. 10. questão, Pedro Póvoa (um dos elementos do grupo) introduzirá no seu discurso algumasquestões relacionadas com a sua prática profissional e desportiva, ampliando adiscussão sobre violência. Em seguida apresenta-se um excerto de uma entrevista dadapelo mesmo, de forma a ilustrar esta ideia: “Muitas coisas que faço no Taekwondo podem ser extrapoladas para a vida no quotidiano, pois os ensinamentos que aprendemos desde pequenos e tudo o que enfrentamos dentro do tatami e nos treinos é difícil de se separar de nós pois já faz parte do nosso ser. Taekwondo, nasceu na Korea e significa a via dos pés e das mãos. TAE- a arte de lutar com os pés KWON- a arte de lutar com as mãos e DO- caminho, filosofia marcial. Os princípios do Taekwondo são: cortesia, integridade, perseverança, auto-domínio e espírito indomável. Em pequeno todos os Mestres ensinam o Juramento do Taekwondo: Nós como membros treinamos os nossos espíritos e corpos de acordo com as regras pré escritas. Nós como praticantes estamos unidos numa amizade mútua. Nós como praticantes cumpriremos os regulamentos e obedeceremos aos instrutores e aos mais graduados. Taekwondo é dividido em várias vertentes como a parte marcial, que inclui defesas pessoais, poomses, etc. Eu neste momento pratico a parte desportiva, modalidade olímpica, com regras específicas e protecções, com o objectivo de proteger a integridade física do atleta.Para mim o taekwondo ensinou-me muitos valores que não se ensina na escola. O Taekwondo é para mim, um modo de vida.” Isto é, apesar de se tratar de uma actividade que envolve o encontro físico, ditaregras e códigos éticos que definem a violência num contexto estritamente desportivo derespeito e igualdade perante o adversário. A mobilização de recursos já foi perspectivada numa fase anterior à própriadefinição do tipo de intervenção. Na entrevista realizada à Presidente da Junta foiincluído um tópico relacionado com cedência de espaços, contactos e outro tipo dedisponibilidades para a concretização da oficina. Ainda, no sentido de integrar uma ????????????????????????2.3.Tipos de Intervenção Segundo Matos et al. (2006), as dimensões possíveis de intervenção para aprevenção são três. Contudo, é nosso intuito trabalhar no sentido da prevenção primáriae secundária visto que os elementos constituintes do grupo têm pouca experiência decampo. Assim, dever-se-á entender que todos aqueles sujeitos que vierem a fazer partedo programa de intervenção e que nunca vivenciaram ou experienciaram qualquer tipo
  11. 11. de realidade violenta serão pertencentes ao grupo da prevenção primária (sendo nossointento, que estes permaneçam nesta situação); enquanto aqueles que vivemexperiências de violência (parental/interparental), pertencerão ao grupo respeitante àprevenção secundária. Este último grupo deve ser foco de grande atenção, pois existeuma elevada probabilidade de se virem a tornar vitimas ou agressores nas suas relaçõesíntimas presentes e/ou futuras. Ainda, as características sócio-culturais da zona onde sepretende intervir é permeável a este tipo de situações, por isso, auspicia-se que os/asparticipantes que se enquadram neste grupo estarão em maior número do que o grupo depessoas que nunca vivenciaram dinâmicas de relações abusivas no contexto pessoal,familiar ou na comunidade. O instrumento de intervenção adoptado para operacionalizar os objectivos a quenos propomos com o projecto de intervenção é o teatro porque se revela como meiopara o “desenvolvimento da capacidade crítica, de observação, imaginação, espírito decooperação, socialização (…) que pode levar a que as pessoas saiam da sua passividade,que entrem em acção e que assumam ou recobrem a sua autonomia” (como citado emCunha, 2000, p. 61). Na lógica da disciplina da Educação, o teatro pode ser assumido como umatécnica de educação não-formal, que pressupõe simultaneamente uma aprendizagemindividual e colectiva e a participação activa de aqueles/as que se envolvem. SegundoCunha (2000) é um processo baseado sobretudo na comunicação pois é, por excelência,um meio de comunicação, e ao mesmo tempo que dá lugar à comunicação, permite queo sujeito se expresse sobre si e comunique com o outro. O lugar e o tempo do teatro são múltiplos. São os acontecimentos do mundo quese assiste como espectador (a): os eventos sociais, políticos, manifestações ideológicas,religiosas … são as cenas do dia-a-dia que se repetem com o mesmo guião, a mesmacadência, com as mesmas marcações em palco, “ (…) a peça do café da manhã, a cenade ir para o trabalho, o ato de trabalhar, o epílogo do jantar, o almoço épico com toda afamília no domingo, etc” (Boal, 1999, p. xiii). E por fim, o teatro revê-se nos recursosestilísticos que as pessoas empregam quando comunicam com os outros, como ahipérbole ou o exagero da realidade, o eufemismo e a suavização da verdade ou asinterjeições para sublinhar os pensamentos. A problemática central ao projecto de intervenção, violência no namoro,apresenta características bastante interessantes para a operacionalização da intervençãoa partir das técnicas, exercícios e jogos teatrais. O tema alude a dinâmicas que marcam
  12. 12. as relações entre pessoas e por isso, a sua discussão e compreensão é enriquecida se, napromoção de mudanças nos comportamentos e atitudes, estiverem envolvidasestratégias de resolução de conflitos, treino de competências sociais e de vida e role-Play (Matos, Machado, Caridade & Silva, 2006). É da opinião de Cunha (2000) que aslinguagens artísticas são úteis quando se discute desenvolvimento pessoal e colectivo,expressão e comunicação de experiências, sentimentos e pensamentos, construtosfundamentais nos processos de socialização (p.70). sendo ainda de salientar que o teatrocomo linguagem artística, favorece o ensaio de condutas não violentas, a gestão deconceitos contrários à violência, a (re)construção do espaço e fronteiras do outro,exercitando personagens da acção dramática no sentido de transmitirem mensagens paraa acção real.2.4. Teatro do Oprimido O teatro do oprimido é uma forma de teatro que engloba um conjunto detécnicas, exercícios e jogos, e que foi criado por Augusto Boal nos anos 60 no Brasil. Esta forma de arte dramática baseia-se em alguns dos construtos do chamadoTeatro Essencial1, nomeadamente o teatro objectivo, o teatro subjectivo e a linguagemteatral. O teatro objectivo é o espaço estético, isto é, o lugar que é criado quando oespectador não intervém na acção, observando apenas a cena. O teatro subjectivo dizrespeito ao indivíduo e à sua capacidade de ser duplamente actor/actriz e espectador/a,pois à sua sobrevivência está associada a ideia de agir e observar o resultado da suaacção. Por último, a linguagem teatral é a transposição para o Teatro do Oprimido,constitui o conjunto de emoções, comportamentos, desejos e pensamentos que ocupamsimultaneamente o palco e o quotidiano (Cunha, Mello & Spieler, 2009) O termo oprimido diz respeito ao “indivíduos ou grupos que são social, cultural,política, económica, racial ou sexualmente desapoderados do seu direito ao diálogo oude qualquer forma, diminuídos no exercício desse direito” (2009, p.132). Ora astécnicas, os jogos e os exercícios a que o teatro do oprimido se propõe, visamreconstruir essa necessidade de diálogo, expressão e discussão, que foi abafada porconstrangimentos sociais, políticos ou culturais.1 Teatro Essencial, proposto por Denise Stoklos, Brasil.
  13. 13. O teatro do oprimido existe sobre diversas formas de representação, abordagensestéticas à arte dramática, que varia de acordo com os objectivos e temática que aborda.A lista inclui o teatro imagem, teatro-fórum, teatro invisível, teatro jornal, teatrolegislativo, teatro desejo do arco-íris, teatro legislativo, etc. Para uma compreensão geral do funcionamento do teatro do oprimido importadescrever algumas das características da representação segundo esta forma de teatro.Não constituindo como objectivo deste trabalho enunciar todas as formas de teatro dooprimido, focar-nos-emos sucintamente no teatro-fórum. O teatro-fórum rege-se por regras que promovem a participação e discussão detodos/as os /as participantes. Existem personagens distintamente identificadas, a partirdo seu discurso, das suas expressões corporais e da sua indumentária. Essa identidadedeve situar o/a personagem numa ideologia, função social, profissão ou outro tipo deidentificação social, pois esta forma de teatro propõe a análise de situações sociais.Durante o espectáculo mostra-se uma cena do mundo que contenha o conflito e adefinição dessa opressão. Em palco é apresentada uma solução para o conflito equestiona-se os/as espectadores/as sobre a legitimidade dessa resolução por partedos/as protagonistas em cena. Os/as espectadores/as são convidados/as a tomar o lugardo/a protagonista para retomar a cena onde o conflito não é resolvido da forma maisigualitária. Enquanto o espectador/a feito actor/actriz apresenta uma nova solução, osoutros/as protagonistas insistem na opressão, reforçando a ideia da dificuldade emalterar a realidade. É portanto um exercício para acção na vida real, “actores e plateia,igualmente actuando, tomam conhecimento das possíveis consequências das suasacções. Ficam conhecendo o arsenal dos opressores e as possíveis tácticas e estratégiasdos oprimidos” (Boal, 1998, p.33).
  14. 14. Referências bibliográficasAnder-Egg, E. (2000). Metodología e Prática de la Animación Sociocultural. Madrid:Editorial CSS.Barbier, J. M. (1996). Elaboração de projectos de acção e planificação. Porto: PortoEditora.Boal, A. (1998). Jogos para atores e não atores. Brasil: Civilização Brasileira.Cunha, J. R., Mello, C., Spieler,P. (2009). Direitos Humanos: roteiro de curso. Brasil:Fundação Getulio Vargas.Cunha, M. (2000). Animação educativa através do Teatro: um projecto de intervençãona área da educação de adultos. Universidade do Minho: Braga.Fritzen, S. (2002). Exercícios Práticos de Dinâmicas de Grupo. Petrópolis: EditoraVozes.Magalhães, M., Canotilho, A., Brasil, E. (2007). Gostar de mim gostar de ti: aprender aprevenir a violência de género. Maia: Umar.Matos, M., Machado, C., Caridade, S., Silva, M. J. (2006). Prevenção da Violências nasrelações de namoro: intervenção com jovens em contexto escolar. Psicologia: teoria eprática, 8 (1), 55-75.Oliveira, M. S. A. (2009). Violência Intergeracional: da violência na família àviolência no namoro. Universidade do Porto, Portugal.Teixeira, P. M., Gonçalves, C. M. & Menezes, I. (2009). Community Psychology inPortugal: Evolution and Current Trends in Praxis and Research. ForumGemeindepsychologie.Ventosa, V. (1997). Intervención socioeducativa. Madrid: Editorial CCS.
  15. 15. Anexosa) Questionário realizado à presidente e tesoureiro da Junta de Freguesia de S.Nicolau1- Como descreveria a freguesia de S.Nicolau em relação à população residente (se há muitos ou poucos jovens, idosos, condições económicas, sociais …)? Com que problemas a freguesia se defronta mais?2- Quais são as associações de carácter social e cultural que existem na freguesia de S.Nicolau? Que tipo de apoios, serviços prestam?3- Que tipo de programas e/ou projectos têm sido desenvolvidos na freguesia no âmbito do apoio social, da cultura, na promoção da saúde, da prevenção de comportamentos de risco?4- Na sua opinião, acha que poderiam ser feitos mais intervenções sociais com a população de S.Nicolau? Porquê? E com que franja da população seria mais urgente intervir? Em que áreas?5- Pensámos no tema da Violência do Namoro, direccionado aos jovens. Existem vários estudos da área, e esses mesmos comprovam que é uma realidade comum entre os jovens portugueses. O que acha da pertinência deste tema? Porquê? Se quiséssemos então trabalhar com jovens da freguesia, em que locais e altura seria mais adequada para contactá-los?6- Seria possível a Junta disponibilizar algum espaço para uma possível intervenção breve /curta (por exemplo uma oficina que contaria com actividades uma vez por semana durante 2 horas)?
  16. 16. b) Proposta de apresentação do projecto no sentido de adquirir apoios para a sua realização. Projecto de Intervenção na freguesia de S.Nicolau, RibeiraNome do projectoOficina de Teatro para a Prevenção da Violência no NamoroLocalInstalações da Junta de Freguesia de S.Nicolaumorada: Rua Comércio Porto, nº 7, 4050-210 PortoData início da oficinaa partir de 17 Setembro 2011 (todos os Sábados)Última sessão19 Novembro 2011ResponsáveisPatrícia Martins, Pedro Póvoa, Verónica Baptista, Rute DuarteDestinatáriosRapazes e raparigas entre os 15 e 18 anos, que vivem na Ribeira ou que mantenhamligações familiares à zona ribeirinha.Nº de participantesMínimo de 4 pessoas, máximo de 8 pessoas.Objectivos do projectoi) Informar sobre o tema violência no namoro, identificando factores de risco eprotectores, prevalência e dinâmicas;ii) Explorar e desmistificar as crenças (sociais e culturais) e mitos associados às relaçõesabusivas entre jovens;iii) Elucidar sobre o impacto dos comportamentos violentos nas relações amorosas;iv) Promover competências de gestão de conflitos; v) Informar sobre as entidades portuguesas responsáveis pelo apoio à vítima;vi) Fomentar competências como a coesão de grupo, comunicação, resolução deconflitos, expressão emocional e corporal;vii) Usar da técnica teatral para explorar os temas relacionados com a violência nonamoro e construir soluções para os conflitos nas relações amorosas que não passempela violência física, psicológico ou verbal.
  17. 17. Descrição da Oficina Será realizada uma primeira sessão de apresentação do projecto que terá aseguinte ordem de trabalhos: apresentação da equipa, projecção de um vídeo queexplica os objectivos e características da oficina, esclarecimento sobre questõesrelacionadas com horário, duração e contactos dos/as responsáveis. As três sessões a decorrer, a partir do primeiro Sábado seguinte à apresentação,serão constituídas por actividades que visam promover a coesão do grupo, desenvolvercompetências de comunicação e discussão, explorar situações típicas de relaçõesabusivas discutindo à luz das experiências dos/as participantes. Pretende-se que nesteprimeiro bloco de sessões os/as participantes adquiram um conhecimento maisestruturado sobre a violência nas relações do namoro entre os jovens, os sinais de alerta,o impacto e as entidades responsáveis pelo apoio à vítima. Ainda, no final da terceirasessão, pretende-se que o grupo apresente uma decisão quanto às situações de violênciano namoro a trabalhar com a técnica teatral a partir da quarta sessão. Nas cinco sessões seguintes serão trabalhados algumas técnicas à iniciaçãoteatral baseadas em exercícios que permitam iniciar os/as participantes à construção deum/uma personagem, interagir em palco usando da improvisação, explorar as emoções eformas de estar em palco. Proceder-se-á também ao ensaio da peça a apresentar no finalda oficina, constituída por várias situações típicas relativas à violência do namoro entrejovens. No desfecho será realizada uma apresentação final, em que os/as participantespoderão convidar as pessoas que preferirem para assistir à sua actuação. O derradeironome do projecto, bem como da peça final será da responsabilidade dos/as participantes,pois serão convidados pelos/pelas formadores/as a pensarem num título para o trabalhorealizado.Contactos:teatronaribeira@gmail.comPatrícia Martins 91 470 60 94Pedro Póvoa 91 642 34 54

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