Diário de pierre louis chardin

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Diário de pierre louis chardin

  1. 1. AGRUPAMENTO DE ESCOLAS DA QUINTA DO CONDE EBI DA QUINTA DO CONDE CURSO EFA – NIVEL SECUNDÁRIO CLC UFCD 6 Caracterização Urbanística de Lisboa antes e depois do terramoto de 1755Elaborado por Maria Helena CordeiroDisciplinas CLC 1 / CLC 6Professoras: Raquel Alves / Rute GomesQuinta do Conde, 23 de Fevereiro de 2010 1
  2. 2. ÍNDICEIntrodução……………………………………………………………………………………... 3O Diário de Pierre Louis Chardin …………………………………………………………….5 Lisboa, 28 de Outubro de 1755 - 4ª feira …………………………………………. 5 Lisboa, 29 de Outubro de 1755 – 5ª feira ………………………………………… 6 Lisboa, 30 de Outubro de 1755 – 6ª Feira …………………………………………8 Lisboa, 31 de Outubro de 1755 – Sábado …………………………………………9 Lisboa, 1 de Novembro de 1755 – Manhã de Domingo ……………………….....9 O lugar, 1 de Novembro de 1755 – Tarde de Domingo …………………………10 O lugar, Novembro de 1755 – Não importa o dia nem a hora ………………….10 Do lugar onde fica a Gazeta de Lisboa, 28 de Novembro de 1755 ……………11 Lisboa, 7 de Dezembro de 1756 …………………………………………………. 12 Lisboa, 10 de Dezembro de 1756 …………………………………………………13 Lisboa, 11 de Dezembro de 1756 ……………………………………………….14 Lisboa, 7 de Junho de 1775 ……………………………………………………... 15Conclusão…………………………………………………………………………………….16Bibliografia…………………………………………………………………………………….18 2
  3. 3. INTRODUÇÃO Um Diário escreve-se depois de estar gravado nas horas passadas do autor,que se “canta” a si próprio a partir da genuína necessidade de conversar com aspalavras e com os sentimentos. Os Diários coexistem ainda com a autenticidade,podem fugir da realidade pelo dom da imaginação, dos sonhos e da literatura, masnão podem esconder-se da verdade - “Um espelho nunca mente!” Não se enfade o leitor, com o primeiro parágrafo, pois apenas pretende obterclemência e absolvição perante a mais que provável incapacidade da autora emencarnar a personagem escolhida para retratar uma época e um acontecimento quenão experimentou. No entanto, em jeito de confissão, a autora assevera que o desafiocolocado é entusiasmante porque a obrigará a viajar, a descobrir e a ultrapassar asfronteiras do tempo. Contudo, a proposta de realização deste diário, para além do seu pendor líricoe em certa medida romântico, tem um sentido objectivo que se prende com acaracterização urbanística de Lisboa do pré e pós Terramoto de 1755, o que,inevitavelmente, afectará a história contada por um sobrevivente da catástrofe, aoconceito de Urbanismo enquanto ciência que estuda a organização, o planeamento eo ordenamento das cidades e a sua evolução. Pierre Louis Chardin é o sobrevivente, o contador da História e das estóriasque se foram reconstruindo sobre as ruínas da cidade e dos seus habitantes, umacidade que tratava por tu, revendo-se, tanto na sua luminosidade como no seu ladomais obscuro. Capaz de a desenhar de olhos fechados, incapaz de viver sem oreboliço das suas gentes. Pintor e retratista da reconhecida escola francesa, nasceu em Paris a 8 deAgosto de 1709, no preciso dia em que o Padre Bartolomeu de Gusmão, sobrevoouum pedacinho do céu de Lisboa, entre a Praça de Armas do Castelo de São Jorge e oTerreiro do Paço, na sua deslumbrante “Passarola”, mais tarde retratada por JoséSaramago no romance Memorial do Convento, como quem une o tempo dos homens,desafiando noções metafísicas, experimentando a capacidade de visionar o passado,o presente e o futuro num momento, só possível, pela força de “pelo menos duas milvontades” recolhidas por Blimunda, uma mulher humilde que detinha o domextraordinário de olhar o interior das pessoas e da terra (acaso fosse real queimportância singular teria tido esta mulher nos acontecimentos do Terramoto de1755?). 3
  4. 4. Pierre Chardin descobre nos livros a relação entre o dia do seu nascimento e aarrojada experiência de Bartolomeu de Gusmão e, na primeira oportunidade, ruma aLisboa integrando um grupo de artistas francófonos contratados por D. José I, el-Reide Portugal, para aprimorar os aposentos reais e, no tempo livre concedido, procurar omelhor lugar para imaginar e pintar a “Passarola” do Padre Voador. Todavia, o destino,a modos que premonitório, traçar-lhe-á um caminho sinuoso e tectónico, onde um diadesejará verdadeiramente ter asas para poder voar.O DIÁRIO de Pierre Louis ChardinLisboa, 28 de Outubro de 1755 - 4ª feiraEu e Tu… Não sei porquê, mas até hoje, nunca senti necessidade de expressarpensamentos ou emoções através da escrita, sempre preferi pintar, a cores ou semcores, conforme a bolina tempestiva da minha vontade, rápida no traço e nainterpretação do que vejo e do que sinto. Escrever torna-se mais difícil porque mecoloca na posição de observado, invulgar num pintor. Obriga-me a expor em letras 4
  5. 5. bem desenhadas, aquilo que sempre procurei esconder de mim próprio. Dói, saberquem sou… - Não me admira a nostalgia, está cada vez mais aportuguesado!Disse-me hoje, a resoluta Maria Josefa, uma das camareiras da Rainha D. MarianaVitória (que por um acaso lisonjeiro se ocupou de mim), e continuou: - Afinal, tanto tempo e tanto trabalho para pintar a figura do Rei enamorado pelaRainha, quando na real verdade, nem se podem encostar um ao outro. Da última vezque o fizeram, foi tamanha a coscuvilhice na Corte, só porque a Rainha recomendouum banho a sua Alteza e em boa razão o fez. Mas claro, o retrato pintado por VossaSenhoria não deita cheiro e puxa pela imaginação de sua majestade. Oh, se puxa!Mais valia a Vossa Senhoria, subir ao Convento dos Jesuítas, donde se descobre acidade inteiriça e pintar todas as cores do rio. Ora vá, vá! Ficaria com o semblantebem mais aliviado. Maria Josefa… a formosa e maroteia Maria Josefa. Tão bem me conhece!Levá-la-ia comigo na viajem que nunca fiz, talvez um dia encontre a coragem para lhefalar sobre as cores da cidade onde aprendi a amar a luz e as sombras, para aconvidar a acreditar e a tomar lugar no “Pássaro Gigante” do Padre Bartolomeu deGusmão, cuja história me trouxe a Lisboa e a assentar no número sete da Rue SaintMartin sur-Seine, em Paris, onde da janela das águas furtadas, os dois, de mãosdadas e pensamentos lavados pelo respeitável rio Sena, poderíamos assistir aoespectáculo da civilização parisiense, com epicentro nos hábitos refinados e elegantesdos passeantes talvez influenciados pela majestade das ruas largas, limpas eiluminadas, pela simetria colorida dos jardins, pela moldura das Praça que convidam aficar e a observar cada monumento que ostentam. Rodeados pela beleza quedesperta os sentidos, nós, Maria Josefa, mesmo assim, teríamos saudades dadesordem e dos sons de Lisboa.Lisboa, 29 de Outubro de 1755 – 5ª feiraCheguei à procura de encontrar… Faz hoje precisamente três anos que cheguei a Lisboa. Cheguei e fiquei, numacidade que conhecia apenas de gravuras, de histórias e de conversas circunstanciais.Parti de Paris acompanhado por François Boucher e Maurice La Tour, a convite doMarquês de Pombal, ministro do reino, para dotar os interiores Palácio de Belém, 5
  6. 6. residência de verão da família real, com algumas obras artísticas que permitissem àCorte portuguesa acompanhar a modernidade. A viagem fi-la por mar a partir de Marselha, numa imponente nau de trêsmastros. À chegada, o sol, habitualmente ausente de Paris no mês de Outubro,brilhava ainda em Lisboa, o vento soprava de feição e a nau esventrou o rio que sedeixou cortar pela proa, como que a dizer “bem vindos” sugando-nos gentilmente paraa margem esquerda, deixando antever um tecido urbano confuso e matizado porpaisagens rurais. Ao fundo avistava-se um aqueduto, cujo impacto visual davaprofundidade à cidade, mas as fachadas dos prédios, viradas para o rio, devolviam àurbe o carácter ribeirinho dos seus habitantes que dele retiravam todo o seurendimento e prosperidade. Antes de pisar terra firme, procurei fixar a imagem do Tejo, irreverente,desafiador, mestiço, tão diferente do meu rio Sena, ordenado e submisso ao sentidoestético dos homens. Perante a liberdade do Tejo, lamentei o meu rio emparedado eserviçal. Já em terra, num lugar chamado de Terreiro do Paço, um moço acercou-se denós e em bom português ter-nos-á dito que estava ali para nos ajudar. Naturalmente,as poucas palavras que aprendemos durante a viajem não nos permitiram perceberexactamente o que nos disse. Então, numa sinalética agitada, encaminhou-nos paraos Estaleiros Reais, aguardámos o tempo suficiente para compreender que aquelelugar era o coração comercial e cerimonial da cidade, centrado no Palácio Real,construído mesmo em frente ao rio, ao lado da Casa da Índia, da Alfandega, e dosEstaleiros Reais, onde nos encontrávamos. Lisboa era de facto uma das mais ricascapitais da Europa, a par de Paris, Londres e Nápoles. Um grande porto quebeneficiava do refúgio proporcionado pelo estuário do Tejo, do seu fácil acesso aoAtlântico e das relações coloniais com a Ásia, África e as Américas. Naquele lugar deintenso comercio, os mercadores negociavam produtos e animais exóticos,especiarias, tecidos sumptuosos, ouro e escravos. Estávamos perante a fonte dareceita colonial portuguesa que, pese embora a riqueza por essa via adquirida, nãodissipa a imagem antiquada, habitualmente atribuída a Lisboa nos círculos artísticos efilosóficos de Paris, onde nas mentes dos pensadores iluministas, Portugal é umanação enredada no obscurantismo e para isso, muito têm contribuído os autos-de-féda Inquisição e a expiação dos condenados à fogueira e ao degredo, que têm lugar naprincipal praça de Lisboa. 6
  7. 7. Com os pensamentos confundidos e enfeitiçado pelo movimento das gentes,não me apercebi da presença do ministro do reino que se escusava pelo atraso,cumprimentou-nos num francês perceptível, mas pouco entusiasmado, pois eraconhecida a sua preferência pela língua portuguesa, bem como, pelos artesãos eartistas nacionais. Dirigimo-nos a um coche com as armas reais, onde cada um seaconchegou junto às janelas. À voz do cocheiro, incitados pelo chicote, os cavalosiniciaram em marcha branda a minha primeira e última viagem ao lado de SebastiãoJosé de Carvalho e Melo, o Marquês de Pombal. Agradado em nos dar a conhecer a cidade, o Marquês dera ordens paratomarmos o caminho mais longo até ao Palácio de Belém, lugar onde iríamos assentarnos próximos anos. Procurava distrair-nos dos aspectos mais insalubres da cidade, dasujidade das ruelas estreitas e dos becos desordenados e escuros, onde se situavamdiversas lojas de mercadorias e retalhistas, construídos sob solo aluvial entre colinasíngremes e na parte oriental, sob os muros da velha cidadela do Castelo de S. Jorge.Elevava o braço e ia apontando o Convento do Carmo, o vizinho Convento daTrindade, a Catedral e os demais nobres edifícios da cidade até chegarmos a umalarga praça pública chamada Rossio, localizada mais para o interior norte da cidade.No essencial, o Marquês explicava que entre o Terreiro do Paço e o Rossio, havíamospercorrido uma área que os lisboetas designavam de “baixa” e que constituía atradição árabe - medieval da cidade: - Lisboa está em franca expansão para Ocidente, todos os dias chegam novoshabitantes, estima-se uma população entre 160 000 e 200 000 mil pessoas, o que nostraz preocupação. Explicou o Primeiro-Ministro, acrescentando: - De certo repararam no Aqueduto, o mais notável do Reino de Portugal.Visitem-no de perto quando Vos aprouver. A sua construção iniciada no ano de 1729levou vinte anos a concluir e a resolver parte do problema de abastecimento de água.Há que reconhecer o muito que os Romanos nos ensinaram sobre a arte de construiruma cidade. Roma foi a primeira cidade planeada com rede de águas públicas, redede esgotos, edifícios culturais, políticos e religiosos, ruas largas em torno de praçascentrais, nesta matéria, meus caros, como podem ver, Lisboa está francamenteatrasada. Para Vos dizer a verdade, só mesmo uma revolução. Fez um sinal circular com o dedo e o cocheiro retrocedeu, rumámos à margemdo rio, desta feita pelo lado mais ocidental, para onde a cidade continuava a expandir-se e onde se situavam muitos edifícios religiosos e os Palácios da aristocracia de 7
  8. 8. estilo barroco e maneirista. Dirigimo-nos para o Palácio de Belém, onde logo noprimeiro dia te conheci, Maria Josefa.Lisboa, 30 de Outubro de 1755 – 6ª Feira Maria Josefa, tenho 46 anos, casei-me com os meus hábitos – pintar,desenhar, ler, conversar, viajar, discutir, comer e beber. Mas, desde que cheguei aLisboa sinto que me espera algo ou alguém. Contudo, passados três anos continuo aviver e conviver quase exclusivamente com os meus hábitos: Pintei um retratoromântico de el-Rei, cumpri a promessa de desenhar a “Passarola” de Bartolomeu deGusmão, cuja imagem encontrei na Real Biblioteca. Li todas as obras de Gil Vicenteque aí encontrei e todos os livros da tua preferência, conversei em francês, inglês,italiano e finalmente em bom português. Levei-te comigo a Mafra, onde Portugalenterra o ouro do Brasil, num imponente e magnânimo Convento. Discuti, comi e bebique baste, mas quase nunca contigo. Neste final de dia escrevo junto à janela de umquarto confortável, aquecido e iluminado. Nada igual ao lugar onde fomos hoje, ondetodos os dias deixas um pouco de ti, onde vivem os teus pais, os teus irmãos, os teusamigos, numa ruela com pouco mais de três metros de largo, escura e húmida, igual atantas outras, com o cheiro próprio dos animais que vagueiam livremente,aproveitando-se do lixo doméstico deitado para a rua e das mulas dos aguadeiros quese encontram presas a argolas de ferro forjado e ali permanecem comendo e bebendodo que lhes dão e, por força da natureza, enchendo as ruas de excrementos queninguém limpa. Entrámos numa casa construída em pedra e barro, de janelaspequenas e uma porta estreita e baixa por onde entrei curvado e curvado fiquei dentrode um pequeno quarto que tinha de altura menos 10 cm que eu. A tua mãe chegou-meprovidencialmente uma cadeira e serviu-me numa malga um delicioso vinho,semelhante ao que serviam no Palácio e tu, maroteia, piscaste-me o olho. Levaste-medepois pelas Portas de Santo Antão e subimos ao Alto de Santa Catarina, dondemirámos o rio horas sem fim, sem dizer uma palavra até que te prometi: – Amanhã, vamos à Ópera!Lisboa, 31 de Outubro de 1755 – Sábado O Teatro da Ópera do Tejo, um edifício sumptuoso, decorado a branco edourado, resultado da genialidade de Giovanni Bibiena, membro de uma prestigiadafamília de arquitectos e cenógrafos teatrais e da paixão do Rei pela música, foi 8
  9. 9. inaugurado com pompa e circunstância a 2 de Abril de 1755, durante ascomemorações do aniversário da Rainha. A sala com 60 m de comprimento 32,40 mde altura 38 camarotes e 600 lugares na plateia, recebeu-nos às 19 horas para assistirao espectáculo em Cartaz “ A destruição de Tróia”. Entraste no adro principaldeslumbrante e ficaste deslumbrada. O brilho que trazias no rosto inundou a Plateia esubiu aos Camarotes, donde altaneiras, as damas aristocratas nos miravam porbinóculos importados de Paris, tentando adivinhar razões e porquês sobre nós.Inevitavelmente, entre nós, esta noite voltou a acontecer – deste-me a mão e eutomei-ta para te salvar do drama e da destruição que passava no palco. Foi a segundavez que te ancoraste a mim, a primeira aconteceu num daqueles momentos em que telia Gil Vicente, porque gostavas e tinhas paciência para moderar o meu portuguêsincorrecto. Nesse serão, lia-te uma carta de Gil Vicente endereçada ao Rei D. João III,sobre um Terramoto de grandes dimensões que presenciara em Santarém a 26 deJaneiro de 1531 e sobre o modo como os pregadores justificaram o sucedido, comosendo castigo divino, amedrontando as populações já por si aterrorizadas peladestruição e pela morte.Serviu-te a minha mão para te protegeres da destruição e da ira de Deus. Serviu-me acarta para me acalmar o receio de te perder. Para que voltes a dar-me a mão vou, intencionalmente, falar-te da destruiçãoda mítica Atlântida, das bíblicas cidades de Sodoma e Gomorra e ainda de Pompeia.Lisboa, 1 de Novembro de 1755 – Manhã de Domingo Hoje é Dia de Todos os Santos. Levantou-se a criadagem de madrugada paraque o Palácio Real tornasse à vida mais cedo que o costume. D. José decidiu fazer-seacompanhar da sua Corte e hóspedes permanentes, entre os quais me encontro, paraassistir ao primeiro dos muitos serviços religiosos que hoje vão decorrer. Fui aindainformado que era intenção de el-rei passar o feriado no Palácio de Santa Maria deBelém de modo a cumprir um desejo das princesas e que se o quisesse podiaigualmente acompanhá-los. Agradeci o convite e pedi licença para que me fosseconcedida a graça de aproveitar o dia em afazeres ligados ao meu ofício, uma vez quetencionava registar em gravuras algumas das tradições religiosas do povo lisboeta. ORei achou pertinência nas minhas intenções e assim vejo-me a guardar a pena, otinteiro e as poucas folhas do meu diário, na mesma mala onde guardo as minhasgravuras e assim carregado, acompanho o Rei à primeira missa do dia. 9
  10. 10. O lugar, 1 de Novembro de 1755 – Tarde de Domingo“Salvei-me por um visível milagre da mão omnipotente!” Não tenho nem palavras, nem cores para pintar o que vejo e o que sinto! Umamulher moribunda entendeu-me o braço, não se queria salvar, queria apenas a minhamão. Chamava-se Maria Josefa e tinha pedido à rainha a graça de ficar em Lisboadepois da missa.O lugar, Novembro de 1755 – Não importa o dia nem a hora. Naquele dia, 1 de Novembro de 1755, uns vinte minutos depois das 9 horas,estava eu defronte à Basílica de São Paulo, a desenhar o movimento dos fiéis, quandose deu o primeiro e forte abalo e outros que se seguiram igualmente aterradores quecausaram fissuras gigantescas e fizeram desmoronar edifícios que nos pareciameternos. O desespero e a dependência da providência divina eram totais: um homemtentava escapar e assim cavava a sua própria sepultura; o filho caindo com o paimoribundo na cova; a mãe com o bebé nos braços e os filhos acolhendo-se a ela, osgritos; o espesso fumo; as pessoas fugindo; pessoas paradas apenas esperando amorte. Quando retomei o expediente era tanta a poeira que impedia a vista a duasbraçadas de distância; só passados alguns minutos a dita poeira se foi dissipando.Sem perder tempo acompanhei a multidão até ao largo mais próximo, seguimos até àbeira-mar, onde nos julgávamos mais seguros. Mas pouco depois de ali termoschegado, gritou-se que o rio saía furiosamente dos seus limites: facto que redobrou onosso pavor, obrigando-nos a retroceder pelo mesmo caminho até um descampadodonde se descobria a cidade por todos os lados, a qual, ao anoitecer, apresentou àvista o mais horrível espectáculo das chama que a devoravam cujo clarão alumiava,como se fosse dia. Naquele dia percebi o meu encanto pela Máquina Voadora do PadreBartolomeu, a necessidade quase visceral de ter asas para voar, de tal forma me sentiamputado de membros que nunca poderia ter. Se os tivesse, não teria levado tantotempo a chegar junto a ti e a minha mão ter-te-ia salvo ou teria morrido contigo. 10
  11. 11. O caminho para te encontrar foi demorado, tive de o inventar, nem mesmo osmais versados na cidade conheciam os sítios que pisavam, confundidos pela visãoapocalíptica que a destruição absurda propagava aos cinco sentidos. A cidade ficoureduzida a um horroroso deserto, em que não se viam mais que montes de pedras ecúmulos de cinzas, ficando somente as paredes levantadas, denegridas pelo fogo,ruínas do que outrora foram ruas povoadas de gente e de vida. Nada poderá voltar aser como antes.Do lugar onde fica a Gazeta de Lisboa, 28 de Novembro de 1755 A Gazeta de Lisboa foi dos poucos edifícios que não sofreu qualquer tipo dedestruição, por isso continuaram a publicar-se diariamente notícias e gravuras sobre acatástrofe e sobre as primeiras movimentações para repor organização no caosinstalado. Como tantos outros, fui convocado pelo Primeiro Ministro para tomar partenas inúmeras tarefas que não podiam esperar. Naquelas circunstâncias, o que sepoderia exigir a um artista não seria muito diferente do que ao mais comum dossobreviventes, por isso, participei em tudo o que me foi pedido até ter fixado actividadena Gazeta como desenhador. Trabalho num local, onde todos os dias chegam relatosdo sucedido, todos os dias registo em gravura a veracidade desses relatos. E matériajornalística não falta; o Terramoto terá feito mais de 100 mil mortos; das 20 milhabitações da cidade, apenas cerca de 3000 ficaram habitáveis; a Biblioteca Régia e oArquivo Real não foram poupados à destruição, desapareceram cerca de 70 milvolumes e centenas de obras de arte, documentos relativos à exploração oceânica eoutros documentos antigos também foram perdidos, como os registos históricos dasviagens de Vasco da Gama e Cristóvão Colombo, contudo, muitos documentos foramsalvos pela honrosa atitude do velho guarda-mor das escrituras da Torre do Tombo,que no meio da debandada geral da população conseguiu fazer-se obedecer e retirartodo o recheio do arquivo nacional da torre que ameaçava ruir a qualquer momento eo fez colocar no centro da parada do Castelo de São Jorge.“A Gazeta serve ainda de amontoado de notícias, muitas vezes sem qualquer desejode continuidade, de pedaços do que pode sobreviver da memória dos homens e doseu discurso – como se o sacudido da frase jornalística quisesse corresponder aosabalos da terra.” Por vezes, guardo no meu diário, laivos dessa memória: “ (…) O caminhante, imóvel, assombrado, ou ignorante, 11
  12. 12. Quando nelas por ambas perguntava, Nem já Lisboa, ou Santarém achava.”Lisboa, 7 de Dezembro de 1756Voltei a abrir o meu diário, escolhi uma qualquer página em branco, só para registarque hoje é o meu último dia de trabalho na Gazeta, pois começaram a surgir osprimeiros trabalhos artísticos nos edifícios em construção. As tarefas que me esperamvão ser muitas e são muitos os que foram chamados ao mesmo serviço. O Ministro e oRei contrataram dezenas de arquitectos e engenheiros e, em menos de um ano, jánão se encontram em Lisboa ruínas e os trabalhos de reconstrução vão adiantados. ORei deseja uma cidade nova e ordenada, com grandes praças e avenidas largas erectilíneas, à semelhança da minha cidade natal. Muitos têm questionado para queservem ruas tão largas, invariavelmente, o Marquês responde vaticinando que um diaas acharão pequenas. Tal como o rei, o Marquês do Pombal sobreviveu ao Terramoto, mas omonarca ficou com fobia a recintos fechados e continua a viver na zona de Belém,numa luxuosa tenda, denominada Real Barraca da Ajuda. Aliás, o rei aparenta muitasoutras fobias e inseguranças, contudo, à excepção de algumas famílias aristocratas eda Companhia de Jesus, é unânime o reconhecimento de que escolheu muito bem oseu Primeiro Ministro, um homem enérgico e pragmático que no próprio dia doTerramoto se mostrou inabalável perante uma catástrofe que pôs tudo em causa. Asua primeira ordem foi clarividente – “Enterram-se os mortos e cuidam-se dos vivos”,Depois seguiram-se de forma ininterrupta inúmeras indicações que para além dosdestinatários oficiais, chegavam com oportunidade à Gazeta para que delas se dessenotícia, como por exemplo, um oficio ao Marques do Alegrete, presidente do Senadoda CM de Lisboa, autorizando-o a recorrer ao pessoal e material militares para acudirà emergência; Uma ordem para procurar o cadáver do Embaixador de Espanha. Nosdias seguintes ao Terramoto foram inúmeros os ofícios sobre todos os assuntos:enterramentos; medidas contra a peste; organização de equipas de bombeiros;alojamento das religiosas; abastecimento da capital; repressão dos latrocínios;proibição de saída da população ou a requisição de tendas de campanha. 12
  13. 13. Lisboa, 10 de Dezembro de 1756 Passei o dia na Tenda Real, numa visita de trabalho destinada a vários artistase artesãos, onde tive oportunidade de conhecer os planos de reconstrução de váriosbairros da Cidade. Das cinco hipóteses apresentadas pelo Engenheiro-mor do reino,Manuel da Maia, foi aprovada a reconstrução de raiz da parte baixa da cidade,aproveitando o “entulho” para regularizar o terreno, sob a proposta de urbanizaçãoapresentada pelo Arquitecto Eugénio dos Santos. Na planta há três ruas principais quepartem do Terreiro do Paço: a Rua do Ouro e a Rua Augusta a terminar no Rossio; aRua da Bela Rainha (Rua da Prata) a finalizar na Praça da Figueira. A partir do Rossioe da Praça do Comércio está prevista uma malha urbana constituída por ruaslongitudinais e transversais, em que os arruamentos secundários assumem asdesignações de grupos profissionais (sapateiros, douradores, correeiros, etc.) ou deinspiração religiosa (S. Julião, S. Nicolau, etc.). Está ainda previsto o melhoramentodos acessos ao Bairro Alto, suavizando-se a inclinação da Rua da Misericórdia e daRua do Carmo. Não foram esquecidos os espaços públicos, os largos, as praças, oschafarizes, os espaços ajardinados, o saneamento básico e os banhos públicos. Aspropostas para as novas habitações incorporam um sistema construtivo anti-sísmicoconstituído por madeira e ligado por elementos de ferro designado por “gaiola” eapresentam a elevação das paredes laterais acima do nível dos telhados comosegurança contra incêndios. Os prédios terão a mesma simetria de portas, janelas e amesma altura, a maioria de três pisos, alguns com um quarto piso denominado “águasfurtadas”. As fachadas estão hierarquizadas de acordo com a importância concedidaàs ruas (principais ou secundárias) apresentando uma certa sistematização depadrões, sem grandes preocupações de perfeição estética, valorizando os aspectosfuncionais de acordo com as necessidades. Uma arquitectura civil de maiores proporções entregue à iniciativa departiculares faz igualmente parte das ideias de Manuel da Maia. O que se justificapelos inúmeros palácios da antiga Lisboa que foram destruídos, contudo, o engenheiroreferiu as dificuldades em cumprir na totalidade esta parte do Plano, uma vez que anobreza tem demonstrado dificuldades económicas para proceder à reconstrução dosseus palácios de acordo com o planeado. Já o levantamento de novas igrejas deveráseguir a tradição setecentista a enquadrar no restante processo de reedificação deLisboa, em muitos casos as igrejas estão obrigadas a alinhar pela altura dos demaisprédios. 13
  14. 14. Fiquei fascinado pela ideia inovadora da construção anti-sísmica. Amanhãvoltarei à Tenda Real para melhor compreender a sua estrutura e os materiaisutilizados. O arquitecto prometeu-me alguns desenhos que com agrado juntarei aomeu diário.Lisboa 11 de Dezembro de 1756O arquitecto é um homem de palavra!Lisboa, 7 de Junho de 1775 Ao longo dos últimos 20 anos, fiz por guardar omeu diário em parte incerta. Sepultei a minha vontade de escrever, junto do meu 14
  15. 15. primeiro amor, debaixo dos escombros das Portas de Santo Antão. Mas nãoabandonei totalmente as minhas confissões. No meu diário fui de quando em vezdepositando um artigo da Gazeta, um ou outro aviso régio, uma ou outra gravura dareconstrução da cidade, palavras mudas, como se contigo estivesse a falar, emsilêncio. Regresso a França, pelo mesmo cais que me viu chegar, contudo, de pé noconvés do barco que me levará até Marselha, o cais não me parece o mesmo e Lisboamantém apenas uma outra semelhança com a que encontrei em 1752. A mesmavivacidade, o mesmo Castelo de São Jorge, o mesmo Aqueduto inabalável, todavia,as ruínas visíveis do Convento do Carmo mantém-se como uma sombra sobre aCidade - A Tua Sombra. Ontem o rei fez 61 anos e em sua honra inaugurou-se uma grande estátuaequestre que, de acordo com os planos da cidade nova, foi colocada no centro daPraça do Comércio, a quem todos continuam a chamar Terreiro do Paço. É certo quea construção da Praça está ainda muito atrasada, do lado oriental ainda só existe otorreão da Alfândega; do lado ocidental apenas metade dos edifícios estão de pé, oarco que irá centrar-se no lado norte da Praça ainda não está construído, todavia, oMarquês ordenou completar o que faltava com um enorme cenário em alvenaria emadeira a fingir mármore. Três mil e duzentos operários trabalharam dia e noite paraque tudo nos parecesse concluído. O rei e a família real estiveram ausentes dacerimónia. Ausências fictícias porque não resistiram à curiosidade e viram tudo doTorreão da Alfândega. Os festejos irão durar 3 dias e os Regimentos fecharam asentradas da baixa para evitar a presença de gente miserável.Sem a menor dúvida, é chegada a minha hora de partir…CONCLUSÃOO Terramoto de Lisboa constituiu uma autêntica “revolução” que, em primeirainstância, teve como protagonista a força implacável e imprevisível da natureza, daí 15
  16. 16. resultando a transfiguração urbanística da cidade de Lisboa e um enorme impactopolítico e socioeconómico na sociedade portuguesa do Século XVIII.Neste contexto, a reconstrução de Lisboa assume um significado mais político e socialdo que propriamente artístico, embora este último não possa ser menosprezado, umavez que nela participaram quase todos os vultos das artes de Portugal, estando aindana origem dos primeiros estudos científicos sobre os efeitos de um terramoto,marcando assim o nascimento da moderna sismologia. Lisboa, há época da catástrofe, era uma das mais ricas e prósperas capitais daEuropa, contudo, convivia com inúmeros problemas decorrentes da elevada densidadepopulacional, sem a melhor correspondência em infra-estruturas. Uma das carênciasmais problemáticas era a inexistência de saneamento básico e de rede de distribuiçãode água. O lixo doméstico e os detritos eram lançados na via pública. A arquitecturados edifícios, o emaranhado de ruas e ruelas acentuavam a imagem desordenada dacidade e deixavam antever a própria desorganização do Estado. Os conceitos racionalistas, geométricos e práticos utilizados na urbanização danova cidade, não só a transformaram do ponto de vista estético, aproximando-a datendência iluminista de Paris, como permitiram pela mão de um ministro omnipotente aimplementação de políticas que influenciaram e impuseram comportamentos sociaisna população, sobretudo, no seio da nobreza e do clero em deferência ao poderabsoluto do rei, sem tolerância a qualquer desvio ou a qualquer laivo de protagonismo(os edifícios não podiam ostentar qualquer referência exterior ao estatuto dos seusproprietários / as novas Igrejas deviam alinhar pelos prédios envolventes). As transformações sociais e económicas associadas aos novos conceitosurbanísticos ultrapassaram as fronteiras da capital e o dinamismo transformadorestendeu-se a todo o reino: criaram-se as companhias das Vinhas do Alto Douro a doGrão-Pará e Maranhão; protegeu-se a agricultura, a fábrica das sedas em Lisboa, asde lanifícios da Covilhã, Fundão a Portalegre; a fábrica de vidros da Marinha Grande;reformou-se a Universidade de Coimbra animaram-se as artes, restabeleceram-senovas manufacturas; deu-se a liberdade aos índios do Brasil; acabou-se com adiferença entre cristãos novos e cristãos velhos; atendeu-se à instrução popularcriando escolas em todas as vilas do reino. Criou-se também o Real Colégio dosNobres; protegeu-se muito o comércio, obrigando as casas inglesas do país a teremsó empregados portugueses; restringiu-se o poder da Inquisição; fundou-se aImpressão Régia, hoje Imprensa Nacional. 16
  17. 17. Tratando-se de um trabalho sobre o tema do Urbanismo e sobre a forma comoesta ciência prática está intimamente ligada às tendências do pensamento filosófico,cultural, artístico e económico, influenciando-se mutuamente ao longo dos respectivosprocessos evolutivos, parece-me pertinente atribuir à reformulação urbana da Praçado Comércio o paradigma do encontro entre o passado absolutista e a modernidadepré-iluminista característica do século XVIII e da personalidade controversa doMarquês de Pombal, senão vejamos, o nome da Praça e as actividades aídesenvolvidas incorporam a segunda tendência e a estátua do Rei D. José , colocadano centro da Praça mantém o entusiasmo e a exaltação ao poder absoluto do Rei, tãopróximo do elemento central do urbanismo francês e das Praças Reais europeias queiniciarão um percurso em sentido oposto após a Revolução Francesa do final doséculo.BIBLIOGRAFIAHelena Carvalho Buescu & Gonçalo Cordeiro. O Grande Terramoto de Lisboa. FicarDiferente. Fundação Cidade de Lisboa: Gradiva 17
  18. 18. José Hermano Saraiva. História de Portugal. 1640 – Actualidade. Edição de Selecçõesdo Reader’s Digest, SARL: Publicações AlfaNotas sobre o Palácio Nacional de Belém http://pt.wikipedia.org/wiki/Pal%C3%A1cio_Nacional_de_Bel%C3%A9mNotas sobre a reconstrução da Cidade de Lisboa e sobre o Terramoto http://revelarlx.cm-lisboa.pt/gca/?id=142Página do Livro de Óbitos da Freguesia de São José http://www.jf-sjose.pt/slpage.php?page=33Notas sobre o Marquês de Pombal http://pt.wikipedia.org/wiki/Marqu%C3%AAs_de_PombalNotas sobre Gaiola Pombalina http://www-ext.lnec.pt/LNEC/DE/NESDE/divulgacao/gaiol_const_sism.htmlImagens http://images.googles.pt Lisboa antes do Terramoto Lisboa depois do Terramoto Lisboa Pombalina Passarola de Bartolomeu de Gusmão Naus Portuguesas 18

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