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Zai Gezunt Nº 34

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Leia a edição Nº 34 do ZAI GEZUNT, informativo sobre língua idish.

Published in: Entertainment & Humor
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Zai Gezunt Nº 34

  1. 1. 1 INFORME MENSAL ZAI GEZUNT Ano 3 Março/ abril 2.017 N 34 O escritor An-sky² visita Ludmir No meio de angustiantes notícias sobre pogroms efetuados pelas tropas russas em sua retirada ante o ataque dos austríacos durante o início da 1ª Guerra Mundial, surge na minha farmácia um homem alto e magro, envergando uniforme de oficial sanitarista russo. Estando ocupado, ofereci-lhe uma cadeira e pedi que aguardasse. Quando me viu livre, levantou-se e estendendo a mão, falou num perfeito iídiche: —Sou An-sky e gostaria de falar consigo reservadamente. Tranquei a porta e o convidei para o laboratório, separado da área comercial. Assim que nos acomodamos, começou: — Venho da frente russa não muito distante daqui. Oficialmente exerço o cargo de oficial sanitarista do Hospital Móvel Russo. Porém também represento reservadamente o Comitê Judaico de Petersburgo para a assistência às vítimas de guerra da nossa comunidade. Em breve o exército russo, em sua retirada, passará próximo à esta cidade. Depois do que ocorreu na Galícia, as tropas estão sendo conduzidas através de localidades não habitadas por judeus. Mas deve chegar aqui uma divisão da Cavalaria Cossaca, cuja presença poderá colocar em risco não somente suas propriedades, mas até suas vidas. É sabido que somente o pagamento de um “tributo” poderá evitar uma tragédia. É necessário que formem um Fundo com dinheiro arrecadado de membros com recursos da comunidade. Eu lhes entregarei, em nome do Comitê de Petersburgo, 1.000 rublos — uma quantia elevada para a época — para iniciar o Fundo, falei com seu rabino e ele me recomendou procurar o senhor. Peço-lhe que guarde o dinheiro e me entregue um recibo para a devida prestação de contas. Afirmei que eu ainda era muito jovem e não me sentia preparado para assumir tamanha responsabilidade. Sugeri que se dirigisse a Moisés Shapiro, um homem rico e empresário competente (a quem, como soube mais tarde, ele acabou efetivamente entregando a doação). Antes de se retirar, observou: — Tenho um pedido especial para fazer. Estou coletando material referente ao Conselho dos Quatro Territórios que em tempos antigos realizou reuniões, inclusive nesta cidade. Gostaria de examinar o Pincás de sua cidade; talvez encontre nele informações a respeito. Também quero visitar o cemitério, fotografar alguns túmulos antigos, especialmente o túmulo da Donzela de Ludmir que, dizem, rezava paramentada com os filactérios, acompanhada por grande número de discípulos Hassidim. Gostaria que me fornecesse o endereço da pessoa que poderá me ajudar nessa tarefa.
  2. 2. 2 Entreguei-lhe um bilhete para Yósele Dreher³, dirigente da Chevra Kadisha (Congregação Sagrada Funerária — N.T.). Ele agradeceu e ia se despedindo, quando pedi: — Fique mais um pouco. Gostaria que me contasse o que os soldados russos fizeram nas cidades com comunidades judias na Galícia. An-sky empalideceu, lentamente voltou a se sentar e em voz abafada, murmurou:— Não me fale sobre isso. Anos atrás, em Kishinev, cheguei poucas horas após o pogrom. Aconteceram lá coisas terríveis. Mas o que vi nessas últimas semanas não sairá da minha lembrança até meu último suspiro. Olhou a parede em sua frente como se quisesse através dela, enxergar novamente lá longe os apavorantes e terríveis acontecimentos dos quais não queria falar. Suas delicadas sobrancelhas se crisparam e caiu num choro convulso. Permaneci em silêncio e pensei: Não, não é An-sky quem está chorando, não é aquele velho revolucionário calejado nos inúmeros confrontos com a polícia russa e que, preso nas mais temidas cadeias czaristas, assistiu horrores e sofrimentos. Quem está aqui sentado e chorando é Shlomo Zanvil Rapoport (seu verdadeiro nome), nascido no seio do judaísmo, que frequentou os bancos da escola religiosa e compôs para o Bund o hino socialista “O Juramento” e a romântica canção “Shlussai”, que costumávamos cantar ao entardecer dos sábados, durante os sombrios meses de inverno como se fosse uma prece, tanto era o ardor e a emoção. Os massacres causados pelos pogroms da Galícia despertaram nele a chama do amor por seus pobres irmãos. É com essa mesma emoção que chora o filho pródigo quando, após muitos anos vagando por terras estranhas, se lembra da velha mãe e volta para ampará-la em suas privações. Mas que cenas terríveis teriam assistido aqueles belos olhos que sua boca não conseguia traduzir em palavras? Tempos depois, quando li sua obra em três volumes “O Massacre dos Judeus na Galícia e Bukovina”, lembrei-me daquela manhã em meu laboratório e pude então compreender aquele pranto amargo. ¹ Pincás (‫,)פנקם‬ é uma obra coletiva de dezenas de autores e escritores de memoriais de cidades atingidas pelo Holocausto (N.T.) ² An-Sky - Shlomo Zanvil Rapoport (1863- 1920), conhecido por seu pseudônimo S. Ansky (ou An- ski), foi um importante autor, dramaturgo, e pesquisador Judeu-Russo. Autor do famoso ‘O Dibuk’ baseado numa lenda folclórica judia, que foi levado aos palcos e produzido em filme. Fez um amplo levantamento etnográfico das comunidades judias durante a 1ª guerra Mundial e reuniu fotos, gravações em rolos de cera de canções folclóricas, objetos de culto, etc. Parte foi perdida, mas outra parte se encontra no Museu Hermitage, em São Petersburgo, Rússia. ³ Yósele Dreher foi meu bisavô. [Pincás¹ Ludmir – edição e tradução do ídish por Moisés Spiguel] BRASIL 500 ANOS: A “PROSA” E O “VERSO” O texto que se segue é considerado a versão oficial do descobrimento do Brasil: Ocorreu em 22 de abril de 1500, quando a esquadra portuguesa, comandada pelo capitão mor da frota Pedro Álvares Cabral, que o rei D. Manuel enviara às Índias, alcançou terra à altura do litoral
  3. 3. 3 sul, do atual estado da Bahia. Ali se divisou uma elevação que foi chamada de Monte Pascoal, por ser Páscoa. Ao pôr do sol, Cabral fundeou a esquadra próximo à costa, na altura da foz do Rio Caí, chamando ao país descoberto de Terra de Vera Cruz. A 23 de abril, os navios se aproximaram da terra e lançaram âncoras, à distância de meia légua da costa. O capitão Nicolau Coelho foi à terra e trocou presentes com os índios. Depois as naus menores seguiram em reconhecimento da costa e fundearam a 24 de abril na Enseada da Coroa Vermelha, que veio a chamar-se Baía de Santa Cruz e depois Baía Cabrália. Os navios maiores que haviam ancorado neste dia a uma légua ao largo, reuniram- se no dia seguinte, 25 de abril aos navios exploradores. Os primeiros a saltar em terra foram Bartolomeu Dias, o capitão Nicolau Coelho e o escrivão Pero Vaz Caminha que deu a boa nova da descoberta ao rei D. Manuel, na célebre carta datada de 1 de maio de 1500. A 26 de abril foi celebrada a primeira missa no Brasil, no Ilhéu da Coroa Vermelha, na Bahia de Porto Seguro, por Frei Henrique de Coimbra. A primeiro de maio foi realizada a cerimônia da posse da terra e celebrada a Segunda missa no Brasil, em terra firme, diante de uma grande cruz de madeira plantada perto da praia. A dois de maio de 1500 Cabral continuou sua viagem para as Índias. Versão da descoberta do Brasil cantada em verso pelo músico, compositor e poeta popular, Antônio Nóbrega, de composição dele e de Wilson Freire. CHEGANÇA Sou Pataxó, Sou Xavante e Cariri, Guaraní, sou Carajá. Sou Pancarurú, Carijó, Tupinajé, Potiguar, sou Caetê Ful-ni-ô,Tupinambá Depois que os mares dividiram os continentes quis ver terras diferentes, Eu pensei: vou procurar um mundo novo, lá depois do horizonte, levo a rede balançante para no sol me espreguiçar. eu atraquei num porto muito seguro, mas de repente me acordei com a surpresa: uma esquadra portuguesa veio na praia atracar: Da Grande–nau, um branco de barba escura, vestindo uma armadura me apontou pra me pegar. e assustado dei um pulo lá na rede, pressenti a fome, a sede, eu pensei: vão me acabar. me levantei de borduna já na mão, aí, senti no coração,
  4. 4. 4 céu azul, paz e ar puro... botei as pernas pro ar. logo sonhei que estava no paraíso, onde nem era preciso dormir para se sonhar. o Brasil vai começar Os habitantes do Brasil antes de sua descoberta, eram homens de pele escura, andavam totalmente nus, despreocupados e em harmonia com a natureza. Os descobridores, gente de um povo de características europeias, dito “civilizado”, com suas vestes e armas e a procura de riquezas. O encontro das duas culturas, no início, aparentemente amistosas (trocaram presentes) era simplesmente o começo de uma relação violenta e cruel. A população nativa passou a ser vista pela ótica racista europeia, considerada de raça inferior e sub- humana, daí sua opressão ao longo dos séculos, inicialmente com escravização e domesticação e depois com massacres, genocídio e roubo de suas riquezas e de suas terras. Atualmente o que resta ainda deste povo se encontra no interior do Brasil na chamada Reserva Indígena e em alguns casos em terras ainda não demarcadas (Vide as obras da Funai) e sujeitos ainda à espoliação. O poema de Nóbrega e Freire nos sugere na primeira estrofe a existência de um grande número de tribos: Pataxó, Xavantes, Carajás, etc. indício de uma enorme população na data da descoberta e cuja língua principal falada, era o Tupi. Conforme estimativas de alguns historiadores, os indígenas no Brasil nesta época eram cerca de 4.000.000 de pessoas, dos quais restam hoje apenas, 150.000, em precárias condições de vida e com risco de desaparecimento de sua identidade cultural e social. Os índios cultivavam diversos produtos agrícolas básicos para sua alimentação. Viviam da caça e pesca bem como da fabricação de canoas, malocas e instrumentos de trabalho. Assim sobrava-lhes tempo para se espreguiçar ao sol, como sugere o poema citado e sonhar, como se estivessem no paraíso. De repente, uma surpresa: Chega uma esquadra portuguesa e desce de uma Grande Nau um indivíduo branco, de barba escura, vestido de armadura e apontando uma arma para o habitante local. O índio sentiu o drama “Estava descoberto o Brasil” Aguardem para o segundo semestre mais um programa da série “O Mundo de Scholem Aleichem”, no domingo meio dia, no teatro da Hebraica. Convidado especial, o cantor, chazan e músico Claudio Goldman interpretará o poema-diálogo de Mordco Gebirtig: Baim Taichele (Junto ao Riacho) a duas vozes. Nota: Por motivos técnicos deixou de sair a edição de março que vai incorporada ao presente número. No futuro esperamos regularizar a saída do Informe em data normal. Zai Gezunt: Edição do Grupo Amigos do Ídish. Editor: Eng. Samuel Belk EMail: belk@uol.com.br Colaborador: Eng. Moysés Worcman EMail: worcmosh@gmail.com

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