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Revista de Portugal n.º 16

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No capítulo da Confraria Queirosiana acima referido, apresentado pelo seu director, Luís Manuel de Araújo, foi lançado o n.º 16 da Revista de Portugal, nova série, tendo na capa uma pintura sobre tema queirosiano do pintor Adias Machado. No seu interior, o editorial do director adjunto J. A. Gonçalves Guimarães alude às comemorações sobre os 500 anos da viagem de Fernão de Magalhães e da utilidade das mesmas para repor a História no lugar dos mitos. Segue-se uma homenagem a três sócios falecidos, o pintor amador António Rufo, o Comendador Dr. António Gomes da Costa, anterior presidente do Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro, e Eng. Querido Loureiro. A série de artigos abre Arqueologia e História Antiga abre com «Os nomes e os lugares de Portucale» por Jorge de Alarcão, seguindo-se «O edifício de tradição romana sob a igreja do Bom Jesus de Gaia destruído nos últimos dias do reino dos Suevo», por J. A. Gonçalves Guimarães. Os ensaios sobre o quotidiano têm «Sorrisos Lágrimas Poemas» de Jaime Milheiro, depois sobre Cultura Portuguesa «António Sérgio, temas essenciais de vida e obra» por A. Campos Matos, e sobre temas queirosianos, «Um, para mim, estranho silêncio de Eça de Queirós» por César Veloso, e «Eça de Queirós e a colecção de Fredéric Sptizer (1815-1890), por Susana Moncóvio. Segue-se «Há 40 anos na Fundação Calouste Gulbenkian: Reconstituição do túmulo da rainha Nefertari», pelo egiptólogo Luís Manuel de Araújo, e um apontamento sobre Verdemilho intitulado «Aveiro e a Fundação Eça de Queiroz», por Jorge Campos Henriques. Como habitualmente a revista encerra com a bibliografia dos sócios da ASCR – Confraria Queirosiana e o Relatório de Atividades referentes a 2018. A edição da revista contou com o apoio da Urbiface advertising agency do Porto.

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Revista de Portugal n.º 16

  1. 1. 1
  2. 2. MAGALHÂES IN MEMORIAM PORTUCALE SUEVOS SORRISOS ANTÓNIO SÉRGIO SILÊNCIO DE EÇA FRÉDÉRIC SPTIZER TÚMULO DE NEFERTARI VERDEMILHO BIBLIOGRAFIA 2018 ATIVIDADES 2018 Anual, novembro de 2019 n.º 16. 2019
  3. 3. 2 Revista de Portugal Anual, n.º 16, novembro de 2019 Registo ICS 124625 Propriedade/editor: Amigos do Solar Condes de Resende – Confraria Queirosiana Redação: Solar Condes de Resende Travessa Condes de Resende, 110 4410-264 CANELASVNGaia Portugal NIPC: 506285685 Telefone – 227 531 385 Telemóvel – 968 193 238 E-mail – queirosiana@gmail.com www.queirosiana.pt academiaecadequeiros.blogspot.com confrariaqueirosiana.blogspot.com eca-e-outras.blogspot.com vinhosdeeca.blogspot.com Diretor: Luís Manuel de Araújo Diretores adjuntos: J. A. Gonçalves Guimarães José Manuel AlvesTedim Conselho de redação: Amélia Maria Gomes Sousa Cabral; Carlos Alberto Dias de Sousa; César Fernando Couto Oliveira; Henrique Manuel Moreira Guedes; Ilda Maria Oliveira Pereira de Castro; José António Martin Moreno Afonso; José Manuel de Carvalho Ribeiro; Laura Cristina Peixoto de Sousa; Licínio Manuel Moreira Santos; Manuel FilipeTavares Dias de Sousa; Maria de FátimaTeixeira; Nuno Miguel de Resende Jorge e Mendes; Pedro Almiro Neves; Susana Maria Simões Moncóvio. Conselho consultivo: Américo Guerreiro de Sousa; Carlos Reis; Dagoberto Carvalho Júnior (Brasil); Fernando Coimbra; Fernando Manuel P. J. Silva; Francisco Ribeiro da Silva; João de Castro de Mendia (Conde de Resende); José Rentes de Carvalho; Nassalete Miranda e Ricardo Charters d’Azevedo Capa: "A Arte é um Resumo da Natureza feita pela Imaginação. Eça de Queirós"; Quadro de Adias Machado, 2013; na lateral esquerda tem a seguinte legenda. "Oferta da Confraria do Abade de Priscos à Confraria Queirosiana / Do Grão-mestre para o patrono" Poveiros 23-11-2013; fotografia de Ana Isabel Ferreira Impressão e acabamento: URBIFACE – Meios Publicitários, Lda. Edifício IntercontinentalTrade Center Avenida da Boavista, 1588 – 2.º – Sala 304 – 4100-115 Porto Copyright: autores, salvo acordo em contrário de acordo com a lei. Tiragem: 500 exemplares ISSN: 1646-0952 Depósito legal: 218581/04
  4. 4. 3 EDITORIAL Fernão de Magalhães e a busca da esfericidade da História Desde o século XIX que Portugal entende comemorar algumas figuras e feitos importantes da sua His- tória, nomeando comissões para o efeito que se obrigam à execução de programas com três valências: fes- tividades populares; debates científicos; lições políticas. Pretende-se com estas comemorações avivar nos Portugueses o conhecimento da sua identidade e mostrá-la à comunidade internacional, perpetuando-a no tempo e, – talvez o mais importante em termos de futuro – incentivar uma revisitação profissional da biografia das figuras marcantes e dos referidos feitos, não só para aumentar a sua credibilidade, expurgan- do-os de adjacências espúrias, como procurando dar-lhes um outro brilho que o avanço das ciências per- mite. Com algumas outras pelo meio, foi assim com as Comemorações Camonianas (1880), as do Caminho Marítimo para a Índia (1889); o 5.º Centenário do Infante D. Henrique (1894); já no século XX, a Exposição Colonial (no Porto em 1934), os Centenários de 1940, os Descobrimentos Portugueses e a Europa do Renas- cimento (1983), a Expo 98 e agora o 5.º Centenário da Viagem de Fernão de Magalhães. Mas nem sempre os objetivos iniciais foram alcançados: em 1898 Eça de Queirós viu assim as Come- morações realizadas em Lisboa: «Imensas multidões – dizem que vieram da província mais de cem mil pes- soas. Ainda apanhei o cortejo cívico, que não tinha civismo nenhum, e onde apenas ofereciam interesse, um bando de pretos de Moçambique, e, atrás do carro da Agricultura (perfeitamente ridículo), um grande esquadrão de Campinos do Ribatejo de uma incomparável beleza. Entusiasmo nenhum – o povo ainda não percebeu quem era este Vasco da Gama. Aqui no Rossio, o Cortejo passou num silêncio glacial, quase sombrio, um silêncio de 30 mil pessoas.» (Eça de Queirós, Correspondência, 20-05-1898). No que diz respeito às comemorações magalhânicas, o atual governo encarregou de tal uma comissão. O mínimo que dela se espera é que faça com que os mais recentes estudos cheguem ao público ou que este se importe com eles, contribuindo assim para que cesse a alusão a enganosos equívocos em volta do navegador e que efetivamente se avance num maior conhecimento do feito, até porque, com comissão ou sem ela, a comunidade científica irá certamente continuar a produzi-los. A atualização desse conhecimen- to, mesmo em obras de divulgação, está em marcha: já na obra LeVoyagedeMagellan1519-1522.Larelation d’Antonio Pigafetta du premier voyage autour du monde. Paris: Chandeigne, 2017, Michel Chandeigne, um divulgador da cultura portuguesa, tinha alertado para o que NÃO era lícito comemorar a propósito dos 500 anos desta viagem (tradução e adaptação nossa, pág.s 6-8): que antes dela «toda a gente» julgava que a Terra era plana, ou seja, não redonda; que o navegador tinha proposto o seu projeto a D. Manuel antes de o propor a Carlos V; que importa que o navegador não fez a circum-navegação completa, mas apenas até ao arquipélago das (depois chamadas) Filipinas, onde foi morto (A restante parte da «volta ao mundo», ou seja, entre as Filipinas e Lisboa, já a tinha feito no sentido inverso, de Ocidente para Oriente, anos antes); que dos 237 homens que partiram, 91 sobreviveram e voltaram à Europa, e não quaisquer outros números que por aí andam; que o navegador atravessou o Pacífico «às cegas», porque na realidade já conhecia a sua dimensão pela cartografia portuguesa anterior à viagem; que esta travessia não foi uma «hecatombe», pelo contrário; que o móbil da viagem (chegar às Molucas por Ocidente e confirmar a sua localização no hemisfério «espanhol»), não seria garantido pelo lucro das especiarias aí produzidas, pois o seu comércio, no imediato, não cobriria o investimento feito. Este autor refere estes e outros erros comuns em obras publicadas sobre o navegador e a viagem des- de, pelo menos desde 1864 pelo chileno Barros Araña, passando por Alderley (1874), Zweig (1938), a que poderíamos juntar Roditi (1989) e muitos outros autores não profissionais da História, mais antigos ou mais recentes, muitos deles fazendo eco da fake new do seu pretenso nascimento em Sabrosa ou, mais recentemente, de uma outra invenção que lhe quer dar o berço em Ponte da Barca. Nesta obra que vimos a
  5. 5. 4 citar, procura-se expurgar o erro da menção de Sabrosa, «tirada de documentos falsificados aparecidos no século XIX» (p. 10, trad.) mas, como foi escrita antes de 2017, não cita ainda os mais recentes textos dos his- toriadores Amândio Barros («Vila Nova de Gaia. Os Forais, o Rio e o Mar», in O Foral Manuelino de Vila Nova de Gaya 1518-2018. Vila Nova de Gaia: Câmara Municipal, 2018), onde na página 58 se lê «Magalhães…que, de resto, teve fortíssimas ligações a Gaia e ao Porto, correndo teoria acerca do seu nascimento num destes locais»; e de Rui Manuel Loureiro (Em demanda da Biblioteca de Fernão de Magalhães. Lisboa: Biblioteca Nacional de Portugal, 2019), onde na página 17 escreveu: «Fernão de Magalhães terá nascido na região do Porto, na margem sul do rio Douro, como sugerem alguns documentos de arquivo… Dois testemunhos portugueses um pouco mais tardios confirmam esta hipótese». As hipóteses Porto (aliás já anteriormente assimilada por muitos historiadores portugueses), eVila Nova de Gaia, são assim reequacionadas com base em documentos autógrafos do navegador, ganhando esta última uma cada vez maior consistência. Não é esta uma questão menor nem a sua clarificação pode ser encarada como a afirmação de qualquer bairris- mo bacoco, mas sim a procura da verdade histórica que proporcione uma mais correta interpretação da sua vida e feitos, nomeadamente sobre o ambiente portuário em que foi criado, a formação intelectual que teve, e quem o levou para a Corte e aí o protegeu na sua carreira de mareante. São pois hoje completamente ridículas as fantasias artísticas (literárias e materializadas em escultura, pintura ou desenho… ou em rótulos de garrafas deVinho do Porto) de um menino a brincar com barquinhos nas águas do Alto Douro e a sonhar com a travessia do Pacífico distante, ou outras que tais. Vamos vendo em concursos escolares e recreações lúdicas, publicadas em jornais ou exibidas em exposições e vídeo- -filmes, várias imagens antigas ou agora criadas, a quererem representar o navegador em atos ou ações em que nunca esteve, a atribuir-lhe feitos que nunca fez, ou ideias que nunca teve, em total desacordo com a História. Alguns artistas gráficos atuais mostram nos seus desenhos que sobre a sua vida só sabem o que leram em textos que propagam as tais fake news, ou, no mínimo, interpretações erradas sobre a sua missão, já desacreditadas pelos historiadores. Não me venham com o falacioso argumento da liberdade de criação, pois a liberdade é irmã gémea da verdade, não da mentira. E os artistas, como quaisquer ou- tros profissionais que se querem credíveis e úteis à sociedade que lhes paga o salário ou as encomendas, devem informar-se e estudar as matérias sobre as quais querem exercer a sua arte, pois em arte não «vale tudo» para gozo dos papalvos. Quanto às exposições bibliográficas e documentais sobre Fernão de Maga- lhães elas poderão ser interessantes se forem acompanhadas de algum aparato cronológico e crítico, pois não tem qualquer valor pedagógico meter na mesma vitrina obras sérias de historiadores profissionais ao lado de desbragadas fantasias de literatos locais escritas para satisfazer clientelas paroquiais ou mesmo nacionais cujos interesses não são consentâneos com a verdade histórica. Por isso nos dias de hoje, para além das multidões, dos cortejos, dos carros alegóricos, da falta de en- tusiasmo e dos silêncios glaciais e sombrios, estas comemorações dos 500 anos da viagem de Fernão de Magalhães deverão servir para uma renovada abordagem histórica da figura e do feito, um efetivo salto qualitativo na historiografia nacional e, já agora, também do incremento da fraternidade entre os povos que, pelas mais diversas razões, se conheceram nesta aventura humana protagonizada por um português nascido e crescido nas margens do Douro perto da sua entrada no Atlântico. J. A. Gonçalves Guimarães Diretor-adjunto
  6. 6. 5 Revista de Portugal: Estatuto editorial 1. A Revista de Portugal é o boletim cultural dos Amigos do Solar Condes de Resende – Confraria Queirosiana e a sua publicação tem por objetivos os consignados nos Estatutos da associação nos arti- gos 3.º e 4.º. 2. A Direção dos ASCR-CQ nomeia o diretor e o conselho editorial, bem assim como o conselho consultivo, de entre os sócios da associação, com exclusão de quaisquer outros, os quais se constituem em Comissão Especial prevista no Art.º 43 dos Estatutos, com o nome de Comissão da Revista, adiante designada por CR. 3. A CR proporá à Direção as condições de edição de cada número, o seu conteúdo e as condições de distribuição, bem assim como quaisquer protocolos a celebrar com terceiros, devendo todos os seus atos serem sancionados por aquele órgão, sob risco de nulidade. 4. A CR deverá dar preferência à colaboração científica, literária e artística dos sócios, tendo em conta os objetivos dos ASCR-CQ e um rigoroso critério de qualidade. 5. A colaboração não solicitada, desde que aceite, será gratuita; a colaboração encomendada será remunerada, de acordo com as propostas da CR e das disponibilidades financeiras dos ASCR-CQ. 6. Os originais entregues (texto e imagens) para publicação deverão ser propriedade integral dos res- petivos autores e obedecer aos princípios consignados na Lei dos Direitos de Autor e Direitos Conexos e observar a Norma Bibliográfica Portuguesa, o Acordo Ortográfico, bem assim como a Lei da Imprensa. 7. Os originais devem ser dirigidos aos ASCR-CQ em nome de Revista de Portugal, ou ao seu diretor, em CD e impressão em papel, acompanhados de autorização por escrito do autor, autores, ou seu repre- sentante, conforme os casos e o contrato celebrado. 8. Todos os originais serão devolvidos aos respetivos autores. 9. A Revista de Portugal é gratuita para os sócios e confrades. Sumário deste número Editorial Fernão de Magalhães e a busca da esfericidade da História J. A. Gonçalves Guimarães 3 IN MEMORIAM 6 O nome e os lugares de Portucale Jorge de Alarcão 8 O edifício de tradição romana sob a igreja do Bom Jesus de Gaia destruído nos últimos dias do reino dos Suevos J. A. Gonçalves Guimarães 16 Sorrisos Lágrimas Poemas Jaime Milheiro 25 António Sérgio. Temas essenciais de vida e obra A. Campos Matos 32 Um, para mim, estranho silêncio de Eça de Queirós César Veloso 37 Eça de Queirós e a coleção de Frédéric Sptizer (1815-1890). Perspetivas críticas Susana Moncóvio 40 Há 40 anos na Fundação Calouste Gulbenkian: Reconstituição do túmulo da rainha Nefertari Luís Manuel de Araújo 48 Aveiro e a Fundação Eça de Queiroz Jorge Campos Henriques 56 Bibliografia 2018 57 Relatório de atividades em 2018 da associação Amigos do Solar Condes de Resende – Confraria Queirosiana 68
  7. 7. 6 Alexandre Franco Rufo nasceu em Santa Marta de Portuzelo, Viana do Castelo, a 24 de julho de 1939. Ainda criança mudou-se para a cidade do Porto, onde veio a desenvolver a sua atividade profissional como pin- tor de construção civil na empresa Soares da Costa, tendo chegado a en- carregado. Mais tarde trabalhou por conta própria dedicando-se à reabili- tação de mobiliário antigo, lacagens, patines, dourados e outros. Desde novo que cultivou o gosto pela arte, mas foi durante os anos em que viveu na ilha da Madeira que se dedicou assiduamente à pintura em acrílico e depois a óleo. Nunca frequentou aulas e por isso se considerava um autodidata, tendo pintado numerosas obras. Participou vários anos no Salon d’Automne queirosiano, exposição anual organizada pela Confraria Queirosiana no Solar Condes de Resende. Tendo falecido no dia 31 de dezembro de 2016, a sua memória aqui permanecerá através de uma obra sua oferecida por sua viúva a esta as- sociação. IN MEMORIAN António Gomes da Costa era natural da Póvoa de Varzim, onde nasceu a 27 de janeiro de 1934. Foi uma das figuras mais emblemáticas da comunidade portuguesa do Rio de Janeiro, tendo falecido aos 83 anos. Era licenciado em Ciências Económicas pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro e em Ciências Jurídicas pela Universi- dade Cândido Mendes. Tinha dupla nacionalidade, e nessa condição teve participação bastante ativa em diversas associações luso-brasileiras. Ficou es- pecialmente conhecido como presidente do Real Gabinete Português de Leitura ao qual presidiu entre 1992 e 2016. Foi ainda presidente da Federação das Associações Portuguesas e Luso-Brasileiras; da Real e Benemérita Sociedade Portuguesa Caixa de Socorros D. Pedro V; do Liceu Literário Português; da Real Sociedade Clube Ginástico Português, entre outras instituições. Cidadão Benemérito do Estado do Rio de Janeiro, foi condecorado com a Ordem do Rio Branco – grau de Comendador, a que acrescentou a Ordem do Mérito Naval, a Ordem do Mérito Aeronáutico e a Ordem do Mérito Militar. Era igualmente Grande Oficial da Ordem do Infante Dom Henrique e também possuidor da Grã-Cruz das Ordens do Mérito Agrícola e Industrial (Portugal), entre outras condecorações. Foi convidado para estar presente no capítulo anual da Confraria Queirosiana a 24 de novembro de 2012, mas devido à sua avançada idade tal não chegou a acontecer, contudo foi proclamado confrade honorário, grau mecenas, distinção que recebeu «com muita honra e alegria... [desejando] estreitar laços de cooperação entre o Real Gabinete Português de Leitura e a Confraria Queirosiana», conforme então escreveu. Faleceu a 9 de maio de 2017.
  8. 8. 7 José Alberto Querido Loureiro nasceu na freguesia das Alhadas, con- celho da Figueira da Foz, a 21 de março de 1940. Ainda a finalizar o curso na Escola Industrial da Figueira da Foz, em 1956, respondeu a um anúncio da Séculoheron Portuguesa, S. A. (actual Sepsa), iniciando assim aos 17 anos a sua vida profissional no Porto, como desenhador de ferramentas especiais. Em 1960 colaborou no projecto de condutas forçadas e do cim- bre metálico da ponte da Arrábida. A 15 de Maio de 1961 casou-se, pelo registo civil, com Filomena Edite Pinto Serra Loureiro, com a qual teve três filhos. A sua atividade profissional sofreu um interregno entre 1961 e 1964 para cumprir o serviço militar obrigatório. Quando passou à disponibili- dade foi convidado para ser sócio da Metalúrgica F. Moucho, Ld.ª. Nesta empresa trabalhou para a Shell, BP, Mobil, L’Air Liquide, Sandeman, Fer- mentos Holandeses, Hoechst, Foster Wheeler Française, Badger, Cristian & Nielsen e a SNAN-Progetti. A 21 de julho de 1969 partiu para Cabo Verde, onde dirigiu vários projetos para a Shell, e em 1970 foi para Paris para estudar a palatização das garrafas de gás para uso doméstico. Em 1971 regressa novamente a Paris paranegociarcomaFostertrabalhosparaarefinariadoPorto.Emjaneirode1974éconvidadoparaingressarna empresa Soares da Costa. Em março de 1981 foi nomeado director da empresa de metalomecânica Socometal. Em janeiro de 1987 interrompeu a colaboração com a Socometal e enveredou pela profissão liberal de consultadoria, regressando mais tarde ao Grupo Soares da Costa como adjunto do novo chefe-executivo. Em janeiro de 1995 é nomeado administrador-delegado da Socometal. Após 43 anos de intensa actividade profissional, em outubro de 2000 achou por bem retirar-se. Ao longo da vida fez vários cursos oficiais e livres, quer os diretamente relacionados com o exercício da sua profissão, quer com a sua insaciável curiosidade intelectual. Assim, para além do curso de Electrotecnia e Máquinas no Instituto Superior de Engenharia do Porto (ISEP), que em 1973 lhe deu o título de engenhei- ro técnico, equiparado a bacharel de Engenharia, em 1979 concluiu a licenciatura em Engenharia Mecânica na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP). Concluiu também um curso de Gestão In- tegrada (A.I.C.O.P.N), um outro de Informática para Gestão da Produção promovido pela AIP e um outro de Operador de Gestão Industrial no Cesai (Centro de Formação Profissional de Informática). Em paralelo com a sua atividade profissional, foi assistente do curso de Línguas e Literatura Espanholas, no Colégio Oficial Español de Oporto em 1958, e em 1960 concluiu o curso de francês prático, no Instituto Francês do Porto. Em 2000-2002 frequentou o curso de inglês do American Language Center. Foi frequentador assíduo dos cursos livres organizados pela Academia Eça de Queirós no Solar Condes de Resende. Como profissional de Engenharia nas diversas empresas onde trabalhou em projetos de grande exi- gência técnica nunca descurou a parte humana e social, o que o levou à criação de cantinas, gabinetes médicos e outras formas de apoio e valorização profissional dos trabalhadores, promovendo encontros de convívio lúdico entre os seus colaboradores. Quando se reformou os seus interesses continuaram a girar em volta da matemática e da eletrónica, mas também da pintura, lógica, literatura, história, cinema e reli- gião, além da vitivinicultura e da vela, onde em 2002 acedeu à categoria de patrão de costa. Foi sócio e participou nas atividades de diversas agremiações, como o Sindicato dos Engenheiros Téc- nicos e a Ordem dos Engenheiros – Região Norte (OERN), na qual foi eleito como secretário da mesa para os triénios 2004-2007 e 2007-2010. Foi também sócio do Automóvel Clube de Portugal, do Real Clube Clube Fluvial Portuense, colaborou com o Abrigo Nossa Senhora da Esperança e a Liga Portuguesa Contra o Cancro; foi sócio da Árvore – Cooperativa de actividades artísticas, CRL; e dos Amigos do Solar Condes de Resende – Confraria Queirosiana. De índole discreta e por natureza avesso a manifestações que envolvessem a sua pessoa, mesmo as- sim algumas das instituições de que fez parte reconheceram publicamente a sua colaboração: em 2010, o conselho diretivo nacional da Ordem dos Engenheiros outorgou-lhe o nível de qualificação profissional de membro sénior como «reconhecimento da Ordem pela competência e maturidade demonstradas no exercício da profissão, em trabalhos de Engenharia, na área técnica ou científica». Faleceu a 20 de julho de 2018, vítima de doença prolongada, aos 78 anos de idade.
  9. 9. 8 O NOME E OS LUGARES DE PORTUCALE Jorge de Alarcão Professor catedrático (aposentado) do Instituto de Arqueologia da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra A localização de Cale foi durante muito tempo discutida, oscilando as opiniões entre a cidade do Porto e a de Vila Nova de Gaia (CORREIA, 1932; SIL- VA, 2010: 217-220, com bom resumo do debate en- tre as décadas de 1930 e 1970). Hoje, graças a mui- tas intervenções arqueológicas realizadas na cidade do Porto desde a década de 1980 (SILVA, 1994: 66- 105; SILVA, 2010, com inventário exaustivo actuali- zado até à data da publicação), não há dúvida de que a Cale romana corresponde à cidade do Porto. O morro da Sé do Porto, ocupado desde o Bron- ze Final, foi o núcleo originário de Cale. Circunscre- via-o uma muralha já na Idade do Ferro – muralha que terá sido refeita no século I d. C. e, depois, nos fins do século III ou nos inícios do IV, talvez sem que essas reconstruções se tenham desviado muito do primeiro traçado (SILVA, 2010-2011). A povoação seria, nos finais do século II a. C., o lugar principal de um dos populi do Noroeste pe- ninsular: o dos Callaeci. Por aqui terá passado Dé- cimo Júnio Bruto; e porque os Callaeci foram o pri- meiro povo que o cônsul defrontou depois de ter atravessado o Douro, o nome de Callaecia terá sido estendido pelos Romanos a uma vasta região do Noroeste que era ocupada por muitos outros populi (TRANOY, 1981: 65-66). Cale terá sido tomada por Perpena. A referên- cia a esta expedição do lugar-tenente de Sertório encontrar-se-ia num texto de Salústio, infelizmen- te perdido e que só conhecemos indirectamente através de um comentário de Sérvio, gramático do século IV, que escreveu: «Cale civitas... est enim in Gallaecia, quam Sallustius captam a Perpenna com- memorat» (VASCONCELOS, 1905: 29, nota 7; COR- REIA, 1932: 23; SILVA, 1994: 82). Cale foi, no século I d. C., elevada à categoria político-administrativa de capital de civitas. Como tal, teve seguramente seu forum. Parece razoável supor que se situaria na área da Sé. O morro era, to- davia, acanhado. O desenvolvimento urbano ter-se-
  10. 10. 9 -á feito para a zona ribeirinha entre dois pequenos cursos de água que hoje não são perceptíveis, mas na Idade Média se chamavam rio da Vila e rio Frio. Foi aqui, aliás, que se descobriram os restos da úni- ca domus (com mosaicos) até agora identificada na cidade (TEIXEIRA e DORDIO, 2000). Na margem esquerda do Douro situava-se um outro povoado que, como o de Cale, teve origem no Bronze Final. Ficava num morro sobranceiro ao rio – morro que ainda hoje é conhecido como Castelo de Gaia, apesar de não sobreviverem vestígios do cas- telo que aí terá surgido na Idade Média. A ocupação da Idade do Ferro, romana e suevo-visigótica do local está atestada (GUIMARÃES, 1989 e 1995; CAR- VALHO e FORTUNA, 2000; GUIMARÃES, 2000: 159; CARVALHO, 2003; GUIMARÃES, 2017; SILVA, 2017; SILVA, MORAIS, PINA-BURÓN e DE LA TORRE, 2018). Nunca o sítio foi abandonado, e devemos conside- rá-lo como um dos pólos geradores da cidade de Vila Nova de Gaia. Não é fácil reconstituir, na actual área urbana de Vila Nova de Gaia, o percurso da estrada romana que, vinda do Sul, alcançava o Douro (MATOS, 1937; MANTAS, 1996: 831-832; MANTAS, 2012: 198-199). Parece difícil fazê-la passar pelos pontos altos de Santo Ovídio (157 m) ou de Coimbrões (129 m). Num caso ou no outro, teria demasiado declive até ao rio – a menos que descesse em lacetes pela en- costa. A passagem entre Santo Ovídio e Coimbrões resolveria a questão do declive. Se o percurso pela rua Direita de Vila Nova de Gaia parece lógico, não nos devemos esquecer que Armando de Matos (1937: 23) atribuiu a sua abertura ao fim do século. XVII. Terá o autor razão? Ou nessa data foi apenas melhorada uma antiquíssima via? Gonçalves Gui- marães (2017: 70) considera a rua Direita como me- dieval, alargada no século XIX. Um miliário de Caracala encontrado (mas des- contextualizado) no lugar de Tartomil, na foz do rio Valverde, na freguesia de Valadares (LEITE, BEITES e COELHO, 2012-2013), complica a restituição da rede viária no actual concelho de Vila Nova de Gaia. Aca- so a estrada principal, correndo pela actual fregue- sia deValadares, ia direita ao povoado do Castelo de Gaia? Ou trata-se de um percurso alternativo, sem prejuízo de uma outra via que poderia passar entre Santo Ovídio e Coimbrões? Seja como for, a estrada devia alcançar o rio Douro sensivelmente num ponto ligeiramente a ocidente da igreja de Santa Marinha. Aí havia cer- tamente um cais de embarque e desembarque. O cais da margem oposta ficaria na Ribeira, junto da confluência do antigo rio da Vila. Daqui partiria o caminho que, seguindo as actuais ruas dos Merca- dores e da Banharia, contornava o morro da Sé e iria entroncar na via que saía do oppidum de Cale para Norte. No antigo aljube da rua de S. Sebastião foram recolhidos muitos fragmentos de ânforas (MORAIS, 2013: 105-107). Podemos supor que a área, fora de muralhas, era vazadouro de ânforas que, chegadas à cidade e esvaziadas, eram atira- das para essa lixeira. O cais do lado de Cale ficaria ligeiramente a montante do cais da margem esquerda do Douro. As barcas de passagem seguiriam um percurso li- geiramente oblíquo. A travessia seria facilitada se se aproveitasse a maré enchente para passar da margem sul à margem norte e se, pelo contrário, se esperasse a vazante para se atravessar de Cale à margem oposta. Na sua origem, portus Cale seria o nome daque- le troço do rio onde fundeavam as embarcações, se faziam cargas e descargas e se passava de uma a outra margem. Em escavações recentes e ainda não publicamente divulgadas foi identificado junto do rio, na margem esquerda, um edifício que serviu de armazém e se deve atribuir aos finais do século I a. C. ou aos inícios do I d. C. A palavra portus, «porto», como tem sido recor- dado por muitos autores, não significava apenas fundeadouro e lugar de embarque e desembarque de mercadorias e de passageiros, mas tinha tam- bém o sentido de“lugar de passagem”. Talvez este tenha sido mesmo o sentido pri- meiro, pois o termo indo-europeu *pr-tu significa- va «ponto de passagem» (PRÓSPER, 2002: 274). O sentido original ainda se conserva na toponímia portuguesa em Porto Alto, Porto Carreiro, Porto da Estrada... São múltiplas as atestações – e mais ainda as do seu diminutivo Portela. Podemos perguntar-nos se esse troço do rio se chamava Portus Cale ou Portus Calis. A palavra Cale podia ser flexionável – e no ItineráriodeAntonino te- mos o acusativo Calem. Nada impede que se admi- ta um genitivo Calis. A verdade é que não o temos atestado. Talvez se falasse de Portus Cale e não se usasse a designação Portus Calis. Na margem esquerda do rio, junto do cais, de- vemos presumir a emergência de um povoado que, de pequeno, se pode ter tornado relevante. Haveria aí armazéns, tabernae, uma estalagem, as casas dos barqueiros e dos estivadores. Talvez este lado fosse
  11. 11. 10 também o mais adequado à instalação de estaleiros onde se construíssem e reparassem embarcações. Perto da povoação do Castelo de Gaia, este núcleo seria distinto (ainda que, eventualmente, não tives- se administração autónoma). SeocaisdamargemdireitaserviaCaleeaspovoa- ções a Norte, o da margem esquerda servia uma vasta região a sul. Só em Cacia, na foz do Vouga, havia, na época romana, outro porto, na civitas de Talabriga. O povoado ribeirinho da margem esquerda te- ria nome próprio e diferente do do Castelo de Gaia? Neste caso, que nome seria o seu? E que nome teria a povoação do Castelo de Gaia? No Itinerário de Antonino não se regista esta pa- ragem. Estará ela mencionada na Chorographia do Anónimo de Ravena, roteiro atribuído ao século VII (ROLDÁN HERVÁS, 1973: 111)? Neste texto lemos a seguinte sequência: Olisi- pona, Terebrica, Langobrica, Cenoopi docalo, Augus- ta Bracaria. Cenoopi docalo tem sido restituído como Ceno, opido Calo ou Ceno opido, Calo. Não deixa de surpreender-nos que o Anónimo de Ravena omita Scallabis, Sellium, Conimbriga, Ae- minium e Talabriga, localidades todas elas impor- tantes na estrada de Olisipo a Bracara Augusta. Langobriga ficaria no Monte Redondo ou Mon- te de Santa Maria (Fiães, Vila da Feira) (ALMEIDA e SANTOS, 1971; MANTAS, 1996: 640-645; MANTAS, 2012: 197-198). Ceno tem de situar-se, pois, entre a Vila da Feira e o Porto. Ora nesse troço de estrada não temos indício de povoação relevante que merecesse referência a não ser na margem esquerda do Douro. Não nos parece que Ceno possa identificar-se com o castro do Mon- te Murado (SILVA, 1983 e 2015). A distância a que este se acha do Monte de Santa Maria é de cerca de 12 milhas. Isso justificaria uma mutatio. Um roteiro que omite Scallabis, Sellium, Conimbriga, Aeminium e Talabriga mencionaria uma simples mutatio? Tudo nos inclina a localizarmos Ceno na área de Vila Nova de Gaia. Mas seria o povoado do Castelo de Gaia ou a povoação ribeirinha onde se fazia a tra- vessia do Douro? A Chorographia do Anónimo de Ravena, onde se encontra a única atestação do nome Ceno, põe-nos numerosos problemas. Terá sido escrita, em grego, no século VII. Em data incerta terá sido feita uma tra- dução (ou transcrição) para latim. Perdido o original, não dispomos senão de manuscritos da versão latina, o mais antigo dos quais data do século XIII. Ficamos sem saber quando, exactamente, se fez a versão lati- na: em algum tempo entre os séculosVII e XIII. A forma (românica) Ceno deixa supor uma for- ma latina Caenum. Porque o nome pessoal Caeno também surge com a forma Caino na epigrafia ro- mana da Lusitânia (Atlas Antroponímico), podemos admitir Cainum. Caenum ou Cainum seria o nome do povoado do Castelo de Gaia? Ou o do povoado junto do cais? Ou ambos partilhavam o mesmo nome? Escrita no século VII, a Chorographia do Anóni- mo de Ravena não é obra que possa considerar-se actualizada para a época. O autor forrageou em coro- grafias, mapas ou roteiros muito mais antigos, desig- nadamente no Itinerário de Antonino (onde, porém, como dissemos, não se encontra menção de Ceno). Podemos admitir que no século VII o nome já se ti- nha perdido e que o Anónimo o encontrou em qual- quer fonte bem mais antiga. A antiga Ceno podia ter, no século VII, outro nome. Ou, na hipótese contrária: Ceno seria, no século VII, o nome de um povoado que em séculos anteriores teria tido outro nome? Poderá o nome Ceno ter sido transferido para outro lugar? Em 1035, o mosteiro de Leça recebeu parte de uma «...piscaria que est in Durio quam vocitant Cau- num interVillar et Lauridello» (LP 184).Vilar e Lordelo são identificáveis na actual área urbana do Porto. De Caeno ou Ceno não podemos derivar Cau- num; mas, na hipótese de Cainum, a evolução Cai- num > Caunum já seria admissível. Se o povoado da margem esquerda se chamou Cainum, terá o nome emigrado para a margem direita? Isto é mais do que incerto, se bem que migrações toponímicas se en- contrem atestadas. Chegados a este ponto, podemos concluir: 1 – Na época romana, na margem esquerda do rio Douro e na actual área urbana de Vila Nova de Gaia haveria uma povoação no Castelo de Gaia e ou- tro aglomerado mesmo junto do rio, com seu cais. 2 – Não sabemos se partilhavam o mesmo nome. 3 – É possível, mas não seguro, que Caenum ou Cainum fosse o nome de uma dessas povoações (ou das duas, se acaso tinham o mesmo nome). No século. VI, Portucale era nome comum à ci- dade do Porto e à povoação situada no Castelo de Gaia. A ocupação desta na época suevo-visigótica está, como dissemos, arqueologicamente atestada.
  12. 12. 11 O Parochiale Suevum documenta uma reorga- nização do mapa eclesiástico feita sob a égide de S. Martinho de Dume entre 569 e 572 (ALARCÃO, 2015: 36). Nele lê-se: «Ad sedem Portugalensem in castro novo» – e seguem-se as ecclesiae ou «paróquias» que integra- vam a diocese. «Ad Conimbricensem» – seguem-se as respec- tivas ecclesiae, terminando com «Portucale castrum antiquum». Havia, pois, c. 572, duas localidades com o nome de Portucale: uma era a antiga Cale, isto é, a cidade do Porto; outra ficava na área urbana de Vila Nova de Gaia. Esta última pertencia à sé de Conimbriga, porque era o rio Douro que servia de limite às dio- ceses portucalense e conimbricense. Não é forçoso pensar que havia um Portuca- le Novum contraposto a um Portucale Antiquum (como hoje temos Montemor-o-Novo e Montemor- -o-Velho ou Torres Novas e Torres Vedras). Aliás, se se usassem adjectivos para distinguir uma povoa- ção da outra, talvez se dissesse PortucaleVetus e não Portucale Antiquum. «Ad sedem Portugalensem in castro novo» poderá entender-se como «À sé portu- calense na sua nova localização». Isto explicar-se-ia porque a primitiva sede episcopal havia sido Mag- netum (Meinedo, Lousada) (MARQUES, 2002: 482). Sob a igreja paroquial de Meinedo reconheceram- -se vestígios de uma anterior igreja que foi atribuída ao século VI-VII (SILVA, 1994: 102-103; RODRIGUES, 2012-2013). Esta atribuição cronológica não pode considerar-se indiscutível. Talvez o templo possa datar-se do século IX ou X. De qualquer forma, é mais do que provável que a transferência da sede de Magnetum para Portucale tenha tido lugar aquando da reorganização do mapa eclesiástico sob a égide de S. Martinho de Dume. No II Concílio de Braga, em 572, ainda aparece Viator subscrevendo as actas como «Magnetensis ecclesiae episcopus». Deveremos deduzir daqui que, em 572, a sede continuava em Meinedo, e que a sua transferência para o Porto foi posterior? É possível que a transferência tenha sido aprova- da ou oficializada nesse mesmo concílio. Viator terá comparecido como bispo de Magnetum, mas saído como bispo de Portucale. Podemos também recordar o caso dos bispos de Coimbra que con- tinuaram a intitular-se «episcopi Conimbrigenses» mesmo depois da transferência da sede de Conim- briga para Aeminium. Dado o sentido do adjectivo antiquus, o nome de «Portucale castrum antiquum» para a povoação da margem esquerda parece dever entender-se no sentido de que o nome de Portucale foi primeira- mente dado a essa povoação antes de ser atribuí- do também ao Porto. O nome de castrum, por ou- tro lado, inclina-nos a supor que a ecclesia ficava no Castelo de Gaia. Seria a igreja supostamente identificada no sítio da capela do Bom Jesus ou da Senhora da Bonança (GUIMARÃES, 1989 e 1995: 123-139 e 175-183). Neste caso, nos finais do século VI, a povoação do Castelo de Gaia, se em algum tempo se chamou Caenum ou Cainum, chamar-se-ia então Portucale. A Ceno do Anónimo de Ravena poderia ser a povoa- ção junto do rio, onde se fazia a travessia? Não podemos deixar de examinar agora o teste- munho da Crónica de Idácio. Segundo este, em 456, Teodorico, rei dos Vi- sigodos, atacou os Suevos. O rei suevo, Requiá- rio, derrotado «ad fluvium nomine Urbicum», a doze milhas de Astorga, fugiu «ad extremas sedes Gallaecia» e acabou por ser feito prisioneiro em Portucale: «Rechiarius, ad locum qui Portumcale appellatur profugus, regi Theodericus captivus adducitur» – «Requiário, fugido para o lugar a que chamam Portucale, foi levado como prisio- neiro ao rei Teodorico» (ou «fugido para o lugar a que chamam Portucale, foi aí preso e levado ao rei Teodorico»). Tem-se argumentado que este Portucale onde Requiário foi preso deve identificar-se com a cida- de do Porto, visto que ficava «ad extremas sedes Gallaecia» e o limite da Gallaecia era o Douro. A releitura atenta de Idácio permite outra inter- pretação. Derrotado junto do rio Orbigo, Requiário fugiu para Braga, que era a capital do reino suevo. Teodorico avançou para esta cidade: «Theoderico rege cum exercitu ad Bracaram extremam civitatem Gallaeciae pertendente...» – «o rei Teodorico, com seu exército, tendo marchado para Braga, cidade nos confins da Galécia...». A cidade que ficava nos confins da Galécia era Braga e não foi aqui que Requiário foi preso. O rei fugiu para Braga. Depois, perante o ataque de Teo- dorico a esta cidade (ataque que Idácio também descreve), continuou a fuga e foi preso em Portuca- le. Mas onde ficava este Portucale? Idácio escreveu que Requiário foi preso «ad lo- cum qui Portumcale appellatur». Nunca o cronista se refere a outras cidades usando a expressão «ad
  13. 13. 12 locum qui appellatur». Não diz, por exemplo, «ad locum qui Conimbrigam appellatur» ou «ad locum qui Scallabim appellatur». Isto deixa-nos pensar que Portucale era um lu- gar menor que muitos dos seus leitores desconhe- ceriam, ou era uma designação recente para um lugar que todos (ou quase todos) conheceriam por outro nome: o de Cale. Se pensarmos que, para a batalha do rio Orbi- go, Idácio usa a expressão «ad fluvium nomine Ur- bicum», podemos admitir a primeira hipótese, isto é, a de que Portucale era um lugar menor que pou- cos saberiam identificar. Idácio não fala de «fluvium nomine Tagum» nem de «fluvium nomine Anam», porque o Tejo e o Guadiana eram rios conhecidos de todos. O rio Urbicum seria desconhecido da maior parte dos leitores e por isso Idácio usa nomi- ne (equivalente a qui appellatur). A segunda hipótese (a de ser recente a desig- nação de Portucale para a antiga Cale) é igualmen- te razoável. Neste caso, a expressão de Idácio seria equivalente a «ad locum qui nunc Portumcale appe- llatur». Apenas o uso do termo locum nos obriga a reflectir: se Portucale era a antiga Cale, Idácio não teria escrito «ad castrum (em vez de ad locum) qui Portumcale appellatur»? O nome Portumcale, com flexão do elemento por- tum e não do nome Cale, também merece atenção. Acaso Idácio escreveu «ad portum Cale» e foi um co- pista que reuniu numa só palavra, Portumcale, o que, no manuscrito original, estaria como duas palavras? Ficamos, pois, na dúvida: em 456 (quando Re- quiário foi preso) ou em 469 (data em que Idácio terminou a sua Crónica), Portucale era nome recente para a antiga Cale? E foi aí que Requiário foi preso? Nada nos impede de pensar que Requiário foi preso na margem esquerda do Douro. Aqui estaria, aliás, mais estrategicamente situado: no Porto cor- reria o risco de ficar encurralado; do lado de Gaia teria maiores possibilidades de continuar a fuga, se necessário, para Sul ou Oriente. Não pretendemos sustentar que Requiário foi preso do lado de Gaia e que ficava aqui o «locum qui Portumcale appellatur»; queremos apenas manter a dúvida. Será que em outros passos de Idácio encon- tramos outras referências que nos permitam esclare- cer se Portucale corresponde ao Porto ou a Gaia? Prossigamos na leitura do cronista. Em457,«Agiulfus...Portucalemoritur»–«Agiul- fo morreu em Portucale»; em 459, «Maldras... Por- tumcale castrum idem hostis invadit» – «Maldras... invadiu como inimigo o castro de Portucale». Após a morte de Agiulfo, os Suevos dividiram-se: uns reconheceram Frantano como seu rei e, depois, Requimundo; outros aclamaram Maldras. Este teve a Lusitânia, enquanto Frantano e Requimundo reina- ram na Galécia. Se o Douro era a fronteira, a área de Vila Nova de Gaia seria de Maldras, e a do Porto, do inimigo ou adversário. Maldras terá invadido a cida- de do Porto. A própria referência a Portucale como castrum e não, como anteriormente, a locus, parece devertomar-secomoalusãoaumPortucalediferente do lugar onde Requiário havia sido feito prisioneiro. Que concluiremos de tudo isto? Que talvez, já nos meados do século V, o nome de Portucale se aplicasse tanto à povoação da margem direita como à da margem esquerda; mas se podemos duvidar disso, pois o testemunho de Idácio não é isento de ambiguidades, o Parochiale Suevum deve levar-nos à conclusão de que, na década de 570, os dois luga- res tinham realmente o mesmo nome. Ainda assim, fica a dúvida: acaso, no século V ou VI, o Portucale da margem esquerda poderia ser a povoação da beira-rio onde se fazia a travessia? E o povoado do Castelo de Gaia teria outro nome? Parece útil recordarmos agora o testamento do bispo D. Gomado a favor do mosteiro de Crestuma em 922 (LP 81 = DC 25). Noutro trabalho justificaremos a ideia de que D. Gomado foi bispo do Porto e de que o documento deve considerar-se autêntico. Deixou o bispo ao mosteiro de Crestuma (ao qual se havia recolhido depois de resignar) várias terras e, entre elas, «villa de Portugal quomodo di- vidit per suos terminos antiquos quomodo dividit cum villa de Mahamudi et inde per montem, a ter- mino de Colimbrianos usque in Gal». Sendo identificáveis e localizáveis Mafamude e Coimbrões (nomes que ainda persistem na área urbana actual de Vila Nova de Gaia), é provável que Gal corresponda ao Castelo de Gaia, e villa de Portu- gal ao povoado ribeirinho junto do cais. Gal é grafia anómala num documento em latim do século X. Esperaríamos Gale ou Galia. Não me- nos anómala, porém, é a forma Portugal em vez de Portugale ou Portucale. Terá o notário usado as for- mas faladas? Gal corresponderia a Cale e Portugal a Portucale, nos dois casos com apócope do /e/, como em sole > sol, aprile > abril ou fidele > fiel, e com a oclusiva velar surda /c/ transformada na velar sono- ra /g/, como em Lucus > Lugo ou Callaecia > Galécia.
  14. 14. 13 De qualquer forma, parece dever concluir-se que, no século X, o povoado ribeirinho do Douro se chamava Portugal(e), e o do Castelo de Gaia, Gal(e). Donde vem o nome de Gaia? A hipótese de Cale > *Gala > Gaia não parece impossível. A vocalização do /l/ em /i/ encontra-se, por exemplo, em ausculta- re > escuitar (forma arcaica e popular de «escutar»). Numa outra hipótese, podemos admitir que, de Cale, com o sufixo -ia, se formou Calia/Galia. Este sufixo serve à formação de nomes de regiões ou províncias, com Britannia, Gallia, Lusitania. Nes- te caso, Calia/Galia teria designado uma área, não necessariamente muito extensa, em torno de Cale. A evolução Galia > Gaia explicar-se-ia pela queda do /l/ como em salire > sair, casales > casais ou mo- lino > moinho. O elemento Calia encontra-se no nome de Ca- liabriga, que foi, segundo o Parochiale Suevum, ec- clesia da diocese de Viseu depois convertida em sede de bispado pelos Visigodos. Na Chronica Gothorum (in Scriptores: 13) diz-se que, em 1147, os Cruzados entraram no porto de Gaia: «Eodem quoque tempore venerunt quedam naves exinsperato de partibus Galliarum, plene ar- matis viris votum habentes ire in Jerusalem, cum- que venissent ad portum Gaye et intrassent Do- rium, audivit hec Rex»... Talvez se não deva tomar esta referência como segura prova de que o povoado ribeirinho se cha- mava, em 1147, portus Gaye, pois a Chronica, escri- ta depois dessa data, pode ter actualizado o nome. Quando não dispomos de originais, mas de cópias, há sempre o risco de actualizações, que os copistas frequentemente faziam. Há, todavia, documentos dos séculos XII e XIII que se referem à igreja de San- ta Marinha de portu Dorij ou de portu (GUIMARÃES, 1989: 18 e 1995: 64). Em 1155, D. Afonso Henriques doou ao mos- teiro de Salzedas «ecclesia Sancti Martini de Gaya cum piscariis et pertinentiis suis» (DR 255); e em 1161 confirmou a doação, delimitando-a «per petram de Deveza», pela «carreriam quae venit de Gaya», pela extrema com Villar e pelo Douro» (DR 277). A autenticidade destes documentos foi examina- da por Rui de Azevedo (DR II: 751-753). Se o primeiro é falso, o de 1161 deve considerar-se autêntico. Não nos parece possível identificar petra de De- veza com o lugar de Devesas na actual área urbana de Gaia, nem Villar com Vilar de Andorinho. Não te- mos, em qualquer outro documento, indício de que o mosteiro de Salzedas tenha tido área tão vasta. A igreja de S. Martinho ficaria na Afurada ou na encosta do Castelo de Gaia (GUIMARÃES, AFONSO e PRATA, 1983, mapa de p. 41 e GUIMA- RÃES, 1995: 432)? Em 1255, D. Afonso III deu foral a «mea villa de Gaia» (GUIMARÃES, AFONSO e PRATA, 1983). Ao mesmo tempo, concedeu ao concelho o seu re- guengo de Gaia, «quomodo dividit cum terminis de Conimbrianos et de Canidelo et de Almeara et deinde quomodo intrat in Dorium». Aquelas localidades correspondem a Coim- brões, Canidelo e Alumiara. Pode entender-se que o reguengo era muito mais vasto e que D. Afonso III apenas deu ao concelho uma parte desse mesmo reguengo – parte que já não abrangeria as aldeias de Coimbrões, Canidelo e Alumiara, embora essas ficassem no reguengo. No que respeita a Canide- lo, terá continuado terra regalenga, pois viria a ser doada aos filhos de D. Pedro e de D. Inês de Castro – ou, pelo menos, a D. Beatriz, filha do casal (ARNAUT, 1960: 18-19, 74 e 220). Se Coimbrões, Canidelo e Alumiara ficavam fora do concelho de Gaia no tempo de D. Afonso III, fora ficariam também, provavelmente, Mafamude e Quebrantões. Em data que desconhecemos estas localidades terão sido integradas no concelho. D.AfonsoIIIdoouaoshabitantesde«meavilla»de Gaia também o «casale quod fuit sedis portucalensis quod est in Gaia, et Sanctum Martini si illum habere potuero». A interpretação de «casale quod fuit sedis portucalensis como «casal que foi sé portucalense» e a sua identificação com o burgo em torno da igreja de Santa Marinha já foi corrigida (SILVA, 1994: 83-84). Deve entender-se «casal que foi da sé portucalense». Não sabemos onde ficaria, exactamente. Quanto a Sanctum Martini, poderia ser aquele mesmo lugar (ou igreja) que D. Afonso Henriques havia doado ao mosteiro de Salzedas. Talvez D. Afonso III estivesse em negociações para, por meio de escambo, reaver o lugar. No foral, D. Afonso III refere-se aos moradores de «meo burgo veteri de porto» e à «villa episcopi». A «villa episcopi» era a cidade do Porto. Noutros documentos do mesmo rei surge como »civitate episcopi» (Chanc. Afonso III, Liv. I, 308 e Liv. III, 34).
  15. 15. 14 O «meo burgo veteri de porto» não pode iden- tificar-se com a cidade do Porto: seria o povoado em torno da igreja de Santa Marinha, distinto do povoado do Castelo de Gaia, que seria a sede do concelho afonsino. Documentos dos séculos XII e XIII chamam ao povoado da margem esquerda Por- tu Dorij, Portum Dori, Portus Gay (GUIMARÃES, 1995: 64). Um documento de 1251 (MOREIRA, 1964-1966: 120) chama, à povoação em torno da igreja de San- ta Marinha, «burgo de portu de Gaya». A igreja de Santa Marinha era do padroado régio. Em 1292, D. Dinis cedeu-a ao bispo do Porto, junta- mente com dois casais, por escambo com o lugar de Marachique (no Alentejo) (ALARCÃO, 2015a: 26-31). Em 1288, D. Dinis deu foral ao «burgum vetus» e determinou que passasse a chamar-se Villa Nova de Rey. A povoação em torno da igreja de Santa Ma- rinha tornou-se assim autónoma da do Castelo de Gaia, embora o seu foral dionisino tenha seguido os termos do de D. Afonso III dado a «mea villa de Gaia». Não conhecemos os limites de Villa Nova de Rey. Provavelmente eram muito reduzidos, vindo a sul só até ao Cabeçudo, designação ainda hoje mantida na áreaurbanadeGaia,natravessadeCândidodos Reis. Em documentos da Chancelaria de D. João I, Vi- lla Nova de Rey surge com as designações de Villa Nova de par de Gaya e de Gaya a Pequena. As designações ainda se mantinham no século XVIII, pois nas Memórias Paroquiais de 1758 lemos: «Villa Nova no que respeita do Cabeçudo abaixo, e seu circuito chama-se Villa Nova de par de Gaya com o titulo de Villa Nova del Rey... ...ha Villa Nova do Porto, ou de par de Gaya, que nos foraiz antigos se [chama] Villa Nova do Bispo, que tudo he do Ca- beçudo abaixo...» Conclusão É possível que o nome Ceno (ou Caenum ou Cainum) tenha sido o do povoado do Castelo de Gaia, e que a povoação ribeirinha onde se fazia a travessia para Cale se tenha chamado, na época romana, portus Cale. Talvez já no século V, e seguramente no VI, a antiga Cale chamou-se Portucale. Passou a haver dois Portucale, um dos quais seria o povoado do Castelo de Gaia. Porque o Parochiale Suevum fala de «Portucale castrum antiquum», e porque o nome de castrum não se aplicaria ao povoado ribeirinho, devemos supor que era o da povoação do Castelo de Gaia. Acresce que os materiais arqueológicos descobertos na igreja do Bom Jesus consentem a hipótese de ser aí a sede da ecclesia sueva. A povoação ribeirinha surge com o nome de por- tus Dorii no século XII, com o de «burgo de portu de Gaya» em 1251, e, em 1255, com o de «burgo vetus de portu». D. Dinis chamou-lhe Vila Nova d´El-Rei. O nome não vingou, e a povoação passou a chamar- -se, desde os tempos de D. João I, Vila Nova de par de Gaia – nome que ainda mantinha no século XVIII. Referências ALARCÃO, Jorge de (2015) — «Os limites das dioceses suevas de Bracara e de Portucale». Portugália, nova série, 36, Porto, pp. 35-48 ALARCÃO, Jorge de (2015a) — Ourique: o lugar controverso. Porto: Figueirinhas ALMEIDA, Carlos Alberto Ferreira de e SANTOS, Eugénio dos (1971) — «O castro de Fiães». Revista da Faculdade de Letras. Série de História, 2 Porto, pp. 147-168 ALMEIDA, Luís Gomes de (1984) — «O significado do termo Calle no prazo de Quebrantões». Gaya, 2, Vila Nova de Gaia, pp. 83-100 ANÓNIMO DE RAVENA. In ROLDÁN HERVÁS (1973), pp. 111-142. ARNAUT, Salvador Dias (1960) — A crise nacional dos fins do século XIV. I. A sucessão de D. Fernando. Coimbra: Faculdade de Letras. Atlas Antroponímico = Atlas Antroponímico de la Lusitania romana. Mérida: Fundación de Estudios Romanos / Bordéus: Ausonius, 2003. CARVALHO, Teresa Pires de (2003) — «As ocupações no Castelo de Gaia — problemas de arqueologia urbana». Revista da Faculdade de Letras. Ciências e Técnicas do Património, 2, Porto, pp. 823-841. CARVALHO,TeresaPiresdeeFORTUNA,Jorge(2000)—«Muralha romana descoberta no Castelo de Gaia». Al-madan, nova série, 9, Almada, pp. 158-162. Chanc. Afonso III = Chancelaria de D. Afonso III (edição de VENTURA, Leontina e OLIVEIRA, António Resende de). Coimbra: Imprensa da Universidade, 2005-2006. Chancelarias de D. João I = Chancelarias portuguesas. D. João I. (Edição coordenada por DIAS, J. J. Alves). Lisboa: Centro de Estudos Históricos da Universidade Nova de Lisboa, 2006-2011. CORREIA, Mendes (1932) — As origens da cidade do Porto (Cale, Portucale, Porto). Porto: Fernando Machado & Ca. Editores. Crónica de Idácio = HYDACE. Chronique. Edição de Alain TRANOY. Paris: Les Éditions du Cerf, 1974. COUTINHO, Bernardo Xavier (1984) — «A propósito do Castelo de Gaia — um problema de toponímia nacional: Cale, Portus e Portucale». Gaya, 2, Vila Nova de Gaia, pp. 109-124. DC = Portugaliae Monumenta Historica. Diplomata et Chartae. Lisboa: Academia das Ciências, 1867-1873.
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  17. 17. 16 O edifício de tradição romana sob a igreja do Bom Jesus de Gaia destruído nos últimos dias do reino dos Suevos J. A. Gonçalves Guimarães Gabinete de História, Arqueologia e Património (ASCR– CQ) ggui@portualmail.pt Localização e descrição geral Fig. 1 – Localização da igreja do Bom Jesus no Castelo de Gaia, visto da cidade do Porto; fotografia do autor. A igreja do Bom Jesus de Gaia é um pequeno templo que fica situado no centro histórico de Vila Nova de Gaia, na encosta nordeste da colina sobran- ceira ao rio Douro, a meio caminho entre este e o alto do Castelo (77,8 metros) na antiga vila medieval de Gaia (fig. 1). Construída sobre um socalco artificial entulhado pelos destroços de dois edifícios anterio- res, com um desnível de cerca de 5 metros junto à cabeceira, o edifício tem de comprimento máximo 17,5 metros e a largura do corpo principal é de 7,75 metros. A sua área de implantação, considerando também o pequeno adro a norte e o largo do Prior a sul é de 576 metros quadrados. A igreja compõe-se de dois corpos simples e justapostos, a capela-mor e o corpo principal, tendo a sacristia adossada a sul e a torre sineira, no alinhamento da fachada, a nor- te. Em época recente foi construída neste adro uma capela mortuária com materiais de construção mo- dernos. Ao longo dos tempos o edifício sofreu obras de alargamento e «beneficiação» que o foram alte- rando. Apresenta o aspeto de uma pequena igreja da segunda metade do século XVII ou XVIII (fig. 2). A capela-mor evidencia alguns paramentos de boa silharia, com uma fresta a nascente e uma ou- tra na parede norte, onde igualmente em tempos se abria uma porta de acesso para uma divisão ex- terior agora inexistente, tendo no seu espaço sido construídos uns sanitários e a tal recente capela mortuária. O telhado foi alteado duas vezes em épocas indeterminadas, sendo a empena da cabe- ceira coroada por uma pequena cruz de pedra. O corpo principal da igreja abre para a capela- -mor através do arco triunfal, feito ou refeito prova- velmente no século XIX e que é de muito menor es- pessura do que a primitiva parede onde se implanta. A nave da igreja, mais elevada do que a capela-mor, apresenta, além da porta principal na fachada virada a poente, duas portas laterais ao nível do piso térreo, uma de cada lado junto ao arco triunfal. A parede norte, para além desta porta, apresenta uma outra a nível mais elevado, presentemente entaipada, e que dava acesso ao púlpito que se abria a meio da parede através de uma escada de pedra exterior que continua até à porta elevada da torre sineira, so- brelevada acima do telhado, abrindo o campanário através de dois olhais com arcos de volta perfeita. Possui dois sinos antigos e é coberta por um telhado piramidal de quatro águas, encimado por uma cruz em ferro. Abre-se igualmente para o interior da igre- ja através de uma porta que dava acesso a um coro construído em madeira sobre a porta principal, re- tirado nas obras recentes. Na parede sul, para além da porta já referida, abre-se um janelão engradado, que presentemente dá para a sacristia. Fig. 2 – Igreja do Bom Jesus de Gaia na atualidade; fotografia do autor.
  18. 18. 17 A fachada, voltada a oeste, apresenta um am- plo portal construído após obras que destruíram a porta medieval e cujas ombreiras foram recobertas por nova cantaria tendo as aduelas do antigo arco sido reutilizadas para compor um incipiente arco de descarga, suporte de um óculo quadrilobado que se lhe sobrepõem. A soleira foi elevada. A parede exterior apresenta cantarias nitidamente reutiliza- das, mas com paramentos com alguma unidade so- bretudo no cunhal sudoeste. A empena, rematada por uma cornija de tijolos, é coroada por uma cruz de pedra e duas pirâmides. A sacristia, que comunica com o corpo principal através de uma porta na parede sul e pelo janelão já referido, aninha-se no prolongamento do telha- do da igreja. Situada a um nível mais baixo do que a soleira da porta principal, desce-se para a sua porta por degraus em granito. Na sua parede exterior, a sul, abrem-se duas pequenas janelas engradadas1 . A povoação de Gaia, ou Castelo de Gaia, onde se localiza esta igreja, é muito antiga. Os vestígios ar- queológicos já conhecidos datam-na desde o Bron- ze Final, tendo sido um povoado castrejo romani- zado, cristianizado no período tardo-romano ou já na presença dos povos germânicos, com fortes pro- babilidades de aqui se ter localizado um dos Portu- cale Castrum da Crónica de Idácio (século V), ou o Portucale castrum antiquum do Paroquial suevo de 569 ou da Divisão de Teodomiro de 572. Foi depois um castelo arabizado e asturo-leonês e por fim por- tucalense, o qual se tornou a cabeça do julgado me- dieval de Gaia, com foral outorgado em 1255, até que em 1384, durante a crise dinástica portuguesa, a população da vizinha cidade do Porto situada na margem direita do rio Douro, que pretendia subor- dinar à sua tutela os julgados da região, destruiu o castelo, ficando Gaia, a vizinha Vila Nova e o respe- tivo julgado integrados no Termo do Porto, uma su- perestrutura regional subordinada à administração daquela cidade até 18342 . Contexto histórico e arqueológico A documentação medieval apresenta algu- mas confusões hagionomásticas no que se refere às igrejas de Gaia e de Vila Nova e em que a pri- meira aparece sistematicamente sem orago. Mas antes, pelo menos no século XII, teve como pa- droeiro S. Martinho, o apóstolo dos Suevos que em 550 chega por mar a Portus Galliciae, ou seja, a barra do Douro; já em 1059 a «villa santa maria» (por mari[~]a, marinha) se dizia «inter riuulo... (?) et sancto martinu» e em 1155 D. Afonso Henri- ques doa ao Mosteiro de Santa Maria da Salzeda a «ecclesia Sancti Martini de Gaya cum piscaris et pertinentiis suis» que depois confirma, indi- cando os limites em 1161 3 . Mas como explicar que não apareça na lista do Censual do Cabido atribuída aos anos 1174-1175, ou no Rol anterior a 1238, ou no Catálogo das igrejas de 1320? Em 1292 a igreja de Gaia aparece claramente referi- da em três documentos, sem qualquer possibili- dade de confusão com a igreja de Santa Marinha de Vila Nova, o mesmo acontecendo em 1298. Mas a confusão documental volta a estabelecer- -se no século XIV, talvez não por causa do ora- go, mas porque muitos escrivães de outras terras confundiam Gaia com Vila Nova, as duas povoa- ções que existiam dentro de uma única freguesia chamada de Santa Marinha 4 . Em 1557 os habitantes de Gaia afirmavam que «... a Igreja do Crusefisio que se hora mandava Cor- reger e Rapairar Era muito antiga das majs deste Reyno em tanto que della tomara o nome o Reyno de Portugal por rezão de dita villa», e onde ouviam missa «...ha tanto tempo que não ha memoria d’homens», pois a igreja era «muito antiga, tinha Campanário Antigo», mas que nela cabia apenas a «quarta parte dos habitantes de Gaia» (80 fre- gueses, isto é, fogos ou cerca de trezentas almas), o que aliás também acontecida com a igreja de Santa Marinha de Vila Nova. Trata-se pois de uma igreja medieval com prerrogativas especiais, que lhe virão a merecer o tratamento de filial da igreja matriz da freguesia5 . Não obstante a sua antiguidade e importância simbólica, a degradação do templo e da respetiva Confraria das Almas acompanhou a degradação da vila de Gaia, muito maltratada pelos bombardea- mentos durante as lutas liberais 6 . Com o abandono do lugar pelas famílias nobres ou burguesas ricas, nos finais do século XIX já era conhecida simples- mente por capela da Senhora da Bonança, dado que a maioria dos habitantes era então constituída por famílias ligadas à faina marítima e fluvial. A de- gradação foi-se acentuando até 1987, ano em que foi solicitado à Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia a realização de obras adequadas, o que permi- tiu a realização de escavações arqueológicas, cujos resultados passaremos a descrever7 .
  19. 19. 18 Estruturas e estratigrafia A intervenção revelou as sucessivas fases de construção, destruição e reconstrução dos edifícios que existiram neste local ao longo dos tempos. O estudo do seu espólio tem permitido tirar conclu- sões para uma diacronia do lugar com cerca de 1500 anos. Concentrando agora o nosso estudo no edifício de tradição romana destruído nos últimos dias do reino suevo, o primeiro assente no local, deixamos por ora os construídos por cima dos seus escombros, um alti-mediévico, também destruído, e um terceiro, de construção medieval que chegou aos nossos dias com reconstruções e remodelações sucessivas a que já aludimos na introdução. Dado que só foi escavada a área interior da atual igreja, as conclusões aqui apresentadas são necessariamente limitadas, mas representaram, à época, um grande avanço no conhecimento da história local8 . Assim, sobre o afloramento granítico, situado à cota negativa média de -2,50 metros abaixo do pon- to 0 (nível do soalho existente antes das obras), fo- ram encontradas as ruínas de um edifício destruído no séculoVI, sobre as quais foi posteriormente cons- truído na Alta Idade Média um outro edifício, tam- bém ele violentamente destruído e incendiado, e por cima das suas ruínas, a igreja atual, que apresen- ta alguns paramentos de parede de Baixa Idade Mé- dia, sucessivamente alterados, reforçados e alteados ao longo das épocas Moderna e Contemporânea e que as obras recentes vieram mostrar. Fig. 3 – Ruinas do edifício tardo-romano destruído em 585 exis- tentes sob a igreja do Bom Jesus de Gaia; fotografia do autor. Coincidindo com parte da planta da atual igreja encontramos um muro no sentido NNE/SSO a cer- ca de 2,5 metros do alicerce da fachada que passa- remos a designar por M 1. Este muro sustinha um socalco de saibro onde se abriam sepulturas antro- pomórficas, contrariado pela abertura de uma es- cadaria perpendicular em granito com cerca de 1,5 metros de largura da qual subsistem quatro degraus, a qual prosseguia até à cota mais elevada, pois ainda existiam vestígios do seu alinhamento. Os degraus que faltam terão sido destruídos para abrir as sepul- turas já referidas ou para alinhar a grelha sepulcral existente na Época Moderna. Este muro encontrava- -se muito derrubado do lado SSO devido ao facto de por ali terem rolado enormes batólitos de granito usados para o derrube do edifício. A NNE o muro apresenta-se mais bem conservado, com mais de 1 metro de altura e com aparelho regular (fig. 3). Deste lado partia um outro muro (M 2), perfeitamente per- pendicular ao primeiro, o qual, no sentido ONO/ESE, continuava até ultrapassar a sapata do arco triun- fal para terminar em ângulo reto já dentro da área da atual capela-mor, com um total de 9 metros de comprimento. Deste ângulo parte uma outra pare- de para NE (M 3) que, ao contrário das anteriormen- te descritas construídas com duas faces de pedra aparelhada e enchimento central, esta é formada por grandes blocos de granito bem aparelhados e esquadriados, o que nos levou a pensar que estáva- mos perante uma parede de fachada ou o pedestal de uma colunata, dado que nos entulhamentos des- te canto do corpo principal da igreja descobrimos um fuste partido, de bom granito e também bem aparelhado, ainda com 1 metro de comprimento e cerca de 30 centímetros de diâmetro. Neste canto, também ao contrário do restante «alicerce» da igreja feito de pedras em posição caótica, aqui existe um outro muro de grandes blocos graníticos bem apa- relhados (M 4), paralelo ao muro de maior compri- mento atrás descrito (M 2), e que seria parte de uma outra parede mais interior (fig. 4). Para além das diferenças de materiais e de técnica de construção dos muros atrás descritos, encontramos vestígios de estuque com óxidos ne- gro e vermelho junto de M 2, o que pode querer significar que a parede tinha reboco pintado. No espaço delimitado pelos muros M 1 e M 2 foram encontradas tijolos de argila alaranjada clara (bes- sallis), com as dimensões aproximadas de 19 x 18 x 5,5 cm, pertencentes a colunelos que suportavam um pavimento que ruiu aquando da destruição de que o primeiro edifício foi alvo, e que o desli- zamento posterior dos escombros fizeram sair das posições iniciais e concentrar-se junto da sapata do arco triunfal da igreja, para onde pende a inclina- ção do suporte geológico. Por toda a área escavada
  20. 20. 19 distribuía-se um extenso nível de tegulae de argila alaranjada, de boa cozedura, algumas com incisões digitais, resultante do abatido telhado do edifício, a qual separava nitidamente este estrato do da des- truição do edifício construído, e também derruba- do, em nível superior, e sobre o qual a camada de entulhamento era demasiado caótica, formada por pedras de derrube dos muros, mas igualmente pe- los enormes blocos graníticos que obviamente não pertenciam à construção que derrubaram. Quer as tegulae, quer os tijolos são idênticos aos de outras construções romanas na região 9 . Apareceram ain- da, para além de tambores de fustes em granito, al- guns elementos de capitéis, de pilastra e outros, de tipo corintizante 10 . Comparando a planta das ruínas deste edifício e a da atual igreja que lhe está sobreposta, sem esque- cer que entre ambos existiu outro edifício destruído, ao que tudo leva a crer, no século XI ou princípios do XII, de imediato se verifica que, ao contrário do que sucede com as paredes da capela-mor e do corpo principal, a planta da sacristia tem uma relação dire- ta com os alinhamentos dos muros destas ruínas de um primeiro edifício. A escada de acesso à sacristia é paralela e de largura semelhante à que abre em M l, a parede exterior sul do corpo da igreja é praticamente paralela ao muro M 2 e a parede de fecho da sacristia SO/NE aparece com a mesma orientação do muro M 3, o tal formado por grandes blocos graníticos apa- relhados. Podemos pois concluir que estas paredes assentam sobre o que resta da parte do edifício de tradição romana que lhe servem de alicerce, o que explicaria também o seu traçado oblíquo em relação à planta da igreja atual Fig. 4 – Planta da igreja atual e das ruínas; in GUIMARÃES, 1995: 291. Espólio com elementos paleocristãos Os materiais de construção encontrados indi- cavam-nos apenas que estávamos perante um edi- fício tardo-romano, mas foi o restante espólio que veio fornecer-nos uma cronologia mais fina para a data da sua destruição através de um número sig- nificativo de fragmentos de cerâmica importada datável do século VI d. C.. Estávamos pois perante um edifício destruído depois de 580 d. C., a avaliar pelos resultados disponíveis do estudo ceramológi- co. De entre os cerca de 15.000 fragmentos recolhi- dos destacam-se neste estrato os de terra sigillata foceense, que pertenceram a peças importadas da zona oeste da atual Turquia, entre meados do sécu- lo V e primeira metade do século VI d. C.. Fig. 5a – Prato-taça Hayes 104A, século.VI, in GUIMARÃES, 1993: 46, e idem, 1995: 30.
  21. 21. 20 Estão igualmente presentes fragmentos de ter- ra sigillata africana tardia, dos quais destacamos um prato-taça da forma Hayes 104A, tendo estam- pilhados no fundo três cordeiros em volta de uma jewelled cross, cuja data de fabrico é apontada para o período entre 540 e 580 d. C.. Trata-se de uma produção típica da zona de Cartago, caracteriza- da pelo seu engobe avermelhado, existente só no interior, e pelos bordos de tipo almendrado. Duas peças de ambas as proveniências foram entretanto reconstituídas, as quais se expõem hoje no Núcleo Museológico de Arqueologia do Solar Condes de Resende (fig.s5a e5b). Foram aqui também encon- trados, além de fragmentos de cerâmica comum regional, também de terra sigillata hispânica tar- dia, com cronologia idêntica, mas em quantidade muito menor, e de cerâmicas cinzentas tardias, de origem gálica 11 . Fig. 5b – Iconografia paleocristã da peça anterior; in GUIMA- RÃES, 2002: 556. Para além da cerâmica, foi aqui também en- contrada uma grande quantidade de fragmentos de vidro, amarelado e esverdeado, nomeadamen- te fundos de base anelar e côncavos e bordos al- mendrados ou tubulares, também datáveis do sé- culo VI. Sabendo-se hoje da grande produção de vidro romano bracarense que vai aparecendo em muitas estações arqueológicas da região, para a única peça deste local para já reconstituída, um copo-taça com pé e asa lateral no bojo, não te- mos encontrado paralelos locais, sabendo que se insere numa tradição de fabrico e utilização de peças idênticas que se estende da Itália à Rússia nesta época (fig. 6) 12 . Por fim registe-se o achado, também neste ní- vel arqueológico, de um elenchi lacrimiforme de ouro, constituído por uma fita martelada daque- le metal a delimitar-lhe a forma, tendo no interior uma pedra transparente de cristal de quartzo, com um arame estirado do mesmo metal, em forma de S, para suspensão na orelha, sendo até à data este brinco a única joia tardo-romana conhecida neste local(fig. 7)13 . Fig. 6 – Copo-taça em vidro, século. VI; fotografia do autor. Não sendo objeto de estudo da arqueologia, mas não devendo ser ignorada pela etno-arqueo- logia na tentativa da compreensão da simbologia do lugar, recordemos aqui que ao Castelo de Gaia anda associada a lenda de Santa Liberata, virgem mártir do século II que teria sido aqui crucificada por não ter renunciado à fé cristã. Trata-se de uma lenda medieval difundida por toda a Europa, e leva- da para outras paragens pelos povos peninsulares, cuja fixação em texto em Portugal remonta apenas ao século XVI. Se não antes, pelo menos no sécu- lo XVIII, já tinha culto na igreja de Gaia, onde ainda
  22. 22. 21 hoje existe uma sua imagem. Tal significa apenas que no lugar sempre houve uma grande consciên- cia da sua antiguidade materializada em volta da sua igreja e de uma demolida capela de S. Marcos, que ainda era visível no século XIX, a qual, segundo outra tradição, fora a primitiva sé portucalense 14 . Fig. 7 – Brinco de ouro e cristal de rocha, século. VI; fotografia do autor. Um edifício destruído em 585 Na área hoje ocupada pela igreja do Bom Je- sus no lugar do Castelo de Gaia existiu até ao sé- culo VI um edifício com boas paredes de granito, um piso interior suportado por colunelos cerâmi- cos, com colunata da mesma pedra na sua face voltada ao rio Douro, capitéis decorados e telha- do de tegulae, com dois lanços de escada para acesso a cota superior, hoje a rua que passa em frente da fachada da igreja. Podemos inferir o seu aspeto geral por analo- gia com edifícios que apresentam a mesma área e a distribuição dos mesmos materiais de constru- ção, segundo o modelo vitruviano, mas não sabe- mos qual a sua utilidade. Poderia tratar-se de um templo, e o espólio aqui encontrado ser para o serviço dos seus curadores ou oferendas dos de- votos. Esta dedução tem em conta, não só o que atrás se disse, mas a constatação de que estamos perante um d’«aqueles sítios aos quais uma longa e sedimentada memória de gerações, por uma ou outra razão, conferiu poderes sacralizadores, [e que] raramente esquecem estas qualidades mes- mo quando já se perderam as razões originais» (TORRES, 1992: 169). Em todo o caso, registe-se que foi aqui que apareceram os dois primeiros elementos paleocristãos num povoado da mar- gem esquerda do Baixo Douro, o já referido pra- to-taça com uma cruz e três cordeiros gravados e um fundo de terra sigillata foceense, com uma cruz com o esboço do P do Khi-Rho constantinia- no, datável de entre 470 e 580 (fig. 8). Posterior- mente haveriam de aparecer, ainda no Castelo de Gaia, outras ruínas paleocristãs de muito maior envergadura e espólio, cuja publicação se aguar- da, bem assim como nas escavações do Castelo de Crestuma, situado a montante deste primeiro, também na margem esquerda do Douro 15 . Outra interrogação que estas ruínas suge- rem é a que se refere à sua violenta destruição no último quartel do século VI, através de enor- mes batólitos de granito rolados a partir de cota superior e que entraram pelo edifício dentro, destruindo-o de tal modo que as suas estru- turas apenas serviram para assentamento dos edifícios posteriores, para além da reutilização de alguns materiais. A explicação poderá ser encontrada na lição histórica: em 573 Leovigil- do, que seguia a corrente cristã ariana, torna-se
  23. 23. 22 rei dos Visigodos, sendo Miro, Eborico e Aude- ca, os reis dos Suevos contemporâneos, da cor- rente católica. As duas povoações denominadas Portucale, a da margem direita (futura cidade do Porto), sueva e católica, e a da margem es- querda (futura vila de Gaia), visigoda e ariana, ficavam precisamente numa das fronteiras en- tre os dois povos e crenças, controlando a mais importante travessia litoral entre a Galécia e a Lusitânia. Cada uma tinha então o seu bispo, um católico e outro ariano. Talvez venha daqui a len- da seiscentista da «primeira sé portucalense» na margem esquerda16 . Pelos dados ceramológicos tudo leva a crer que o edifício que temos vindo a apresentar tenha sido destruído na sequência da revolta de Audeca, a qual trouxe Leovigildo à Galiza e, como consequência, a conquista defini- tiva do reino dos Suevos em 585 17 . Fig. 8 – Cruz paleocristã sobre fundo de cerâmica do Mediterrâ- neo oriental, século V/VI: in GUIMARÃES, 2002: 556. Notas 1 Para esta descrição simplificamos o publicado em GUIMARÃES, 1989: 17-20; idem 1995a: 429-431 e idem 1995b: 123-127. 2 As referências à antiguidade de Gaia, e desta sua igreja, foram por nós apresentadas e discutidas em GUIMARÃES, 1989: 431-433; idem 1995b: 54 e seg.s; idem 2002: 547-549, idem 2010: 5-20, sobretudo nota 4, e idem 2017: 56 e seg.s. 3 Cf. PMH-DC 12; 420; DMP-DR 255; DMP-DR 277 e 354; OLIVEIRA, 1964: 57 e seg.s; TORRE RODRÍGUEZ, 2001; MACIEL, 2007: 8; FERNANDES, 2012, 126 e 137. 4 Cf.OLIVEIRA,1967:223,233e237;MOREIRA,1987:105/106. 5 Cf. CAMPO BELLO, 1984: 337/338; COSTA, 1983: 160. 6 A própria igreja de Gaia parece ter sofrido com os bom- bardeamentos pois algumas paredes tinham brechas muito lar- gas que podem não ter sido só originadas pela deslocação dos terrenos e muros de suporte. Isso explicaria igualmente a não existência de altares anteriores ao século XIX, embora existam ali algumas imagens importantes do século XVIII. 7 À data o Regulamento do Centro Histórico de Vila Nova de Gaia determinava que nas obras de restauro ou beneficiação em edifícios localizados nesta área classificada, sempre que aparecessem elementos ou vestígios com interesse histórico ou arqueológico, o seu estudo e enquadramento passassem a ser feitos pelo Gabinete de História e Arqueologia de Vila Nova de Gaia (hoje Gabinete de História, Arqueologia e Património – ASCR-CQ), do qual o autor era membro e hoje coordenador. Sobre a evolução administrativa do Centro Histórico de Gaia e seus regulamentos ver COUTO, 2017: 187-206. A intervenção arqueológica teve início a 30 de janeiro de 1988 e prolongou- se até 1 de abril de 1989; cf. GUIMARÃES, 1989: 17. Após uma interrupção para o avanço dos trabalhos de engenharia e ar- quitetura, em maio de 1992 retomamos as escavações no sen- tido de proteger as ruínas já descobertas, aquando do assenta- mento dos pilares para suporte da placa do chão da igreja e da consolidação dos «alicerces» com betão injetado. 8 Privilegiando nesta abordagem as cerâmicas, de que publicamos um primeiro estudo, GUIMARÃES & PINTO, 2000. Desde 1992 para cá, muito perto da igreja de Gaia ou um pouco por todo o Castelo de Gaia, têm sido realizadas escavações ar- queológicas com notáveis resultados, pese a precariedade das condições em que foram feitas algumas delas e da não aceit- ação de um plano global para as intervenções no sítio já por nós apresentado a várias administrações autárquicas desde 1984; a este propósito ver COUTO, 2017 e SILVA, 2017a.
  24. 24. 23 9 Ver estes elementos em GUIMARÃES, 1995b: 183-184 e 305, comparáveis com os de Tongóbriga apresentados em DIAS, 1997: 132. 10 Sobre a possível reconstituição e interpretação funcional destes elementos arquitetónicos ver GUIMARÃES, 1995a: 437 e 1995b: 137e 294. 11 Parte destes materiais cerâmicos foram publicados em GUIMARÃES, 1993: 46; idem, 1995a: 435; idem 1995b: 179-183 e 302-304; GUIMARÃES & PINTO, 2000: 500-502; GUIMARÃES, 2002: 551-553 e 556. Mais recentemente os fragmentos de terra sigillata africana tardia, terra sigillata foceense e terra sigillata hispânica tardia, foram estudados em pormenor por Joaquim Filipe Ramos, aluno do mestrado em Arqueologia da Faculdade de Letras da Universidade do Porto orientado pelo Prof. Doutor Rui Morais; cf. RAMOS, 2017. 12 Publicamos a peça em GUIMARÃES, 1995b: 209-210 e 316; sobre os vidros tardo romanos na região ver MOREI- RA, 1997: 13-82; sobre a sua ocorrência na Europa visigótica, merovíngia e bizantina, ver FOY, 1995. 13 Publicamos a peça em GUIMARÃES, 1995b: 210-212 e 316. Algumas destas peças, nomeadamente o prato-taça de sigillata; o copo-taça de vidro e o brinco, foram publicadas em GUIMARÃES, 2017c: 187/188; 255; 386; 412; 506 e 533. 14 Cf. OLIVEIRA, 1964: 111 e seg.s; COSTA, 1983: 160. A lenda da capela de S. Marcos como primitiva sé portucalense, além de referida por vários autores desde o século XVII, foi literari- amente desenvolvida por Almeida Garrett no seu romance O Arco de Santana (1.ª edição 1845). Recorde-se que o escritor na sua infância viveu na Quinta do Castelo [de Gaia], perto das suas ruínas que então ainda seriam visíveis. 15 Cf. GUIMARÃES, 2002: 551-553; SILVA & GUIMARÃES, 2013: 16, e SILVA, 2017a: 113/114; O fundo cerâmico com o chrismon foi publicado em GUIMARÃES, 2002: 556. 16 «Ao que respondemos com facilidade, q. S. Basileo, naõ foy Bispo desta cidade [do Porto], no sitio em que ella hoje està, e a edificaraõ os Suevos, porque isto aconteceo quasi à 380 años depois de sua gloriosa morte: se naõ em quanto esteve dlem douro, na paragem de Gaya, e com o nome de Cale, ou Portucale» (CUNHA, 1742-I: 18). 17 Cf. MATTOSO, 1992: 315. Curiosamente, ainda no século XIV, no Castelo de Gaia havia uma «fonte do Rey miro», que tem sido associada à lenda do Rei Ramiro de Leão, posta por escrito no final do século anterior ou mesmo no início deste (MATTOS, 1933: 20, nota 2 e 24-31). Mas essa associação pode ser abu- siva e apenas pela similitude fonética rei miro> Ramiro, e na realidade referir-se ainda então à memória do último rei suevo e não àquele outro mais recente, mas cuja lenda passou a ser sinónimo literário do Castelo de Gaia. Nota final: uma primeira versão deste texto foi publicada em GUIMARÃES, 2018. Bibliografia AZEVEDO, Rui de (1958 e 1962) — Documentos Medievais Por- tugueses. Documentos Régios, vol.s I, II e III. Lisboa: Academia Portuguesa da História; DMP-DR. CAMPO BELLO, Conde de (1984) — «Para a história da igreja de Santa Marinha de Gaia». Gaya, vol. II. Vila Nova de Gaia: GHA- VNG, p. 329-348. COSTA,FranciscoBarbosada(1983)—MemóriasParoquiais–V.N. de Gaia 1758.Vila Nova de Gaia: Câmara Municipal, GHAVNG. COUTO, Daniel (2017) — Quarenta anos de Intervenção no Centro Histórico de Vila Nova de Gaia. In SILVA, António Manuel S. P. coord. (2017) – Cidades de Rio e Vinho. Memória. Património. Reabilitação. Vila Nova de Gaia: Câmara Municipal, GAIURB/ Edições Afrontamento, p. 187-206. CUNHA, D. Rodrigo da (1742) – Catálogo dos Bispos do Porto, tomo I, 2.ª edição. DIAS, LinoTavares (1997) – Tongobriga. Lisboa: Ministério da Cul- tura/ IPPAR. Documentos Medievais Portugueses. Documentos Régios, I, II e III – ver AZEVEDO, 1958 e 1962 (DMP-DR). FERNANDES, A. de Almeida (2012) — Os Primeiros Documentos de Santa Maria de Salzeda – até à Morte da Fundadora. Tarou- ca: Santa Casa da Misericórdia. FOY, Danièle, coord. (1995) – Le verre de l’ antiquité tardive et du Haut Moyen Age. Typologie – Chronologie – Diffusion. Guiry- -en-Vexin: Musée Archeologique Departemental du Val d’Oise. GUIMARÃES, J. A. Gonçalves (2018) — «O edifício de tradição ro- mana sob a igreja do Bom Jesus de Gaia (Vila Nova de Gaia – Portugal) destruído nos últimos dias do reino dos Suevos». In LÓPEZ QUIROGA, coord. (2018) — In Tempore Sueborum. El Tiempo de los Suevos en la Gllaecia (411-585). El Primer reino Medieval de Occidente. Volumen de Estudios. Ourense: Depu- tacion Provincial, p. 209-212. GUIMARÃES, J. A. Gonçalves (2017a) – «O Centro Histórico de Gaia como estrutura portuária atlântica». Douro. Vinho, His- tória e Património. Wine, History and Heritage, n.º 5. Porto: APHVIN/GEHVID, p. 53-94. GUIMARÃES, J. A. Gonçalves (2017b) – «O Centro Histórico de Gaia, a Barra do Douro e o Mundo». In SILVA, António Ma- nuel S. P. coord. (2017) – Cidades de Rio e Vinho. Memória. Pa- trimónio. Reabilitação. Vila Nova de Gaia: Câmara Municipal, GAIURB/ Edições Afrontamento, p. 60-99.
  25. 25. 24 GUIMARÃES,J.A.Gonçalves(2017c)–«PlatodeTSADdeVilaNova de Gaia; Prato de TSAD de Vila Nova de Gaia; Plate of TSAD from Vila Nova de Gaia» (p. 187/188; 386; 506); «Pendiente de Vila Nova de Gaia; Pendente de Vila Nova de Gaia; Earring fromVila Nova de Gaia» (p. 255; 412; 533); «Copa deVila Nova de Gaia; Copa de Vila Nova de Gaia; Cup from Vila Nova de Gaia»;(p.255;412;533).InLÓPEZQUIROGA,Jorge;MARTÍNEZ TEJERA, Artemio Manuel, coord.s – In Tempore Sueborum. El tiempo de los Suevos en la Gallaecia (411 – 585). El primer reino medieval de Occidente. Ourense: Diputación Provincial. GUIMARÃES, J. A. Gonçalves (2010) — «Os romanos em Gaia». Boletim da Associação Cultural Amigos de Gaia, n.º 70, p. 5-20. GUIMARÃES, J. A. Gonçalves (2002) — «Vestígios arqueológicos paleocristãos de Portucale Castrum Antiquum (Gaia)». In I Congresso sobre a Diocese do Porto, Tempos e Lugares de Memória. Homenagem a D. Domingos de Pinho Brandão, vol. I. Porto: Centro de Estudos D. 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  26. 26. 25 Sorrisos Lágrimas Poemas Jaime Milheiro Psicanalista; ensaísta Resumo Este texto1 é uma reflexão sobre os seres humanos, que, nascidos prematuros e absolu- tamente dependentes de quem os alimente e agasalhe, sempre se obrigam a sorrisos e lágrimas para sobreviver. Pelos seus caminhos e descaminhos perpassam encantos e sofrimentos, estéticas e palavras, afectos e disfunções, donde podem brotar poemas sempre atravessados por uma condição essencial da es- pécie a que o autor chama misteriosidade (contra- ponto do medo do desconhecido). Aocultaçãodosgenitaisfemininos,pelaposição erecta determinada, desempenha um significativo papel na potencialidade expressiva de todos esses sentimentos, nos homens e nas mulheres. Sorrisos, lágrimas e poemas são formas de ex- pressão características e caracterizadoras da es- pécie humana. Interligam-se, no fundo, seja numa função activadora e construtiva, seja como contra- ponto de dores e sofrimentos. Nenhumaoutraespéciedetalcapacitaçãodispõe. Sorrisos Sorriso é um movimento para o desconhecido que se deseja conhecer (mesmo que já se conheça), no agrado de o fazer. Será algo que se oferece e não se diz, que se ten- ta e fica a meio, num aceno de misteriosidade e de música entre as pessoas. _____________________ 1 Conferência apresentada em 17-11-2018 na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, no "Colóquio Inter- nacional e Interdisciplinar Poética das Lágrimas". Num primeiro tempo, na situação infantil e no que dela resta dentro de cada um, sorrir será um movimento natural e activo, que conjuga corpo e mente em separação impossível. Indicia confiança e desejo, insinua relação e carinho, promete ligação e futuro, numa cordial ideação sobre a realidade e sobre a fantasia da pessoa a quem se dirige ou da pessoa de quem se espera. Mesmo ainda não com- pletamente entendido pela criança, conterá sempre uma natureza apelativa e colorida, eventualmente uma súplica angustiante. Sorrir ilumina, abençoa, aproxima. Transporta os sinais positivos de quem no sorriso dos outros se revê. Só no temor do desconhecido os seres humanos desenvolveram tão extraordinária ca- pacidade, na intenção por certo de compensarem as hostilidades que dele temem. Sem ameaças su- postas sorrir não faria sentido, salvo em situações botânicas ou em múmias de cativeiro. Será por isso que um verdadeiro sorriso jamais contém arrogâncias de vencedor ou inferioridades de perdedor, porque jamais em tais águas desliza. Superou-as, como condição de existir. Transpor- tará, pelo contrário, cumplicidades despojadas de artimanhas e reciprocidades agradecidas em vice- versa, assentes nos princípios de vida que todos os seres humanos incluem e que por norma só se notam quando falham. Nas disparidades humanas os sorrisos serão sempre, por isso, muito bem recebidos. À maneira de afortunadas bonanças e de primordiais atitudes exercitam convergências, relativizam subsolos, apaziguam estandartes. Foi através deles que os Sa- piens se civilizaram e activamente distenderam as comensalidades que os distinguem e que tornaram cromossómicas, numa socialização certamente ini- ciada quando começaram a responder pelo nome e a reconhecer nome nos outros. Sem identidade, sem presença, sem interiori- zação do «outro», sorrisos nunca haveria. Nada os justificaria. Poderemos mesmo afirmar que jamais existirão sorrisos imotivados, mesmo em doentes portadores de esquizofrenia. O alvo apenas estará bastante longe, em tais situações. Apenas isso.
  27. 27. 26 Sorrir será condição matricial duma espécie sempre estruturalmente insegura e sempre rebus- cada nas suas próprias afirmações e confirmações. Num segundo tempo, desde sempre o mais visível, sorrir será o festejo de proximidades conse- guidas. Representará simpatias encadeadas, amabi- lidades distribuídas, galhardias em movimento. Contrariando pânicos, teimosias e disfunções, sinaliza o glorioso triunfo da espécie sobre a im- ponderabilidade e a volatilidade das relações, num alegre contributo. Pelo menos numa temporária aparência, todas as divergências se colocam para além do postigo e para aquém de empedernidos vernizes. Contagiando alegorias, o sorriso patrocina quem evoca e renova quem participa, resolvendo ansiosas reservas dentro e fora de cada um. Sorrir será imperiosa necessidade duma espécie sempre interiormente carecida e sempre rebuscada nas suas próprias referências e consistências. Num terceiro tempo, o sorriso converte-se num estereotipo aberto às portas do salão e fechado logo à saída, particularmente utilizado nas estações e apeadeiros das lojas de conveniência que os seres humanos se obrigaram a frequentar. De geometria variável e de focalização à me- dida, em moldes afectivos, económicos, sociais ou outros, transforma-se no esgar humedecido de bor- nais a preencher, como quem engendra compro- missos sem se querer comprometer. Facetas gloriosas ou desdenhosas ganham en- tão volume, abandonada a fluidez naturalista dos tempos infantis. Frequentemente evolui para aneu- rismas dissecantes de mentes empobrecidas, pro- tagonizando encomendas e exercitando vibrações tanto mais estampadas quanto maior for o jogo e o pedaço a presumir. Sorrir será indispensável encenação duma es- pécie sempre socialmente entretecida e sempre re- buscada nas suas próprias realizações e admirações. Esboços de sorriso aparecem desde os primei- ros dias, por norma entremeados de agitações e de choros, como reflexos neuromusculares de um bebé que se inicia. Nascidos prematuros, absolutamente depend- entes de quem os alimente e agasalhe, os primeiros verdadeirosorrisosaparecerãopelomêsemeio.Risos abertos, gargalhadas, caretas, virão a seguir, tornados importantíssimos meios de comunicação com a mãe e significativos avanços no crescimento do bebé que gostosamente se envolve, interpreta e replica. Todas as mães sabem disso e todas o esperam, sem livro de instruções, desde o Paleolítico. Todas reconhecem o que o sorriso representa para elas e para o filho, quanto lhes propicia em gostos e desgostos, seguranças e inseguranças, recusas e aceitações. E quanto através dele dão e recebem, numa adaptação progressiva aos choros e sofri- mentos que nunca acabarão de percutir. Brincar só induz parcerias porque fermenta sor- risos, incorporando emoções e presenças. Não brin- car adoece porque não relaciona sorrisos nem os distribui, incapaz de simbolismos e de integrações. Mãe e bebé têm prazer no estímulo, na respos- ta, no sinal, na partilha, na atenção, no diálogo, na experiência, na vivência, em tudo quanto sorrisos faça prosseguir. Há calor e erotismo nessa troca. Num e noutro o corpo estremece em ritmos de cintura, carícias de manipulação, balancear de extremidades, re- laxamentos tensionais, animismos em teatro, cenas de toque e retoque. Todo o Sapiens rodopia numa troca que sonoriza. É a festividade em gorjeio, a bênção que se assegura. Sorrir veicula a genuinidade duma relação, mais ainda duma relação mãe/bebé. A sua justeza e dimensão marcará tendências e desenvolvimentos. Num interesse pressentido e numa funcionalidade engalanada, assinala mere- cimentos e recompensas, objectos e objectivos, conteúdos e continentes. Sem verdadeiros sorrisos tudo se prejudica, porque os artifícios sorridentes nunca serão sorrisos. Não passam de caricaturas que atrofiam a esponta- neidadedarelação,amortecemaevoluçãodamiste- riosidade e comprimem uma afectividade deficiente à partida. As falsidades ganham corpo e os ressenti- mentos acentuam-se numa tal condição, pouco ou nada se resolvendo dos fantasmas de abandono que no horizonte sempre se levantam, nem das ameaças de um desconhecido tornado cada vez mais hostil por cada vez mais desconhecido. Resultarão depressividades mais ou menos en- cobertas, inúmeras vezes automaticamente rep- rimidas e conservadas. Não partilhar sorrisos em curta idade perturba a essência da emocionalidade. Multiplica as defesas,

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